Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  O Gaúcho (José De Alencar)  Voltar

O Gaúcho

José de Alencar

Que significa este nome — Sênio — no frontispício de livros que vozes benévolas da imprensa já atribuíram a outrem?
Cada um fará a suposição que entender.

Era preciso um apelido ao escritor destas páginas, que se tornou um anacronismo literário. Acudiu esse que vale o outro e tem de mais o sainete da novidade.

Porventura escolhendo aquela palavra, quis o espírito indicar que para ele já começou a velhice literária, e que estes livros não são mais as flores da primavera, nem os frutos do outono, porém sim as desfolhas do inverno?
Talvez.

Há duas velhices: a do corpo que trazem os anos, e a da alma que deixam as desilusões.

Aqui, onde a opinião é terra sáfara, e o mormaço da corrupção vai crestando todos os estímulos nobres; aqui a alma envelhece depressa. E ainda bem! A solidão moral dessa velhice precoce é um refúgio contra a idolatria de Moloch.

10 de novembro de 1870.

LIVRO PRIMEIRO

O PEÃO

I
O PAMPA

Como são melancólicas e solenes, ao pino do sol, as vastas campinas que cingem as margens do Uruguai e seus afluentes!
A savana se desfralda a perder de vista, ondulando pelas sangas e coxilhas que figuram as flutuações das vagas nesse verde oceano. Mais profunda parece aqui a solidão, e mais pavorosa, do que na imensidade dos mares.

É o mesmo ermo, porém selado pela imobilidade, e como que estupefato ante a majestade do firmamento.

Raro corta o espaço, cheio de luz, um pássaro erradio, demandando a sombra, longe na restinga de mato que borda as orlas de algum arroio. A trecho passa o poldro bravio, desgarrado do magote; ei-lo que se vai retouçando alegremente babujar a grama do próximo banhado.

No seio das ondas o nauta sente-se isolado; é o átomo envolto numa dobra do infinito. A âmbula imensa tem só duas faces convexas, o mar e o céu. Mas em ambas a cena é vivaz e palpitante. As ondas se agitam em constante flutuação; têm uma voz, murmuram. No firmamento as nuvens cambiam a cada instante ao sopro do vento; há nelas uma fisionomia, um gesto.

A tela oceânica, sempre majestosa e esplêndida, ressumbra possante vitalidade. O mesmo pego, insondável abismo, exubera de força criadora; miríades de animais o povoam, que surgem à flor d’água.

O pampa ao contrário é o pasmo, o torpor da natureza.

O viandante perdido na imensa planície, fica mais que isolado, fica opresso. Em torno dele faz-se o vácuo: súbita paralisia invade o espaço, que pesa sobre o homem como lívida mortalha.

Lavor de jaspe, embutido na lâmina azul do céu, é a nuvem. O chão semelha a vasta lápida musgosa de extenso pavimento. Por toda a parte a imutabilidade. Nem um bafo para que essa natureza palpite; nem um rumor que simule o balbuciar do deserto.

Pasmosa inanição da vida no seio de um alúvio de luz!
O pampa é a pátria do tufão. Aí, nas estepes nuas, impera o rei dos ventos. Para a fúria dos elementos inventou o Criador as rijezas cadavéricas da natureza. Diante da vaga impetuosa colocou o rochedo; como leito de furacão estendeu pela terra as infindas savanas da América e os ardentes areais da África.

Arroja-se o furacão pelas vastas planícies; espoja-se nelas como o potro indômito; convole a terra e o céu em espesso turbilhão. Afinal a natureza entra em repouso; serena a tempestade; queda-se o deserto, como dantes plácido e inalterável.

É a mesma face impassível; não há ali sorriso, nem ruga. Passou a borrasca, mas não ficaram vestígios. A savana permanece como foi ontem, como há de ser amanhã, até o dia em que o verme homem corroer essa crosta secular do deserto.

Ao pôr do sol perde o pampa os toques ardentes da luz meridional. As grandes sombras, que não interceptam montes nem selvas, desdobram-se lentamente pelo campo fora. É então que assenta perfeitamente na imensa planície o nome castelhano. A savana figura realmente em vasto lençol desfraldado por sobre a terra, e velando a virgem natureza americana.

Essa fisionomia crepuscular do deserto é suave nos primeiros momentos; mas logo após ressumbra tão funda tristeza que estringe a alma. Parece que o vasto e imenso orbe cerra-se e vai minguando a ponto de espremer o coração.

Cada região da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime o cunho da originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ela gera e nutre aquela seiva própria; e forma assim uma família na grande sociedade universal.

Quantos seres habitam as estepes americanas, sejam homem, animal ou planta, inspiram nelas uma alma pampa. Tem grandes virtudes essa alma. A coragem, a sobriedade, a rapidez são indígenas da savana.

No seio dessa profunda solidão, onde não há guarida para defesa, nem sombra para abrigo, é preciso afrontar o deserto com intrepidez, sofrer as privações com paciência, e suprimir as distâncias pela velocidade.

Até a árvore solitária que se ergue no meio dos pampas é tipo dessas virtudes. Seu aspecto tem o que quer que seja de arrojado e destemido; naquele tronco derreado, naqueles galhos convulsos, na folhagem desgrenhada, há uma atitude atlética. Logo se conhece que a árvore já lutou à sua nutrição. A árvore é sóbria e feita às inclemências do sol abrasador. Veio de longe a semente; trouxe-a o tufão nas asas e atirou-a ali, onde medrou. É uma planta emigrante.

Como a árvore, são a ema, o touro, o corcel, todos os filhos bravios da savana.

Nenhum ente, porém, inspira mais energicamente a alma pampa do que o homem, o gaúcho. De cada ser que povoa o deserto, toma ele o melhor; tem a velocidade da ema ou da corça; os brios do corcel e a veemência do touro.

O coração, fê-lo a natureza franco e descortinado como a vasta coxilha; a paixão que o agita lembra os ímpetos do furacão; o mesmo bramido, a mesma pujança. A esse turbilhão do sentimento era indispensável uma amplitude de coração, imensa como a savana.

Tal é o pampa.

Esta palavra originária da língua quíchua significa simplesmente o plaino; mas sob a fria expressão do vocábulo está viva e palpitante a idéia. Pronunciai o nome, com o povo que o inventou. Não vedes no som cheio da voz, que reboa e se vai propagando expirar no vago, a imagem fiel da savana a dilatar-se por horizontes infindos? Não ouvis nessa majestosa onomatopéia repercutir a surdina profunda e merencória da vasta solidão?
Nas margens do Uruguai, onde a civilização já babujou a virgindade primitiva dessas regiões, perdeu o pampa seu belo nome americano. O gaúcho, habitante da savana, dá-lhe o nome de campanha.

II
O VIAJANTE

Corria o ano de 1832.

Na manhã de 29 de setembro um cavaleiro corria a toda brida pela verde campanha que se estende ao longo da margem esquerda do Jaguarão.

Deixara o pouso pela alvorada e seguia em direção ao nascente. Para abreviar a jornada, se desviara da estrada, e tomara por meio dos campos, como quem tinha perfeito conhecimento do lugar.

Não o detinham os obstáculos que porventura encontrava em sua rota batida, mas não trilhada. Valados, seu cavalo morzelo os franqueava de um salto, sem hesitar; sangas e arroios atravessava-os a nado, quando não faziam vau.

Era o cavaleiro moço de 22 anos quando muito, alto, de talhe delgado, mas robusto. Tinha a face tostada pelo sol e sombreada por um buço negro e já espesso. Cobria-lhe a fronte larga um chapéu desabado de baeta preta. O rosto comprido, o nariz adunco, os olhos vivos e cintilantes davam à sua fisionomia a expressão brusca e alerta das aves de altanaria. Essa alma devia ter o arrojo e a velocidade do vôo do gavião.

Pelo traje se reconhecia o gaúcho. O ponche de pano azul forrado de pelúcia escarlate caía-lhe dos ombros. A aba revirada sobre a espádua direita mostrava a cinta onde se cruzavam a longa faca de ponta e o amolador em forma de lima.

Era cor de laranja o chiripá de lã enrolado nos quadris, em volta das bragas escuras que desciam pouco além do joelho. Trazia botas inteiriças de potrilho, rugadas sobre o peito do pé e ornadas com as grossas chilenas de prata.

O morzelo, cavalo grande e fogoso, não tinha bonita estampa. Vinha arreado à gaúcha; as rédeas e o fiador mostravam guarnições de prata; eram do mesmo metal os bocais dos estribos à picaria e o cabo do rebenque de guasca, preso ao punho da mão direita.

Na anca do animal enrolava-se o laço abotoado à cincha, e do lado oposto os fiéis das bolas retovadas de couro, que descansavam no lombilho de um e outro lado. Pela perna esquerda do cavaleiro descia a ponta da lança gaúcha, cuja haste presa à carona apoiava-se de revés no flanco do animal.

Quem não conhecesse os costumes da província do Rio Grande do Sul, suporia que esse cavaleiro ia naquela desfilada correr alguma rês no campo; ou fazer uma excursão a qualquer charqueada próxima. Mas as pessoas vaqueanas reconheceriam à primeira vista um viajante à escoteira.

Com efeito, ao lado do gaúcho galopavam relinchando três cavalos, qual deles mais lindo e garboso; porém nenhum tão valente e brioso como o morzelo, que os distanciava a todos, apesar de montado; e não era animal que precisasse ser advertido pelo roçar das chilenas.

Estava fresca a manhã. Em setembro ainda reina o inverno na campanha; e nesse dia soprava o minuano, vento glacial, que desce dos Andes. Apesar do sol que dardejava em um céu límpido e azul, o frio cortava.

Depois de algum tempo de marcha, avistou o gaúcho no meio do campo o rancho de um posteiro, que assim chamam nas estâncias os vaqueiros incumbidos de guardar o gado solto. Encontram-se destas choupanas de distância em distância pela extensão dos grandes pastos.

O viajante botou o animal para o rancho.

Pela porta aberta via-se no interior um homem deitado no chão sobre um pelego, e um fogo a arder no fundo.

— Olá, amigo, Deus o salve!
— Para o servir, respondeu o posteiro virando-se de bruços e levantando a cabeça.

— Sabe-me dizer se o coronel estará em Jaguarão?
— Homem, deve estar.

— Então não sabe com certeza?
— Até anteontem lá estava. Mas de um momento para outro pode ser preciso em outra parte. Ainda mais agora que os castelhanos aí andam na fronteira, fazendo das suas.

Abrindo o ponche, o gaúcho tirara da guaiaca, espécie de bolsa de couro atada à cinta, um cigarro de palha e o preparava com a destreza de fumista consumado.

— Bem; antes da noite saberei, disse tirando lume do fuzil.

Entretanto o peão, erguendo-se do pelego, se aproximara da porta e olhava com atenção para o viajante.

— A modo que estou conhecendo ao senhor? acudiu ele.

— Pode ser, chamo-me Manuel Canho, para o servir.

— Outro tanto; Francisco da Graça, mas todos me conhecem por Chico Baeta, um seu criado. Seu nome não me é estranho. Manuel Canho... De Ponche-Verde?
— Isso mesmo.

— Bem dizia eu. Agora me alembro; foi em umas corridas no Alegrete, há coisa assim como dois anos a esta parte. O senhor não esteve lá?
— Fui um dos que correram.

— Bem sei; e ganhou aos vencedores. Pois é isso, que eu tinha cá na idéia. E querem ver?
Proferindo estas palavras, o Chico Baeta afastou-se do morzelo para melhor examiná-lo.

— Não há dúvida. Foi este o moço?
— É verdade!
— Eh pingo! exclamou o peão, dando com entusiasmo uma palmada na anca do animal.

Só compreenderá a energia da exclamação do Chico Baeta quem souber que pingo é o epíteto mais terno que o gaúcho dá a seu cavalo. Quando ele diz “meu pingo” é como se dissesse meu amigo do coração, meu amigo leal e generoso.

— Que faísca! Sr. Manuel Canho. Enquanto os outros ginetes, e os havia de fama, levantavam a poama na quadra, cá o morzelinho fez trás, zás, e fuzilou na raia como um corisco.

Canho estava gostando de ouvir o elogio feito a seu animal: o cavalo é uma das fibras mais sensíveis do coração do gaúcho. Mas alguma coisa instigava o viajante, que fazendo um esforço interrompeu o peão.

— Então se me dá licença, vou-me andando. Careço de estar hoje na vila sem falta.

— O churrasco está na brasa, se é servido?...

— Obrigado; ficará para outra vez. Antes do descanso ainda tenho que fazer umas cinco léguas.

— Pois, amigo, até mais ver.

— Com o favor de Deus.

— Olhe; se vir lá pela vila a Missé, dê-lhe memórias; diga-lhe que em havendo uma folga, lá me tem para bailarmos o tatu.

— Farei presente, respondeu rindo o Canho que já ia longe à desfilada.

Naquele andar fez o viajante a porção de jornada que tencionava, e aproximou-se do arroio da Candiota, um dos afluentes do Jaguarão, que atravessa a campanha de norte a sul, na distância de algumas léguas da cidade.

Medindo a altura do sol conheceu que era perto de meio-dia; já a seriema afinava a garganta para soltar o canto.

Parando à sombra de uma árvore na beira do rio, o gaúcho saltou no chão, e sacou em um momento os arreios do animal. Enquanto o morzelo se espojava na grama para desinteiriçar os músculos entorpecidos pelo arrocho da cincha, o viajante batia o fuzil, e tirava fogo para acender um molho de galhos secos.

A sela é ao mesmo tempo a bagagem do gaúcho; esse viajante do deserto, como o sábio da antigüidade, pode bem dizer que leva consigo quanto possui.

A xerga lhe serve de cama; a sela forrada com o lombilho, de travesseiro. Nas caronas traz a maleta com a roupa de muda; na guaiaca patacões ou onças que constituem todo seu pecúlio. Entre a xerga e a manta, estende um pedaço de carne que o calor do animal cozinha durante a jornada.

Manuel fez com presteza seus arranjos para a sesta; e deixando a carne a tostar sobre o fogo, aproximou-se do rio para lavar as mãos e o rosto. A janta foi expedita. Uma grande naca de carne com alguns punhados de farinha; e água bebida no bocal do estribo, que o rapaz teve o cuidado de lavar para dar-lhe a serventia de copo.

Atirou-se então sobre a cama forrada com o pelego; e fumou dois cigarros de palha enquanto descansava.

— Hoje em Jaguarão; e daqui a oito dias, Deus sabe aonde! Talvez contigo, pai, lá em cima; murmurou o gaúcho engolfando os olhos no límpido azul do céu.

Meia hora não tinha decorrido, que o gaúcho levantou-se de um salto, e tirou do céu da boca o som com que a gente do campo costuma falar aos animais. A tropilha que pastava ali perto, conduzida pelo morzelo, aproximou-se gambeteando.

— Cá, Ruão!
Arreado o animal, pulou o gaúcho na sela e atravessando o rio, partiu a galope.

Seriam cinco horas e meia, quando no azul diáfano do horizonte se desenhou iluminada pelo arrebol da tarde a torre da igreja do Espírito Santo, que servia de matriz à vila de Jaguarão.

Receoso talvez de que o último raio do sol se apagasse, deixando-o ainda em caminho, o gaúcho afrouxou as rédeas ao Ruão, que lançou-se como uma flecha.

III
O AGOURO

Sobre uma pequena ondulação, que cingem de um e outro lado dois pequenos córregos, está assentada a cidade, então vila de Jaguarão, à margem esquerda do rio do mesmo nome.

Naquela tarde do dia 29 de setembro de 1832, havia no povoado uma agitação, que indicava algum fato extraordinário. Os habitantes em turmas enchiam as ruas, e especialmente a das Palmas, que fica fronteira ao quartel.

A razão desse ajuntamento, e do alvoroto que se percebia entre o povo, podia conhecê-la quem se desse ao trabalho de escutar as falas daqueles bandos de curiosos.

— Foram batidos?
— Completamente. Rivera caiu sobre eles que foi uma lástima.

— E Bento Gonçalves os prendeu?
— Não vai desarmá-los?
— Ande lá, acudiu um tropeiro, que o Lavalleja é um duro. Há de tirar a desforra.

Com efeito, Juan Lavalleja, o herói da independência de Montevidéu, sua pátria, tendo-se revoltado contra o Presidente da República, Frutuoso Rivera, fora afinal derrotado pelas forças legais e obrigado a passar a fronteira.

Pisando território brasileiro foi o caudilho intimado pelo coronel Bento Gonçalves, comandante da fronteira do Jaguarão, para entregar as armas, ao que submeteu-se sem resistência.

Fronteiro ao quartel, e em face da nossa tropa, formou a força rebelde. Os soldados com o semblante carregado esperavam o momento solene de depor as armas. O sentimento dessa humilhação era partilhado por grande parte da população, imbuída de certo espírito militar.

Lavalleja dirigiu a seus companheiros de infortúnio palavras de animação, que produziram efeito contrário. A cólera concentrada prorrompeu em queixas amargas e violentas recriminações.

Afinal consumou-se o ato. Os soldados deixaram as armas em terra, e foram recolhidos presos ao quartel. D. Juan Lavalleja entregou a espada ao coronel Bento Gonçalves, que o hospedou em sua casa, enquanto não lhe dava destino.

Dispersava-se o povo, comovido pela triste cerimônia, quando o galope do cavalo de Manuel Canho ressoou no princípio da Rua das Trincheiras.

O gaúcho apeou à porta de uma venda que dava pousada. Depois de recolher seus animais ao potreiro, e guardar os arreios no canto que lhe destinaram, sentou-se no alpendre e pediu uma cuia de mate.

Já sabia o que desejava. O coronel estava na vila; logo mais, quando ele tivesse dado as providências sobre o destino da gente desarmada, iria o rapaz procurá-lo.

No alpendre estava diversas pessoas conversando sobre o acontecimento do dia:
— Se é verdade o que dizem, observou um seleiro com ar de mistério, o coronel não desarmou o homem lá muito pelo seu gosto.

— Ora esta do Lucas Fernandes! Se ele não quisesse, quem o obrigava? Não é assim?
— Decerto!
— Ainda não é tempo.

— De quê? perguntou um ferrador.

— Olhem; desta ninguém me tira. O coronel antes queria ter filado o Frutuoso, do que o Lavalleja!
— Mas por quê, Félix?
— Vocês verão.

O coronel Bento Gonçalves da Silva, veterano da guerra da Cisplatina e comandante da fronteira de Jaguarão e Bagé, era então o homem mais respeitado em toda a campanha do Rio Grande do Sul. Franco e generoso, bravo como as armas, vazado na mesma têmpera de Osório e Andrade Neves, montando a cavalo como o Cid campeador, era Bento Gonçalves o ídolo da campanha.

Os homens o adoravam; as mulheres o admiravam. O mais sacudido rapaz achava coisa muito natural que as moças bonitas chegassem à janela para ver passar o elegante velho, com seu talhe alto e espigado, e seu peito amplo e bombeado como a petrina do brioso ginete.

Sensível a essa fineza do belo sexo, o veterano alisava o bigode grisalho, pagando com um sorriso os olhares coados pelas rótulas. Ao mesmo tempo consolava os rapazes, fazendo-lhes um aceno com a mão, ou dirigindo-lhes algum dito picaresco.

Da influência que exercia Bento Gonçalves sobre o ânimo da população, pode bem dar uma idéia o que dizia há pouco um dos camaradas reunidos no alpendre da pousada: “Se ele não quisesse, quem o obrigava?” Estas palavras traduziam a convicção daquela gente. Para os habitantes do interior, o coronel era o rei da campanha; ninguém tinha o direito de lhe dar ordens; desarmara Juan Lavalleja porque assim lhe aprouvera, como poderia protegê-lo, unir-se a ele, e marchar sobre Frutuoso Rivera.

Havia então no Rio Grande do Sul outros coronéis, e entre eles o veterano Bento Ribeiro, que devia figurar posteriormente na história de sua província de uma maneira tão triste, apagando as páginas brilhantes que sua espada leal tinha escrito em mais de um campo de batalha.

Mas o coronel por excelência, aquele em quem o povo havia personificado o título, como o mais bravo e digno, era Bento Gonçalves. De uma à outra fronteira da província, os estancieiros muitas vezes não sabiam ou não se lembravam quem era o presidente e o comandante das armas; mas qualquer peão ouvindo falar no coronel, sabia de quem se tratava; e não se metessem a tasquinhar nele, que a faca de ponta saltava logo da bainha.

Continuava a prática entre os fregueses da venda:
— Cá por mim, se eu fosse o coronel, o que fazia era passar uma coleira vermelha ao pescoço do Lavalleja.

Estas palavras eram de um carneador. Coleira chamava ele no seu estilo pitoresco ao degolo que todas as manhãs fazia nas reses destinadas ao corte da charqueada.

— Ora, que mal fez o homem?
— Já se esqueceu do levante de Montevidéu?
— Não vejo crime em libertar um homem sua pátria, acudiu o Lucas Fernandes. Fez ele muito bem, e nós cá não estamos muito longe de seguir o mesmo caminho. As coisas vão mal; o governo do Rio não dá importância aos homens da província. Já não demitiram o coronel porque têm medo.

— Lá isso é verdade! Atrevam-se que hão de ver o bonito.

— Não é por falta de vontade dos de Montevidéu que não cessam de pedir.

— Pudera! Se não fosse o coronel, entravam eles por esta fronteira como por sua casa.

Eram os pródromos da revolução que devia prorromper três anos depois. A semente aí estava lançada na população, e se desenvolvia com o vento sedicioso que soprava do Prata.

Uma voz infantil soara na rua perguntando:
— Papai está aí?
Lucas Fernandes voltou-se para a menina que subia os degraus do alpendre.

— Que queres, Catita?
— Já se foi a tropa, papai?
— Pois não viste?
— Ora! cuidei que iam brigar!
— Olhem a pequena! exclamou o ferrador a rir. Então você queria ver-nos brigar com os castelhanos?
— Queria; há de ser bonito!
— Assim, gauchinha! acudiu um tropeiro repuxando o bigode.

— Ainda hás de ter esse divertimento, Catita, redargüiu o Lucas Fernandes. Tão depressa achasses tu um bom marido.

— Pois não há de achar? Tão guapa moçoila! Aqui estou eu que se ela não refugar... Hein! Catita, que diz? Há de ser minha noiva.

— Quem conta com soldado? O noivo dela é cá o degas, que já nos ajustamos! Tornou o tropeiro piscando o olho.

Sorria no entanto a menina com certo arzinho de malícia que frisava o botão de rosa da boquinha a mais gentil. Ao mesmo tempo movendo lentamente a fronte em sinal de recusa, meneava as duas longas tranças de cabelos negros, que, ondeando pelas espáduas, desciam até à bainha da saia curta de lila encarnada com vivos pretos.

Era realmente um feitiço a Catita. Seu talhe de treze anos, esbelto e airoso, não tinha as formas da donzela, mas já no requebro faceiro ressumbrava a graça feminina. Os olhos negros, como os cabelos, ela os trazia sempre a meio vendados pelas róseas pálpebras; por isso, quando alguma vez se desvendavam, parecia que seu rosto se tinha banhado em jorros de luz.

A tez, quem a visse, em repouso, sob a negra madeixa, cuidaria ser alva; mas nas inflexões do colo e dos braços percebia-se, como sob a transparência da opala, uns reflexos de ouro fusco. Então conhecia-se que era morena; e o tom cálido de sua cútis lembrava o aspecto das brancas praias de areia, iluminadas pelos últimos raios do sol.

— Estão aí perdendo seu tempo. Ela já me deu sua palavra. Não é, moça?
— Sai-te, gabola, que o dunga está aqui, disse um peão plantando-se no meio da casa com a mão esquerda no quadril, e a direita no ar brandindo a faca.

— Está bem, não vai a brigar, acudiu Lucas Fernandes rindo. Qual deles escolhes, Catita?
— Eu, papai?
— Pois então?
— Eu... disse a menina esticando a perna bem torneada, e arqueando o pezinho calçado com um sapato de marroquim azul.

Suspensa um momento nessa figura de dança, enquanto percorria com olhar brejeiro os sujeitos da roda, acabou a frase descrevendo uma pirueta graciosa.

— Eu não escolho nenhum!
— Ora aí está! disse o Lucas soltando uma gargalhada.

— Qual! Já está fazendo melúrias.

— Meu noivo... Querem saber qual é?
— Então sempre escolhe!
— Ai que já estou me lambendo!
— Quem é?
— Olhe!
No canto oposto do alpendre, estava o Manuel Canho, sentado no parapeito, com o cigarro na boca, e a vista divagando pelos campos que se estendiam além do córrego, às abas da cidade. Inteiramente alheio ao que passava junto, o gaúcho parecia de todo absorvido em suas cogitações.

Esta expressão de recolho íntimo apagava certa aspereza de sua fisionomia. Visto assim de perfil, com a fronte descoberta, os cabelos que a brisa agitava, e o talhe desenhado pelo traje pitoresco do gaúcho, era sem dúvida um bonito rapaz.

Foi a ele que se dirigiu Catita; e tocando-lhe no ombro, voltada para os outros, disse:
— Este!
— Não vale! exclamou o peão.

Sentindo no ombro a mão da menina, o gaúcho voltou-se com um olhar interrogador.

— É você que eu quero para meu noivo, disse-lhe Catita a sorrir.

— Quando for viúva, então sim, serei seu noivo! respondeu o gaúcho em amargo tom de ironia.

Afastou-se a menina com um espanto misturado de pesar. Da gente da roda, uns não viram no dito do gaúcho mais do que uma chufa, e riram; outros não lhe deram atenção.

Catita, porém, tomou aquela estranha resposta de Canho como agouro; e teve nessa noite um sonho bem triste.

IV
O PADRINHO

Soavam trindades na torre da matriz.

Manuel Canho ergueu-se e esperou de cabeça descoberta pela última badalada; depois do que, saiu na volta da Rua das Palmas onde morava o coronel.

Estavam à porta o cabo de ordens e uma récua de camaradas paisanos ao serviço do coronel. Não havia então na campanha do sul homem ou estancieiro importante que não se acompanhasse de um bando de gaúchos. O número desses camaradas, que lembram os acostados da Idade Média, indicava o grau de preponderância e riqueza do patrão.

Voltara Bento Gonçalves do quartel, e enquanto serviam a ceia, foi ter na sala com seu prisioneiro, D. Juan Lavalleja.

O caudilho dava sinais bem visíveis de mau-humor, no cenho carrancudo e na impaciência com que trincava a ponta do cigarro de palha. Por momentos arrependia-se do que tinha feito, e lamentava não ter morrido combatendo contra Frutuoso Rivera ou Bento Gonçalves, antes do que sujeitar-se à humilhação de render as armas. E a quem? A brasileiros.

Não obstante, no meio desta apoquentação, lá surdia no ânimo do ambicioso caudilho uma idéia, que ele ruminava com a mesma pertinácia do dente a morder a palha do cigarro.

Com a entrada de Bento Gonçalves, a sofreguidão de Lavalleja aumentou. Correspondendo apenas com um gesto seco à saudação do hóspede, ergueu-se e começou a percorrer a varanda de uma a outra ponta, em passo de carga. Pelo que lembrou-se o coronel de assobiar o toque de avançar a marche e marche.

Ou porque o gracejo do hóspede o excitasse, ou porque era chegado o momento da explosão, Lavalleja veio como uma bomba parar em face do coronel, e exclamou com uma voz taurina, atirando aos ares um murro furioso:
— Coronel, o senhor não é um homem!
Como aquela palavra abalou Bento Gonçalves, que achou-se em pé de repente, afrontando em face o oriental! Mas não passou de um primeiro assomo; a alta estatura que a indignação erigira perdeu a rijeza ameaçadora; no rosto anuviado perpassou o sorriso plácido e sereno das grandes almas, que uma cólera pequena não conturba. São essas almas como o grande oceano; qualquer borrasca não o agita; para subvertê-lo é preciso o tufão dos Andes.

— O senhor é meu prisioneiro e hóspede desta casa, general, disse Bento Gonçalves sentando-se com a maior calma. Em outro momento e outro lugar, eu lhe mostraria que um brasileiro não vale um, mas dez homens; enquanto que são precisos dois castelhanos para fazer meio brasileiro. O senhor deve saber disto.

— Outro tanto lhe podia eu retorquir; mas não estou agora para bravatas. Digo e repito que não é um homem, Sr. Bento Gonçalves, pois se o fosse, seria o primeiro de todo este Rio Grande. Em vez de coronel se faria general. Que vale o comando desta fronteira para quem pode, estendendo a mão, apanhar a presidência da província?
— Que pretende dizer com isto, general?
— Caramba! No momento em que Bento Gonçalves quiser, o Rio Grande do Sul será um Estado independente como a Banda Oriental. Está bem claro agora? Para arrancar minha pátria ao jugo do império bastaram trinta e três heróis; bem sei que um deles era D. Juan Lavalleja. O senhor que tem por si toda a campanha, deixa-se aqui ficar bem repousado, a chupitar seu mate como uma velha; e pica-se porque lhe digo que não é um homem. Mas decerto que não o é. Minha mulher, D. Ana Monteroso, teria vergonha de praticar semelhante fraqueza; ainda que é mulher de quem é, todavia...

— De que lhe serviu ao senhor, diga-me, fazer a divisão da Cisplatina? retorquiu o coronel com ironia. Lá está seu compadre, dentro do queijo; e eu obrigado bem contra minha vontade a desarmar o herói da independência de sua pátria, como um rebelde.

— Lá isso não vem ao caso; é a sorte da guerra. Hoje ganhou meu compadre a partida, amanhã chegará a minha vez; todavia, cá entre nós, quem manda é o mais forte; não somos governados por um menino de sete anos.

— Quem governa é a lei, respondeu Bento Gonçalves em tom seco.

— Burla, coronel; este mundo é governado por duas coisas: a força ou a astúcia. O mais, isso de lei, de liberdade e justiça, são palavras sonoras para o povo, que no fim de contas não passa de um menino a quem se acalenta com um chocalho... O Rio Grande lhe pertence, coronel, como a Banda Oriental a mim, D. Juan Lavalleja.

— Vamos cear, general.

— Então deixa passar a ocasião?
— Sou brasileiro; nasci cidadão do império; e assim hei de viver, enquanto houver liberdade em meu país, porque para mim a liberdade não é uma burla para enganar o povo, mas o primeiro bem, que não se perde sem desonra, e não se tira sem traição. Quando eu me convencer que para ser livre, é preciso deixar de ser imperialista, não careço que ninguém me lembre o que me cabe fazer. O coronel Bento Gonçalves saberá cumprir seu dever.

Dando esta resposta com tom enérgico, o rio-grandense guiou o caudilho à varanda onde tinham posto a ceia.

Em uma das extremidades da longa mesa, estavam colocados dois pratos com talheres de prata destinados ao dono da casa e seu hóspede. Diante deles fumegava um grande assado de couro, e um peixe que enchia a imensa frigideira de barro. Havia além disso ervas e legumes.

Já estavam na varanda os gaúchos da comitiva do coronel, os quais lhe deram as boas-noites. O Canho adiantou-se para beijar a mão de Bento Gonçalves que era seu padrinho.

— Oh! Estás por cá, Manuel?
— Cheguei esta tarde.

— Como vai a comadre?
— Boa, graças a Deus.

— Estás um rapagão! Abanca-te; vamos cear.

O coronel tomou lugar à cabeceira, dando a direita ao hóspede. Na outra ponta da mesa sentaram-se os camaradas e Manuel, em bancos de madeira; cada um tirou um prato da pilha que havia no centro e colocou-o diante de si.

Depois de servido o dono da casa e o hóspede, os pratos eram levados pelo escravo copeira para a outra extremidade, onde os gaúchos iam tirando seu quinhão com a faca de ponta que traziam à cinta.

— Vamos ao peixe, general, disse Bento Gonçalves servindo a Lavalleja. Então, Manuel, andas de vadiação ou isto é volta de negócio?
— Nem uma, nem outra coisa. Vim só para falar a meu padrinho.

— Pois fala, rapaz; não percas tempo.

— É sobre um particular.

— Está bem; então logo mais.

Terminada a ceia, enquanto os outros tomavam mate e fumavam, o coronel fez ao gaúcho um gesto para que este o acompanhasse à sala.

— Que particular é esse? Alguma gauchada, aposto?
— Vim pedir a bênção de meu padrinho, para me dar felicidade, e mesmo porque talvez lá me fique!
— E para onde te botas?
— Para Entre-Rios.

— Buscar o quê?
— O homem que matou meu pai!
— Hein!... Depois de tanto tempo?
— São coisas que não esquecem nunca.

— Não esquecem, bem sei; mas se perdoam; talvez o sujeito esteja arrependido.

— Melhor; Deus o absolverá.

— Visto isto, estás decidido?
— Desde muito tempo. Há cinco anos a esta parte que descobri o homem lá em Entre-Rios, e então pela festa vou sempre para aquelas bandas, ver se ainda lá está.

— Estiveste invernando-o antes de charqueá-lo? replicou o coronel a rir.

— Sabe Deus quanto me custou deixá-lo sossegado todo este tempo. Mas eu precisava trabalhar primeiro, para que a mãe ficasse com alguma coisa. Tudo pode acontecer; e afora eu, não tem ela quem a ajude.

— E Bento Gonçalves não está aqui, rapaz?
— Meu padrinho tem muitos por quem olhar; não pode chegar para todos. Se eu não voltar, sempre ficará com que acender o fogo.

— Que diz tua mãe a tudo isto?
— Ela não sabe.

Bento Gonçalves deu duas voltas pela sala.

— Escuta, Manuel. Teu coração te pede o que vais fazer? Sentes que sem isso não poderás viver descansado? Fala verdade.

— Se eu não vingasse o pai, ele me renegaria lá do céu e não quereria para filho um poltrão ingrato.

— Com a breca! Meu ofício não é de padre! exclamou impetuosamente o coronel. Vai, rapaz; segue teu impulso. Tenho fé em que hás de honrar as barbas de teu padrinho; se chegar tua hora, o que não há de suceder, descansa em paz, que eu velarei sobre tua mãe.

— Obrigado, meu padrinho; bote-me sua bênção.

— Deus te abençoe e te acompanhe, Manuel.

Beijou o gaúcho a mão vigorosa do coronel, que ria-se estrepitosamente para disfarçar a comoção.

Quando Manuel recolhia-se à pousada, ouviu uns rufos de guitarra coados pelas frestas esclarecidas de uma rótula da vizinhança. Ao som do acompanhamento arrastado, uma voz maviosa, de timbre infantil, dizia com terna expressão uma cantiga brasileira. O gaúcho apesar de preocupado pôde ouvir as seguintes coplas:
A minha branca pombinha.

Com tanto amor a criei;
Depois de bem criadinha,
Fugiu-me; por que, não sei.

Quis beijar o seio dela,
Bateu as asas, voou;
A minha pombinha bela,
Foi gavião que a levou.

— Bravo, Catita! exclamou a voz do Lucas Fernandes.

V
O PÁREO

Dias depois, já em outubro, na sala de uma pousada da província de Entre-Rios, estavam reunidos vários andantes, invernistas e também alguns capatazes da vizinhança.

Ente outros pousara ali um chileno que vinha de Mendoza ou Córdova, e contava atravessar toda a campanha até o Rio Grande do Sul. Espécie de mercador ambulante, misto de mascate e de aventureiro, costumava ele percorrer as cidades e povoações do interior à cata do bom negócio, como da boa-vida.

Trazia duas ou três mulas carregadas com uma partida de fazendas de lã e seda, porém especialmente de chapéus-do-chile, palas de vicunha, e guarnições de prata para arreios de montaria. De caminho ia chatinando a sua mercadoria, e comprando animais, que mais adiante negociava, se lhe ofereciam bom lucro.

Quando tinha a bolsa recheada, e achava encanto no lugar, deixava-se ficar uns oito ou quinze dias, quantos bastavam para concluir alguma aventura amorosa, ou para tirar a sua desforra dos parceiros que no jogo da primeira lhe haviam limpado as onças.

Ao cabo de uma ou duas semanas, partia-se uma bela manhã, mais ligeiro da bolsa, porém, contente de si, e prazenteiro sempre; levava a alma cheia da plena confiança que adquire o homem errante, habituado à boa e à má fortuna, afeito ao sol e à chuva.

Neste circuito, muitas vezes consumia o nosso chileno dois ou três anos. Freqüentemente chegava até Sorocaba, onde a grande feira de animais costuma reunir em maio grande número de marchantes de diversas paragens. Estes concursos têm grande encanto para o viajante que pode assim reviver as recordações de cada terra por onde passou. Além disso, na mesa do jogo e nas apostas, corre o ouro a rodo: fazem-se páreos fabulosos que afrontam os mais destemidos.

Estas coisas, o mascate gostava de ver para contá-las mais tarde nalgum ponto remoto, onde ele pudesse figurar como herói da história, no meio de alguma roda de bonitas muchachas.

Vendidas todas as fazendas, e apuradas as barganhas feitas pelo caminho, voltava o chileno a prover-se de uma nova carregação para continuar a vida nômade a que se habituara desde a infância. Essa locomoção constante era um elemento de sua existência; seu espírito superficial saciava-se logo das impressões de qualquer lugar, e carecia de uma diversão.

As pessoas, reunidas na varanda, pitavam o infalível cigarrito de palha, sorvendo a goles o mate chimarrão. A conversa, frouxa em começo, veio a cair sobre a gineta, que é juntamente com as histórias de briga e namoro o tema favorita da conversa dos gaúchos na campanha.

— Pois, senhores, é o que digo, exclamou o chileno. Nenhum será capaz de montar a égua que trago aí.

— Talvez seja ela tão chiquita, D. Romero, que um homem não a possa montar, e somente um gambirra, acudiu com ar sardônico um dos camaradas.

Os outros aplaudiram.

— Uma coisa é rir, amigos, e outra fazer, redargüiu o chileno.

— Pois sem dúvida que se há de montar, D. Romero, disse um invernista de São Paulo.

— Quer experimentar?
— Mande o senhor puxar a sujeitinha cá para o terreiro! disse erguendo-se um paraguaio.

D. Romero dirigiu-se ao dono da pousada:
— Faz favor, amigo, para satisfazer aos senhores.

Enquanto se foi buscar o animal que estava preso à soga no pastinho, contou D. Romero, como em caminho o apanhara de surpresa perto de um desfiladeiro, há três dias passados. Desde então fizeram ele e os dois camaradas que trazia, os maiores esforços para montá-lo; mas desistiram.

— Ainda não encontrei quem se atrevesse! concluiu o chileno.

Um sorriso incrédulo, no qual se embebia sofrível dose de arrogância e motejo, circulou pelos campeiros.

— Porventura os senhores duvidam? perguntou D. Romero assombrando-se.

— Não se duvida do conto, mas do animal, que seja como quer o amigo; e se não veremos.

— O senhor vem lá da terra onde se monta em carneiros ou lhamas, como lhes chamam, disse outro companheiro.

— Com licença, tenho visto os melhores ginetes e também entendo do riscado.

— Topa o senhor alguma coisa?
— Tudo, amigo. Tão guapa estampa de animal, não quero que haja em toda esta campanha até Chuquisada. Em Buenos Aires, Montevidéu, ou Porto Alegre. O ponto é apresentá-la que logo me choverão as onças. Pois, senhores, se algum dos presentes for capaz de montá-la, a égua é sua.

— Valeu! exclamou o paraguaio estendendo a mão ao chileno.

— Palavra de D. Romero.

— Bravo! exclamaram em coro. Venha a rapariga.

— Ei-la aí! disse o dono da pousada, apontando.

Ao lado da casa, junto à mangueira, aparecera com efeito o animal, trazido por um rapazinho que servia de peão. Não tiveram, porém, os companheiros tempo de examinar a égua; porque instantaneamente achou-se ela no pátio diante do alpendre. Com dois corcovos unicamente devorara a distância de muitas braças, que a separava da casa.

Se não fosse tão ligeiro, o rapazinho não escaparia da fúria com que a égua se arrojara para mordê-lo; felizmente conseguiu ele alcançar o moirão, onde passou a laçada do cabresto, pondo-se fora de alcance.

Na presença da gente que a cercava, a égua estacou, raspando o chão com a pata arminada de branco. Pôde-se então admirar-lhe a perfeição da estampa. Desta vez, contra o costume, não havia exageração da parte do chileno; era com efeito um soberbo animal.

Talhe esbelto e fino sobre alta estatura; cabeça pequena, colo cintado e garboso, pelo qual se encrespavam as longas crinas, esparsas como os anéis de basta madeixa; a anca roliça, ligeiramente bombeada e ondulando com os reflexos ardentes do luzido pêlo; os ilhais a se retraírem com um espasmo nervos; e finalmente uma roupagem baia, que nos cambiantes luminosos parecia veludo tecido a fio de ouro; tal era a imagem viva e palpitante que os gaúchos tinham diante dos olhos.

Animada por um assomo de cólera, essa beleza eqüina desenhava na imaginação daqueles homens os contornos voluptuosos de alguma gentil morena da redondeza, quando sucedia irritá-la uma palavra ou gesto de seu namorado. Ao mesmo tempo despertavam no ânimo de cada um os brios do picador, embora o fero olhar que desferiam as grandes pupilas negras da égua, sofreasse os ímpetos dos mais destemidos.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal