Alcançando Verdum, Manuel embora disposto a partilhar a sorte do combate, declarou ao coronel que o ataque naquelas circunstâncias, com tão pouca gente, era uma imprudência; porque o inimigo estava alerta e não se deixaria surpreender.
O oriental insistiu; o resultado foi uma carnificina que ele pagou com a vida. Era a primeira derrota da revolução, a que devia seguir-se em poucos dias a do capitão Porciúncula no Arroio Grande.
Manuel e Juca bateram-se como leões e vingaram a Morena de uma maneira terrível. Quando passavam no meio de um turbilhão por entre os inimigos, dir-se-ia o gênio do extermínio cavalgando um corcel de asas de fogo.
Vem do que de seus companheiros já não restavam no campo senão cadáveres, o gaúcho como um tigre saciado da carnificina, escapou-se. Perseguido de longe pelo inimigo avistou ele adiante o furriel, cuja cavalgadura estropiada galopava sobre três pés.
Passar, suspender Lucas nos ares e encaixá-lo no lombo do Ruão, foi coisa de relance. O miliciano ainda supunha-se espetado na ponta da lança inimiga, que já corria à desfilada, tangido pelo gaúcho.
Era alta noite, quando avistaram as torres de Piratinim. Manuel dirigiu-se ao raleiro onde havia deixado Catita e Morena; a escuridão não permitia distinguir os objetos; mas ele reconheceu logo que o sítio estava deserto e fora recentemente o teatro de uma luta; havia ali um tépido odor de sangue. Com o coração estringido por um terrível pressentimento, faiscou lume do fuzil e acendeu um molho de capim seco.
— Cães! murmurou Manuel transido.
Que horrível espetáculo! No meio do chão revolto viam-se grandes charcos de sangue; e ossos ainda mal despojados da carne, esparsos aqui e ali pela orla do mato. Em um desses acervos de detritos animais, descobriu Canho um pano que ergueu com a ponta da faca e aproximou do fogo.
— Conhece? disse ele para Lucas pasmo ante esta cena.
A voz de Canho pronunciando aquela palavra tinha um acento medonho. Um calafrio percorreu o corpo do alferes, cujo espírito parecia recuar espavorido ante a idéia que assomava. Seu olhar esbugalhado era uma ânsia e uma interrogação.
— É da saia de sua filha!
— Catita!
O nome da filha envolto em um gemido dilacerante, eis tudo quanto se exalou dessa alma selada pela estupidez da dor.
— Foi o senhor quem matou-as, a ambas, arrancando-me daqui. Agora havemos nós de ficar também; os cães naturalmente voltam.
Um estranho riso, que repercutiu na treva como o crocito da coruja, acompanhou estas palavras. O furriel era sem dúvida um homem destemido; mas aquele riso penetrou no seu cérebro como a lâmina de um estoque; súbita alucinação mostrou-lhe o quadro espantoso dos cães famintos esgarçando-lhe em lanhos as carnes palpitantes.
Assombrado, Lucas fugiu.
Manuel, porém, o perseguiu escarniçadamente, e conseguiu afinal agarrá-lo.
Como ia voltar com ele ao sítio donde saíra, encontrou em caminho um troço de dez cavaleiros.
— Quem vai lá?
— Passe seu caminho.
— Manuel!… Escute!
— Quem é?
— Não conhece mais o Chico Baeta? E os outros?
— Lá ficaram.
— Todos?
— Menos os dois que vê. Antes lá ficassem também.
— Até Verdum?
— Foi dos primeiros.
— A coisa vai mal. Agora mesmo chegou este camarada com uma notícia. O Marques sabendo que Bento Gonçalves já estava em Camacã para reunir-se a Neto, mandou uma partida…
— Contra o coronel?
— Sim, para prendê-lo ou matá-lo, que é o mais certo.
Manuel não quis ouvir o resto; assobiou para chamar a tropilha; e saltando no lombo do primeiro cavalo que se aproximou partiu com o Chico e os outros peões, para baterem campo até Camacã, e derrotarem qualquer emboscada, ou morrerem defendendo Bento Gonçalves.
A notícia não era muito exata; o major Marques, o atual visconde de Porto Alegre, comtemporizava diante das forças de Porciúncula, esperando a junção com Silva Tavares, para atacar o chefe rebelde e derrotá-lo, como sucedeu em princípio de outubro.
Quanto a Bento Gonçalves, Manuel o encontrou dias depois na margem do Camacã além do passo do Mendonça. O coronel reunia alguma força para marchar sobre Pelotas, quando soube que Neto havia derrotado Silva Tavares no passo do Retiro.
Manuel, outra vez bombeiro, foi incumbido pelo coronel de espiar os movimentos da força do major Marques, o qual podia ameaçar Piratinim, e dirigir-se à capital desde que achasse o caminho desimpedido.
Eram oito horas do dia.
Oculto na coroa de mato, que cingia a crista de uma pequena coxilha a cerca de duas léguas de Piratinim, o Canho espreitava a campanha, especialmente um ponto distante, à margem do rio. Ali arranchara uma partida de exploradores destacados da força do major Marques.
Manuel a observava desde a véspera e suspeitava que achando a vila desprevenida, tentasse uma surpresa; por isso a precedia obra de uma légua, pronto a dar aviso aos rebeldes, no caso de ataque.
Com os olhos fitos no alvo, e o corpo debruçado sobre o pescoço de Juca, Manuel absorvia-se no pego de recordações dolorosas em que se debatia sua alma desde a noite terrível do combate. Nas trevas de seu espírito ressurgia, tocado pela doce luz da esperança, o quadro que ele vira partindo: Catita a velar com terna solicitude pela Morena, sua irmã na beleza e na dedicação. Súbito aqueles dois vultos queridos sumiam-se num turbilhão espesso; e o painel suave não era mais do que um charco de sangue coalhado de ossos.
A alma do gaúcho se embotara; nem para a vingança tinha mais as energias de outrora. Vingar-se de quem, de um vil animal faminto, que saciara a rafa? Nessa existência fulminada só palpitava ainda uma fibra: a do dever, ou antes, da lealdade. Dedicara-se a uma causa: não podia repudiá-la.
No meio destas cogitações, o pêlo do alazão que Manuel cobrira de uma crosta de lama para disfarçá-lo, hispou-se com um ligeiro arrepio, e a ponta das orelhas afiladas canutaram-se com excessiva rijeza, o que denotava extrema atenção. Despertado por estes sinais, e vendo o largo peito do corcel que sublevava-se num amplo resfôlego, Manuel lançando rapidamente a mão às narinas do cavalo, pôde recalcar a tempo o possante nitro que se desatava já.
Devia ser bem poderosa a causa, que assim perturbava o inteligente corcel, fazendo-o esquecer sua prudência e calma inalterável em face do inimigo. O gaúcho embebeu o olhar na pupila cintilante do cavalo e pela primeira vez não o compreendeu. Entretanto nos ares passava uma repercussão quase imperceptível, como o zumbir de uma vespa.
Os exploradores ao longe arreavam os animais para partir. Manuel voltando às suas lucubrações, observava maquinalmente o que ali passava, mas através da visão horrível que não o abandonava; ele via tudo por entre aquele prisma negro.
Outra vez o quadro suave da despedida assomou a seus olhos; mas a pouco e pouco as imagens se debuxaram com mais vigor; os vultos animavam-se e viviam. A Morena se erguera espasmando os flancos; o talhe esbelto de Catita ondulava-lhe sobre o dorso, ufano deste troféu. A moça e a baia não formavam mais do que uma só existência e uma só pessoa. Era o tipo da beleza esplêndida da campanha; a rainha dos pampas; a gazela do deserto, a amante do centauro americano; a gaúcha enfim.
— Manuel!
Quando esta palavra suspirou entre as folhas, como um arpejo da brisa, Canho levou rapidamente as mãos ao rosto para espancar a alucinação dos sentidos.
Mas era realidade e não sonho a suave aparição. Catita assomava entre a ramagem, por onde perpassou ligeiro o vulto da Morena. foram seus lábios que murmuraram o nome dele; foram seus olhos que cintilaram na espessura.
— Viva! balbuciou o gaúcho.
É ocasião de referir a cena que se passou depois do assalto dos chimarrões.
Resignada a morrer, Catita ficara debruçada sobre o corpo da Morena. um dos molossos primeiro arrojou-se, e abocanhando-lhe a saia arrancou uma tira. Com o grito da moça, a égua despertou; e vibrando o casco, esborrachou o focinho do cão.
O curativo da ferida e a nutrição que recebera tinham restituído à baia algum vigor; e fazendo um esforço pôde erguer-se sobre as três patas, e preparou-se para defender valentemente a vida da amiga que velara sobre ela com tanta solicitude.
Nesse momento os latidos que a moça ouvira em distância aproximaram-se; e um turbilhão passou ante seus olhos. Era uma rês com sua cria assaltada por outra matilha de cães. o animal já ensangüentado, às vezes voltava a face ao inimigo para defender o filho; mas acossado fugia após o bezerro.
Os molossos que haviam atacado Catita seguiram os outros e desapareceram com eles. Aproveitando o respiro, a moça rompeu com a égua por dentro do mato, e afastou-se o mais que pôde daquele sítio funesto. Morena a acompanhava a custo; de vez em quando cedia à fraqueza; mas afinal chegaram à vila.
Entanto a rês exausta da fadiga, depois de muitas voltas pelo campo fora, veio cair com o filho no mesmo lugar onde estivera a égua, pensando achar ali um refúgio. A matilha famulenta devorou-os ainda vivos: o banquete durara até a noite, poucas horas antes da chegada do Canho.
Já então Catita tinha abrigado no quintal da casa a baia, que seus desvelos breve restabeleceram. Depois de alguns dias, a moça pela manhã, quando ia ao banho, montava mesmo em pêlo na Morena, que gineteava com ela pelo caminho, juntas brincavam nadando no rio, e folgavam escaramuçando pelo campo.
Pareciam duas amigas de infância, a fazer travessuras de criança.
Nesse dia a baia despediu como uma flecha pelo campo afora; quando a moça a quis reter, ela soltou um nitrido vibrante e redobrou a corrida. O coração de Catita palpitou em doce alvoroço; pressentira a aproximação de Manuel.
Não se enganara; ao cabo de meia hora, a baia resvalou sutilmente pela coroa de mato, onde estava oculto o bombeiro: foi então que a moça murmurou o nome do Canho, a quem seus olhos agora distinguiam entre a folhagem.
Ei-los em face. Morena acariciou o senhor, e abraçou o filho com o pescoço. Manuel olhava Catita; e a moça embebia-se nesse olhar. Todo o tempo que a alma dele tinha deixado de beber essa imagem querida; todo o tempo que a paixão dela se tinha guardado, como o perfume de uma flor agreste, para influir-se no coração do amante; todo esse longo passado, não vivido, resumiu-se naquele olhar.
Entretanto os exploradores, que tinham visto a baia passar ao longe e sumir-se na coroa do mato, botaram os cavalos nessa direção, e suspeitando alguma emboscada, deram uma descarga para desmascarar o inimigo.
As balas que sibilavam por cima de suas cabeças, não arrancaram os dois amantes ao enlevo da paixão. Suas mãos se tocaram: Catita reclinou a frente enrubescida; e Manuel colheu a flor dos seus lábios mimosos que soluçaram num beijo.
O tropel que reboou perto arrancou o gaúcho àquele êxtase inefável. Impelindo a Morena com um gesto, acompanhou de longe com os olhos o vulto da moça que afastava-se rápida e sutil por entre a folhagem; depois arremeteu contra o inimigo.
Quem já observou os ziguezagues de um raio que listra o horizonte, pode fazer uma idéia do que foi a corrida do gaúcho pelo campo, através dos muitos inimigos que o atacavam. Passou entre eles como a centelha elétrica, deixando um rastro sinistro; e apagou-se de repente, submergindo-se no seio da terra.
Metidos, ele e Juca, em tremedal profundo, zombaram durante muitas horas das pesquisas dos exploradores.
Que bela noite de luar jaspeia os cerros de Piratinim!
Há uma festa na vila. O regozijo das primeiras vitórias da revolução associa-se ao prazer da novena. Lá no adro da matriz passeiam os bandos de moças e rapazes por baixo das arcadas e palmeiras iluminadas com lanternas de papel de várias cores.
Próximo ao coreto, no terreiro cingido por festões e colunas enramadas com folhas de canela, dançavam a tirana que é o lundu gaúcho. As violas trinavam no meio do coro formado pelas risadas, pelos ditos joviais, e pelo rosetear das chilenas.
Catita, de pouco chegada, acompanhava com vivo interesse as evoluções graciosas do par, que sapateava no meio do terreiro. Amiúde seu corpinho gentil arfava com a súbita expansão do passarinho que abre as asas para voar; o pezinho buliçoso e sôfrego calcava o chão com ímpeto, como se o quisesse repelir.
Ao lado da moça estava um mancebo elegante vestido a primor: tinha jaqueta curta de veludo azul com botões de prata; a calça larga da mesma fazenda rematava em franja de renda branca, pouco abaixo do joelho; o xale de touquim amarelo que servia de faixa, apertava à cintura um punhal com cabo de nácar e uma pistola de coronha tauxiada a ouro. Sobre as preguilhas de cambraia do peito da camisa, caíam as pontas do lenço de garça escarlate, que ele trazia como gravata. As botas acamurçadas de couro de terneiro, copavam-se de modo a mostrar a perna bem torneada que debuxava a meia de seda cor de castanha.
Esse casquilho era o nosso conhecido D. Romero, cujo semblante gentil e talhe garboso davam mais realce ao lindo traje. Atirando o pala e o bolívar em cima de um banco, o mancebo dirigiu galanteios à Catita, convidando-a à dança.
Enlevada com os elogios que fazia o mancebo à sua beleza, a moça pagava-lhe em ternos sorrisos; mas recusava o convite, apesar da tentação da viola. Afinal tanto insistiu o chileno que ela rendeu-se.
— Pois sim! murmurou a medo.
Catita não queria tomar parte da função por causa da ausência de Manuel; porém não pôde mais resistir. Há na natureza humana dessas excentricidades; o coração que nas grandes lutas atinge ao heroísmo, é de uma tibieza incrível nas pequenas contrariedades.
Essa moça, que já uma vez arrostara a morte por causa de Manuel; que em um acesso de ciúme não recuara ante o maior sacrifício; que, para receber o primeiro beijo de seu amado, atravessara sorrindo por entre uma chuva de balas, seria capaz ainda em um assomo da paixão de repetir qualquer daqueles atos de intrepidez e abnegação, porém não tinha forças para cerrar os ouvidos aos dengues de um casquilho, nem para esquivar-se ao delírio do bailado voluptuoso.
O que é a vaidade na mulher, senão essa mesma vertigem que alucina o homem sob o nome de glória? Sede insaciável de luz, embriaguez de admiração, na qual muitas vezes afogam-se a honra e a virtude.
D. Romero saltara no terreiro, e bailava com a graça e a bizarria andaluza. Ninguém sapateava com mais garridice, fazendo retinir as rosetas das chilenas ao ritornelo cadente do fandango.
— Assim, roseteiro! diziam os rapazes com entusiasmo.
— Por vida que a Catita fica pelo beiço.
— Que esperança! E Canho?
— Leva carona!
O chileno tinha chegado a Piratinim quinze dias antes, e era novidade da terra. À tarde, quando ele saía a gauchar no seu lindo cavalo castanho não havia moça que não entreabrisse a rótula para deitar-lhe olhadelas matadoras. D. Romero, embora apreciasse e retribuísse essas demonstrações, assestara seus fogos sobre a filha do Lucas.
Depois de algumas voltas, o chileno atirou o desafio a Catita em um passo novo e floreado que todos lhe invejaram.
— Como arrasta a asa o peralta!
— Mas não pilha!
— Pois eu aposto.
Catita havia recusado o desafio de todos os rapazes da roda; e sabia-se o motivo, que era a ausência de Manuel. Agora estavam ansiosos por ver o que ela fazia. Uns apostavam pelo Canho, outro por D. Romero.
— Então!
Essa exclamação partiu dos últimos, vendo o talhe feiticeiro da menina colear-se, como o pescoço de um cisne.
Mas o frêmito de um corcel fendera os ares, atravessando por esse rumor festivo como lâmina buída que traspassasse um coração em júbilo. Um raio de lividez perpassou no semblante da moça, que retraiu-se por um supremo esforço. Para disfarçar o movimento e responder à atenção geral, travou da guitarra, que a seu lado acabava de afinar um cantor de modinhas.
Depois de alguns prelúdios, soltou Catita esse descante:
Entre tantos que me querem
A nenhum posso querer:
Sorte que todos preferem
Só um soube merecer.
Ai! ai! não vejo meu bem.
Já tarda, por que não vem?
Repetia ela segunda vez o estribilho, quando abriu-se a roda, e um vulto, arrebatando a viola das mãos do tocador, saltou da sela no terreiro. Era Canho.
Não tarda, faceira, não
Tu chamaste; ele chegou;
Arreava o alazão
Quando a viola chiou.
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá.
Teu bem, caramba, aqui está.
Manuel já não era o mesmo homem. O amor tinha domado o rei do deserto, o centauro dos pampas: e o atirava de rojo aos pés de uma mulher. Ele dançava com bastante graça, fazendo ruflar as chilenas; e ninguém improvisava melhor no desafio. Entretanto quem o conhecesse passava por uma estranha surpresa, vendo aquele caráter indômito e rígido tão fora de sua natureza. O gavião real, arrulhando como a juriti, não produziria igual impressão.
Por sua vez Catita lançou-se de uma pirueta no torvelinho, com a veemência de um desejo por muito tempo sofreado. Não se imagina a rapidez das evoluções, a flexibilidade dos requebros, e a sutileza do passo, que meneavam esse corpinho gentil nas ondulações voluptuosas da dança gaúcha.
Quem disse, que eu lhe chamei,
Enganou-o, meu senhor;
Se meu coração já dei,
Não sou cigana de amor.
Ai! ai! não vejo meu bem;
Já tarda, por que não vem?
O desafio continuou por algum tempo entre Manuel e Catita:
Ai, vida que me maltratas
Com este fino bailar;
Por que logo não me matas
Se tu me queres matar.
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá.
Teu bem, menina, aqui está.
Já se queixa que o maltrato;
Quem foi que me fez assim?
Todo o homem que é ingrato
Não se chegue para mim.
Ai! ai! não vejo meu bem.
Se ele tarda, é que não vem!
Machuca este coração,
Machuca, bem machucado,
Que tu não bailas no chão,
Mas neste peito chorado.
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá.
Teu bem, menina, aqui está.
Coração de meu benzinho,
Não havia machucá-lo;
Que lhe fiz aqui seu ninho
No meu peito pra guardá-lo.
Ai! ai! não vejo meu bem
Tarda tanto; é que não vem.
Requebra, vidinha, assim,
Requebra-me esse corpinho,
Não tenhas pena de mim,
Que estou feito um cavaquinho.
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá.
Teu bem, menina, aqui está.
O cavaco é boa isca,
Chegando ao fogo se inflama;
Mas se meu peito faísca,
Não há quem lhe sopre a chama.
Ai! ai!, que perdi meu bem;
Não espero mais ninguém.
Tirana, meu bem, tirana,
Tirana de meu amor;
Por que assim você me engana
A fingir este rigor.
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá.
Já me vou, não torno cá.
Quem me dera, ser tirana,
Pois havia ser querida;
Nem daria a quem me engana,
Tanto amor e minha vida!
Ai, não fuja, não, meu bem,
Que me mata esse desdém!
O último verso de Catita foi um rasgo admirável da tática feminina.
Reparando que D. Romero de arrufado se afastava, a faceira improvisou aquele estribilho, que respondia a Manuel, e ao mesmo tempo consolava o chileno, a quem ela o enviou em um olhar provocador.
Quando Manuel cheio de prazer voltava à roda, depois da dança, avistou pela primeira vez o chileno, que nesse momento falava a Catita.
O coração do gaúcho confrangeu-se. A vista de uma serpente, elando-se ao corpo de sua amada e cingindo-lhe o colo, não produziria nele a angústia que sentiu.
Alguém, batendo-lhe no ombro, suspendeu talvez seu primeiro ímpeto.
Deste pancas na tirana. Gostei!
Era o Chico Baeta que trazia de braço a Missé. A rapariga saudou o gaúcho com um sorriso malicioso, lançando um olhar para o lado de Catita.
Então? Vens tomar uma guampa?
— Obrigado, respondeu Canho afastando-se.
Terminara a festa.
Manuel, encostado à ombreira da porta de Fortunata, estava olhando o azul do céu aljofrado pelo esplêndido luar.
A rótula abriu-se.
— Que me quer você, Manuel? disse uma voz suave.
— Dizer-lhe adeus, Catita. Vou a Buenos Aires! Já estou de partida.
— Que viagem é essa agora? exclamou a moça com voz trêmula. E para tão longe?
— O coronel mandou.
Catita sabia o poder que Bento Gonçalves exercia sobre o gaúcho.
— Quando se quer bem...
— Acabe, Catita.
— Não; para quê?
Manuel travou da mão da moça e falou-lhe com um tom rápido, apontando para o canto da rua onde se percebiam vultos de animais.
Ali está Juca e Morena. Vem, deixemos o mundo; o pampa será nossa pátria; ele é imenso; nós o encheremos com o nosso amor. Lá seremos nós dois unicamente; ninguém poderá separar-nos. Vem!
— Não, murmurou a menina assustada daquelas palavras e do tom em que eram proferidas. Tenho minha mãe.
— Ah! Então bem vê que devo partir. O coronel conta comigo.
— Mas volte depressa, eu lhe peço!
— E é preciso pedir-me, Catita?
A conversa prolongou-se; os dois amantes retardavam a hora da partida repetindo os protestos e as juras de seu afeto. Afinal chegou o instante da separação.
Adeus, Catita. Lembra-te que hoje só tenho a ti no mundo. Minha vida é teu amor; tu podes matar-me com uma palavra, com um olhar, como aquele que esta noite vi em teus olhos...
— Manuel!
— Aquele homem... disse Canho com a voz surda. Desde o primeiro instante em que o avistei, tive um pressentimento de que hei de matá-lo; e nunca ofendeu-me.
— Que me importa ele? Vai descansado, Manuel; tu levas minha alma, porque eu só vivo para ti. Lembra-te que eu já te amava com paixão, quando tu nem sequer me olhavas!
Um beijo selou estas últimas palavras; e Manuel arrancou-se dos lindos braços que lhe cingiam ternamente as espáduas.
Quando ele afastava-se, viu à claridade da lua um vulto que o fitava com um só olho, pois o outro, bem como grande parte do rosto, estava coberto de parches. Essa pupila única chamejando no meio daquela máscara tinha um aspecto sinistro.
Canho reconheceu Félix; e apoderou-se dele um sentimento de compaixão por aquele infeliz. Podia ser morto o inimigo, depois que o vencera em combate; mas desonrá-lo marcando-lhe a fronte com o estigma de seu ódio, não devia.
Foi com um aperto de coração que Manuel deixou Piratinim. Ainda o galope de seu cavalo reboava ao longe; Félix que o vira partir apalpou na cinta o cabo de uma navalha que trazia, e sorrateiramente foi se aproximando da rótula onde Catita se conservava absorta na saudade de tão repentina separação.
Como voltara Félix a Piratinim, depois do que era passado?
O mesmo ódio que o levara ao campo dos legalistas, o trazia de novo para os rebeldes. Desde que não se tratava de ensinar os castelhanos, pouco se importava que vencessem os caramurus ou os farroupilhas; contanto que ele se vingasse do homem a quem detestava.
Deixado por Canho no meio do campo, com um golpe que lhe fendera o rosto transversalmente, vazando o olho esquerdo e rasgando os lábios, o rapaz conseguira transportar-se a um rancho próximo, habitado por um peão com a mulher e os filhos. Aí ficou alguns dias curando-se.
Félix sabia que tinha de ficar horrivelmente desfigurado com o gilvaz. Nunca mais Catita o poderia amar, nem mesmo vê-lo sem repugnância. Que valia a vida para ele? Estava pronto a dá-la toda pela vingança: já não tinha neste mundo outra esperança, outro fim, outro destino.
Qual seria porém essa vingança? Queria uma, estupenda, medonha, feroz como nunca houvesse antes dele. Foi no delírio da febre de sangue, quando o cérebro fervia-lhe como o chumbo na retorta, que se gerou o horrendo aborto, jamais concebido pelo rancor, em uma imaginação alucinada.
Manuel amava Catita, embora negasse. Não tinha ele, Félix, em seu rosto a marca indelével desse amor cruel? Pois bem; quando o namorado estivesse de todo rendido pela moça; quando pusesse sua ventura em olhar para aquele rosto feiticeiro, então se levantaria a mão implacável da vingança, e...
— Eu farei dela, o que ele fez de mim; uma caveira viva! murmurou o enfermo estorcendo-se no delírio da febre. Catita ficará horrível. E eu matarei assim de fome a alma do cão, como ele matou-me a esperança de minha vida! Quem poderá amar a fúria? Só eu; como só ela me poderá amar!
O sonho dessa monstruosa paixão entre dois monstros brilhou nas alucinações do enfermo como o laivo sinistro de um relâmpago no meio do vermelho clarão de um incêndio.
O sobrinho de Lucas tendo chegado à vila na véspera, inventou facilmente um motivo para explicar sua presença no acampamento de Silva Tavares. Encontrando-se com alguns bombeiros inimigos, os acompanhara para obter esclarecimentos, que deviam servir de muito a Bento Gonçalves e Neto. Depois de alguns dias, desconfiados, os companheiros quiseram matá-lo, e ele batendo-se com valentia conseguira escapar-se.
— Mas ficaste ferido? perguntou o furriel.
— E logo no rosto! disse Catita com sincera compaixão.
— Isto foi depois! respondeu o rapaz secamente.
— Conte! insistiu a moça.
Félix cravou nela a solitária pupila, com uma expressão cruel.
— Eu lhe contarei um dia!
Missé que estava presente surpreendeu esse olhar torvo, e sentiu a repercussão do que passava na alma do peão.
Desde a noite do pacau, a existência livre e descuidada da rapariga sofrera uma alteração profunda. Não fora porém o fato de ter o Chico feito dela uma parada de jogo, que produzira o abalo; longe de a ofender, aquela ação a enobrecera; sentia orgulho em sacrificar-se por seu amante, e prazer vendo a confiança absoluta com que seu homem dispunha dela, como de uma coisa inteiramente sua.
O que a humilhou cruelmente foi o desdém de Canho; depois de a ter ganho em uma partida tão disputada, deixou-a como uma coisa à-toa, que não valesse a pena abaixar-se para apanhar do chão. De que lhe servia ser bonita e sedutora, se um homem se julgava com o direito de escarnecê-la?
Este despeito seria passageiro talvez se não sobreviesse uma circunstância para avivá-lo a cada hora. Missé observou nas maneiras do Chico sensível mudança; as ardentes efusões e as repetidas carícias de outrora iam amortecendo. A causa desse resfriamento, a rapariga o pressentira logo: era o desdém de Canho, que influía indiretamente sobre o peão.
Quem não conhece os efeitos desse contágio moral, sobretudo quando uma organização elevada domina as individualidades inferiores? Chico, depois da indiferença do gaúcho, começou a achar sua amantes menos formosa, e a subtrair-se à fascinação que a rapariga tinha exercido sobre ele. Cada manifestação desse arrefecimento era um espinho que traspassava o coração de Missé.
Desde então gerou-se na alma da rapariga um desejo veemente e irresistível de ser querida pelo Canho, ao menos um dia, uma hora, quanto bastasse para aplacar sua vaidade ofendida. O amor de Manuel por Catita causava-lhe ciúme implacável.
Nestas condições a Missé devia compreender o olhar de Félix; havia uma afinidade entre as paixões que tumultuavam no seio de ambos.
Tal era a disposição de ânimo em que Félix espreitava da rua deserta o vulto da filha do Lucas, reclinada na janela, com a fronte pensativa apoiada na rótula. Um raio da lua, passando pela aberta do telhado fronteiro, esbateu contra a parede; e o lindo semblante da menina desenhou-se naquele limbo de luz com enlevadora suavidade.
O peão que cerrava com a mão convulsa o cabo da navalha, preparando o salto, ficou imóvel e extático ante aquela doce aparição que emergira da sombra. A beleza da menina ainda exercia sobre ele uma poderosa fascinação: sua coragem vacilou; a mão tremeu horrorizada. Então apagando-se a lembrança do que o trouxera ali, o rapaz embebeu-se na contemplação daquela imagem querida.
Quanto tempo esteve assim não o soube. De repente foi arrebatado àquele sonho inefável por uma dor cruciante. Catita gazeou na ponta dos lábios o estribilho da cantiga do gaúcho, que Manuel costumava repetir ao som da viola.
Toda aquela admiração, que sentia Félix um momento antes, se transformou em raiva. Cerrando outra vez o cabo da navalha com terrível frenesi, arrojou-se ébrio de cólera e cego de furor.
Mas a imagem de Catita desaparecera. Tão fora de si estava o rapaz que não percebeu a causa. Um vulto se aproximara da rótula interceptando-lhe a vista, e proferira em voz baixa uma palavra castelhana:
— Señorita!
A moça assustada bateu precipitadamente a rótula: e D. Romero atordoado achou-se em frente de Félix que brandia a navalha. Quando o chileno sacava rapidamente da cintura o cuchillo para defender-se, o peão que tivera tempo de compreender a situação, recuou:
— Desculpe; não era o senhor que eu procurava.
E sumiu-se.
Um mês já tinha decorrido depois que Manuel partira de Piratinim para cumprir a missão que lhe dera Bento Gonçalves.
Era meio-dia. Francisca e a filha jantavam, quando ouviram o tinir de chilenas; o gaúcho entrava. Jacintinha saltou-lhe ao pescoço dando gritos de prazer; a mãe ergueu-se, mas não podendo correr por causa da emoção, de longe mesmo abençoava o filho enquanto não o podia abraçar.
— Por cá não houve novidade? perguntou Manuel sentando-se.
— Só muitas saudades suas, respondeu Jacintinha.
— E cuidados, acrescentou a velha.
— Então lembraram-se de mim?
— Pois isso se pergunta Manuel? disse a moça com doce exprobração. Está vendo que ingrato mãezinha?
— O compadre já venceu?
— Ainda não, mas não tarda.
— Então ainda voltas?
— Parto esta noite. Venho de Buenos Aires, onde meu padrinho mandou-me levar uma carta a Rosas. Aproveitei para lhe dar um abraço, não posso demorar-me.
Jacintinha, que tinha corrido ao terreiro para festejar e abraçar Morena, Juca e os outros amigos, entrou pálida, com os olhos úmidos:
— E o Morzelo, Manuel? disse a moça.
O gaúcho ergueu os olhos ao céu.
— Coitado!
Houve um instante de silêncio.
Durante o jantar a conversação rolou já sobre os sucessos da revolução, já sobre os acidentes da casa durante a ausência de Manuel. Terminada a refeição veio o mate, e o gaúcho, preparando um cigarro de palha, foi pitar no alpendre, onde o acompanharam a mãe e a irmã.
Antes de se aproximarem de Manuel, as duas mulheres trocaram entre si em voz baixa algumas palavras que acenderam nas mimosas faces de Jacintinha vivos rubores.
— Agora, quando as coisas se arranjarem, a mãe há de ir a Porto Alegre.
— Eu, meu filho? Daqui para a cova de teu pai. Não presto mais para nada.
— Ora deixe-se disso. E quem há de criar os seus netos... quando a Jacintinha casar?
— Sim, é tempo de pensar nisso; já está uma moça.
— E bonita, que faz gosto!
— Muito obrigada. Foi você que me pegou essa moléstia.
Não deixaram as duas mulheres de sentir no trato e na expressão de Manuel grande mudança; mas entregue ao prazer de o ver, não tinham tempo de reparar no tom expansivo e meigo com que falava o gaúcho; tão diverso do gênio seco e ríspido de outrora.
Continuando a conversa por algum tempo, observou Manuel que Jacintinha não cessava de fazer à mãe sinais misteriosos.
— Jacintinha tem algum segredo!
A velha sorriu e a moça fez-se de lacre.
— Fala, menina!
— Não! Fale você, mãezita!
— Pois sim.
— O que é?
— Espere! exclamou Jacintinha fugindo confusa e envergonhada.
Ficando só, Francisca referiu a Manuel que um moço castelhano de passagem por Ponche-Verde, gostara de Jacintinha e a pedira em casamento; porém ela respondera que nada decidia senão pela vontade de seu filho. Então ficou assentado esperarem pela volta dele, Canho.
— Jacintinha está caída pelo diacho do rapaz e ele merece porque é muito galante e tem alguma coisa de seu.
— Que faz ele?
— É mascate.
— Castelhano... mascate... Como se chama? perguntou o gaúcho com ansiedade.
— D. Romero Garcia.
— Ele!... exclamou o gaúcho erguendo-se arrebatadamente.
Por algum tempo Manuel percorreu o alpendre com passos agitados, até que dominado seu abalo, aproximou-se da mãe, que o observava surpresa, sem ânimo de fazer-lhe uma pergunta.
— Com esse homem é impossível! Jacintinha seria desgraçada. Ela que se esqueça desse sujeito; não faltam noivos galantes, sobretudo quando a noiva é de fazer inveja.
— Porém, Manuel...
— Não se fale mais disto.
Sabendo da resolução de Manuel, Jacintinha chorou amargamente; mas uma só queixa não proferiram seus lábios contra o irmão, que ela amava.
O Canho selava o Ruão, preparando-se para a partida, quando chegou-se a irmã que vinha despedir-se da Morena e dos outros animais. Havia em seus olhos os traços do pranto recente e na fronte uma sombra de mágoa.
— Você está triste, Jacintinha? perguntou o Canho, lembrando-se de Catita.
— Não, balbuciou a menina, debulhando-se outra vez em lágrimas.
Manuel amava, e sua alma passava então por aquela fase de bem-aventurança, que anuncia o despertar do coração e é por assim dizer a aurora suave do amor. Como podia ele ser de todo indiferente às mágoas de uma alma enamorada?
Esquecendo o mascate, Manuel pediu à irmã que lhe contasse como nascera sua afeição. Se fosse feliz, Jacintinha não teria forças para satisfazer a curiosidade de Manuel, mas era desgraçada. Referindo o romance de seu amor, a ingênua menina mal pensava que expunha o plano de sedução empregado pelo chileno, e do qual felizmente a salvara sua austera virtude.
A Canho, porém, não escaparam as intenções de D. Romero; e foi estremecendo de horror que ele ouviu estas palavras, com as quais a irmão concluiu:
“Na véspera da partida, ele ceou aqui; eu pedi-lhe muito que ficasse até você chegar; mas recusou, dizendo que só uma coisa o faria não sair de madrugada como esperava. Não sei o que era. Quando estava para se despedir, disse-me que havia de passar a noite no rancho com os olhos fitos na janela de meu quarto e por isso me pedia que a deixasse aberta.
Depois que ele se foi, eu me encostei na janela, para que me visse; mas comecei a sentir tanta fraqueza que não me podia ter; cuidei que ia desmaiar. De repente, não sei como, ele estava junto de mim, abraçando-me; eu queria fugir e chamar por mamãe, mas não tinha forças. Então me deu um beijo, que me fez desmaiar de todo, soltando um gemido. Mãezita correu para ver o que era e não viu mais ninguém. Ela diz que eu sonhei; mas eu ainda sinto aqui o beijo, que me queimou.”
O pudor, esse anjo da guarda da menina casta, salvara Jacintinha, arrancando-lhe aquele gemido profundo que assustou a mãe. Canho compreendeu perfeitamente o perigo por que passara a irmã, e por vezes seus olhos dardejaram. De repente sentiu congelar-se o coração, lembrando-se que deixara Romero em Piratinim, perto de Catita.
Jacintinha, muda e palpitante, esperava com os olhos fitos na fisionomia do gaúcho, onde perpassavam os vislumbres das paixões que se agitavam nessa alma vigorosa.
— Não fiques triste, Jacintinha. Se esse homem for digno de ti, casará contigo. E te prometo que antes de um mês voltarei com ele. Estás contente?
— Mas o que acha você nele?
— Eu não o conheço; vou tirar informações.
Manuel dizia a verdade. Ele nada sabia desse indivíduo a quem encontrara por momentos quatro vezes apenas em sua vida, e de quem nunca se lembrara de indagar. E para quê? Antipatizara com aquela figura desde o primeiro momento em que a vira; e até onde ia essa ojeriza, ele o disse a Catita.
Uma idéia, porém, lhe acudira, que mudou o curso de seus pensamentos. Se o mascate não fosse um bandido, por que não o obrigaria a cumprir a promessa feita a Jacintinha, casando-o com ela? Assim ao menos esse ente inútil, senão prejudicial, serviria para dar alguma felicidade à mulher que o amava sinceramente.
Uma hora depois Canho montava a cavalo e partia à desfilada.
Ao despedir-se, já na sela, disse à Francisca, sorrindo com intenção:
— Daqui a um mês cá estou de volta!
Jacintinha corou.
Era domingo. O sino da matriz de Piratinim tocara a primeira vez chamando para a missa.
Já pronta, com seu vestido escarlate e mantilha preta, Catita esperava impaciente que a pachorrenta Maria dos Prazeres se acabasse de enfeitar. A menina ia da porta do quarto de sua mãe à porta da rua, donde lançava um olhar para o largo.
Passou a Missé.
— Não vem?
— Mamãe não acaba de se aprontar.
— Ele já deve estar lá! disse a rapariga com um riso malicioso.
Catita corando fugiu para dentro e achou a mãe ainda de anágua, mas já com o enorme pente de tartaruga pregado no cocó, à semelhança do tejadilho de uma antiga traquitanda. A moça voltou desesperada; lágrimas de despeito lhe saltaram dos lindos olhos.
— Não tarde muito, olhe lá! tornou a Missé com o mesmo riso brejeiro. Tantas que morrem por ele!…
— Eu não sei o que tem mamãe hoje! Nem de propósito!
— Quem sabe se já percebeu?
A menina deu um muxoxo.
Finalmente Maria dos Prazeres concluiu a obra monumental de seu penteado, e partiu para a missa com a filha.
A igreja estava cheia quando chegaram. Atravessando por meio do povo, Catita passou roçando com D. Romero. O chileno aproveitou o momento para apertar a mãozinha mimosa que refugava os folhos da saia, e murmurar uma palavra.
— À meia-noite na rótula?… Sim?…
Catita esquivou-se trêmula e foi sentar-se distante. Nesse momento teve um remorso; e pediu perdão a Deus, invocando a lembrança de Manuel.
Debalde procurou ela refugiar-se na oração e nas reminiscências de seu amor. Sentia fascinação irresistível que a atraía. A vaidade de cativar o bonito chileno, que tantas outras lhe disputavam, o prazer de triunfar de suas rivais, sopitava o remorso que a pungia.
Se ainda amasse Manuel com os extremos de outrora, estaria preservada de semelhante fraqueza. Mas aquela paixão, como todas as explosões violentas, foi súbita. A exuberância de sua alma bastava para nutrir durante a vida inteira um afeto ardente e profundo; porém ela a despendera durante alguns dias nas expansões do amor insano que rojara aos pés do gaúcho. Seu coração devia ficar fatigado, senão exausto; a vaidade embebeu-se nessa esponja seca.
Catita sofrera uma desilusão. O homem por quem ela se estremecia era o gaúcho terrível; o caráter indômito que afrontava o céu e desdenhava do perigo; o filho do pampa, que avassalava o deserto e calcava o mundo com a pata de seu corcel.
Esse herói de seus belos sonhos, esse rei de sua alma, ela o admirava com um entusiasmo ardente. Para merecer-lhe um olhar, o que não fez? Para ser por ele amada, não hesitou em sacrificar-lhe em tudo. Ela, tão altiva e sempre adorada, suportou sem queixar-se o desprezo; e sujeitou-se às maiores humilhações para merecer desse homem um sobejo que fosse de afeição.
Manuel, que uma repugnância invencível afastava dessa moça, apesar da fascinação de seu olhar, Manuel afinal a amou; e então, rompido o óbice que por tanto tempo contivera seu afeto, este se despenhou, como uma catarata, arrojado e impetuoso. O coração, durante tantos anos sopitado, sentiu ao despertar uma sede insaciável de amor.
Nos dias que se seguiram ao encontro na coroa de mato, e ao primeiro beijo trocado entre os sibilos das balas, Canho não se fartava de olhar e admirar Catita, de beber-lhe o sorriso dos lábios, a graça e perfume de sua formosura. Abandonando a luta da revolução recente, recolheu-se a Piratinim para estar perto da mulher querida e não perder um instante de adoração.
Catita viu o rei de seu coração, o senhor de sua existência, transformar-se de repente em um servo humilde e cativo, submisso a seus menores desejos. Libado o primeiro prazer desse triunfo, a moça foi insensivelmente subtraindo-se à poderosa influência que sobre ela exercia o gaúcho.
Manuel tinha o garbo natural do talhe e das maneiras; agora, que amava, sua fisionomia se embebera de uma expressão meiga e terna. Para quem não o conhecesse antes, era um taful quando vestia o seu chiripá de seda escarlate e sua jaqueta de merinó verde; ou quando dançava a tirana, requebrando o corpo e arrastando a asa.