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GUERRA DOS MASCATES

José de Alencar

CAPÍTULO VI

NO QUAL SEBASTIÃO DE CASTRO PÕE OS PONTOS NOS II, E DÁ UMA LIÇÃO MESTRA NO ALFERES VITAL REBELO

Os dias que seguiram-se à noite das bodas, a vida de Vital Rebelo não foi senão a longa e aziaga modorra, em que apagou-se o sonho inefável de sua ventura.

Todavia, um só instante não se arrependeu do que havia feito. Tinha ele uma alma dessas para quem a virtude não é a cousa banal que o mundo chama dever; mas um supremo enlevo da consciência, que sente-se divinal quando triunfa das próprias paixões.

Para os homens deste temperamento a honra não consiste em vanglórias que insufla a vaidade; e sim no íntimo contentamento de si mesmo, que é a seiva robusta de que se nutre sua existência.

Resolvendo ficar em Olinda, Vital não teria rompido o fio dourado de sua felicidade, e estaria àquela hora gozando as primícias do amor terno e mavioso de sua Leonor. Mas no estado das cousas, aquele passo o rebaixara em sua própria consciência; e desde então, sob a vergonha dessa humilhação, já sua ventura não teria a pureza. imaculada que o enchia de júbilo; as carícias de sua noiva perderiam o sabor celeste com o travo deste pensamento, que ele as comprara por uma vileza.

Perdera tudo quanto podia embelezar-lhe a existência, mas salvara-se a si, e podia-se dizer o homem que fora, e não um desses espólios d'alma que, abandonados de sua própria individualidade, andam no mundo como vasilhas humanas, onde se despejam e fermentam as paixões alheias.

Nos primeiros tempos o tédio que tomara ao mundo, tornando-lhe grata a solidão, o levara pelos sítios escusos onde parecia-lhe que o entendiam os rumores do bosque sussurrante.

Por vezes na volta destes passeios encontrava-se com a cavalgada de Sebastião de Castro, que vinha também da sua costumada excursão. Respondia o governador com muita urbanidade à cortesia do mancebo; e correspondia-lhe de um modo tão afetuoso, que metia inveja aos da comitiva.

Estas repetidas mostras de apreço, significativo a ponto de traduzir-se nos apertos de mão e zumbaias da gente de palácio, despertaram no espírito aborrido de Vital Rebelo uma idéia que, repelida à primeira e outras vezes, tornava sempre com insistência.

Fora o governador quem arranjara seu casamento pela recomendação que fizera ao Capitão-Mor João Cavalcanti; e pois bem podia ele, que vencera a maior dificuldade, cortar agora a mínima exigência que sem propósito faziam os tios de Leonor.

Logo, porém, arredou este pensamento, pela aversão que sempre tivera de solicitar favores. Mas tratava-se de sua felicidade, porventura de sua vida; quando o governador lhe dava tantas provas de apreço, parecia-lhe demasiada sobranceria, senão desatino, desprezar os bons ofícios que já uma vez tanto haviam aproveitado.

No meio desta perplexidade resolveu consultar Carlos de Enéia contando que o amigo o dissuadiria da idéia. O contrario aconteceu.

- Não só procedes com acerto falando a Sebastião de Castro, como no teu caso é o que de melhor podes fazer, respondeu o letrado.

- Pensas então que obterei por seu intermédio chamar à razão os tios de Leonor.

- Alguma cousa com certeza obterás deste passo, disse Carlos de Enéia com um leve sorriso de ironia que apagou-se logo na habitual expressão do semblante melancólico.

No seguinte dia foi Vital Rebelo a palácio.

Sebastião de Castro o recebeu afetuoso, e indagando com vivo interesse dos pormenores da cena que passara na noite das bodas, pôs o mancebo a caminho do pedido que lhe vinha fazer.

- Fiado na muita bondade de Vossa Senhoria, que já uma vez foi servido interessar-se por minha sorte, venho rogar-lhe a continuação do favor que espontaneamente já mereci, na esperança de que tão valiosa intervenção porá um termo à birra malfadada dos parentes de D. Leonor.

O prazenteiro semblante do governador fechava-se ouvindo o mancebo:

- E por que recusa o senhor obstinadamente morar em Olinda, na companhia de sua mulher? Não lhe acho razão; nem admira que os Cavalcantis se mostrem ofendidos com o seu procedimento.

- Sabe Vossa Senhoria quem eu sou! respondeu Vital com altivez, e compreende que os meus brios não me permitem ficar em Olinda. É ponto de honra e não acinte. -

Tinham certas palavras a propriedade de arranhar o ouvido fidalgo de Sebastião de Castro; essa de brios era uma das tais.

Pelas colisões freqüentes em que o colocava o seu sistema de governo, e pelo hábito de transigir com as dificuldades em vez de as remover, adquirira ele a admirável maleabilidade com que sabia ajeitar-se a todas as circunstâncias.

Dai provinha que as melhores têmperas d'alma, como o sejam a firmeza, a coerência, a perseverança, eram cruezas de que se julgava ele isento, e que tachava nos outros como graves defeitos que os tornava inábeis para os cargos da República.

Tomara a sua fisionomia um gesto desdenhoso ao ouvir as últimas palavras do mancebo, a quem redargüiu nestes termos:

- O senhor ainda está muito moço. Com os anos hão de passar esses verdores do ânimo exaltado; e então aprenderá por experiência que se não sacrificam cousas de mor ponderação a melindres e enfados do ânimo por demais suscetível.

- A idade há de quebrar-me as forças do corpo e do espírito, que tal é nossa humana condição; mas esta isenção que Vossa Senhoria apelida melindres nasci com ela e com ela morrerei.

- Quer um conselho de amigo? tornou Sebastião de Castro com um modo insinuante. Faça a vontade à sua sogra; vá para a companhia de seus parentes, e fio-lhe eu que se não arrependerá.

- Esse alvitre é impossível; e por estar disso bem convencido foi que resolvi buscar a intervenção de Vossa Senhoria.

Fechou-se então de todo o fidalgo:

- Como governador desta capitania, encarregado de prover às necessidades da República, veda-me o meu regimento intrometer-me no sagrado da família, retrucou Sebastião de Castro.

- Neste caso não devia o senhor governador ter trazido as cousas ao ponto a que chegaram.

- Naquela ocasião o vosso casamento resolvia graves dificuldades, e acabava com uma rixa, que turbados como andavam os ânimos, podia ser o facho da guerra civil; estava pois na minha alçada, pois que daí dependia a paz da capitania. Agora não é assim; realizou-se a aliança, e só do senhor depende mantê-la.

- Todavia, esta semana passada, certo rapaz que desinquietara uma rapariga lá para Santo Amaro, foi obrigado a casar por ordem de Vossa Senhoria.

- Não há tal. Seria por ordem do meu ajudante, e sem conhecimento meu.

Tinha Sebastião de Castro esta balda de lançar à conta dos subalternos a culpa dos atos que praticava, quando sobre eles cala a censura. Por este modo arranjava para si o cômodo rojão do rei constitucional, que não pode errar; mas pouco lhe valeu isso contra os ataques dos olindenses e mais tarde contra o achincalhe dos mascates.

Apesar do que dizia o discreto Secretário Barbosa de Lima, e do que trovejava o farfalhudo Ajudante Negreiros, era corrente que não se movia uma palha na governação da capitania sem licença de Sebastião de Castro, o qual entendia com tudo, até com a ração da tropa e o bê-a-bá dos meninos na escola.

De volta de palácio, passou Vital por casa de Carlos de Enéia, para contar-lhe o malogro que ele em grande parte imputava ao amigo por havê-lo animado a esse passo, longe de o dissuadir.

- Disso que sucede agora, te preveni há tempos, mas não me quiseste crer.

- Entretanto ainda ontem me prometias que alguma cousa eu obteria de ir ao governador, replicou Vital surpreso.

- E avalias em pouco a lição que recebeste? Depois do que ouviste em palácio, já não duvidarás que Sebastião de Castro quando arranjou o teu casamento com Leonor, só teve em mira quebrar-te o orgulho, amarrando-te ao cepo de humilhação que te preparavam os parentes de tua mulher; porque tem como certo, que essa conspiração de alcova é obra insigne de nosso homem.

- Presumes isso? exclamou Vital tomado de igual suspeita.

- Ex ungula leonem; pela trama conheço a aranha que teceu a rede. Ele deu o fio e o teu bom amigo o urdiu com a sua consumada perícia.

- Disso tenho certeza, ainda que não posso atinar com o interesse que pudesse ter ele em magoar-me.

- O de agradar ao governador, ao passo que te privava de um bem de que ele não podia gozar; queres incentivo maior do que esse da ambição abraçada com a inveja?

Vital calou-se, tomado do tédio que lhe inspiravam estes manejos, e Carlos de Enéia continuou:

- Se aceitasses com a precisa coragem a prova a que Sebastião de Castro submeteu a tua docilidade, ficava teu amigo, e não tardaria muito que atirasse fora o ajudante como um sapato acalcanhado para calçar-te ao pé. Como porém te mostraste exaltado, intolerante, sem traquejo e até malcriado, podes contar que doravante estás no índex expurgatório.

Desde então Vital Rebelo não contou senão consigo, e buscou modo de falar a Leonor para concertar nos meios de tirá-la da casa de André de Figueiredo, onde se achava guardada com a maior vigilância.

Ao recordar os acontecimentos da noite fatal de suas bodas, doía ao mancebo no fundo d'alma a fraqueza com que se houvera Leonor. Supunha-se querido com mais ardente afeto, desse que faz as heroinas do amor. Esperava, porém, que a donzela, livre da sujeição em que a trazia a mãe, havia de ser a esposa carinhosa e terna que ele sonhara.

Uma tarde, Leonor, aproveitando um instante de liberdade, saiu à cerca e estava a cismar à sombra do arvoredo, quando apareceu-lhe de repente Vital Rebelo que ajoelhou a seus pés.

Como se ante ela houvera surgido um espectro, a mísera donzela espavorida e fora de si deitou a correr para a casa, sem dar tempo a que lhe dissesse o marido uma palavra.

O abalo que sentiu Vital escureceu-lhe a vista; arrimou-se ele ao tronco de uma árvore e permaneceu imóvel o espaço de muitas horas, a ver se vinha alguém que o acabasse ali onde se acabara a sua esperança. Quando dai tornou, era no seu pensar um viúvo; e desde esse dia trouxe luto por seu amor. que se finara.

Ignorava que André de Figueiredo, já de volta a Olinda, protestara a Leonor matá-lo, a ele Vital Rebelo, à sua vista, se ela tivesse a infelicidade de dirigir-lhe uma palavra ou consentir que ele se lhe aproximasse.

Esta ameaça que não lhe saía da mente, obrigara-a a repelir com horror o único bem que lhe haviam deixado, a doce esperança de rever o marido. Assim que, no momento de avistá-lo depois de tão longa ausência, o que a dominou foi a idéia atroz de que sucumbisse aos golpes traiçoeiros.

Correram os meses e completou-se um ano depois do casamento de Vital Rebelo; durante esse período, em vez de se disporem as causas para uma solução favorável, ao contrário mais se baralhavam com as complicações políticas e as animosidades entre os nobres e os mascates.

Não era Rebelo e nunca fora dos empenhados na luta, porque cedo aprendera a desgostar-se dos partidos que são uma amálgama de toda a casta de gente e de paixão. Mas não obstante carregava para os nobres com a culpa dos mercadores, a quem não quisera renegar.

Por esse tempo foi que veio à noticia do mancebo um aviso de terem os Holandas mandado a Roma impetrar do Papa um breve de anulação do seu casamento.

O pensamento cruel de que Leonor livre podia pertencer a outro venceu o ressentimento de Vital. Voltou a Olinda, onde não fora desde oito meses, e achou nos grandes olhos castanhos de Leonor a mesma ternura de outrora, ainda que tocada de uma sombra merencória das saudades tão longamente curtidas.

Tornou uma e mais vezes, e se nem sempre era tão feliz que encontrasse Leonor á janela, ou a visse de longe na cerca, com uma troca de sinais rápidos e quase imperceptíveis chegaram os dois namorados esposos a combinar a entrega do bilhete em que Vital pedia a entrevista.

André de Figueiredo soubera das vindas de Vital Rebelo a Olinda; mas o Capitão-Mor João Cavalcanti, apesar do que havia ocorrido, proibira que se tirassem razões com o marido de sua sobrinha, que seu sobrinho era, salvo se ele formalmente as provocasse.

Por isso o capitão. roendo o freio com impaciência, redobrava de vigilância à espreita do momento da desforra da vingança.

CAPÍTULO VII

D. SEVERA ACOMPANHADA DE SEU PAJEM PROPÕE-SE PELA PRIMEIRA VEZ A REI'ARAR UM TORTO DONDE IA SAINDO UMA TORTA


É tempo de voltarmos à entrevista em que deixamos Vital Rebelo na casa do trem.

O riso escarninho e a voz que ameaçara, bem os reconheceu o alferes, e compreendendo o passo arriscado em que se achava, cuidou em defender a vida, ou vendê-la caro aos inimigos.

Houve um momento de silêncio tão profundo, como era a treva que enchia o vasto armazém; mas com pouco rangeram os gonzos de uma porta, e apareceram dois escravos com tocheiros acesos.

O seu baço clarão que derramou-se pelo aposento mostrou a Vital o Capitão André de Figueiredo à frente de seis sequazes armados, com as espadas desembainhadas e prontos a atacá-lo ao primeiro sinal.

O mancebo mal teve tempo de reclinar sobre um velho baú que lia via ali perto, encostado à parede, o corpo desmaiado de sua querida Leonor, e cair em guarda contra as seis catanas que o assaltavam.

André de Figueiredo, de parte, com as mãos apoiadas na cruz da espada que fincara no chão, assistia ao combate imóvel; mas via-se-lhe no semblante a violência que fazia sobre si em conter os ímpetos de seu gênio arrebatado.

- Bem vejo que isto é uma emboscada, disse Vital Rebelo com desprezo, defendendo-se galhardamente. Eu sabia que os fidalgos de Olinda eram peritos em armá-las, desde os tempos dos judeus holandeses, seus ilustres antepassados; mas os daquele tempo usavam pelejar nelas, e não se resguardavam como os de agora.

A lâmina da espada de André de Figueiredo vibrou com o estremeção que lhe imprimiram as mãos convulsas, mas ainda pôde o capitão dominar este assomo, com a idéia de humilhar seu inimigo pelo desprezo.

- Estais enganado; isto não é emboscada, mas obra de justiça; é execução que se costuma fazer em réu de morte, respondeu entre um riso de mofa.

Com um corrupio da espada fez Rebelo recuar os assaltantes, alguns dos quais já tinham no corpo a marca do ferro; e aproveitou da aberta para replicar ao capitão:

- Ah! é obra de justiça? Mas parece que o carrasco não sai do ofício, pois está aí feito um estafermo em vez de manejar o seu cutelo.

- Não quero manchar a minha espada de cavalheiro; hás de morrer à mão de tua laia, tornou o capitão com gesto de asco.

- Tem razão o nobre fidalgo; só esqueceu um ponto e é que para dizer destas cousas, se precisa de ter a espada mais comprida do que a língua, senão...

Neste ponto, operou-se tal mutação da cena, que não é possível descrevê-la sem cortar o fio à palavra de Vital.

Desde o primeiro assalto, curando o mancebo de tomar a melhor posição para a defesa, aproximou-se de um grande armário encostado ao fundo do aposento, cerca do qual havia algumas arcas e canastras espalhadas pelo pavimento.

Assim, tendo as costas guardadas de qualquer surpresa com as canastras, que ia arranjando a mão esquerda enquanto a direita combatia, fez ele uma espécie de trincheira que lhe resguardava meio corpo; e sobre ela debruçava-se para atirar o bote certeiro da sua espada a algum dos sequazes menos prontos em recuar.

Quando André de Figueiredo lançou-lhe o último insulto, ao rechaçá-lo, mediu o mancebo com o olhar a distância que o separava do inimigo, e quase tão rápido como esse olhar, saltou em cima de uma das arcas, dela em outra mais alta, e arremessando-se com pasmosa agilidade, veio cair em face do capitão, antes de aperceber-se este do que se havia passado.

Tudo isto porém sucedeu com tamanha velocidade, que foi apenas uma reticência na resposta de Vital.

- Senão, acabou ele, corre-se o risco de sofrer logo em cima da palavra a correção de sua insolência.

Soaram estas palavras ao mesmo tempo que a lâmina da espada de Vital, batendo de chapa no ombro do capitão. Era à face que a destinara o impetuoso mancebo aceso em ira; mas seu valente adversário, apesar do repente, logrou desviar-se a tempo.

Além de mais pronto e destro, tinha Rebelo nesse momento sobre o capitão a superioridade do enleio em que o pusera a sua investida. E foi aproveitando-se dessa vantagem que de um revés da espada ele desarmou o adversário e prostrando-o, calcou-lhe o pé sobre o peito, em ação de traspassar-lhe a gorja.

Atalhou-o porém um grito de angústia.

Leonor, que pouco antes cobrara os espíritos, mas ainda no torpor do deIíquio, via, sem compreender, aqueles vultos a agitarem-se ao clarão baço das tochas, de súbito recordou-se do lance em que se achava, ao encarar o vulto ameaçador do seu marido prestes a desfechar em André de Figueiredo o golpe mortal.

O sangue de seu tio, do irmão de sua mãe e que lhe fazia as vezes de pai; esse sangue derramado pela mão do marido, era a separação eterna, e mais do que isso, a morte de seu amor, que ela já não poderia sentir, embora apartada, pelo homem que lançasse o luto no seio de sua família.

Esta idéia horrível perpassou como um relâmpago o ânimo da donzela, que arrojou-se para deter o braço de Vital; mas faltando-lhe as forças ao impulso, caiu ali mesmo de joelhos, estalando-lhe a alma no grito da aflição.

Voltou-se Vital; vendo sua mulher, com os cabelos em desordem, os olhos alucinados e o semblante convulso, adivinhou o pensamento que a espavoria. Poupar a vida ao inimigo naquela conjuntura, era entregar-lhe a sua; mas de que lhe servia esta, se cavasse um abismo de ódio entre ele e Leonor?

Um instante não hesitou. Ergueu a ponta da espada, e recuou deixando o capitão livre e escapo da morte.

Os seis sequazes, que atacavam Rebelo, ficaram a princípio atônitos com o desaparecimento do mancebo, que alguns deles julgaram ter caído por detrás das canastras. Outros porém que haviam confusamente entrevisto o salto, cuidaram que fora um ímpeto de fuga.

Quando afinal descobriram o aperto em que se achava André de Figueiredo e corriam a acudi-lo, esbarraram-se com Rebelo que já de volta buscava a primeira posição. Não a pôde alcançar, que os espoletas lhe cortavam a retirada, colocando-o dessa arte em um passo difícil, pois atacado em número tão desigual pela frente, ia sê-lo de costas pelo capitão.

À têmpera d'alma sucede o mesmo que à têmpera do aço; em sendo boa, quanto mais se lhe calca, mais forte ela brande. Com tamanha afouteza investiu Rebelo a troça, que abriu caminho através; e recuperou o primeiro posto junto ao armário.

A este tempo erguera-se André de Figueiredo; com a sanha de um tigre correu ao combate.

- Arredem-se, que este vilão me pertence; não quero que lhe toquem, pois ainda é pequeno para me fartar de cortá-lo.

Rebelo não respondeu à bravata, senão com um sorriso de desprezo. Tolhido como estava de matar este homem, e com a saída embargada pelas grossas portas de jacarandá, o alferes reputava-se perdido; pois afinal se lhe esgotariam as forças e seria obrigado a traspassar-se com a própria espada, para se não render ao inimigo.

Todavia não o abandonara ainda a confiança que tinha na afouteza de seu ânimo, como na força de seu braço. Empenhando o combate com o capitão, ele concentrou-se para dividir a atenção entre o manejo da espada e a pesquisa de algum meio de salvação.

Por diversas vezes se precipitara Leonor para implorar o tio em favor do marido; mas a um aceno de André de Figueiredo, um dos sequazes conduzira a donzela a seu mau grado para o outro extremo do aposento, colocando-se por diante para tirar-lhe a vista do combate.

Entretanto este prosseguia, sanhudo e furioso da parte de André de Figueiredo, sereno e atento da parte de Rebelo, que, pronto em parar os golpes, mas desdenhando as abertas que lhe oferecia a imprudência do inimigo, não cessava de perscrutar os recantos do aposento.

Tinha este duas portas, uma de saída exterior, por onde havia entrado o mancebo; outra de comunicação interior; por onde viera D. Leonor. Ambas estavam fechadas à chave, com trancas atravessadas; e eram champrões de lei impossíveis de arrombar. Por esse lado, pois, não havia esperança de escapula; menos por outro qualquer, pois não se via nas paredes, e nem mesmo no teto, qualquer fresta ou buraco por onde pudesse passar um homem, ainda que ele tivesse o privilégio da enguia.

Nesta estreiteza, em que o ânimo de Vital já se repartia por tantos cuidados, o da sua Leonor a lamentar-se do outro lado, o da guarda a que o obrigavam os amiudados golpes do capitão, e o da busca de um meio de salvação, ainda assim lhe não escaparam os movimentos dos cinco sequazes, que apuridavam-se conchegados entre si e apartados a um canto.

Sussurrou ao ouvido sutil do mancebo a palavra mosquete, e com ela uns ruídos significativos, que lembravam o tinir da vareta no cano de uma arma de fogo. Se lhe restasse dúvida, certos movimentos de um braço meio oculto pelo grupo lhe denunciariam a obra em que se mostravam tão empenhados os sujeitos.

O quer que era estava pronto, pois voltando-se continuaram os marotos a assistir ao combate como simples espectadores; mas notou Vital que o quinto ficara atrás dos outros, e que no ombro do primeiro, mais à frente, aparecia um óculo negro que lhe estava olhando o peito.

No ânimo do mancebo surgiu uma idéia: saltear de repente a André de Figueiredo forçando-o a recuar por modo que se interpusesse à mira do mosquete, com o que não só o faria de escudo contra o tiro, mas livrava-se do inimigo sem o ferir nem tocar, sendo menos difícil então acabar com os outros.

Mas em todo o caso não lhe imputariam a ele só a morte do capitão, e com ela não se levantaria um túmulo para separá-lo de sua Leonor?

Quando ele cogitava nesta dúvida, de chofre bateu o cão do mosquete, e ao disparar-se o tiro, ouviu-se grande estrondo, maior do que se devera esperar da explosão da arma, ficando o aposento sepultado nas trevas.

Para explicação deste acidente, que vinha complicar o caso, carecemos de ir em busca da cavalheiresca D. Severa.

Tinha-se a dona recolhido à sua câmera, e achava-se então justamente em vestes de ninfa, com a insignificante diferença de uma anágua em vez da faixa clássica. Acabara de ler, como costumava, um capitulo do Palmeirim, e repassava na fantasia as aventuras do cavalheiro da fortuna.

Nisto ouviu grande rumor no pavimento térreo, e sobre curiosa, inquieta, vestiu as pressas uma cabaia amarela com que saiu fora a inquirições, levando a candeia na mão.

Se a visse naquele instante, com a capa de seda que na ausência das anquínhas se lhe pregava ao corpo como um estojo amarelo do qual saíam os dois joelhos que serviam de castões aos caniços das pernas, abandonaria com certeza o inspirado Lisardo a comparação da rosa, e buscaria no seu armazém poético outra imagem mais apropriada; por exemplo a flor da abóbora, ainda que esta naquele tempo não tinha entrada no Parnaso.

O corredor estava tranqüilo; pelo que animou-se a ninfa a chegar ao topo da escada por onde vinha o rumor.

- Quem esta aí? perguntou com desplante, ouvindo passos.

A pessoa que era galgou aos saltos a escada; e D. Severa reconheceu o Nuno, seu pajem desde a véspera.

- Acuda, senhora D. Severa, que senão acabam de matar o Vital Rebelo!

- Pois ele está aqui?

- Na casa do trem. Não ouve? Estava a falar com a mulher, a D. Leonor, quando o Sr. Capitão André de Figueiredo, que se pusera de espreita com os seus homens, deu sobre ele, e lá andam aos botes de portas fechadas.

- Leonor?

- Também lá está encerrada, que lhe ouvi as aflições, uma vez, no meio do barulho.

- Coitada!

- E o Rebelo, senhora, que gentil cavalheiro! Sete contra um! Ele só é homem para fazer frente a todos, mas era preciso que estivesse em campo raso. Assim de emboscada, com certeza o acabam.

- Não há de acontecer essa desgraça.

- Se já não aconteceu agora mesmo que lhe falo. A senhora consente que se mate a traição, aqui dentro da sua casa, a seu sobrinho, porque ele o é?

Estava precisamente a D. Severa pensando que era aquele um dos casos em que uma dama, segundo as regras da cavalaria andante, devia intervir em favor do oprimido; pelo que tomando a generosa resolução, disse para o Nuno, com o tom senhoril de uma castelã:

- Ide armar-vos, pajem, enquanto me adereço para amparar nossa formosa sobrinha e salvar-lhe o esposo.

- Mas, senhora; se perdeis um momento, chegaremos tarde.

- Quereis que me apresente neste desalinho, acudiu D. Severa pudicamente; e vós sem armas, que ajuda podereis dar?

Só então reparou Nuno no fresco atavio de ninfa em que se achava D. Severa; e pronto a replicar acerca da sua armadura da véspera que o esperava embaixo, não achou argumento contra a necessidade que tinha a dama, de um traje mais avaro de seus encantos serôdios.

Força foi ao moço, resignar-se durante meia hora em que, roído pela impaciência, descera dez vezes a escada para escutar à porta do armazém, e dez vezes subira para espiar no camarim da dama se ela acabara de adornar-se.

Afinal saiu D. Severa em grande paramento, de anquinhas, cauda, trunfa, pluma e leque, pois não dispensava em ocasiões solenes nenhum desses atavios fidalgos. Podia o marido de Leonor ter morrido vinte vezes no tempo despendido com esse adereço; mas ela é que não podia derrogar nos seus deveres de dama da primeira nobreza pernambucana.

Desceu a senhora com um andar pomposo ao rés-do-chão, onde o Nuno enfiou apressado a couraça e a cervilheira que deixara ao pé da escada para mais ligeiro correr acima e abaixo.

Depois que o pajem bateu debalde uma e muitas vezes na porta do armazém, lembrou-se D. Severa que do outro lado havia uma janela, por onde mais facilmente poderiam penetrar.

Deram volta, e à sumida luz da candeia, que o vento açoutava, acharam sem mais demora o que procuravam.

Precisamente nessa ocasião, Vital atento ao mosquete prestes a disparar, desviara-se para o lado esquerdo do armário, a fim de no momento dado abrigar-se com a quina do móvel.

Feriu-lhe o ouvido o ceceio das vozes de D. Severa e seu pajem que avisavam no modo de penetrarem no aposento. Notando que esse murmúrio saía da fresta que ficava entre o armário e a parede, adivinhou o mancebo a existência de um vão de janela ou porta naquele ponto. Com um olhar calculou a posição de seus adversários, a distância em que se achavam os to cheiros, e traçou um plano.

Ao disparar o mosquete, arrojou-se ele ao canto do armário, e metendo o braço entre o fundo e a parede, empurrou com tal força o pesado traste que este despenhou-se no chão, causando um temeroso estrondo e apagando as tochas com a violenta deslocação do ar.

Aproveitando-se da escuridão, o. intrépido mancebo encontrou às apalpadelas a janela; cuja aldraba facilmente abriu. Com o baque do armário, D. Severa soltara a candeia, ficando o corredor às escuras; mas percebia-se no fundo uma nesga. de céu.

Por ali desapareceu Vital.

Ao saltar a janela, encontrou resistência que logo cedeu, e ouviu um grito; mal suspeitava que duma peitada tinham virado de cambalhotas,. um sobre o outro, a respeitável D. Severa e seu pajem.

Mas o pior foi que, nesse rolo, a ponta do chifarote de Nuno ia vazando o olho direito da dama, que nessa ocasião provou a. vantagem de possuir um sofrível nariz.

CAPÍTULO VIII

UMA AMOSTRA DA GERINGONÇA POLÍTICA DE NOSSOS AVÓS


Pouco faltava para soarem trindades na torre da Madre de Deus.

Era um sábado, 15 de outubro, e portanto dois dias depois da aventura de Vital Rebelo em Olinda.

Havia essa tarde o ajuntamento do costume na calçada do mercador Viana, que morava como já se sabe à Rua da Moeda, para as bandas do Forte de Matos.

Aos dois e três iam chegando os principais da mascataria, e outros que não tinham voz ativa, mas serviam para fazer número.

Percebia-se que era de ponderação o negócio, não só pela maior companhia, como pela preocupação que se mostrava em todos os semblantes.

Junto a uma das janelas estava sentado o Viana, pai do nosso Nuno, e com quem ainda não tivemos ocasião de avistar-nos.

Era uma formidável amostra de homem, com sofrível estampa, e uma dessas caras sediças, ornadas do clássico passa-piolho, como se encontram a cada volta entre os nossos irmãos de além-mar, e que são vulgarmente conhecidas caras de mestre de barco.

No mais, boa pessoa, um tanto pachorrento e descansado na voz como nos gostos; marroaz, amigo da chelpa que para ele fora sempre a melhor política, o Sr. Miguel Viana passava entre os amigos no físico e no moral por um perfeito pé.de-boi.

Incomodara ao mercador a peraltice do Nuno que já ele sabia estar metido com os nobres em Olinda; mas devemos confessar que o desgosto do pai com a marotice do filho não foi tão grande quanto a mofina do patrão, por ver-se de repente sem caixeiro na loja.

À medida que vinham chegando os parceiros, erguia-se o mercador para os saudar, e também para alcançar dentro da casa os tamboretes que oferecia aos recém-chegados, os quais se iam abancando em roda.

A parte feminina da família entrava para a sala, onde estava a Senhora Rosaura para as receber com mil requebros em que nestas ocasiões se desfazia o seu corpo rechonchudo com sério risco de sua respeitável trunfa.

Já havia chegado com sua cara-metade e a menina Marta o digno almotacé, o Sr. Simão Ribas, que estava abancado à direita do Viana, e nesse momento apontara na esquina o importante almoxarife, Domingos da Costa Araújo, que se aproximou com um andar grave e enfático.

Era o Costa Araújo um dos luminares da mascataria e sem contestação o mais bem falante. Em arranjar um vistoso ramalhete de bonitas frases, ninguém levava-lhe a palma. No mais não se cansava; toda a ciência dos negócios, cifrava-a em ter por si o homem, fazendo-lhe como aos meninos se costuma as pequenas vontades.

Quando moço, tinha ele tomado ao sério essa nigromancia apelidada política, e prodigalizara grande soma de talento, de entusiasmo e de atividade, na defesa dos povos contra a prepotência dos governadores. Fora um dos precursores da democracia brasileira, que um século depois devia suscitar o Martins, o Miguelinho e outros mártires pernambucanos.

Nesse fervor dos anos escrevera uma filípica, no gênero de Demóstenes, contra a raça bragantina, o que lhe valeu a ira dos adversários, e o receio dos amigos que temiam-lhe o contágio.

Recebeu a lição e aproveitou-a. Conheceu que os povos, por quem se havia sacrificado, eram animais domésticos: à liberdade preferem o quente aprisco onde os reis os põem à ceva.

Desde então mudou de rumo; passou a. viver nos melhores termos com os governadores, que tinham em grande conta os seus conselhos; pelo que o proveram no cargo de almoxarife, além de outras mercês. Rosnavam os invejosos de um ato de contrição feito a D. Sebastião de Castro. Vinha o boato da mordacidade de um dos tais amigos, que se valem da intimidade para melhor beliscarem: são como os gorgulhos que se metem dentro do grão para lhe roerem a flor.

No físico, não fora a natureza tão liberal com o Costa Araújo como no moral; mas sabia ele dar à sua quadratura um tom apresentável. Se neste século de espiritistas em que se tiram fotografias às almas do outro mundo houvesse curioso que se lembrasse de pintar a estampa de alguma figura de retórica das mais bochechudas, como por exemplo a prosopéia, teríamos o retrato ao vivo do nosso pomposo almoxarife.

A seu lado o Simão Ribas fazia as vezes de um solecismo junto de uma oração de Cícero; e todavia não tinha o almotacé menos engenho que ele, avantajando-se-lhe assaz na cópia dos conhecimentos que havia colhido nas várias províncias literárias; pois era de muito e constante labor, tão versado nos livros quão pouco nos homens.

Tomou o Costa Araújo assento à esquerda do Viana, e depois das urbanidades usuais e de uma anedota contada pelo almoxarife, que apreciava esse acepipe literário, assoou-se o almotacé e temperou a garganta para abrir a conferência:

- Sabem os amigos e companheiros que se está seliamente cuidando no suplemo da cliação da nossa vila do Lecife; mas alguns senholes andam inquietos com a demola e então quiselam que se fizesse uma junta para se avisal no que mais convém e conceltal os meios de aplessal o nosso tliunfo. É pol isso que estamos aqui, cada um dos senholes melcadoles dilá seu palecei; o meu é que devemos confial no suplemo e espelai que a alta sabedolia da govelnação do Estado ploveja como entendel, que há de sel semple pelo melhol.

Compreenderam os circunstantes o sentido da arenga, pois além de muito habituados ao lambdacismo do Simão Ribas, sabiam que suplemo era uma expressão mística para designar o governador, tendo ele por míngua de respeito indicá-lo nominalmente.

Seguiu-se uma pausa formada pela hesitação daqueles que desejavam também dar sua colherada, mas tolhia-os o enleio. Um desses era o marreco do Capitão Miguel Correia Gomes que trazia decorado um farelório do Padre João da Costa, com a intenção de impingi-lo à assembléia, mas agora suava como um caldeirão a ferver.

Havia chegado momentos antes o Vital Rebelo, que apeara-se do cavalo e recostado ao selim ouvira a fala do almotacê. Percebia-se no seu gesto a indiferença que lhe inspiravam essas assembléias, onde se burlava a sinceridade de muitos em proveito da ambição ou comodismo de alguns.

- Como seja lícito a cada um dar seu voto por mais desencontrado que pareça, direi eu o que penso. Esta vila do Recife vai fazer em novembro um ano que El-Rei a criou; e pois que o governador por ele mandado a esta capitania tem deixado de cumprir a carta régia, mostrando-se rebelde, nosso dever de fiéis vassalos é obrigá-lo à obediência que deve a seu príncipe e senhor; e sendo preciso, erigirmos nós, os povos em conselho, o padrão da vila. Se estais por isso, contai comigo; mas das negaças em que andais às voltas com o governador, não entendo, nem quero saber.

O venerando almotacé, que tinha por costume ir todas as tardes ao benedicite em palácio, e que não punha taxa, nem julgava coima, sem levar antes a D. Sebastião de Castro um rascunho para receber a correção do mestre, azoou com aquela insólita linguagem, e apuridou ao Viana que ficara impassível, resguardado como estava contra esses sobressaltos pela espessa crosta de sua pachorra.

O almoxarife, porém, que viu retratada a sua petulância de outrora naquela isenção do mancebo, sorriu-se de um modo significativo, e pensou consigo como aos cinqüenta anos se não havia de espantar o Rebelo de seus arrebatamentos juvenis.

Nisso é que se enganava o Costa Araújo. Homens há, e ele era um, em quem o desengano gera o cepticismo. Em outros, porém, a fé é tão profunda e tão de raiz que não há extirpá-la; não podendo arrancá-la, o que fazem a ingratidão e deslealdade é que, à força de a abalarem, deixam ali uma chaga que se está magoando a cada instante contra as misérias do mundo. Era deste cadinho a alma de Vital.

- Aquilo é despeito! rosnou o Padre João da Costa.

- Como o governador não o fez capitão! ... acrescentou o Miguel Correia , enfunado da sua gineta.

Tomou então a palavra o Doutor Antônio de Sousa Magalhães, que foi um dos letrados de maiores créditos entre os mascates. Era meão de corpo e estatura. Não tinha fisionomia, mas uma cara insossa e desbotada sem a menor expressão. Só num traço reparava-se: era nos olhos pequenos, por causa das pálpebras sem pestanas e debruadas de vermelho que pareciam casas de botões.

Nos primeiros tempos dizia o Magalhães que o seu lote neste mundo o queria em ouro. Com a experiência, porém, foi aprendendo que o ouro é precioso sobretudo pela ductilidade, e conheceu quanto ele se prestava a todos os misteres, à cobiça, à ambição e até à beatice.

Era o nosso advogado um dos que mirravam-se com o desejo de pilharem um lugar na secretaria do governador, mas como a sombra fugia-lhe, inculcava-se de impossível, e não perdia ensejo de rufar a sua abnegação.

Foi insigne beato. Ouvia missa com exemplar devoção, e rezava todo o ofício da Semana Santa ajoelhado, de ripanço em punho; até fazia novenas e terços em casa. Mas a sua carolice não se reduzia a essa parte ascética; freqüentava o refeitório da Madre de Deus nos dias da peixada e apreciava as moquecas e pastelões que lhe mandavam de mimo em salvas de prata os padres Mendicantes do Seráfico São Francisco.

Passou o Dr. Magalhães por grande retórico, e poucos no seu tempo tiveram tanto jeito para engordar essa simpleza do vulgacho, que hoje em dia se decora com o pomposo nome de opinião pública e que melhor se chamaria de pasmaceira pública.

O que distinguia especialmente a facúndia do nosso homem era a entonação com que ele pronunciava as palavras. Essa espécie de eloqüência retumbante tem sido cultivada por outros, mas ninguém ainda levou-lhe a palma. Darei aqui um exemplo de sua força nesse gênero.

Em uma das arengas que ele freqüentemente fazia nas rodas dos mascates contra os nobres de Olinda, querendo pintá-los sob uma face odiosa que produzisse impressão no auditório, exclamou: Vivem atolados no pirão, na rapadura e na cachaça.

Um seu êmulo diria esse rasgo com uma voz estentória capaz de estremecer os alicerces; outros lhe dariam inflexões enfáticas; mas nenhum era capaz de a pronunciar como o Magalhães, percorrendo três escalas cromáticas desde a primeira nota do tiple até a última do baixo profundo.

A frase, começada no nariz, descia-lhe pela garganta aos burburinhos e ia roncar nas profundezas do ventre. Assim, quem o ouvia falar conhecia logo que o homem não só tinha grande papo, embora invisível, como que era insigne ventríloquo.

Quando o Dr. Magalhães e o Padre João da Costa se encontraram pela primeira vez, sentiram-se mutuamente atraídos por uma simpatia irresistível. Agora achavam-se estremecidos; e dizia o reverendo que muito breve haviam de ver o advogado ao serviço do Filipe Uchoa e da gente de Olinda.

Para rebater o alvitre do Rebelo, desfiou o Magalhães uma longa perlenga, cheia dos costumados borborigmos, e arrebicada de uns revirados de olhos com que ele pretendia dar à feição insulsa umas borradelas de ironia. Ao cabo, passada toda essa loqüela por um cantil, não ficava senão o bagaço do que havia dito o Simão Ribas.

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