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GUERRA DOS MASCATES

José de Alencar

Outro sestro que se lhe notava era dar à ilharga, em andando, certa descaída como o soldado que traz espada à cinta e furta levemente o quadril para não embaraçar a marcha. Bem diverso era o instrumento de que vinha ele armado: sobraçava um bastão chanfrado de jacarandá com a medida portuguesa de vara e côvado, e trazia às costas uma burjaca de couro de Moscóvia cheia de fazendas e miudezas, objetos estes de que não se pudera antes desvencilhar com receio de perdê-los; mas naquele momento vingou-se com usura.

- Arre! Não está longe o dia em que te hei de meter no fogo! exclamou atirando a vara ao chão e dando-lhe por cima um pontapé; e o saco foi pelo mesmo caminho e teor.

Vestia o rapaz, ao uso do tempo e de sua condição, jaleco, véstia e calçiles de belbute da mesma cor parda, com meias cruas apertadas abaixo do joelho e sapatos grossos de couro acamurçado, com fivela de estanho. Pelo trajo via-se que era filho da gente do meio, como se designava então a classe que nem era a nobre, nem a mecânica; mas. ficava entre ambas, e se compunha daqueles a quem o ofício ou arte liberal privilegiava com certa isenção. Deste número eram os mercadores de tenda aberta.

Quem, pois, visse passar pelas ruas do Recife naquele tempo o esperto garoto com a vara embaixo do braço e a burjaca ao ombro, reconhecia-o logo pelo moço de um mascate, ou seu caixeiro de rua e balcão.

E não se enganaria, pois tal era o mister que tinha o Nuno na loja de seu pai, o mercador Miguel Viana.

Curta foi a hesitação do rapaz. Meteu-se entre as árvores e aproximou-se sorrateiramente, afastando os ramos para aprochar a casa. Se do lado da casa-a lebre espiava, de cá era o campeiro que passava sutil través da folhagem, aspirando as baforadas do ar e pressentindo um hálito suspeito de envolta com as emanações da brisa e os eflúvios das flores.

Afinal, de espreita em espreita, lá chofraram-se os olhares de ambos, a modo de pélas que se encontrassem no ar e retrocedessem. Como figurinhas de artifício tocadas por mola oculta, tomaram de súbito vária postura. O rapaz, voltando costas à janela, apanhava no chão um ramo seco e partia-o em pedaços, que lhe serviam para atirar à copa das árvores, com o disfarce de abater algum fruto. Quanto à menina, de um ápice escondera-se atrás da ombreira da janela, debulhando nos lábios um riso malicioso, que ralhava com o rubor derramado pelas faces, da mesma forma que os dedos traquinas estavam às voltas com os alamares do justilho.

Passado um momento, como o Nuno parecia em verdade ocupado com as árvores, o narizinho retorcido que se animara a espiar com o canto do olho pela quina da ombreira, foi a pouco e pouco, de susto em susto, já ousado, e já trêmulo, mostrando-se pela face interior, até que afinal surdiu fora de novo, embora um tanto arisco e desconfiado.

Aí a esperava o fingido moço, que tendo visto de esguelha toda a mímica, voltou-se de supetão; mas, se ouviu um gritozinho semelhante ao da carriça, não enxergou mais que uma sombra a desvanecer-se na obscuridade da recamara.

Tão viva e ligeira como ele, a menina frustrou-lhe a travessura, escondendo-se de novo.

Duas ou três vezes repetiu-se a pantomima, e o rapaz sempre logrado; até que amuou-se, e trepando em um galho d'árvore, sentou-se de costas para a janela, a balançar as pernas e a repetir a cantiga de um folguedo muito em voga então:

Uma, duas, argolinha,
Finca o pé na pepolinha;
O rapaz que jogo faz,
Faz o jogo do capão,
O capão sobre o capão,
Conta bem, Manuel João;
Conta bem que vinte são;
E recolhe este pezinho
Na conchinha duma mão.

CAPÍTULO III

ENTRAM EM CENA A RONHA E A BILIS DO GOVERNO DA CAPITANIA

Debalde a faceira veio estouvadamente debruçar-se à janela; debalde começou a espantar os passarinhos com um certo chó dos lábios que riam-se arremedando um psiu; debalde contrariada pela impassibilidade do rapaz, tirou do peito uma tosse fingida, que, se não me engano, acabou por um suspiro mavioso.

Não se abalava o rapaz, que era pirracento, senão ardiloso. Mas que bigode, quando mais buço a pungir, há aí que vença em manha e teima a um narizinho retorcido? Mostrem-mo, se são capazes.

Acaso tocara a menina com o cotovelo na ruma de bagaços de cana, que alinhara sobre o peitoril, e dos quais se esquecera um instante. Segurou o primeiro na ponta dos dedos, e zás, fez alvo no rapaz que não se mexeu. Ao quinto ou sexto tiro todavia, o inimigo incólume, pois nenhum dos projéteis acertara nele, deu sinal de baleado, tombando de repente para trás.

Rodar sobre o galho como um corrupio, virar no ar uma cambalhota, e cair de pé, em frente da janela, foi para o rapaz negócio de esfregar um olho. Quando a travessa o procurava no ar, já estava ele quase embaixo da janela, fazendo-lhe por despique um momo de simulado espanto.

- Hã!...

Já era tarde para fugir, se é que ela nunca teve tal idéia, e não se deixara muito de propósito apanhar dessa calculada surpresa. Contudo fez menção de hesitar, enleada no melhor partido; e foi ela soltar a risada gostosa que lhe estavam provocando os gatimanhos do moço.

Começou então o desafio das risadas e das ligeirezas; porque ela procurava acertá-lo com o bagaço de cana, que ele evitava com saltos e furtadelas de corpo; daí as negaças e os enliços de parte a parte, até que partia o tiro; se errava o alvo, como quase sempre acontecia, Nuno fazia uma careta:

- Uh! Uh!...

E eram gargalhadas da menina e trejeitos do moço, que se divertia com aquele folguedo apto ao seu gênio trêfego e petulante.

Acabados os projéteis, meteu a menina a mão no bolso e tirou um gomo de cana, mas em vez de o jogar, começou com ele a fazer foscas ao moço, ora fingindo que o chupava, ora acenando que lho queria dar em mão.

- Quer? perguntou afinal.

- Atire!

- Lá vai!

Aparou o moço nas mãos o gomo de cana e chupou-o logo: depois outro e outro até o último.

- Não tem mais! dizia a menina virando os bolsos.

- Que pena!

Desde que não havia mais travessuras, sentiam-se os dois enleados; já não se animavam a olhar um para o outro, nem a trocar palavra.

O rapaz estendia os olhos para o caminho e suspirava; a menina já não se debruçava à janela, e de vez em quando voltava-se para dentro.

Desse lado da casa havia um tapume tosco e em muitos pontos aberto pela gente que, para encurtar caminho, atravessava os terrenos da quinta, na direção dos Mogados. Favorecido pelos hábitos dos moradores que deixavam essa parte da habitação deserta naquelas horas, Nuno se aproximara sem despertar a atenção, e como cada tarde ia conquistando mais terreno, estava então junto ao tronco de uma pinheira que lançava os galhos para o telhado.

Lembrou-se de trepar; era uma travessura. Nisso uma voz aguda chamou do interior:

- Marta!

Correu para dentro a menina, e com pouco voltou, comendo uma cocada que a mãe lhe dera, e com a qual se preparava para fazer figa ao camarada; mas não o viu. Cansada de procurá-lo entre as árvores e despeitada da peça que lhe pregara, ia retirar-se murmurando: guerra dos mascates 171

- Deixa-te estar, marotinho!

Eis que surge-lhe pela beirada do telhado a cabeça do estouvado rapaz, trepado na pinheira, donde conseguira alcançar com a mão as travessas ou cachorros, como lhes chamam os carpinteiros. Com o susto que sofrera e o receio de que descobrissem o rapaz naquela posição, Marta acenou-lhe com a mão que descesse:

- Um ninho! disse Nuno olhando pelo interstício das telhas.

- Aonde? perguntou a menina já picada pela curiosidade.

- Aqui. É o da carriça!

- Tem ovos?

- Dois!

- Ah!...

- Quer?

- Não!

Esse não, disseram-no vivamente os lábios de Marta, mas os olhos a desmenti-los estavam morrendo de desejos de ter o ninho com os ovos dentro. Já este passara do vão da telha para a mão do rapaz que o mostrava:

- Olhe!

- Que bonito! exclamou a menina com o prazer supremo da criança, que se atira para o brinquedo e parece meter-se por ele para melhor o possuir. É talvez por essa veemência do gozo infantil, que os meninos quebram logo as tetéias de que mais gostam.

- Tome! disse Nuno fazendo menção de levar-lhe o ninho.

- Não, não! respondeu Marta com espanto, querendo fugir da janela.

- Então levo para Isabel.

- Pois sim!

Desconsolado metia Nuno o ninho no peito da véstia, e preparava-se para descer, enquanto de seu lado Marta arrufada consigo mesma, olhava à sorrelfa o camarada, com sorriso insosso. O rapaz cogitava um pretexto para ficar; a menina tinha medo que ele o achasse, mas sentia que se fosse tão depressa.

De repente uma voz de tom imperioso soou perto, que produziu nos dois o natural espanto e soçobro de se verem surpreendidos em flagrante delito de travessura:

- Que fazes tu aí, garoto?

Com estas palavras, ressoou também o estrépito de uma brilhante cavalgata, que se aproximara sem rumor por causa da areia, e estava agora parada na rua, aquém do canto da casa, onde passava a cena anterior.

A figura proeminente do troço era um cavaleiro de grande porte e alta estatura, que então ocupava o centro na testa do primeiro grupo. Orçaria pelos quarenta anos; tinha olhos pequenos e ornava-lhe o rosto alvo densa barba cinzenta, fina e macia, que disfarçando a aspereza das linhas inferiores, corrigia-lhe o oval do semblante.

De perfil, porém, acentuava-se a projeção do queixo, bem como a proeminência da fronte, que se distinguia sob a aba do chapéu de castor, guarnecido a cairel de ouro. Nessas duas saliências da fisionomia estava, como em relevo, desenhado um caráter.

A pertinácia, não a da perseverança como a praticam os ânimos robustos que sabem querer, e sim a da obstinação própria de naturezas tímidas, que se aferram ao pretexto; a resistência da dúvida, alimentada pela índole da contradição; o molde da parte posterior do rosto o estava retratando.

Anunciava inteligência a fronte aberta; e todavia a testa bombeada acusava nesse contorno arredondado do crânio um traço feminino. Via-se aí a fôrma do talento do detalhe, ou melhor, da maleabilidade do engenho, que se presta a vários misteres ao mesmo tempo, contanto que todos calhem na bitola.

Era nobre e viril o parecer do cavaleiro, especialmente em repouso; mas desde que se punham em ação suas faculdades, desprendia-se delas um prurido de atividade sôfrega e volúbil, que desconcertava a compostura do semblante, como do talhe. Falava rápido, com a palavra difusa e a voz estridente; demasiava-se no gesto; e em todos os seus modos punha tal alacridade, que devia-lhe algumas vezes o espírito titubear, enleado naquela meada de idas e vindas, de passos e voltas, em que se comprazia o seu gênio infatigável.

Casaca de veludo castanho com mangas de bota e guarnecida, como o chapéu, de cairel de ouro; volta de renda, laçada ao pescoço, e da qual lhe caíam as duas pontas largas sobre o peito da véstia de cetim azul com ramagens brancas estampadas; talim de veludo que suspendia a rica espada; broches de pedraria na presilha do chapéu, nos punhos do camisote e na atadura dos calções de brocado amarelo: assim vestia o cavaleiro.

Trajo esse para fidalgo de grande estado, novo e aprimorado da fazenda como do feitio, bem longe de sobressair na compleição bem proporcionada do cavaleiro, parecia, pelo desleixo com que o trazia ele, já amarrotado do muito uso.

Tal era Sebastião de Castro Caldas, governador e capitão-general de Pernambuco.

À direita ficava-lhe o Capitão Barbosa de Lima, secretário do governo; à esquerda o Capitão Negreiros, primeiro ajudante-de-ordens. Seguia-se o Tenente Bernardo Alemão, segundo ajudante-de-ordens, com o alferes André Vieira, que mandava o piquete de cavalaria da guarda do governador; por último quatro criados em libré de seda amarela com forro verde dobrado nas golas, no canhão e ponta das abas, tendo as armas dos Castro Caldas bordadas no alto da manga do gibão à guisa de dragona.

Eis a cavalgada que parara no canto da casa, com espanto do Nuno, que lá de cima da sua pinheira, quase encarapitado no telhado, esgazeava uns olhos donde coava-se através do susto o chasco ardiloso do brejeiro.

CAPÍTULO IV

DO PERIGO DE TIRAR NINHOS DOS TELHADOS NO TEMPO DE EL-REI NOSSO SENHOR

No momento em que a luzida cavalgada, avançando a passo moderado, defrontou com a janela do sótão, Um ligeiro sorriso perpassara nos lábios do governador, erriçando de prazer o fino bigode, que sua mão branca e esmerada alisou com um gesto rápido.

Tinha percebido o vulto gracioso de Marta, que destacava no vão da janela, como a figura de uma sílfide na tela escura de exímio pintor. Ao sopro da brisa as roupas transparentes de garça verde-gaio lhe flutuavam em torno como asas de gaturamo, especialmente as mangas soltas, donde se lançavam os lindos braços, imitando lírios hasteados entre a folhagem. Um justilho preto, curto e chanfrado, cerrava-lhe a cintura mimosa, que dobrava-se como a haste da flor, com as inflexões do talhe.

Breve se apagara nos lábios do governador o sorriso, percebendo que a menina não estava só, mas praticando com alguém. Ao ver o intruso, a posição em que se achava, e a casta de gente que era, carregou-se-lhe o sobrolho; e por uma leve depressão do lábio superior, dir-se-ia que mordera um fio do bigode.

Todavia não se alterou em geral a calma de seu porte; e a ligeira perturbação passou desapercebida para todos, com exceção dos dois oficiais que ladeavam o governador.

Foi então que o Capitão Negreiros, justamente irritado contra o temerário que ousara cair no desagrado do poderoso governador, não só lançou contra o Nuno aquela apóstrofe acentuada com a mais oca retumbância de sua voz, porém ficou-o fulminando com a sombria catadura.

Como não respondesse o rapaz, e estivesse lá de seu poleiro a mirá-lo com ares de mofa, arremessou-lhe de novo estas palavras:

- Não tens boca, mariola! Que fazes tu ai?

- É um ninho de carriça, sim, meu senhor!... respondeu o menino atarantado.

- Um ninho, grandíssimo peralta! bradou o ajudante com suprema indignação e a mais possante ênfase oratória. Um ninho no telhado!...

No ânimo do nosso ajudante um crime de lesa-majestade dos capítulos de primeira cabeça não produziria tamanho horror, qual mostrava, e devemos crer que às veras, diante da enormidade desse atentado inaudito contra a inocente prole da carriça e a inviolabilidade do telhado do Perereca.

Em verdade era grave o caso; assassinato em massa e invasão na propriedade alheia. Se um rei ou um governador se lembrasse disso para distrair-se, inventando uma guerra ou algum monopólio que dizimasse o povo na vida e na bolsa, avisaria o nosso ajudante a excelência da medida; pois qual é o fim da república senão divertir aos príncipes? Mas quando era um galopim que ousava atacar as telhas e os ninhos!... Oh! protérvia!...

Arremessou o capitão o cavalo contra a cerca no intuito de alcançar o artelho do rapaz e derrubá-lo da árvore; mas este que lhe adivinhou o plano apoiando-se na beirada, galgou o telhado e se pôs a salvo.

- Safa rascada! gritou o brejeiro.

Afastara-se o governador e entretinha-se à parte com o prazenteiro secretário, parecendo de todo alheio à cena que ali se passava. Mas quem o observasse atento, perceberia o olhar rápido que a furto relanceava para a janela do sótão, onde se eclipsara a estrela, com o aparecimento da cavalgada.

- Desce, biltre!... intimava furioso o ajudante.

Mas o marotinho do rapaz gingava no telhado, bamboleando o corpo e fazendo-lhe gatimanhos de zombaria:

- Babau, sr. capitão! Babau!

- Eu te esbandalho, pedaço de um bargante! berrou o ajudante.

- Isca! Isca!.

- Olá, um! Agarrem-me já este espirro de gato.

Apeou-se um dos lacaios para cumprir a ordem, o que compreendendo o Nuno e vendo a estreiteza do caso, lançou em torno uma vista indecisa; nisto sentiu que lhe puxavam a aba do gibão. Voltando-se, deu com a carinha travessa de Marta um tanto amarrotada do susto, a mostrar-lhe a recâmera como um asilo. Não havia hesitar.

Corriam-se as adufas da protetora janelinha, justamente quando aparecia a cabeça do lacaio por cima das telhas. O ajudante estava no delírio da raiva; se a princípio se mostrava irritado por conta do governador, agora era pela sua própria que esbravejava como um possesso.

- Marau, gambirra, fundilho de Judas, lêndea do Cão-Tinhoso, fedelho de Satanás!...

Por este jeito vociferou durante algum tempo o ajudante, notável pela fertilidade dos epítetos mais pitorescos e originais, com que nos seus momentos de sanhuda eloqüência ele enriquecia o idioma das regateiras.

Observando o governador que seu ajudante começava a exceder-se, deu de rédea ao cavalo e passou adiante com o secretário, cujo eterno sorriso se encrespara com um ligeiro tom de ironia ao ver o destampatório do capitão.

Quando passavam pela frente da casa, abriu-se a porta, e saiu um homúnculo, armado com uma cabeça de pitorra e enfaixado em um quimão de primavera. Desbarretando-se até ao chão, desfazia-se em cortesias tão rasteiras, que mais pareciam dirigidas ao cavalo do que ao cavaleiro.

- Boa tarde, sr. almotacé.

- Aos pés da muito alta plosopéia do exmo sl. govelnadol!

A esse tempo por urna fresta da gelosia do meio, a Sr.a Rufina, que empurrara o marido pela porta, espreitava de dentro.

- Não sabe o que acontece? perguntou o governador.

- Sabelei, meu senhol, se a bondade de V. Ex.a concedel-me essa glaça.

- Capitão! disse o governador com os olhos no secretário.

Este, compreendendo a intenção, tomou a palavra:

- Agora mesmo, ao passar, vimos um galopim que trepou no telhado de sua casa e entrou pela janela do sótão.

Ouviu-se o estrépido da gelosia que batera, e logo uma voz correndo para o interior:

- Virgem Santíssima! No quarto de Marta! Acudam, gentes!... Quanto ao Sr. Simão Ribas, ficara estatelado com o caso; mas afinal, pondo as mãos na cabeça, exclamou em tom patético:

- Um sicálio, aflontando a minha autolidade! Que atlevimento!...

Voltando-se depois a custo, porque as pernas lhe fugiam, disse para a casa:

- A minha vala, Senhola Lufina!

Entretanto Nuno e Marta espiavam pelas frestas bem conchegados pelo susto e também por esse gozo inefável de transviver-se em outro, o que já em criança todos pressentíamos com o prazer de inocente folguedo. Qual, no jogo da manja, não procurava de preferência a parceria da menina mais bonita, para atracar-se com ela no cantinho e tão apertados, como se quisessem esconder-se um no outro?

- Que Caifás tão feio que é aquele sujeito! dizia Marta mostrando o ajudante. Cruzes!

- Ah! se eu tivesse já a minha durindana! dizia Nuno com recacho militar; você veria como eu havia de tosar o pêlo àquele barbaças de centurião. Olhe: vá a pequena lá abaixo e busque-me o estoque do pai.

- Deus me livre! Para a mamã ralhar-me!...

- Agora sim! exclamou o rapazinho batendo as palmas de prazer.

- O que é? perguntou curiosa Marta, enfrestando o olhar.

- Cá chega o Vital.

- O primo?

De feito entrara na cena do quintal um novo personagem, bem disposto e elegante cavaleiro, no viço dos anos floridos, pois já andava nos trinta. Sombreavam-lhe o rosto oval fino bigode e pera que ele trazia contra a moda do tempo, e destacavam-se com donaire na tez de suave moreno. Os olhos, tinha-os grandes, cheios de brilho e ardimento, como lumes, que eram, de um coração bravo e generoso. Nos cantos da boca, apagava-se o sorriso em uma plica ligeira, indicio da preocupação constante que absorvia-lhe o pensamento.

Muita louçania dava a essa fisionomia inteligente e ao garboso talhe o apuro das roupas que trazia com especial gentileza o cavaleiro. De lemiste com forro de cetim azul era a casaca bem talhada, que dobrava a gola sobre uma linda almilha de tela alcachofrada, e espalmava as abas pela anca tio brioso cavalo, mostrando os calções estreitos de veludo cereja. Colarinhos e punhos de renda de Veneza atacados com rubis; luvas de pele acamurçada; alva pluma de garça no chapéu de castor pardo; borzeguins altos com rosetas de filigrana de prata, iguais ao tope do chapéu e às borlas do florete, completavam o casquilho vestuário.

Desde algum tempo que o cavalheiro, parado a curta distância, observava oculto pela ramada das árvores, a ridícula cena ali representada pelo Ajudante Negreiros. Aproximando-se afinal, saudou o oficial com um gesto de mofa.

- É certo, pois, sr. ajudante, que afinal romperam os de Olinda?

- Donde o sabe? atalhou o Negreiros tomando a nova ao sério e já alvo roçado com o prazer de espatifar os do levante.

- Agora vejo que me enganei. Ao chegar, dando com toda esta azáfama da gente de El-Rei, devia pensar que os nobres tinham assaltado a casa do meu parente Simão Ribas!

- O caso não é para chascos, nem eu sou homem para eles, bem o sabe o senhor! replicou o ajudante com cenho de ameaça.

- Que se há de fazer à comédia, senão rir dela? Esbarra-se a gente no caminho com um ferrabrás de espada desembainhada, a esgrimir contra os telhados, dando caça a um pirralho: e quer o sr. ajudante que se fique sério como um burlão?

- Sr. Vital Rebelo! exclamou o capitão aceso em ira.

- Sr. Ajudante Negreiros! disse o seu interlocutor sem alterar-se, como se respondesse a uma benévola interpelação.

A ponto sobreveio um lance para atalhar a disputa que prometia azedar-se; e foi que a janela do sótão abriu-se de supetão e dela espirrou o Nuno acossado por um inimigo que lhe tomara a retaguarda. Mal saltara o rapaz no telhado, que a Sr.a Rufina assomara ao postigo, empunhando à guisa de lança um cabo de vassoura, armado da competente broxa de palha.

Convencido de que, na estreiteza do caso, só uma resolução pronta e destemida o podia salvar, o mascatinho atravessara de corrida, mais veloz do que um gato, a aba do telhado até a extremidade da casa, e aí de um pulo, travou os ramos de um cajueiro, donde alcançou facilmente o chão, e desapareceu entre o arvoredo.

Tão rápido foi o incidente, que deixou pasmado o Ajudante Negreiros; mas recobrando enfim o ímpeto, arrancou no encalço do fugitivo, e por certo o alcançara se não lhe atravessasse o passo Vital Rebelo.

- Caminho!

- Não se passa.

- À ordem do sr. governador!

- Da parte de El-Rei!

- E quem, estando eu, fala aqui em nome de El-Rei Meu Senhor?

Pronunciara estas palavras Sebastião de Castro, que se aproximara advertido da altercação.

- Falo eu, disse Rebelo com um tom respeitoso e digno; e falo a V.Sª a quem El-Rei pôs de governador nesta capitania para reger-lhe os povos e guardar-nos os forais; que não para montear os filhos de seus vassalos como caça bravia.

Pareceu o governador um instante perplexo ante aquela resposta, onde ressumbrava não só a altivez dos brios, como a consciência de um direito; logo, porém, replicou em tom moderado e conciliador:

- Talvez tenha razão, Sr. Vital Rebelo; mas se algum excesso houve, que eu não creio, da parte de nosso ajudante, foi somente no zelo com que se emprega no serviço de El-Rei Meu Senhor e da nossa pessoa.

Cortejando com a mão a Vital, voltou-se para a comitiva, com estas palavras:

- Vamos, senhores, que de sobra já nos demoramos.

Desfilou a cavalgada pela frente da casa onde o digno almotacé, ainda engasgado com o caso que lhe acontecera, gritava pela vara para intimar a sua autoridade ao malfeitor.

CAPÍTULO V

TRÉS CANDIDATOS À GLÓRIA, UM RABISCA-PAPEL, UM FERE-FOLHA E UM ROEDOR DE UNHAS


Ao tempo em que Nuno escapava-se da embrechada, outro mancebo pouco mais idoso que ele assomou na extremidade da ponte que então ligava ao Recife a Ilha dos Pescadores, onde era o bairro de Santo Antônio.

Já não existe aquela ponte construída no tempo da dominação holandesa pelo Conde Maurício de Nassau. Em 1737 a reformou o Governador Henrique Luís Pereira Freire, que teve a engenhosa idéia de levantar ao longo dela dois renques de pequenas lojas para os quincalheiros, donde provinha ao real erário boas propinas. Desabando esta segunda ponte em 5 de outubro de 1815, foi substituída por outra que chegou aos nossos dias.

Vinha o rapaz do Porto das Canoas onde acabava de desembarcar.

Representava ele maior idade do que os 26 anos que tinha; era de mediana estatura e compleição fornida. Por cacoete ou vicio de conformação faziam as espáduas uma leve corcunda, que o privava de apresentar o rosto bem de face; o olhar do interlocutor encontrava um semblante escorregadio e resvalava por ele sem o penetrar.

Caminhava com um piso miudinho, mas indeciso, imprimindo à marcha certa sinuosidade. Percebia-se, reparando-lhe nos movimentos, que antes de abrir o passo hesitava em avançar; e que andando vacilava constantemente, como um pêndulo, entre a direita e a esquerda.

Ao mesmo tempo os olhos quase redondos e espantadiços enfrestavam-se pelas pestanas de uma à outra banda e faziam um como crivo de olhadelas rápidas e sutis. Dai lhe viera o apelido de Pisca-Pisca por que era mais conhecido do que pelo próprio nome de Cosme Borralho. Nesse estrabismo artificial estava o cunho do rapaz. Em tudo vesgava ele; na vista, no andar, na fisionomia e até na fala. Ressentia-se a voz de singular desafinação, pelo que ora saia-lhe machucha, ora menineira.

Seu trajo compunha-se de roupeta, véstia, calções e peúgas, tudo preto, muito rapado e já cerzido em vários lugares. Mas a escova lhe espoara escrupulosamente o fato, e os fios mais desbotados do estofo pareciam retintos de fresco a bico de pena. O mesmo esmero se notava no velho casquete surrado e nos grossos sapatões de couro alaranjado.

Indicava esse vestuário um de tantos moços que então escreviam para os tabeliães do público, judicial e notas, e aí se amestravam na rabulice. O povo chamava-os pela alcunha expressiva de fuinhas de cartório, que lhes assentava às mil maravilhas.

Enterravam-se no sombrio aposento como em um buraco. Desde crianças, curvados sobre o telônio e afeitos à busca dos autos e papéis velhos, adquiriam certa inflexão e prolongamento de pescoço acompanhado de furtivos esgares que lhes davam em verdade boas mostras do animalejo furão e bisbilhoteiro.

Saiam-lhe do bolso da véstia um rolo de papel cheio de garatujas e as ramas compridas de duas ou três penas de ganso, matizadas de várias cores. Semelhante garridice, único vislumbre de vaidade naquela figura sombria e estrambótica, a inspirara o carinho da profissão, que de ordinário cria os melhores operários do espírito como da matéria.

De quando em quando por um gesto rápido passava pelos beiços a unha polegar da mão direita e a esfregava com sofreguidão ao peito da roupeta. Parecia dominado da idéia de umedecer a coroa do dedo, a fim de tirar pelo atrito uma nódoa de tinta, ali permanente desde muitos anos.

Não era pela gola, que atacava a gordura do casco, nem pelos cotovelos roçados no bufete de escrever, que ia-se a roupeta do Pisca-Pisca. Vinha-lhe a ruína do peito, onde trabalhava a unha impertinente. Homem de recursos, pusera em prática todos os meios de vencer o terrível cacoete. Chegara até a amarrar à cinta o dedo rebelde; porém quando a unha lhe começava a comer, e era justamente no meio de suas cogitações, lá se ia o atilhó. Ao dar fé de si, o escrevente via com desespero o brejeiro do dedo tocando viola no peito da roupeta.

No momento em que o avistamos sob o arco do Bom Jesus, vai ele sem dúvida muito preocupado; pois o atrito atingiu sua maior velocidade. Com efeito, assim atravessou a ponte, e já saia em Santo Antônio, quando o Nuno esbarrou-lhe a passagem.

- Vem de Olinda, Cosme?

- Agora chego.

- Quando estoura o negócio?

- De qual negócio fala você, Nuno? retorquiu o escrevente envesgando um olhar que fez ziguezague à direita e á esquerda e veio cair sobre o bolso da véstia, onde aparecia o rolo de papel.

- Vamos cá! disse o mascatinho puxando o fuinha pela aba da roupeta.

- Pois não estamos bem aqui?

- Nada, que não me faz conta me bispem os tais malandros! Se me pilham!...

Assim falando, puxava o Nuno ao companheiro pala baixo do primeiro olhal da ponte, que a maré deixara em seco.

- Então não sabe que negócio é, hem?

- Podia jurar que não!

- Ora! Quer-se fazer de bom. Pois olhe, aqui está tudo cheio da nova; desde Fora de Portas até Arrombados não se fala senão do levante que os de Olinda pretendem fazer.

- Muito há que se rosna a este respeito; mas são boatos que dão em nada. Há certa gentinha enredeira que inventa estas cousas para ter de que mexericar.

- Desta vez a cousa é séria, digo-lhe eu, Cosme; que também vou meter-me na dança. Oh! se vou; hei de ensinar a uns certos marrecos, inclusive um barbado cá do meu conhecimento! Tomara já ver tudo no sarilho.

- Não acredite nessas caraminholas, Nuno. Que lucrarão os de Olinda com o levante?

- Então você está muito atrasado. O plano é empolgar o marmanjão do Sebastião de Castro como se fez há tempos com o Xumbregas, e recambiá-lo para Lisboa com uma queixa a El-Rei.

- E conseguem lá isto? Não há de sair como pensam. Os do Recife são gente de peso, mercadores ricos, e têm por si o melhor povo da capitania.

- E os nobres então? Não foram eles que conquistaram ao flamengo esta terra'

- Assim apregoam; e contudo, pensando bem, Nuno, que valeria a terra, se não fossem os mercadores que a têm enriquecido? Mas nenhum como o Sr. Miguel Viana.

- O pai tem juntado boa chelpa, não há dúvida; mas tirante disso não serve para mais nada. Eu cá é que não estou pelo ajuste. Em começando a guerra, hão de ver para quanto presta este fedelho, como dizia o mono há pouco.

- Quem? perguntou curioso o fuinha.

- Aquele focinho de caititu do tal de Negreiros... Mas isto cá é comigo.

- Então, vistos os autos, está você aborrecido de mascatear e prefere a milícia!

- Pois é minha paixão! Não sei por que já não atirei no mangue esta burjaca.

Assim é a sorte. O que você rejeita, outros invejam. Eu, verbi gratia, eu que há sete anos garatujo do Matias, para ganhar uns magros tostões... se pilhasse um arranjozinho de mascate, nalguma loja... Bem podia você, Nuno, se quisesse, arranjar-me em casa de seu pai para o lugar que vai deixar.

- Está dito; você toma conta da albarda, e o pai ganha na troca, porque fica com um bom latagão! Vamos a isto; eis aí o surrão!

Para fazer ao vivo a entrega do fardo, o Nuno chimpou com ele no toutiço do Cosme, que titubeou.

- Arre lá! As cousas fazem-se com jeito. Você primeiro deve falar de mim ao velho; e para inquirições ele pode tirá-las do Capitão Miguel Correia e Padre João da Costa, o da Recoleta. Ambos hão de assegurar que eu dou conta da obrigação, como se fosse devoção. Não há tarefa que me meta medo; e para remate, fui sempre pelos do Recife.

Já não o escutava o Nuno, que esguardava na ribeira do Recife alguma cousa. Reparando nessa distração, voltou-se o Pisca-Pisca e logo percebeu-lhe a causa.

Havia daquela banda do bairro uns muros de quintais com serventia para a praia. O sol, transmontando, projetava larga sombra ao longo da parede. Aí, na zona opaca, um sujeito ia e vinha em continuo giro, a não ser que o interrompia acercando-se do muro e gesticulando, como se estivera com ele em prática animada.

- O Lisardo!...

Murmurou o escrevente este nome com um meio sorriso de mofa, pronto a se transformar de súbito em sorriso de prazer. Tudo neste rapaz era assim dúplice. Nos olhos, como nos lábios, sua alma só apresentava-se aos outros de perfil, para que não lhe vissem a divergência das duas faces.

- Psiu!... Psiu!... fazia no entanto Nuno agitando a mão.

- É debalde!... acudiu o Pisca-Pisca zombando.

- Vamos bulir com ele?

- Já vai sendo tarde, e tenho de voltar a Olinda antes de Trindades.

- Qual! para o escurecer ainda falta muito. Toca a avançar... Lança em riste. Arranca!

Vergou-se o petulante rapaz enristando a vara como se fora um virote, e empurrou para diante o escrevente em rota batida. Assim atravessaram rapidamente a ponte, e contornando a praia, foram sair no lugar onde arruava o solitário passeador.

Era também um rapaz; e parecia não ter ainda vinte anos. Ia e vinha ao longo do muro, repetindo em tom soturno palavras sem nexo. Acompanhava o trabalho mental uma gesticulação enérgica. Todo o corpo concorria para aquela mímica, desde a cabeça que pontuava a frase até ao pé que batia a cadência.

Tinha entre os dedos alguma cousa que se lobrigava confusamente no meio do gesto patético. Quando parava para conversar com o muro, percebia-se então perfeitamente que era um prego enferrujado. Servia-lhe de estilete para gravar na caliça da parede as rimas de uma décima em cuja composição suava o jovem árcade.

Ali na página aberta desse álbum dos meninos de escola liam-se já algumas palavras alinhadas no fim de um risco..

_______________ nascer

_______________ instante

_______________ inconstante

_______________ sofrer.

O sítio não era dos mais apropriados para a poesia. Além da sua já suspeita posição nos fundos dos quintais, vizinhava com a praia suja e coberta de cisco. Havia ali uma transfusão de cheiros terrestres e marinhos, capaz de asfixiar a mais robusta inspiração. Alguns velhos cascos de navios, que desmanchavam para lenha, ali amontoavam-se na vasa, fechando o horizonte.

São os poetas uma espécie de caramujos, ainda mais admiráveis que os outros; pois estes apenas levam consigo a casa, e aqueles nada menos do que um mundo, no qual vivem. Não se admirem pois, que apesar de tudo não estancasse a veia poética do nosso rimador. Ele tinha lá na sua cachola, de sobressalente, uma tal provisão de flores, de matizes e de perfumes, que debalde o assaltavam as impressões exteriores.

Naqueles olhos tudo eram prados; naquele olfato tudo recendia a jasmim.

Estava o sujeito muito apurado a escrever a deixa do seu quinto verso, quando desastradamente apareceram Nuno e Cosme no cotovelo que formava a praia. A areia solta, abalando os passos, permitiu que se aproximassem, antes que os pressentisse o outro.

Sempre estabanado, anunciou o caixeiro sua vinda de uma maneira estrepitosa. Arremessou com força o surrão, que foi esbarrar nas canelas do poeta.

- Rende-te, cavaleiro das beldroegas!.

O susto que teve o camarada, surpreendido por aquela imprevista surtida, não se imagina. Todo o indivíduo foi abalado, como se dentro dele puxassem um cordel para fazer dançar cabeça, braços e pernas de arlequim. Logo, porém, que tornou a si do choque, compôs nos lábios um sorriso de bondade extrema para saudar os recém-chegados.

- Que maricas!... exclamou Nuno a rir-se. Quero ver como te aviarás agora com a guerra.

- Que diz você, Nuno? Pois temos guerra?

- Não acredite!... soprou o Pisca.

O caixeiro levantou com a ponta do pé o balote, pondo-o a prumo para lhe servir de tamborete.

- Pois não sabes? Vai haver um levante dos de Olinda; e leva tudo a breca.

- Quem lhe disse, Nuno? Será sério?

- Não leva três dias a arrebentar'. Quem disse foi o Tunda-Cumbe.

- O Manuel Gonçalves? acudiu o Pisca-Pisca.

- Você bem sabe a gana que ele tem aos nobres, por causa da sova que lhe pregaram.

Houve um instante de silêncio.

O poeta cismava:

- Estou bem avisado com estas brigas. Ou Ceres ou Vênus!

Resmungava o escrevente:

- Diabos me levem se entendo este mascatinho a cortar na súcia do pai. Entretanto Nuno, lobrigando no muro as palavras escritas pelo companheiro, exclamara:

- Oh! temos rima?

Frustrada a esperança de apreciar a obra do Lisardo, apanhou na areia uma casca de marisco e pôs-se a garatujar naquela página do álbum popular, onde o galopim soberano exerce a liberdade da gaiatice.

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