Assim o venerando almotacé aplaudiu; o Viana remexeu os ombros, o que nele era sinal de grande comoção, e o Costa Araújo fez com a cabeça um gesto gongórico de aprovação.
Aqui terminou a junta, com o maior desprazer do Miguel Correia que foi obrigado a embuchar a perlenga, e do Campelo que não sofria lhe disputassem a glória de incensar o governador, cujo panegírico já tinha escrito, bem longe de pensar que teria de cantar-lhe a palinódia.
Vital Rebelo fora-se, e com ele a maior parte dos que tinham acudido ao convite. Nada se resolvera, mas era esse precisamente, e não outro, o fim da junta que se fizera para acalentar as impaciências de alguns sôfregos e exagerados. Falara o almotacé que todos sabiam da privança de D. Sebastião; e os mais exigentes voltavam satisfeitos.
Reduzida a roda aos íntimos, tornou-se geral a palestra, travando-se os colóquios a trecho.
- Eu cá, disse o Campelo, do governador não suspeito, não; mas o Barbosa de Lima não é homem em quem se possa a gente fiar.
- E o tal ajudante, que me tem cara de coveiro? E com certeza o é, que ainda se não meteu em empresa que a não desandasse, acudiu o Brás da Silva.
- Está muito atrasado o Campelo! acudiu o Padre João da Costa a rir. Pois o Barbosa de Lima é o que D. Sebastião quiser; que o seu grande talento é este de ser todos, menos ele próprio, que nunca o soube, nem pôde.
- É a pura verdade, acudiu o Miguel Correia, que tinha por devoção apoiar o seu confessor e amigo.
- E senão vejam, continuou o reverendo: o que disse o Padre Leitão domingo passado quando pregou na festa de N. Senhora do Rosário?
- O que foi então? perguntou o Seara.
- Que o secretário tão fácil qual Lucano se encarecia, como qual Proteu se fingia e transformava.
Parece que deu-lhe no goto ao Padre Antônio Gonçalves Leitão a frase, pois ela se encontra textualmente na história da Guerra dos Mascates quando fala do Capitão Barbosa de Lima, querendo aludir ao ouro dos mascates de que a inveja e a maledicência o diziam cosido, bem como á versatilidade de gênio.
É achaque este de todos os tempos, que são os amigos quem primeiro e com maior empenho se incumbem de dar voga aos aleives e epigramas dos contrários. Assim, não trazia o Cosme Borralho, de Olinda, nenhum desaforo contra este ou aquele dos mascates, para o insinuar à esconsa no ouvido de alguns dos seus fregueses, que à noite não tivesse corrido todo o Recife.
Interviera no diálogo o Zacarias de Brito:
- Pois para mim, o Capitão Barbosa de Lima é homem de muito conceito que vale o seu peso, e não só para mim como para todo o Recite.
- Ninguém diz o contrário, observou o Campelo, ressalvando em tempo o destempero da língua.
- Por certo. Quem o nega? acudiu o Miguel Correia.
- Esses mexericos que por aí andam, donde vêm senão da raiva que têm os de Olinda de o haver perdido, sem contar a inveja de outros que não podem sofrer as suas boas partes?
Este Senhor Zacarias de Brito, seja aqui dito entre parênteses, queria ser contratador do sal, boa fatia que esperava arranjar.
Não havia naquele tempo a maquia dos agenciamentos de voluntários e privilégios lucrativos, com que os ajudantes de um governador-filósofo recompensassem os obséquios do amigo, as carícias de alguma bela dama, e a paciência dos camaradas impertinentes; mas já então existiam os estancos e monopólios com que se esfomeava o povo para enricar aos mimosos da terra.
Nenhum dos circunstantes fizera reparo em uma velha de mantilha, que desde o começo da palestra levara a passar pela frente da casa do Viana, quando não se escondia no canto do outão. Embora não tivesse a conferência cousa de comprometer, tanto que a faziam na calçada, todavia se percebessem o manejo da sujeita, é de crer que não consentiriam nessa bisbilhotagem.
Cansada de espreitar, a velha deitou-se a trote miúdo para as bandas do Corpo Santo e foi ter a uma rótula, onde aparecia a mais emaranhada grenha que já lastrou em cabeça de mulher. A dona deste cipoal mal se podia conter à gelosia; pois lhe estavam saindo a língua e as melenas pelas grades e o corpo pela adufa.
- Deus me perdoe! Querem ver que foi esta excomungada que se alambazou com a minha mantilha! Ladra do inferno! Espera que eu te ensino!
Proferindo esta praga, a sujeita que deitara os gadanhos ao pescoço da velha puxou-a para dentro onde, com espanto seu, desembrulhou-se da mantilha a cara velhaca do nosso muito conhecido Cosme Borralho.
- Eu logo vi que eram artes deste peralta! Que anda você fazendo por aí com a minha mantilha?
- Nada; foi para divertir-me com os rapazes.
- E por causa das suas brejeiradas me deixa aqui presa quando me estão esperando na casa da Rosaura a que prometi não faltar! Ai que não sei onde estou, marotinho, que te não arranco esses olhos de cabra morta!
- Ora, não se zangue, prima Inacinha, disse o Cosme com ar magano, que eu tenho um segredinho para lhe contar.
- De Olinda? perguntou a Inácia em cócegas. O que é?
- Escute!
Conchegaram-se os dois a um canto, e pôs-se o Cosme a cochichar no ouvido da prima, que estava num formigueiro com a pressa de ir-se ao serão ajustado, e o prazer da novidade que levava.
Acompanhara o gaguinho o tal segredo de um acionado original, e de uns requebros de corpo, com que se enroscava pela Inacinha, a qual não se agastava com essas licenças oratórias do escrevente.
Acabou o Cosme dando à prima um papelinho, que ela meteu no cabeção e traspassando a mantilha, enfiou pela porta fora, como galinha poedeira à cata do ninho onde largue o ovo.
DESCOBRE-SE O CASUS BELLI COM QUE NÃO ATINARAM OS CRONISTAS DA GUERRA DOS MASCATES
Há quem pense que nada se move neste mundo sem licença da mulher.
Do mais não sei; mas de guerra posso afirmar que nunca as houve, nem é possível haver, quando não o queira a soberana saia.
Podia desfiar aqui um rosário de provas tiradas da história, além de um milhão de argumentos fisiológicos; mas isso nos levaria muito longe, e para o nosso caso basta o que se passava àquela hora aí na casa do Miguel Viana.
A sala estava cheia do mulherio que se atulhara pelos estrados, como era uso naquele tempo, e não motejem as moças de agora dessa moda de sentarem-se as nossas bisavozinhas com as pernas cruzadas, que se elas cá tornassem, não se haviam de rir menos vendo suas bisnetas ainda franguinhas e já repimpadas em cadeiras de alto espaldar como se fossem umas abadessas.
Sentada em tamborete baixo, a Senhora Rufina presidia ao areópago feminino.
- Mas, gentes, não acham que já é tempo de dar uma esfrega nessa súcia de pés-rapados? dizia a Senhora Rosaura que estava mordida com a escapula do filho.
- Não se agonie, senhora, que havemos de ensiná-los em regra; mas é preciso fazer as cousas com jeito, porque lá de barulhos não me falem. São capazes de meter os nossos homens na alhada, e tirar-lhe por aí a cabeça de uma cutilada! Então o meu, que já é tamaninho!
- Enquanto isso, vão os de Olinda roubando a seu salvo nossos filhos porque não têm quem lhes vá à mão! retorquiu a Senhora Rosaura com azedume.
- Ora, comadre, isto foi uma vadiagem do traquinas do rapaz que é mesmo da pele do cão. Outro dia, que não fez o demoninho lá em casa? Se ele tem bicho carpinteiro, sou capaz de jurar. Pois não, senhora!
- É mesmo! O capetinha não é capaz de assentar o sim-senhor um instante que seja, disse a velha Engrácia.
Carecemos de advertir ao leitor, que a Senhora Engrácia tinha uma linguagem um tanto espevitada; costumava empregar alguns termos em uma acepção peculiar sua.
Muitas locuções pitorescas que ainda hoje vogam pelo norte foram inventadas pela Senhora Engrácia, que até do português pouco sabia, e dizem certos sabichões que para cunhar palavras, se precisa saber latim, grego, e ser versado nas línguas vivas e mortas. Que tarelos!
Agora o que ela chamava sim-senhor, adivinhem se puderem, que a crônica neste ponto é omissa.
- Mas deixe estar, continuou a Rufina, que tudo se remedeia; eu já falei ao primo. Rebelo, que prometeu-me trazê-lo pela orelha; porém, não consinta que lhe ponha mais o pé em casa; de lá mesmo é arrumá-lo no primeiro navio que sair para o reino.
- É o que o Sr. Miguel Viana ia fazer por conselho do Ajudante Negreiros, quando o capetinha parece que desconfiou, e escafedeu-se; e logo para meter-se com aquela gente! Assim o agarre eu, como vai direitinho para Lisboa.
Ouviu-se um suspiro, que fez a Senhora Rufina lançar uma olhadela para o canto donde se escapara aquela tímida queixa. Ali estavam juntinhas a Marta e a Belinhas, que encontravam-se essa tarde pela primeira vez depois dos importantes sucessos de que foram teatro a janelinha do sótão e a rótula do beco.
Imagine-se pois o que não se tinham a contar as duas camaradas, e como eram curtos os momentos para sua garrulice. Cada uma começou dez vezes a história que a outra, impaciente, interrompia para continuar a sua; e assim aos pedaços, alinhavando aqui e cerzindo ali, conseguiram ambas dizer, não quanto queriam, mas bastante para o caso.
Acabava Belinhas de comunicar à amiga que o Lisardo àquela hora devia estar ao pé da cerca esperando vê-la na rótula; e Marta lembrava-se do Nuno que andava por longe, quando a ameaça da Senhora Rosaura de mandar o filho para Lisboa, arrancou-lhe aquele mavioso suspiro.
- Eu cá, se o caso fosse comigo, havia de remeter o pequeno para Lisboa, mas era depois de ter dado o troco aos tais fidalgos de meia-tigela.
Essa observação vinha da velha Engrâcia, que era uma das mais decididas do mulherio recifense.
- O troco, eles o hão de ter, que lho há de dar o governador, e com usura, tornou a Rufina como quem lambia por dentro.
Não se rendeu a Engrácia:
O governador é um trapalhão que não ata nem desata. Olhe, senhora, o verdadeiro era untarem as unhas ao Camarão, e então veriam a pisa que lhes ele assentava, na cabralhada de Olinda, e não lhe doessem as mãos, que é do que eles andam muito carecidos.
- Que o governador é remanchão, isso é, acudiu a Josefa do Cartacho em tom de importância. Fosse ele outra casta de homem que já o Recife estava cansado de ser vila.
- Apelo eu! tornou Rufina. Que estas cousas assim de supetão, senhora, sempre saem aferventadas. O D. Sebastião de Castro, fique com esta que eu lhe digo, é manhoso, e sabe o nome aos bois, como diz o meu homem. De mais a mais, enquanto ele estiver por nós, ainda que vá empalhando, somos do partido do rei, que sempre serra de cima. Por isso é que eu sustento, minha gente; nada de barulhos; que tudo se há de arranjar com jeito e paciência. Quem é que vai meter seu gadanho no fogo, quando pode tirar a sardinha com a mão do gato?
Um zumbido de aprovação acolheu o discurso da mulher do almotacé, prova de que predominava no concílio feminino o partido da paz. Efetivamente as recifenses, apesar de seu vivo desejo de verem criada a sua vila, não dissimulavam que os maridos, pais e irmãos, destros em manejar a vara e o côvado, fariam triste figura com as armas na mão; além de que não eram de todo insensíveis à galhardia dos mancebos de Olinda, os quais preparando-se a vencer os mascates, se rendiam aos requebros dos olhos feiticeiros das lindas mercadoras.
- Tá, tá, tá! treplicou a Engrácia, oposicionista acérrima. Vá-se fiando no bicho, que depois eu lhe contarei uma história. Olhem, gentes, eu sempre enquijilei com homem sonso.
Neste ponto barafustou pela casa dentro a Inacinha, a quem vinha comendo a língua a novidade que trazia.
- Ora muito bem chegada! disse a Rufina.
- Mais vale tarde do que nunca! observou a Rosaura a rir.
- Para a nova que trago, antes nunca chegasse! tornou a Inacinha com ar de importância.
- Que nova é essa, mulher? perguntou a Rufina.
- Que é?... Que é?... Ora adivinhem!
- Despache-se de uma vez, criatura. Não esteja ai a resmoer a gente! acudiu a Rosaura, que já se achava sobre brasas.
- Que há de ser? Um desaforo!...
- Da ralé de Olinda?
- De quem mais?
- Mas então que foi?
- A cousa é de cantiga. Eles mandaram pôr em trova... Já me esquece o nome do cujo... Mandaram pôr em trova para andar na boca do mundo.
- Ó mulher de meus pecados, não falarás?
- Que estou eu fazendo, dés que entrei? Agora se não me deixam acabar, não tenho eu a culpa.
- Pois acabe..
- Diga a trova.
- Isso, não digo. Então a gente mete assim no caco de repente uma embrulhada de versos?
- Neste caso o que trouxe você, gente? perguntou a Rufina.
- Está o que é! disse a Inacinha apresentando o bilhete que tirou do seio.
- Ah!
Murchou a. orelha ao mulherio que estava à escuta, com as ouças afiadas para a novidade. Naquele tempo ainda não se contava entre as prendas de uma boa dona de casa, o saber ler e escrever: era isso luxo fidalgo, que não chegava a todos. Não se estranhe pois o logro que sofreu nesse momento a curiosidade feminina.
- Marta! disse a Rufina, passado o primeiro pasmo. Toma este papel e lê o que está aí.
Ergueu-se a menina para obedecer à mãe, e aproximou-se da cantoneira onde bruxuleava a candeia. Belinhas acompanhara a amiga e por cima do ombro a ajudava a soletrar as palavras escritas em bastardinho.
Estavam ambas trêmulas e com as faces a arder; principalmente a que tinha de fazer a leitura.
Não era qualquer bagatela esta exibição. A travessa Marta não sentiria tão grande acanhamento, se mocinha de hoje, no dia seguinte ao deixar o colégio e as calças curtas, fosse obrigada a cantar em sala de baile a mais difícil cavatina de Rossini.
Decorrido o tempo necessário para que as duas meninas soletrassem todas as palavras e chegassem ao fim do papel, a Rufina interpelou a filha:
- Anda, menina!
- Senhora mãe!... balbuciou Marta.
- Lê!
- É uma cousa muito feia!
- Mas o que é? perguntaram as outras tinindo de curiosidade.
- Eu não sei!
Que fazes ai com os olhos no papel?
- Lê tu, Belinhas!
- Eu! Deus me defenda!
- Marta, deixa-te de dengos. Lê, que te mando eu.
Quis obedecer a menina; mas a palavra que lhe espontava no lábio gentil, recolheu-se num assomo de pudor.
- Não posso!
- Oh! buginica! disse Rufina ameaçando de longe a filha com um coque.
- Olhem lá, gentes, não seja alguma brejeirada! observou prudentemente a Josefa.
- É mesmo! Pode sair daí uma sujidade!
- Que partes são estas agora! acudiu a Inacinha. Eu cá sou mulher de andar com porcarias?... AI o que tem demais é uma história cabeluda!
- Estão vendo!... Tem história cabeluda, senhora! exclamou a Josefa.
- Tenha o que tiver, há de ler, ou eu não me chamo Rufina, gritou a mulher do almotacé levantando-se.
- Eu pelo sim, pelo não, vou tapando meus ouvidos, disse a Josefa que estava latejando por saber.
- Agora é que te quero ver, sirigaita! dizia a Rufina ameaçando a filha com um beliscão. Se tiveres o atrevimento de me respingar, com certeza te meto no convento, não sei que diga! Anda, deita já para aí.
Afinal decidiu-se a Marta, que dum fôlego, antes que se arrependesse, leu de afogadilho o conteúdo do papel.
Todo o mascate é patife,
Labrego, cara de Judas;
E as mulheres do Recife
Tem as pernas cabeludas.
- Desavergonhados! gritou a Senhora Rufina.
- Desaforo!
- Já se viu um atrevimento igual?
A grazinada de um bando de maritacas, em roçado de milho, quando lhe disparam um tiro, pode dar uma idéia da algazarra que levantou no congresso feminino a quadra fatal, que ia conflagrar Pernambuco.
Chamar os mascates de patifes, labregos, judas e cousa pior, era sem dúvida uma insolência; mas não havia estranhar na canalha de Olinda que ela se despicasse dos epítetos afrontosos que também não lhe poupavam os recifenses.
O que, porém, não tinha nome e tomava as proporções de um atentado sem exemplo, era dizer-se que as damas do Recife tinham pernas cabeludas. Todos os tratos da inquisição não bastavam para punir este crime inaudito, que só podia ser expiado na fogueira.
Enquanto serena o alvoroço produzido pela leitura, aproveitamos para dizer a origem daqueles versos.
O Nuno, que era um grande abelhudo, certo dia espiando pelo buraco da fechadura, tinha visto na alcova da mãe uma perna tão cabeluda que a princípio lhe pareceu de tamanduá. Mas logo com espanto descobriu que pertencia a certa pessoa que nesse dia estava de visita em casa da comadre e fora ao quarto para concertar a saia.
Passando-se a Olinda onde a D. Severa o atanazava de perguntinhas, escapuliu ao rapaz a descoberta da perna cabeluda, que a dama muito apreciou encarregando logo ao Lisardo de a pôr em verso. As torturas por que passou o nosso poeta nessa ocasião não se descrevem; tentou ele em princípio descorar o epigrama, mas a ninfa olindense obrigou-o ponto por ponto a rimar aquela quadra em que ofendia a formosura sem par da sua adorada Belisa.
A rima foi recitada no serão do Capitão-Mor Cavalcanti e muito aplaudida. No outro dia teve o Cosme vento da cousa e logo tratou de a meter no bico da gente do Recife, na esperança de ir assim cada vez mais turbando as águas onde contava pescar. Do como o fez, já sabemos.
- Só enforcados! dizia a Josefa.
- Qual enforcados, senhora! Ainda picados como cabidela para fazer pastéis, ou assados na grelha do Santo Oficio, não pagam esse desaforamento, exclamou a Rufina.
- Eu como não tenho perna cabeluda!.... disse a Inacinha.
- Quem fala nisso agora, mulher? exclamou a Rufina furiosa. Tenha ou não, é o mesmo! Há de andar como as outras na boca do mundo.
- Mas quem foi o renegado que fez este verso?
- Espere!... Não me lembro mais do nome!
- Pois indague, que ele é quem há de tirar a prova do pelourinho de nossa vila. Já me estou regalando de o ver açoitar!
- Eu, se o encontrasse, arrancava-lhe os olhos com estas unhas!
No meio da tempestade levantada pela rima do Lisardo, tinham-se esgueirado da sala as duas meninas, que foram direitas ao quarto de Belinhas.
- Você não disse que ele está esperando? perguntou a Marta.
- Penso que está! respondeu corando a outra.
- Então é chamar?
- Eu, Marta?
- Pois, Belinhas, quem há de ser?
- Tenho vergonha!
- Então eu chamo por você.
E a Marta caminhou para a rótula com ar decidido.
- Está bom; eu vou! tornou Belinhas mais animosa.
Com efeito entreabriu a rótula, e viu junto ao oitão uma sombra.
- Anda, Belinhas!
A menina deu um psiu tão sumido que não se ouviu a dois passos. Marta, porém, repetiu o sinal com força muitas vezes.
O nosso Lisardo, assim avisado de repente, esteve a abalar dali, tonto com a aventura. Mas a voz impaciente da filha do almotacé o colou à parede.
- Venha!...
O nosso poeta ficou imóvel.
- Venha já!...
Parou-lhe a respiração:
- Senão fico zangada!
Foi preciso despachar a Benvinda para trazer à fala o poeta, que só depois de mil sustos e arrependimentos resolveu-se a acompanhá-la.
Quando ó Lisardo penetrou na alcova, a Belinhas o esperava encostada na cabeceira da cama, e a Marta escondida por trás do cortinado ficara de espreita, para animar a amiga a quem ensinara o recado.
Saiu porém a cousa ás avessas; porque o Lisardo depois de duas topadas que deu ao entrar, e que o iam levando ao chão, embutiu-se no canto do trumó como se fosse uma figura de pau; e a Belinhas repuxando as sanefas do cortinado, foi-se enrolando de modo que não se lhe via senão a ponta do pé.
Nesse jeito achou-se Marta descoberta, e vendo que os dois namorados não tugiam, assentou ela de tomar a si a tarefa e com a sua natural e graciosa petulância dirigiu-se nestes termos ao Lisardo imóvel e cabisbaixo.
- Saiba o Senhor Lisardo de Albertim que não veio aqui para ficar assim amuado num canto. Quando Belinhas o chamou foi para experimentar os seus extremos, porque tendo vindo lá de Olinda uns versos em que se dizem cousas muito ruins das moças do Recife, ao senhor, que se rendeu à formosura de uma dessas tão maltratadas, cabe responder.
Estremecera o Lisardo lembrando-se da quadra que a D. Severa o obrigara a fazer, e julgou-se perdido. Marta continuou, mostrando-lhe os aviamentos de escrever postos sobre o trumó.
- Ai está a pena e todo o mais recado de escrita. Arranje-se, que daqui não sairá sem estar pronta a rima. Há de ser uma cousa que belisque as tais bugínicas de Olinda. O senhor há de dizer, ouça bem, que elas são magras como um fuso; e que todo aquele espalhafato que mostram não é nada senão uma gaiola coberta de panos. Está entendido, senhor poeta? Pois trate de desempenhar-se da obrigação; e veremos então se os seus rendimentos por Belinhas são sinceros, e qual recompensa merece a sua fineza.
Inclinou-se o Lisardo ao trumó, e a musa da pirraça, sob a figura travessa da gentil Marta, inspirou-lhe contra D. Severa estes versos que, embora alusivos a todas as olindenses, eram todavia mentalmente dedicados à ninfa:
Escorridas como um fuso,
As damas de Olinda são;
Por fora aquele esparrame,
Por dentro é só armação
De pano, d'osso e arame.
Tendo lido a quintilha, a Marta aplaudiu com uma risadinha brejeira, e puxando de dentro do cortinado a mão de Belinhas, que resistiu de leve, a deu a beijar ao nosso poeta.
- Isto é para o senhor; agora para o Nuno.
A menina tirou do seio um raminho de alecrim, que entregou ao poeta, mas logo pareceu arrepender-se:
- Não, não lho dê; guarde para si.
Sentiu umas cócegas a Belinhas, que entreabrindo o cortinado acudiu mui pronta:
- Dê ao Nuno, dê sim, senhor, que isso não lhe pertence.
- Pois dê, se quiser; mas não que eu mande.
Partiu afinal o Lisardo; e as meninas voltaram à sala.
Quando ali entraram, acabava o congresso feminino de resolver a guerra a todo transe, distinguindo-se entre as mais belicosas a Senhora Rufina, que pouco antes se mostrara tão prudente e conciliadora.
Mas a história da perna cabeluda posta em verso tinha abespinhado a venerável matrona, que desde esse momento não respirou senão vingança, e tanto fez que terminou por desencadear a guerra dos mascates, apesar de todas as manhas de D. Sebastião.
O COSME BORRALHO MOSTRA COMO JÁ NAQUELE TEMPO SUAVA-SE PARA ARRANJAR UM TABELIONATOZINHO
Enquanto se davam estas ocorrências, a magna questão da criação da vila do Recife não adiantava uma polegada nos conselhos de. D. Sebastião.
"Marcar o passo" - era a manobra favorita do novo Fábio, que dissipava o tempo em marchas e contramarchas, deixando-se no meio de suas irresoluções governar pelos acontecimentos, em vez de os governar, como devem e costumam os homens superiores.
Tinha Sebastião de Castro acenado aos nobres de Olinda com a protelação no cumprimento da carta régia que mandara criar a vila; e dessa política de inércia contou ele tirar dois proveitos: o de engodar os pernambucanos, arrefecendo-lhes os assomos de revolta; e o de trazer pelo cabresto aos mascates, que o cumulariam de bajulações, para terem-no a favor.
Ordenava a carta régia de 19 de novembro de 1709 que o governador da capitania com o ouvidor-geral fizessem o termo que entendessem podia caber ao distrito da vila. Essa intervenção do magistrado era um freio salutar que o Rei pusera ao arbítrio de Sebastião de Castro.
Este, porém, achou jeito de iludi-lo, como fazem modernamente os reis constitucionais com os parlamentos, que se não deixam corromper de rosto alegre pelas tetéias e boas propinas. Mandam-nos passear como importunos. Assim o fez D. Sebastião com o ouvidor, como veremos no decurso dos acontecimentos.
Servia então o cargo de ouvidor-geral da Capitania de Pernambuco, o Dr. José Inácio de Arouche, que os de Olinda encareciam por honradíssimo, de ânimo reto e mui imparcial; mas não vem fora de sazão advertir que o magistrado foi acérrimo sequaz dos pernambucanos.
Era o Dr. Arouche sujeito meão, seco, e teso de porte. Os ossos repuxavam-lhe a pele encarquilhada, porque desde moço que a inveja o mirrava. Não perdia ocasião de engramponar-se na sua integridade e longa prática, o que não o impedia de render-se às próprias paixões.
Não atendia a amigos, porque não os tinha, nem os egoístas sabem a significação dessa palavra, que para eles é apenas um sinônimo de criado. Mas costumava apaixonar-se de tal sorte nos feitos, que não era a sua consciência, senão a sua irritabilidade quem julgava.
Pouco tempo depois de recebida a carta régia, chamou Sebastião de Castro a palácio o ouvidor para ouvi-lo sobre a demarcação do novo termo. Pediu o Dr. Arouche tempo para meditar o assunto; e dias depois apresentou seu parecer, opinando que se não podia dar à vila maior termo do que do Forte do Brum à Ponta dos Afogados.
A antiga vila de Olinda, que então abrangia quase todo o território da atual província, se compunha de doze freguesias, das quais três urbanas. Ora, segundo o parecer do Dr. Arouche, vinha o Recife a criar-se em vila com sua única freguesia, o que não estava no espírito da carta régia, e menos no bem dos povos. Mas que se importava o ouvidor com os povos, desde que agradasse a seus amigos, os quais lhe conheciam o fraco e não se cansavam de proclamá-lo magistrado integérrimo, tipo e modelo de juizes?
Inteirado do parecer do ouvidor, e depois de o haver meditado em todas as suas partes, fez Sebastião de Castro ao magistrado esta observação:
- Noto que o senhor ouvidor-geral, pela demarcação que dá ao termo, deixa apenas aos povos do Recife o direito de apanhar mariscos em só metade do rio!
- Nem outro alvitre seria justo; pois também os povos de Olinda, que são tão bons como os povos do Recife e como eles comem mariscos, só ficam com o direito de o apanhar em a outra metade do rio.
O argumento era de estucha; mas D. Sebastião tinha sempre uma avenida por onde se espacava.
- O rio pertence ao Recife, senhor ouvidor.
- Pertencerá se lho derem, e não há de ser com o meu voto, que por ora pertence a Olinda, cujo deve ser em parte igual.
- Está bem. Ainda não tenho juízo assentado sobre este particular, que se carece mui estudado e refletido, como objeto que toca tão de perto à pobreza.
Nesta conformidade resolveu Sebastião de Castro ouvir acerca da questão ao provedor da fazenda e outros ministros da capitania; porque era homem que se não decidia sem meter-se antes em uma barrela de conselho, para lavar da consciência todos os escrúpulos.
Opinaram os informantes que se formasse o novo termo com as quatro freguesias do Recife, Cabo, Moribeca e Ipojuca; mas não era a porção de território e a comodidade dos povos o que mais preocupava o ânimo do governador, e sim a magna questão do marisco.
Parecia que, sendo o marisco objeto de tamanha importância, era de justiça, como dizia o ouvidor, reparti-lo entre a pobreza das duas vilas; mas isso que se figurava tão simples, enredava-se com mil filigranas no espírito do governador a ponto de tornar-se um inextricável labirinto ou outro nó górdio impossível de desatar...
As consultas de tantos informantes consumiram os dez meses decorridos; para dar a última demão ao negócio chamara Sebastião de Castro os ministros e principais a conselho para rever a matéria e assentar-se definitivamente no melhor alvitre.
Mas, durante esse lapso de tempo, não dormia o governador sobre o caso.
Por ordem sua se lavraram às ocultas e de noite no Forte do Matos as pedras de cantaria para o novo pelourinho; de modo que, sendo preciso, se pudesse erigir a vila de um dia para outro.
Naquele tempo não se criavam cidades e vilas como hoje, com uma penada; era indispensável a picota, erguida na praça concelheira, às aclamações do povo, como padrão do governo da terra.
Com o seu peco de ingerir-se em tudo, ia o governador regularmente nos passeios da tarde ao Forte do Matos examinar o andamento da obra, e ai entendia com os canteiros sobre o corte das pedras, a ferramenta e outras minudências do ofício; pois foi ele um enciclopédico, que em tudo falava de Cadeira e dava quinau.
Esse negócio do pelourinho era um segredo que não passava do Secretário Barbosa de Lima, do Ajudante Negreiros, do almotacé, além dos canteiros, o. quais estavam prevenidos de que a menor indiscrição os lançaria nos subterrâneos das Cinco Pontas.
Sucedeu porém que na volta da casa do Viana, a Senhora Rufina, que vinha tinindo, disse para o marido:
- Fique com esta que lhe digo, Senhor Simão: que o tal governador é um papa-açorda.
A verdade histórica obriga-nos, bem a nosso pesar, a repetir as palavras descabeladas da virago recifense, sem que por isso deixemos de catar o respeito devido à memória de D. Sebastião.
O almotacé, que nem por sombra suspeitava do epigrama feito à perna cabeluda de sua cara-metade, ficou estupefato.
- São modos, senhola, de falal do excelentíssimo goveinadol, o blaço de El-Lei nesta capitania?
- Eu cá, tornou a matrona fincando o punho no quadril, não tenho papas na língua, o senhor bem sabe; nem estou mais para aturar as lérias do paspalhão de seu amo; que tão bom é um como o outro!
O Sr. Simão Ribas, zonzo com essa desenvoltura de língua, de que apenas damos a amostra, assentou de aplacar o fogacho que ameaçava perturbar a paz conjugal; e não achou melhor meio do que revelar à sua digna esposa o segredo do pelourinho, recomendando-lhe, porém, inviolável sigilo.
Ora, a Rufina, que ruminava no modo de atiçar o governador contra os olindenses, viu logo todo o partido que podia tirar do negócio do pelourinho, e no dia seguinte bem cedo aprontou-se para ir à Inacinha.
Tratava-se de levar a Olinda a notícia do que se estava fazendo no Forte do Matos. Era uma pedra que metia no sapato dos nobres, com a esperança de os instigar contra o governador e assim obrigar este a deixar-se de panos quentes.
Ao entrar na cadeirinha que a esperava no corredor, correu a menina Marta dizendo:
- Senhora mãe, veja uma cousa que agora mesmo atiraram da janela!
- Que é isto?
- Um papel, respondeu a menina mostrando. Veio assim embrulhado, e tem umas cousas escritas.
- Pois destrinça lá isso! ordenou a Senhora Rufina que estava com pressa; mas logo arrependendo-se estendeu a mão para tomar o papel. Não, que pode haver ai alguma brejeirada!
- Não tenha susto! respondeu Marta sorrindo.
- Então sabes o que está aí?
- Se eu já li! disse a maliciosa menina. Quer a senhora mãe ouvir?
E sem esperar resposta, leu a Marta desta vez com o maior desembaraço a redondilha que na véspera fizera o Lisardo.
- Da cá, da cá, menina! exclamou a Senhora Rufina nadando em júbilo. Agora é que as tais remelosas se vão esconjurar! Isso não passa de artes do Padre João da Costa. Ele não é trovista; mas anda metido com o Tunda-Cumbe que tem o seu jeito, o diacho do galego! Eu só estou imaginando a cara da tal Severa! A arrenegada então, que é mesmo um pau de virar tripas!
Meteu-se afinal a Rufina na cadeirinha que partiu levada por dois pretos carregadores; e pouco tempo depois parava à rótula da Inacinha. Quem acudiu ao bedelho foi o Cosme Borralho, que reconhecendo a mulher do almotacé, quis recolher-se; mas era tarde.
Felizmente veio tirá-lo dos apertos a prima, correndo a receber na porta a Senhora Rufina, enquanto o Pisca-Pisca à esconsa enfiava a garnacha que havia enforcado no garabato da candeia, e compunha um tanto a frescalhota, pois o nosso escrevente estava, com o devido respeito, de cuecas, e estas ornadas de dois rombos enormes nas partes mais rotundas do seu indivíduo.
Não escaparam à mulher do almotacé esses pormenores, que franziram-lhe a testa, afilando o nariz já de natureza pontudo e daquele molde que o povo na sua linguagem pitoresca chamou com muita propriedade nariz de sovela.
Vendo a Inacinha arriscada sua boa fama de viúva recatada, arranjou logo uma peta para explicar a presença do Cosme em sua casa àquela hora e com tamanha sem-cerimônia,
- Este é meu primo, que está de escrevente de cartório; e como chegou agora muito cansado lá do Monteiro, onde foi por uns papéis, e como estava pingando de suor, coitado!... Então eu lhe disse que tirasse a chimarra para refrescar.
Nesse momento não mentia a viúva, que o Pisca-Pisca suava deveras para acertar com a mão na manga direita, cuja cava lhe fugia quando cuidava acertar, tão atrapalhado estava ele com a presença da esposa do almotacé. Também de seu lado ele via perdida, não a fama, do que pouco se lhe dava, mas a prebenda que esperava alcançar dos mascates como prêmio de seus préstimos.
A Senhora Rufina ouvira de pescoço teso e ar empertigado a esfarrapada mentira que lhe pregara a viúva, sovelando com o canto do olho ao pobre do Cosme Borralho que estava em termos de desconjuntar o ombro e enfiar-se duma vez ele todo pela manga da garnacha, como o mais pronto meio de sumir-se!
- Senhora desavergonhada!... gritou afinal a Rufina crescendo para a viúva.
Desabava a borrasca, e bem o conheceu a Inacinha que, sem dar-se por achada do epíteto que a outra lhe acabava de pregar na bochecha, achou modos de arredar o temporal desfeito que vinha sobre ela.
Pondo-se na ponta dos pés, alcançou o ouvido da Rufina, que não teve tempo de afastar-se.
- Foi ele que trouxe o verso de ontem.
Operou-se na atitude da mulher do almotacé súbita mudança; não que ela desengatilhasse de todo o carão engravitado pela sua pudicícia arrufada; mas já não ameaçava disparar numa descalçadeira, como as sabia dar a matrona recifense.
- Então este sujeito tem partes com os de Olinda? perguntou em tom de juiz, que ela tinha mais que o marido almotacé.
- Pois se é escrevente do cartório! E também copia os papéis do licenciado, o Davi de Albuquerque, que é o trampolineiro-mor dos tais pés-rapados. A senhora não sabe?... O maldito do entrevado, que antes Nosso Senhor lhe tivesse mirrado a língua e encarquilhado a mão para não fazer o mal que está fazendo, e que o há de levar direitinho ao inferno. Oh! se há de!
Enquanto falava a Inacinha, o Cosme que afinal se havia composto, fazia-lhe do canto sinais de silêncio; mas ela ia por diante sem importar-se com os esgares do rapaz.
Quanto à mulher do almotacé, prestando à tagarelice da Inacinha ouças distraídas, estava ruminando no caso.
Era a Senhora Rufina um politicão de primeira força; basta que, não tendo nada de bonita, antes sendo sofrivelmente feia, conseguia meter o seu gadanho na governança por meio do marido. Assim no tráfego da sua quitanda entravam, com os coentros e repolhos da horta, uns oficiozinhos de justiça ou fazenda, e patentes das ordenanças.
A resulta das cogitações da matrona foi que não devia transtornar o seu plano por causa de uma pouca vergonha que lhe estava inchando os bofes, mas que ao cabo não lhe tocava de perto. Fez ela o que atualmente estão fazendo todos os dias os chefes de partido. que no interesse de sua ambição servem-se do talento prostituído de um insigne tratante, com quem se atrelam e convivem na maior familiaridade, como amigos e compadres.
Pensam eles que mais tarde, quando deitarem fora esse torpe instrumento, podem lavar a mão que o manejou; mas enganam-se, que essa lepra moral da corrução não há lixívia que lhe apague a mácula.
- Diz você, mulher, que foi o moço quem trouxe aquele desaforo da canalha de Olinda!
- E juro, senhora! Pelas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, se não for verdade, eu não me arrede daqui! Ele está aí, que o diga!... terminou a viúva apontando para o Cosme, que encolheu-se como a ostra na casca.
- Estas cousas não se falam tão alto! observou o Pisca-Pisca em tom submisso, indo à rótula espreitar pelas reixas se alguém estava à escuta.
- Pois ele que trouxe o desaforo há de levar a resposta, tornou a Rufina. Caiu-me a sopa no mel. Eu vinha mesmo por este particular. Chegue cá, moço!
Aproximou-se o Cosme ainda sarapantado; mas sempre embiocado na ronha, que não o abandonava nos transes mais arriscados.
- Ora, exclamou a Senhora Rufina, é o Cosme Borralho, o moço do entrevado!
- O próprio. senhora de minha veneração.
- Pois melhor. Ouça cá!
Ouviu o Cosme sornamente o recado da Senhora Rufina.
- Eu... eu... Cos... Cosme Borralho, disse o escrevente que gaguejava quando lhe fazia conta; eu sou o mais humilde servo... servo dos servos... da Senhora D. Rufina, muito digna e excelente esposa do senhor juiz almotacé; e sempre que precise da insignificância do meu préstimo. me verá a seus pés, como o último de seus cativos para receber as ordens, que é uma honra servir a tão virtuosa dama.
Aqui o Cosme deu um torcicolo e fez uma caramunha de lástima:
- Mas veja a senhora que eu, que não tenho eira nem beira, vivo da rasa do cartório e mais de alguns magros vinténs que tiro de copista do licenciado. Ora, se lá desconfiam que eu ando metido nas contendas dos senhores mercadores com os pernambucanos, com certeza me põem na rua a ver navios, sem ter com que comprar um bocado para a boca.
- Não tenha medo, que não desconfiam, disse a Rufina.
- Eu também acho! acrescentou a Inacinha.
- Se já eles andam de orelha em pé por certas cousas!... Agora se... se a Senhora D. Rufina, senhora da minha maior veneração, que pode tudo por seu honrado esposo, o qual é pessoa principal da terra: se a minha rica senhora quisesse... quisesse ser madrinha deste pobre coitado, para lhe arranjar um dos ofícios da vila que se vai criar, então... então... já eu estava mais descansado e podia fazer as cousas com jeito.
- Está dito. Faça o que lhe mando, e conte com o oficio, que se há de arranjar.
Feita a avença, o Cosme Borralho recebeu as últimas recomendações da Senhora Rufina, e como fosse uma dessas a presteza, botou-se a rótula para ganhar a rua.
- Espere lá, moço! E a trova? disse a mulher do almotacé.
- Pois a senhora não me deu para a levar? perguntou o escrevente espantado e metendo a mão no peito da garnacha onde guardara o papel.
- Dei, sim; mas é que a gente fica sem saber o verso, e depois, como se há de espalhar?
- Tira-se uma cópia.
Sacou o Pisca-Pisca do bolso da garnacha um desses tinteiros portáteis, feitos de chifre, como usavam então, e ainda se viam nas escolas pelos princípios deste século. Consistiam em uma boceta alta, que tinha no tampo um canudo onde se introduzia a pena para molhar-lhe os bicos.
Os outros petrechos de escrever, trazia-os também naquele bolso, que era uma carteira ambulante. Só a pena, aquela faceira pena com a rama matizada de várias cores, estava ali provisoriamente, pois o seu lugar era na orelha direita onde fazia as vezes de insígnia ou bandeira.
Mas tendo de pôr-se à fresca, segundo a versão da Inácia, ele acomodara a sua inseparável na algibeira.
Sentando-se no poial da janela, com a pena em cruz, e o joelho levantado para servir-lhe de banca, abriu o Cosme o papel que lhe dera a Rufina para o ler e copiar. Foi pôr-lhe os olhos e pestanejar de modo que bem justificava o apelido de Pisca-Pisca.
- O que é? perguntou a Rufina desconfiada.
- Não... não é... não é nada. Está engraçado o remoque!
- Não... acha? Elas vão arrenegar-se! É bem-feito! Para que se metem?... Repita lá para a Inacinha, que ainda não ouviu!
As duas aplaudiram e comentaram com muitas risadas os versos, enquanto os copiava o matreiro do Cosme, que tendo conhecido a letra do Lisardo, ficou-se com o original, dando à Rufina o traslado.
- Por que não leva o seu? perguntou a matrona.
- Podem conhecer-me a letra.
Esse receio não o tinha o Cosme porque dos três caracteres de letra que ele dava como seus, nenhum empregara na cópia, tendo ao contrário o cuidado de imitar o do nosso Lisardo, que mal sabia da tormenta que estava-se armando.
- Ah! outra cousa, moço!... disse de repente a Rufina atalhando a salda ao Cosme. Quem foi que fez o desaforo daquela trova que você trouxe?
- Quem... quem... quem... fe... fe... fez... a... a... qua... qua... qua...
- Sim, sim, a quadra! gritou a Senhora Rufina a quem estava agastando os nervos aquela amolação.
- Não... não sei!
- Por força que há de saber. Você que a trouxe.
- Eu... ju...ju... ju.... eu ju...
- Estou vendo, homem, que você não serve para escrivão; gagueja que não se entende! disse a Rufina em tom decidido.
- Eu não sei, tornou o Cosme, cuja língua desprendeu-se; mas ouvi dizer que foi um Lisardo de Albertim, um trovista, que é todo lá dos Cavalcantis.
- Lisardo?... É um camarada do Nuno?
- Isso mesmo!
- Conheço muito! acudiu a Inacinha. Um aluado que anda sempre a olhar as estrelas! Ele passa por aqui todos os dias com um gibão de veludo já muito surrado, que perdeu a cor; por sinal tem dois batoques nos cotovelos. Logo vi que havia de ser um cousa à-toa.
- Pois eu prometo-lhe fazer presente de um gibão novo, mas há de ser de veludo verde de cansanção, que é mais chibante.
- Ele não fez por mal! observou o Cosme. Tanto que os seus rendimentos são cá para o Recife, onde está a dama de seus afetos.
- E quem é esta buginica?
- Ele a chama em verso Belisa, que é o anagrama de Isabel.
- A filha da Rosaura do Viana? perguntou a Inacinha.
- Ah! ah!... É a minha afilhada. E ela tem dado confiança a esse malandro?... Diga-me, diga-me, que lhe quero já negar a bênção.
- Não; eu penso que ela nem sabe! retorquiu o Cosme apalpando no bolso o papel da redondilha.
E antes que viesse novo aperto, abriu a rótula, e pôs-se a trote.