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O Gaúcho

José de Alencar

Desde que tinha caído nas mãos do gaúcho, Romero ainda não lhe ouvira uma só palavra. Manuel o tratava como ao novilho fujão que se laça no campo e se leva à soga para o curral. Não se dignava nem mesmo ameaçá-lo com um gesto. E para quê? Aquele torvo semblante era a fisionomia de uma tempestade; sentia-se a faísca do raio no olhar lívido que rutilava da pupila negra.

Quando Romero deu acordo de si, admirou-se de estar vivo ainda. Que pretendia dele então o Canho? Queria entregá-lo a Lucas ou matá-lo aos olhos de Catita?
Enquanto comiam os dois viajantes, um homem arrastando-se pelo chão por entre a macega, se aproximava sorrateiramente do ombu. Pelo emplastro de pano que trazia no rosto era fácil conhecer Félix.

Chegando a duas braças do tronco, parou indeciso. Ali estavam dois homens a quem ele votava ódio mortal: um lhe tinha mutilado o rosto, o outro lhe mutilara a alma; aquele o fizera hediondo, este o transformara em fera; ele tinha sede de sangue, mas como o tigre, de sangue quente, bebido no coração donde borbota.

Félix andara até aquele dia à pista do chileno, e voltava desesperado quando de longe avistou Juca e logo pressentiu que Manuel andava por perto. Descobrindo os dois viajantes, não se imagina a raiva que sentiu por ver o gaúcho senhor da vingança, tão cobiçada por ele.

Afinal decidiu-se o rapaz; apontando o trabuco para Manuel, armou a caçoleta; mas o rangir do ferro ainda soava, quando o gaúcho, a quem nada escapara, caiu sobre ele e arrancou-lhe a arma da mão.

Félix enfurecido precipitou-se sobre o chileno para cravar-lhe a faca no coração; mas achou-se em face de Manuel que ao cabo de breve luta o desarmou.

— Mata-me de uma vez, demônio! gritou o rapaz em um acesso de raiva; ou antes acaba logo de matar-me, pois já começaste. Olha, o que fizeste de mim.

Arrancando o pacho que lhe cobria o rosto, o desgraçado mostrou uma coisa horrível; um rosto fendido a meio, que parecia rir satanicamente com os lábios disformes daquela boca artificial.

Manuel sentiu um movimento de compaixão, que logo sopitou. Impassível e taciturno, passou do rosto mutilado do rapaz ao semblante de Romero um olhar frio que transia. O chileno estremeceu de horror ante aquela ameaça.

Entretanto o gaúcho atou-lhe de novo os braços e pondo-o no costado do Ruão partiu, apesar da sanha de Félix que, vendo sua vingança próxima a escapar-lhe, arrojou-se ainda uma vez contra o gaúcho, procurando ao menos insultá-lo para que ele o matasse. Baldado esforço; porque o braço ágil e robusto de seu adversário o conservava em distância.

Horas depois paravam dois cavaleiros à casa de Fortunata. Lucas chegando à porta reconheceu com surpresa Manuel e Romero a quem o gaúcho soltara os laços na entrada da vila.

A um volver d’olhos do Canho, o mascate apeou-se e entrou na varanda. Lucas com a vista pasma, não sabia que pensar, quando o gaúcho aproximando-se murmurou uma palavra, a primeira que pronunciavam seus lábios depois que partira:
— A noiva.

Como se um raio de luz rompesse a crosta dessa alma, o pai compreendeu tudo e correu ao quarto da filha.

X
A BODA

Há almas de esponja, que o menor revés espreme; mas também o menor bochecho d’água basta para inchá-las.

Romero tinha uma dessas almas. Aniquilado pela ameaça que pesava sobre ele, apenas compreendeu o desígnio de Manuel pôs-se ao nível da posição criada pelos acontecimentos. Aceitou portanto o papel de noivo, com boa graça e rosto alegre.

Logo ocorreu-lhe que não estava em traje de cerimônia; e comunicou este pensamento a Maria dos Prazeres, a qual achou-lhe toda a razão, pois não concebia que um homem se casasse com roupa do diário e amarrotada.

Sabendo que sua bagagem ainda estava em Piratinim, dirigiu-se Romero à locanda, acompanhado por Manuel; enquanto Lucas ia apressar o padre coadjutor, e convidar a melhor gente da vila. A notícia do repentino casamento não produziu grande surpresa; todos achavam natural a reparação; e estimavam concorrer para a alegria da boda, que não era somente a festa da ventura, mas sobretudo a festa da honra.

Trajado a primor, D. Romero tornou à casa de Fortunata, que já estava cheia de moças e rapazes ansiosos de verem a noiva.

Esta não se fez esperar.

Catita vinha resplandecente de beleza. Coroava-lhe a fronte a auréola de júbilo celeste que devia cingir as virgens mártires expirando em um êxtase de bem-aventurança. Havia em seu rosto a expressão vaga e indefinível que resta, quando a alma se desprende da terra para remontar ao céu.

Depois que Lucas a deixara debatendo-se em uma incerteza cruel, a moça julgou compreender o sentido das últimas palavras de seu pai. Manuel queria sacrificar-se para salvá-la: ela não devia aceitar o sacrifício; mas não tinha ânimo de recusá-lo. Esse amor ardente e generoso era uma bênção que a purificava.

— Ser dele e morrer! balbuciou.

E vestiu-se com suas roupas mais garridas.

Assomando à porta com a fronte baixa, não viu nenhuma das pessoas ali reunidas na sala. Só passado o primeiro vexame, coando a medo o olhar entre os cílios, procurou Manuel; mas quem encontrou foi D. Romero que lhe ofereceu a mão sorrindo com faceirice e requebrando o talho gentil, realçado pelo rico traje.

— Señorita! dizia ele fazendo uma mesura.

A moça teve uma vertigem. Sua alma arrebatada violentamente ao corpo hirto submergiu-se em um abismo de vergonha e dor. Desde então ela não teve mais consciência de si. O chileno tomou-lhe a mão fria como gelo e a conduziu sem a mínima resistência.

Durante essa cena rápida, Manuel de pé, a um canto do aposento, parecia de todo estranho ao que passava. O olhar frio e baço, fito no chileno, era o único vínculo que prendia essa consciência à vida externa.

Mudo como uma sombra, sinistro como uma aparição, fazia lembrar o espírito satânico das lendas da média idade, esperando o momento de arrebatar ao inferno a alma do precito.

O vestido de Catita roçou-o e ele não a viu. Uma nuvem densa ocultava-lhe tudo quanto não era aquele homem, cuja passagem deixara em sua vida o rastro da fatalidade.

O acompanhamento seguiu para a matriz que regurgitava de gente. Já o sacristão acendera os círios do primeiro altar da epístola, e o coadjutor, de roquete, descia os degraus da capela-mor.

A cerimônia foi breve. No momento de pronunciar as palavras que deviam ligar para sempre sua existência à dessa moça a quem seduzira, o chileno hesitou, volvendo automaticamente a vista em torno, como se procurasse um ponto de apoio a seu espírito perplexo; mas encontrou o olhar de Manuel, e curvou a cabeça.

Momentos depois os noivos entraram na casa, que uma festa improvisada havia transformado durante a cerimônia, adornando-a com ramos de flores, palmas de coqueiros e lanternas de copos pintados.

O sol acabava de esconder-se no horizonte; flocos de vapores cor de fogo se erguiam lentamente no ar e condensavam-se na atmosfera. Os arrebóis do ocaso tinham listras rúbidas que pareciam laivos de sangue. A brisa do crepúsculo, de ordinário fresca e embalsamada com o hálito das flores, vinha impregnada de súlfur e exalava um sopro morno.

Fazendo honra ao banquete, os convidados não se apercebiam desses presságios do próximo temporal; nem ouviam os mugidos dolentes do gado carpindo o morrer do dia.

A função durou até meia-noite e foi muito divertida. D. Romero nadava em prazer; a única sombra que podia anuiar o seu horizonte, era a torva fisionomia de Canho, e esta havia desaparecido desde o começo da festa.

Já todos os convidados se despediram, repetindo ainda uma vez os parabéns, e fazendo votos pela felicidade dos noivos. A casa repousa em silêncio, apenas interrompido pelo eco da tirana, que ainda ressoa ao longe de algum peão saudoso da festa.

Catita, sentada no seu quarto com as mãos cruzadas sobre os joelhos, o busto vergado como o cálix de uma flor cheia de orvalhos, e os olhos cravados no chão, perdia-se em um pélago de dor. A mísera não sabia qual era maior vergonha e suplício para ela: se a falta passada, se a reparação tardia. Antes tinha ela o direito de desprezar o homem que abusara de sua inocência; agora esse homem era seu esposo; ela o recebera de Deus, aos pés do altar, como o companheiro de sua existência.

Entretanto Romero entregue a pensamentos muito diversos, contemplava sua noiva com volúpia. Nunca a vira tão bela, como naquela atitude de mórbida languidez, que punha em relevo os contornos suaves do talhe. Nesse momento esquecia quanto ocorrera nos últimos dias para lembrar-se unicamente que a linda moça era sua noiva.

Quando seus olhos saciaram-se da imagem sedutora, o chileno aproximou-se: um calafrio percorreu o corpo de Catita, que estremeceu sentindo em sua mão o contato dos dedos do marido.

— Querida!… murmurou Romero.

— Deixe-me! suplicou a moça.

— Não seja má! Tenha pena do que sofri nestes dias de ausência; se não me lembrasse de sua felicidade, cuida que daria ao trabalho de fugir e defender-me? Deixava que me matassem logo; mas eu sabia que não me matavam a mim unicamente! Diga, tantas saudades curtidas longe daqui não valem um beijo, um só?
Pronunciando estas palavras, o chileno cingiu com o braço o talhe da noiva, procurando estreitá-la ao peito; porém ela, estrincando o corpo como uma serpe, escapou-se daquele abraço que lhe causava horror, e refugiou-se em um canto do aposento.

— Nunca! tinha ela exclamado com veemência.

E o lábio erriçado pela ira e pelo terror, depois que arremessou essa palavra impetuosa, ficou vibrando como a lâmina sonora de um estilete percutida com força.

Essa energia e súbita resistência surpreenderam um momento ao chileno, que respondeu com um motejo.

— Por que me quer tanto mal assim, muchacha? É por que sou agora seu marido?
Catita compreendeu o sarcasmo.

— É por ser meu marido, sim, que eu lhe tenho horror. Até ontem o senhor não foi mais do que a minha desgraça: eu podia perdoar-lhe e esquecer. Hoje é a minha vergonha! Antes me queria amarrada na forca, do que unida ao mais vil dos homens.

A moça abatida com o estupor que lhe causara a presença de Romero, se tinha deixado arrastar àquele casamento; mas agora na solidão de seu aposento, ameaçada pelas carícias do ente desprezível, sua alma reagia contra o opróbrio dessa cruel situação.

— Serei tudo que você quiser, Catita; mas o meu crime qual foi, senão o amor cego que lhe tenho?
— Seu amor seria para mim um insulto!
— Lembre-se que já fui bem castigado com o receio de perdê-la para sempre. Não acha que mereço seu perdão? Eu suplico de joelhos.

Romero caminhava para a moça, que recuou horrorizada até o leito. Aí no desespero de se ver sem defesa, à mercê daquele homem, que era seu marido, acudiu-lhe uma lembrança. Metendo a mão trêmula por baixo do colchão apalpou o cabo da faca de Manuel.

Entretanto Romero aproximando-se passara o braço pelo colo da noiva, e inclinou-se para beijá-la. Catita retraiu-se violentamente, e o ferro grilhou em sua mão. Ouviu-se um grito de aflição.

A faca rolou pelo chão, ao tempo que a moça caía desmaiada sobre o leito. Faltaram-lhe as forças pensando que já o coração de Romero estava traspassado pelo ferro; quando este apenas cortara as roupas e arranhara a epiderme.

O chileno sorriu vendo a moça inanimada. Esse amor travado de ódio, a luta violenta que prostrara aquela mulher, o excitavam.

— Agora é minha!
Nesse momento alguém travou-lhe do punho. Era Manuel.

XI
PRANTO

Pouco falta para a madrugada.

A noite arrasta-se pesada e lúgubre no meio de uma calma assustadora, que estranha a natureza. Nem um sopro de aragem bafeja a terra, encandecida ainda pelo intenso calor do sol. As estrelas rubras e imersas em um limbo escuro, parecem tochas a bruxulear na sombra de um templo forrado de crepe. No horizonte opaco se debuxam as cúpulas das árvores, semelhantes a massas de granito.

Essa estagnação de luz, de ar e vida, imprimia à natureza uma imobilidade medonha; dir-se-ia o orgasmo que precede à convulsão e ao delírio.

Dois vultos passaram. Caminhavam rapidamente ao lado um do outro, e dirigiram-se a um ermo bronco e erriçado de fraguedos que ficava nas abas da vila. Quem os visse de longe a par como camaradas de prazer e ventura, não suspeitaria decerto que iam matar-se.

A algumas braças de distância seguiam dois animais a passo. Eram Juca e a Morena que de longe acompanhavam o senhor; como se pressentissem a desgraça iminente, eles tão altivos sempre e tão impetuosos, caminhavam tristes e cabisbaixos, pisando sutilmente para não despertarem os ecos da noite.

Chegados a uma rechã, que ficava entre uma charneca profunda e uma fraga alcantilada, Manuel parou voltando-se para o companheiro, e enrolando no braço esquerdo o seu poncho.

D. Romero tivera a cautela de armar-se e, bem disposto como estava a acabar de uma vez com essa obsessão que sobre ele exercia o gaúcho desde a primeira vez, resolvera matar esse homem, quebrando sua influência maléfica, ou sucumbir logo, morrendo às suas mãos.

Sem proferir palavra, sem trocar uma injúria ou ameaça, os dois inimigos atacaram-se com a faca em punho e com uma sanha terrível. O chileno não era mais o rapaz enervado pelos prazeres; o rancor percutindo as energias sopitadas dessa organização, tornara o casquilho de ontem um campeão formidável.

Durante algum tempo não se ouviu mais do que o triscar do ferro quando as facas se roçavam, e o resfolgo da respiração. Mas afinal o chileno conhecendo que não podia lutar contra o punho de aço do gaúcho, deu um salto para trás e pôs-se fora do alcance da faca.

Tirando então da cintura as pistolas desfechou os dois tiros sobre o Canho. Uma das balas embebeu-se nas rugas da bota; a outra, queimando os cabelos do gaúcho, bateu contra o rochedo. Romero não teve tempo de ver o efeito dos tiros; antes que se dissipasse a fumaça, Canho se precipitara sobre ele como um tigre, o arremessara ao chão, e lhe calcara o pé sobre o pescoço.

A estrangulação foi rápida. Uma crispação violenta percorreu o corpo do chileno, e deixou-o já cadáver.

Manuel em pé, com os olhos no semblante do morto, teve uma cruel decepção. A vingança terrível, que devorava sua alma, ali estava sem pasto para saciar-se, diante daquele mesquinho despojo. As más paixões humanas têm a mesma natureza das feras. O tigre sedento, que depois de percorrer a selva não acha para mitigar-lhe a calma mais do que o resto de um reptil exangue, deve sentir aquele desespero.

O gaúcho empurrou com a ponta do pé o cadáver, que rolou pelo despenhadeiro; e dirigiu-se ao lugar onde percebia os vultos de Juca e Morena, que tinham assistido imóveis à luta. O silêncio e a espécie de estupor moral que se apoderara do Canho desde o dia fatal da perdição de Catita, se comunicara a seus dois amigos e companheiros. Eles três não formavam mais do que uma alma, uma vontade, cujo foco era o coração do gaúcho.

Se não estivesse tão concentrado em si mesmo e abstraído do mundo exterior, ao aproximar-se Manuel teria percebido uma sombra que se esgueirou por detrás da folhagem de alguns arbustos.

A mão do gaúcho, encontrando os arreios nas costas da Morena, começou automaticamente a apertar a cincha, que é costume afrouxar enquanto o anima descansa. Em meio desse movimento maquinal o espírito foi arrebatado por um turbilhão de pensamentos. A fronte derrubou-se, e um soluço rompeu do peito arquejante. Pela primeira vez em sua vida aquele homem soube o que era o pranto, e chorou como uma criança.

Nesse momento a mesma sombra que sumira-se pouco antes, assomou entre a folhagem, indecisa se devia avançar ou retrair-se.

Entretanto Manuel, com a alma já desafogada daquela ânsia que o sufocava, cingiu nos braços o colo da Morena e do Juca, e estreitou-os fortemente ao peito; a voz que desertara de seus lábios, balbuciou enfim algumas palavras truncadas pelo ofego:
— Aqui estou, meus amigos! Fui ingrato; amei-a mais do que a vocês e ela me traiu, me abandonou! Era mulher; sabia falar; havia de mentir. Oh! eu bem quis fugir-lhe, eu que desde menino aprendi a conhecê-las. Mas a fatalidade me arrastou.

A angústia sufocava-lhe a voz por instantes:
— Há quatro anos que vocês me acompanham e até hoje um só dia não cansou a dedicação que têm por mim; também nunca me prometeram coisa alguma. Ela, jurou-me seu amor e um mês depois era... uma desgraçada!
Manuel esmagou as lágrimas que lhe saltavam dos olhos; e constringiu o seio para sufocar-lhe o arquejo.

— Fujamos deste mundo infame! Vamos ao deserto, onde o homem é fera como o tigre. Lá ninguém há de ser enganado pelo amigo e traído pela mulher. Cada um só conta consigo; se quer um irmão tem o seu cavalo fiel. Noiva, encontra-se no primeiro rancho: de manhã não se conhecia, à noite já esqueceu. Vamos, amigos, vamos aos pampas! Lá, somente lá, naquela imensidade, poderei matar esta sede que eu sinto n’alma, esta sede de espaço, que me sufoca. Correr!… Quero correr! correr sem parar, correr sem fim, até que se abra o inferno para nos devorar!…
A sombra imóvel resvalou. Sentindo que procuravam travar-lhe da mão, o gaúcho voltou-se, e viu um vulto de mulher ajoelhada a seus pés.

— Manuel!
Nesse momento o orbe imenso da lua assomava no horizonte como a boca da forja que exala um fumo ígneo. Seu rúbido clarão, desdobrando-se pelo ermo, debuxou o semblante pálido de Catita com os cabelos desgrenhados e a alucinação na fronte.

Manuel recuou transido de horror, voltando o rosto para subtrair-se à visão que o perseguia.

— Eu te suplico, Manuel! Não me fujas, não me abandones neste desprezo que eu sinto de mim mesma! Mata-me! Esmaga-me a teus pés, como uma coisa vil. Abençoarei a morte, por mais cruel que seja, dada por ti.

Ofegante, despedaçada pela dor, arrastou-se aos pés do gaúcho, rojando a fronte pelo chão, e umedecendo com os soluços o pó que seus cabelos levantavam.

XII
O PAMPEIRO

Um ruído surdo reboou pelas grotas e algares que alcantilavam o cerro abrupto. Parecia que a terra arquejava com o estertor de um pesadelo.

Ao mesmo tempo uma exalação ardente como o vapor de uma cratera derramou-se pela solidão. As feras uivavam longe na profundeza das selvas; e as aves espavoridas passaram soltando pios lúgubres. Os dois cavalos, com o pêlo eriçado, resfolgavam aquele bafo ígneo, semelhante ao fumo de uma batalha; eles o conheciam: era o sopro da pátria selvagem; era o fôlego do pampa.

De repente a lua sepultou-se. Céu e terra submergiram-se num oceano de trevas. O aluvião das procelas se arremessara do horizonte e inundara a imensidade do espaço. Houve então um momento de silêncio pavoroso; era a angústia da natureza asfixiada pela tormenta.

Afinal ribombou o trovão na vasta abóbada negra, sobre a qual o relâmpago despejava cataratas de chamas. Não era uma tempestade; mas um turbilhão de tempestades, bacantes em delírio, que tripudiavam no céu. Como os touros acossados pelo gaúcho arremetem com fúria e rompem a selva bramindo, assim o tropel das borrascas disparava pelo espaço.

O pampeiro, varrendo dos cimos dos Andes todas as tempestades que ali tinham condensado os calores do estio, verberava na imensidade as pontas do látego formidável com que ia açoitar o oceano.

Atônitos e mudos de espanto, os animais contemplavam o grande paroxismo da natureza. A voz do trovão, o verbo das grandes cóleras celestes, sopitava todos os gritos e todos os rumores. A terra pávida e estupefata recebia a tremenda flagelação no meio das gargalhadas satânicas do raio que surriava fustigando as escarpas do rochedo.

Únicos, no meio dessa horrível subversão, aquele homem e aquela mulher não se apercebiam dos furores da procela; dentro de suas almas lhes tumultuava outra furiosa tormenta que as devastava com sanha mais terrível que a do raio.

Abraçada aos pés do gaúcho, Catita murmurava:
— Nunca amei senão a ti, Manuel, eu juro. Não digo isto para que me perdoes. Não mereço, não quero perdão. Mas vê o que sofri, e estou sofrendo neste momento. Tu foste traído; e eu que me traí a mim mesma?… Eu que me detesto mais do que tu podes detestar a infeliz que te enganou?… Amar, e sentir-se indigna desse amor, não há maior suplício, Manuel!
A alma do Canho se crispava, semelhante ao mísero que tomado de vertigem à beira do precipício se estorce e contrai para escapar à fascinação do abismo, e debalde estende as mãos convulsas em busca de algum frágil apoio. Com os olhos fitos no semblante da moça, que os relâmpagos cingiam de uma auréola fulmínea, a alma do gaúcho se arrojava de novo nas torturas atrozes por que passara durante os últimos dias, esperando assim subtrair-se à irresistível atração dessa mulher, a quem amava ainda, mas com assomos de furor.

— Manuel, por piedade, Manuel, não me fujas. Ouve! A mulher que tu amaste não existe mais, morreu, ninguém sabe dela. Esta que te fala, nunca a viste, não a conheces; é uma desgraçada que por acaso encontras em teu caminho e que te implora de joelhos a esmola de uma palavra, de um olhar. Não te pede senão compaixão para este desespero com que te ama. Que te custa? Deixa-me seguir-te ao deserto; quando minha presença te aborrecer um dia, atira-me, ou deixa-me no rancho abandonado onde nunca mais voltarás, mas onde eu ficarei te esperando sempre até morrer consumida pela doce esperança.

Durante esta súplica férvida e soluçante, Manuel lutava com a comoção que o invadia. voltado com o impulso do homem que se precipita, ele estacava como suspenso por uma força ingente; entretanto o que o detinha era apenas a mão frágil de uma mulher.

Afinal, cedendo à fascinação, curvou-se lentamente para Catita, que viu ressumbrar-lhe na fisionomia o soçobro d’alma.

— Ah! tu és bom! Tens dó de mim!
— Não! exclamou Canho com veemência.

Repelindo a moça arrebatadamente, ia correr ao lugar onde o esperavam os animais, quando Catita com um ímpeto bravio atalhou-lhe o passo:
— Leva-me contigo ou mata-me! exclamou cerrando convulsivamente as mãos do gaúcho.

O olhar alucinado de Manuel pousou um momento no semblante de Catita e sondou a profundeza do precipício que se abria quase a seus pés, iluminado pelo lívido clarão do relâmpago. Sua mão terrível abarcou na cabeça da moça as longas tranças negras, revoltas pelo sopro da tempestade, e arrastou-a até a borda do abismo.

Rasgou-se nesse momento o céu e a meio do algar, suspenso aos galhos de uma árvore seca, apareceu o cadáver do chileno:
— Olha! Ele te espera! disse Manuel suspendendo a moça para arremessá-la no precipício.

Mas Catita lhe cingira os braços ao pescoço; seu hálito crestou-lhe o rosto. A esse contato desamparou-o toda sua força; os braços lhe caíram inertes e ele afastou-se com o passo trôpego, vacilando como um ébrio. A moça, espavorida do que fizera, seguia Manuel com um olhar pasmo.

Nesse momento um sopro glacial cortou como uma corrente de gelo a atmosfera abrasada.

O peito de Manuel dilatou-se num amplo respiro. Semelhante ao homem que saísse de uma caverna abafada, ele bebia aquele ar frio às golfadas; com os lábios descerrados, os braços abertos, parecia receber um amigo a quem estreitava ao peito.

— O pampeiro!… exclamou.

O filho do deserto, assomando no horizonte, soltou seu primeiro bramido, que sibilou no espaço e fendeu como uma seta o ronco do trovão. Imediatamente as tempestades que trotavam no firmamento fugiram pávidas para os confins da esfera, como um bando de capivaras ouvindo o berro da jibóia.

O pampeiro é a maior cólera da natureza; o raio, a tromba, o incêndio, a inundação, todas essas terríveis convulsões dos elementos não passam de pequenas iras comparadas com a sanha ingente do ciclone que surge das regiões plutônicas como o gigante para escalar o céu.

Ei-lo, o imenso atleta que se perfila. Seu passo estremece a terra até as entranhas; a floresta secular verga-lhe sob a planta como a fina relva sob a pata do tapir; seu braço titânico arranca os penhascos, as nuvens, as tempestades, e arremessa todos esses projéteis contra o firmamento.

Luta pavorosa que lembra as revoltas pujantes do arcanjo das trevas precipitado pela mão do Onipotente nas profundezas do báratro. O maldito, prostrado no seio das chamas eternas, ressurge possesso levantando-se para ascender ao céu; nada lhe resiste; a abóbada do firmamento treme abalada por seu ímpeto violento. Mas que Deus incline a fronte, e Satã cairá fulminado pelo olhar supremo.

O ímpeto do tufão toma todas as formas da ferocidade; sua voz é a gama de todos os furores indômitos. Ao vê-lo, o terrível fenômeno afigura-se uma tremenda explosão da braveza, do rancor e da sanha que povoam a terra.

Aqui o pampeiro surge e arremete como cem touros selvagens escarvando o chão; ali sente-se o convólvulo de mil serpentes que estringem as árvores colossais e as estilhaçam silvando; além uiva a matilha a morder o penhasco donde arranca lascas da rocha, como lanhos da carne palpitante das vítimas; agora são os tigres que tombam de salto sobre a presa com um rugido espantoso. Finalmente ouve-se o ronco medonho da sucuri brandindo nos ares a cauda enorme, e o frêmito das asas do condor que rui com hórrido estrídulo.

E tudo isto, sob um aspecto descomunal e imenso, não é senão a voz e o gesto do gigante dos pampas, concitado das profundezas da terra, para subverter o orbe.

Manuel recobrara o alento respirando o ressolho do tufão, e vendo-se envolto por essa grande alma do deserto. O fracasso dos rochedos arremessados às nuvens e chocando-se no espaço; o estrépito das florestas convulsas que estalavam entre as garras do ciclone; o ruído das casas arrancadas ao chão que se desfaziam no ar trituradas como um torrão de argila; todos esses ecos de ruína e devastação deleitavam aquele coração enganado.

O espírito de Manuel sentia naquele momento a necessidade de cavalgar o tufão como a um corcel bravio, e precipitar-se com ele pelo espaço, arrasando tudo em sua passagem e matando em sua alma a sede horrível que sentia de mortes, desastres e catástrofes.

Quando ia montar na baia, outra vez o prendeu a mão de Catita que se precipitara com veemência e esforçava para retê-lo. Mas repelindo-a com rudeza, saltou ele no lombo da Morena que desapareceu como a folha arrebatada pelo sopro do pampeiro.

Levado pela corrida veloz, Manuel sentiu no peito uma constrição que em seu desvario lhe pareceu de uma tenaz ardente. Catita se lançara na garupa da Morena no momento de partir; era sua mão delicada que lhe esmagava o coração.

Sem forças para desprender-se daquela cadeia, queimando-se ao tépido contato do talhe voluptuoso da moça que estreitava-se com ele, o gaúcho soltou um bramido, como se chamasse em socorro seu o pampeiro, e precipitou-se numa corrida louca e esvairada, cuidando fugir assim ao tormento.

Mas abriu-se diante a fauce escâncara do abismo. O pálido clarão da lua, surgindo dentre as brumas da procela, iluminou o alcantil que sumia-se pelo antro profundo. Agarrado a uma ponta de rochedo, à borda do despenhadeiro, via-se o busto de Félix com a faca nos dentes, lutando com o tufão e devorando com os olhos a distância que ainda o separava do gaúcho.

A Morena ia estacar; Manuel, reclinando-se ao pescoço, gritou-lhe:
— Upa!
Ouviu-se um anseio, um estridor de ramos partidos, o baque de um corpo no fundo do algar, o estrupido de um galope ao longe; e a voz formidável do ciclone cobriu todos esses pequenos rumores. Súbito, porém, como se o filho do pampa só houvesse deixado as estepes nativas para buscar o gaúcho e levá-lo ao deserto, a natureza quedou-se. Cadáver depois da tremenda agonia.

O sol despontava.

A manhã límpida e serena esparziu a doce luz por aquela terra convulsa. No meio dos sobejos da borrasca, entre as estilhas dos troncos seculares, as farpas de rochedo e o solo revolto, o tenro grelo da semente rompia o seio da terra; e a flor azul de uma trepadeira estrelava suas pétalas aveludadas.

NOTAS AOS LIVROS PRIMEIRO E SEGUNDO

I

Gaúcho e pião são até certo ponto sinônimos; ambos estes vocábulos designam o habitante da campanha do Rio Grande, o sertanejo do sul, cujos costumes têm muitas afinidades com o vaqueiro do norte.

Todavia o primeiro destes vocábulos exprime antes o tipo, a casta, enquanto que o outro se aplica especialmente ao mister ou profissão. Assim gaúcho é o habitante livre, altivo e independente da campanha, que ele percorre como senhor, levando a pátria, como o antigo Cita, nas patas do seu corcel. Pião é proletário que se ocupa da criação do gado nas estâncias, para o que deve ter suma destreza em montar a cavalo, correr as reses no campo, laçá-las ou boleá-las sendo preciso.

O habitante da campanha do sul não se deslustra por ser pião, que ele tem em conta de uma profissão nobre; mas honra-se de ser gaúcho, de pertencer a uma casta independente, distinta e mais viril do que a dos filhos das cidades, enervados pela civilização.

Por isso, muitos estancieiros ricos fazem timbre de ser gaúchos; adjetivaram o termo para designar os traços característicos da casta, como a lança gaúcha; e criaram o verbo gauchar para exprimir uma das feições do tipo, a ociosidade e a casquilharia a cavalo. O gaúcho é o janota da campanha.

Em uma obra do Sr. D. Alexandre Magarinos Cervantes, Caramuru, que eu só conheço por um artigo crítico do Sr. Torres Caicedo, há um estudo sobre o gaúcho argentino, do qual talvez aproveitasse muitas observações o Sr. cônego Gay na curiosa nota 99, de sua História da República Jesuítica do Paraguai.

Desconheço a etimologia dos dois vocábulos, e ignoro se alguém antes de mim já se deu ao trabalho de investigá-la, o que é provável. Todavia indicarei de passagem o resultado de minhas conjeturas a este respeito.

Gaúcho, de origem castelhana, usado principalmente nas margens do Prata, donde passou para o Rio Grande, parece-me ser corrutela do termo espanhol gacho, o qual se aplica ao boi ou cavalo que anda com a cabeça baixa; daí figuradamente se disse sombrero gacho por chapéu de abas largas caídas, e se derivou gachonear e gachoneria, que exprimem a idéia de faceirice e galanteio. Ou pela forma do chapéu de baeta; ou pela garridice do pião, tocador de viola, cantador de modinhas, pernóstico e cheio de lábias; ou pela forma do chapéu desabado; teriam começado a aplicar-lhe aquele termo, cuja pronúncia gatcho a aspiração áspera do guarani tornou a princípio em gáutcho, e depois mais abrasileirada em gaúcho.

Quanto à palavra pião, a dificuldade não está na formação do vocábulo, mas na metáfora que ele encerra.

Geralmente os lexicologistas consideram peão e pião um mesmo vocábulo com significações diversas. Quer me parecer que peão vem do latim bárbaro pedo, onis, homem de pé grosseiro, qui pedes latos habet; daí se derivou o italiano pedone, infante, isto é, soldado ou criado a pé, o francês pion, e o espanhol peon, com a mesma significação.

Pião vem do latim pinus, o pinheiro, e pinea, a pinha; donde os italianos derivaram pina, os espanhóis pinon, os franceses pignon e nós pinhão. Talvez em muitas significações dessa palavra pião, influísse também a palavra pinna — asa, pena, para exprimir a idéia do movimento de rotação.

Peão é pois o homem que anda a pé; e figuradamente o mercenário, o indivíduo de baixa classe, o soldado de infantaria, e a peça conhecida do xadrez. Pião é a grimpa da torre; o mastro que levanta ampara o cimo da tenda; o eixo do moinho; o reparo do canhão; a pitorra ou carrapeta; e finalmente a peça de manejo em torno da qual se fazem girar os animais no picadeiro, quando os domam e ensinam.

Seria uma anomalia que peão, isto é, pedestre, fosse adotado para significar a profissão de homens que passam a vida a cavalo, com tal excesso que têm à porta do rancho o animal arreado de manhã até à noite, e não andam cem passos a pé. Ainda que há exemplos de tais inversões etimológicas, parece-me que a metáfora foi inspirada pelo termo de picaria, pelo manejo de ensinar os animais.

II

Os espanhóis que primeiro povoaram a América Central, deram o nome de sabanas às imensas planícies rasas que se dilatam por aquelas regiões, e que realmente, no dizer dos viajantes, parecem à noite cobertas de um branco lençol.

É o mesmo que os ianques chamam far-west, e os russos estepes. O termo espanhol foi adotado no francês e inglês; entre nós anda usado por boas autoridades. Quanto ao russo estepes já o vi empregado pelo Sr. A. Castilho, se não me falha a memória, em um trecho da tradução de René.

Ambos são expressivos; mas nenhum tem a energia e a beleza do nome americano pampa.

III

A princípio respeitei a corrutela da palavra poncho, que o vulgo pela homonímia confundiu com o antigo vocábulo português ponche, de significação muito diversa.

No espanhol, donde recebemos as duas palavras, há diversidade na terminação; nas crônicas antigas o mesmo se observa; mas creio que modernamente cessou a distinção, e aí está o lugar Ponche-Verde para o indicar.

Foi esse nome topográfico a razão de adotar em princípio a versão moderna, do que logo me arrependi.

IV

Idiotismos e gíria da campanha:
Sanga, pequena várzea ou brejo. — Coxilha, colina. — Cerro, monte, às vezes pedregoso. — Lomba, ladeira, encosta. — Restinga, língua de mato à beira dos arroios. — Banhado, pequeno vale ou baixa. — Biboca, barrancas e grutas. — Rincão, pastio para cavalhadas. — Potrero, pequeno pasto próximo à habitação e cercado por valado. — Mangueira, curral. — Posto, rancho do pião. — Ramada, choça de folhas. — Estância, fazenda de criação. — Capataz, administrador da fazenda. — Charqueada, fábrica do charque ou carne-seca. — Carneador, o pião que mata a rês, esfola e manteia a carne. — Salgador, o que a salga. — Descarnador, o que limpa e prepara o couro. — Chimango, o que toma conta dos ossos para extrair a graxa. — Continentista, o habitante do Rio Grande, termo de origem colonial, criado para o distinguir do habitante da ilha de Santa Catarina. — Baiano, todo o brasileiro do norte. — Canela vermelha, o paulista. — Castelhanos, os espanhóis americanos. — Cachetilha, janota da cidade, oposto ao gaúcho que é janota da campanha. — Churrasco, carne apenas sapecada. — Assado de couro, carne que se assa ainda pegada ao couro, que lhe serve de caçarola. — Mondongo, tripas ensopadas. — Bagual, cavalo selvagem, xucro. — Poldro, a cria da égua enquanto pequeno. — Potro, poldro que atingiu todo o crescimento, mas não é cavalo ainda. — Macega, uma espécie de capim. — Pago, pasto.

V

O laço é muito conhecido em todo o país; quanto às bolas, são peculiares à campanha do Rio Grande do Sul e do Prata, onde os primeiros colonos receberam dos indígenas essa arma terrível.

Consta de três bolas de pedra, de ferro, ou de madeira, retovadas (cobertas) de guasca e presas a três fiéis (correias), ligadas pela extremidade. Uma dessas bolas é mais pequena e o seu fiel mais curto; chama-se manopla; nela segura a mão, quando imprime a rotação ao projétil, para arremessá-lo. Costuma atirá-la 50 passos antes do animal que serve de alvo.

VI

Os arreios à gaúcha, muito usados nas províncias do sul, são bem conhecidos.

Compõem-se de muitas peças: primeiro se deita no costado do animal o xergão, que é um suador ou acolchoado para evitar que o animal se pise; em segundo lugar a carona de baixo que é uma grande manta; depois a xerga, pequeno cobertor de lã, sobre o qual põem a forma de ferro do selim, a que chama lombilho; em cima desta outra carona ou capa de sola bordada.

Acocham tudo isto com a cincha, cilha muito larga, e cobrem com um pelego de carneiro colorido e um coxonilho preto. Finalmente vem a badana, pequeno couro apertado por uma sobrecincha estreita. Parece-me que a origem desses arreios se deve atribuir à introdução, em Espanha e Portugal, dos usos e costumes mouriscos. Até as grandes esporas chamadas chilenas do nome Chile, talvez não sejam mais que uma exageração das antigas esporas mouriscas, muito usadas no tempo do descobrimento e colonização do Brasil.

VII

Há neste livro algumas inovações filológicas.

Escrevo capoão e não capão, o nome da coroa ou ilha de mato. Além de mais correta, e conforme a etimologia — Caa-apuam, tem a vantagem de não se confundir com o outro vocábulo de origem portuguesa. Assim como dizemos capoeira, derivado da mesma raiz — caa-apuam-era, mato raso, por já ter sido cortado, não há razão para sermos incorretos em capoão.

Henito — do lat. hinnitus, donde os franceses derivaram hennissement, não encontrei em Morais ou Constâncio. Fonseca, creio que dá hinnir e hinnito. Para exprimir o rincho triste e prolongado do cavalo, não conheço mais perfeita onomatopéia do que esse vocábulo hinito.

A longa aspiração na primeira sílaba da palavras esdrúxula, traduz perfeitamente o rincho de dor; assim nitrido exprime o rincho viril e marcial do corcel.

O latim hinnio veio sem dúvida da mesma raiz que o saxônio wannian, lamentar-se, donde os ingleses tomaram whinny para exprimir a mesma idéia do rincho plangente.

VIII

A respeito do desarmamento de Lavalleja em 1832, achei bom cabedal na excelente obra do Sr. Pascual — Apuntes Para la Historia de la Republica Oriental.

Quanto, porém, à revolução rio-grandense de 1835, tive de consultar os jornais do tempo, onde se acham transcritas as participações oficiais. Não encontrei, nem tive notícia de crônica ou memória escrita sobre este importante acontecimento, cuja lição não aproveitou; pois desde 1850, estamos reincidindo nos mesmos erros, cometidos por Portugal, e por nós desde a independência até que apareceu a explosão.

NOTAS AOS LIVROS TERCEIRO E QUARTO

I

Parece escusado advertir que ao caráter de Romero, neste livro, não se quis imprimir um cunho nacional. Da raça há sem dúvida traços bem salientes, na índole casquilha e aventureira; o mais é resultado do temperamento, que forma a individualidade, independente de quaisquer acidentes locais.

Não podia pois caber na mente do autor a idéia de lançar o odioso personagem à conta de uma raça que renova na América as tradições gloriosas da Europa; e de um povo ilustrado, que tanto se distingue por sua perseverança e energia nas conquistas da liberdade e da civilização.

Também, por forma alguma, exprimem sentimentos e convicções do autor os ditos e observações malévolos de certos personagens a respeito de orientais e argentinos, designados comumente na campanha pelo termo castelhanos.

Nas fronteiras, o contato de populações de nacionalidade diferente produz geralmente a repulsão com seu cortejo de lutas e vinganças, embora algumas vezes se estabeleça uma certa adesão, como apoio à resistência contra o respectivo governo. Essa é a história da nossa fronteira do sul; ao mesmo tempo couto de caudilhos nossos e refúgio de rebeldes estrangeiros.

A civilização que se vai propagando por aquelas regiões há de brevemente desvanecer esses resquícios de barbaria, estreitando a união de povos ligados pelo mesmo amor da liberdade, e pelas mesmas aspirações de engrandecer o nome americano.

II

Neste livro, como em todos do mesmo gênero que tem escrito o autor, se há de ler freqüentemente em diálogos — diz e faz, na 2ª. Pessoa singular do imperativo, em vez de dize e faze, conforme a lição gramatical.

É um idiotismo brasileiro, senão português ainda, como aquele que pela mesma apócope suprimiu o e final na 2.ª pessoa singular do indicativo de muitos verbos. Os antigos diziam, ele induze, seduze, conduze, etc., dize, faze, luze, quere, etc. Depois de João de Barros se começou a dizer, ele induz, seduz, conduz, diz, faz, quer, conservando-se porém o e no imperativo.

Geralmente a 2.ª pessoa singular do imperativo é uniforme com a 3.ª pessoa singular do indicativo. Exp.: ele tem, tem tu, ele está, está tu, ele ama, ama tu, ele põe, põe tu, etc. Ora o povo tem o instinto gramatical; e portanto, nos verbos de uso vulgar, adotou a fórmula diz (tu), faz(tu), por mais natural e breve e eufônica.

Outro idiotismo brasileiro que se há de achar nas obras do autor é janta, palavra que não traz o dicionário de Morais. O uso a derivou do verbo jantar, com a mesma boa razão que teve para fazer monta de montar, cava de cavar, planta de plantar, etc.

No Brasil é freqüente na linguagem familiar o emprego desse vocábulo para exprimir a refeição que se toma no meio do dia, no ordinário das casas. No norte especialmente a palavra jantar serve mais para indicar a janta com aparato, o banquete, ou pelo menos o convívio. Assim tenho ouvido dizer com muita propriedade: — Põe a janta na mesa — São horas da janta, etc. Dei um jantar a alguns amigos — Fui convidado para um jantar.

Jantar neste caso distingue a hora do banquete, que podia ser pela manhã, como almoço, ou à noite, por ocasião da ceia.

É natural que certos críticos não achando a palavra nos dicionários, a capitulem de erro, esquecendo que os léxicons, onde vão beber a lição da língua, são meramente portugueses e portanto omissos a respeito de muitos brasileirismos que escaparam ao erudito pernambucano A. de Morais Silva, e que talvez se propagaram posteriormente à confecção de sua obra.

Ainda o Brasil era colônia de Portugal quando, sem licença dos clássicos e dos gramáticos, ia criando palavras novas à medida de suas necessidades. Citarei — bandeirante, sertanista, matuto, bombear, amadrinhar, orelhano, invernista, açouteira, e tantas outras de derivação portuguesa, sem contar muitas de raiz americana ou africana.

Cumpre que nos compenetremos dessa verdade. O uso de nosso povo e o bom-gosto dos escritores nacionais hão de cunhar palavras brasileiras, apesar das iras clássicas e das excomunhões dos gramáticos.

III

Além dos idiotismos rio-grandenses, notados no 1.º volume, se encontrarão neste os seguintes:
Guampa, jarro ou copo de chifre. — Tomar uma guampa equivale ao idiotismo fluminense, tomar uma pinga ou matar o bicho. — Farroupilha, nome dado aos rebeldes. — Caramurus, nome do partido legalista em princípio. — Parelheiro, não só o que aposta no jogo das corridas, como os rapazes que voltam do passeio à rédea solta, porfiando carreiras. — Rusga, barulho, motim, escaramuça; no norte do Brasil, penso que rusgar se aplica com preferência como sinônimo de ralhar. — Rosetear, fazer retinir a roseta das esporas andando ou dançando; é um cacoete gracioso dos gaúchos que por essa prenda são chamados roseteiros. — Levar carona, ser enganado. — Dar pancas, sobressair, fazer bonita figura, exceder-se. — Ginete, usa-se muito freqüentemente na significação clássica de cavaleiro destro e bem parecido; distingue-se de monarca, porque este termo refere-se ao cavaleiro vistoso que traz arreios de prata e veste-se com entono e casquilharia, embora não seja dos mais destros. — Bolívar, naquele tempo era um sombreiro à semelhança do que usava o célebre general boliviano, cuja popularidade foi causa de se vulgarizar o uso daquela forma de chapéu, e tornar-se moda na campanha. — Chulear, espreitar o ponto no jogo do pacau, trinta-e-um, etc., fazendo trejeitos e moganguices. — Coringa, é palavra muito geral em todo o Brasil para designar o dois de paus naqueles jogos.

IV

Reservei-me para nesta última nota dizer alguma coisa sobre o livro, já em parte sujeito às provas públicas.

O acolhimento feito pelos órgãos mais ilustrados da imprensa desta corte ao 1º volume foi dos mais benévolos; a ponto que o autor é obrigado a lançá-lo à conta da generosidade.

Assim corresponda o 2º volume à expectação criada pelas palavras amáveis de escritores de tanta e merecida autoridade. Há elogios que obrigam, como no antigo mote se dizia da nobreza a respeito dos cavaleiros.

O 1º volume é o desenho de um grande cenário, e o esboço de um caráter vigoroso, cuja exuberância ainda não foi revolta e propelida pelo esto da paixão.

No 2º volume começa o drama: o cenário se anima e o caráter apenas traçado entra em ação. O despertar daquele coração devia ser violento: é uma explosão; é um amor que nasce no meio dos combates sanguinolentos, e na hora aziaga se refugia nas vascas da natureza, nas lutas espantosas dos elementos.

Se o drama está na altura dos caracteres, se estes se desenvolvem na ação naturalmente e com a lógica das paixões humanas, pontos são estes que pertencem à crítica. O autor se dispensa de maiores observações: apenas dirá que de propósito procurou tirar as situações mais comoventes de cenas triviais.

Não faltará quem increpe o livro de inverossímil, na parte relativa ao cavalo. Duvidar hoje, depois de tantos fatos e de tão respeitáveis testemunhos, dos resultados admiráveis do instinto dos animais, é uma excentricidade que não vale a pena de refutar. Demais, neste livro, a maior parte dos atos inteligentes praticados pelo cavalo são antes atribuídos pelo gaúcho ao animal, do que atestados pelo escritor.

Quanto à parte histórica, o autor foi mais sóbrio do que desejava, e quiçá do que esperava o leitor; limitou-se a atravessar de relance o prólogo da revolução rio-grandense. A isso o obrigaram seus escrúpulos; trinta e cinco anos, menos de meio século, não bastam para arquivar fatos e personagens tão ligados ainda ao presente pelos vínculos das paixões e da família. Nem todos os bustos dessa galeria são, como o de Bento Gonçalves, da classe daqueles homens que ao sair do mundo entram logo na posteridade. Muitos há cuja memória sofre uma espécie de incubação antes de pertencerem à história.

Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante

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