Era João Cavalcanti naquele tempo o chefe da grande família Cavalcanti, que em Pernambuco data da fundação da colônia, e provém de troncos nobilíssimos; pela linha materna saíram da estirpe dos Coelhos e Albuquerques, flor da fidalguia portuguesa, e pela linha paterna remontam a Arnaldo Cavalcanti, que se aliou na casa dos Médicis, a mais ilustre de Florença; de cuja linhagem nasceu Filipe Cavalcanti que se passou a Pernambuco, nos primeiros tempos da povoação.
De grandes posses, senhor de muitos engenhos, vivendo à lei da grandeza, com todos os regalos da vida; bravo, cortês e generoso, embora presumido de sua fidalguia; liberal até à prodigalidade, de bolsa aberta sempre para quem a ele recorria: era de razão que tivesse o capitão-mor grande séquito não só entre os moradores nobres, como na gente miúda da terra.
Não havia, entre os mazombos insignes daquele Pernambuco, outro mais acatado do que este, e tão poderoso; pois só com os seus escravos e os acostados de seus engenhos, sem falar das suas ordenanças e dos inúmeros sequazes que tinha pelos povoados, podia levantar da noite para o dia um bom terço de tropa mais decidida, senão melhor armada, do que a milícia do governador.
Mazombo era o título popular que tinham naquela época os principais, entre os nobres pernambucanos. A história, que nos conservou o vocábulo, hoje caduco, descuidou-se de transmitir a origem; de modo que, a não ser o precioso manuscrito desta crônica, não poderia o Instituto Histórico, apesar de profundas e sábias investigações, assentar opinião segura em tão escabroso assunto.
Tinha a destruição dos Palmares divulgado boa cópia de nomes africanos, empregados pelos negros na sua república. Zambi chamavam ao cabo supremo, a quem todos obedeciam; e muzambi, eram os grandes oficiais, do serviço do maioral, e seus ministros.
Por desprezo, entraram os mercadores portugueses a alcunharem os nobres pernambucanos de mazombos, como para inculcá-los de cabecilhas de negros, querendo com isso lançar-lhes o labéu de gente de cor. É peco esse de nossos irmãos, tine mais tarde inventaram com a mesma intenção o epíteto afrontoso de pé-de-cabra.
Repetiu-se o que sempre sucede em tais casos. Os filhos de Pernambuco, e especialmente a gente de cor, trocando em honroso mote o nome que lhes haviam lançado os contrários como afronta, timbravam em designar por mazombos as pessoas principais da nobreza pernambucana; e tornou-se o titulo de mazombo insigne a maior glória a que poderia aspirar um fidalgo na terra de seu nascimento.
Quando entrou a família de André de Figueiredo, já achou a sala povoada dos parentes e vizinhos que eram certos ao serão.
Atravessando por entre as mais pessoas, que se moviam no aposento para tomar lugar, ou recostarem-se às sacadas das janelas, o bando chegado por último aproximou-se do sofá.
Não era qualquer sofá o da casa do capitão-mor, nem se parecia em nada com o móvel tão conhecido e corriqueiro, que hoje em dia trasteja a mais pobre das salas de visitas, ou alfaia o rico palácio, com a diferença apenas da madeira e da forma elegante.
Naquele tempo esse requinte de luxo oriental, que os portugueses trouxeram de seu comércio das Índias, poucos se animavam a gozá-lo; e não tanto pelo custo das alfaias, como pela espécie de pompa real, que tal uso comunicava ao aposento. Nas colônias, porém, nunca as pragmáticas foram tomadas ao sério; os ricos moradores ou fidalgos das capitanias zombavam dos ciúmes da majestade e de suas leis suntuárias.
Corria no fundo e ao longo da parede um largo estrado, com alcatifa de veludo escarlate e ressalto de dois degraus sobre o soalho da casa, guardado todo ele por um esparavel de brocado azul, que se elevava em cúpula suspensa à parede com um florão de bronze.
Na face exterior dessa cúpula apainelava-se o escudo oval dos Cavalcantis, com as armas de prata coticadas de negro, em campo de pala, prata no fundo, vermelho em cima, floreteado também de prata. Por timbre um cavalo com asas, mãos suspensas, pés sobre o elmo, volante por entre chamas.
Sobre o estrado havia uma camilha de couro rendado em arabescos e flores que deixavam coar-se o ar pelos recortes; fresco ripanço que em clima ardente como o de Olinda convidava os lassos membros ao repouso. Era brasil a madeira do custoso móvel, e as pregarias da melhor prata.
Em frente à camilha e tomando-lhe a vista, um bufete coberto por cima de charão da Índia com embutidos ou marchetarias, e fechado dos três lados de fora por bambolins de couro de Moscóvia com iluminações de prata. À volta do bufete, algumas cadeiras e tamboretes rasos ofereciam assentos aos poucos admitidos nesse lugar de honra.
No momento em que se aproximavam D. Lourença Cavalcanti e André de Figueiredo com os de sua casa, achava-se recostado na camilha, com o corpo derreado sobre a almofada de couro, um velho de sessenta anos, alto, magro, de feições descarnadas, olhos vivos e cintilantes, cabelos grisalhos, e tez acobreada que denunciava o sangue americano.
Era o Capitão-Mor João Cavalcanti.
Naquele instante acabava ele de apear-se à porta da casa, donde partira quatro horas antes para acabar a tarefa começada pela manhã de correr os engenhos próximos da cidade: lida com que se entretinha, quando não havia outra cousa em que passar o tempo.
Depois de cinco ou seis léguas a cavalo pelas margens do Capiberibe, pode-se avaliar da boa fadiga e apetite que devia trazer. Assim ia ele acomodando-se na camilha, com as pernas estendidas pela prateleira do bufete, enquanto não lhe punham ali mesmo a ceia.
Nesse intermédio, iam chegando os da obrigação de todas as noites, que logo se encaminhavam para o estrado a saudá-lo e desejar-lhe as boas-noites. Aos parentes mais moços dava ele por antigo costume a mão a beijar; fossem descendentes ou simplesmente colaterais remotos e talvez improvisados, nenhum prescindia de lhe tomar a bênção, e julgariam ter decaído do seu agrado, se lhes ele recusasse aquela mostra de submissão e respeito.
As pessoas mais qualificadas tomavam lugar no sofá, junto ao bufete; e aí durante a primeira parte da noite, praticava-se acerca das novas mais importantes do dia, e preparavam-se os futuros sucessos que deviam perturbar o sossego da capitania.
João Cavalcanti pouca parte tomava nos planos e alvitres; o mais do tempo ouvia, e quando instado para dar seu aviso, sempre eximia-se com a velhice, que já lhe tinha gasto a têmpera. E não era por modéstia, se não por um pressentimento da verdade que o dizia.
De feito, nesse caráter de antes quebrar que torcer relaxara-se a rígida fibra e, quiçá, pela tensão que lhe dera outrora uma vontade impetuosa e o gênio em extremo arrebatado. Chegara a ponto que, fora de seus hábitos inveterados, os quais já tinham adquirido força mecânica e materialidade de instintos, não era mais homem para decidir-se por si, no mais importante negócio da vida.
Não acudisse alguém para incutir-lhe uma resolução, que ele deixaria ao azar o encargo de remover a dificuldade.
É do homem perecer assim aos poucos, à semelhança da árvore, que em se aproximando do termo de sua duração, começam-lhe a tombar as folhas primeiro, após os ramos, e por último fende-se o próprio tronco e esboroa carcomido pelo tempo. Da mesma sorte ao velho, morrem-lhe os cabelos, quando lhe despem a fronte, ou encanecem; despovoa-se a boca, e a obra melhor do Criador não é mais do que uma ruína que de dia em dia se desmorona e desfaz no pó de que se formou.
Conservara o capitão-mor sua integridade física, e aos setenta anos era um velho ainda verde e rijo. A eiva ali penetrara no cerne; fora ao moral, e consumira as poderosas faculdades, que outrora animavam esse organismo, deixando-lhe apenas o exterior.
Com especial demonstração recebeu o capitão-mor a sua sobrinha D. Lourença Cavalcanti; era a pessoa de seus extremos.
Depois que lhe deu a mão a beijar, e a abraçou com muito carinho, sentou-a perto de si na beira da camilha.
- Então, D. Lourença, sempre quereis que se rompa, filha? perguntou a rir e com maneira afetuosa o velho.
- O que eu quero, bem o sabe o senhor tio, que é ver esta nossa terra livre da praga de aventureiros que a infestam, e restituída a seus legítimos senhores.
- Bem falado, D. Lourença! exclamou Leonardo Bezerra.
- Melhor seria para todos que isto se fizesse sem briga, nem contendas. Mas se não pode ser por outra forma, e força é defender e sustentar no campo nossos privilégios e forais, os nobres de Pernambuco devem lembrar-se que descendem dos que restauraram a pátria e à liberdade esta capitania, muitos dos quais ainda aí estão como o senhor tio, e Deus os conserve ao nosso amor por muitos e dilatados anos, para exemplo aos seus e estranhos.
- Lembrem-se também as damas pernambucanas do que devem à terra onde floresceram uma D. Clara Camarão, e uma D. Maria de Sousa, acudiu em tom espevitado D. Severa.
- Ai, que esta ainda é mais guerreira que a D. Lourença, pois não se contenta só com instigar, mas quer ela mesma sair a campo, e batalhar! Assim D. Severa! exclamou o velho capitão-mor galhofando.
- Por mim já teria lançado um cartel a D. Sebastião de Castro; e em vez de estar aqui todas as noites a levantar planos, que é um não acabar, e nunca vão por diante, eu houvera chamado o governador em repto de honra a pé, a cavalo, na estacada, ou em campo aberto...
- Olá de dentro!... gritou D. João; tragam-me já daí sem detença a armadura de meu avô, para esta cavaleira andante. Quanto a nós, senhores. vamos ver se nos dão uma roca ou uns bilros, e nos arrumamos no estrado a dobar o algodão e a fazer rendas. Porque, as cousas da República, cá a D. Lourença as destrinça melhor que um letrado; e no que toca a assunto de guerra, lá a D. Severa com três botes de lança põe tudo em debandada.
Já a esse tempo estavam os assentos próximos ao sofá ocupados pelas pessoas do costume.
Das principais eram, além das já nomeadas, o Coronel Domingos Bezerra Monteiro, o Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti com os dois filhos, Cosme e Manuel, alferes ambos, o Sargento-Mor Cristóvão de Holanda, o Capitão-Mor Matias Coelho Barbosa e o licenciado José Tavares de Holanda, os quais todos aplaudiram com risadas a saída do velho Cavalcanti e mofaram dos recachos marciais de D. Severa.
Apareceram na sala os pajens, mas não acudindo ao chamado, senão a porem a mesa para a ceia, que estava a pingar a hora canônica.
Estendida sobre o charão uma colcha de damasco de seda franjada, pois o capitão-mor não admitia, como já era uso, comer sobre roupas de linho ou algodão, cobriu-se a mesa da fina louça de porcelana, com ramagens verdes e tarjas douradas. O serviço era todo ele de prata lavrada, com o brasão da casa.
Foi lauta a ceia. Vários assados de vitela, peixe e aves, peças de caça do monte e volateria, carvonadas de carneiro e galinhas, chacinas de porco e uma grande torta de mariscos, formavam a parte suculenta da refeição: o que bem se podia chamar a armação do edifício culinário.
Havia demais, para debicar-se nos intervalos e preparar o estômago para novo assalto, morcelas de Arouca, enchovas, pastelinhos de cabidela, o picante caril, azeitonas, alcaparras, e outras gulosinas naquele tempo inventadas pela arte cibária para regalo dos glutões.
Entre essas iguarias da cozinha portuguesa apareciam os novos quitutes brasileiros, primícias da nacionalidade que já despontava nesse tão importante mister da vida, como em tudo o mais. Viam-se ali os covilhetes de paçoca e inhames, as muquecas enfolhadas, os bolos de cará, acepipes ensinados pelos índios, sem falar das corbelhas de filigrana de prata cheias das mais saborosas frutas do país, ananases, pinhas, mangas e bananas.
Também a par dos bons vinhos das Canárias e do Reino, figurava o mosto do jenipapo e a garapa; assim como não se desmerecia entre os pães de várias formas e receitas quais o mimoso, o sovado e o comum, a nossa farinha d'água, e as alvas tapiocas, em lindas cestas de palha matizada, trabalho dos caboclos.
Acabavam os pajens de pôr a ceia e preparavam-se para servir aos convivas, quando notou-se do lado da entrada certo alvoroço, ainda que mui ligeiro, entre as pessoas ali agrupadas.
Dera causa a essa animação a chegada de um cavaleiro, que reproduzia-se em mesuras a um e outro lado, para logo após desfazer-se em mil abanicos e finezas acompanhadas de partes mágicas. A cada um saudou com apuros de cortesia e umas inflexões de talhe, por modo requebradas, que tinha jeito de se estar enroscando pela gente.
- Ai. chega o Filipe Uchoa! disse o capitão-mor que lobrigara o cavaleiro através de suas floretas. Ainda bem! Cuidei que o não teríamos hoje à ceia!
- Não lhe falta que fazer, acudiu o Sargento-Mor Bezerra; mas de tudo se desempenha a tempo e pelo melhor. Não sei de outro de mais conselho, nem capaz de tanto e em tão poucos anos.
Expandiu-se o Capitão-Mor João Cavalcanti com o elogio feito ao sobrinho.
- Chegais a ponto para a primeira investida, Uchoa, como bom cavaleiro que sois.
- Aprendi em boa escola, como não quero que a haja melhor, em toda a cristandade, respondeu o Uchoa, afagando a vaidade do velho.
UM RASCUNHO D0 SECRETARIO DA CAPITANIA COM PRESUNÇÃO DE ESTAMPA
Arrastando os tamboretes, acercaram-se os convivas da mesa, ou tábua, como diriam João de Barros e Frei Luís de Sousa, com um de seus tão freqüentes galicismos.
Filipe Uchoa tomou o seu lugar do costume, à esquerda. de D. Lourença Cavalcanti; e passou logo a exercer o seu mister de trinchante, no que era de consumada perícia. Muitos lhe invejavam, mas nenhum ousava disputar-lhe o honroso mister, em que fazia as vezes do dono da casa, como o parente de seu especial afeto entre os homens, da mesma sorte que D. Lourença entre as damas.
- Senhores e parentes, assaltemos este castelo roqueiro que nos está afrontando. À brecha, Filipe Uchoa! Depois veremos o que se há de fazer ao Brum e às Cinco Pontas, que são os baluartes do governador.
Afincara o bacharel a faca do trincho no empadão de caça; e cortou para o tio uma naca formidável, servindo em seguida aos outros convivas, na proporção da valentia gastronômica de cada um, o que ele conhecia pela prática do ofício e experiência adquirida.
- Não tivesse ele outros baluartes senão esses, que não seria façanha rendê-lo com os fronteiros que temos, observara o Uchoa.
- E quais outros cuidais que ele tenha, senhor bacharel?
- É principal o ouro dos mascates, que. vai semeando a traição entre os naturais, de sorte a não se poder já contar com a fé do mais seguro.
- Se até ao Sr. Capitão-Mor João de Barros, nosso tio, se atreveram os pícaros a fazer-lhe um, tiro à queima-roupa, mas de mil cruzados, que doutra espécie de bala não entende nem quer saber a cáfila dos forasteiros, atalhou o Capitão André de Figueiredo.
- Já não tornam os tempos, em que davam os naturais exemplo de uma constância e heroísmo que não têm inveja aos mais decantados das antigas eras, exclamou com fervor o licenciado José de Holanda. Aqueles eram pernambucanos, e sabiam servir a pátria e a religião, que livres desamparavam a casa e a família para não se curvarem ao jugo de hereges, e cativos rejeitavam a liberdade, porque tinham em mais valia do que tão precioso dom, guardar a fé a seus senhores.
- Depois que a ralé da mascataria, mal pecado nosso, lastrou por esta terra, já ela não pode ser o que foi, o Pernambuco de nossos maiores; nem afogado como anda de más ervas e pragas, podem mais aí medrar as virtudes, que rebentavam outrora com tamanho viço.
A pouco e pouco foi caindo a prática, embargada da tarefa de destrinçar no prato as várias iguarias, mais agradável e avisada naquele momento do que a de razoar sobre cousas já tão discursadas.
Terminado o primeiro pasto, retiraram os pajens as iguarias que transportaram à casa de jantar, onde já estava posta a mesa para o restante da companhia. Entrou então a última coberta dos doces e conservas de açúcar para o dessert, como já se dizia nessa época à moda francesa, em vez de postre.
Veio o infalível manjar-branco; em seguida as castanhas de caju confeitas, as tortas de maturi e creme, as trouxas d'ovos tão decantadas pelo bom Filinto, as conservas de frutas e a deliciosa cocada em tigelinhas de cristal, tudo acompanhado de vinho Palhete e de Cândia.
No centro campeava uma pirâmide de prata lavrada, formando por andainas uma pinha de beliões de abóbora e batata, pucarinhas finas de geléias de araçá e pitanga, trebelhos ou flores de alfenim, e as saborosas queijadinhas, preparadas pelas mãos mimosas de D. Lourença para o velho capitão-mor, o qual lambia os beiços de gosto, depois que devorava uma boa dúzia delas.
Era nessa ocasião da sobremesa que. os principais dos parentes, conhecidos como os de melhor discurso e. conselho, ficavam sós entre si; porque o mais da assembléia acudia por sua vez à ceia, que já os estava esperando na casa de jantar, presidida por Álvaro Cavalcanti, o filho do capitão-mor, um desbragado que levava a vida a pautear, não cuidando senão de jogo, mulheres e comezainas.
Por isso achava-se mais a gosto ali em liberdade e fora das vistas do pai, do que no sofá, onde nada lhe interessava do que se tratava, e sentia-se tomado de uma como bebedeira de aborrecimento e sono.
Antes que se entre a tratar de negócios graves, aproveitemos a curta pausa para assentar os traços mais salientes do bacharel Filipe Uchoa, que teve parte mui proeminente nos sucessos daquele tempo.
A figura, serviria um furo abaixo, e com diferenças mínimas, o mesmo molde por onde se tirara o secretário do governador, o Capitão Barbosa de Lima. Por primeiro contraste logo se notava que neste a cabeça era sobre o largo, enquanto no outro se alongava direita; no que porventura alguém entendido na abstrusa ciência do homem verá um sintoma de que no bacharel dominava exclusivamente o prurido de subir-se ao mais alto, ao passo que no secretário a ambição não lhe tolhia as expansões generosas.
Afora essa particularidade, no mais era Filipe Uchoa o escorço de Barbosa de Lima, de modo que ver um, tanto valia como ter conhecido o outro em moço, antes que os anos bem surtidos lhe houvessem dado todo o corpo. Da mesma avantajada e pernalta estatura, com uma calva que no secretário chegara ao apogeu, e no bacharel se estreava tão prometedora como a sua entrada nos negócios; dotados da mesma abundância de gesto e mobilidade de compostura, bem podia-se tomar estes dois nobres pernambucanos como o primeiro e segundo esboço lavrado em gesso para servir à fundição de um molde.
Nas maneiras, em que ambos primavam à lei de corteses, reparando-se bem, lá se lobrigava um cambiante. Assim, no secretário a afabilidade espraiava-se como as ondas de um manancial perene; no. bacharel, ao contrário, saía aos esguichos, quanto bastava para filtrar na vaidade alheia. Era sincero o primeiro, e obedecia ao impulso de sua natureza; ao passo que no segundo havia mais afetação do que índole.
Não perdoava Filipe Uchoa ao Barbosa de Lima o ter este conseguido granjear a confiança do governador e encartar-se no lugar tão cobiçado de secretário. Trabalhava pois, e com afinco, para derribá-lo do posto, e rendê-lo nele, trazendo D. Sebastião à boa causa, de que andava transviado. Se, porém, fosse preciso, para entrar nas graças do homem, algum arranjo com os mascates, salvo o direito de meter-lhe os pés a seu tempo, é mui de crer que não hesitasse o bacharel, como hábil político.
Nesse empenho, muito se valia da boa sombra que lhe davam o nome e fama do tio, o Capitão-Mor Cavalcanti; e para melhor o levar, não se esquecia de granjear a boa vontade de D. Lourença, em quem o velho principalmente empregava o seu afeto.
Era de ver como refinava galanterias no favonear as presunções da prima que se tinha na conta de uma Duquesa d'Alba, capaz de empunhar as rédeas do governo da capitania, se fosse necessário, para o que se julgava com mais letras e melhores bofes do que toda a parentela junta e refundida.
Para acabar o paralelo entre os dois competidores, falta ainda um traço. Era o secretário homem de engenho superior e filho de suas obras; donde vinha o não sentir inveja do mérito alheio. O bacharel, garfo de extensa parentela, tinha o talento preciso para manter-se na altura em que o plantara a fortuna, e desconfiado de que não podia subir além, cuidava que só abatendo os outros, conservaria a proeminência.
Ninguém se queixara jamais de um ato menos leal do secretário, embora não faltassem muitos a lançar-lhe a pecha de pendores e mobilidades nos alvitres, como modo de ver as cousas. Do bacharel nada se falava acerca de volubilidade, porque sempre esteve ele adstrito ao feudo da família e jungido ao carro da fortuna; mas a cópia que dá a crônica quanto ao refolho, é de tão insigne, que chegava ao ponto de enganar-se a si próprio.
Tocava ao termo o pospasto no sofá, como bem o indicava a postura do capitão-mor, já um tanto derreado sobre o espaldar do espreguiceiro, pelo qual. ia-lhe aos poucos resvalando o mal sustido corpo.
Aproveitou André de Figueiredo o ensejo da privança para tratar do assunto de ponderação, que o trazia preocupado desde o começo da noite.
- Meu tio e senhores parentes! Sabereis que tenho para propor à vossa prudência consumada, negócio de muita e grande monta.
E com estas palavras que a todos pôs de aviso, tirou o capitão do peito do gibão um rolo de manuscrito, que empunhou na destra à guisa de bastão de comando.
Não escapou esse meneio do primo a Filipe Uchoa, que era perito na arte de tirar pelo semblante as inquirições do que ia lá dentro. E todavia o gesto de Figueiredo não era senão um assomo, rijo porventura, de seu ânimo franco e resoluto.
Distraído, como parecia, a contemplar o topázio líquido de um cálix de Palhete que ia gostando aos goles, relanceou o bacharel por cima dos óculos um olhar oblíquo a uma e outra banda.
Esqueceu esse pormenor, como porventura outros que se irão pelo diante tirando a limpo. Trazia óculos o bacharel; andaço este, que a lermos por Montesquieu,. grassava naqueles tempos grandissimamente entre os portugueses, pela veneração que de todos granjeava.
Nariz cavalgado por um, par de cangalhas, no dizer do malicioso francês, por força que era um nariz sábio, credor do maior respeito, torre de ciência e promontório de prodigioso engenho. Ora, a probóscide do bacharel, se tais epítetos não existissem, os inventaria.
- Não ignoram V.ces, meu tio e senhores parentes, como têm corrido os tempos na esperança traidora dum remédio que não chega e talvez nunca chegará, pois não é de hoje que estão no costume em Lisboa de nos esquecerem quando carecemos de defender nossa liberdade e pátria; mas havendo algum dote ou qualquer outro subsidio, sem falar das fintas ordinárias, então sim, é de ver quão prontos se lembram, e os rendimentos e termos amistosos com que o fazem.
- Tem carradas de razão, André de Figueiredo! disse o Sargento-Mor Bezerra.
- É tempo já que venhamos a uma congruência feliz para os negócios de Pernambuco, ameaçado de completa ruína pela soberba e aleivosia dos mercadores do Recife. E como o lembrar é para todos, enquanto que o avisar só cabe a poucos, e esses de muito conselho e experiência, pareceu-me comunicar-vos o que entendo sobre estas cousas, em que andam. empenhados nossos brios de pernambucanos, tão pisados nestes últimos tempos, e o respeito a uma pátria ilustre, que não havemos de consentir se torne feitoria de mascates.
- Qual é pois vosso alvitre, Capitão André de Figueiredo? disse o velho Cavalcanti já de todo derreado contra o espaldar. Dai-nos a saber; contanto que não seja algum partido extremo.
- Para o sujeitar ao voto do tio e de todos os senhores e parentes, que ministros melhores não podem ter os negócios de Pernambuco, o trouxe eu; e não é outro senão o de rompermos de uma vez em defesa da pátria e da liberdade pernambucana, intimando com antecedência ao governador esta resolução, para o caso de que prefira ele arrepiar do mau caminho e enxotar de ao redor de si a súcia dos mascates. E fio-vos eu, que em tendo a cousa por certa, ele o fará. Se porém persistir no seu erro, recambiemo-lo a Lisboa com um manifesto a El-Rei em o qual lhe exporemos nossos agravos e as razões maiores que nos levaram à forçosa necessidade de despedirmos desta terra o mau ministro que lhe pôs por governador. O manifesto, senhores e parentes, aqui o tenho já; fê-lo a rogo meu, nosso amigo, o licenciado Davi de Albuquerque.
Abriu então André de Figueiredo o rolo de papel que tinha fechado na mão esquerda enquanto falava; e mostrou em roda o manuscrito, do qual se preparava a dar leitura aos circunstantes.
Nesse momento o bacharel Uchoa, que ouvia ao capitão com um sentido grave e atento, enfrestou por cima das vidraças um olhar significativo a D. Lourença, e temperando ao de leve a garganta, propôs-se a dar seu voto:
- Senhores meus e respeitáveis parentes, aqui reunidos à sombra do venerável chefe de nossa família, disse o bacharel fazendo com a cabeça a vênia do costume ao capitão-mor, que já então se achava em perfeita diagonal. Ninguém que tenha meditado as cousas do governo, como elas merecem, desconhecerá a verdade de quanto expôs nosso primo, Capitão André de Figueiredo, e a urgência do mal que pede remédio pronto; pois se lhe tardamos com ele, é perder logo toda esperança de cura.
Foi este o exórdio da arenga que o bacharel trazia preparada para o caso. Pelo Cosme Borralho, que era da sua roda, tivera ele notícia e comunicação do manifesto encomendado por André de Figueiredo ao licenciado Davi de Albuquerque. Atinando desde logo com o pensamento do primo, e não lhe sofrendo a vaidade levasse outro nos conselhos da família as lampas que pretendia somente para si, tratou de pôr cobro ao que julgava uma usurpação.
Nesse propósito entendeu-se com D. Lourença, que era nos últimos tempos a alma viva do capitão-mor, seus olhos e seus ouvidos.
Soberba, imperiosa, rendia-se contudo a matrona pernambucana à admiração e encômios, de que a trazia constantemente incensada Filipe Uchoa, sem que entrasse nesse rendimento o mais remoto vislumbre de ternura. Tal encanto achava D. Lourença em sentir-se adulada pelo mancebo apontado como o grande luminar da família, que raríssimo era recusar-lhe sua condescendência.
Desta vez o caso parecia árduo, pois cifrava-se em induzir D. Lourença a contrariar um plano do próprio irmão, e o de mais estimação. Mas tão ao vivo lhe representou Uchoa os perigos com que o traço imprudente de André de Figueiredo ameaçava a ele primeiro, e a todos os seus, que nem hesitou a matrona, e tomou a seu cargo preparar o capitão-mor.
Depois do intróito, formalizara-se de novo o bacharel. Dando ao vulto mais outra camada de gravidade, começou a cortar o ar ante si com o impulso e retração do braço, como se preparasse um escoadouro à exuberância de sua palavra. Saiu então uma dessas arrancadas de eloqüência, nas quais se estão mostrando os puxos da memória para dar à luz as idéias, e o enfaixamento das pobres criaturinhas mal nascidas.
Serviu de tema ao bacharel a resenha dos acontecimentos, que se tinham sucedido desde a posse do Governador Sebastião de Castro; e isso com pormenores de fatigar e minudências fúteis que nada faziam ao caso; mas entendia lá para si o bacharel, que fazia prova de engenho profundo e investigador, catando semelhantes argueiros para soprá-los nos olhos dos outros.
- Tal é o estado a que chegaram as cousas em Pernambuco, e quanto mais grave, a não ser nossa prudência e moderação! Em tão grande estreiteza havemos de ficar indiferentes e entregar a pior azar a sorte nossa e da pátria? Por nenhum modo; carecemos de voltar o rosto, e empenhar quanto pode e vale a nobreza pernambucana para repor as cousas no seu assento e trazer a bom termo as diferenças que tamanho dano causam. Mas o meio de o alcançar?...
Nesse momento, à porta de entrada fronteira ao sofá, apareceu o vulto do Lisardo e cresceu pela casa adentro. Ao que se via, o poeta da família não estava nos seus eixos; alguma lhe acontecera que o trazia espantadiço. Avançava, não com sua habitual macieza, mas inteiriçado, aos trancos, à guisa de maninelo de papelão empurrado pela mão do titereiro.
Era este nem mais nem menos do que o garoto do Nuno, o qual levado da breca e decidido, fazia finca-pé metendo os braços aos ombros do Lisardo, e aos boléus introduzia em casa do capitão-mor o nosso rimador, apesar da visível repugnância que a este inspirava naquela noite o teto protetor e hospedeiro.
Desta sorte tangido pelo caixeiro, atravessou Lisardo a casa do sofá, e sumiu-se na casa do jantar, sem que as personagens reunidas em torno do capitão-mor fizessem grande reparo no incidente.
A todo momento estavam entrando as pessoas de trato e conversação da casa, e o Lisardo era bem conhecido a título de comensal e trovista. Quanto ao Nuno, agachado por detrás do camarada, não se lhe via do sofá nem mesmo as pernas a mover-se por baixo do gibão do outro.
Esgotada, portanto, a pausa que o bacharel com jeito colocara diante de sua interrogação para avultar-lhe a força e o peso, prosseguiu na sua oração:
- "Quomodo?... Por que modo, ou por que modos? Somos entrados no labirinto mais intrincado das consciências que são os modos, os traços, as artes, as invenções de negociar, de intrometer, de insinuar, de persuadir, de negar, de anular, de provar, de desviar, de encontrar, de preferir, de prevalecer; finalmente de conseguir para si, ou alcançar para outrem tudo quanto deixamos dito."
São do nosso Padre Antônio Vieira tão discretas palavras, em que muito se pode aprender para o nosso caso. Se afrontarmos com as armas a D. Sebastião, carregamos com todas as culpas, porque em suma é governador desta terra, nela posto por El-Rei, Nosso Senhor, como seu capitão-general; e é bem de ver que na pessoa dele desacatamos a majestade que o elegeu.
- Em tal caso cruzemos os braços, e entreguemos duma vez o pescoço à canga dos mascates, interrompeu André de Figueiredo.
Filipe Uchoa sorriu:
- Aqui é que se há mister todo o artifício e sutileza de engenho com que estes modos se fiam e estas negociações se tecem. Já não temos que esperar senão de nossas armas, e força é que venhamos às mãos? E note-se que não o afirmo eu, senão que apenas o concedo por suposição. Pois ainda nesse caso extremo, achemos traça de sermos nós os provocados; de sorte que antes pareça que fomos coagidos da dura necessidade de defender nossa vida e liberdade, do que levados de animosidade contra o governador. Este é o meu voto; e assim tenha eu a fortuna de o ver aceito, que não me pouparei a pô-lo logo por obra, de sorte que saiamos quanto antes de tão difícil conjuntura.
Terminada a arenga do bacharel, D Lourença que se debruçara como para melhor ouvir, mas principalmente com o fim de esconder o vulto do capitão-mor, disfarçadamente acordou-o puxando-o pela barba pois já ressonava. Desperto, o velho ergue a cabeça para dizer com voz trôpega:
- Bem falado, Filipe Uchoa. É o que temos de melhor a fazer.
Depois desta aprovação, se alguém pretendia opor-se com outras razões ao alvitre do bacharel, desistiu do propósito A última palavra acabava de ser proferida; e o conselho de família estava encerrado por aquela noite.
Ergueram-se todos da mesa já despida e espalharam-se pela casa, enquanto D. Lourença corria os reposteiros de sarja vermelha, que cerravam o sofá, transformando-o em pequena recâmera, onde costumava o capitão-mor dormir o primeiro sono.
Nessa ocasião ouviu-se grande rebuliço na casa de jantar.
COMO D. SEVERA ACHOU TÃO A PONTO O PAJEM DE QUE NECESSITAVA PARA ESTREAR-SE NA CAVALARIA ANDANTE
Quando à tarde o Ajudante Negreiros apartou-se do governador, tomando pela Rua da Moeda, houve quem lhe bispasse a manobra.
Viam-se pela ribeira, próximos à jusante da maré, jiraus cobertos de palha, onde costumavam os pescadores guardar as canoas, e também jangadas suspensas de um lado por espeques. Aí, atrás de uma dessas anteparas se metera o Nuno, com receio de que o avistasse de longe a comitiva do governador, e lhe pusesse o ajudante no encalço os lacaios e guardas a cavalo.
Sucedeu esconder-se o rapaz a jeito de ouvir as palavras que trocaram o ajudante é o governador, ao passarem rente com a palhoça onde se agachara.
Desde que desapareceu a comitiva, surdiu o mascatinho sarapatando, e lobrigou o Negreiros que apeava-se na calçada da loja. Ali naquela hora se ia decidir de sua sorte, e sabendo do empenho que punha o mercador em agradar a D. Sebastião, tinha já como cousa assentada, a remessa para Lisboa.
No primeiro navio que se fizesse de vela para aquele porto, lá ia ele encomendado a algum tio da outra banda; e tão cedo não veria a sua Marta, nem de tão longe a poderia disputar aos que se atrevessem a pretendê-la.
Logo, sem mais detença, cuidou em evitar o golpe; e o único meio que tinha era desaparecer da casa, e de modo que lhe não pudesse o pai seguir a pista e agarrá-lo.
- Não me pilham!... disse o mascatinho ao concluir a sua breve reflexão. Vamos rondando do lado do quintal, a ver se posso apanhar-me dentro de casa e arranjar a trouxa. Depois raspo-me; e passem lá muito bem.
Era precavido o rapaz, no que mostrava a despontar entre os arreganhos marciais o sangue mascate. Como podia ter necessidade de ganhar o sertão, lembrou-se que precisava da roupa, mas sobretudo de armas, sem as quais não o tomariam por homem de guerra; o que era todo o seu desejo.
Ao avizinhar-se dos fundos da casa, escondido entre o mata-pasto, deu com o Lisardo encostado à parede da tacaniça, perto da gelosia, e não lhe custou adivinhar o que ali fazia o amigo.
Enquanto afinava-se o trovista para recitar a sua décima, o esperto do Nuno penetrou na casa paterna, pelo quintal, onde só encontrou a Benvinda, que estava cochilando ao borralho, em companhia dos dois gatos da casa.
Barafustou o rapaz a correr pelo corredor, até um compartimento que ficava nos fundos da loja, e lhe servia de armazém ou arca de Noé. Aí cuidou logo de escolher o mais fornido chifarote que suspendeu à. ilharga pelo talabarte; pôs à bandoleira uma clavina; meteu no cinturão um par de pistolas francesas e uma adaga flamenga, e na cabeça uma velha cervilheira, que ali rolava de envolta com outros cacaréus.
Assim reduzido a um cabide d'armas, tratou o garoto de entrouxar duas ou três mudas de roupa, que tirou do armário das que já vinham em obra do Reino; feito o que, foi-se pondo ao fresco sem mais demora, pois no meio dos seus aprestos vinha-lhe a rajadas, lá da entrada da loja, um certo rumor de vozes, que o tinham alerta.
Desconfiava o rapaz, e não sem motivo, que esse sussurro provinha da prática do pai e do ajudante, naturalmente sentados à calçada da loja. Por maior que fosse a curiosidade de saber o que estavam os dois tramando contra sua liberdade, o medo de que o viesse encontrar o pai, armado em guerra dos pés até a cabeça, tirou-lhe. todo o gosto da escuta e lhe amolou os calcanhares.
Ao toque de ave-maria já estava o Nuno outra vez escondido no mata-pasto em frente à rótula, e a ruminar uma lembrança que lhe acudira. Era nada menos do que sair ao encontro do ajudante, na volta deste, chamá-lo a desafio, e ali mesmo meter-lhe na pele duas boas cutiladas, para ensiná-lo a não se intrometer com a vida alheia.
Quando tinha assentado levar por diante a traça, e já a trazia bem concertada, saiu-lhe o negócio burlado; pois o Negreiros com a pressa de tornar a D. Sebastião, portador de boas-novas, apenas saltou na sela fincou esporas no ginete, e lançou-o a todo o galope. Ninguém o julgaria capaz de tal façanha, achacado como era de várias queixas, que todas lhe provinham dos destemperos de boca. Que heroísmos, porém, não inspira a bajulação?
Assim frustrada sua esperança de vingar-se no ajudante, se deixou ficar o Nuno oculto no mata-pasto, à espreita do nosso poeta Lisardo, com quem contava para o plano que forjara.
Já haviam passado o Rev. João da Costa em companhia de Miguel Correia, e o Lisardo não se resolvia a apartar-se da rótula. Cansado de esperar, o Nuno que não primava pela paciência, foi-se aproximando agachado entre o mata-pasto, e de repente surdiu em face do nosso poeta.
- Defende-te, vilão! gritou o mascatinho engrossando a voz e puxando do chanfalho.
Ao ver-se atacado por uma panóplia, o Lisardo, que sofria de nervoso, ficou estatelado contra a parede, sem voz para proferir palavra; porém maior foi a surpresa quando todo aquele fero se trocou em gargalhada, e ele reconheceu sob a viseira o rosto brejeiro do Nuno.
- Sempre tens uns modos!... disse o nosso poeta arrufado.
- Com que então queria o Sr. Lisardo de Albertim que eu o deixasse muito de seu e sossegado estar aqui de requebros e segredinhos com a sonsa da senhora minha irmã, que aposto nos está escutando por detrás daquela rótula.
Ouviu-se um muxoxo entre as frestas.
- Pois engana-se, tornou o mascatinho entonando-se outra vez no seu recacho guerreiro. À espada ou lança, a pé ou encarapitado, lhe mostrarei que... que você é um poeta das dúzias.
- E você um espalha-brasas!... atalhou com impaciência uma voz maviosa que vinha da rótula.
Voltou-se o Nuno para dar-lhe o troco; mas em vez do rostinho de alfenim que ele esperava encontrar, lobrigou através da rótula entreaberta as marrafas de uma respeitável matrona, que se aproximava da janela com uma curiosidade suspeita.
Essa matrona era nada menos do que a Senhora Rosaura, mulher do mercador Miguel Viana e mãe do nosso Nuno.
Percebendo-lhe as pisadas, a menina dos olhos negros esgueirou-se da rótula o mais depressa que pôde. Vendo o que, o Lisardo teve o palpite de amolar as canelas, escamando-se a bom correr pelo campo fora.
Pensou o Nuno que era esse o mais prudente alvitre, e apesar da durindana que lhe embaraçava as pernas e da cervilheira a dançar-lhe na cachola, lá disparou pelo mata-pasto no encalço do Lisardo, de quem não lhe fazia conta perder a pista.
Momentos depois caminhavam os dois amigos pelo istmo, na direção de Olinda.
Chegados ã altura do Brum, parou o Lisardo, pensando que o Nuno desejaria separar-se dele para tornar ao Recife. O mascatinho, porém, tinha lá sua traça, e foi despejando o caminho sem dar-se por entendido.
- Olhe, não fique tarde para você recolher-se, Nuno! disse-lhe o nosso trovista.
- Não lhe dê cuidado, sô mofino!
Assim chegaram às abas de Olinda, e o Lisardo ia despedir-se do companheiro. quando este perfilando-se disse-lhe com um tom que não admitia volta.
- Fique sabendo o Sr. Lisardo de Albertim que vai deste passo levar-me à casa do Capitão-Mor João Cavalcanti.
- Do... do capitão-mor?... murmurou o poeta gago de surpresa.
- De que se espanta você?
- Pois, Nuno, o filho de um mascate do Recife...
- Que tem isso?... D. Francisco de Sousa, que é nobre e dos mais nobres, não está com os mascates?
Embatucou o Lisardo com o exemplo, mas não se deu por vencido:
- E seu pai?
- Ele que se arranje! Não; que para Lisboa não me levam nem em postas.
- Que me diz você, Nuno?
- A tramóia foi armada pelo manhoso do governador e mais o paparrotão do ajudante que o leve o demo! Mas hei de pregar-lhes um mono, que não imaginam.
- Então é ponto decidido?
- Com a breca!... Eu cá não sou homem de voltar atrás! Dito e feito!... Desembainhando o chifarote com um arreganho de ferrabrás, o Nuno cresceu para o Lisardo gritando-lhe:
- Leve-me já à casa do capitão-mor se não quer que o leve eu espetado na ponta desta espada!
Já abalado pela noticia do desterro que ameaçava o amigo, o nosso poeta rendeu-se ante aquele argumento perfurante.
Eis porque momentos antes o Lisardo atravessava a casa do sofá de um modo tão original, e surdira na casa da ceia, no meio da surpresa geral dos convivas, que o viram entrar à guisa de boneco de engonço.
Passada a primeira surpresa. as vistas se fitaram no vulto de Nuno, que atado ao formidável chanfalho e coberto pela enorme cervilheira, fazia uma figura grotesca. As risadas estrugiram pelo âmbito da sala de envolta com o tinir da louça e dos cristais.
Susteve Nuno impassível e sem pestanejar o fogo rolante daquela estrepitosa gargalhada, ainda que por seu gosto preferia afrontar uma descarga de mosquetaria.
Afinal, passado o frouxo de riso, veio a curiosidade de saber por que artes aparecera ali aquela estrambótica figura; e voltou-se a atenção para o Lisardo que, aproveitando a hilaridade, tratava de esgueirar-se pela copa, onde contava achar os remanescentes da opípara ceia.
- Oh! Lisardo! Não nos dirá onde foi desencavar este palerma?
- Querem ver que é algum fedelho dos flamengos, que ai ficou enterrado no mangue!
- Mais parece um bugio armado em guerra!
- Ora qual! É o Pança do D. Quixote do nosso Lisardo! Pois não sabiam! Enquanto assim os convivas trauteavam o nosso poeta, ele estava sobre espinhos; e não se animando a abrir a boca, encolhia-se de modo que parecia querer sumir-se dentro de si próprio.
Foi o Nuno quem, revestindo-se de sua natural petulância, pôs termo ao suplício do amigo.
- Querem saber quem eu sou; pois já lhes digo. Sou o filho do mercador Miguel Viana!
- Do mascate!...
- O mais atrevido da súcia!
- Que veio cheirar aqui, sô mariola?
- Oral Anda bisbilhotando para ir meter no bico dos labregos!
- É espião, não tem que ver!
- Pois enganam-se, acudiu Nuno decidido. Deixei o Recife e o pai; porque sou por Olinda e quero combater com a nobreza, em pró de sua causa, que é a dos legítimos senhores de Pernambuco.
Acolheram os convivas estas palavras do Nuno com um, silêncio cheio de suspeitas, apesar de serem elas proferidas em tom firme e sincero.
Não assim D. Severa, que atravessando o aposento, veio ao encontro do mascatinho:
- Bravo, moço. Como se chama você?
- Nuno! respondeu o caixeiro.
- Nuno, doravante pertence à minha casa. Faça-o meu pajem de estrado para o serviço especial da minha pessoa.
Nessa ocasião entrava na casa de jantar o Filipe Uchoa; e consultado sobre o caso, aprovou com um riso jâmbico a resolução de D. Severa.
- Não podíamos inventar melhor polé para o Miguel Viana, respondeu ele.