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GUERRA DOS MASCATES

José de Alencar

CAPÍTULO IX

COMO A CONSPIRAÇÃO, POR MAIS RODEIOS QUE FAÇA, VAI SEMPRE DAR NA RÓTULA DOS OLHOS NEGROS

Afinal recobrara o mascate a fala. que eles são capazes de praticar estas

- Deveras, Padre João, você julga maldades?...

- Capazes eram, e de mais, se os deixássemos! Mas eles que façam o levante, e lhes mostraremos!

- Um levante?... conseguiu balbuciar o Correia com a língua perra.

- Pois então, homem!... Não está aqui a cópia do manifesto que contam remeter para Lisboa, com o governador?

- Virgem Santíssima!

- De que se espanta você?

- Ah! padre, que desgraça!

- Diga que fortuna!

O mascate não tugiu; porém a cara agalgada retorquiu por ele com uma eloqüência irresistível.

Que mais desejamos nós, os do Recife? Que os fariseus de Olinda ponham em prática seus perversos intentos! Então o senhor governador acreditará no que lhe havemos dito; e fará respeitar a vontade de El-Rei, capturando os mais famosos entre os tais fidalgotes de meia-cara.

- Mas o levante?

- O levante, abate-se! respondeu com fleuma admirável o padre.

- Mas quem? O padre, com os seus congregados da Madre de Deus?

- Nada; lá isso é da sua competência, Miguel Correia, e dos outros da militança. Nós os acompanharemos com as nossas preces...

- Sim; bem fechados no convento!

- Porque assim o exige o meu santo ministério, que por gosto estaria a frente dos nossos guerreiros, para bater a brecha em Olinda.

- A brecha!... A brecha!... Pois olhem: comigo não contem! gritou Miguel Correia furioso a medir de uma à outra ponta a comprida sala com uma desencadernação de passos inconcebível. Não é lá por medo; mas eu não posso ver matar aos meus semelhantes. No fim de contas sou cristão, antes de ser mercador; e uma vila de mais ou de menos na terra não é razão para se estar a gente a comer como cães esfaimados!

Tendo neste solilóquio enérgico feito sua declaração de voto, o nervoso mascate barafustou pela casa adentro, meio peremptório de impedir a réplica do frade e assim melhor se convencer da verdade do próprio dito.

O reverendo o acompanhou com um olhar de zanga:

- Se todos forem deste jaez, estamos aviados. É cada um ir tratando de arrumar a trouxa e deixar a terra aos senhores dela. Perder a melhor ocasião!

- O reverendo, então, acredita que os de Olinda fazem o levante!

- Pois este papel? perguntou o padre surpreso.

- André de Figueiredo, bem sabe o reverendo, que é de todos o mais empenhado contra o Recife. Foi ele quem encomendou o manifesto ao licenciado Davi de Albuquerque, que o ditou, e eu tirei a jeito esta cópia, quando o passava a limpo.

- Então?

- Olhe, sr. padre, pelo voto dele, amanhã já se punha o motim na rua; mas é que a melhor gente está em dúvida por causa do velho Capitão-Mor João Cavalcanti. Então se emprazaram para um dia destes em casa do dito, a fim de acordar-se no melhor.

- Pelo que vejo, ainda não é negócio resolvido! Que pena!

- Agora, uma cousa me parece a mim, que ao reverendo sem dúvida já lembrou. Se o governador, sabendo do manifesto, mandasse prender alguns...

- É verdade; ocorreu-me há pouco. Ótima idéia. Vou já tratar disto!

Ergueu-se o padre e despedindo o rapaz foi em procura do Miguel Correia no interior da casa. Conseguiu explicar-lhe o novo plano ou, como se diria atualmente em linguagem parlamentar, a última fase da questão olindense.

O mercador apoiou com entusiasmo a emenda substitutiva. O expediente da captura efetuada pela tropa de guarnição, em nome de El-Rei, além de não atacar os nervos do capitão do terço, podia ser um poderoso tônico, livrando-o dos constantes sobressaltos em que vivia.

Assentaram pois de comunicar o plano aos amigos que se ajuntavam quase todas as noites na calçada do mercador Viana; e como já estavam a pingar trindades, foram de passeio se encaminhando para ali. A companhia de ordinário começava a reunir-se com o escuro; porém o Miguel Correia tinha suas razões para chegar cedo.

Puseram-se os dois a caminho pela praia fronteira à Madre de Deus, quando os apanhou o toque de ave-maria. Depois de recitada a oração, deram-se mutuamente as boas-noites e, continuando o passeio, foram sair nas imediações da Rua da Moeda. Os quintais separados formavam um beco estreito por onde se entrava da praia para a cidade. Houvera ali outrora uma pequena porta, fabricada pelos holandeses, mas já em ruínas.

A um dos lados da travessa estava o outão com a rótula dos olhos negros. O Miguel Correia estendendo os olhos naquela direção, viu cousa que o pôs alerta. A gelosia estava entreaberta; e próximo da janela, encostado à parede, havia um indivíduo gesticulando. Tornou-se pensativo o homem; e seu companheiro teria reparado na torvação, se não fosse uma figura de retórica das mais retumbantes, e cujo efeito naquele momento ensaiava o padre sobre o mascate, pensando que este o escutava.

Quem era o indivíduo da rótula, já o sabemos. Ainda ali está onde ficou, o nosso poeta; mas parece que não perdeu seu tempo, o maganão. Quando o deixamos, estava ele em suores frios por causa de uns rebates de unhas rosadas que vinham da rótula.

Isso, porém, nada era á vista do que tinha de vir. De repente escapou-se dentre as persianas aquele som mavioso, que só têm duas cousas neste mundo: a brisa no seio da rosa e o hálito nos lábios de uma moça.

Um suspiro!... Haverá na mulher outra expressão que se lhe compare? O olhar é a centelha; o sorriso a corola resplandecente; o beijo a polpa deliciosa. Nada, porém, como essa fragrância melodiosa a destilar no seio da flor celeste, que se abre n'alma da virgem.

Felizmente para o Lisardo caíram do sino do Carmo as primeiras badaladas de trindades. O beato amante logo se pôs em atitude de cumprir com o dever religioso; nunca ele se desbarretara com tamanha presteza, nem rezara com tanto zelo como nesta ocasião. Também a gelosia se recolhera ao batente; e um silêncio respeitoso derramou-se por aqueles lugares já de si pouco ruidosos.

Quando se desvaneceram ao longe pelos ares as últimas e gemedoras percussões do bronze, o Lisardo levou o arrojo ao ponto de voltar o canto do olho para a rótula, prestes a retirá-lo com velocidade de relâmpago. Continuava cerrada a gelosia. Esta observação reanimou o mancebo, que se meteu a falar entre si.

- Com certeza ela não volta mais; foi rezar junto das velhas. Portanto posso me ir escapulindo. Que mais faço eu aqui? Podem bispar-me e depois... Ela mesma talvez não goste, e tanto que já recolheu-se.

Não acabara; rangeu de leve o gonzo da rótula, que se entreabriu; e os olhos negros começaram de novo a cintilar de modo que faria crer estavam apostados com a estrela da tarde, à qual luziria mais.

Lembrem-se daqueles moldes feitos em velho papelão, que as rendeiras pregavam outrora na almofada com espinhos de macaúba, e farão idéia justa da figura do meu pobre Lisardo cosido à parede por aquele molho de crivos.

Instante depois, ressoou ali um canto suave. Os olhos negros falavam:

- Já está escurecendo; são horas de ir para dentro!...

Foi este aparte proferido com certa lentidão pachorrenta de quem procura um pretexto para retardar o cumprimento da obrigação; com o mesmo vagar começou a rótula de fechar-se, e o Lisardo imóvel. Quando cuidava ele ouvir o correr do trinco, abriu-se de novo a banda da gelosia, e os olhos negros se puseram - à janela, mas desta vez zangados, porque diziam:

- Ah! também... Já me vou!...

Estiveram pouco tempo; de repente dali partiu um grito de susto, e a rótula puxada batera com força o batente que a repeliu:

- Ai, Jesus!... Um homem!...

Começando na janela continuou a voz no interior:

- E eu aqui sozinha!

Entraram os olhos negros a jogar o esconde-esconde. Iam-se chegando à rótula, e de repente furtavam-se com uma timidez cheia de feitiços.

O medo e o acanhamento outra cousa não é senão medo de certas ninharias; desaparece como por encanto quando se acha em face de outro maior. É capaz então de ir até a petulância. Se os olhos negros sabiam disto, não posso afirmá-lo; mas que os olhos negros são melhores fisiologistas do que os doutores arvorados em mestres de tal ciência, não haja dúvida.

Assim foi que o Lisardo, vendo a moça ter medo e vergonha dele, se encheu logo de certa importância. A coragem a pouco e pouco lhe aqueceu o ânimo; despregou-se a língua do palato e recobrou alguma flexibilidade. Teve dó dos olhos negros, lembrando-se da aflição que neles havia de produzir sua audácia.

Tossiu o nosso Lisardo; afinou de leve a garganta, e com o gesto mais arredondado, entrou a recitar para umas estrelas defronte:

DÉCIMA!

disse ele com voz de epígrafe e prosseguiu:

Entre um morrer e viver
Que me assalta a todo instante,
Traz-me sempre uma inconstante
Só constante em meu sofrer.
Quando me cuido morrer,
Dá-me Belisa uns carinhos;
Torno à vida aos bocadinhos,
Eis logo me deita uns olhos
Que o foram, mas já são molhos

De enfados por entre espinhos.

Apenas começou o recitativo, os olhos negros bruxulearam através da gelosia, e foram a pouco e pouco se enfiando tanto pelo gradil, que já se via junto deles uma testa branca de leite e um narizinho afilado do mais puro tipo pernambucano.

- Ai, ai!... murmuraram no fim os lábios que se adivinhavam em uma sombra rósea por entre o crepúsculo da rótula.

Compreendeu Lisardo que este monossílabo suspirado era a resposta eloqüente à sua décima; e que devia ele, para travar o diálogo, replicar. Mas não se tendo preparado, ficaria em seco, se lhe não ocorresse uma lembrança feliz. Repetiu os versos com um acionado mais correto.

Desgraçadamente desembocava pelo beco o Miguel Correia com o padre. Ao espanto da rótula que fechou-se de repente, percebeu o poeta a causa. Com tal cara de estatelado ficou ele, que o Miguel Correia sentiu uma agastura no estômago, e coseu-se ao reverendo. Mas, a distância suficiente, voltou-se com um gesto mal-encarado e escarrou duas vezes.

- Que lhe parece aquele sujeito encostado à rótula, Padre João? perguntou ao frade em dobrando o canto.

- Não reparei, não, homem. Mas então desconfiou de alguma cousa?

- Eu sei!. .. Se a menina estava na rótula, o caso não é para graças. É preciso que indague disto?

- Quer você meu conselho? Não indague de cousa alguma.

- Essa é boa. Então se a rapariga andar de namoricos pelo quintal, eu não devo curar disso?

- Para quê? respondeu o frade com um riso magano. Se por força você tem de casar, não é melhor que ignore o mais? O que olhos não vêem, coração não sente. O Viana ajustou dar-lhe a mão da menina quando ela entrar nos vinte anos; e eu, é preciso que saiba, já me preparei para abençoar o consórcio e trinchar o peru das bodas. Portanto, que mais quer o amigo?

- Quero saber a casta da mulher que levo para casa.

- Lá Isto nunca há de saber, nem que viva com ela cem anos.

- Mas em todo o caso sempre será bom advertir o pai.

- Disso me incumbo eu, como capelão da casa.

CAPÍTULO X

TEM O I.EITOR A INESPERADA FORTUNA DE SE AVISTAR COM UMA NINFA OLINDENSE

Enquanto passavam no Recife estas cenas, outras do mesmo drama se desdobravam na próxima cidade.

Era Olinda então a princesa daqueles mares. Reclinada sobre os verdes outeiros, ainda olhava ela com desdém a nova povoação que surgia-lhe aos pés longe em uma nesga de terra sáfara. Ainda sorria altiva aos esforços da humilde serva, que tentava quebrar o preito e obediência devidas à legítima suserana.

E tinha razão. Olinda, a fidalga, a cidade nobre e de mais antiga linhagem naquelas partes, senão em todo o Brasil, conservava nos princípios do século XVIII a flor de sua beleza. Incendiada embora em 1630 pelos holandeses, renascera das cinzas e aumentara com o novo influxo que recebeu a capitania depois de restaurada. Quem, pela vez primeira, a avistava do mar, emergindo do seio das ondas, compreendia como a absurda tradição de seu nome tanto se vulgarizou. Realmente era para exclamar: - Oh!... linda, linda cidade!

O outeiro se elevava como um triclínio romano voltada a cabeceira para o sul, e os pés estendidos pela dilatada campina. Aí, nesse leito voluptuoso, se recostava a americana cidade. Suas ruas subiam as encostas e serpejavam pela esplanada, a cavaleiro do mar. Era este um dos encantos de Olinda, e que raras cidades possuem.

De ordinário o viajante que chega não vê logo senão o vulto indeciso das cidades; a sua feição está no interior das ruas e praças para conhece-la é preciso atravessar a orla de trapiches ou quintais que lhe formam a crosta. Com Olinda não era assim; a faceira, garbosa de sua formosura vinha ao encontro do viajante e abria o seio para recebe-lo. Quem se aproximava de suas ribas alcantiladas, logo via do primeiro lance o coração da cidade bem como o fluxo e refluxo da vida no centro da povoação.

Provinha esta singularidade do corte abrupto da montanha pelo lado do mar. Parecia que a cidade fora fendida a meio pelo desabo da eminência. Tinha esse aspecto alguma cousa de cênico que redobrava-lhe o encanto; como nas vistas do teatro, o ponto visual era no foco do sitio representado.

Outra graça especial de Olinda era a garridice campestre com que ela, cidade nobre, se adornava. Os campanários erriçados de suas belas igrejas, assim como os tetos vermelhos dos edifícios, surgiam de um maciço de verdura. Não havia grupo de casas que não tivesse uma cintura de ramagem e flores. O campo e a cidade, como dois amantes se uniam em apertado abraço. A civilização, assim vestida à americana, tinha uns ares de louçania e gentileza que a embelezavam.

Dizem que tão bonita era Olinda de longe, quanto feia e incômoda dentro. Se essa tradição nasceu de gente invejosa, filha das outras terras, ou de algum cronista vendido aos mascates, é cousa impossível já de averiguar-se. Mas em todo o caso não desabona a cidade; há belezas para serem admiradas de longe; outras se querem vistas de perto.

Infelizmente, aquele viço da altiva formosura não tardava se desvanecer. Lá estava ao sul, numa orla de praia, a minguada povoação de pescadores, que fora crescendo desde a invasão holandesa; e devia em breve dominar essas regiões.

Tinha Olinda todas as superioridades. Situação magnífica, ares saudáveis, água em abundância, terreno fértil, e vegetação opulenta; esses eram os dons da natureza, aos quais o homem juntara outros: as tradições da primeira colonização, os edifícios bem acabados, e os meios de defensão.

Recife era uma ponta de areia, estéril, despida de arvoredo, fétida e doentia, sem outra água potável além da péssima fornecida por cacimbas. A próxima Ilha de Santo Antônio estava nas mesmas condições. Mas havia ali um ancoradouro, porta aberta ao comércio. A indústria, que já se estreava para um dia se apoderar da civilização e subjugá-la, devia arrastar a população do alto das verdes e risonhas colinas às praias sujas, e infetas do Mosqueiro.

Assim, a pouco e pouco minguou a seiva à altiva cidade; suas casas foram desamparadas; tornaram-se ermas as ruas; e o cadáver da formosa Olinda permaneceu como seca múmia entre a verdura das árvores e as palmas dos coqueiros, únicas de suas galas antigas que não desbotaram ainda hoje. Para consolo dessa velhice prematura fizeram-na beata: deixaram-lhe a supremacia espiritual.

Quando a vi de primeira vez, transiram-me o silêncio e melancolia que a habitavam. Pareceu-me penetrar o vasto âmbito de um templo cristão. Tal era o profundo abatimento de Olinda, que não podiam reanimá-la a inexaurível jovialidade e o habitual rumor da colônia acadêmica, então para ali rejeitada.

Naquela tarde de 11 de outubro de 1710 resplandecia Olinda entre os fulgores do ocaso. A rósea vez das nuvens refletia na branca fachada dos edifícios, e algumas chispas do último raio do dia abrasavam os coruchéus das torres. Ao meio da rua principal que se prolonga pelo dorso da montanha, e então como hoje se chamava de São Bento, do mosteiro situado em frente, sobressaíam as outras duas casas nobres, da melhor aparência naquele tempo.

Tinham sobrado ambas, com janelas de sacada, revestidas de altas cortinas de rótulas, pintadas de vermelho. A primeira, mais larga e de cinco portas, pertencia ao Capitão-Mor João Cavalcanti, pessoa da melhor nobreza de Pernambuco. A outra, de três portas somente, era da propriedade e residência do Capitão André Dias de Figueiredo, morador dentre os principais de Olinda.

Na primeira sacada da última casa percebiam-se entre as gretas da rótula, por onde coavam-se as derradeiras réstias do sol cadente, dois vultos que pareciam de mulher; e o eram de feito. Estava sentada em cadeira e mais recolhida, uma já revelhusca; a outra, moça e formosa, em estrado e pendida para a sacada, a fim de aproveitar a claridade; pois trabalhava na trama de uma bolsa de retrós.

- Não se amofine com isto, menina! dizia a matrona.

- Pois, tia, não me hei de queixar de minha sorte, que me fez donzela e casada, sem que o seja nem uma, nem outra? Não me pertenço a mim, que sou de quem me disse o coração; não me pertenço ao meu marido, que dele me tem separada. Ah! soubera eu do que me esperava, que não teria consentido! Afinal de contas ele é meu esposo e eu devia acompanhá-lo...

- Que diz você, Leonor?... Queria então ajuda-lo na guerra que faz aos nossos?

- Quem fala disto, senhora? Sou tão boa pernambucana, como a que melhor for; e também, lhe juro, ninguém se desvela tanto de amores por esta Olinda, onde nasci e me criei, e parece que tudo me conhece, porque brincamos juntos, quando era eu criança; e vai a ponto que viver fora daqui, creio que não é mais viver, e sim morrer-se em vida aos poucos.

- Se pensa por esse teor, de que se arrepende então?

- Eu sei, tia? Tenho cá uma cousa comigo a dizer-me que se não fossem ao Sr. Vital Rebelo, logo na mesma noite em que nos desposamos, a intimar-lhe para morar em Olinda, ele se não havia de agastar; e depois com o tempo, pedindo e rogando, como era meu dever, tudo alcançaríamos dele. E agora!...

Curvou Leonor ainda mais a cabeça, dando ao colo alvo e flexuoso uma ondulação de cisne, a fim de esconder da tia a lágrima cristalina que tremia nos cílios e veio a cair no regaço. Mas a voz não a pôde esconder; viera aquela última palavra rociada de prantos.

- Está bom, tornou a senhora; console-se que breve tudo isto acaba. Em vencendo nós aos tais mascates...

- Contanto que lhe não façam mal! replicou prontamente a moça.

- Disso lhe dou fiança, menina; basta ser seu marido e meu sobrinho.

- Mas quando acabará?

- Qualquer destes dias.

- Ah! Deus lhe ouça, tiazinha de meu coração, exclamou a donzela esposa, erguendo ao rosto as mãos juntas para o céu.

Nesse movimento as madeixas do cabelo castanho descaindo para as espáduas mostravam em toda a pureza natural o belo semblante de Leonor. Entre a límpida alvura coavam uns reflexos de luz rosada que anunciavam a aurora da esperançada ventura.

D. Severa lançou-lhe um olhar de castelã.

- Ai! Quem me dera outra vez aqueles bons tempos em que as damas e donzelas sabiam arrostar os perigos e davam aos senhores homens o exemplo do heroísmo? Também por isso eram mais respeitadas e queridas do que são hoje, que vivem encostadas ao canto que nem traste velho e fora de uso. Se não era outra cousa bem diferente das de agora uma fidalga, ainda mesmo do tempo de minha avó, que pelejou em Porto Calvo com D. Clara? E por sinal que atravessou dois holandeses com uma só lançada!

- Jesus!... Que mulherzinha!

- E eu sou capaz de outro tanto; o ponto é me acompanharem.

- Ui! tia não se lembre disto. Já estas cousas andaram tão baralhadas sem nós mulheres andarmos aí às voltas, quanto mais se nos fôssemos também meter com elas? Então é que ninguém mais se entenderia; por força que havia de vir muita desgraça, sem contar a que já estou prevendo de me ver casada e descasada tão sem graça e de repente!

- Não digo! Para choramingas e rezas é que servem hoje as mulheres. Se fosse uma dama do bom tempo, que se apartasse como você, Leonor, de seu esposo para seguir a seus parentes, em vez de ficar em casa a fazer meias ou bolsas, punha-se em campo com seus acostados e gente d'armas; e havia de não menos vencer o inimigo à ponta de espada, do que render o esposo com um bote de lança, que não com um requebro d'olhos.

- Nossa Senhora me defenda de tal tentação!

- Ai, saudades!... Aquilo é que era viver! continuou D. Severa entusiasmada. A gente sempre adorada, cavaleiros de todas as partes que cercavam a dama de seus pensamentos, e bastava um aceno para que eles fossem ao fim do mundo, e isso só em troca de um sorriso de longe em longe, ou quando muito de uma flor, de modo que assim a formosura de uma fidalga podia chegar para fazer a tantos felizes; e não é como hoje, que vive fechada dentro de casa para um só, e este mesmo nem com ela se importa!... Ai, tempos, belos tempos dos torneios, das justas, das cruzadas! Tempos de constância em que a gente não se dava de esperar dez, vinte, trinta anos, que seu esposo voltasse da Palestina! É para se comparar!...

Aqui vejo-me obrigado a dizer alguma cousa sobre o físico da Sr.a D. Severa de Sousa, para que o leitor não se deixe ir a suposições arriscadas!

Tinha a fidalga cinqüenta anos bem puxados: os cabelos, ainda não grisalhos, mas de um preto ruço, trazia-os ela em diadema enastrado de fitas verdes, amarelas e escarlates. Nas faces, onde a natureza pôs aquele doce pomo rubescente, que nossos pais com propriedade chamaram as maçãs do rosto, havia outra variedade de fruto, duas nozes.

Formavam estas saliências em conjunção com o queixo não menos proeminente a triangulação da beleza de D. Severa, que se contava no rol das ninfas olindenses. E não era vaidosa, não. O nosso amigo Lisardo que tinha entradas no Parnaso e privava com as musas, lhe dedicara há tempos um madrigal neste gosto:

Onde vais correndo assim?
Pergunto à Flora chorosa.
Diz-me a deusa: "Busco a rosa
Que fugiu do meu jardim."


Acode amor: "Oh! não penses,
Que volte a ser flor mimosa,
Clélia, a ninfa mais formosa
Entre as ninfas olindenses.


Ah! poetas, poetas. Por que vos deu a natureza um estômago?... Sem essa víscera exigente não seríeis forçados, vós, os sacerdotes do belo, a cantar as Donas Severas de todos os tempos; e a incensar as torpezas de ambos os sexos, que por ai pululam corno rãs, neste grande charco, chamado mundo!

Observava Leonor com um arzinho zombeteiro o entusiasmo cavalheiresco da tia, e o sorriso que lhe brincava nos lábios já abrochava para soltar algum remoque inocente, quando uni tropel de cavalo soou na rua, que a distraiu. Enfiando o olhar pela fresta da gelosia, teve um sobressalto e se arremessou de encontro à rótula com irresistível impulso.

- O que é? 0 que é? perguntou D. Severa estendendo o longo pescoço, que no madrigal do Lisardo devera representar o pedúnculo da rosa.


CAPÍTULO XI


O PRIMEIRO SANGUE DERRAMADO NA FAMOSA GUERRA DOS MASCATES


Um cavaleiro bem parecido e trajado com lindas roupas, que descia a rua na direção da Misericórdia, fora causa do sobressalto da moça.

Quase fronteiro à janela, o fogoso cavalo em que montava caracolou-se voltando rapidamente sobre os pés; e durante um momento lutou o mancebo, que mostrava ser excelente escudeiro, para subjugar o animal. Nesse tempo o tinha visto Leonor, que se lançara para a janela.

Decerto percebera ele o vulto da moça e a reconhecera, porque fitou nela um olhar expressivo acompanhado por um gesto rápido. Entreabrira a mão direita erguida; e um pequeno objeto, mais alvo que as rendas do punho, apareceu na palma. Logo após, dando de rédea ao cavalo, seguiu a passo pela rua adiante.

- Não é nada, tia, disse Leonor ainda trêmula, sem retirar os olhos das restas.

Mas não se é ninfa debalde. A esperta da D. Severa não pudera ver já as feições do cavaleiro, mas admirando-lhe o talhe airoso que moldava a casaca de lemiste, induziu pela perturbação da sobrinha quem era o guapo mancebo.

- Sonsa! Cuidas que não o conheci?

- A quem, senhora?

Já livre da surpresa, a moça volveu os olhos em torno como se procurasse alguma pessoa.

- A quem mais, senão a teu marido que passou neste momento! Pior é se me queres fazer de boneca!

- Bem vi um cavaleiro, mas se era o Sr. Vital Rebelo não digo, porque não reparei; estava olhando para outra cousa.

- E o susto que você teve?

- Ah 1... Cuidei que me tinha caído o fio da seda, respondeu a moça mostrando o novelo.

- Estes olhos não me enganam!

- Está bom!

Dizendo isto com um tonzinho de arrufada, Leonor se absorveu completamente no trabalho, apesar de estar quase escuro. A matrona continuou:

- Agora, porque nega você, não sei. Não é tão natural que seu marido, vencido de saudades, quebre os protestos de esquivança e espie as ocasiões de ver sua esposa e senhora? Assim praticava-se antigamente. As damas encerradas em seu castelo viam às vezes passar um cavaleiro misterioso, de viseira caída; ou então à noite calada, pelo claro da lua, ouviam alguma serenata embaixo da sua torre. Batia o coração à castelã: "Quem será?" perguntava baixinho para a aia. E ficava naquele sobressalto da dúvida, se porventura seria o esposo que tornava, ou algum outro cavaleiro enamorado de sua beleza, que neste vai e vem da esperança é que estava o maior gosto. Qual era naquele tempo o marido que depois de uma ausência entrava em casa, como hoje, tão sem graça, que a gente já sabe o dia e hora em que chegam e a cara que trazem?

- Mas, então, nesse tempo as esposas viviam sempre ausentes, ou ainda pior, desquitadas de seus maridos?

- Pois aí estava a galanteria, menina! Amarrem um ao outro, como uma caçamba na corda, duas criaturas, e agora vejam que aborrecimento não é este de se aturarem a todo o instante, que por fim de contas ambos já se sabem um ao outro de cor e salteado; e de mais a mais, está-se vendo que a gente não pode receber as finezas e requebros dos cavaleiros, mesmo nas barbas do homem?... Não tem jeito nenhum. Como era, sim, que. os maridos nunca perdiam o garbo de namorados, e as damas viviam até morrer sempre requestadas com mil gentilezas. Minha bisavó tinha setenta anos quando D. Jorge de Albuquerque, num torneio aqui mesmo. nesta Olinda, lá no pátio do palácio, com o punhal na gorja, obrigou três cavaleiros a confessarem que ela era um bogarim.

- Por causa dos cabelos brancos? observou ingenuamente Leonor.

- Fosse pelo que fosse. Ainda há quem ouvisse falar do quanto era formosa então; e dizem que em mocinha se pareceu comigo.

As observações sensatas de D. Severa suscitam uma reflexão curiosa a respeito da semelhança entre os costumes cavalheirescos, na parte conjugal, e os atuais costumes realistas. Exceção feita de algumas circunstâncias mínimas, e substituídos os torneios pelos bailes, as serenatas pelos presentes, parece que o fundo é o mesmo.

Escutava Leonor a matrona somente com o ouvido esquerdo, porque o direito o tinha ela alerta ao menor rumor de fora. De repente a conchinha cor-de-rosa, meio oculta pelas madeixas castanhas, ardeu com súbito rubor. O som da pata de um cavalo batera ao longe o chão duro e seco da rua.

- Ai, querida tia, me conte do torneio. Então D. Jorge de Albuquerque... é o donatário, o filho de D. Brites, o que pelejou na Índia, não é, tia?... Mas então ele atirou a luva por minha tataravó!... Não é? Como havia de ficar a dama toda cheia de si!... As cores... Quais tinha D. Jorge?... Eram negras as armas, sem dúvida? E o mote?...

Tais perguntinhas caíram sobre a matrona como um enxame de abelhas, e a atordoaram um instante; recobrando logo seu ar solene e cheio de dignidade, começou D. Severa a narração pitoresca das cenas do torneio, em que fora sua bisavó proclamada o bogarim de Olinda.

Entretanto se aproximara o tropel, que cessou de repente por baixo da janela. Se D. Severa estivesse menos preocupada com as reminiscências cavalheirescas da família, não lhe escapara decerto nem essa circunstância, nem o curioso ponto de malha que a sobrinha apesar do escuro acabava de inventar.

Julgo conveniente dar às minhas amáveis leitoras, se as tiver, a explicação desse ponto elegante, porque estou certo a não encontrarão em nenhum jornal de modas.

Faz-se volta sobre a mão direita, enfia-se a agulha sutilmente pela fresta da rótula; um cavaleiro na rua amarra um bilhetinho na agulha e estica o retrós; colhe-se então docemente a volta, e de novo trançando as malhas, remata-se o ponto de laçada. Há atualmente muitos outros pontos de croque mais em voga; porém nenhum tão elegante como aquele.

Muito antes de terminar D. Severa o episódio da bisavó, tinha Leonor rematado seu ponto; e sentindo a fazer-lhe cócegas no seio um papelzinho dobrado, tornou-se inquieta e desassossegada. Nem mais escutava a narração daquela famosa aventura do bogarim, que tão viva curiosidade lhe despertara pouco antes.

Afinal se não pôde conter:

- Eu volto já, tia D. Severa; um instantinho, enquanto arranjo meu toucado que se desmanchou, não sei como.

- Pois juntas iremos.

- Para que ter esse trabalho? Não me demoro nada. Espere a tia.

- Porventura, Leonor, quer você esconder de mim alguma cousa?

- Eu?.. . Esconder!. .. Ora que lembrança esta agora da tia!

- Pois está você com tantas partes por uma cousa á-toa!

- Já não digo nada; a senhora tia faça como for de seu gosto.

- Venha então para a alcova se compor.

- Não é mais preciso; aqui mesmo arranjarei.

Contrariada, Leonor alisou os cabelos com as pontas dos dedos e deu pelo aposento alguns passos a esmo, indecisa sobre o que havia de fazer, e ao mesmo tempo impaciente de tomar uma resolução.

Soaram passos no corredor; entrou um escravo com uma candeia de garavato para acender o lampião da sala; e logo em seguida o dono da casa, que naquele momento chegara da rua.

Representava o Capitão André de Figueiredo ser homem de trinta e sete anos; toda a sua pessoa respirava exuberância de energia e arrebatamento, que dizia com a organização musculosa e o adunco perfil.

Ao entrar, dardejou um a outro canto da sala, olhos que não buscavam somente, mas iam já cheios de iras para afrontar o objeto procurado. Reconhecendo que estavam sós as duas senhoras, sofreou um tanto os ímpetos; e se dirigiu para elas dando as boas-noites.

- Traz-nos alguma boa nova, Capitão André?

- Nenhuma, senhora prima.

- Disso já eu sabia que era bem escusado perguntar-lhe, porque nada havia de saber. Os homens de agora assim é que nos tratam, de resto. Já se foi o tempo da galanteria, em que as damas eram as primeiras consultadas sobre os negócios; e não se saiam por isso os cavalheiros mal das empresas, antes não sei que diga, que muito melhor do que hoje em dia, e a prova ai está na nossa terra.

Aproveitou Leonor o ensejo para ganhar furtivamente a alcova. Como de costume crepitava na cantoneira aos pés da Virgem a luzinha da griseta de prata, que era a devoção da moça, lá por uma certa promessa que fizera.

O bilhete que tantas cócegas lhe fizera, continha poucas palavras:

Senhora, que esposa não devo chamar quem se roubou ao Juramento que a fizera minha. Forçoso é que vos veja e fale pela derradeira vez. Se de todo ainda não se apagou em vosso coração aquele afeto, que já vos mereci, e antes nunca o merecesse, por vosso bem e meu sossego, interceda ele em meu favor para que obtenha de vossa crueldade, essa mercê.

Devorou a moça com os olhos primeiro, depois com um alívio de beijos, a carta; e cerrando-a entre as mãos cruzadas, levantou para a Virgem uma prece eloqüente, ainda que muda. Outro pensamento, porém, a reclamou; desejava responder; e as dificuldades lhe ocorriam à mente.

Atualmente, não há mocinha de dez anos - outrora se chamavam meninas às de vinte - não há, dizia eu, bonecrinha de carne e osso, que não tenha sua papeterie com papel de vários tamanhos, desde o de palmo para cartas de negócio até o de polegada para os bilhetinhos açucarados. E não só papel como sobrecartas, fechos emblemáticos, lacres perfumados, penas diamantinas, areia de ouro, enfim todo o arsenal de ninharias indispensável à ciência epistolar, a mais transcendente e sublime deste século.

A bem dizer, a carta é a mais poderosa alavanca do progresso: nem o jornal lhe chega. Quem se propusesse a estudar sua fisiologia e sistemar as espécies de que são principais a carta de empenho, a circular dos candidatos, a de crédito, a de namoro, de felicitação, de cumprimentos, a reservada, reservadíssima e confidencial, escreveria uma bela obra, um livro prático, dos mais justamente apreciados na atualidade. E faria fortuna o autor, principalmente se o governo lhe ficasse com a metade dos exemplares, no intuito de promover a colonização.

No tempo desta história, a ciência epistolar estava ainda no embrião. Cada casa, e das fidalgas e abastadas, era mobiliada com um tinteiro único, mas respeitável.

Esse traste importante, acompanhado dos seus acessórios, o areeiro, duas penas de ganso e uma hóstia ou obreia encarnada, estava debaixo de chave e sob a guarda imediata do dono da casa, como o responsável pela honra e segurança da família.

Lembrou-se, portanto, Leonor da resposta por escrito, somente para reconhecer a impossibilidade em que estava de usar dela. O outro meio, mais corriqueiro, o dos recadinhos, bem sabia ser impraticável, assim de repente, em uma casa onde a traziam espiada. Sôfrega, correu os olhos por todos os cantos e móveis do aposento, procurando um meio, ou pelo menos uma inspiração.

Com a cabeça inclinada em atitude pensativa, engastando entre os dentes de pérola a unha rosada do polegar, e estremecendo de impaciência, estava encantadora a donzela. Dir-se-ia que ela esperava tirar da coroa daquele dedinho mimoso o fio do enigma, como costumava puxar com os dentes a ponta da linha para desembaraçar a meada.

Eis que desperta com um pulinho de contentamento. Estende o seu lenço de batista sobre o donzel, e tirando uma agulha de bordar do açafate de costura; picou a veia azul do braço esquerdo.

Uma gota, e da mais fina púrpura, borbulhou na tez alva e acetinada. Aí molhando a miúdo a ponta da agulha, pôde escrever na cambraia estas palavras: amanhã na cerca.

Machucou o lenço na mão, que mal o escondia, e disfarçando esta entre os fofos da saia, voltou à sala onde encontrou ainda em conversa animada D. Severa e o capitão. As outras senhoras da casa estavam sentadas em roda de D. Lourença, respeitável matrona pernambucana, que muito se avantajou nas letras e virtudes. Era irmã de André de Figueiredo, e viúva.

Achando já reunida na sala a família, à qual esperava antecipar-se, hesitou a moça; a resolução porém não se fez esperar. Acercou-se do grupo, dizendo:

- Quem me dá um lugar?

E sem esperar resposta:

- Está bom; tenho meu estrado.

Encaminhou-se então para a janela com o pretexto de arrastar o estradinho em que estivera sentada à tarde. Do primeiro lance viu ela parado em frente da casa um vulto. Observando que não reparavam, abriu rapidamente a aldraba da rótula e arremessou o lenço.

Ao voltar-se de todo para melhor empurrar com o pé o estrado, viu em frente André de Figueiredo, que se aproximava dela:

- Sabe quem andou hoje por Olinda, Leonor?

- Como posso saber, eu que daqui não saio nunca? respondeu a moça trêmula.

- O Vital Rebelo!

- Não disse eu? acudiu D. Severa.

- Bem minha tia teimava que o tinha visto! continuou Leonor.

- Que terá ele vindo buscar? perguntou D. Lourença.

- Não sei; mas queira Deus não seja o que suspeito! replicou o capitão com surda voz de ameaça.

- Que vem fazer? acudiu D. Severa. Pois, Lourença, não tem ele destas bandas a dama de seu coração?

- Tomara eu que me ele deixe sossegada! balbuciou Leonor.

Pálida e demudada, foi a moça tomar lugar na roda das senhoras, disfarçando para esconder seu terror. Mil vezes arrependida do que fizera, bem desejava, se fosse possível, resgatar com um ano de sua vida aquele momento de irreflexão. Quantas desgraças talvez não ia causar a sua imprudência?


CAPÍTULO XII


ONDE SE ENCONTRA NOTÍCIA DO SOFÁ QUE TIRAVA O SONO AO GOVERNADOR


Era noite caída.

Iluminou-se a rua com o clarão dos fachos agitados pelos pajens, que precediam os nobres cavaleiros e suas damas.

Das bandas da Misericórdia e Varadouro, retroava o chão com o estrupido de animais que se aproximavam; e com pouco levantou-se debaixo das sacadas o burburinho que produz o vozeio soturno de muitas pessoas.

Eram bandos de cavaleiros, que chegavam acompanhados de seus pajens, e alguns precedidos de palanquins, onde vinham as donas e filhas dos nobres moradores de Olinda, para o serão quotidiano das casas do Capitão-Mor João Cavalcanti.

Ficavam estas casas à direita e parede-meia das outras em que morava o Capitão André de Figueiredo; eram, porém, mais vastas e avantajadas, assim na forma da construção, como no custo das alfaias e móveis que a adereçavam.

Ocupava dois terços da frente a peça principal, a casa do sofá, larga sala em quadro, com as paredes revestidas no terço inferior de almofadas de brasilete e o resto de colgaduras de pano de rãs.

De meia volta em abóbada, era o teto pintado a fresco, com tarjas douradas que cercavam os vários painéis ovais dispostos em simetria pela precinta e representando episódios guerreiros da descoberta de Olinda, ou frutos e aves de Pernambuco.

No centro do teto, em obra de talha, via-se enroscada uma serpente, mastigando nas presas a corrente donde pendiam uma grande lâmpada de prata cinzelada com sete luzes, que bastavam para esclarecer o vasto aposento.

Às quatro janelas rasgadas para a rua correspondiam três portas de comunicação interior, sendo a entrada pela câmara da direita donde se descia ao vestíbulo, e ficando à esquerda, ao longo da parede, o sofá.

À noite de ordinário conservava-se fechada a porta larga do fundo, que era do oratório; salvo quando se tinha de festejar algum santo de particular devoção da casa, como era o Evangelista, seu padroeiro; ou quando celebravam-se casamentos e batizados de pessoas da família.

Nos quatro ângulos da ampla sala desciam até a meio da parede troféus com lambeis volantes, em cuja apiciadura ressaltavam suspensos à cornija quatro escudos em metal com os brasões de aliança que o capitão-mor tinha o direito de trazer e eram os dos Coelhos, Barros, Sousas e Bezerras.

De jacarandá preto, trabalhado a torno, e de sola vermelha com pregaria de metal amarelo, era toda a mobília. Nos espaldares das cadeiras coroados pelo elmo aberto em obra de talha, esculpira destro artífice o escudo das armas do capitão-mor.

A essa casa concorriam regularmente todas as noites os moradores principais de Olinda, parentes pela maior parte ou aderentes do capitão-mor, para colher informação das cousas da governança e andamento da república; e também combinarem os melhores alvitres na estreiteza em que se achavam, com os negócios da terra bem intrincados, e o governador tão desviado do bom caminho pelo mau conselho dos que o cercavam.

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