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O Que é o Casamento?

José de Alencar

HENRIQUE - A Senhora sabe a quem escreveu esse... homem?

CLARINHA - Se não é muita fatuidade de minha parte, creio que foi a esta sua criada.

HENRIQUE - Ainda o confessa?...

CLARINHA - Suponho que o Senhor deseja saber a verdade; se quer que o engane é escusado perguntar.

HENRIQUE - Como veio este papel parar às suas mãos?

CLARINHA - Achei-o ontem dentro do meu chapéu num ramo de flores. Não está mal escrito, não?

HENRIQUE - Senhora!... Não me faça perder a calma de que tanto preciso nesta ocasião. Não brinque com a desgraça de uma família inteira!... Sabe de que excessos é capaz um homem de brio para vingar a sua honra ultrajada?...

CLARINHA - Já esperava por isso. É o discurso de rigor! Sei de que é capaz, meu Senhor; sei que me quis matar ontem...

HENRIQUE - Quem lho disse?

CLARINHA - Talvez ainda lhe venham tentações de o fazer. Mas pensa que tenho medo de seus tiros e de seus furores?... Não! Do que eu tenho medo... E o Senhor não o merece!... Do que eu tenho medo é de que se esqueça de mim e deixe de querer-me bem.

HENRIQUE - Eu lhe suplico! Seja franca; diga-me toda a verdade, Clarinha.

CLARINHA - Muito bem! Eis uma palavra que muda as posições: já não está aqui o juiz; é meu marido! Agora, sim Senhor, tenha a bondade de ouvir-me. Eu podia punir como toda a Senhora honesta deve fazer, a insolência daquele homem, sem que o Senhor o soubesse; mas quis que aprendesse à sua custa. O Sales não teria a audácia de escrever-me se visse que meu marido me amava e que eu vivia feliz.

HENRIQUE - Eu não te amo, Clarinha?... Podes duvidar?

CLARINHA - Há quanto tempo não mo dizias?... É uma palavra que nunca se repete demais à sua mulher...

HENRIQUE - E para isso era preciso me fazeres sofrer tanto? Ainda tremo!

CLARINHA - Oh! Já me arrependi! Confesso que foi uma imprudência. Que desgraça não ia acontecendo; a desgraça de minha vida inteira! Se Bela morresse!...

HENRIQUE - E tu, Clarinha!

CLARINHA - Eu?... Pouco se perdia; o Senhor depressa se consolaria.

HENRIQUE - Ingrata!

CLARINHA Quem me chama! Quem acreditou que eu o enganava, e me quis matar!

HENRIQUE - Não me lembres mais essa loucura, eu te peço.

CLARINHA - Por que razão?... Se não a tivesse feito, creio que não te quereria tanto, como te quero agora.

HENRIQUE - Mas, era um crime, Clarinha.

CLARINHA - Um crime por muito amor! Que mulher não o perdoa!

CENA VIII

Os mesmos e JOAQUIM

JOAQUIM - Está aí o Sr. Sales.

HENRIQUE - Ah!... tão cedo.

JOAQUIM - Ele disse que Nhanhã D. Clarinha pediu para passar hoje por aqui.

CLARINHA - É verdade.

HENRIQUE (a meia voz) - A farsa é divertida; mas não estou disposto a representar nela o jocoso papel que me destina. Ouviu, Senhora?

CLARINHA (a meia voz) - Ouvi, Senhor, e já lhe respondo. (Alto) Joaquim, vai buscar o ramo de violetas que achaste no jardim. (Baixo a HENRIQUE) Não quer que lhe traga também a espingarda?... É prudente; talvez esteja carregada! (JOAQUIM tem saído.)

HENRIQUE - Basta de zombarias.

CLARINHA - Perdão; o gracejo terminou; agora sou eu que lhe falo seriamente. Se a minha palavra não lhe basta e é preciso que eu desça a explicações, vou satisfaze-lo já. Porem acredite!... É a sua honra unicamente que eu justificarei; a minha não existe desde o momento que duvidou dela.

HENRIQUE - Não duvido, Clarinha, mas quando tudo parece combinar-se de propósito para me iludir, o que posso eu fazer?

CLARINHA - Usar do seu direito; exigir que me justifique.

HENRIQUE - Não supunha que te amava tanto! A menor cousa me faz tremer agora pela minha felicidade.

CLARINHA - Finalmente!... Pois agora sou eu que tas quero dar; tu as mereces. Que fizeste da chave que te dei ontem a guardar? Era a chave da cabana.

HENRIQUE - Má! Não me podias ter dito logo! (Entra JOAQUIM.) CLARINHA (faz gesto a JOAQUIM para deitar o ramo num vaso dos consolos) - Outra prova.

HENRIQUE - Não preciso de mais, não precisava nenhuma.

CLARINHA (a JOAQUIM) - Esqueci-me de te perguntar. Rondaste ontem ao escurecer pela grade do jardim? Viste quem me roubava as flores?

JOAQUIM - Não vi ninguém, não Senhora. (HENRIQUE aperta a mão de CLARINHA.)

CLARINHA - Está bem; manda o Senhor Sales entrar para aqui mesmo. (JOAQUIM sai.)

HENRIQUE - Não! Eu vou encontrá-lo.

CLARINHA - Ainda! (Introduz o bilhete do SALES no ramo.)

HENRIQUE - Não desconfio de ti, Clarinha! Quero punir este miserável.

CLARINHA - Isto é apenas uma questão de amor-próprio para mim. Deixe-me o prazer de corrigir essa criançada.

HENRIQUE - Não me poderei conter.

CLARINHA - Quer fazer ao Sales a honra de suspeitá-lo? Reflita. Seria uma injúria à sua mulher! Nem dê a perceber que sabe cousa alguma. Promete-me.

HENRIQUE - Tu o queres!

CENA IX

HENRIQUE, CLARINHA e SALES

SALES (a HENRIQUE) - Ah! Não sabia que já tinha voltado! Como lhe foi de caçada?

HENRIQUE - Viva, Senhor.

SALES - D. Clarinha! (Estende a mão.)

CLARINHA (disfarçando, recusa a mão) - Não repare, Senhor Sales. Henrique está maçado porque eu lhe acabei de provar que lhe queria mais bem a ele, do que ele a mim. O Senhor tem sido testemunha; quando ele não está em casa fico tão aborrecida que não dou fé de cousa alguma.

SALES - É verdade, tenho observado isso.

HENRIQUE - Também eu de agora em diante pretendo observar, Senhor Sales.

CLARINHA - E a minha aposta? Quantas janelas tem o hotel?

SALES - Contei quinze, se não me engano, D. Clarinha.

CLARINHA - Bravo!... (A HENRIQUE.) Perdeu, meu Senhor! Não se lembra? (A SALES) Foi uma aposta muito interessante. Se eu ganhasse, Henrique ficava obrigado a viver um ano inteiro unicamente para mim, não receberíamos visitas; não sairíamos senão juntos.

SALES - E quando ele sair para negócios?

CLARINHA - Oh! Fique descansado, Senhor Sales! Durante este ano ele não tem negócios. (A HENRIQUE) Está disposto a cumprir?

HENRIQUE - Como! Ainda que eu não perdesse. Era minha intenção.

CLARINHA - Que fineza que lhe devo, Senhor Sales!

SALES - Nem por isso, minha Senhora.

CLARINHA - O Senhor não faz idéia! Vou passar o ano mais feliz da minha vida! Viver só para meu marido... Quando Henrique quiser trabalhar, irei cuidar dos arranjos da minha casa, do jardim. Ah! por falar em jardim... O Senhor esqueceu ontem um ramo de flores.

SALES - Um ramo de flores?... Não, Senhora; não me recordo!...

CLARINHA (toca a campainha) - Joaquim o achou esta manha no jardim. (Entra um escravo) Chama Joaquim. (A SALES) A pessoa a quem o Senhor o destinava não lhe há de perdoar semelhante esquecimento.

SALES - Não o destinava a ninguém. Deram-me e não tinha nem um apreço para mim.

CLARINHA (a JOAQUIM) - Entrega o ramo do Senhor Sales.

SALES - Não precisa. (JOAQUIM entrega.)

CLARINHA - Inda pode aproveitá-lo. É bom guardar! (JOAQUIM sai.) O Senhor não sabe que desgraça ia causando esse ramo inocente.

HENRIQUE (a meia voz) - Clarinha!

CLARINHA - O Senhor Sales é de segredo. (A SALES) Eu lhe conto. Henrique chegou da caça e estava no jardim conversando, quando não sei como tropeçou no seu ramo. A espingarda embaraçou-se no bolso do paletó e disparou!

SALES - Estava carregada?

HENRIQUE - E com um quarto de bala, Senhor Sales.

CLARINHA - É verdade! Foi um estrondo. A bala atravessou de banda a banda a cabana... Aquela, o Senhor sabe, que há no jardim. Se estivesse dentro alguma pessoa, morria decerto.

HENRIQUE - Quando o Senhor sair examine por fora que há de ver o rombo.

SALES - Acredito, não é necessário.

CLARINHA - Foi uma felicidade ter eu fechado a cabana logo que o Senhor saiu, e dado a chave a Henrique, senão podia alguém entrar e acontecer uma desgraça.

SALES - Que perigo!... A Senhora me dá licença?

CLARINHA - Pois não!.... Mas agora é que reparo; o Senhor está hoje tão pálido, Senhor Sales.

SALES - Não é nada, minha Senhora. É o meu natural.

CLARINHA - Não; o Senhor anda doente. Aconselho-lhe que faça outra viagem à Europa.

SALES - Agradeço muito o conselho, D. Clarinha.

CLARINHA - E desta vez, demore-se uns cinco anos pelo menos. Com a saúde não se brinca.

SALES - Passe muito bem, minha Senhora. Senhor Henrique.

HENRIQUE - Então até a volta da Europa.

SALES - Se for eu virei despedir-me.

CLARINHA - Mas ele já não pode receber visitas, Senhor Sales; perdeu a aposta.

HENRIQUE (rindo) - Que tirania!

CENA X

Os mesmos e MIRANDA

HENRIQUE - E era disto que querias que eu tivesse ciúmes?

CLARINHA - Então!... Se fosses a esperar por um que te valesse, nunca terias. (Entra MIRANDA.)

HENRIQUE (a AUGUSTO) - Está vendo como se zomba de um marido!

CLARINHA - Aqui o Senhor, também acreditou! Estou-lhe muito obrigada!

HENRIQUE - Divertiu-se à nossa custa! Vingou-se dos dois dias que passei fora de casa.

MIRANDA - Assim estás completamente dissuadido? Esse bilhete não era para Clarinha?

HENRIQUE - Esse bilhete foi uma insolência daquele tolo, e a Senhora sem dó, nem compaixão, aproveitou-se dele para zombar de mim!... Diga-lhe o que eu sofri.

CLARINHA - Chamou-me de pérfida, cruel, perjura e indigna!... Acusou-me de ter traído o seu amor, de não ter respeitado a sua honra... Não foi?...

MIRANDA - Ainda bem que não passou de um gracejo. Compraste, com algumas horas de inquietação, o que muitos não conseguem com anos de experiência e sofrimento... Visto como todo o teu futuro podia ter sido devorado por um momento de alucinação!... Vela sobre a tua felicidade, Henrique. Ela vale bem a pena.

CLARINHA - Mas, por isso não precisa ficar triste! Ralhe comigo que fui a causa de tudo; porém tenha dó de Bela.

HENRIQUE - Realmente, acho-o abatido, meu tio!

MIRANDA - Trabalhei muito esta noite; sinto-me fatigado.

HENRIQUE - Talvez a emoção que ontem sentiu.

CLARINHA - Vamos dar um passeio pelo jardim. O ar da manhã lhe fará bem.

MIRANDA - Não; preciso estar só. (Toca a campainha.)

HENRIQUE (a meia voz) - Diga-me, meu tio, diga-me com franqueza... Nada o aflige, neste momento?

MIRANDA - Não faças caso disto. É fadiga apenas.

CLARINHA (a HENRIQUE) - Vamos ver Bela; também não a acho boa hoje! Aquele susto...

HENRIQUE (baixo) - E pensas que fosse somente o susto...

CLARINHA - Sabes de alguma cousa?

HENRIQUE - Não, não sei nada.

CENA XI

MIRANDA e JOAQUIM

MIRANDA - Compraste os bilhetes para amanhã?

JOAQUIM - Sim, Senhor. (Entrega.)

MIRANDA - Bem: vai arrumar tudo o que me pertence na mala. Hás de levá-la daqui a pouco à Estação.

JOAQUIM - Meu Senhor não volta mais a Petrópolis?

MIRANDA - Não sei... Preciso do que é meu na cidade... Talvez volte; porém mais tarde.

JOAQUIM - Minha Senhora viu os bilhetes, e disse que não queria ficar aqui.

MIRANDA - Tua Senhora precisa ficar por causa de sua saúde; os médicos aconselham. Não quero que em casa saibam de minha resolução.

JOAQUIM - Sim, meu Senhor.

MIRANDA - Dize a tua Senhora que eu desejo falar-lhe. Dize-lhe baixo que D. Clarinha não ouça. (MIRANDA fecha uma porta lateral da Esq., escreve o sobrescrito e vai lacrar quando ISABEL aparece.)

CENA XII

MIRANDA e ISABEL

ISABEL - Mandou-me chamar, Senhor?

MIRANDA - Disse-lhe há pouco que mais tarde lhe comunicaria minha resolução... Já a tomei: é necessário que nos separemos, Senhora.

ISABEL - Para que, Senhor?... Essa separação não tardará muito. Eu lhe prometo que breve, mais breve do que pensa, ficará livre de mim.

MIRANDA - Já confessei que a tenho feito sofrer muito. Perdoe-me esta vez que é a última que lhe falo!... Com a tranqüilidade e o sossego que trará a nossa separação, há de restabelecer-se. O que a estava matando era esse suplício de todas as horas, esse martírio causado pela presença constante de uma pessoa odiada.

ISABEL - Causado pelo receio de ofendê-la e só com a minha presença!... Foi um martírio, foi; mas também era a única alegria que Deus me permitia neste mundo, acompanhá-lo, servi-lo e estimá-lo, apesar de seu desprezo. Eu lhe suplico, Senhor! Deixe-me esse martírio até o último sopro de vida. Quero morrer a seu lado, não para amargurá-lo; a agonia será curta; mas, para que possa dizer-lhe a minha última palavra.

MIRANDA - Não se aflija, Senhora. Esta separação lhe pesa porque receia talvez pela sua reputação. Ela não sofrerá, eu lhe juro.

ISABEL - Que vale a minha reputação desde que a perdi para o Senhor?... Eu já não vivo neste mundo; que me importa o que se passa nele?

MIRANDA - Uma Senhora precisa sempre de sua reputação; quando não seja para si ou para o seu marido, será para sua família, para sua filha. Fique descansada, porém eu preciso fazer uma viagem à Europa; a Senhora não pode naturalmente acompanhar-me por causa de sua filha; fica em sua casa, ou na fazenda com seu pai...

ISABEL - Quando parte, Senhor?

MIRANDA - No próximo paquete.

ISABEL - Depois de amanhã?

MIRANDA - Desejava, mas já não é possível. Será no seguinte.

ISABEL - Daqui a um mês!... Antes disso terei eu partido, e para mais longe!... É inútil a sua viagem.

MIRANDA - Deixe estas idéias tristes! Prometo-lhe que não voltarei!... Um dia chega-lhe a notícia de que está livre, viúva; pode ainda ser tão feliz! Neste momento, só lhe peço que me perdoe e me acredite. Aceitando a sua mão, pensei que poderia fazer-lhe a sua felicidade!...

CENA XIII

Os mesmos e SIQUEIRA

SIQUEIRA - Que é isto? Continua a cena de ontem? De que estás chorando, Bela?

MIRANDA - As Senhoras choram por qualquer motivo. Comuniquei-lhe o meu projeto de ir à Europa...

SIQUEIRA - Ah! Mas é cousa nova!

MIRANDA - Resolvi agora na cidade. A minha saúde, a minha carreira mesmo, exigem esta viagem.

SIQUEIRA - Acho-a fora de propósito. É mau tempo, deve deixar para maio.

MIRANDA - E a Câmara?... Por esse tempo pretendo estar de volta. Quero aproveitar o intervalo da sessão: será uma viagem precipitada, e muito incômoda para Bela.

SIQUEIRA (a ISABEL) - Então já está chorando de saudades?... É uma ausência de sete meses apenas.

ISABEL - De sete meses!... E que fosse, para quem nunca se separou, mais do que alguns dias!...

MIRANDA - Convém habituarmo-nos; ninguém sabe quando chega o momento da separação eterna.

SIQUEIRA - Deixemos isso; a viagem não é agora.

ISABEL - É no próximo vapor.

SIQUEIRA - Havemos de ver.

MIRANDÂ - Em todo caso é cedo para afligir-se, não é verdade, meu sogro?

SIQUEIRA - Decerto. (A ISABEL) Não te agonies; no fim das contas isso não passa de projeto.

MIRANDA (saindo) - Já volto.

ISABEL - Peça-lhe que não faça esta viagem; mas como cousa sua!... Augusto lhe quer bem: há de atendê-lo.

SIQUEIRA - Eu te prometo falar com ele. Fique descansada.

ISABEL - Mas não lhe fale hoje, não; depois outro qualquer dia. Oh! Eu sinto que essa viagem me mataria.

HENRIQUE (entrando) - Senhor Siqueira, preciso falar a Bela. Me dê licença.

SIQUEIRA - Outro!... Veja se também a faz chorar como seu tio.

CENA XIV

ISABEL e HENRIQUE

HENRIQUE - Chorava?... E foi ele que a fez chorar? Já sei o que isto quer dizer.

ISABEL - É um capricho meu, uma sem-razão.

HENRIQUE - Há um ano é esta a primeira vez que nos achamos sós, Bela. O amor de Clarinha curou a minha loucura; e contudo evitei sempre essas ocasiões pelo respeito que lhe tenho. Hoje, porém, é necessário que lhe fale.

ISABEL - Estou agora tão agoniada.

HENRIQUE - Por isso mesmo!... Que adivinho o motivo. (Grave) Bela, o que se passou naquela noite... Na noite em que eu cometi a imprudência...

ISABEL - Nada, Henrique, nada.

HENRIQUE - Responda-me a verdade.

ISABEL - Já lhe disse. Que idéia é essa?.

HENRIQUE - Dá-me sua palavra de que nada se passou com seu marido? (Pausa.) Não pode dá-la. Eu suspeito, eu sei tudo, Bela!

ISABEL - É impossível! Quem lho diria?

HENRIQUE - Então o segredo existe? Bem vê que não o pode ocultar.

ISABEL - Cale-se, Henrique! Podem ouvir-nos! Senti empurrarem aquela porta!

HENRIQUE - Foi engano seu; está fechada. Ontem, Bela, quando me supus traído por Clarinha, tinha uma arma na mão e meu primeiro movimento foi um crime! Meu tio quis chamar-me à razão e eu não o atendi. Enfim, impelido por uma recordação funesta, contou-me ele uma história; a história de um amigo que como eu se julgava desonrado, e como eu ia matar sua mulher, quando o grito de sua filha...

ISABEL - Que tem esta história comigo, Henrique?

HENRIQUE - Ele falava de si, Bela!

ISABEL - Como!... Pode supor?...

HENRIQUE - Duas vezes traiu-se; a palavra saiu-lhe sem querer. Disfarçou!... Mas ontem eu apenas o ouvia; a minha alma estava absorvida numa só idéia. Depois, esta noite, tudo o que ele me disse me voltou ao espírito, lembrei-me de sua emoção quando me falava... Inda há pouco as palavras lhe ouvi!... Não me resta a menor dúvida.

ISABEL - De que, Henrique?

HENRIQUE - Seu marido entrando naquela noite viu-me saltar pela janela. Não me conheceu e tomou-me por outro. Ambos iam morrer. Iaiá os salvou; mas desde então vivem como estranhos, vítimas de meu erro, condenados a um suplício horrível! Aquela febre repentina que nos fez temer por sua vida e que me privou de partir para Montevidéu foi conseqüência dessa emoção violenta! Diga-me! Não é essa a verdade?

ISABEL - Não o compreendo, Henrique. Já observou a mínima desinteligência entre mim e meu marido? (MIRANDA bate na porta envidraçada, ouve-se a voz de IAIÁ.) É Iaiá. (Quer abrir, HENRIQUE a retém.)

HENRIQUE - Oh! Quantas circunstâncias que passaram desapercebidas, e das quais agora me recordo! Porém é escusado negar! Se não me refere o que se passou, Bela, juro-lhe que vou ter imediatamente com meu tio e confesso-lhe tudo. Dir-lhe-ei a verdade; que eu fui um louco; que tive a infâmia de conceber uma paixão insensata, à qual sua mulher repeliu sempre com indignação! Dir-lhe-ei que naquela noite, resolvido a abandonar tudo, e ir morrer longe daqui para me punir do meu crime, e não ofender, nem por pensamento sua honra e sua felicidade... Que naquela noite tive a audácia de voltar a sua casa e de surpreendê-la para dizer-lhe o último adeus!... Confessarei tudo... Ele não me perdoará, estou certo! Mas, conhecerá a alma nobre de que teve a desgraça de suspeitar!

ISABEL - Pois bem. Já que não lhe posso arrancar essa convicção, é necessário que saiba o segredo que eu contava levar comigo. E tudo verdade, Henrique; Augusto me julga culpada. Viu-o naquela noite e tomou-o por outro homem.

HENRIQUE - Quem?... Não me ocultes!

ISABEL - 0 Sales!

HENRIQUE - Ah! por isso ele ontem duvidou! E não lhe bastava uma palavra, Bela, para destruir uma suspeita?

ISABEL - Essa palavra era o seu nome.

HENRIQUE - Assim, por causa da afeição que ele me tinha, e de que eu era indigno, não lhe importou sacrificar a sua felicidade, a de sua filha e de seu marido!... Sim! Porque meu tio quer-lhe mais, mil vezes mais do que a mim.

ISABEL - Ele me despreza... E tem razão!

HENRIQUE - Ele a ama, com paixão, como nunca a amou. Confessou-me ontem!

ISABEL - Será possível, meu Deus! Oh! Não me engane, Henrique!

HENRIQUE - Bela, é necessário que meu tio saiba tudo.

ISABEL - Nem uma palavra! Foi uma fatalidade que passou sobre mim; já não há remédio neste mundo.

HENRIQUE - Então, porque eu cometi uma imprudência fugindo pela vergonha de me achar em face de meu tio, sua mulher, um anjo de virtude, há de sofrer semelhante tortura?... E eu a causa dessa desgraça, cuida que consentirei nela? Nunca!

ISABEL - Se conhecesse como eu o caráter de seu tio!... Quantas vezes não estive a ponto de cair aos pés de Augusto e confessar-lhe tudo!... Porque, deixe dizer-lhe, Henrique, depois que meu marido me despreza, é que eu senti toda, a força do amor que eu lhe tinha. Esse mesmo desprezo com que ele me esmagava vinha cheio de tanta nobreza, de tanta paixão, que o revelavam a meus olhos bem diferente daquele que eu via através da indiferença e do abandono. Nunca amei meu marido com tanto respeito e admiração, como nesse ano que se acaba de passar!... É verdade!... E quando ele estava possuído da idéia de que eu amava outro homem... Meu Deus! Não teria coragem de resistir, se não me lembrasse...

HENRIQUE - De quê?... Da amizade que ele me tem?

ISABEL - Augusto, como todos os homens de grande inteligência e de caráter enérgico, é inflexível em suas convicções. O coração pode querer o contrário; a razão não cede. Ele duvida de mim; se eu pronunciasse o seu nome e revelasse enfim todo o segredo, pensa que ele acreditaria na minha inocência?...

HENRIQUE - Por que não, desde que eu mesmo me acusasse?

ISABEL - Não se iluda! Ele perderia a sua afeição e seria mais desgraçado ainda; porque se julgaria desonrado pelo homem a quem amou sempre, e ainda ama como um filho. Essa desconfiança seria horrível; e eu duvido que sua alma pudesse resistir a esse golpe. Oh! meu silêncio mata-me, é verdade, mas a mim somente; e eu devo morrer!

HENRIQUE - Desonrada por mim! Não profira esta palavra!... Por mim que se tivesse outrora a infâmia de conceber uma esperança, me teria punido desse crime! Por mim que seria o primeiro a odiá-la, Bela, se a sua justa severidade não me repelisse!

ISABEL - Podemos nós, Henrique, dar provas disso?... Provas que convençam Augusto e afastem de seu espírito toda a suspeita?

HENRIQUE - Que maior prova do que a minha felicidade de hoje? Quem foi que, para nos salvar de uma paixão criminosa, me fez amar Clarinha? Quem nos inspirou a ambos com uma bondade angélica esse amor puro?... Entre todos que a amam e veneram, só ele, só aquele nobre coração não reconhecerá o anjo que Deus lhe deu por mulher? (CLARINHA abre a porta da direita com estrépito.)

CENA XV

Os mesmos, CLARINHA e SIQUEIRA

CLARINHA - Bela, que dê o Miranda?

ISABEL - Não sei, por quê?

CLARINHA - O Senhor Siqueira me disse que ele ia amanhã para a cidade; e que Joaquim já levou a mala para a Estação!

ISABEL - Mas há pouco Augusto saiu daqui.

SIQUEIRA - Esteve na varanda conversando conosco; e deixou-nos para vir buscar uma carta que esquecera.

ISABEL - E verdade, quando cheguei vi-o escrevendo. HENRIQUE (correndo à mesa, acha uma carta lacrada) - Uma carta para mim? Que quer dizer isto? (Batem na porta da esquerda que MIRANDA tem fechado.)

SIQUEIRA - Abre!...

HENRIQUE (lendo) - "Henrique... Há muito tempo... resolvi esta viagem... (ISABEL lê igualmente) para não..."

CLARINHA (simultâneo com a leitura) - Que viagem?

SIQUEIRA - Uma viagem à Europa. (Batem de novo.)

HENRIQUE - "Para não agoniar Bela, tenho ocultado esse projeto; direi que pretendo partir no seguinte paquete... mas quando leres esta terás recebido... as minhas despedidas..." (Esta leitura é rápida.)

ISABEL - Meu Deus!... Não o verei mais? (SIQUEIRA ouvindo bater terceira vez, dirige-se à porta.)

CLARINHA - Não é possível!

HENRIQUE - Clarinha tem razão: tranqüilize-se, Bela. (SIQUEIRA tem aberto a porta de vidraça à esquerda, MIRANDA aparece.)

SIQUEIRA - Ora aqui está o Miranda!...

CENA XVI

Os mesmos e MIRANDA

ISABEL (vendo MIRANDA) - Ah!..

MIRANDA (comovido, HENRIQUE tem o papel na mão) - Esta carta só te devia ser entregue amanhã. Vinha buscá-la e achei a porta fechada. (Apertando-lhe a mão) Tudo ouvi, Henrique!

CLARINHA - Tudo o quê?

MIRANDA (cingindo com o braço a cintura de ISABEL, a meia voz) - Bela!... Me perdoarás tu algum dia? (ISABEL reclina a cabeça sobre o peito de MIRANDA e quase desmaia; MIRANDA beija-a na fronte.)

CLARINHA - Bravo! (A HENRIQUE) Não tens inveja? Abraça-me, eu dou licença!

HENRIQUE - Com muito prazer; em paga da alegria que fizeste entrar hoje nesta casa!

MIRANDA (apresentando IAIÁ pela mão) - Nossa filha, Bela. (Conhece que está desmaiando.)

SIQUEIRA - Uma vertigem!...

HENRIQUE - Já passou.

MIRANDA (aflito) - Bela!

ISABEL - Ah!...

CLARINHA - Que tens?

ISABEL - Não sei... A felicidade!...

Fonte: biblio.com.br

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