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GUERRA DOS MASCATES

José de Alencar

CAPÍTULO XI

COMO O NUNO FOI ACRESCENTADO DE PAJEM A ESCUDEIRO, E O LISARDO REBAIXADO DE POETA A VAGABUNDO

A sala principal da casa de André de Figueiredo estão reunidas várias pessoas.

Da banda fronteira à entrada vê-se D. Lourença Cavalcanti, sentada em cadeira de espaldar, tendo junto de si um bufete pequeno coberto de colgadura roxa que arrasta no chão. Aí estão os recados de que serve-se a dama naquele momento para escrever cartas.

Do outro lado do bufete, a irmã D. Antônia Barbalho, mãe de Leonor, fia em uma roca de braúna as alvas pastas de algodão que enchem o cabaz de palha posto a seus pés. Em seu benigno semblante está pintada a alma tíbia e frouxa, que as irmãs dominam e afeiçoam como uma cera.

À esquerda, no intervalo das janelas, lá está em tamborete raso, para se dar ares de donzela, a ninfa olindense, a formosa Clélia, nome este por que era conhecida no Pindo a Senhora D. Severa de Sousa. Ocupava-se ela com a leitura de seu livro favorito, o Palmeirim de Inglaterra.

À direita, no longo estrado forrado de panos de arrás com figuras e ramagens, estão de tarefa as moças da casa e parentas, entre as quais distingue-se Leonor, pela formosura como pela melancolia; pois enquanto as outras vão chilreando risos e segredinhos ao ouvido, ela, de cabeça baixa, absorve-se no seu trabalho.

Um escravo de libré postado em cada porta para qualquer chamado e o mais que for preciso espera as ordens.

Leonor trabalha em uma touquinha de renda, que destina à neta recém-nascida de sua velha ama, a Brites. Está agora enfeitando-a de rosas de maravalhas, e essa ocupação lhe encaminha o espírito para umas saudades, que ela esconde no refólho d'alma para não nas adivinharem, e que são menos o recordo de uma ventura fruída do que a viuvez de uma doce esperança.

Sem que ela se apercebesse, tão distraída estava, começou-lhe o seio a desafogar em suspiros, e após eles veio um como murmúrio de intenso queixume que se foi desprendendo a pouco e pouco em suave e terníssima endeixa. Cantava em voz submissa as coplas de um romance antigo que lhe trouxera. à memória certa conformidade de pensamentos:

Filha, filha da minha alma,
Com que te batizaria?
As lágrimas de meus olhos
Te sirvam d'água da pia.


Chamar-te-ei minha Rosa,
Rosa, flor de Alexandria,
Que assim se chamava d'antes
Uma irmã que eu queria.


Aqui a voz feneceu para tornar pouco depois repetindo já coplas de outra cantiga em que então se enleava a fantasia da donzela:

Nada em dor, em dor criada,
Não sei isto onde irá ter.
Vejo-vos, filha, formosa,
Com olhos verdes crescer.

Não era esta graça vossa
Para viver em desterro;
Mal haja esta desventura,
Que pôs mais nisso que o erro.

- Que há de você, Leonor, estar sempre a amofinar-se á toa, com umas tristezas tão sem propósito! disse D. Lourença interrompendo a cantiga da sobrinha com um tom de repreensão.

- Eu?... exclamou a donzela confusa.

- Ora, que tem que a menina desafogue suas mágoas, D. Lourença? Antes cante ela suas endeixas, que os zéfiros vão desfolhando pelos ares, do que as congele no seio para se derreterem em aljôfares de sentido pranto.

Assim falou a D. Severa, que bem mostrava na linguagem alambicada o comércio poético, que entretinha com o Lisardo.

- Se já é um sestro desta menina fingir-se desventurada e viver só a lastimar-se desde que o dia amanhece? Não sabe outras cantigas senão essas que falam de desgraças, de pranto, e de quanta cousa há de triste?

- Nisso de cantiga não há para mim como a da Donzela Guerreira! exclamou D. Severa com entusiasmo; e soltando a voz de flautim começou a gargantear estas coplas:

Sete anos andei na guerra
E fiz de filho barão,
Mas ninguém me conheceu,
Só se foi meu capitão.

Conheceu-me pelos olhos
Que por outra cousa não;
Foi meu capitão na guerra,
Agora o fiz meu barão.


Ouviram-se uns risos abafados, de que não fez o menor caso a ninfa olindense.

Leonor, que tivera tempo de recobrar-se da perturbação, cuidou em disfarçar o verdadeiro motivo de sua mágoa.

- Pois, minha tia, não temos nós todos razão para afligir-nos com as desgraças que ameaçam esta terra?...

- Que desgraças são estas agora? perguntou D. Antônia à filha.

- Ainda ontem, minha mãe, a velha Brites me esteve contando que pela Quaresma, em noite clara, se viu a lua partida pelo meio em duas bandas, uma no seu natural alumiando o céu, e a outra coberta de sombra que parecia um dó, no que bem estava mostrando as guerras que hão de acontecer entre Olinda e o Recife, e o luto em que ficará uma das partes.

Estas palavras da moça causaram viva comoção no ânimo das pessoas ali reunidas.

- Tal e qual sucedeu! disse D. Francisca, mulher de André de Figueiredo.

- Eu vi com estes olhos! acrescentou D. Genoveva, casada com Antônio Tavares.

- Que tem isto? acudiu D. Lourença. Guerra havemos de fazer, que assim é preciso para defender os foros da nobreza; e sem ela decerto que não poderemos ganhar a vitória e abater a grimpa dos mascates. Nem outra cousa significa essa conjunção dos astros, senão a glória de Olinda por um lado, e a ruína do Recife pelo outro.

- Mas há quem diga, minha tia, replicou Leonor, que a parte escura ficava para as bandas de Olinda.

- Não acredite em abusões, menina; que esta lua é pernambucana e não prognostica males aos filhos que nasceram em sua terra.

- Olha, Leonor, que tua tia sabe estas cousas dos astros, como ninguém.

- Sei, minha mãe, sei que a tia D. Lourença é muito versada em todas as sete artes liberais, mas tenho uma cousa que está me dizendo... E então quando me lembro da milagrosa imagem de Nossa Senhora do Ó, que o ano passado, na véspera de Sant'Ana, suou sangue, o que todos disseram logo ser presságio de grandes perturbações, com guerras, mortes e toda a sorte de desastres!.

- E por sinal, que se passou a sua imagem do altar que teve na Igreja de São João para a Capela do Santo Cristo da Sé, disse D. Francisca.

- Para ver se aí, perto do Senhor Crucificado, ela intercedia com seu bento Filho para arredar de nós estas calamidades, acrescentou D. Genoveva.

Ouvira D. Lourença as razões da sobrinha e das cunhadas com o modo grave e refletido que lhe era natural; tanto mais porque os presságios de que tratavam as damas eram tirados de fatos notórios e atestados por pessoas de toda a fé.

Ainda hoje dura a tradição, conservada por Sebastião da Rocha Pita e o Padre Manuel Leitão, que deles dão notícia pelo mesmo teor ou com pouca diferença.

- Sem dúvida que muitos males estão a cair sobre esta terra, disse D. Lourença; e antes dos prognósticos divinos, já era dado aos prudentes antevê-los nos humanos desígnios, pela soberba e arrogância dos mascates nestes últimos, tempos. Mas esses males vêm mandados do céu para castigar a culpa de agasalhar miseráveis aventureiros, e para expurgar a nossa terra dessa praga vil de forasteiros, que a está danando. Nossa Senhora do O, que é pernambucana e tem altar erguido nesta terra que regamos com o nosso sangue para a arrancar aos hereges e flamengos, e conservá-la ao Padroado de Cristo; Nossa Senhora do Ó e sua corte celeste não hão de desamparar os defensores da fé e cavaleiros da cristandade. Se ela suou, a milagrosa imagem, não foi de lástima por nós, mas sim de pesar e tristeza por ver que se estão abatendo os antigos brios pernambucanos, por modo tal que já não haverá quem preserve esta terra de ser presa dos franceses, se, como se afirma e eu creio, andam eles correndo a costa e preparando-se com grandes empresas a acometê-la, que, isto dizem, já chegou aviso de Lisboa ao governador.

Por esta amostra imagine-se o papel importante que devia representar D. Lourença nas assembléias políticas dos parentes. Se vivera em nossos dias, com a sua literatura e disposições para a oratória, com certeza já se teria mandado anunciar a rufos de tambor para a próxima conferência popular.

- É desenganar, senhora, acudira D. Severa. Enquanto não aparecer nesta terra de Olinda outra heroína como D. Clara, que arvore a gineta das damas, os negócios hão de andar baralhados. Mas não tarda muito que não vejam aparecer aqui mesmo em Olinda uma Ala das Donzelas com seu capitão, que há de escurecer a fama de Mem Rodrigues e da sua dos Namorados.

- O capitão, já se sabe quem é? tornou D. Lourença com um sorriso em que a acompanharam as outras,.

Não lhe respondeu D. Severa, porque voltando-se para chamar o seu pajem de estrado, o qual como se devem recordar não era outro senão o brejeiro do Nuno, que de mascatinho virara donzel, apercebeu-se a dama da ausência do rapaz. Levantou-se logo e foi-lhe na pista.

Pouco havia que saíra da sala, e ainda as outras se riam dos arreganhos marciais da ninfa, quando o lacaio da entrada veio com recado de segredo a D. Lourença, a qual deitando os olhos para o corredor, viu aparecer no fio da porta fechada a meio, um pedaço de cara de fuinha que se havia de jurar ser a do Cosme Borralho.

- Está aí o moço do senhor licenciado Davi de Albuquerque, disse o escravo à puridade.

- Leva-o para o oratório, que já ai vou, respondeu a dama.

D. Lourença deu tempo a executar-se sua ordem e saindo por uma porta do interior, dirigiu-se ao lugar indicado que era o mais reservado e onde se tratavam os negócios de monta.

Entretanto D. Severa corria toda a casa á busca do Nuno, mas não lhe viu nem a sombra.

O brejeiro do rapaz, que era um azougue, aborrecido da estação a que o obrigava a D. Severa, em pé atrás de sua cadeira como pajem de estrado, não perdia ocasião de escafeder-se e ganhar a rua ou quintal. Naquele dia achando aberta a casa do trem, aproveitou a ocasião tão suspirada, e armando-se de uma grande catana, começou a esgrimir contra uma armadura completa que, posta no meio da casa e enfiada no seu cabide, parecia um guerreiro antigo armado de ponto em branco.

Saltava o endemoniado moço como uma pulga em volta da panóplia e desfechava-lhe cada cutilada, que feria logo na coiraça e sobretudo no capacete.

- Defende-te, vilão... gritava ele. Que senão te corto em talhadas com esta espada como uma melancia! Em guarda, ajudante das dúzias! Olha este golpe terçado!... Zás!... E este de ponta!... Traspassado, barbudo do inferno!... Rende-te ou morre, negro, negreiro, negrão!...

No meio deste fero combate em que o Nuno imaginava estar pelejando com o Ajudante Negreiros, o homem de sua especial birra, ouviu ele um rumor do lado da escada, e receando que lhe andassem à cata e o pilhassem na embrechada, foi espiar ao corredor, e bispou o Cosme que subia os primeiros degraus.

Veio-lhe a curiosidade de saber que novidade trazia o Pisca-Pisca àquela casa, onde ele afirmava que não punha os pés; e separando-se pesaroso da catana ficou de espreita ao escrevente a quem viu entrar para o oratório, onde com pouco foi ter a D. Lourença.

Não podendo escutar o que passava dentro, pôs-se de plantão na escada para cortar a retirada ao Cosme e falar-lhe; sobretudo desejava ter novas do que ia pelo Recife depois que de lá se partira.

Infelizmente a D. Severa que voltava desenganada de o achar, veio esbarrar com ele e arrecadou-o:

- Ora, muito bonito! Estou eu a procurá-lo, e o senhor a peraltear! Fique sabendo que um pajem bem ensinado deve estar sempre junto da dama cujo é, como seu caudatário e donzel, para defendê-la e servi-la a um seu aceno.

O Nuno recebeu o sabonete de cara murcha, mas assomando-lhe a natural petulância, levantou a crista contra as pieguices da dama que pretendia fazê-lo de menino.

- Saiba também a senhora que eu estou pronto a servi-la e tenho nisso muito gosto, mas há de ser como seu escudeiro e homem d'armas; que lá essa história de pajem e donzel é para os pirralhetes de quatorze anos, e eu cá já sou um homem.

- Quede a barba?

- A barba! Isso arranja-se, ainda que se pode bem dispensar, e a prova é que D. Antônio Filipe Camarão, que foi insigne capitão, não tinha um fio, nem a sua descendência; e mais eu posso comprar dois mustachos bem fornidos para compor o rosto, como o moço que faz de Ferão Brigoso, na farsa do Juiz da Beira.

- Mas não vê você, Nuno, que um pajem é mais próprio para uma dama?

- Pois eu de pajem não fico, nem que me serrem!

- Está bom! Fica sendo meu escudeiro.

- Isso é outra cousa.

Nisso esgueirou-se pelo corredor o Cosme que saía do oratório, e desceu as escadas a trote miúdo. Quando o Nuno se pôde desembaraçar e lhe foi no encalço, já não o avistou.

D. Severa entrou na sala ao tempo em que D. Lourença, de volta do oratório e sentando-se de novo ao bufete, lia um papel que trouxera. Era a fatal redondilha que a menina Marta obrigara o Lisardo a escrever na câmera de Isabel.

D. Lourença, não se podendo chamar gorda, era uma senhora reforçada, que no seu porte cheio de dignidade dava uma idéia da matrona romana. Os versos não se podiam pois referir a ela; o que a dispôs a achar-lhes chiste.

Olhou sorrindo para a D. Severa que lhe andava sempre a disputar as primazias.

- Quer ver, prima D. Severa, até onde chega o desaforo da ralé dos mascates? Pois não mandaram pregar nas esquinas estas rimas desavergonhadas?

Ouça:

Escorridas como um fuso,
As damas de Olinda são;
Por fora aquele esparrame,
Por dentro é só armação
De pano, d'osso e arame.

Foi grande o escândalo das damas, especialmente das magras; nenhuma, porém, como D. Severa, que erguendo-se de golpe e atirando para trás com um couce a longa cauda, enristou a trunfa e bateu o pé:

- É uma vingança daquele vilão descortês!... Do tal Sebastião de Castro!... Como não achou entre as nobres damas de Olinda os requebros das descocadas lá do Recife, manda-nos agora difamar por seus rimadores. Mas ele que não se meta!

Nesse instante soou na rua tropel de cavaleiros. Um troço de gente armada parou à porta da casa de André de Figueiredo, e o Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti, com seu filho Manuel, subiram ao sobrado em busca do capitão.

Entretanto o Nuno, que voltava da caça que em pura perda tinha dado ao Pisca-Pisca, avistou lá do outro lado, à esquina da Ladeira do Varadouro, o Lisardo que vinha em busca da casa, mas que avistando a cavalgada, arrepiou caminho.

Esperou o mascatinho que o poeta se resolvesse a ganhar a casa, cosendo-se à parede; queria comunicar-lhe a grande nova de ter sido pela D. Severa acrescentado de pajem a escudeiro e homem d'armas.

O Lisardo, porém, vinha triste e abatido, para o que tinha sobras de razão. Na véspera, à ave-maria, fora como de costume fazer de pé de muro no beco, em adoração à rótula de seus amores; mas quando ele esperava aquele rufo suavíssimo de unhas rosadas nas reixas de madeira, e aquele coar da luz de uns olhos feiticeiros através das grades, abriu-se a gelosia com ímpeto, para logo fechar-se, batendo-lhe três vezes com tanta ira, como se o estivesse castigando. Era o que se chama vulgarmente bater com a porta na cara.

Nessa manhã repetira-se a crueldade da rótula, mas com um suplemento que pôs o remate à desventura do nosso trovador; e foi que, insistindo ele em abrandar com a humildade de sua paciência e a melancolia de sua compostura os rigores da tirana gelosia, veio de embaixada a negra Benvinda despachá-lo por este teor:

- Moço, siga seu caminho, aqui no Recife tudo tem perna cabeluda!

Foi um relâmpago que ofuscou a alma do Lisardo; quando caiu em si, a negra se tinha sumido e a rótula fechada estava muda como uma campa, e o era, de seu finado amor.

Belisa lera a quadra que ele havia feito por ordem de D. Severa, e com razão se julgava ofendida. Como, porém, soubera ela do autor, é o que não atinava o Lisardo, que estava bem longe de suspeitar das inteligências do Cosme Borralho com a Senhora Rufina no Recife e com a D. Lourença em Olinda.

- Que te aconteceu por lá, que me pareces um farricoco, carregando tua própria tumba, pois a cara que trazes não é doutra cousa? disse o Nuno ao poeta com a sua costumada galhofa, que desta vez era o disfarce da comoção ao ver o semblante abatido do amigo.

- E não te enganas, Nuno! É uma tumba, o que estás vendo e não mais o infeliz que ontem era. É a tumba de uma alma que nasceu para a dor, e não viveu senão para começar desde o primeiro instante a morrer aos poucos. Uma esperança a consolava na sua agonia e a prendia a este mundo por um tênue fio de ouro. Esse fio rompeu-se, e a alma acabou por finar-se.

Nuno abraçou-o com efusão.

- Mas dize-me, que houve que assim te mortifica?

- Belisa aborrece-me.

- Juro eu que não!

- Aborrece-me, e tem razão, porque a ofendi.

Ia o Lisardo referir ao amigo sua desventura, quando apareceu no saguão, onde já então se achavam os dois moços, D. Lourença, que andava no tráfego da casa, dispondo o agasalho para os acostados de seu primo Leonardo Bezerra, que lhe pediu o aboletasse ali até a noite.

Avistando o poeta, repuxou-se a barbelha de D. Lourença, com o assomo imperioso que tomava o seu colo nos momentos de rigor; aproximou-se a dama com um modo tão severo que os moços estremeceram:

- Os ingratos são como as varejas, pois assim como estas empeçonham o corpo que as sustenta, eles vendem os protetores que os agasalham. Você, Lisardo, que tantos anos foi um familiar desta casa onde nunca lhe faltou o necessário, acolhido pelos nossos com bondade, esqueceu todos estes benefícios, e fez-se com suas rimas fâmulo e serviçal dos mascates, a troco de alguma vil espórtula.

O Albertim, sucumbido, quis protestar neste ponto; não lho deixou a matrona.

- Tão negro procedimento devia arredá-lo para sempre desta casa cujas portas dora em diante lhe estão fechadas. Se foi para ouvi-lo que tornou, pode desde já ir-se; e é o mais prudente, porque em chegando o Capitão André de Figueiredo e sabendo da sua gentileza, não há de ter a moderação de que usei.

Albertim sorriu-se, como deviam sorrir os mártires através das chamas da fogueira e, curvando a cabeça, afastou-se com a dignidade da resignação, que é mais respeitável do que a do orgulho.

Nuno estava atônito; não atinava bem com o que se passava ali diante dele; parecia-lhe que expulsavam o Lisardo, mas por que motivo? Nesse estado apenas pôde balbuciar uma palavra ao ouvido do amigo quando este lhe passou junto:

- Espera-me lá foral

Logo que D. Lourença arredou-se, correu o rapaz à rua; mas apesar de todas as pesquisas não descobriu Albertim.

CAPÍTULO XII

NO QUAL SE DESEMBRULHA O EMARANHADO E PROFUNDISSIMO CASO DO MARISCO


Estamos em frente ao Palácio das Torres.

Assim chamava-se naquele tempo os paços que o Conde de Nassau, príncipe da casa de Orange, fez construir para sua residência na cidade Maurícia, e que depois da restauração ficaram para habitação de recreio dos governadores portugueses.

Ocupavam na ponta setentrional da antiga Ilha de Santo Antônio o mesmo sítio onde se acha atualmente o palácio da presidência, em que sucessivas reparações e acréscimos transformaram a primitiva construção.

Naquela época ainda apresentava o aspecto senhoril de um castelo torreado, no estilo flamengo e de arquitetura superior na elegância e solidez à grosseira alvenaria que introduziram no Brasil nossos avós, os portugueses, já na decadência de sua efêmera civilização.

Compunha-se o edifício de um corpo quadrado, em dois altos pavimentos alumiados por grandes arcadas. A frente era defendida por um reduto com duas cintas de canhões, uma ao longo da escarpa e outra a cavaleiro.

De cada lado projetavam-se dois pavilhões com as suas canhoneiras também guarnecidas, e após eles elevavam-se em quatro pavimentos as duas torres quadradas cujos coruchéus dominavam todo o vale do Beberibe, desde os outeiros de Olinda até as veigas de Santo Amaro.

No mais alto sobrado viam-se as atalaias; e logo abaixo nas ameias dormiam os morteiros que haviam defendido outrora contra o valor lusitano a cidadela flamenga.

Tal era o Palácio das Torres, como o pintam as estampas daquele tempo. Aí, nas casas ainda adereçadas com luxo de príncipe, faziam os governadores constante residência, o que foi o primeiro escândalo para os nobres moradores de Olinda.

O Senado representou a El-Rei, o qual expediu várias cartas régias ordenando que os governadores assistissem na cidade com os ministros; mas estas ordens do rei velho tiveram o mesmo efeito que hoje produz a soberania do povo menino.

Os governadores continuaram a morar no Recife e só iam a Olinda para tomar ares ou para assistir às festas de Estado que celebravam-se na catedral, e à qual mais de um fez-se conduzir debaixo de pálio.

Atravessemos a ponte levadiça abaixada sobre o largo fosso, e que mais parece dormente a julgar pela ferrugem das correntes que a prendem às colunas da frontaria. Entremos o pórtico do castelo e passando pelo saguão em abóbada vamos ter à sala d'armas. Deixando à direita as portas de comunicação para o pavimento térreo e em frente à arcada que abre sobre o pátio, subamos a escada que fica à direita, e que nos leva em dois lanços a uma antecâmara do sobrado.

Aí estão os lacaios do governador que dirigem os visitantes à próxima alpendrada corrida em volta do pátio sobre colunas de jacarandá tão bem torneadas e burnidas, que figuram basalto.

Três lados dessa galeria estão desertos e silenciosos; no quarto, porém, começam a enxamear entre os oficiais de sala do governador, a gente da governança, e muita outra da principal da terra que vinham ao jube domine, sem falar da chusma interminável de pedintes que nesses dias caiam sobre o governador como um mosqueiro sobre uma fôrma de açúcar.

São nove horas da manhã.

A concorrência era mais numerosa ainda que de costume, porque sendo este dia marcado pelo governador para a junta na qual se havia de decidir definitivamente a questão da vila, que era um caso de monta, ou como se diria hoje uma questão de gabinete, aguçara-se a curiosidade, e todos que tinham entrada no palácio lá foram na esperança de colher alguma cousa.

Enquanto não aparece D. Sebastião, aproveitemos a ocasião para dar uma ligeira notícia do que eram então as antecâmeras de um palácio.

No lanço da galeria franqueado aos estranhos viam-se grupos de moradores que rodeavam alguns dos oficiais de sala, para ouvir desse oráculo do governo as novas de importância ou para simplesmente participar do contacto palaciano, o qual para certa gente é um estofo indispensável.

Oficiais de sala chamavam-se então certos indivíduos que os governadores nomeavam para ficarem de estado à sua pessoa; e como esse oficio não tinha assento na folha, e por conseguinte não vencia salário nem propinas, eram para ele escolhidos de preferência os que tinham praça na milícia, ou que desfrutavam alguma tença e mercê.

Esses oficiais tinham aposento no paço, serviam ao mesmo tempo de camareiros e escudeiros para fazerem sala ao governador, como para o acompanharem em qualquer cerimônia e a passeio. Daí vinha sua designação, a que eles correspondiam à risca desfiando as longas horas do dia naquela galeria ou nos repartimentos baixos, sem ocupar-se em cousa, senão útil, ao menos séria.

O tempo que lhes deixava de folga o plantão da sala, despendiam-no em medir com o compasso das pernas os soalhos alcatifados, recontando pela centésima vez umas anedotas palacianas que já tinham mofo, mas em que eles achavam sempre um chiste particular que provinha de forte sabor cortesão.

A não ser que chegassem novas do reino, o único assunto da prática desses plastrões era D. Sebastião de Castro. - "O homem acordou." - "Está almoçando." - "Vai aos fortes". - "Ainda não jantou." - "Sai a passeio." - "Entrou para o gabinete." Tais eram os graves acontecimentos que preocupavam exclusivamente esses indivíduos, muitos dos quais tinham família.

Se acontecia que D. Sebastião espirrasse, esse fenômeno tornava-se o tema da palestra por muitos dias. "Estará enfermo o homem, cuja saúde robusta não conhece achaques?" - dizia um. - "Quem sabe se esse intempestivo defluxo não trará alguma perturbação grave no regime do palácio?" exclamava outro. - "A reuma é traiçoeira, e não seria mau chamar-se logo o físico em tempo", opinava terceiro. - "Os grandes desastres nascem muitas vezes de pequenas causas, e deste catarro pode provir a perda da capitania, que os pichelingues andam na costa", prognosticava o quarto. - "Fora com os agouros; o espirro sempre foi um sinal de boa saúde", concluía o quinto.

D. Sebastião de Castro, afora os oficiais do costume de seus antecessores, nomeara mais uns dois ou três que tinham outra incumbência especial, além de fazer sala. Esses espalhavam-se pelas ruas do Recife e Olinda, onde sua posição lhes dava entrada em qualquer casa; correndo a coxia, iam colhendo quanta novidade e mexericos topavam no caminho, e com essa bagagem voltavam a palácio.

Era pela diligência de tais alvissareiros que D. Sebastião andava sempre bem informado de tudo quanto ocorria nos dois povoados e do mais que inventava a maledicência. Assim, àquela hora, já ele tinha de cor as duas trovas do Lisardo, e sorria-se do paralelo que faziam a perna cabeluda da Rufina com o caniço da D. Severa.

Apreciava Sebastião de Castro em alto grau os seus oficiais da sala. Não os podia dispensar. Quando saía a cavalo a percorrer as fortificações, para fazer mostra e alardo de sua atividade, levava-os de roldão, à desfilada, por barrocas e corcovas. Fazia-os apanhar sol e chuva, de cabeça exposta ao tempo, sem a menor consideração. à calva dos pelados ou às cãs dos velhos. Deixava-os a curtir fome e sede, enquanto ele examinava uma frandulagem qualquer que encontrava em suas excursões.

Mas quem penetrasse no interior de Sebastião de Castro conheceria que para o fidalgo esses oficiais, com raras exceções, não eram homens, porém uma cousa entre o criado e o animal: uma espécie de mobília de palácio. Não lhes tinha a menor estima; quando muito sentia por eles a afeição do hábito que tomamos a um traste pela comodidade que nos presta.

Se algum morria, era uma contrariedade e nada mais. Mandava por um companheiro dar os pêsames à família, e à noite para distrair-se comparecia ao sarau da nobreza ou dos mascates.

Entretanto contava-se que, se acontecia adoecer algum dos seus criados de quarto, saía ele com toda a comitiva, pondo de parte as cousas do Estado, para visitá-los ao leito. Estes fatos eram depois referidos e comentados com muitos louvores à caridade do fidalgo.

Na extremidade da galeria estava uma sala com as paredes cobertas de lambéis e alcatifada com um tapete da Turquia e cadeiras estofadas de veludo de Utrecht: restos já rafados das galas primitivas. Para esta sala entravam os homens da governança, que deviam compor o conselho e iam ali esperar as ordens do governador.

Estavam todos mais ou menos impados e repletos de sua importância como homens que tinham de dar o seu voto sobre a profunda, intrincada e campanuda questão do marisco.

D. Sebastião estava naquele momento à mesa do almoço, que ele despachava com a presteza de um soldado. Essa particularidade, junta a seus hábitos frugais, apesar da profusão e variedade do serviço, tinha desde o princípio de seu governo causado reparo.

O Padre João da Costa, quando soube que o fidalgo tinha esse costume de que lhe resultava ficar afrontado depois da comida, augurou mal do governo porque em sua opinião um homem que não comia bem, e não digeria melhor, não podia conduzir convenientemente a nau do Estado.

Sebastião de Castro, a quem freqüentemente damos o dom que ele não tinha, apesar de ser da primeira fidalguia dentre Douro e Minho, mas que de todos recebia por unânime aclamação, era exemplar no seu viver privado. Das virtudes que fazem o homem de bem, nenhuma lhe negara a natureza, apesar de já lhe ter o atrito do governo gasto algumas.

Logo ao romper d'alva estava a pé; e depois de composto fechava-se no gabinete que tinha em uma das torres, onde empregava no estudo as primeiras horas do dia. Se dermos crédito a Sebastião da Rocha Pita, era muito versado em cousas de guerra, que aprendera com seu tio Diogo de Caldas Barbosa, nas lutas da liberdade do reino.

- Algumas vezes saía muito cedo a visitar os fortes e prover sobre o regimento da terra, no que era de uma atividade incansável; mas com a sofreguidão de tudo ver por si e remediar, acontecia, o que é muito comum, catar os argueiros nos olhos dos pequenos e não enxergar as traves que lhe metiam pelos seus o secretário e o ajudante.

Na mesa era sóbrio. Seu prato usual consistia em um frangão cozido com papas de arroz à moda da Índia, e que lá chamavam canjas, mas não entrava nelas caril ou alguma outra especiaria. Raro bebia vinho; e seu postre não passava de goiabas, confeitas à maneira da marmelada, doce que já então se fabricava em Pernambuco de superior qualidade.

Ergueu-se Sebastião de Castro da mesa, e dirigiu-se à galeria. Um criado disparou para correr-lhe o reposteiro e anunciá-lo; mas não lhe deu tempo o fidalgo, que apareceu de repente no meio dos ministros reunidos para a junta, produzindo neles uma confusão e atarantamento de que se não mostrou apercebido.

Recebendo a cortesia que lhe vinha apresentar cada um deles, e retribuindo com igual atenção, passou à galeria onde o esperava a chusma de visitas e pretendentes. Ai ouviu de pé o recado ou peditório de cada um, com uma pachorra, que raros teriam em sua posição. Quando se pôde desvencilhar dessa interminável audiência, encaminhou-se à sala do governo onde já estava reunida a junta a que ia presidir.

Era um vasto aposento sobre o comprido, esclarecido por janelas que davam para o rio e das quais se gozava a pitoresca vista de Olinda. Uma longa mesa coberta de arrás verde corria de uma à outra ponta; na cabeceira via-se a cadeira de espaldar reservada para o governador e aos lados bancos rasos cobertos de estofo, onde já estavam sentados os ministros que se ergueram à entrada de D. Sebastião.

À direita do governador ficava o Secretário Barbosa de Lima que expandia-se como uma papoula aos raios do sol. À esquerda, o Ajudante Negreiros, sempre de viseira caída. Seguiam-se desta e daquela banda uns escreventes ou amanuenses que o governador tinha a fantasia de chamar a pretexto de ajudarem ao secretário, e cujo real préstimo era tomar os rinzes ao Barbosa de Lima se, por um caso estupendo, ele se lembrasse de soltar os panos. Um desses era imberbe; os outros já tinham sua barbica; mas não se induza daí que saiam da adolescência, pois já estavam maduros.

Nesse traço havia sem duvida uma predestinação; pois a barba é o emblema das virtudes viris, como sejam a independência e energia.

Sentado D. Sebastião, mandou ao Barbosa de Lima que expusesse a questão, e este desempenhou-se da tarefa com a sua habitual facúndia, mostrando a suma gravidade e ponderação do negócio do marisco, pois era o principal recurso da pobreza do Recife, que, em ocasiões de penúria, daí somente tirava o alimento.

Acabada a exposição, fez o governador um leve sinal com a cabeça; e os ministros, cada um por sua vez, começando pelo almotacé, disseram seu parecer acerca do caso. Enquanto falavam, D. Sebastião ocupava-se em encher uma folha de papel de grutescos de toda sorte, onde se viam de envolta ramagens esboçadas, cabeças de passarinhos e outras bobagens.

Não daremos aqui a íntegra das tenções de cada ministro, como no-la transmitiu a crônica, pois consumiria muito papel. Basta saber-se que o almotacé provou com farta cópia de textos que, sendo o marisco aquático de sua natureza, devia caber de direito aos povos do Recife, os quais habitavam as praias, e não aos povos de Olinda que era uma cidade montanhosa. O almoxarife, fundado na opinião de Avincena e Trincaveili, foi de voto que o marisco era um alimento indigesto e pouco nutritivo, pelo que não tinham os povos de Olinda justo motivo para reclamarem a outra metade do rio; antes deviam agradecer o beneficio que lhes faria Sua Excelência, preservando-os de cruezas de estômago, flatos e outros achaques. O provedor tratou o caso ab ovo e demonstrou cabalmente com a autoridade de insignes gramáticos, que o marisco era fruto do mar, como estava dizendo a palavra marisesca, ísca do mar; e, estabelecido esse ponto, concluiu que todos os crustáceos do rio provinham do oceano e entravam pela barra do Recife, pelo que só ao Recife competia apanhá-lo. Quanto ao Viana, na sua qualidade de provedor dos defuntos, discorreu largamente, com a tal voz de carretão; mas ninguém percebeu o que disse; devia ser cousa muito profunda e digna da maior ponderação, porquanto os ministros ali mesmo julgaram necessário dormir sobre o caso.

Nesse ínterim o Ajudante Negreiros ouvindo desusado rumor na praça, obtida a vênia do governador, ergueu-se da mesa e assomou-se à janela para inquirir da causa dessa agitação.

Fronteiro a palácio estava postado um cavaleiro petiço e magriço, armado de todas as peças, capacete, gorjal, couraça, grevas, espaldeira braçais e guante, com o ginete estacado e a lança em punho. No elmo trazia ele por timbre uma aspa de vermelho com cinco estrelas de ouro, e na cota de malha o escudo dos Barros, campo vermelho, três bandas de prata e sobre o campo nove estrelas de ouro.

Outro cavaleiro também armado de todas as peças, e das mesmas cores, se adiantara até o pórtico e batendo três vezes no escudo com o conto da lança, clamou em voz alta:

- Ouçam todos este repto. O cavaleiro das estrelas, por mim, seu escudeiro, te desafia a ti D. Sebastião de Castro Caldas a combate singular, onde te provará à lança e à espada, a pé e na estacada,. que és um cavaleiro desleal, pois não sabes guardar a cortesia às damas.

O escudeiro, retrocedendo, foi colocar-se atrás do cavaleiro das estrelas; donde com pouco avançou de novo para repetir o repto. Foi da terceira vez que o ajudante chegou e o ouviu.

Depois disso o cavaleiro com o escudeiro deu três voltas à praça, e de cada uma delas, parando em frente à janela de palácio, gritou com uma voz esganiçada:

- Perante todos proclamo covarde D. Sebastião de Castro, que não se atreve a sustentar o seu dito em combate leal.

Esta cena a principio passara desapercebida para os oficiais de sala e mais gente que estava em palácio; quando lhe deram atenção, foi tal a surpresa, que ninguém se lembrou de intervir, e já se retiravam cavaleiro e escudeiro, quando o ajudante que descia as escadas de tropel, montou a cavalo e foi-lhes no encalço.

Tomando a dianteira ao cavaleiro, gritou-lhe o ajudante:

- Levanta a viseira!

- Se vens da parte de D. Sebastião para conhecer o cavaleiro diante de quem ele fugiu, olha!

E levantada a viseira, o Negreiros ao ver a cara bem sua conhecida de D. Severa, disparou às gargalhadas, e deu de esporas ao cavalo para tornar a palácio e contar o caso grotesco ao governador. Mas entornou-se-lhe o caldo, porque ao passar rente com o escudeiro, este, que não era outro senão o brejeiro do Nuno, agarrou-o pelo tacão da bota e o revirou da outra banda.

Ao mesmo tempo com a ponta da lança picava o rapaz a anca do cavalo de D. Severa, e partiam ambos à disparada. Mas inda assim podia sair-lhes salgada a graça, se no momento em que o ajudante erguia-se do tombo, esbravejando como um touro, não desembocasse da ponte uma numerosa cavalgada. que se aproximava cercada de grande ajuntamento de gente a pé.

Descobrindo à frente da cavalgada o pendão da cidade de Olinda, nas mãos do procurador do Senado, Estêvão Soares de Araújo, conheceu o ajudante que havia novidade, e adiando para mais tarde a desforra do desacato inaudito que sofrera, tratou de inquirir do motivo do acompanhamento.

Acabava Sebastião de Castro de levantar a junta, declarando que à vista dos pareceres resolveria em tempo, quando chegou açodado o ajudante a comunicar-lhe que aí vinha o Senado de Olinda com as varas dos ofícios e pendão alçado para representar sobre negócio de urgência, o qual ele suspeitava ser o próprio da criação da vila do Recife.

Saiu o governador a receber os juizes e oficiais; com eles vinha o Ouvidor Arouche e alguns nobres de Olinda dos mais exaltados, além do povo com seus procuradores em frente.

Então o Coronel Domingos Bezerra Monteiro, vereador mais velho que servia de juiz ordinário, adiantou-se e falou nestes termos:

- Senhor governador, aqui vem o Senado da cidade de Olinda, com a nobreza e povo, por seus procuradores nomeados, representar contra a deliberação que tomou Vossa Senhoria de criar vila no Recife, para o que sabe-se com bom fundamento que se estão lavrando em segredo no Forte da Madre de Deus as pedras do pelourinho.

Não pôde de todo ocultar Sebastião de Castro a contrariedade ao ver devassado o seu plano; mas sem desconcertar-se, ouviu impassível e com uma compostura cheia de dignidade todo o arrazoado do juiz de fora.

Sua resposta foi breve e consoante com a autoridade de que se achava revestido:

- Como governador desta capitania hei de cumprir as ordens de El-Rei, meu senhor, a quem o Senado e povo de Olinda devem obediência e sujeição, e o senhor juiz ordinário, primeiro que ninguém. está na obrigação de encaminhá-los a este preceito.

Aqui o sargento-mor, Leonardo Bezerra Cavalcanti, rompeu com um desabrimento impróprio do lugar e da pessoa a quem se dirigia.

- Pois fique sabendo Vossa Senhoria que, se pode por seu arbítrio erguer o pelourinho do Recife, podemos nós os pernambucanos com a justiça que nos assiste derrubá-lo, e assim o protestamos.

Logo acudiu o Alferes Manuel Bezerra em reforço ao pai, e seguiram-se outros discursos sediciosos e palavras de arruído, com insólito desacato à autoridade do governador.

Sebastião de Castro recolheu-se ao interior do palácio, e logo após quando retirava-se o Senado de Olinda, à porta do palácio, apresentou-se o Ajudante Negreiros com uma ronda de soldados da guarda:

- À ordem do senhor governador e capitão-general, prendo ao Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti e seu filho, o Alferes Manuel Bezerra Cavalcanti.

Momentos depois do ajuntamento, que passava pela ponte de volta a Olinda, ergueu-se uma voz a cantarolar esta quadra muito conhecida então:

O Mendonça era Furtado,
Pois dos paços o furtaram;
Governador governado,
Para o reino o despacharam.

A chusma repetiu a copia em coro, e outra voz alternou:

A peste já se acabou:
Alvíssaras, ó gente boa!
O Xumbregas embarcou,
Ei-lo vai para Lisboa.

Estas coplas eram de uma cantiga popular, em voga uns quarenta anos atrás, e alusiva ao Governador Jerônimo de Mendonça Furtado de cujo apelido os garotos e praceiros tinham feito remoques e trocadilhos.

Esse, o quarto governador da capitania, se malquistara com a nobreza e povo pelas muitas extorsões que praticava; sobrevindo a peste das bexigas, a miuçalha entrou a chamá-la pela alcunha de xumbregas, que tinha o sujeito. Chegou a ponto a animosidade da gente da terra, que na tarde de 31 de julho de 1666 ao sair o governador do palácio de Olinda, tomou-lhe o passo o juiz ordinário que o prendeu, fazendo-o recolher a palácio em custódia, até que o remeteram para Lisboa com o sumário da devassa.

Foi este fato que deu tema à cantiga, a qual o popular nunca mais esquecera e gostava de repetir sempre que se desavinha com os governadores, como aviso do que podia suceder.

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