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GUERRA DOS MASCATES

José de Alencar

CAPÍTULO VI

COMO EM TODOS OS TEMPOS SE FORMAM OS PARTIDOS

Lisardo estava sucumbido.

Era ele mancebo de vinte anos; tinha uma cabeça grega em talhe árabe. Os cabelos castanhos anelados caiam-lhe sobre as espáduas, moldurando o belo semblante.

Seu gibão verde era do melhor veludo de Alcobaça, mas já bastante usado; os calções apenas de belbute de algodão cor de azeitona. Contrastava, pela novidade e frescura, a véstia escarlata, embora feita de uma serafina bem ordinária.

Semelhante anomalia no trajo, não a deve estranhar quem sabe como viviam os rimadores daquele tempo. Se algum não se recorda, leia Nicolau Tolentino, o grâo-mestre da ordem dos poetas mendicantes do século XVIII. Que soma de engenho se não despendia então para arrancar dos ricos uma propina que hoje se obtém com uma simples folha de papel e a epígrafe subscrição?

Foi o Nuno quem reatou o fio à prática interrompida.

- Então, Lisardo, ficou você ai tão murcho. Tudo isso é medo?

- Ou cousa que se parece! acrescentou o fuinha piscando.

- Bem sabem vocês que eu não sou para estas cousas. A culpa, se há, minha não é; mas de quem me fez assim.

- Fique você descansado, que o ponho sob minha guarda, tornou o mascatinho em tom de importância.

- Estava eu bem aviado! respondeu o poeta sorrindo.

- De uma cousa porém ainda não cogitaram vocês, e me parece a principal, observou o escrevente.

- Vá dizendo!

- Demos que se embrulhem as cousas ainda mais do que já estão e haja realmente um levante. Notem bem que eu não asseguro; é uma simples suposição.

- Com a breca!... Asseguro eu, exclamou o Nuno.

- Pois sim; caso apareça o barulho, cada um de nós há de tomar seu partido. O do Nuno já se sabe; há de ser o da família.

- Quem lhe disse?

- Assim parece.

- Vê-lo-emos. E você, Lisardo, por quem há de ser?

O poeta estremeceu; tinham-lhe tocado na tecla.

- Eu?... Vejo o caso bem intrincado. Todo o meu indivíduo desde a raiz dos cabelos até a pontinha dos pés devia ser pelos senhores de Olinda, pois são eles que abrigam e mantêm este físico. O verso lá na cidade é moeda corrente: paga o jantar na mesa dos Cavalcantis e Figueiredos, e de vez em quando rende um vestuário que o dono já não usa, porque desmereceu na cor, mas que ainda faz sua vista cá no Recife. Os senhores mercadores são excelentes pessoas...

- Todos reconhecem!... atalhou o escrevente.

- Mas destas bandas os sonetos e décimas não valem um ceitil. Podia correr o bairro todo que não acharia por eles dez réis de cominho.

- Menos essa! interrompeu Nuno. Sei eu de certa pessoinha que tem seu fraco por umas rimas, especialmente por certo acróstico... hem! certo acróstico...

E piscou o olho para o companheiro.

Perturbou-se o poeta, e acrescentou logo para disfarçar:

- Os senhores mercadores, como é de razão, preferem Mercúrio a Apolo e as nove irmãs.

Não escapou ao fuinha nem a alusão de Nuno, nem o vexame de Lisardo.

- Mas afinal de contas, disse ele, em que fica você?

- Sim; dizia que todo eu estava em Olinda; mas cá me ficou por meus pecados neste Recife um bocadinho do tal eu, que pelos modos pode tanto, se não for mais do que o resto, não obstante ser este um quase todo. Ora, por mais que eu faça para desatar este nó daqui, creio que antes de o conseguir, primeiro me romperia a mim. Portanto o seguro é concertar-me com as duas vontades, para que me deixem ficar neutro na contenda.

- E caso não queiram elas estar pelo ajuste?

- Por que não, se bem nem mal faço a qualquer das duas?

- Não gosto de ser leva-e-traz; mas olhe que já em casa do capitão-mor um destes dias se cochichou: "Tenho notado que o Lisardo vai muito pelo Recife." Bem entendido, contaram-me, que eu não ando lá pela casa desses senhores. Mas no cartório sabe-se de tudo.

- Pois se não houver outro meio que melhor acomode as cousas, nesse caso vencerá a força maior.

- A barriga? perguntou o Cosme com uma mímica expressiva.

- Barriga não passa de vasilha: força é a fome; mas vence a do coração, por maior. Senão vejam: ainda não jantei hoje; e contudo estou bem contente de minha vida.

- Assim pende você decididamente para o Recife! concluiu o Cosme.

- Se não houver outro remédio?

- Pois então, atalhou Nuno, erguendo-se de um salto, comigo se há de haver o Sr. Lisardo de Albertim, poeta d'água doce, que me anda esgravatando versos no monturo para garatujá-los nas paredes! Está entendendo?...

Aquele pequeno repouso de uma natureza impetuosa devia ter breve sua explosão. Enquanto o macio poeta o contemplava maravilhado, e o escrevente lhe espreitava os movimentos por detrás de uma cara sonsa, o caixeiro prorrompeu:

- Que estão ai vocês embasbacados a olhar-me? Cuidaram que por ser filho de mascate, e dos graúdos, havia de entrar na súcia? Pois enganaram-se, digo-lhes eu. Se fosse com outra gente, nada mais natural que ajudar os seus... Regra do Mateus! Mas com a tal mascataria... Pensam lazer neste Pernambuco com os filhos o mesmo que lá na santa terrinha fizeram seus pais deles, que os empurraram para cá, no porão de um navio, com uma réstia de cebolas e um par de tamancos! Vejo cavalos que nascem da mesma besta, e uns são marchadores, outros choutões; uns levam albarda, mas outros têm arneses de veludo! Só o filho de mascate é que há de ser mascate por força! Uma figa!... Este muro falará, se me virem mais regatear!

Neste ponto de sua vigorosa alocução avistou Nuno o pacote, e travando-o com ímpeto, imprimiu-lhe tal rotação que o arremessou na praia.

- Vai-te, perseguição! Assim hei de eu fazer a todas as drogas que me caírem nas mãos, e também aos donos e vendedores das ditas!

Animou-se o poeta a introduzir uma palavra no meio daquela impetuosa loqüela:

- Mas...

- Olhe! Eu não sou versista como você... Não tenho veia para a cousa; mas cada um se arranja como pode. Já fiz um mote para mim; há de ser minha divisa nesta guerra! Vejam!...

Agarrando os dois cada um pelo braço, levou-os o caixeiro ao muro onde riscara o Lisardo suas rimas. Enchera as linhas o Nuno, tendo cuidado, para lhes dar igual comprimento, de graduar a letra. Saiu a seguinte composição, que se remete aos modernos fabricadores de poemas em todos os metros:

Para mascate não valia a pena nascer
Não suporto mais um instante!
Oh!... sorte inconstante!
Arre! que estou cansado de tanto sofrer.

- E mais é que tem seu jeito! exclamou o fuinha extático ante a obra. Você dá para poeta, Nuno!

- Então, que diz à quadra, Lisardo?

O poeta estava horrorizado:

- Quadra!... Quadrada seria a sandice se a escrevesse de outra forma!

- As que você tem mandado à mana Belinha, sô pateta, não são melhores!...

- Nuno!... modulou o Albertim em dois tons, sustenido e bemol, ao mesmo tempo que lhe indicava com o olhar a presença do escrevente.

- Ora! Que bem me importa?

Felizmente Cosme naquele instante parecia muito apurado a reler a bela produção de Nuno, a qual decididamente lhe dera no goto. Era de jurar que nada percebera, pois mostrou-se inteiramente alheio ao caso. Se porém as observações fossem cousas corpóreas, o bucho do escrevente já estaria tão bojudo, que o não pudera ele decerto conter no cós das bragas.

Seguira-se naturalmente uma pausa no diálogo. Os nossos camaradas formavam então um triângulo, cujo vértice era o Cosme ao pé do muro. Quando este se convenceu que estava de todo passado o episódio do namoro, voltou-se para os companheiros:

- Lisardo, você há de ensinar-me também a fazer a minha quadrinha. É bom a gente saber de tudo.

Não o atendeu o poeta, que estava ruminando, mas em prosa desta vez. Ao cabo saiu-se com esta:

- Ouça, Nuno; sou mais velho que você dois anos; e portanto estou no caso de lhe dar conselhos, como é dever dos mais idosos para com os mais moços.

- Que apoquentação do diabo! gritou o Nuno. E todos eles a darem-me com a matraca!... Muito moço, muito moço!

- Você não pode tomar nesta contenda as partes de ninguém mais, senão daqueles com que estão os seus. Não lhe parece, Cosme?

O fuinha atento à altercação foi surpreendido por aquela interpelação direta, da qual bem desejava fugir. Mas Nuno de seu lado voltara-se para ele esperando seu alvitre: força era dá-lo.

- Eu, sim, eu, quero dizer... pensando bem, entendo que... você (para o poeta) ... você (para o caixeiro) tem razão.

- Está ouvindo? exclamou Nuno.

- Estou!... O Cosme concorda comigo!

- Não há tal.

- Justa... mente!... disse o fuinha gaguejando e escandindo a palavra de modo a endereçar cada sílaba a um dos companheiros.

Tinha o Cosme esse hábito de gaguejar nas ocasiões difíceis.

- A primeira pátria, continuou o poeta sentenciosamente, é a nossa casa; pois está mais junto de nós. Traz-nos dentro dela toda a meninice, como nos traz no ventre durante nove meses aquela que nos deu o ser. Que se diria de uma criança que rasgasse por vontade o seio materno para sair à luz antes de tempo? Pois este é o caso do filho menor que abandona a casa de seu pai. É um mau filho: e Deus lhe retira a bênção.

Tais palavras ditas com sinceridade e energia não deixariam de comover o caixeiro em outra ocasião; mas naquela tarde estava ele tocado da fúria guerreira.

- Por que não fazes tu outro tanto do que dizes?

- Bem atirado! murmurou em aparte o fuinha.

- Não tenho casa, nem pai, Nuno! respondeu o poeta com sorriso merencório.

- Mas tem lá em Olinda quem lhe agasalha, e não obstante.

- É diferente!

- Qual diferente! Diga que o coração lhe puxa de cá!...

- Ele o confessou! acudiu o Cosme.

- Pois coração, também eu tenho, que bem me puxa, e a arrebentar.

- Lá para Olinda? replicou Lisardo pasmo.

- Para lá mesmo!... Ah! você não sabe ainda, que lhe não contei. Pois o almotacé não teve o descoco de me dizer ontem quando lhe falei de casar com a filha, a Marta, que eu ainda era um criançola, e que havia de contar ao pai para ele ralhar comigo!...

- Ora essa!... ponderou Cosme, e acabou a frase com um jeito que fez rir a um dos olhos, o do lado do poeta, e choramingar o outro, que pusera ao serviço de Nuno.

- Também você madrugou! disse o Lisardo.

- Com os seiscentos! Ando nos dezoito anos!...

- Dezesseis, Nuno!...

- Que seja! Já me nasceram todos os dentes, tenho mais um palmo de altura do que este carrapeta do Cosme!

- Nem tanto! replicou o escrevente empertigando-se.

- E não sou um homem?. . . Que me falta?... Barba?... Não é essencial; o Camarão tem a cara lisa como uma melancia e já está madurão!

- E o primo, o grande Camarão, dizem que era o mesmo. Nem um fio na cara; na cabeça, sim, com fartura.

- Com isso que nos conta, Nuno, mais me enche você de razão. Se o seu cuidado está cá no Recife, não é pelo caminho de Olinda que há de chegar.

- Isso depende do modo de caçar de cada um. Você, Lisardo, vai se chegando devagarinho para não espantar a rola. Eu cá atiro de longe, em campo aberto. O Perereca tem de haver-se comigo, e mais o pato choco do governador, com o seu ajudante. A pé, na estacada, à lança ou à espada, com o ferro na gorja os obrigarei a restituir-me a dama de meus pensamentos. Sempre desejei uma guerra; e a queixa que tenho de minha mãe é não me haver parido no tempo dos holandeses. Aquilo, sim, é que foi tempo!

- Com esta me vou! disse a rir o escrevente.

- Mas você, Cosme, ainda não disse por quem é? Olinda ou Recife?

- Eu sou por ambos!

- Como pode ser isso?

- Se cada um de vocês vai para sua banda, que remédio senão dividir-me por ambos? Eu cá não tenho quem me prenda a estes ou àqueles, e nada espero de uns nem de outros. Pelo meu gosto deixava a terra. Mas vocês podem precisar de mim, e então careço de estar em posição de lhes prestar.

Dois apertos cordiais cerraram ao mesmo tempo na mão que o Cosme levantava para enxugar os cantos dos olhos, umedecidos por um líquido humoral que em anatomia se chama lágrima.

CAPÍTULO VII

ENCANTOS QUE TINHAM PARA O NOSSO POETA UMA SAIA REMENDADA E DUAS CANELAS COR DE AZEVICHE


Seriam 5 horas da tarde.

Os dois companheiros se tinham ido; ficara o poeta de novo solitário na erma praia. Com pouco levou ele a cabo a décima principiada. Repassaudo-a então uma e muitas vezes na memória, tratava de a limar com uma pachorra horaciana.

Nesse trabalho, avançara contornando a praia na direção de Fora de Portas. Aí desdobrava-se um painel encantador. Na cúpula, dossel magnífico de ouro franjado a púrpura; embaixo, uma alcatifa imensa de chamalote azul recamada de brancos lises. No centro, um peristilo majestoso formado por grupos de elegantes colunas e rematado em ogiva pelas verdes arcadas.

As tintas deste deslumbrante painel dava-as o sol no ocaso, o mar em bonança e os ramalhetes dos coqueiros, que ensombravam a formosa ilha desse nome, também chamada do Nogueira. Esse berço gracioso de palmeiras,. com as oscilações que a brisa da tarde imprimia às longas hastes e aos frondosos penachos, parecia embalar-se no seio das ondas.

Aquém apareciam as ribas arenosas onde brinca o travesso Capiberibe tecendo lindos meandros e cingindo as quintas pitorescas do Monteiro. Finalmente pelo mar estendia-se o negro cordão do recife. Enroscando-se pelos abrolhos e cobrindo-os de grossos rolos de espuma, davam as vagas aquele dorso granítico feições de enorme serpente do mar, preposta à guarda das formosas hespérides de Pernambuco.

Passava o Sr. Lisardo de Albertim em face de todos estes primores da palheta divina, sem os ver sequer. Não é isso de estranhar em poetas, anomalias de carne e osso que fazem o desespero dos fisiologistas e dos alfaiates.

Mais deliciosos que todos esses lanços de vista sobre o mar, achava ele uns tabuleiros de mata-pasto que bordavam a areia nessas abas da povoação, destacando sobre as faxinas das cercas vizinhas. Aquelas varinhas ligadas com embiras tinham especial encanto para o nosso poeta, que enfiava por elas uns compridos olhos e deleitava-se na contemplação... do que, não sei eu; mas ali não havia senão umas galinhas a ciscar, umas goiabeiras encarquilhadas e umas panelas de borco no terreiro.

Pior foi quando bruxulearam entre a faxina as dobras de uma saia azul de algodão tecido na costa da Mina, em África. Nunca vestuário de baile, apontoado por mãos francesas e recheado de meia dúzia de ninharias parisienses, com esdrúxulas designações, objeto da pasmaceira da gente do tom, teve no salão do Cassino poder igual ao daquela saia, para excitar em tão alto grau as emoções de um poeta.

Aquele azul era celeste; uns gadanhos de carvão e gordura o tisnavam aqui. e ali, mas eram justamente esses laivos que traziam presa a alma do mancebo. Tinha a saia um remendo de serafina; quando o percebeu, ele não se pôde conter que não soltasse uma exclamação de júbilo e ficasse em um êxtase indefinível.

Assim, agachado entre o mata-pasto, com os olhos naquela bendita aparição esteve bom pedaço. A saia tinha-se entrouxado perto das marmitas; e pelo movimento destas, assim como pelo chiar do punhado de palha e coaxar d'água, parecia haver ali uma lavagem de panelas.

De repente o poeta começou a tremer; batia-lhe o coração com palpitações violentas.

Dera causa a essa repentina comoção um novo incidente. Observara o Lisardo que dois tornozelos pretos e suas competentes canelas moviam-se debaixo da tal saia, na direção da cerca, onde havia uma portinha para o mata-pasto, bem defronte do nosso rimador. Em sobressalto, lançou ele os olhos ao redor para ver se o espreitavam e escondeu-se por trás das moitas.

A faxina da porta entreabriu-se. Uma preta de meia-idade, que tinha jeitos de cozinheira, estirou o pescoço pela fresta e olhou para fora. Não vendo o que esperava ia a recolher, quando ouviu rumor na moita e cuidou ver um vulto agachado. Logo após soou um psiu baixinho, e logo outro mais alto; afinal animou-se a aparecer o nariz do poeta e a mão do mesmo acenando.

Poupo ao leitor os trejeitos, negaças e requebros que de parte a parte se trocaram os dois antes de chegarem finalmente à fala.

- Está bom, sô moço, acabe com isso que eu tenho que fazer.

- Então, Benvinda...

A língua do poeta tremia como folha de bananeira.

- Então, você falou?...

- Pois então! Não falara!...

- E ela que disse?

- Que sim.

Aqui teve o Lisardo um soluço que de todo embargou-lhe a voz. Só a muito custo recobrou a fala, não a natural, mas uma sumida e fanhosa, que era pena ouvir.

- Deveras, Benvinda? Ela disse que sim? ...

- Disse, sô Lisardinho.

- Como foi que você falou? Onde estava ela?

- Meio-dia, quando ela veio no quintal apanhar goiaba, eu cheguei devagarinho e perguntei assim: "A menina Belinhas sabe?... Sô Lisardo, aquele moço que lhe manda os versos, tem um segredinho para dizer à menina."

- E que fez ela então, Benvinda? Conte-me tudo, tintim por tintim.

Deu uma risadinha gostosa e ficou vermelha que nem um tomatinho; depois deitou a correr para a cozinha.

- E não respondeu?

- Nem palavra.

- Mas então como disse você... Ah! Benvinda, que não imagina o mal que me fez.

- Espere lá, moço, que ainda não acabei. Quando ela chegou na porta da cozinha, voltou-se, chamando pelo meu nome, e bateu três vezes com a cabeça, assim!

- Adorada Belisa! murmurou Lisardo engalfinhando as mãos e pondo os olhos no céu.

De repente assaltou-o a dúvida:

- Mas, Benvinda, está você bem certa que ela consentiu!

- Pois, moço, a menina é lagartixa para bater com a cabeça à toa?

- Quem sabe se ela queria dizer Outra cousa! Talvez você não percebesse bem.

- Pois eu não sei o que faço? Sô Lisardinho em casando com a Belinhas, me põe forra logo, não é assim?

- Antes disso mesmo. Olhe; eu tenho um planozinho em que ando cogitando há dias. Vou mandar um memorial em verso ao Duque de Cadaval, pedindo a vara de meirinho do sertão que está vaga. Em apanhando o provimento, como espero, trato logo de vender o ofício por boas patacas; e então pode contar com a alforria. Se quer, empenho-lhe os meus sonetos, que já andam em cento e quarenta.

- Nada; não precisa; basta que prometa!

- Dou-lhe minha palavra.

- Então já se vê que eu hei de tratar do meu benefício, fazendo que sô Lisardinho fale cá á menina. Escute: não tardam trindades. Vá-se chegando aqui pelo lado da casa, encostado à última janela, e espere um instantinho, que eu vou arranjar tudo.

- Agora mesmo? exclamou o poeta espavorido.

- Já; é aproveitar a ocasião, enquanto as velhas estão ocupadas fazendo farténs lá dentro, porque esta noite ai vem cear muita gente. Se não for hoje, ninguém sabe quando será.

- Mas pode ela não gostar!...

- Deixe por minha conta.

- Não, o melhor é...

O diálogo foi interrompido por uma voz pachorrenta que chamava em escala cromática:

- Benvinda!... Benvinda!... Benvinda!...

O Lisardo quis meter-se pela terra adentro só de ouvir aquele chamado. preta acudiu às pressas, acenando-lhe de longe que fosse para o lugar aprazado.

Começa agora um quarto de hora que eu desisto de historiar; um livro era mínimo espaço para descrevê-lo. O célebre quarto de hora de Rabelais, em que a barriga cheia curtia o martírio da bolsa vazia; e aquele outro chamado quarto de hora de pontualidade que, a título de cortesia, suportam os convidados de certos jantares marcados para as quatro e postos às sete; nada disso se compara ao transe referido.

Quero ver contudo se por meio de uma imagem dou ligeira idéia.

Não há quem não tenha visto voar no seu terreiro uma pena de galinha. Ludibrio do vento, o sutil objeto sobe e desce, vai e vem, foge e torna, avança e recua, gira sobre si, pára e move-se, para afinal esbarrar-se contra algum obstáculo.

Pois em vez de pena, imaginem um rapaz enamorado; e ajuntem em alta dose os tremores nervosos, os súbitos calafrios, os suores gelados, de mistura com os repetidos fogachos; e terão uma idéia do que foi o tal quarto de hora de espera para o nosso Lisardo.

Afinal o encontramos na parede do oitão, uma braça distante da janela, e oscilando ainda como uma pêndula entre o desejo de ficar e o ímpeto de fugir.

De repente a banda mais próxima da rótula entreabriu-se; dois dedos mimosos enfiaram pela gelosia, e um olhar negro e aveludado filtrou das estreitas frestas como um esguicho de mil centelhas miudinhas, desferidas por todos os lados. Viu Lisardo o enxame de faíscas e ficou deslumbrado e quedo.

Vão-se acabando aquelas antigas rótulas que escondiam tão guapos amores; se algumas ainda restam pelas grandes cidades, já perderam o suave perfume de castidade que dava a essas flores recatadas um arzinho de violetas. Agora a rótula será canteiro de arrudas e mentruzes.

Muitos inventos modernos se introduziram em compensação: os véus de filó, os crepúsculos artificiais, as máscaras de cetim, as gazes transparentes e outros engenhosos sistemas do ver e do não ver; mas a rótula, cá para mim, há de sempre deixar saudades. Uma linda moça através da gelosia é a imagem das mais belas criações de Deus, a flor entre a folhagem, a estrela entre o azul.

Mas nada como o encanto que a rótula dava ao olhar! Quando se movia brandamente embalada por mão descuidosa, parecia que estava peneirando aqueles relanços d'olhos em um pó sutil. Se Deus me concedesse pulverizar uma estrela e passá-la por um crivo bem fino, pudera eu pintar a trepidação graciosa de uns olhos negros por entre a rótula.

Esquecia-me advertir. Olhos para rótula deviam de ser negros. Os azuis, querem-se límpidos, serenos e desnublados, como os puros céus de uma alma angélica. Os outros, castanhos, pardos, verdes ou gázeos, que arranjem-se como puderem e melhor lhes for; porém, escusam de ter saudades da rótula.

Eram pois uns olhos negros, do mais belo negro, que se coavam pela rótula do oitão.

A princípio derramaram-se em torno; mas logo recolheram para se atirarem ao mancebo, como uns punhados de alfinetes. Devia de ser assim realmente, porque o pobre Lisardo sentiu o rosto a fervilhar.

Tão flexível antes, qual folha de cana, estava agora o nosso poeta estatelado à parede e rijo como estafermo. Fincava as costas ao muro, a ver se podia sumir-se por ele adentro; os olhares esparramados pelo mato fora tinham jeito de disparar; e de certo houveram já deitado a correr por aí além, caso não estivessem amarrados ao poste.

Os olhos negros e os dedinhos brancos cuidaram que os não tinha percebido o poeta. Abriu-se um cantinho à rótula; tornou logo a cerrar, rangendo de leve; buliu a aldraba devagarinho; enfim ouviu-se um rufo mavioso de unhas rosadas no gradil.

Estes rumores significativos mais espavoriam o poeta. O ríspido som do gatilho de um arcabuz que lhe apontassem ao peito, não lhe causara por certo maior pavor.


CAPÍTULO VIII

A DESTRA E A SINESTRA DO HOMEM EM MAIÚSCULO

SEPARANDO-SE do nosso poeta, os dois companheiros se dirigiram para o lado da ponte.

Cosme tinha destino, embora não lhe fizesse conta confessá-lo. Quanto ao Nuno, esse aproveitava a companhia para pautear, e ter um pretexto de demorar-se fora da loja.

- O que você disse, Nuno, não passa de brincadeira? insinuou o Cosme.

- Pois ainda duvida? Não tarda a estralada, e se não andarem com isso depressa, eu cá darei jeito à cousa.

- De que modo?

- Ainda não sei; mas hei de achar.

- Em verdade nunca faltam meios de barulhar as cousas; o acomodá-las, sim, é o difícil.

Nesse ponto do diálogo, o Nuno deu um salto, arregalando os olhos para a ponte. Sem mais ambages, quebrou a esquina e barafustou pela rua afora, deixando surpreso o Cosme, mas contente, porque o forrava ao trabalho de se desvencilhar dele.

O que assim espantara ao caixeiro era a cavalgada do governador, que já de volta das Cinco Pontas, atravessava para ir ao Forte do Mar, como costumava.

Vinha Sebastião de Castro pensativo; o que não deixava de inquietar ao secretário e ajudante, os dois braços do governo da capitania, colocados à direita e esquerda do excelentíssimo toro.

Não será fora de propósito esboçar aquelas figuras de ministros coloniais; até mesmo porque podem servir para o paralelo com as ilustres cariátides modernas, que aí andam em quadros de apoteoses.

Alto, bem apessoado, o Capitão Barbosa de Lima florescia, apesar dos anos que lhe tinham despovoado a fronte, sem fanar a rosada frescura do agradável semblante, nem estancar o perene sorriso que manava dos lábios suasivos, como fio de um favo; e ele o tinha na palavra insinuante.

Dos olhos pequenos e redondos lhe escapavam as chispas de um espírito a cintilar, como lentejoula que era do seu engenho superior e adestrado no manejo dos negócios. A cavalo, as pernas mais compridas do que exigia a justa proporção do corpo dariam a outro postura ingrata, senão ridícula; mas o secretário com tal jeito conduzia esse trambolho, e tamanha sedução crescia em torno de si, que lhe esqueciam a prorrogação das gâmbias, para somente verem a afabilidade das maneiras.

As moças, que todas têm no mindinho sua unha de Dalila e gostam da juba para a tosquiarem, todavia achavam bonita a calva do secretário; e os rapazes invejavam-lhe a estatura pernalta, a que se atribuía o ter galgado tanto pela escada da fortuna. Quanto aos homens bons da governança da terra, velhos e moços, nobres e plebeus, todos à uma o afagavam e todos o queriam por companheiro. Razão tinham eles, pois era cavaleiro de boas manhas, como se dizia então: e pagava os defeitos de que ninguém está isento, com prendas de que poucos se ornam, ainda mais em vida de tamanha porfia como a tivera.

Fazia contraste com essa feição prazenteira a fosca e sombria carranca do Ajudante Negreiros, coberta de lívido pergaminho e crivada por espesso molho de cerdas.

Dentre a barba hirsuta destacavam os grossos lábios de nina boca flácida e lorpa que estava debuxando na balofa carnosidade a gula insaciável de todos os apetites. Se há nos traços fisionômicos uma expressão, essa boca fora talhada, não só para inchar a palavra, arrotando petulâncias e indigestos impropérios, como para atolar-se no tarro da sensualidade.

Nesse homem de pêlo híspido e couro adiposo, ressumbrava certa expressão e gesto suíno, que chegava algumas vezes até o grunhir. O tronco parecia Diógenes puro, mas lardeado de D. Quixote, e trufado com Aretino. O todo afogado em grosso unto de Tartufo, mas com uma rija côdea de Catão, que formava os folhos do grande pastelão de carne e osso.

O antagonismo dos elementos agregados no indivíduo o traziam em tamanha anarquia, que se lhe desarticulava o pescoço a cada instante em torcicolos e trejeitos, como se a cabeça lutasse por despegar-se do corpo estranho ao qual por engano a tinham ligado. Desse cacoete lhe proviera uma volta do congote, que o tornava um tanto corcunda.

Os que mais de perto conheciam o ajudante tinham-no em conta de homem às direitas, e fiavam tudo de sua inteireza. Também disso damos testemunho; mas era para lamentar que a natureza não tivesse virado ao avesso tão excelente pessoa, mostrando-a antes pelo forro.

Descendia o ajudante do ilustre André Vidal de Negreiros, do que muito se enfatuava; e havia arranjado para seu uso um extenso rosário de nomes, que apregoavam sua antiga e remota linhagem.

Ao avistar a cavalgada à boca da Rua da Moeda que saía na Ribeira, volveu D. Sebastião um olhar ao Ajudante Negreiros, e perguntou-lhe com ar que se não era, bem parecia distraído e indiferente.

- Não é na Rua da Moeda que mora o mercador Miguel Viana?

- Aí mora, sr. governador, acudiu o ajudante atento ao menor gesto de D. Sebastião. E se V. Ex.a concede, vou-me já à casa dele agarrar o mariola do filho!

- Em casa do Miguel Viana? perguntou o governador no tom do maior espanto.

- Pois que é o pai do bigorrilhas!

- Ah!

- O sr. governador não sabia?

- Deixe em paz o moço, Negreiros, tornou D. Sebastião esquivando a resposta.

- Em paz o quero eu, atalhou o ajudante com um regougo de riso, mas é no Forte do Brum, aos tirantes de uma peça de 64. Não há como isso, para amansar o lombo desta canalha de birbantes.

- Tamanho rigor não pede o caso. Uma rapazia de moço brejeiro... Basta que o pai lhe passe um repelão e lhe traga tente as rédeas.

- Aquele?... Não toma caminho, a não ser o do pelourinho, onde certo vai parar, se não o amarrarem à carreta e sem demora.

- Se o mandassem a Lisboa estudar, não cuida o ajudante, que se havia de fazer gente? Lembre ao mercador, como cousa sua; verá que ele abraça logo o alvitre. Vá, vá ter com o homem.

Falara D. Sebastião com a habitual volubilidade; mas na leve resistência que despontara através da última réplica, percebeu o Ajudante Negreiros o pulso da vontade oculta, que à semelhança da odalisca de um serralho, nunca se mostrava a rosto descoberto.

Quando porém o fidalgo, sobre despedi-lo com a palavra e o gesto, voltou-se de todo para o secretário, impedindo assim qualquer réplica, compreendeu nosso ajudante que a ordem era peremptória, e rasgando uma cortesia com a cabeça inclinada a tocar as orelhas do cavalo e o chapéu desbarretado até a garupa, separou-se da comitiva para enfiar a Rua da Moeda.

Pouco faltava à comitiva para enfrentar com a Rua do Azeite em cuja esquina ficara de plantão o Cosme, depois da escapula do Nuno, esperando a passagem do governador para fazer-lhe a sua reverência.

Respondeu o fidalgo à zumbaia do escrevente com um sorriso animador, e à meia voz disse para o Capitão Barbosa de Lima:

- Aí está um rapaz de recado, que bem merece ser aproveitado.

- Já tinha pensado nisso, respondeu o secretário que nem vira a sonsa figura do escrevente. Consta que é de ânimo cordato; ainda que o suspeita o almotacé de pender para os de Olinda.

- Que mal vem daí? perguntou o governador com um sorriso melífluo.

Lembrou-se o capitão que também ele, antes de tomá-lo o governador a seu serviço, andara extraviado e fora do bom caminho, tendo sido um dos mais respingados entre os do partido olindense.

Com o barrete na mão, e o espinhaço reverencialmente curvo, acompanhou Cosme a cavalgada até que a viu sumir-se por trás da Madre de Deus. Arrancando então um suspiro que lhe estava entalado na garganta, deitou-se o rapaz a trote na mesma direção da cavalgada, para atravessar a ponte e ganhar a outra banda donde já podia estar de volta, se não lho estorvasse o trapalhão do Nuno.

Seguindo de longe o governador, embalava-se o escrevente em fagueiras esperanças, e sentia lá dentro do coração umas cócegas deliciosas. Parecia-lhe que sua estrela ia enfim raiar do seio das águas turvas que se estavam encapelando.

A ocasião faz o homem, como o choco faz o pinto; sem ela, o homem é um ovo goro.

Tal era o conceito em que se embebia o espírito do nosso escrevente, pouco poético, se o quiserem, mas profundo na filosofia, não a especulativa, que se deleita em chilras utopias, mas a prática e sólida, que é a verdadeira ciência da vida.

Chegado à outra banda, encaminhou-se o Cosme à casa do almotacé, onde esteve de cochichos com a Sr.a Rufina, na janela do canto.

Do que ai o levou, e da espécie de comércio que havia entre a matrona e o escrevente, saberemos a seu tempo; sendo que neste momento mal pudemos acompanhar o rapaz na disparada em que vai, já de volta para o Recife.

Ei-lo que enfia pela Rua da Cadeia, e chegado à casa que procurava, encostou-se à ombreira da porta, encolhido para que não ó avistassem de dentro; assim ficou a espreitar pelas fasquias da rótula:

Na câmera servida por essa porta achavam-se em palestra animada duas pessoas, uma cuja voz fornida retumbava pelo teto, e outra de fala submissa embora rouquenha.

O sujeito do verbo alto trazia as vestes dos recoletos, e esquadriava o pavimento de tijolo com umas pernadas, que nada tinham de eclesiásticas, e mais pareciam guinadas de espadachim. As vezes parecia que a batina o tolhia, e dava-lhe tal safanão acompanhado de um trejeito da boca e dos olhos, que bem se via quanto lhe custava a arrastar aquele trambolho. Se não fora a utilidade que lhe prestava, com certeza já o houvera lançado às urtigas.

O árdego padre tinha a cabeça batida; o rosto largo, olhos redondos e lábios carnudos, que estavam denunciando a temulência da carne não castigada convenientemente pela abstinência, e menos pela disciplina. Apesar do freio de santarrão com que ele havia bridado o carão moreno, e do cuidado com que lhe amansava a braveza, não raro mostrava-se ao natural a catadura, e via-se então que era homem de dar e tomar, como se dizia no sertão.

E no sertão deixara o Padre João da Costa, no tempo que por lá andara, memória de suas proezas. Entre outras cousas dizia-se que na festa de uma freguesia, apresentara-se no largo, e puxando da faca, arremetera contra uni pimpão para lhe bifar a rapariga com quem estava; e conseguiu, porque era o frade faquista de fama, e o outro sentiu bater-lhe a passarinha. Tomando então a moça de garupa, saiu o fragueiro do reverendo pela povoação afora, mui ancho de si.

É verdade que estas e outras anedotas vinham de Olinda, onde o Padre João da Costa era abominado, como a alma da conspiração dos mercadores, e o espírito daninho que o estimulava contra os nobres e moradores da terra. Convém portanto dar a tais murmurações o devido desconto da paixão partidária, tão acesa naqueles tempos.

O outro personagem era homem de seus trinta anos, bem fornido de carnes, com uma dessas construções maciças, que se podem bem comparar na arquitetura humana aos edifícios de pedra e cal, sólidos e elegantes. Tinha bela presença; e uma compostura, a que dava realce a galhardia marcial, rara em um mercador, como ele era.

- Ouça o que lhe digo, Sr. Miguel Correia. Antes de três dias decide-se a cousa.

- Pois eu aposto, Padre João, que ainda não é desta vez!

O frade soltou uma risadinha:

- Veremos! Amanhã à noite em casa do Miguel Viana há de mudar de parecer!

- Qual! Os mecos são espertos!

- São! São!... Não há dúvida!

Destas frases ditas em tom claro e compassado, pilhou o escrevente algumas palavras. Infelizmente botando-se o Miguel Correia para a janela, não pôde ele escutar o mais. Bateu então à rótula devagarinho, como quem acabasse de chegar.

- Ah! é você rapaz? disse o mercador levantando o postigo da rótula que era de bater. Entre!

Enquanto arredava a porta .para dar passagem ao gaguinho, voltou-se para anunciá-lo ao frade:

- É o Cosme Borralho, Reverendo!

- Bem aparecido, moço, disse o Padre João; já sei que nos traz alguma nova importante!

- O reverendo e mais o Sr. Miguel Correia dirão, respondeu Cosme com modéstia.

Sacando então do bolso da sotaina o maço de papéis, escolheu um cheio de garatujas que apresentou aos dois. Logo apoderou-se o frade do manuscrito e acercou-se da janela para o decifrar.

- Há!... há!... fazia o reverendo, durante a leitura. Bravo!... Que malandros!

Exultava o gaguinho por baixo da sonsa, vendo o efeito que produzia o papel. Quanto ao mercador, depois de ter debalde tentado soletrar as garatujas do escrevente por cima do ombro do frade, achou mais proveitoso consultar as reverendas bochechas; e como elas se espraiavam em riso gostoso que serpejava enroscando a papada, também o bom do mercador se pôs a gargalhar, esfregando as mãos de contente.

- Aposto que são obras do matreiro do entrevado?

- Foi o licenciado que o escreveu ainda esta manhã, respondeu Borralho.

- O Davi de Albuquerque? perguntou o mercador.

- Grande ronha!... Tem mais peçonha por dentro do que lhe sai por fora das chagas do corpo! prosseguiu o reverendo tornando à leitura.

O mercador tentou segunda entrada nos gregotins do manuscrito, porém debalde.

- Ótimo!... continuava o Padre João.

- Boas noticias, hem?... Bem dizia eu que o Borralho era um rapaz de truz. Mas então as cousas vão bem?...

- As maravilhas, Sr. Miguel Correia, futuro procurador do Senado recifense! exclamou o frade com ênfase, terminada a leitura.

Arrufou-se o mercador de prazer, como um peru de roda quando o garoto rapaz lhe assobia no terreiro.

- Qual!...

- Digo-lho eu. O mês se não acaba sem que tenhamos pelouros abertos neste Recife.

- Pois já tão próximo?... tornou o Miguel. Pelo que vejo este papel é algum arranjo que os pés-rapados nos propõem?

- Este papel?...

Um riso desdenhoso borrifou a respeitável belfa do frade, que inchou as bochechas, para soltar a palavra retumbante com a ênfase do costume.

Aqui para nós, leitor, o reverendo preparava-se para representar o papel de tribuno, que é o apostolado político; e por isso não perdia ensejo de pôr os pontos á sua eloqüência.

- Este papel?... É o mane, thecel, phares da orgulhosa Olinda!... Como Babilônia cairá para não se levantar mais, a famigerada cidade! Este papel?... É o documento da conjuração que tramam os fariseus deste Pernambuco, contra a autoridade do Rei, na pessoa de seu governador, a quem trabalham com danada tenção por deitar fora da terra, a fim de porem a governança na mão de seus apaniguados, embora se derrame o sangue de inocentes, contanto que satisfaçam ao seu nefando propósito de abater esta Sião do Recife, o que tenho fé não hão de consegui-lo...

O reverendo tomou fôlego, e enroscando no dedo índex o fim do longo período à maneira de carapito, outra vez encheu os foles da bochecha para apontuar devidamente o fim daquela rajada de eloqüência.

- ... jamais!...

Saiu o gaguinho dos biocos humildes e silenciosos em que se metera, para manifestar por modos significativos sua admiração à oratória do Padre João. Piscando os olhos de entusiasmo, e batendo a cabeça como o lagarto, animou-se a murmurar à meia voz:

- Nem o Padre Vieira!

Lançou o frade ao gaguinho o olhar de proteção com que hoje em dia o ministro na Câmara afaga os íntimos que engastam em 'apoiados" e "muito bem" as pérolas, por ele desfiadas na tribuna.

Entretanto passava o Miguel Correia um momento bem atribulado. De todo aquele soberbo jacto da reverendíssima eloqüência, não tirara o seu bestunto senão uma cousa; mas essa de arrepiar.

Era o tópico de sangue derramado tão junto ao nome do Recife. Ora, havia no digno mascate invencível repulsão por tudo quanto atentava contra a integridade da pele humana, e sobretudo da que lhe forrava o indivíduo.

Não se conhecia ainda naquele tempo a causa de semelhante fenômeno. Medo; nem por sombras podemos conjeturar que o sentisse um homem da polpa do Sr. Miguel Correia Gomes, capitão no terço dos brancos, e escolhido pelos mascates como um de seus cabeças, para levar a cabo a grande empresa em que se haviam empenhado.

Atualmente, abençoado progresso, qualquer estudante de Medicina explicaria de uma maneira clara e decorosa aquela esquisitice, diagnosticando uma afecção nervosa. Fique pois assentado que o Sr. Correia, bem apessoado de corpo, era, não obstante a fartura de músculo e fêvera do seu todo, um organismo essencialmente nervoso.

Tal frouxidão produziram nele as palavras referidas, que as pernas faltaram ao tronco; os ombros afundaram sob a cabeça; e o homem se aboborou sobre o tamborete.

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