Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Guerra Dos Mascates José De Alencar - Página 7  Voltar

GUERRA DOS MASCATES

José de Alencar

- Que o alferes Vital Rebelo requesta uma sobrinha vossa, a qual lhe corresponde ao afeto; mas vós, ou os vossos, a tendes por modo defesa, que ao valente namorado custa-lhe um assalto d'armas cada vez que se avista de longe com a formosa dama?

- Há razões particulares, respondeu João Cavalcanti reservado.

- Estas razões, senhor capitão-mor, são desarrazoadas. Se o pai de Vital Rebelo ficou senhor do engenho e mais haveres do finado Luís Barbalho, marido de vossa sobrinha, mais pela prodigalidade deste do que pela usura daquele, que melhor meio de reparar esse revés da fortuna do que devolver por rima acertada aliança, ao casal donde saíram os bens dissipados?

Calou-se o capitão-mor.

- Que dizeis a isto? insistiu o governador.

- Digo que pode bem ser esteja a razão da parte de Vossa Excelência.

- Neste caso, por que não ma dá o senhor capitão-mor fazendo o que lhe aconselho?

- É do agrado do senhor governador o casamento?

- Penso, respondeu o governador elevando a voz como para acentuar melhor o seu alvitre, que será de grande proveito ao partido e à família a aliança de sua sobrinha D. Leonor Barbalho com Vital Rebelo, pois é este, além de cavalheiro de muitas prendas, homem de dotes superiores.

Desde algum tempo, que um dos toma-larguras do palácio andava rondando sôfrego de bispar alguma cousa da prática. Não escapou-lhe uma só das últimas palavras do governador, que alteara a voz a talho de ser escutado.

Nessa mesma tarde Vital Rebelo sabia do que a seu respeito dissera o governador.

Foi extrema a surpresa do mancebo.

Apesar de filho de mercador e partidário do Recife, não era ele dos que estavam nas boas graças de Sebastião de Castro; bem ao contrario, tinha impulsos de dignidade e altivez que deviam beliscar o orgulho do fidalgo.

Assim não lhe dava excelência, tratamento que não competia aos governadores, mas que eles recebiam de todos com prazer em vez da chata senhoria, havendo-os que o impunham de preceito, bem como outras cortesias a que não podiam pretender, pois eram prerrogativas da majestade.

Guardando ao governador a reverência que julgava devida, o alferes cortejava-o com o chapéu quando o encontrava, mas não ficava de cabeça ao tempo, como usava a gente principal, que não se cobria nem voltava as costas estando ele presente e até o perder de vista.

Também não era Vital assíduo em palácio onde compareciam habitualmente todos os que tinham oficio público ou posto de milícia e ordenanças. Alguma vez que lá ia de longe em longe, levava<) mera urbanidade e não lisonja.

Passava Sebastião de Castro por filósofo e desabusado acerca dessas maneiras palacianas. do que muito se lastimavam os oficiais de sala, então como agora mais realistas do que o rei. Todavia nunca se lembrou o fidalgo de acabar com tais práticas, no que bem mostrava não lhe serem desagradáveis e menos incômodas.

Mas por cima dessas esquisitices veniais, tinha Vital Rebelo pecado mortal. Uma ou outra vez em discurso com o próprio Sebastião de Castro, e muitas nas práticas dos mercadores, chegara a dizer que os governadores abusavam do, seu regimento, já ingerindo-se nas cousas de justiça, já provendo postos que não cabiam em sua alçada.

E não andava ele mal informado, pois ao próprio Sebastião de Castro mandou El-Rei estranhar asperrissimamente por se intrometer nos negócios de justiça, e também por exigir que a Câmara de Olinda lhe desse o tratamento de Senhor, a igual da majestade. Prova isto que o rei-povo é menos que o rei-só zeloso de suas prerrogativas, e mais bonachão com seus governadores e ministros.

Com tais antecedentes não havia reparar na surpresa de Rebelo ao saber do conceito em que o tinha Sebastião de Castro e do empenho que tomava pela realização do mais ardente voto de sua alma.

- Fui injusto! É homem de ânimo generoso, e um nobre coração! disse o mancebo penhorado da fineza.

Havia então no Recife um letrado que vivia dos provarás, porém mais da rigorosa economia, a que se acostumara. Chamava-se Carlos de Enéia e era homem de meia-idade, metido consigo, que o mais do tempo levava a rabiscar papel.

Há suspeitas de que seja o incógnito autor da crônica manuscrita donde extraíram-se estas memórias, e na qual porventura se refugiava o advogado do nojo pelas misérias públicas que o rodeavam.

Fora Enéia algum tempo secretário de Sebastião de Castro, quando este governara o Rio de Janeiro, bem que não se demorara no cargo, pois ele, como de D. João de Castro disse Jacinto Freire, "podiam sofrê-lo como vassalo, mas não como criado".

Do pouco tempo de serviço lhe ficara larga experiência do natural de Sebastião de Castro, de quem algumas vezes costumava dizer: "que era varão insigne, porém no posto a que o subira a fortuna, andava desencontrado, desgovernando tudo pela ânsia de muito governar".

Ligava Rebelo ao letrado uma afeição que nascera da conformidade no temperamento de suas almas. Estando à noite com o amigo, referiu-lhe o alferes o ocorrido, mostrando-se rendido à galhardia de Sebastião de Castro.

Sorriu-se Enéia, citando um verso de Sírus:

- Nisi qui sit facere, insidias nescit metuere.

- Que queres dizer com isto? tornou Vital.

- Que vês a imagem alheia no espelho de tua alma; mas eu, que a vejo à luz da experiência, descubro sombras que te escapam.

- E quais são elas, não me dirás?

- O elogio é um meio muito usado, mas sempre novo, de render a vaidade; e neste caso tem outra serventia, qual é convencer-te da gentileza de quem os faz. Se até agora nutrias uma prevenção contra Sebastião de Castro, de hoje avante vai ele tentar-te pela mais perigosa das seduções, que é a da virtude. Acatando nele, já revestido das dignidades do governo, um modelo de honradez e símbolo de justiça, que não exigirá de tua veneração que tenhas força para recusar? Serão em começo cousas de pouca monta que não assustarão teus escrúpulos; mas esse caminho é assim talhado, que em tropeçando nele, já ninguém se pode erguer, e para subir não há outro jeito senão ir de rastos ou às gatinhas.

- Estou à prova! disse Vital com sobranceria.

- Ainda não; por ora pertences ao amor, que é capaz de todos os raptos e entusiasmos como de todas as loucuras, que faz herói ao cobarde e mártir ao egoísta. É na idade da ambição que se prova a têmpera aos homens.

- E qual é essa idade? Não dirás que seja a tua, pois nela te condenas ao esquecimento.

- Não se trata de mim, que já não pertenço ao mundo, nem cuido senão de mirrar a múmia deste espírito para deixá-la à posteridade. Não que eu creia nisso que se chama pomposamente a justiça da história; mas creio no sarcasmo retrospectivo do futuro; creio no desprezo póstumo pelas torpezas que já não aproveitam, e nessa gargalhada eterna que desde o princípio do mundo atravessa as idades fustigando como um látego todas as grandezas ridículas e grotescas.

Caindo em si, o advogado reprimiu esse rasgo, como homem que já não permitia à sua palavra austera as flores da eloqüência:

- E eu a falar de mim, quando é de ti e do governador que me devo ocupar! Quer-te ele casado...

- Também entra nisso um plano? perguntou Rebelo gracejando.

- E o mais perigoso. Moço, rico, benquisto, brioso, ornado de prendas tão luzidas que o próprio Sebastião de Castro não as pode esconder, és um manjar de rei. Tua altivez já passa a escândalo e faz sombra em palácio. Neste momento não tem o governador com que fascine teu coração de namorado. Suas insígnias de capitão-general não valem para ti o requebro d'olhos e o sorriso de tua dama. Mas casado e com uma fidalga de Olinda, tu, mercador e filho de mercador, podes responder por tua isenção?

- Juro-te que sim; e se me conhecesses, não o duvidarias.

- Não te conhece ele, e por isso espera que tua mulher será a chave com que os Cavalcantis te abrirão a consciência e se apossarão dela até fazerem de ti uma criatura sua. Eis por que Sebastião de Castro se empenha por teu casamento.

- Tenho na melhor estimação o teu voto em tudo, mas neste ponto cuido que exageras a habilidade do homem; não o suponho capaz de tal argúcia, e nisso faço menos justiça à sua virtude, do que ao seu engenho.

Estavam os dois amigos no gabinete do advogado, que seguia a prática andando de um a outro lado. Passava ele por diante da livraria e acertou de cair-lhe sob os olhos um volume.

- Conheces este livro? perguntou apontando o rótulo com o índex.

- O Príncipe?

- Anda em moda compará-lo com Sebastião de Castro; e já ouvi de alguém, que o governador não era senão o livro encadernado em pergaminho humano. Com essa maledicência cuidam deprimi-lo, e o absolvem. Maquiavel foi o político de seu tempo, como este o é de sua escola. Observa-se em ambos a estranha fusão das máximas severas da moral com os manejos de uma astúcia desabusada. Agora a dedicação ao bem público; logo após um frio egoísmo. A razão disto, querem sabê-la? É que para eles, que têm os povos em conta de crianças, pois os conheceram assim, o governo do Estado não é outra cousa senão a arte de enganar os homens para o bem de todos.

Essa convicção robusta não deixou de abalar o mancebo, que movido em parte dela e em parte da deferência com que tratava ao amigo, disse-lhe em ato de despedir-se:

- Que me aconselhas então?

- Nada. Segue teu caminho; serás iludido por tua vez e aprenderás à tua custa. Aqui hás de tornar cedo, porque não és dos que aprendem a grimpar e se agacham para subir.


CAPÍTULO IV

SISTEMA DE NAMORO QUE A POLICIA NÃO CONSENTIRIA NOS TEMI'OS DE AGORA


Foi um dia de Corpo de Deus que Vital Rebelo viu a primeira vez D. Leonor, e ali ficou preso de seus encantos.

A gentil donzela, debruçada ao balcão da janela, acompanhava com os olhos a procissão que passava nesse momento; e o mancebo parado defronte enlevou-se na contemplação de seu formoso semblante.

Quis o acaso que um laço de fita se desprendesse do toucado da donzela e caísse na rua alcatifada de lambéis. Correu pressuroso o namorado mancebo a apanhá-la, e beijando-o cortesmente com os olhos na dama, pregou-o ao peito do gibão como uma divisa.

Acompanhara Leonor com a vista ao seu tope azul até o momento de o levar aos lábios o cavalheiro; então uma onda de rubor lhe subiu ao rosto. Foi quando tornou a si desse desmaio que reparou a furto no galante cavalheiro, e não se pôde esquivar de achá-lo gentil e airoso.

Mas, agastada pela vergonha que lhe causava, não repôs nele os lindos olhos negros, ainda que não deixou de volver-lhe uma e muitas vezes a vista de relance.

Nessa hora decidiu-se o destino de Vital Rebelo.

Outras donzelas tinham o Recife e Olinda, e das mais formosas, que suspiravam entre as persianas do balcão vendo passar no seu garboso ginete o prendado mancebo, e cuja mão de esposa bastaria um desejo seu para obtê-la.

Mas havia ele de prender-se àqueles negros olhos, que, se lhe prometiam meigos rendimentos, deviam custar-lhe tantas ânsias e aflições, como lhe estavam reservadas na triste sina de amante, que depois de esposo, tornou ao que era, porém desventurado.

Desde aquela tarde de Corpo de Deus avistou-se Vital muitas vezes com Leonor, ou no bakão da casa, ou na Sé em hora de missa, ou na rua por entre as cortinas do palanquim; e parecia-lhe que de cada vez se apagava aquela esquivança, como que de princípio fugiam os olhos da donzela de encontrarem-se com os seus.

Uma tarde em que ficou a donzela só por um instante no balcão, Vital, que andava espreitando essa ocasião, chegou a todo o galope do ginete, o qual ao manejo do destro cavalheiro empinou-se quase direito apoiando as patas na parede.

Baixos como eram naquele tempo os andares, pode o ágil mancebo erguer-se na sela a jeito de oferecer a Leonor um cravo encarnado menos formoso todavia que os dois abertos àquele instante nas aveludadas faces da donzela.

Não se animava a tímida moça a tomar a flor da mão do cavalheiro, e foi preciso que este lha deixasse na manga do vestido que abria-se em volta do mimoso braço, como a folha a cingir o cálice do lírio.

Nesse momento assomou à janela André de Figueiredo, que suspeitoso observara de dentro a ousadia do cavalheiro e a indulgência da dama. Lançando mão à flor arremessou-a contra o rosto de Vital, enquanto com o braço esquerdo arredava a sobrinha da janela, falando-lhe de um modo áspero:

- Recolha-se, Leonor!

Entretanto Rebelo que apanhara a flor no ar, trouxe outra vez o brioso ginete contra a parede.

Então com admirável agilidade alcançou o parapeito do balcão e saltou na janela, ao lado de Figueiredo.

Quando este apercebeu-se do lance, estava sujigado à portada pela mão robusta de Rebelo, que desembainhando a adaga disse para Leonor:

- Tomai-me este cravo, senhora, e prendei-o ao peito de vosso justilho, por que se o deixais cair, à fé de Deus e da muita adoração que me mereceis, juro-vos que o plantarei no coração deste cavalheiro com a ponta de meu punhal.

Leonor espavorida obedeceu maquinalmente, e Rebelo, deixando o capitão ainda sufocado da gargantilha viva que lhe cerrara o pescoço, saltou na sela e afastou-se a galope.

Tão rápida correu esta façanha, que já o alferes desaparecera no fim da rua quando André de Figueiredo se debruçava na sacada furioso, com os dentes a ranger e os lábios trêmulos de ira.

Estava temeroso assim o capitão, que já de si era, ainda mesmo em sossego, de aspecto duro e carrancudo. Dobrando a meio sobre o parapeito a alta estatura, devorava com o fero olhar o espaço em busca de Vital.

Era Leonor filha única de D. Antônia de Figueiredo, a qual depois da morte de seu marido Luís Barbalho de Vasconcelos, viera habitar nas casas do irmão André de Figueiredo, onde também morava sua irmã viúva, D. Lourença de Holanda.

Foi essa família um ramo dos Holandas, a cujo tronco se prendia por Agostinho de Holanda Vasconcelos, terceiro filho varão de Arnault de Holanda, que fundou em Pernambuco essa linhagem, casando-se com D. Brites Mendes de Vasconcelos.

Pelo casamento de Cristóvão de Holanda, primeiro filho varão de Arnault de Holanda com D. Catarina de Albuquerque, filha de Filipe Cavalcanti, fidalgo florentino, começou a aliança das três casas dos Holandas, Cavalcantis e Albuquerques, a qual daí em diante se foi ainda mais estreitando com o volver dos tempos por novas uniões.

Com a morte do pai de Leonor, tomara-lhe a autoridade o Capitão André de Figueiredo, como cabeça da família; pois além de três irmãs, ainda tinha de dois irmãos mais moços, o Tenente Antônio Tavares de Holanda e o bacharel José Tavares de Holanda, que já encontramos à ceia do capitão-mor.

Deixou o finado Luís Barbalho em pobreza mulher e filha, tendo-lhe devorado o jogo tudo quanto pôde apurar de seu patrimônio e da fazenda que levara-lhe a esposa, pois para acudir às perdas e dívidas de honra, fez barato das suas propriedades.

O capitão-mor que porventura poderia, com a autoridade dos anos e da chefia, pôr cobro a esse desmando, abstinha-se, apesar dos rogos da sobrinha D. Antônia de Figueiredo, mãe de Leonor.

Foi sempre o jogo uma das fidalguias dos Cavalcantis; por isso o velho pecador, que não era homem de pregar como Frei Tomás, desconversava o caso.

Sucedeu que os prédios queimados por Luís Barbalho fossem comprados, uns diretamente e outros em segunda mão, por Manuel Rebelo, pai de Vital e negociante de grande giro, que havendo acumulado cabedal, não perdia ocasião de dar-lhe seguro e vantajoso emprego.

Outro, se ele não se propusesse, haveria os bens e por mais vil preço. Não obstante, aquela coincidência fortuita tornou-se crime aos olhos dos parentes propensos a buscar um bode expiatório para as culpas de seu conjunto.

Ainda Vital não era conhecido de Leonor, que já esta aprendera da mãe a abominá-lo, como o herdeiro, no nome e no rancor, do usurário que arruinara seu pai, reduzindo à extrema pobreza sua casa. Mas estas sementes de malquerença em coração de menina são arriscadas, porque em vez dos abrolhos, acontece as mais das vezes brotarem rosas.

Já se vê que André de Figueiredo não podia ver de boa sombra que sua sobrinha fosse requestada por um Rebelo, que além de pífio mercador, indigno de levantar os olhos para uma descendente dos Holandas e dos Cavalcantis, era figadal inimigo da família.

Não disfarçara Rebelo os obstáculos com que tinha de afrontar-se o seu afeto; e todavia não se abateu o ânimo esforçado.

Sua condição de homem sem nascimento, ele a aceitara como uma injustiça da sociedade; e desde muito moço foi seu timbre destruir essa barreira que os prejuízos antepunham às nobres e legítimas aspirações de sua alma.

Podia como outros comprar um hábito de Cristo ou algum ofício dos que traziam nobreza. Mas sua fidalguia, não a queria ele mercada e somente conquistada por seus feitos. Assim foi que adquiriu todas as prendas e gentilezas de cavalheiro, e com tal realce, que não havia nobre em Pernambuco senão em todo o reino, capaz de lhe disputar a primazia em qualquer exercício de corpo ou de espírito.

Daí provinha o seu justo orgulho de se haver feito a si próprio grande fidalgo, sem necessidade de brasão e linhagens, pelo único estímulo de seus brios generosos. E tinha um pressentimento de que sua Leonor o estimaria mais assim, filho de suas obras, do que alapardado em ridículos pergaminhos.

Desde aquela tarde do cravo, cada vez que Rebelo queria avistar-se com a dama de seus pensamentos, custava-lhe isso, como dissera o governador, um assalto d'armas ou uma batalha campal.

Tinha ele mensageiros que o traziam informado dos passeios de Leonor, e o avisavam das ocasiões em que a mãe lhe consentia estar à janela, ou a levava fora, em passeio e visitas.

Então corria o mancebo a Olinda, se já ali não estava oculto em casa do alvissareiro, e acompanhado de dois acostados de sua confiança ia-se ao enconntro de Leonor, para cortejá-la com o respeito devido a uma rainha e significar-lhe com o gesto singelo da mão esquerda sobre o coração, que ela continuava a reinar ali como soberana.

As mais das vezes, antes de aproximar-se da donzela, tinha ele de romper através das espadas e adagas de André de Figueiredo e sua comitiva; outras tomava-os de surpresa, e era na retirada que se travava a peleja.

Nessa porfia andavam tão tribulados amores, quando a carta régia da criação da vila do Recife levou a palácio o capitão-mor, donde resultou a intervenção de Sebastião de Castro em favor dos dois amantes.

Bem que penhorado pela ação generosa do governador, não se deixou Rebelo afagar pela travessa esperança que lhe roçava o coração com as asas verdes. Sabia ele de que têmpera era a soberba dos Cavalcantis, como o ódio de André, de Figueiredo: não bastava para dobrar esse aço o favor de algumas palavras. embora de pessoa de tamanha valia.

Três dias depois, sobre tarde, Vital Rebelo encaminhou-se a cavalo para Olinda, ansioso por ver Leonor, em cujos formosos olhos se não tinha mirado desde muitos dias.

Passou a ponte do Varadouro, subiu a ladeira, e entrou na Rua de São Bento. Estava a donzela à sacada, e debruçou-se ao avistar o galante cavalheiro, pendendo-lhe da mão mimosa uma cândida e formosíssima teia de Cambray, cercada de rendas de Flandres.

Quando passava o mancebo por baixo da janela, soltou-se o lenço que Vital Rebelo, recebeu na palma, beijando-o uma e muitas vezes, sobretudo nos emblemas que trazia bordados a fio de seda pelas mãos de Leonor, e eram um cravo encarnado ao qual servia de vaso um coração.

Tornando a casa, ainda enlevado, agradecia o alferes a Sebastião de Castro sua ventura; pois aquela prenda. trabalhada por Leonor nas horas de saudade, não teria ela nem ânimo nem liberdade de oferecer-lha, se não houveram cessado a severidade e vigilância de que a cercavam.

De feito, o que Vital não ousara esperar veio a realizar-se, ainda que não em muita relutância e acerbas contestações.

Relatara o capitão-mor aos principais da família quanto passara em palácio, e para todos ficou evidente que o governador querendo proteger Vital Rebelo, por quaisquer motivos, fazia do casamento deste com Leonor a condição do prometido favor de protelar a criação da vila do Recife, e frustrá-la sendo possível.

Sebastião de Castro tinha para si que nada prometera, e ficara senhor de proceder como julgasse mais acertado de futuro, em face das circunstâncias. Era essa uma das sutilezas do fidalgo: persuadir aos outros de empenhos que, além de não tomar, ele costumava ressalvar por umas palavras ou reservas mentais a que se não dava atenção.

Largamente se discursou no sofá acerca do que havia a fazer em tal emergência. Logo em princípio preponderou o alvitre de repelir sem mais exame a possibilidade de uma aliança degradante para a nobreza e em particular para os Cavalcantis; e as razões dos mais políticos sobre a necessidade de derrogar um tanto no lustre da nobreza pernambucana para salvar-lhe a suma que eram as regalias e privilégios, retrucavam que se não havia mister de tal sacrifício, quando podiam fazer que o Senado de Olinda embargasse a execução da carta régia obtida ob e sub-repticiamente.

Destes últimos eram os mais assomados, como de razão, André de Figueiredo que as públicas estimações juntava as particulares das afrontas recebidas, e também o ouvidor Arouche. No outro partido estava o Sargento-Mor Cristóvão de Holanda, que era de natural brando e conciliador.

Acudiu então Filipe Uchoa com o seu peco de reduzir diferenças e sugeriu o alvitre de se não embaraçar pelo enquanto o casamento, sem todavia aceitá-lo definitivamente, e assim ganhando-se tempo, o que era de toda importância para o caso, diferia-se a dificuldade que mais tarde se resolveria como pedissem as circunstâncias.

Era o bacharel camarada de Vital Rebelo ou inculcava-se aí; mas esse favor de Sebastião de Castro pelo alferes estava-lhe fazendo cócegas à vaidade, pelo que maquinava cinzar ao governador o qual nessa bisca da política era homem para dar-lhe sota e ás.

Tão vários e encontrados pareceres, ouvia-os João Cavalcanti com semblante de juiz que pesa o pró e o contra. Às vezes, embora raras, cobrava esse ânimo alquebrado o vigor primitivo, e mostrava a efígie do galhardo e leal cavalheiro que fora.

Tomou ele a palavra com autoridade, e todos o escutaram reverentes.

- Se nesse casamento está o penhor de nossa vitória e portanto da conservação de Olinda e de sua nobreza, que muito é tão pequeno revés em comparação da desafronta de nossos brios enxovalhados pela mascataria do Recife? E uma vez que havemos de passar por essa prova, cumpre sofrê-la com ânimo de cavalheiros, sem despeitos nem subterfúgios.

Neste ponto Filipe Uchoa corando ao de leve, enfrestou o olhar por cima dos óculos para examinar o efeito que produzira no semblante dos outros a indireta do tio.

- Esse Rebelo, continuou o capitão-mor, não é nobre; mas também por seus cabedais e trato de vida já se não pode dizer um peão. E os descendentes dos Cavalcantis, Coelhos, Albuquerques e Holandas, temos fidalguia demais, que sobra sem dúvida para repartir com os maridos de nossas filhas e sobrinhas:

Ficou pois decidido que se deixaria o campo livre ao mancebo para cortejar a donzela, com o que ele infalivelmente se afoitaria a pedir-lhe a mão, sôfrego da honra insigne dessa aliança, ainda mais do que dos arrebatamentos da paixão.

Não se atreveu André de Figueiredo a opor-se de frente ao capitão-mor. Arrancou desabridamente, como quem se não podia conter, e entrando por casa, foi-se à irmã:

Querem casar Leonor com o filho do judeu que desgraçou-lhe o pai. Com o meu Voto, nunca o fareis. E também vos digo que, eu vivo, aquele vilão não passará a soleira desta casa. Nem jamais terei por meu sobrinho e vosso filho o perro que eu jurei de coser com esta adaga.

Parece que D. Antônia contou ao tio as ameaças do irmão, pois nessa mesma tarde, antes de montar a cavalo, buscou o capitão-mor a André de Figueiredo.

- Sabereis, meu sobrinho e senhor Capitão André de Figueiredo, que me veio ao conhecimento vossa intenção de desafiar-vos com Vital Rebelo; e então ocorreu-me dizer-lhe que doravante, visto ser por minha vontade que o rapaz corteja Leonor, não é com ele, mas comigo, que vos tereis de haver, do que vos dou aqui por ciente.

Estas palavras as proferira o velho desempenando o grande talhe com o garbo marcial de outros tempos; e rematou-as batendo com a palma da mão direita nos copos da espada suspensa ao quadril. Depois cortejou, tocando com donaire na aba do chapéu:

- Ao seu dispor, senhor capitão.

André de Figueiredo, de cabeça baixa, não abriu boca, temendo ao descerrar os lábios que lhe rompessem, não palavras, mas todas as pragas do inferno que lhe ferviam no coração. Quando se foi o tio, rugiu de cólera, arrancando um punhado de barbas.

Desde esse dia sumiu-se de casa. Soube-se depois que partira para seu engenho do Cairá, onde conservou-se por muito tempo fermentando sua ira.

Tais eram as ocorrências que nos dias anteriores haviam conduzido os amores de Vital à feliz conjunção em que ele os achara na sua ida a Olinda, e em que permaneceram até o dia dos desposórios.

CAPÍTULO V

UM ECLIPSE DA LUA-DE-MEL, COM QUE NÃO CONTAVA O GOVERNADOR, O QUAL SE PRESUMIA DE SABER DE TUDO, ATÉ DE ASTROLOGIA


Marcou-se para as bodas o dia 1º de setembro de 1709, que veio a cair em domingo.

Fora preciso a Vital a muita paciência que ele tirava de seu grande amor para suportar até aquele dia as impertinências e arrogâncias da família Holanda. Começara pelo sim, que só lhe deram depois de mil negaças, havendo o cuidado de encarecer-lhe sobre medida a honra que recebia com essa aliança à qual se tinham movido por comiseração às súplicas de Leonor.

Dissimulando a revolta de seus brios, soube Rebelo, todavia sem quebra da cortesia, rebater-lhes a arrogância.

- Podeis guardar esta certeza, senhores. Tão precioso tesouro é para mim, irmão de D. Leonor, que a nobreza de Pernambuco não tem cousa que o valha, nem eu o trocaria por todas as fidalguias do mundo. Por isso não canso de agradecer a Deus, Nosso Senhor, a ventura de ma ter concedido.

No dia marcado, e à noite, como era então o costume, celebraram-se as bodas nas casas de João Cavalcanti, com a pompa e luzimento adequados à fidalguia da noiva e riqueza do noivo.

Leonor estava deslumbrante sob os cândidos véus que lhe nublavam de tênue sombra diáfana a imagem formosa, tocada pelas vivas tintas do rubor, e lhe perfumavam a lindeza de uma graça angélica.

O nosso amigo Lisardo de Albertim, no epitalâmio que teve de recitar à mesa do banquete, na sua qualidade de poeta familiar da casa, comparou a gentil noiva com a Aurora, a deusa da luz descendo dos céus, aljofrada de orvalhos, para abrir com os clássicos dedos de rosa as portas do Oriente:


Envolta nos puros véus,
Qual Aurora prazenteira
Que meiga desce dos céus
Ao raiar da luz primeira,
De per'las vestindo o manto luzente
Para abrir as do Oriente
Rijas portas de rubim;
Ela, a dríade formosa destes prados,
Com seus dedos de rosa e de jasmim,
Abre os pórticos dourados
Do templo do himeneu.


Era feliz o Albertim nas suas comparações. Ali, no meio da sala, se repimpava D. Severa, a ninfa olindense, que esticada por um vestido verde-gaio a ponto de verter sangue da cara, estava retratando o madrigal do poeta, como a viva imagem de uma roseira de Alexandria.

Desde o principio da noite que se poderia observar na sala entre os parentes da noiva um continuo apuridar-se que não era consoante em companhia de amigos e para fim tão prazenteiro como aquele.

Não deixou Vital Rebelo de fazer esse reparo, assim como de notar que o centro daquela trama de cochichos que se estava urdindo ali, era o bacharel Filipe Uchoa, pessoa a quem apesar de camarada ele já não via com boa sombra pela indizível repugnância que lhe causavam aqueles ademanes refolhados.

Reclamado pela cerimônia religiosa, que ia fixar a sua sorte e prende-lo por laços indissolúveis, não prestou mais atenção àqueles manejos senão à hora do banquete em que eles se tornaram mais inquietos, porventura com a aproximação do momento esperado.

Sentiu o mancebo um vago e indizível receio travar-lhe do coração, que nesse instante se engolfava na ventura de achar-se unido para todo o sempre à sua Leonor. Era como o pressentimento de uma nuvem que pudesse toldar de repente o céu límpido dessa felicidade tão ansiada.

O Capitão-Mor João Cavalcanti, depois de ter rendido o preito que um bom fidalgo devia a tão suntuoso banquete, levantou aos noivos o brinde de honra fazendo voto para que lograssem unidos muitos e longos anos de felicidade; no que foi acompanhado por todos os convivas, mas sem efusão.

Preenchido esse ato do cerimonial que lhe competia de juro como chefe da linhagem, eclipsou-se o capitão-mor da casa do banquete e recolheu-se aos seus aposentos de dormir, pois era chegada a sua hora habitual.

Era então costume, que se acabou com a recente invasão das modas francesas, continuar a festa das bodas até ao romper da alvorada.

No maior calor do baile e das folganças, os noivos iludindo a vigilância e dicho dos convivas maliciosos buscavam esgueirar-se furtivamente, azo que nem sempre se lhes deparava.

Não sofria a gravidade dos Cavalcantis esses remoques ou. não o tinham por conveniente naquela ocasião. Assim que, pouco tempo não era passado desde a saída do capitão-mor, quando o Tenente-Coronel Antônio Tavares tomando a direção da festa, falou alto do meio da casa:

- É hora, senhores, de acompanharmos os noivos.

Chegou-se Vital Rebelo, que viu a todos os convivas em alas à espera que fosse ele dar o braço a Leonor, para tomar a frente do préstito.

- Não vejo à porta o palanquim de D. Leonor, nem os nossos cavalos.

Os parentes, a essa observação, entreolharam-se um tanto confusos, e Filipe Uchoa desdobrando pichosamente o seu fino lenço de batista, passou a limpar o vidro dos óculos, com o apuro que ele punha em todas as minudências.

Afinal, como Vital se não movia, à espera da resposta, decidiu-se Antônio Tavares a falar:

- E para que palanquins e cavalgaduras?

- Pois não vedes que a minha senhora D. Leonor e estas damas não podem ir a pé até o Recife? tornou o mancebo surpreso.

- Mas se não vamos ao Recife! acudiu o Tavares com despacho.

- Não vamos ao Recife?... E porventura não é aí que moro eu, senhores, e que tenho casa preparada para receber-nos? exclamou Vital que sentia aproximar-se a tormenta.

Nesse momento adiantou-se o licenciado José Tavares, que era o lampião da irmandade e tomou a palavra. O Filipe Uchoa deixou-se ficar na penumbra, pondo os óculos para apreciar o modo por que o primo ia desempenhar o seu papel.

- Assentamos, a senhora D. Antônia de Figueiredo Barbalho e seus irmãos, em que sua filha e nossa, pois como tios lhe fazemos as vezes de pai, ficasse estes primeiros tempos aposentada em nossa companhia, e nesta conformidade mandamos preparar na casa vizinha os alojamentos precisos, que estão prontos para recebê-la e a seu noivo.

- Ah! E a quem devo tão fina lembrança? Quero apostar que ao nosso amigo, o senhor bacharel Filipe Uchoa?

Proferindo estas palavras com um sorriso de ironia, Vital procurou com o olhar ao bacharel, o qual estava então muito entretido em provar a D. Severa que os encantos nela aumentavam com os anos e que em vez de invernos a ninfa podia afoitamente contar cinqüenta primaveras.

Não se enganara Rebelo. Fora com eleito Filipe Uchoa quem urdira essa conspiração nupcial, com aquela destreza que Sebastião de Castro tanto prezara outrora, quando não havia ainda bem experimentado a do Barbosa de Lima.

Obrigados da necessidade e respeito ao capitão-mor a consentir no casamento de Leonor com o filho do mascate, a mãe e tios da moça não podiam esconder o seu descontentamento. Deste se aproveitou o bacharel para tecer o seu plano cuja suma o José Tavares acabava de anunciar.

Fazendo que Vital Rebelo, rendido aos encantos da noiva, se deixasse ficar na companhia da sogra, seqüestrava-se o novo parente à ralé donde infelizmente procedia, e contava-se com a sedução de Leonor e os conselhos dos tios. para essa regeneração, que se podia consumar com a mercê régia de algum hábito de Cristo.

Desta sorte transformado o mascate do Recife em nobre de Olinda, não somente se apagava a mancha nos brasões da família, mas ainda por cima se ganhava um partidista de grande valia, por seus dotes pessoais, como por seus na veres; e assim pelejariam o inimigo com esse forte reduto, que ele não soubera defender.

A urdidura deste estratagema e o seu discurso foram, como dissemos, de Felipe. Uchoa que excedeu-se em pô-la por obra, encarecendo-lhe as vantagens e ensaiando os vários papéis. Mas a inspiração ou traça primeira parece ter saído do Paço de Santo Antônio.

Entre as boas manhas, de que era tão prendado Sebastião de Castro, uma em que muito se apurou, foi a de insinuar no ânimo de outrem uma idéia, mas de forma e com tal sutileza, que nem ele a exprimia, nem o seu interlocutor poderia asseverar que a ouvira.

Tinha ele diversos métodos para esta sorte, sendo mais freqüente o de por exclusão de partes sugerir no ânimo alheio, por modo que parecia espontâneo, aquilo que tinha em mente, e que não lhe convinha comunicar por palavras sempre arriscadas.

Assim, querendo nomear certo sujeito para algum ofício, se lhe não fazia conta mostrar sua predileção, entrava a achar pecha em todos os indicados, dando uns sinais de quem serviria ao caso, até que o Ajudante Negreiros soletrava-lhe o nome do tal, e ele o acolhia como uma surpresa.

A verdade é que foi na volta do palácio, uma noite, que Filipe Uchoa concebeu o seu engenhoso plano.

Apesar da raiva que tinham a Sebastião de Castro e da linguagem solta que usavam a seu respeito, não deixavam os principais de Olinda de comparecer uma vez por semana no Palácio das Duas Torres, para cumprimentar o governador, pelo qual eram acolhidos com as mostras do mais especial agrado.

Como bom político, pensava o fidalgo que a nau do Estado devia por sua grande monta andar sempre a duas amarras. Com esta máxima significava que se devem distribuir os favores entre os partidos, de modo que tocando a um as mercês, ao outro fiquem os afagos.

Por isso era o governador o primeiro antagonista dos mascates, de quem se rodeava, assim como o primeiro apologista dos nobres, que não perdiam ocasião de feri-lo.

Estando pois em palácio os principais de Olinda, acertou-se de falar do ajustado enlace de D. Leonor Barbalho com Vital Rebelo; e tomando o governador interesse na prática, alongou-se esta pela noite adiante.

Haverá quem repare em ocupar-se longamente do casamento de uma moça, um governador, cujo pensamento deve estar sempre preocupado de negócios de suma gravidade. Mas, além de contar-se o talento das minudências entre ápices régios, atenda-se a que naqueles tempos idos a arte da governança ainda se praticava por esse teor da política de aldeia.

Demais, tenho para mim que no alfarrábio donde se vai extraindo esta crônica anda metida muita alegoria, com que o letrado Carlos de Enéia, seu apócrifo autor, quis significar certos enredos de governo por contos de amor. figurando talvez interessado na sorte das damas quem somente se movia pela vaidade das honras e ambição do mando.

De envolta com boa cópia de banalidades, deixou Sebastião de Castro escapar a suposição de que Vital, aliando-se à família Holanda, seria atraído insensivelmente para o partido dos nobres com o que estes muito ganhavam.

Esta semente lançada em tão boa terra, e com o amanho de Filipe Uchoa, por força que havia de dar fruto. E a prova aí estava no plano tão bem tecido para reter em Olinda o noivo de Leonor.

Compreendeu Vital de pronto o desígnio dos novos parentes e a desvantagem de sua posição. Como última concessão ao orgulho dos nobres, e também para não expor ao desdém e motejo seus amigos mercadores, não os convidara o noivo a suas bodas, e se acompanhara nelas unicamente de um amigo, o Capitão Eusébio Monteiro, que estava a seu lado.

Não se deteve, porém, o brioso mancebo, e erguendo a fronte com serena altivez, atirou aos nobres estas palavras:

- Pois, senhores, com bastante mágoa vos digo eu que de D. Leonor Barbalho, enquanto donzela, podiam sua mãe e seus tios dispor a belprazer; de D. Leonor Rebelo, minha esposa e senhora, não dispõe ninguém mais senão ela, e porque dando-me sua mão, aceitou-se por minha companheira e dona de quanto me pertence, é de razão que a conduza a sua casa.

Voltando-se então para o amigo:

- Capitão Eusébio Monteiro, mandai vir o palanquim de D. Leonor e os cavalos que meus criados devem ter à mão aqui perto.

Enquanto saía o capitão a satisfazer o pedido, Leonor aproximou-se tímida e vergonhosa de seu noivo para suplicar-lhe que fizesse a vontade à mãe.

Pelos olhares que trocava a donzela com D. Lourença, enquanto balbuciava palavras trêmulas, se estava conhecendo que ela desempenhava uma parte que lhe fora destinada naquele drama de família.

Ao ver com que respeito Vital escutava Leonor e o mimo de suas maneiras buscando dissuadi-la da idéia de condescender com a vontade da mãe, os parentes tinham por certa a vitória. Cuidavam eles que às delícias de uma noite de noivado, não havia tenção que lhe resistisse.

Da porta, Eusébio Monteiro fez sinal ao amigo, que sua ordem estava cumprida.

- Vamos, D. Leonor! disse Vital oferecendo a mão à sua noiva.

Ainda chegou a donzela a roçar os dedos afilados na palma do cavalheiro: mas retraiu-se logo sob o olhar de sua mãe e a um movimento da tia D. Lourença, que lhe puxara pela manga.

Voltou-se o mancebo, sentindo que a donzela retraía-se:

- Então, senhora?

- Não posso! balbuciou Leonor.

- Não podeis acompanhar-me à vossa casa do Recife? insistiu Vital empalidecendo.

Pôs o mancebo os olhos cheios d'alma em sua amada e disse-lhe com a voz repassada de tristeza:

- D. Leonor, acabastes de jurar a Deus neste mesmo momento de me acompanhar por toda a vida, como eu a vós, e sermos eternamente um do outro; ainda se não apagou o eco destas palavras, e já em vossa alma se apagou a lembrança delas, que recusais seguir o esposo e entrar em vossa casa para ficar na alheia?

- Nunca lhe será alheia a casa em que nasceu, acudiu D. Antônia de Figueiredo.

- Sabe Deus, senhora, continuou Vital dirigindo-se à noiva, quanto me mereceis; sabe o quanto fiz para obter vossa mão e o muito mais que faria. Tudo pareceu-me pouco, e ainda me parece neste momento. Só uma cousa vos não dei nem a posso dar, que sem ela não seria digno de vosso amor. Mas essa, que é a honra, ninguém a deve mais resguardar do que a por quem, sobre todos e sobre mim, a prezo e estimo.

- Pretende o Senhor Rebelo que lhe é desonra nossa companhia! observou Felipe Uchoa.

- Desonra seria renegar dos meus e bandear-me a outros, tornou o mancebo indiferente à ironia. Não posso ficar em Olinda, D. Leonor, sem quebra de meu nome, que por não ser de nobre, não o é menos para mim, pois vos pertence. Deixar-me-eis partir só, e vos negareis desta sorte àquele a quem vos destinou e vós mesma vos concedestes?

Decorreu um instante no mais profundo silêncio. Com os olhos fitos em sua noiva, Vital esperava uma palavra, um gesto de aquiescência.

- Adeus, senhora! disse afinal com uma voz em que se lhe partia a alma.

E caminhou para a porta.

Este desfecho não o esperavam os parentes que tomados de surpresa, se foram ao primeiro assomo de despeito. Antônio Tavares, primeiro, e os outros após, arrancaram das espadas com brados de sanha:

- Daqui não saireis!

Lançou-lhes Vital um olhar de frio desprezo.

- Se eu não estivesse em casa de fidalgos, cuidara ter caído em uma emboscada. Quereis forrar-me ao desgosto de deixar-vos? Tendes um meio certo, que é tirar-me este resto de vida, com o que me fareis grande amizade, própria de parentes que sois.

Com estas palavras amargas, cruzara os braços o mancebo afrontando sereno as ameaças dos nobres, que já cobrados do primeiro arranco, se retraíam confusos e desconfiados.

A agitação que houvera na sala não deixou ver o arrebatamento de Leonor, a qual no momento de sacarem seus tios das espadas, se arremessou para defender com o corpo o peito do marido. D. Antônia e D. Lourença, lhe estavam ao lado, reprimiram este generoso movimento.

Como se tivessem de todo reportado os nobres, deixando-lhe franco o passo, atravessou Vital vagarosamente a sala, e voltou-se do limiar da porta para dizer ainda uma vez:

- Adeus, senhora!

Leonor desmaiara, mas não o viu o marido, que já tinha desaparecido no corredor da saída.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal