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O Que é o Casamento?

José de Alencar

Comédia em Quatro Atos

1861

PERSONAGENS

AUGUSTO MIRANDA, 36 anos.
HENRIQUE, 21 anos, sobrinho de MIRANDA.
SALES, 25 anos.
SIQUEIRA, 50 anos, sogro de MIRANDA.
ALVES, 33 anos, negociante.
JOAQUIM, 45 anos, preto escravo.
ISABEL, 23 anos, mulher de MIRANDA.
CLARINHA, 17 anos, prima de ISABEL.
RITA, 38 anos, parda escrava.
IAIÁ, 3 anos.

A cena é no Rio de Janeiro e Petrópolis, de 1859 a 1860.

ATO PRIMEIRO

Em casa de MIRANDA - Sala de visitas.

CENA PRIMEIRA

MIRANDA e ALVES

(ALVES entrega o cartão a JOAQUIM e espera)

MIRANDA - Lendo o teu nome, duvidei que estivéssemos em outubro.

ALVES - Como passas? Por quê?...

MIRANDA - Não é só pelo Natal que temos o prazer de ver de ano em ano o teu cartão de visitas?... Quanto à tua pessoa, essa apenas de passagem em alguma reunião.

ALVES - Tens razão! Mas acredita que sou o mesmo.

MIRANDA - Devias dar-me ocasiões de verificá-lo. Dois velhos amigos como nós sentem de tempos a tempos necessidade de conversar.

ALVES - Que queres?... A fortuna teve inveja de nos ver tão unidos, e separou-nos. Estás brilhando na política.

MIRANDA - E tu enriquecendo no comércio.

ALVES - Estás casado.

MIRANDA - Por que não fazes o mesmo? É tempo.

ALVES - Confesso-te que já me sinto gasto para esta vida de celibatário. Às vezes nem sei o que fazer de minha liberdade. Mas quando me lembro do casamento, só a idéia me assusta.

MIRANDA - Pouco a pouco te irás habituando a ela, e um belo dia, quando menos pensares, estarás casado.

ALVES - Duvido. Fazer a felicidade de duas criaturas de gênios, de ocupações, de idades diversas é um problema social que na minha opinião ainda não foi resolvido, e não me sinto com forças de o tentar.

MIRANDA - São idéias que todos temos quando profanos. O casamento, Alves, é o que foi entre nós há algum tempo a maçonaria, de que se contavam horrores, e que no fundo não passava de uma sociedade inocente, que oferecia boa palestra, boas ceias. Há dois prejuízos muito vulgares: uns supõem que o casamento é a perpetuidade do amor, a troca sem fim de carícias e protestos; e assustam-se com razão diante da perspectiva de uma ternura de todos os dias e de todas as horas.

ALVES (rindo) - Na verdade é desanimadora; sobretudo nesta época de vapor e eletricidade.

MIRANDA - Justo!... O outro prejuízo é daqueles que supõem o casamento uma guerra doméstica, uma luta constante de caracteres antipáticos, de hábitos, e de idéias. Esses, como os outros mas por motivo diferente, tremem pela sua tranqüilidade, Entretanto a realidade está entre os dois extremos. O casamento não é nem a poética transfusão de duas almas em uma só carne, a perpetuidade do amor, o arrulho eterno de dois corações; nem também a guerra doméstica, a luta em família. É a paz, firmada sobre a estima e o respeito mútuo; é o repouso das paixões, e a força que nasce da união.

ALVES - Concordo. Mas que dificuldade para conservar essa paz matrimonial... Não é preciso que o homem sacrifique a sua individualidade e se dedique todo à família?

MIRANDA - Como te iludes! É quando o homem goza da plena tranqüilidade do seu espírito; quando lhe sobra todo o tempo para as ocupações sérias da vida... julgo por mim.

ALVES - E o tempo para amar a sua mulher e fazer a sua felicidade?

MIRANDA - Não me compreendeste então, Alves. O amor conjugal é calmo e sério; vive pela confiança recíproca, e alimenta-se mais de recordações do que de desejos. Um exemplo: nós já não somos os companheiros inseparáveis de estudos e de prazeres que fomos outrora; apenas nos encontramos de longe em longe, e trocamos rapidamente uma palavra, ou um aperto de mão. Entretanto isto basta: nenhum duvida da amizade do outro. Ambos temos a certeza de que possuímos um amigo dedicado; e essa certeza é um gozo superior a qualquer demonstração frívola e banal. Pois bem: perfuma essa amizade com a graça e a ternura inseparável da mulher, e terás a imagem perfeita de um casamento feliz. Vou te fazer uma confidência... (Entra ISABEL) É minha mulher... já a conheces...

ALVES - Conheço-a; mas ainda não tive o prazer de falar-lhe.

CENA II

Os mesmos e ISABEL

MIRANDA - Bela!... Apresento-te um ingrato, sim, porque nos desdenha. É o Alves, meu mais íntimo amigo, a quem devo tudo... sabes?

ISABEL - Ah! foi o senhor que salvou Henrique!

ALVES - Apenas ajudei-o a salvar-se.

MIRANDA - Lançando-te ao mar com risco de tua vida. Chamas a isto ajudar?

ALVES - Perdão! Augusto estava me convertendo ao casamento, minha senhora.

ISABEL - É lisonjeiro para mim.

MIRANDA - Queres saber o que mais o horrorizava, Bela? Era a idéia de ficar hipotecado corpo e alma à sua mulher.

ALVES - Não; não é isso que me assusta, mas o receio de não poder ou não saber fazê-la feliz.

MIRANDA - Não te hás de casar com uma mulher que não tenha inclinação por ti e que não te estime. Portanto que receio é este?

ISABEL - Decerto, Sr. Alves. Não nos suponha tão difíceis. Fazer a felicidade de uma mulher é cousa que custa tão pouco, àqueles que o desejam!

ALVES - Enfim, tratarei de seguir o teu conselho, Augusto.

MIRANDA - Já nos deixas?... Nem por serem tão raras as tuas visitas?...

ALVES - Esta é de despedida. Por isso desculpa.

MIRANDA - Como assim?...

ALVES - Vou a S. Paulo e de lá a Minas. (Entra CLARINHA.)

MIRANDA - D. Clarinha, prima de minha mulher. O Sr. Alves, meu amigo. (Cumprimentos.)

ALVES - Talvez possa te ser útil nesta viagem. Tenho amigos que não duvidarão interessar-se pela tua candidatura.

MIRANDA - Quando partes?

ALVES - Nestes dois dias.

MIRANDA - Bem; havemos de nos ver ainda. Eu te procurarei. Pretendes demorar-te até o tempo das eleições? (CLARINHA e ISABEL conversam.)

ALVES - Talvez seja obrigado a ficar por lá um ano.

MIRANDA - Que resolução tão repentina foi esta?

ALVES - Eu te digo. Os meus negócios não andam bem; tenho-me visto em sérios embaraços. Se não conseguir até o fim do ano próximo realizar o nosso ativo, não sei o que sucederá. Por isso resolvi deixar a casa sob a direção de meu sócio; e ir eu mesmo fazer essas cobranças.

MIRANDA - Sinto que estejas em dificuldades. Lembra-te que nessas ocasiões é que servem os amigos. O meu casamento trouxe-me alguma fortuna. Far-me-ás obséquio dispondo dela.

ALVES - Obrigado, Augusto, obrigado. Não será necessário; tenho fé nos meus devedores. Até amanhã. Minhas senhoras!

ISABEL - Boa viagem, senhor Alves! Dizem que as paulistas são bonitas; é natural que o convertam.

ALVES - Não creia. minha senhora! Quem resistiu às fluminenses, é um herege que já não tem salvação.

CENA III

ISABEL e CLARINHA

(ISABEL sentada, CLARINHA em pé)

CLARINHA - Verás que ele ainda não vem esta noite. ISABEL - Quem?

CLARINHA - Onde estás com a cabeça, Bela? de quem falávamos nós?

ISABEL - Ah! De Henrique?

CLARINHA - Dele mesmo.

ISABEL - E dizias que ele não virá esta noite?

CLARINHA - É o mais certo. Com o pretexto da chuva... Tu não quiseste mandá-lo chamar para que nos acompanhasse ao teatro... Era o único meio de fazê-lo passar a noite conosco.

ISABEL - Sabes que eu não gosto de sair sem Augusto!

CLARINHA - Se formos a esperar por ele, não sairemos nunca! Então agora que lhe meteram na cabeça ser deputado! O verdadeiro é ires te habituando. Quem nos acompanhava quando estivemos em Petrópolis, não era Henrique?

ISABEL - Sim... mas hoje não estava com disposição de sair, Clarinha.

CLARINHA - Quem te obrigava a sair? Ele vinha... Dava-se uma desculpa...

ISABEL - Ele virá independente disso.

CLARINHA - O que perdes?

ISABEL - O quê?... Perco o teu vestido de noiva.

CLARINHA - Deveras, minha senhora?... Também quer zombar de mim? (Beijando-a) Ah! Se a dificuldade estivesse no vestido!

ISABEL - Não há dificuldade alguma.

CLARINHA - Ah! para ti é como se estivesse feito.

ISABEL - E há de fazer-se, Clarinha, eu te prometo.

CLARINHA - Ora! Se ele não quiser, menos eu.

ISABEL - Ele quer; não te tenho dito tantas vezes!

CLARINHA - Tu, muitas; mas Henrique nem uma só.

ISABEL - Se foges dele!

CLARINHA - Então eu é que lhe hei de fazer a corte?

ISABEL - Fazer, não; mas aceitar, Clarinha.

CLARINHA - Ora, Bela, o tal sonso do senhor Henrique bem sabe que uma moça quando se esquiva é para ser perseguida.

ISABEL - Nem sempre. (JOAQUIM traz luzes.)

CLARINHA - Eu falo das moças; não falo das senhoras casadas. (Olhando a pêndula) Mais de oito horas!

ISABEL - Não é tarde.

CLARINHA - Querem ver que foi ao teatro?

ISABEL - Estás impaciente.

CLARINHA - Não sabes a razão?... É que hoje isso se decide.

ISABEL - Com toda essa pressa!

CLARINHA - Pois hei de estar gastando à toa o meu coração? Que contas darei depois a meu marido? Eu só pretendo querer bem uma vez... Mas essa há de valer por todas.

ISABEL - Se não encontrares a indiferença e o abandono!...

CLARINHA - Asseguro-te que não hei de sofrê-lo por muito tempo.

ISABEL - Será ele?

CLARINHA - Ah! (Afastando-se.)

ISABEL - Que é isso? Em que ficou a resolução de há pouco?

CLARINHA (Gesto de silêncio) - Queres que ele suspeite que o estava esperando? (Folheia as músicas no piano.)

CENA IV

As mesmas e HENRIQUE

HENRIQUE - Boa noite, Clarinha!

CLARINHA - Ah! que susto que eu tive! Não o vi entrar. (Aperta-lhe a mão.)

HENRIQUE - Bela!

ISABEL - Adeus, Henrique! (CLARINHA na janela.)

HENRIQUE (Meia voz) - Incomodo?

ISABEL - Clarinha!

CLARINHA - O que é?

ISABEL - Vem conversar!

CLARINHA - Quem me quer, me procura, minha senhora.

ISABEL (a HENRIQUE) - Sabe com quem é aquilo.

HENRIQUE - Clarinha gosta dos girassóis. (A ISABEL, baixo) Desejo falar-lhe.

CLARINHA - Tenho esse mau gosto.

HENRIQUE - Pois eu prefiro as saudades. (Olha ISABEL.)

ISABEL (meia voz) - Não!

CLARINHA - Já sabia disso.

HENRIQUE (a meia voz) - Pela última vez!...

ISABEL (idem) - Lembre-se do seu tio!

HENRIQUE (idem) - Espere-me nesta sala!

ISABEL (idem) - Que loucura é esta?

CLARINHA - Se é de mim, podem falar alto.

HENRIQUE - Estávamos tão longe daqui!

CLARINHA - No mundo da lua talvez.

HENRIQUE - Tem razão, Clarinha. Eu sou um louco. (Ergue-se.)

ISABEL - Henrique!

CLARINHA - Zangou-se por um gracejo!

ISABEL - Está hoje triste; vê se o consolas.

CLARINHA - É cousa para que não tenho jeito, Bela.

ISABEL - E dizes que o amas! (Afasta-se.)

CLARINHA (a HENRIQUE) - Ainda está mal comigo?

HENRIQUE - Por quê?

CLARINHA - Pelo que lhe disse.

HENRIQUE - Nem já me lembro o que foi.

CLARINHA - Muito obrigada!... Não esperava tanto da sua amabilidade. (Afasta-se.)

ISABEL (a CLARINHA) - Vamos jogar!

CLARINHA - Joga com o Sr. Henrique!

HENRIQUE - É verdade! Façamos alguma cousa para passar o tempo.

CLARINHA - Ele passa tão devagar nesta casa!

HENRIQUE (a ISABEL) - Não quer jogar?

ISABEL - Clarinha está arrufada. Não tem graça (Vai ao piano.)

HENRIQUE - Toque um pouco.

ISABEL - Já esqueci o que sabia.

HENRIQUE - Que desculpa, Bela!

ISABEL - Não ouve? Iaiá está chorando. (Sai.)

CENA V

CLARINHA e HENRIQUE

CLARINHA - Chamou-me?

HENRIQUE - Não.

CLARINHA - Parecia-me ter ouvido o meu nome...

HENRIQUE - Foi engano seu.

CLARINHA - Logo vi que não era possível.

HENRIQUE - Que eu a chamasse?

CLARINHA - Sim! Está para ser a primeira vez.

HENRIQUE - Podia ser hoje.

CLARINHA - Como ontem.

HENRIQUE - Se eu tivesse alguma cousa de agradável a dizer-lhe!

CLARINHA - E não tem, Henrique? (Entra ISABEL.)

HENRIQUE - A minha conversa aborrece de ordinário.

CLARINHA - A mim?

HENRIQUE - A todos. Não ouve Iaiá que está chorando?

CLARINHA - Está mas é brincando.

HENRIQUE - Ora! está chorando: vá acalentá-la, Clarinha.

CLARINHA - Não precisa procurar pretextos para afastar-me, meu senhor! Faço-lhe a vontade.

CENA VI

Os mesmos, ISABEL e MIRANDA

ISABEL - Henrique, eu lhe suplico!

MIRANDA - Até logo... Como estás, Henrique?

HENRIQUE - Boa noite, meu tio!

MIRANDA - Que tens?

HENRIQUE - Nada.

MIRANDA - Desejo falar-te amanhã. (Vai sair.)

ISABEL - Augusto! (Dirige-se a ele) Queria pedir-lhe uma cousa.

MIRANDA - Dize!

ISABEL - Tens muita necessidade de sair hoje?

MIRANDA - Muita.

ISABEL - Podias passar a noite conosco.

MIRANDA - É impossível, Bela! As eleições estão próximas, e hoje deve decidir-se a minha candidatura.

ISABEL - Todo o teu tempo agora é tomado pela política. MIRANDA - Ainda assim tens a melhor parte dele. Não sabes quem me faz tão ambicioso?

ISABEL - Pois bem; toma chá conosco esta noite; e eu te prometo nunca mais queixar-me.

MIRANDA - De todo não posso, Bela; acredita-me. Clarinha e Henrique te farão companhia.

ISABEL - Sim! Mas eu fico só!

MIRANDA - Pouco me demoro.

CENA VII

Os mesmos e SALES

SALES - D. Isabel!... Doutor Miranda!

MIRANDA - Como passou, Sr. Sales?

CLARINHA (a MIRANDA) - Vai passear na forma do costume?

MIRANDA - Não dá licença?

CLARINHA - Se eu fosse Bela, decerto que não.

ISABEL - Ele precisa sair.

CLARINHA - Não se acabam mais essas malditas eleições?

MIRANDA - Oh! não pense que me esqueço daquela nossa conversa. Amanhã...

CLARINHA - O que tem?

MIRANDA - Pretendo falar a Henrique.

CLARINHA - A respeito?...

MIRANDA - Como está esquecida! Até logo, (a meia voz) minha linda sobrinha! (Vai sair.)

CLARINHA - Engraçado!... olhe! Faça-se deputado depressa para que Bela fique descansada; e quando for Ministro, lembre-se que tenho um favor a pedir-lhe.

MIRANDA - Loterias para teatro lírico?

SALES - Realmente é uma necessidade!

CLARINHA - Não, senhor; é um hábito da Rosa aqui para o senhor Sales.

MIRANDA (rindo-se) - Ah! (Sai.)

SALES - Agradeço muito, minha senhora!

CLARINHA - Se há de ter o trabalho de comprar todos os dias uma flor para deitar na gola do casaco...

SALES - Esta flor vale mais para mim do que uma fita.

CLARINHA - E de longe faz o mesmo efeito!

SALES - Nunca reparei nisso, D. Clarinha!

CLARINHA - Acredito! O senhor não se vê senão no espelho! É muito justo. (Entra SIQUEIRA.)

SALES - Confesso que não entendo.

CLARINHA - É pena! O senhor Siqueira que lhe explique.

SIQUEIRA - O quê, D. Clarinha?

CLARINHA - O Sr. Sales não compreende como a gente se pode ver sem ir ao espelho.

SIQUEIRA - Ah! Facilmente, Sr. Sales! Nos olhos dos outros...

CLARINHA - Aprendeu?... Estimo muito!

CENA VIII

ISABEL, CLARINHA, HENRIQUE, SALES e SIQUEIRA

SIQUEIRA (a ISABEL) - Miranda saiu?

ISABEL - Neste momento.

SIQUEIRA - Já não pára em casa.

ISABEL - Tem muito que fazer agora!

SIQUEIRA - Sei; a maldita política. O pior vício que há em nossa terra.

ISABEL - Os homens como Augusto, meu pai, precisam de uma vida agitada.

SIQUEIRA - É verdade. As honras e as altas posições seduzem, mas fazem esquecer um tanto os amigos e até a família.

ISABEL - Que quer? Ele tem necessidade de uma ocupação séria. (JOAQUIM coloca diante de ISABEL uma banca volante e a bandeja de chá.)

SIQUEIRA - E a educação dos filhos, e a felicidade doméstica?

ISABEL, (Fazendo o chá) - Que tem?

SIQUEIRA - Não são ocupações sérias e dignas mesmo de uma grande inteligência?

ISABEL - Ah! Mas não bastam para o homem de talento. Estar sempre junto da mulher, vivendo para a sua família... Isso seria ridículo até.

SIQUEIRA - Não digas isso!

ISABEL (com ironia) - Nós as mulheres, sim, é a nossa obrigação!... Enquanto solteiros é justo que façam sacrifícios por nós, mas depois! Não sabemos que nos amam? Não se casaram conosco? Algumas queixam-se porque ficam isoladas e tristes; mas a culpa é delas. Para que inventaram os bailes, senão para nos divertirem enquanto eles tratam dos seus negócios? Clarinha vem tomar chá.

CLARINHA - Obrigada! Não quero (Vai ao piano.)

SIQUEIRA - Tens razão, Bela! não no que dizes mas no que sentes. Atualmente uma moça deixa a família, separa-se dos pais, com o homem a quem ama para ter um companheiro de sua vida; e o que ela encontra no casamento é a solidão e a viuvez de todas as afeições.

ISABEL - Estava gracejando, meu pai. Não tenho razão de queixa. Meu marido cerca-me de tantas atenções. (Pausa.)

SIQUEIRA - Que é da minha afilhada? Não me esqueci dela. (Tira balas do bolso.)

ISABEL - Está lá dentro. Joaquim, dize a Rita que traga Iaiá. (JOAQUIM vai à porta. Tomam chá.)

CLARINHA - Sr. Sales!

SALES - Minha senhora!

CLARINHA - O senhor não canta?

SALES - Não, D. Clarinha.

CLARINHA - Mas eu creio que já o ouvi na Campesina.

SALES - Nem sou sócio.

CLARINHA - Então seria alguém que se parece com o senhor.

ISABEL - Canta com Henrique.

HENRIQUE - Estou rouco.

CLARINHA - Não faz mal. É o seu estado natural.

HENRIQUE - Excelente razão. Serve para hoje e para outra vez.

CLARINHA - Oh! Guarde na carteira, que eu terei o cuidado de não convidá-lo mais.

ISABEL - Estão sempre brincando.

SIQUEIRA - Já me parecem casados.

JOAQUIM - Iaiá está dormindo, sim senhora.

SIQUEIRA - Deixe-a dormir.

CLARINHA (a SALES) - Deveras o Sr. não canta?

SALES - Não tenho voz, D. Clarinha.

CLARINHA - Pois ensaiemos o dueto conversando. Aí vai o acompanhamento. (Pausa.)

SIQUEIRA (a HENRIQUE) - Está jogando a paciência? É jogo de velho.

HENRIQUE - Ao contrário. Os velhos já não esperam; e por isso não precisam de paciência.

SIQUEIRA - Oh! se precisam! Sobretudo neste tempo de cosméticos e chinós, em que já não se tolera o desleixo daquele que parece velho.

CLARINHA - Então, Sr. Sales, não diz nada?

SALES - Estou ouvindo.

CLARINHA - O Sr. dava um bom deputado. Por que não se apresenta agora?

SALES - A senhora tem lembranças!

CLARINHA - Seriamente! Não dizem que todas as opiniões e todas as classes devem ser representadas no parlamento? Pois a moda ainda não tem o seu órgão; pelo menos uma vez que fui á Câmara não vi lá nenhum figurino. Quanto ao Senado, não se fala; são quarentões. Ora, se o senhor se apresentasse, era sem contestação candidato pela Província da Rua do Ouvidor.

SALES - Está brincando, D. Clarinha? Pois olhe; não me faltam elementos. Se o governo quiser!

CLARINHA - Ora se quiser! Assim achasse ele uma dúzia como o Sr.

SIQUEIRA (a HENRIQUE que baralha as cartas) - E negam que este mundo não anda às avessas! Quando eu tinha sua idade, deixava o baralho às velhas que se ferravam na bisca, e nós os rapazes armávamos um joguinho de prendas, ainda que não fosse senão para ter o prazer de abraçar uma moça bonita como Clarinha, e pôr o tal senhor Sales de lampião de esquina.

HENRIQUE - Ele representa melhor de candeeiro de sala. Não vê como está tão lustroso!

SALES - Estava admirando o seu vestido. É realmente de muito bom gosto.

CLARINHA - Sinto não poder lhe agradecer... Foi um presente.

SALES - Não importa. A senhora é que lhe dá realce.

CLARINHA - Desta vez, sim senhor, obrigada. Mas agora reparo. Está com umas luvas muito lindas.

SALES - Quer zombar de mim.

CLARINHA - Não sou capaz. Deveras são muito elegantes.

SALES - Talvez a senhora não acredite! Atualmente não se encontra um par destas luvas em todo o Rio de Janeiro. Pode correr toda a Rua do Ouvidor.

CLARINHA - São tão raras assim?

SALES - É uma cor muito distinta. Não acha?

ISABEL - Que conversa tão animada!

SALES - D. Clarinha não quer cantar.

CLARINHA - O Senhor Sales estava contando-me a história de suas luvas gris-perle. (Deixa o piano.)

ISABEL - Ah! devia ser interessante.

SALES - D. Clarinha tem muito espírito.

CLARINHA - Parece-lhe?... Estou quase duvidando. (HENRIQUE ergue-se e consulta o relógio.)

SIQUEIRA - Que horas tem?

HENRIQUE - Quase dez.

SIQUEIRA - Boa noite!

ISABEL - Ainda é cedo, meu pai!

SIQUEIRA - Vou amanhã para Petrópolis...

ISABEL - Tão depressa! Eu tenho muitas queixas suas. Agora quando vem à cidade, apenas passa conosco um ou dois dias. Já não nos quer bem!

SIQUEIRA - Estou velho... Custa-me a passar muito tempo fora de casa.

CENA IX

HENRIQUE, SALES, ISABEL e CLARINHA

HENRIQUE - Ainda fica, Sr. Sales?

SALES - Não, senhor. Vamos juntos.

ISABEL - É muito cedo. Para serem amáveis, deviam ficar fazendo-nos companhia até que Augusto voltasse.

HENRIQUE - Não posso. São mais de dez horas.

CLARINHA - Tão tarde. Deve estar caindo de sono!

SALES - Na sua presença?... Não é possível, D. Clarinha.

CLARINHA - Isto quer dizer que a minha presença produz o mesmo efeito que o chá verde! Ataca os nervos. Obrigada pela fineza, Sr. Sales.

SALES - Perdão! Eu não tive intenção de dizer semelhante cousa.

HENRIQUE - Bela!

ISABEL - Adeus!

HENRIQUE (baixo) - Até logo!

ISABEL (alto) - Até amanhã!

HENRIQUE (baixo) - Eu voltarei, Bela! Para vê-la uma última vez!

ISABEL - Não! Não volte! Eu lhe suplico.

SALES - D. Isabel!

ISABEL - Passe bem, Sr. Sales.

HENRIQUE - Adeus, Clarinha!

CLARINHA - Adeus! Pode voltar amanhã, que já não terá o desgosto de encontrar-me aqui.

HENRIQUE - Nem amanhã, nem depois, Clarinha. Talvez nunca mais. Quem sabe o que pode suceder? Adeus!

SALES - Minhas senhoras!

CENA X

ISABEL e CLARINHA

CLARINHA - Tu me emprestas o teu carro?

ISABEL - Onde queres ir? Está às tuas ordens.

CLARINHA - Vou para o Andaraí.

ISABEL - Que quer dizer isto?

CLARINHA - Há oito dias não vejo minha tia. Demais tu já deves estar aborrecida de mim.

ISABEL - Henrique te disse alguma cousa?

CLARINHA - Pois não viste?

ISABEL - O que? que te disse ele?

CLARINHA - Não disse nada! É o seu costume.

ISABEL - Mas escuta...

CLARINHA - Faça-me um especial favor, minha prima. Não falemos mais disto.

ISABEL - Estás agastada e não tens razão.

CLARINHA - Nenhuma. Eu já sabia.

ISABEL - Não tens razão, não, Clarinha. Se Henrique te trata com indiferença, a culpa é tua.

CLARINHA - Cada vez a melhor.

ISABEL - Que necessidade tinhas de chamar o Sales para junto de ti, e conversar com ele daquele modo?

CLARINHA - Havia de estar muda?

ISABEL - Anda lá! Querias te vingar de Henrique. Não sabes quanto isso é perigoso.

CLARINHA (rindo-se) - Com o Sales? (Toma o lenço no piano e acha uma rosa.)

ISABEL - Com qualquer. Dessas conversas inocentes nasce muitas vezes uma inclinação.

CLARINHA - Não calunies o pobre moço. Coitado! Ficou tão atrapalhado que deixou cair a rosa da casaca. (Atira a rosa ao chão.)

ISABEL - Talvez Henrique se ressentisse de ver a intimidade com que o tratavas.

CLARINHA - Não faz mal. Já não me inquieto com isso.

ISABEL - Falas sério?

CLARINHA (beijando-a) - Está tudo acabado, Bela. Vou dormir tranqüila.

ISABEL - Olha para mim, Clarinha!

CLARINHA - Deixa-me!

ISABEL - Estás chorando!

CLARINHA - Eu, não!... até amanhã. (Foge.)

ISABEL - Vem cá! Ouve!

CENA XI

ISABEL e JOAQUIM

(ISABEL toca o tímpano e entra no seu toucador.)

ISABEL (de dentro) - Joaquim!

JOAQUIM - Minha senhora!

ISABEL - Vai fechar a porta; teu senhor volta mais tarde.

JOAQUIM - Eu posso esperar por ele.

ISABEL - Não! Fecha a porta. Quero deitar-me.

JOAQUIM - Minha senhora está doente?

ISABEL - Estou me sentindo constipada. Se Henrique vier... Talvez ele volte para falar com teu senhor... Se ele vier, tu lhe dirás que já estão todos recolhidos. Ouviste?

JOAQUIM - Sim, senhora. (Fecha as janelas e apaga as luzes. ISABEL sai de roupão de dormir, trazendo uma luz.)

ISABEL - Toma o dinheiro para as compras. Vê se nos dão amanhã melhor jantar. Teu senhor hoje passou mal.

JOAQUIM - Eu reparei, sim senhora!

ISABEL - Está bem. Vai!

JOAQUIM - Deus dê boa noite à minha senhora.

ISABEL - Obrigada! (Pausa.)

CENA XII

ISABEL e HENRIQUE

(ISABEL vai recolher; HENRIQUE aparece.)

HENRIQUE - Perdão, Bela!

ISABEL - Fuja desta casa, Henrique!

HENRIQUE - O que receia?

ISABEL - Oh! não é por mim, é por ele, é pelo senhor que eu receio... que eu temo. O amor de uma mulher encontra-se a cada momento; a afeição de um amigo como ele, de um pai, só Deus a pode dar.

HENRIQUE - Onde vai? ouça-me por compaixão.

ISABEL - Vou mandar abrir as portas e trazer luzes.

HENRIQUE - Bela, a mulher de meu tio, devia saber que é para mim sagrada.

ISABEL - Não parece

HENRIQUE - Não tenho fugido da sua presença? Há quantos dias não vinha aqui?

ISABEL - Não devia vir a esta hora.

HENRIQUE - É tão grande ofensa vê-la pela última vez!

ISABEL - Não o compreendo.

HENRIQUE - Amanhã...

ISABEL - Acabe!

HENRIQUE - Amanhã parto para Montevidéu. Deixo a paz e a felicidade nesta casa, na qual nunca mais devo entrar.

ISABEL - E Clarinha?

HENRIQUE - Que tenho eu com ela? Que me esqueça.

ISABEL - Mas ela o ama!

HENRIQUE - Ela!...

ISABEL (severa) - Henrique!

HENRIQUE - Ah! Eu sinto que sou um miserável. Não vê? A vergonha me queima as faces.

ISABEL - Ame Clarinha! Aceite esse primeiro amor de um coração puro. Ela lhe dará a felicidade.

HENRIQUE - Pede-me um impossível. Não lhe basta deixar de ver-me e para sempre, Bela!

ISABEL - Mas esse projeto é uma loucura.

HENRIQUE - Que importa, se é a sua tranqüilidade.

ISABEL - Comprada com a desgraça do seu tio. A afeição que Augusto lhe tem, só eu a conheço. É uma ternura de mãe, disfarçada pela severidade de um pai. Como sofrerá essa ausência?

HENRIQUE - Se ele pudesse suspeitar o que se passa em mim, seria o primeiro a exigir que partisse. Há muito o devia ter feito.

ISABEL - Reflita, Henrique!

HENRIQUE - Não posso arrancar minh'alma aos pedaços e atirá-la para longe de mim. É preciso que eu a arraste comigo, Bela: e a desterre deste lugar onde cada um dos seus pensamentos é uma infâmia. Não devia ter vindo... Mas partir sem dizer-lhe uma palavra, sem dizer-lhe adeus... o último adeus..

ISABEL - Ainda nos veremos um dia!

HENRIQUE - Nunca!

ISABEL (comovida) - Não me roube essa esperança, Henrique!

HENRIQUE (terno) - Bela!

ISABEL (recobrando-se) - Adeus! (Estende-lhe a mão com frieza e esforço.)

HENRIQUE - Tem razão! Adeus, minha irmã.

ISABEL (ouvindo bater à porta da rua) - Meu marido! Eis o que eu temia, Henrique!

HENRIQUE (quer sair) - Não posso vê-lo!

ISABEL (com império) - Fique!

HENRIQUE - Não sei fingir, Bela!

ISABEL - Mas esse mistério pode condenar-me, Henrique!

HENRIQUE - A ti, a mais pura e a mais santa das mulheres!... Impossível. (Abre uma janela.) Ninguém me verá. A noite está escura e o jardim deserto.

ISABEL - Mas é uma imprudência...

HENRIQUE (na janela, já oculto pelas cortinas) - Lembre-se alguma vez do mísero que enlouqueceu porque teve a desgraça de amá-la mais do que a um pai...

ISABEL - Adeus! E esqueça-me...

(MIRANDA entra e ouve as últimas palavras de ISABEL que enxuga uma lágrima e voltando-se acha-se em frente do marido que se tendo precipitado, a arreda violentamente e corre â janela.)

CENA XIII

ISABEL e MIRANDA

(MIRANDA corre â janela e já não vê o vulto; luta, perplexidade entre o ímpeto

de lançar-se pela janela e dirigir-se â mulher.)

MIRANDA (rindo convulso) - Que importa! É um homem qualquer... o instrumento da desonra! O pretexto do crime!

ISABEL (espanto) - Ah! (Pausa.)

MIRANDA (toma a luz e esclarece o rosto de ISABEL) - Ainda cora!

ISABEL - De indignação, senhor!

MIRANDA - Nem uma palavra!

ISABEL - Oh!. não me defendo... Se eu fosse criminosa, já estava morta de vergonha a seus pés.

MIRANDA - Quem era esse homem?

ISABEL - Oh! Não! Nunca!

MIRANDA - Quem era esse homem, senhora? (Pausa.) É escusado o silêncio.

ISABEL - Que diz, senhor?

MIRANDA (mostrando a rosa, que apanha aos pés de ISABEL) - Por quem, meu Deus!... Por um Sales!... (Cobre o rosto com as mãos e soluça. ISABEL olha-o com desespero.)

ISABEL - Eu sou inocente, Augusto!

MIRANDA - Vi tudo, senhora!... Vi... Não cuide que a espiei. Oh não! minha confiança era cega. Mas disseram-me que se tinha recolhido incomodada, e eu abafei os meus passos para não perturbar o seu sossego! (Ri-se.) Imbecil! (MIRANDA fecha as portas, vai ao gabinete; traz um par de pistolas. ISABEL, enquanto ele sai, ajoelha.)

ISABEL - Dá-me coragem... meu Deus!

MIRANDA - Ele vai julgar-nos. (Carrega as pistolas.)

ISABEL - É um crime inútil, senhor. Sei respeitar a sua e a minha honra.

MIRANDA - Inútil é a vida que me deixou depois de calcar aos pés a minha felicidade. (Aponta.)

ISABEL - Oh! (Grito de pavor. IAIÁ bate na porta, chamando: papai.)

MIRANDA - Minha filha! Ah! é preciso viver para ela... e para o mundo! Quanto a vos... morremos um para o outro.

ATO SEGUNDO

Em casa de MIRANDA - Varanda interior.

CENA PRIMEIRA

RITA e JOAQUIM

(JOAQUIM deita jornais e cartas sobre a mesa. RITA sai da janela.)

RITA - O carro já está pronto, Joaquim?

JOAQUIM - Quem mandou aprontar?

RITA - Ninguém. Iaiá não passeia todos os dias?

JOAQUIM - Passeia com você.

RITA - Pois então?

JOAQUIM - Ninguém deu ordem.

RITA - Se a gente for esperar por isso, não se faz nada. Você vê quando é para deitar o jantar; pergunta-se ao Senhor, ele diz: "Se a Senhora mandar". Vai-se perguntar à Senhora, ela diz: "Se o Senhor mandar". E assim é tudo.

JOAQUIM - Que tem você com isso?

RITA - É que se a gente não fizer as cousas, ninguém manda fazer.

JOAQUIM - Branco lá se entende. Vá vivendo sua vida, Rita, que Senhor é muito bom.

RITA - Quem não sabe disto? Minha Senhora, essa é mesmo uma santa. Olhe, Joaquim! Tenho uma pena de ver como ela se amofina. E é por causa de seu Senhor!

JOAQUIM - Cale a sua boca, Rita. Não se meta onde não é chamada.

RITA - Mas, diga uma cousa! Antes de Nhanhã Clarinha casar, não andava tudo tão direito?

JOAQUIM - Tal e qual, como agora.

RITA - Que história! Esta casa era uma alegria!... Sinhá brincava que parecia uma mocinha: Nhanhã estava sempre rindo e cantando; e Senhor moço Henrique esse nem se fala. Depois daquela doença grande de meu Senhor é que tudo mudou.

JOAQUIM - Aí vem Senhora; bico!

CENA II

Os mesmos, ISABEL e IAIÁ

ISABEL (trazendo IAIÁ pela mão) - Senhor já saiu?... JOAQUIM - Não Senhora. Está no gabinete falando com um caixeiro do Sr. Souto.

ISABEL - Agora Iaiá vai passear, sim?... Passear no carro com Rita!

RITA - Venha, Iaiá!

ISABEL - Olhe, Rita está chamando. Não dá um beijo na sua Mamãe, não?... beija. Ah!... Agora vá dar um em Papai para Iaiá ficar bonita. (RITA toma a menina.)

RITA - Diga - Mamãe adeus!... Diga... Ora Iaiá é feia.

ISABEL - Tem cuidado com o vento! Ela não está boa.

RITA - Eu abaixo sempre as vidraças do carro.

JOAQUIM - O tempo está muito bom, sim Senhora.

RITA - Vamos tomar a benção a Papai?

ISABEL - Adeus!... (A RITA) não te demores muito.

CENA III

ISABEL e JOAQUIM

JOAQUIM - Esta carta é para minha Senhora.

ISABEL - Entrega a teu Senhor.

JOAQUIM - Mas ele não gosta.

ISABEL - Reuna com as outras.

JOAQUIM - Minha Senhora quer ler os jornais?

ISABEL - Depois, se ficarem aí.

JOAQUIM - Mando pôr o almoço?

ISABEL - Teu Senhor já pediu?

JOAQUIM - Ainda não, Senhora.

ISABEL - Escuta! ele anda doente?

JOAQUIM - Não, Senhora.

ISABEL - Ontem estava tão pálido...

JOAQUIM - Meu Senhor trabalha muito.

ISABEL - Passa as noites a escrever! E isso faz-lhe tanto mal!

JOAQUIM - Esta noite ele dormiu cedo!

ISABEL - Cedo! Às três horas ainda estava trabalhando.

JOAQUIM - E minha Senhora viu?

ISABEL - Não lhe digas isto. Acordei por acaso; pareceu-me ouvir gemer... Vim escutar naquela porta...

JOAQUIM - Quem sabe se não foi minha Senhora que passou ali a noite chorando.

ISABEL - Chorando por quê?... Não tenho motivos de chorar. Vivo tão satisfeita! Tu não vês?...

JOAQUIM - Minha Senhora me perdoa. Eu não disse.

ISABEL - Sabes o que me aflige? É que falte alguma cousa a teu Senhor. Ele nunca se queixa! Mas deves ver o que ele deseja, para se fazer imediatamente. A roupa está pronta: vou dar-te daqui a pouco. Por que não trazes a outra?

JOAQUIM - A outra?...

ISABEL - Sim; para mandar lavar.

JOAQUIM - A outra... já foi, sim, Senhora.

ISABEL - Joaquim!... Que ordem te dei eu?

JOAQUIM - Que minha Senhora mesma é que queria tomar conta da roupa de meu Senhor.

ISABEL - E não fizeste caso?...

JOAQUIM - Meu Senhor a semana passada me disse: - "Joaquim, não quero que tua Senhora tenha motivo de afligir-se. Ela não deve se amofinar com tantas cousas. Manda lavar minha roupa fora".

ISABEL - E tu mandaste?

JOAQUIM - Que havia de fazer, minha Senhora?

ISABEL - Tens razão. (Enxuga a furto uma lágrima.)

CENA IV

Os mesmos e MIRANDA

(JOAQUIM afasta-se vendo o Senhor. MIRANDA cumprimenta friamente ISABEL: senta-se e lê as cartas)

MIRANDA - Joaquim! Esta carta é de tua Senhora.

JOAQUIM - Veio com as outras. (Entrega a ISABEL.)

ISABEL (a meia voz) - Espera!... (Alto, lendo) É uma carta de Nhanhã D. Clarinha!... Ah! Ela vem hoje de Petrópolis.

JOAQUIM - Então não pode tardar.

ISABEL - Talvez venha almoçar aqui. (Deita a carta aberta sobre o aparador.)

MIRANDA (a JOAQUIM) - Esse bilhete de camarote... a tua Senhora. O cartão do Clube... É hoje!... Hás de preparar o carro!

JOAQUIM - Mando aprontar o carro do Senhor moço Henrique?

MIRANDA - Já pediste licença a tua Senhora? Faze o que ela mandar. (ISABEL acena a JOAQUIM que sim.)

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