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GUERRA DOS MASCATES

José de Alencar

SEGUNDA PARTE

ADVERTÊNCIA


Quando a cerca de um ano veio a lume o primeiro tomo desta crônica, houve muito quem teimasse em ver personagens contemporâneos disfarçados nessas figuras do século passado.

Semelhante personificação, o autor não pode de modo algum admiti-la.

Os atores da comédia, que se chamou a Guerra dos Mascates, são antes de tudo históricos: ou porque os anais do tempo fazem deles especial menção, ou porque representam as idéias e os costumes da época.

Demais, essas figuras têm cada uma seu papel no desenvolvimento da ação que o autor se incumbiu de narrar, conforme a lição do seu alfarrábio.

Admitida a personificação, não poderia o escritor referir um fato ou circunstância histórica, nem descrever um episódio qualquer da crônica sem que tais pormenores fossem logo referidos aos inculcados sósias de seus personagens.

Ora, o autor não pretende certamente defender-se do pecado de uma ou outra alusão, que lhe corre às vezes sem querer dos bicos da pena. Mas essas demasias, não as tem senão sobre a política, que e já de si um longo e interminável epigrama.

Insinuações à vida privada, nunca as fez o autor, e espera que não cometerá jamais tão grande aleivosia apesar de ter sido ele muitas vezes a vitima de semelhantes emboscadas.

Não é daqueles que muram a vida privada. Ao contrário, pensa como Alphonse Karr, que o homem publico não tem direito a esse asilo; pois deve à opinião que ele pretende dirigir, e ao pais a quem serve de exemplo, satisfação plena de todos seus atos.

Mas e com a precisa coragem e franqueza, não com insinuações que se tem direito de atacar o procedimento repreensível de qualquer cidadão, de modo a provocar a defesa e habilitar a opinião a pronunciar-se.

Com estas idéias, bem se vê que não podia o autor caricaturar ninguém nos personagens de sua crônica, aliás obrigados a desempenhar papéis originais em uma comédia de outros tempos e de outros costumes.

Carreguem-lhe pois a culpa das malignidades políticas, ainda mesmo daquelas de que não cogitou, mas deixem-lhe o direito de mover à vontade as figuras do seu teatrinho; de casá-las a jeito, e distribuir-lhes a cada um seu papel de pai, marido, filho, noivo, ou qualquer outro da comédia social.

Com isso, que é do domínio da fantasia, nada tem que ver a maledicência.


Corte, 1 de junho de 1874.

SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO I


CENAS ROMANTICAS DA VIDA CONJUGAL SEM O ADUBO DA IMORALIDADE


Era por noite calada.

A episcopal cidade de Olinda, envolta nas trevas, jazia em profundo silêncio. Desde muito que se tinham apagado os fogos, e apenas de longe em longe, pela praia, tremulava a chama do molho de palhas que servia de farol aos pescadores.

A não ser o rolo das ondas, desdobrando-se ao longo do istmo, o sussurro do coqueiral rugido pela viração da noite, ou o regougo da coruja à caça dos morcegos, nenhum outro rumor quebrava a mudez da metrópole pernambucana.

Todavia, pela volta das nove horas, no alto da subida do Varadouro soaram passos, os quais se diriam de cavaleiro, pelo tinido das esporas batidas nas pedras soltas que lastravam o chão.

Quem era desceu rua abaixo, com o andar rápido, mas parando a trechos, tanto para verificar se porventura o espreitavam como para orientar-se no meio da escuridão.

Chegado ao princípio do muro de taipa, que fechava o quintal da casa de André de Figueiredo, o desconhecido redobrou de precaução até alcançar um ponto em que a copa frondosa do arvoredo, reclinando para a rua, tornava a escuridão ainda mais densa.

Aí, julgando-se ao abrigo do mais penetrante olhar, já apoiava a mão sobre o lombo do muro para formar o salto, quando ouviu um roçar de folhas na cerca fronteira.

Fitando pronto a vista, pareceu-lhe percebido entre a ramagem vulto humano, e sem a menor hesitação, atirando a longa capa em que se envolvia para os ombros, sacou a espada da bainha e pôs-se em guarda.

- Enfim! murmurara então resfolgando à larga.

Como, passado algum tempo, nada aparecesse de suspeito, pensou o desconhecido que ou se enganara na sua desconfiança, ou o vulto não tinha negócio com ele, a quem talvez nem houvesse pressentido; tornando ao primeiro intento galgou com agilidade o muro, e sem dificuldade achou-se do outro lado, dentro do quintal.

Com o perigo cresciam agora as precauções do cavalheiro receoso de dar rebate à gente da casa. Esgueirando-se por entre o arvoredo até o terreiro donde avistava as janelas do oitão e a porta da serventia do quintal, ali ficou oculto pelas folhas e à espreita de alguma cousa de sua muita devoção, pois assim o trazia a afrontar perigos.

Ao cabo de algum tempo dessa espreita, percebeu o desconhecido que a aba de uma janela do sobrado se entreabria e o busto de uma pessoa reclinava-se ao balcão, recolhendo logo após uma rápida pesquisa dos arredores.

Apesar do sobressalto que teve, o cavalheiro não desmentiu sua consumada prudência. Conservou-se imóvel e oculto entre a folhagem, redobrando de vigilância. Somente depois que a oscilação da janela repetiu-se por três vezes, e que na impaciência como na sutileza do movimento ele pressentiu um gesto feminino, foi que o desconhecido resolveu-se a sair da sombra, destacando o vulto no descoberto do terreiro.

Ouviu-se então o soçobro de uma respiração cortada de repente, e que mais parecia o soluço intermitente da aura nas folhas da bananeira. Cerrou-se a janela, mas um objeto caíra aos pés do cavaleiro.

Era um fino lenço de batista, perfumado e ainda tépido das mãos que o apertavam pouco antes; trazia atada a uma das pontas grossa chave de ferro, a qual o desconhecido sem mais demora buscou introduzir na porta fronteira.

Não se logrou da diligência, que a chave não servia e, afastando-se, aguardou que a janela se entreabrisse para obter a explicação de que precisava. Nova esperança frustrada, pois o vulto havia se recolhido de uma vez.

Começava o desconhecido a impacientar-se, quando lhe acudiu a lembrança. que tinha a casa mais de uma porta.

- Em alguma há de servir.

Cosendo-se à parede, foi experimentando a chave em quanta porta encontrava, até que afinal acertou. Ao ranger dos gonzos que obedeciam ao impulso,. escapou-se pela fresta um trêmulo psiu recomendando silêncio.

Adiantando o desconhecido a mão para sondar as trevas do aposento em que entrava, encontrou outra mão, porém pequena, suave, mimosa, que escapou-se arrufada e palpitante como uma rola apanhada no ninho.

- Não tendes que recear-vos de mim, senhora, pois ainda que vosso esposo pela bênção do Senhor e por vossa própria escolha, um irmão não respeitaria com maior desvelo vosso recato.

Nenhuma voz respondeu a estas palavras do cavaleiro, mas ouviu-se distintamente um profundo suspiro que parecia vir do mais recôndito d'alma.

Esta cena passava-se na noite do dia seguinte àquele em que principiou. nossa crônica e para o qual D. Leonor tinha de véspera emprazado Vital Rebelo por um bilhete escrito com o sangue de suas veias.

Dissipada a exaltação de ânimo que a impelira àquela afoiteza, a mísera. moça caindo em si, ficou espavorida com a imprudência que havia cometido.

Como poderia ela, tão guardada de sua pessoa, iludir a vigilância que a cercava, e a defesa das casas de André de Figueiredo, que mais pareciam presídio do que moradia?

Vital acudiria ao emprazamento; não a encontrando, se arrojaria para vê-la a alguma temeridade que o traísse. E ela, esposa a quem traziam viúva do querido de sua alma; ela, que todos os dias rogava a Deus a restituísse aos braços de que a tinham arrancado; ela, encerrada nas paredes de sua recâmera, ouviria talvez o grito de angústia de Vital, sucumbindo aos golpes de inimigos que, por maior infelicidade sua, ela era obrigada a acatar.

Então rezava para que o marido não viesse à entrevista; mas quando enchia-se dessa esperança e achava-se mais animada, a vinha desconsolar a idéia de que essa fria indiferença de Vital seria a prova do pouco afeto que lhe votava: e logo repelia um lenitivo que, se acalentava-lhe os sustos, excruciava-lhe o coração.

Assim nesta cruel absorção passou ela parte do dia, cogitando mil alvitres que a tirassem de tão apertado transe, mas sem ânimo de tomar uma deliberação. Por tarde seus espíritos extenuados caíram em profundo abatimento, e nessa atonia esperou com gélida impassibilidade a catástrofe que via iminente.

Estava a família como de costume reunida na sala principal, quando entrou André de Figueiredo, que dirigiu-se à irmã.

- D. Lourença, mande-me dar as chaves do trem.

Ergueu-se a dama e foi ela mesma tirar de uma arca, na próxima câmera, duas chaves atadas em uma correia, que entregou ao capitão.

- Em tempos como estes, bom é precatar-se cada um para o que pode acontecer. Ninguém sabe o que nos trará o dia de amanhã.

Estas palavras, que André de Figueiredo proferiu à saída, traspassaram o coração de Leonor. Apoderou-se dela um pavor inexplicável.

Havia ao rés-do-chão e para os fundos da casa um vasto armazém onde se guardavam trastes fora do uso, ferramentas, utensílios, mas principalmente armas e petrechos de que todo morador principal daqueles tempos tinha cuidado de prover-se, para acudir, sendo preciso, à defesa da cidade e da própria habitação.

Foi a esse repartimento, chamado casa do trem, que se dirigiu o capitão; ali demorou-se até o escurecer.

Recolhendo-se à sua recâmera, o viu Leonor que voltava. Vinha ele preocupado e distraído a tal ponto que, parecendo não reparar na presença de alguém, guardou as chaves em uma gaveta da mesa de jantar e desceu para a rua.

Sobressaltou-se Leonor e fugiu espavorida com a idéia que a assaltara. Todo o serão correu para ela entre os assaltos da luta obstinada que haviam travado em sua alma a paixão do marido e o terror da família.

Vencera afinal o amor, que depois de mil hesitações a trouxera ao encontre do esposo, por quem se estava ali morrendo de pejo e de afeto.

- Não vim aqui, senhora, em requesta de vossas finezas, como cavalheiro namorado que implora favores à sua dama. Ficai portanto descansada, que não terei palavra, nem ação, capaz de magoar vosso melindre. Se ainda uma vez busquei falar-vos, depois de tantas em que me recusastes esta mercê, foi para decidir afinal de nosso destino, e romper dum golpe, ou a fatalidade que vos arrebata a meu afeto, ou o laço que ainda prende nossas almas. No ponto a que nos trouxe a sorte adversa, ou sois tudo para mim, ou nada sereis; se não vos fala agora, neste momento, o esposo a quem jurastes pertencer e a vos deveis de corpo e alma pela vida e pela eternidade, dizei-o, senhora, dizei-o pronto, que não serei mais do que um estranho que já não vos conhece e fugirá à vossa presença, como um fantasma que volta à catacumba.

Proferidas estas palavras, Vital aguardou um instante a resposta; mas o silêncio que reinava naquela escuridão apenas foi cortado por soluços, cujo tépido bafejo aqueceu a face do cavalheiro.

Este abriu os braços e conchegou ao seio o corpo vacilante da esposa, que se rendia ao seu amor.

- Leonor! murmurou Vital. Ainda me queres? Pensei que já se tinha de todo apagado em teu coração aquela ternura que te mereci, e que tenho pago com tantas desesperanças?

- Mais que as desesperanças doem as injustiças, Senhor Vital, respondeu Leonor tragando o pranto. Que fiz eu para me acusarem de ingrata?

- Ninguém vos acusou; apenas queixei-me eu algumas vezes e a mim mesmo.

- Mas de quê?

- Ainda o perguntais, D. Leonor? Depois deste ano, passado longe um do outro na viuvez de nossas almas, deste ano que devia ser a primavera florida de nosso amor, e que um mau fado transformou em torva borrasca?

- Que podia eu contra a sorte?

- Tudo. Não tínheis um esposo cujo dever era proteger-vos, e cuja maior ventura seria obedecer-vos?

- E minha mãe? replicou Leonor com desalento.

Vital calou-se.

- Bem sabeis que a maldição cairia sobre mim, se eu me revoltasse contra a tirania que nos separou; e por nenhum preço eu, que vos prezo e respeito acima de todos os homens, Senhor Vital Rebelo, vos daria uma esposa maldita e um afeto mal-agourado. Agora mesmo, quem sabe que perigos nos ameaçam e que desgraças não custará esta minha imprudência?

- Não pode ser maldita a esposa que o ministro do Senhor uniu em face do altar pelo próprio voto e com o consentimento dos seus; nem será mal-agourado este afeto porque desarrazoada obstinação de parentes se opõe à sua felicidade.

- Consentimento dos seus, dizeis; mas eles afirmam que esse consentimento o deram iludidos, e logo o retiraram, antes que deixasse eu a casa paterna para pertencer-vos, pelo que...

- Prossegui, D. Leonor! acudiu Vital, percebendo a hesitação da moça.

- Não vos queria afligir; porém melhor é saberdes logo, pois não tenho esperança de falar-vos outra vez.

- Assim é este o momento de nossa eterna despedida, senhora? tornou Rebelo com um termo grave e triste.

- Ah! se soubésseis!...

- Sei tudo.

- Sabeis que mandaram a Roma para dissolver o nosso desposório e que esperam receber o breve pela primeira embarcação do reino?

- Sabia-o, sim, D. Leonor, respondeu o cavalheiro com a mesma grave placidez. O que não sabia, e preciso ouvir de vossa boca, é se destes a isso vosso consentimento.

- Eu?... balbuciou a dama.

- Falai sem receio. De mim não tendes que temer maldições, nem ameaças. Vosso querer é a minha lei; eu, que zombo das fanfarronadas de vossos parentes e da bula que mandaram comprar a Roma, obedecerei submisso a uma palavra proferida por vós, contanto que essa palavra seja a voz d'alma; porque, se me eu curvo ante vosso desejo, não terei, ficai certa, a mesma docilidade com as vontades alheias que abusam de sua posição para insinuarem-se em vosso ânimo tímido e ingênuo. Pois que é esta a última vez que nos vemos, abri-me vosso coração. Tivestes parte nesse trama da dissolução de nosso casamento?

- Eu assinei um papel, que me apresentaram, mas não o li.

- E não vos disseram o que ele continha, nem o suspeitastes vós?

- Minha mãe tinha-me prevenido.

- Portanto não ignoráveis de que se tratava, nem que influência devia ter em vossa existência aquela assinatura. Quando escrevestes ali vosso nome, renegastes o esposo que havíeis escolhido.

- Obedeci à minha mãe! soluçou Leonor com a voz dilacerada.

- Vossa mãe andou bem-avisada em vo-lo ordenar, D. Leonor.

- Também vós a aprovais?

- Se não me tendes o menor afeto, por que seríeis minha mulher, e ficaríeis com a vossa existência encadeada a um estranho, quando a podeis partilhar com quem melhor vos mereça?

- Não me estejais apunhalando com estas palavras de desprezo; melhor é acabar-me de uma vez, e a esta triste sina. Não posso pertencer-vos como esposa, que minha mãe se interpõe entre nós; mas pertenço-vos como quem se vos deu e não quer e não pode ser jamais de outro; aqui me tendes; ponde um termo a este resto de existência que ainda me sobra de tamanho sofrer.

Vital permaneceu calmo, apesar de abalado profundamente no íntimo:

- Dizeis que vos destes a mim, senhora; e eu vejo que não vos podeis dar a ninguém, pois para isso era preciso que vos pertencêsseis; o que não acontece. Nada mais sois do que o corpo que anima a alma de vossa mãe, ou antes a alma que lhe empresta vosso tio, André de Figueiredo, que ela não a tem e menos de mãe.

- Senhor Vital! disse Leonor ressentida.

- Não quereis e não podeis ser jamais de outro...

- Eu vos juro!

- Também me jurastes a mim a fé de esposa e bastou o sopro de vossa mãe para apagar esse juramento. Ordene-vos ela amanhã que ameis a outro...

- Nunca!

- Haveis de obedecer-lhe, D. Leonor, disse Vital com amarga ironia, senão ela pode amaldiçoar-vos!.

- Não estou eu suplicando-vos que me mateis! exclamou a moça em um grito de desespero atirando-se de joelhos aos pés do cavalheiro.

Ergueu-a Vital Rebelo nos braços, e pousou-lhe um beijo casto na fronte:

- Não, alma de minha vida, não morrerás; que eu te salvarei contra todos e contra ti mesma, que és o meu bem supremo; mas tens sido o meu e teu algoz. Eu te salvarei; e se Deus me negar essa dita, restar-nos-á então, Leonor minha, a de morrermos juntos.

Um regougo de riso sarcástico reboou no meio da escuridão, acompanhado por uma voz zombeteira.

- Há de morrer, esteja descansado, mas sem companhia.

Leonor desmaiara nos braços de Vital Rebelo.


CAPÍTULO II


UM CAPÍTULO DE HISTÓRIA QUE PARECE TER SIDO ESCRITO PARA O ROMANCE


Por tal forma se travam os negócios da governança com os amores de Vital Rebelo, que para melhor compreensão desta nossa crônica, vamos dar uma resenha do estado das cousas na Capitania de Pernambuco pelo correr do ano de 1710.

Já pela rama se falou da rivalidade que existia entre a cidade de Olinda e a recente povoação do Recife, por causa do incremento que esse bairro comercial importante ainda no domínio dos holandeses, fora tomando com o volver dos tempos.

Desde a época da restauração que os mercadores, atraídos pela vantagem de um ancoradouro cômodo e seguro, se estabeleceram de preferência nessa povoação e ocuparam os armazéns e tercenas construídos pelos flamengos.

Os senhores de engenho que eram os principais da capitania e aqueles que formavam a nobreza pernambucana, foram obrigados a suprirem-se do necessário para o custeio de suas fábricas nas lojas e tendilhões do Recife.

Dava-se então o que ainda hoje acontece com pequena diferença. Onerado o agricultor com uma dívida avultada, que não podia pagar, tinha de sujeitar-se à usura do credor ou de entregar-lhe a safra a preço e condições lesivas. Assim a arroba de açúcar, o mercador a pagava no Recife por 400 rs. para vendê-la no reino por l$400.

Mais de século e meio é decorrido, e ainda o tacanho espírito que sob várias encarnações tem governado este país, não descobriu um meio de proteger a lavoura contra o monopólio mercantil; antes parece que de todo a desamparou entregando-a à sanguessuga do Banco do Brasil que lhe exaure a seiva em proveito de certa oligarquia financeira.

Uma circunstância muito concorria para agravar a posição da nobreza pernambucana. Não permitindo as idéias do tempo que os fidalgos se dessem à mercancia por ser esse um ofício plebeu, resultava daí que os seus fornecedores eram gente inferior e animada do ciúme que em todos os tempos, mas principalmente naquela época, dividia as classes.

O que porém mais fomentou a rivalidade entre os povos de Recife e Olinda foi o espírito de bairrismo.

Os moradores da capitania descendiam na máxima parte de portugueses, ainda que já entrava aí grande mescla de sangue flamengo e outro de Europa, sem falar do indígena e africano. Tinham, porém, nascido ali, na terra americana, e consideravam-se herdeiros dessa pátria que seus maiores haviam reivindicado do holandês pelo heroísmo e intrepidez de suas armas.

Por isso chamavam-se eles pernambucanos, e àqueles que vinham do reino se estabelecer na colônia davam o nome de forasteiros, negando-lhes o foro de vizinhos e portanto o direito de tomar parte no governo da terra.

Com poucas exceções, eram os mercadores do Recife desses portugueses europeus, que deixavam a sua aldeia para tentarem a fortuna no novo mundo.

Já naqueles tempos, como nos de hoje, tinha a colônia portuguesa duas virtudes, a que deve a sua prosperidade, e são: a perseverança e a união, dotes de raça, que todavia por uma ignota razão desmerecem no solo brasileiro e não se transmitem à prole aqui nascida.

Chegava um desses garotos sem outro fato mais do que a trouxa amarrada em lenço de Lamego; com a camisa de bertangil, preto de sujo, e calções de lona besuntada de alcatrão. A força de trabalho conseguiam uma dúzia de patacas, com que se proviam de algumas réstias de alho e cebola, além de outras drogas, e saíam a mercar pelas ruas do povoado e engenhos do interior. Nesse giro mesquinho ajudavam-nos os patrícios, fiando-lhes fazendas e drogas para estenderem o seu tráfego, e assim arvorados em mascates aqueles labregos, que no reino nem para moços de servir prestavam, de repente se viam senhores de grosso cabedal.

Deste modo, com pouca discordância de termos, se exprime um malévolo cronista pernambucano no intuito de rebaixar os mercadores do Recife, quando ao invés lhes tece o maior encômio, pondo em relevo o caráter laborioso e paciente desses homens, filhos de seus trabalhos e obreiros da própria fortuna.

De dia em dia, pois, ia crescendo o ciúme entre os dois povoados, na medida em que o plebeu Recife medrava com o impulso de seu comércio florescente, e a aristocrática Olinda decaía pelo desbarato dos ricos patrimônios outrora acumulados pelas famílias pernambucanas.

O primeiro choque dessa luta de supremacia política datava do ano de 1685. Desde sua fundação padecera Olinda da falta de boa água potável, reduzida a péssimas e raras cacimbas, pois o Beberibe, que lhe banha as fraldas e podia prove-la em abundância, era então alagado até muito acima pela enchente da maré.

Desvelados os moradores em remediar esse achaque, avisaram meios de trazer água de longe. Primeiro abriram um valado de légua para encanar uma levada do Paratibe; mas não surtiu bom efeito, porque era o terreno de muitas areias que frustravam o trabalho, sumindo a água.

Outra vez intentaram obra semelhante no Beberibe, tomando-lhe a veia acima da maré e não tiveram melhor resultado, porque as enlameavam os gados soltos na várzea. Quando estavam empenhados em aperfeiçoar a obra, substituindo a lavada por um aqueduto de pedra e cal; sucedeu a invasão holandesa.

Depois da restauração, e logo que se restabeleceram os moradores dos maiores estragos de suas fazendas, curou a Câmara de Olinda de prover aquela necessidade de boa água, mas por um novo arbítrio que o engenho, ensinado das muitas lições da experiência, veio a sugerir.

Em 1685 com boa diligência se levou a efeito o plano que consistia em tapar o rio Beberibe com um reparo de pedra no ponto onde ele costumava secar na baixa da maré, e por isso chamado Varadouro.

Com esse dique, em forma de ponte ou passadiço, impedia-se a água salgada de subir além, enquanto que a represa do Beberibe formou um vistoso lago que despejava as sobras por dezoito canos, fartando a cidade de água doce, como da grande cópia de peixe que ali se criava.

Desta obra se aproveitaram também os do Recife, que mandavam em canoas encher as vasilhas nas bicas do Varadouro, especialmente para as aguadas dos navios; pois suas cacimbas, como as de Santo Antônio, eram salobras e cheias de limo.

Não obstante foi a ponte, na frase do cronista, uma figa para os mascates, os quais não podendo sofrer que Olinda se lograsse de tal vantagem sobre o Recife, buscaram traça para a desforra, que em má hora lhes trouxe a fortuna adversa.

Aconteceu, seis meses depois, que abrindo-se uns barris chegados de São Tomé dias antes, estivesse a carne que traziam corrompida a ponto de matar logo ali de pronto com o ramo da peste o tanoeiro e mais quatro que o ajudavam, desenvolvendo-se em seguida uma devastadora epidemia.

Entrou o povo do Recife a clamar que todo o mal proviera da tapagem do Beberibe, pois estagnadas as águas onde cresciam tantas ervas, era de prever que se envenenassem aquelas com a podridão destas, infeccionando os ares de toda aquela redondeza.

Sem mais demora levaram os mercadores sua queixa a El-Rei, que mandou ouvir sobre o caso os médicos de sua real câmara. Parece que naquele tempo a higiene pública estava tão adiantada em Lisboa como no Rio de Janeiro, c que os físicos-mores do Senhor D. Pedro II de lá não tinham que invejar aos do Senhor D. Pedro II de cá.

Reuniu-se em junta a mestrança e conveio que efetivamente a peste provinha da represa do rio. Houve quem notasse a coincidência de terem aparecido os primeiros casos da moléstia na ocasião de abrirem-se os barris de carne, assim como a circunstância de não se haver manifestado a epidemia em Olinda, que tinha o Varadouro à beira.

Não toscanejaram os preclaros rabichos, e decidiram verbis magistri que era urgente romper-se o dique e deixar que o rio despejasse livremente como dantes a correnteza de suas águas, com o que cessaria o contágio. E assim o mandou El-Rei em carta à Câmara.

Imagine-se como receberiam os moradores de Olinda essa ordem estulta, que vinha destruir o fruto de tamanhos esforços e economias; e quanto podiam o respeito e obediência à régia autoridade, pois sopitaram a revolta dos brios e dos direitos oprimidos desses povos leais.

Ficou, porém, no coração pernambucano um entranhado ressentimento, e crescendo todos os dias o desprezo com que os nobres tratavam a gente do Recife, passaram a designá-la pelo epíteto de mascates.

Esse termo, derivado do nome de um reino da Índia cujos naturais eram dados ao comércio, significava em princípio entre os portugueses de Goa o mesmo que mercador ambulante que percorria várias terras à maneira do Oriente.

Com o andar dos tempos veio a servir unicamente para exprimir o mister baixo e desprezível de bufarinheiro ou regatão que apregoa pelas ruas. Tão afrontoso era dar-se tal nome a um mercador desse tempo, como seria hoje em dia chamar em estilo clássico de traficante a um homem de negócio.

Retaliaram os do Recife com a alcunha de pés-rapados que puseram aos naturais, não só pela circunstância de andarem eles descalços e à ligeira, com o que se desembaraçavam no manejo das armas e na celeridade da marcha entre o mato fechado, como por alusão à estreiteza de muitos fidalgos caídos em completa penúria.

Soberbos os mercadores com a primeira vitória na questão do Varadouro, puseram a mira em cousa de maior monta, como era o foral de vila para o Recite, o qual uma vez independente de Olinda e com governo próprio, não tardaria em derrotar a velha cidade que lhe estava sugando a seiva.

Razoaram os advogados, pois já naquele tempo os havia políticos e administrativos, como se vê da crônica desta guerra que talvez nunca rompesse, se eles não a tivessem por forma enredado, que não houve mais jeito de a desatar.

Foram procuradores a Lisboa com boas propinas e o preciso para azeitar as molas da máquina régia, seguindo no mesmo navio uma representação em que o governador D. Fernando de Lencastro expunha a El-Rei a conveniência de erigir-se o Recife em vila.

Desta vez, porém, não lograram os mercadores a diligência. Ou porque D. Pedro II de Portugal também adotasse a máxima política - uma no cravo e outra na ferradura; ou porque ainda não se tinha de todo apagado na corte lusitana a memória do heroísmo pernambucano na restauração da capitania, resolveu Sua Majestade pela carta régia de 28 de janeiro de 1700 que de maneira alguma se devia por em prática esse arbítrio de separar o Recife da cidade de Olinda, recomendando que para conservação dela, ai fizessem assistência o governador e ministros como em repetidas ordens havia determinado.

Todavia não esmoreceram os mercadores; desenganados de obter por enquanto a realização do primeiro intento, cuidaram de se insinuar na governança da terra, esperando mais tarde com a popularidade de suas doblas e patacões, apossarem-se dos cargos principais da vereança.

Hoje em dia usa-se traficar à boca do cofre com os títulos e as comendas, naqueles tempos menos adiantados não se faziam as cousas com a simplicidade moderna. Os mercadores que juntavam grosso cabedal compravam os serviços de algum fidalgo rafado de quem se justificavam parentes com testemunhas quejandas às que ora servem para fazer moço fidalgo de quatro costados a qualquer beldroegas. Com essa papelada requeriam para Lisboa um hábito de Cristo em que se enfunavam tanto como os excelentíssimos de agora.

Assim besuntados dessa nobreza postiça, julgavam-se os mais ricos dos mascates idôneos para os cargos de oficiais da Câmara. Mas saíram-lhe os pernambucanos com embargos, pela razão de não serem naturais aos quais somente competia o governo das terras, não podendo nela ingerirem-se forasteiros que vinham de fora buscar fortuna.

Durou este pleito até l703 em que mandou El-Rei admitir aos pelouros todos os habitantes da cidade, sem diferença de naturais e vindiços, uma vez que estivessem nas condições da Ord. do liv. 1º, tit. 67, e Leis de 12 de novembro de 1611 e 6 de maio de 1649.

Triunfantes com a decisão régia, os mercadores empenharam quanto podiam na primeira eleição e conseguiram alguns oficiais e almotacés. A conseqüência não se fez esperar: armado da vara branca, o Sr. Simão Ribas foi taxando por preço excessivo tudo que vendiam os taberneiros, seus patrícios; e as frutas e víveres que traziam os matutos, pô-los a real.

Foi geral o clamor em Olinda. Reunido o Senado, representou sem mais tardança a El-Rei mostrando o perigo de se admitirem na governança os forasteiros.

Por essa ocasião lembraram os pernambucanos a El-Rei que ainda estavam pagando os chapins da Senhora Infanta D. Catarina, e portanto se devia ter alguma contemplação com tão leais vassalos, não os privando dos poucos meios de que tiravam para se quitarem dessa finta, com sacrifício de sua subsistência.

Essa história dos chapins merece um comento. Costumavam os reis de Portugal, quando lhes nascia filho ou casavam filha, lançarem um tributo sobre os povos de certas cidades ou vilas a pretexto de compor-lhes o enxoval.

Casando-se a Infanta D. Catarina em 1661 com Carlos II da Inglaterra coube às possessões do ultramar fornecer à noiva os chapins, o que ainda estavam fazendo os pernambucanos quarenta e dois anos depois.

Dignos filhos daqueles pais somos nós brasileiros que nascemos, uns para trapaceiros e outros para cangueiros. Ainda hoje o nosso bom e paternal governo finta-nos com os impostos da Guerra do Paraguai; e já nos ameaçam com outra guerrinha de que ficou pejada aquela.

Acudiu D. Pedro II a seus vassalos pernambucanos, declarando que não podiam servir cargos da vereança os mercadores, visto ser esse um ofício peão, na conformidade das leis do reino; depois, entrando a governar como regente na moléstia de seu pai a Infanta D. Catarina, Rainha de Grã-Bretanha, a tal senhora dos chapins, aproveitou a ocasião para agradecer a condescendência dos pernambucanos.

Pela provisão de 8 de.maio de 1705 declarou que por mercadores se havia de entender unicamente os que assistissem de loja aberta, vendendo, medindo e pesando ao povo.

Sendo em número limitado os mercadores de grosso cabedal que já se não ocupavam com o meneio de seus negócios, mercando no balcão ou trapiche, ficaram os de Olinda tão superiores ainda, que já não podiam temer-se dos contendores na eleição.

Quanto aos mascates, essa última derrota não fez senão aferrá-los ainda mais à primeira idéia da separação,. na qual desde ai trabalharam sem descanso, dispondo na capitania, como na metrópole, os elementos para o favorável despacho de sua pretensão.

Foi nestas circunstâncias que a 9 de junho de 1707 tomara conta do governo da capitania Sebastião de Castro Caldas.

Como de costume, os nobres de Olinda e os mercadores do Recife porfiaram em obsequiar o novo governador à sua chegada, com a mira de ganhá-lo a seu partido. Durou mais de ano essa cortesia hospitaleira, pelo jeito com que soube o fidalgo trazer ambas as parcialidades embaladas em esperanças.

A saliência do caráter político de D. Sebastião de Castro Caldas era uma suscetibilidade de proeminência. Elevado ao alto posto de capitão-general de Pernambuco, sob uma aparência de filosofia e abnegação, ele não tolerava em torno de sua pessoa vultos que pudessem disputar-lhe uma parcela mínima do respeito e até mesmo do embaimento público.

Qualquer superioridade fazia-lhe sombra, e sua preocupação incessante era abatê-la, não derrocando-a, pois era avesso ao estrondo e a violência, mas aluindo-a aos poucos. Essa obra subterrânea, seu espírito a prosseguia com uma tenacidade fria e inflexível, apesar da indecisão e maleabilidade de que pareciam envoltos os seus atos.

Se algum homem granjeava por seu merecimento a estima geral, cuidava logo D. Sebastião de o chamar a si, não só para que aos olhos da gente essa elevação parecesse mero efeito de uma liberalidade que ele podia retirar quando lhe aprouvesse, como para respirar o puro incenso das almas superiores. Além de que assim ficavam-lhe essas papoilas a jeito de ceifar.

Desde os primeiros tempos que através das mostras de respeito e termos corteses sentiu o governador a têmpera do caráter altivo e independente dos pernambucanos, os quais prezando-se de súditos leais, tinham o nobre e legítimo orgulho de haverem pelo esforço de seu braço restituído à coroa portuguesa esse importante estado ultramarino.

Brios e escrúpulos eram asperezas que arranhavam a cútis moral de Sebastião de Castro. Ele não se acomodava senão com as almas flácidas e dúcteis, que tomam todas as feições e prestam-se à guisa de pelica para uma luva como para um chinelo. Destas gostava de apossar-se, a ponto de torná-las aderências da sua.

De tal quilate, não faltavam exemplares entre os mascates, pois o balcão era o berço onde se criavam, como o dinheiro o leite de que se amamentavam. Por isso, continuando a favonear a nobreza, o novo governador prelibava o suave prazer de fazer do Recife um espinho para cravá-lo no orgulho de Olinda.

Em segredo representou a El-Rei mostrando a urgência da separação do Recife; e tão avisadas foram suas razões que, finalmente, por carta régia de 19 de novembro de 1709 foi criada a vila.

Digamos em abono da verdade que foi essa uma medida de toda justiça. O Recife, a primeira praça de guerra do Estado do Brasil, como se pode ver do inventário feito em 1654, ao tempo da sua evacuação e entrega pelos holandeses; o ponto comercial mais importante ao norte do Cabo de Santo Agostinho, com uma população de cerca de oito mil almas, e as melhorias que lhe tinham ficado do domínio flamengo quando era corte do Conde de Nassau; o Recife não devia com a restauração ter perdido o seu título de cidade.

Mas apesar de todas estas razões políticas, Sebastião de Castro descobriria alguma conveniência para adiar a criação da vila, se não estivesse nisso empenhado o seu amor-próprio.


CAPÍTULO III


ONDE SE LOBRIGA O VULTO DO BISBILHOTEIRO QUE ESCREVEU O ALFARRABIO ENCONTRADO PELO SACRISTÃO


A criação da vila do Recife, tão porfiada pelos mercadores, devia ser o desfecho dessa contenda em que os dois povos rivais andavam empenhados, havia mais de dez anos.

Com outro governador assim teria acontecido; mas com Sebastião de Castro não passou de uma fase nova da luta, que tornou-se mais ardente pelo despeito de um partido e a arrogância de outro.

A indignação dos moradores de Olinda, quando entre eles estourou a nova como uma bomba fulminante, não guardou termo e prorrompeu em ameaças e assuadas. O que mais revoltava aos pernambucanos era a falsa fé com que o governador, adormecendo-os na confiança inspirada por palavras insinuantes, havia sorrateiramente obtido do conselho ultramarino a separação do Recife.

Em verdade era completa a segurança dos pernambucanos. Conversando o velho Capitão-Mor João Cavalcanti uma tarde em palácio com o governador, e trazendo a prática para o ponto que mais lhe interessava, teve em resposta estas formais palavras: -"Sobre este particular pode ficar descansado, senhor capitão-mor. O Recife, pelo que ouvi em Lisboa, tão cedo não será vila."

Estas palavras, referiu-as textualmente João Cavalcanti aquela mesma noite, no serão costumado, e ninguém houve que se não tranqüilizasse com o penhor dado por Sebastião de Castro ao venerando ancião. Não conheciam ainda a polpa do homem que os governava.

No meio do geral espanto, causado pela noticia, interrogavam-se todos acerca daquela promessa; e os principais acercavam-se do capitão-mor para ouvir dele os pormenores do caso e a repetição fiel da asseveração do governador.

Não ocorria ao velho fidalgo que pudesse alguém duvidar de sua palavra; mas incomodava-o a só idéia de haverem faltado à fé por ele assegurada. Além de que essa fé também lhe fora dada a ele por quem se prezava de cavalheiro e como cavalheiro lhe devia contas severas.

Recobrando um assomo do antigo vigor, montou o capitão-mor a cavalo e sem mais acompanhamento do que um pajem, deitou-se a galope para o palácio do Recife onde estava o governador inquieto com o alvoroto de Olinda.

Nessas ocasiões em que se embrulhava a política, se não mente a crônica, o fígado de Sebastião de Castro, como o de César, sofria a repercussão do abalo moral; mas a bílis, prontamente corrigida, nunca perturbava a fleuma desse organismo.

Já àquela hora andava o Ajudante Negreiros num corrupio, despejando ordens pelos fortes e quartéis, enquanto o governador em conferência com o Secretário Barbosa de Lima combinava nos panos quentes e cataplasmas com que se devia acudir ao desmancho.

Pressuroso saiu Sebastião de Castro ao encontro do capitão-mor a quem recebeu com desusada afabilidade, mas com isso não desarmou a carranca do velho, que foi direito e rijo ao ponto.

Não podia o governador ocultar a parte que tivera na criação da vila, pois a carta régia se referia positivamente à sua informação; mas ainda quando houvessem omitido essa circunstância, não a negaria ele. Em sua opinião a mentira é um expediente grosseiro, que somente empregam os espíritos frouxos e indolentes.

Ouvida a queixa, se não amarga exprobração do velho Cavalcanti, respondeu-lhe o governador sem alterar-se:

- O que disse ao senhor capitão-mor e mantenho, foi ter ouvido em Lisboa a quem o devia saber, a asseveração de que tão cedo não seria vila o Recife.

- Mas não se dirá...

Impetuoso como sempre interrompera João Cavalcanti ao fidalgo para retrucar-lhe sobre a contradição de seu procedimento. Atalhou-o o governador:

- Quanto a haver eu representado em favor da criação da vila, compreende o senhor capitão-mor, como cavalheiro que é e leal súdito, que eu faltaria ao meu dever de governador desta capitania, não informando a El-Rei das necessidades da terra, para que Sua Majestade as proveja de remédio. Nem podia deter-me neste particular o muito que me merece a nobreza, pois contava infalível o indeferimento.

Os Césares modernos que se deixam vencer pelos ministros quando lhes convém enfeitar-se de suas lentejoulas democráticas, não responderiam com maior dignidade e abnegação a algum favorito sacrificado: "Sou seu amigo, mas lembre-se que também sou rei constitucional." O que em gíria cortesã quer dizer: "Se agora para guardar as aparências fui obrigado a despedi-lo como um importuno, com jeito posso fazê-lo sota-rei mais tarde."

- O caso é que os mascates lograram afinal o que em dez anos não puderam.

Estas palavras soltou-as o capitão-mor com um tom morno, pois dissipado o primeiro assomo, já se lhe relaxava a fibra.

Sorriu-se o governador:

- Lograriam...? disse ele com uma entonação que não se podia afirmar se era de interrogação, se de reticência.

- Pois Vossa Excelência ainda o põe em dúvida? exclamou o capitão-mor.

- Por linhas tortas escreve-se direito, em havendo arte.

- Confesso que não atino.

- Mandou-me El-Rei criar vila no Recife; mas a vila não está criada, e pode bem ser que se não chegue a criar; entretanto que, embalados nesta esperança, os mercadores se aquietarão.

- Lá diz o ditado - "que entre a boca e a mão vai o bocado ao chão." E assim acontecerá se tivermos por nós a Vossa Excelência que em respeito a seus brasões, como grande fidalgo, se deve à nossa causa que é a da nobreza contra a ralé.

- Neste posto de governador, devo-me a El-Rei primeiro, e aos povos depois, sem distinção de nobreza e peonagem. Mas não careceis de escudo, com os títulos que tendes. Do que precisais é de moderação e tolerância para atrair à nobreza pessoas abastadas e preponderantes.

- Não se costuma entre nós, senhor governador, repelir os que vêm como amigos, ainda quando não trazem cabedais, que mercê de Deus não cobiçamos.

- Será então falso quanto me referiram?

- Ignoro o que fosse.

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