Fechara-se a noite.
D. Genoveva sentada à cabeceira da mesa de jantar presidia a trabalhos bem estranhos às habituais lidas caseiras. Ajudada de suas escravas enchia de pólvora e bala os cartuchos que enrolava a mão mimosa de D. Flor, com o auxílio da Justa.
Alina e a mãe na outra ponta da mesa faziam fios e rezavam baixinho a magnífica.
O capitão-mór deixando a sua gente de guarda no terreiro, foi ao camarim com padre Teles e Leandro Barbalho para tomar conhecimento da carta do Fragoso.
Padre Teles rompeu o fêcho e deu a seguinte leitura:
Ilm. sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo
Aos 5 de janeiro do ano de 1765
Prezadíssimo senhor
Peço vênia a vossa senhoria para não tomar por última e definitiva a resposta de que foi portador meu primo Ourém.
Ainda espero que, pesando em sua consumada prudência os males que podem afligir a duas famílias importantes e que sempre viveram em boa vizinhança, há de tornar de seu primeiro alvitre.
Se vossa senhoria julga-se ofendido em seus brios, não posso oferecer-lhe mais cabal reparação do que essa de beijar-lhe a mão como filho. Não espero senão o seu agrado para ir pessoalmente render-lhe êsse preito de minha submissão.
Resolví aguardar três dias para dar tempo a que vossa senhoria delibere com toda calma. Se expirado êste prazo, não tiver eu satisfação de meu pedido, só então, e muito a meu pesar, serei levado à última extremidade; porque também tenho que dar contas de mim aos parentes e amigos, defendendo-me de tão dura afronta.
Guarde Deus a vossa senhoria por muitos anos. Dêste seu servidor, pronto sempre às suas ordens
Marcos Antônio Fragoso
Era fácil de reconhecer no estilo da carta a mão diplomática de Ourém. O Fragoso não tinha paciência nem retórica para arredondar êsses períodos em que, sob os rendimentos de uma cortesia respeitosa, fazia-se ao fazendeiro a intimação formal de entregar a filha a título de noiva no prazo de três dias, se não queria sujeitar-se a lhe ser arrancada à fôrça.
Êsse excesso de deferência com que o licenciado procurou atenuar a cominação, pungiu mais o orgulho do capitão-mór do que uma linguagem grosseira e desabrida. A impossibilidade em que se achava o fazendeiro de repelir a agressão, se insinuava nas frases mais polidas da carta, uma ironia que não estava no pensamento do escritor, nem nas intenções do signatário.
Assim ao terminar Padre Teles a leitura, Campelo tirou-lhe das mãos o papel, e rasgou-o ao meio. Leandro Barbalho, porém, levantou as duas bandas, e o capelão recordou-se naquela posição estreita de seu caráter sagrado de ministro da religião.
— Vossa senhoria, senhor capitão-mór, não me levará a mal que eu, ministro do Senhor e capelão desta casa, faça ouvir neste momento a voz da religião.
Empenhou então o reverendo toda a sua loquela em demonstrar ao fazendeiro a necessidade de ceder por essa vez, a fim de salvar a sua família e a si das desgraças que o ameaçavam. Que valia resistir, se afinal tinha de sofrer a lei do vencedor, como não era lícito duvidar, quando viam-se reduzidos ao minguado número de cincoenta homens contra quatrocentos?
Depois entrou o padre em copiosa argumentação para convencer ao capitão-mór que, no fim das contas, o Fragoso, bem longe de insultá-lo, ao contrário rendia-lhe preito, como êle próprio confessava em sua carta; e se o fervor com que o mancebo procurava êsse casamento era uma culpa, atenuava-se com a formosura de D. Flor, que lhe inspirara tão viva paixão.
Leandro Barbalho ouviu em silêncio as ponderações do capelão, e de algum modo aderiu a elas fazendo ao capitão-mór esta declaração:
— O senhor sabe, meu tio, que eu não sirvo de embaraço à sua resolução. Obedecí-lhe aceitando a mão de minha prima; da mesma sorte lhe obedecerei não pensando mais nisso.
O capitão-mór atravessou o aposento e chegando ao corredor, chamou a filha em voz alta:
— Flor!
A donzela acudiu logo. Nas condições em que se achava a fazenda, cada acidente devia sobressaltar, como núncio de novas complicações. A filha do capitão-mór, porém, sabia dominar-se, e quando entrou no camarim, foi com um olhar sereno que ela interrogou a fisionomia das pessoas alí presentes.
— Leia a carta, padre Teles, disse o capitão-mór, significando à filha com um gesto que atendesse.
O capelão reuniu as duas bandas de papel, e obedeceu à ordem do capitão-mór. Finda a leitura, o pai coltou-se para a filha:
— Ouça agora os conselhos do nosso capelão. Fale, padre Teles.
O sacerdote repetiu o que havia dito pouco antes, insistindo, porém, nas razões mais próprias para mover o ânimo da donzela.
— Ouviu Flor? Agora que responde a esta carta?
— Sua filha, meu pai, a filha do capitão-mór Campelo nunca seria espôsa do homem que uma vez a insultou, ainda quando êle não se atrevesse a ameaçar-nos como o faz.
Campelo cerrou a filha ao peito:
— Aquí tem a resposta desta carta insolente. Mas nós queremos dá-la de um modo que fique para memória.
O capitão-mór reassumira de repente o gesto imperioso que êle tinha habitualmente e era a expressão de sua índole soberba, mas que ficara como atônito, desde o momento em que reconhecera a impossibilidade de desafrontar-se.
— Êle marcou três dias; nãp careço de tanto. Amanhã Flor será mulher de Leandro Barbalho.
Arnaldo assomara à porta, ainda a tempo de ouvir estas palavras; uma palidez mortal derramou-se pelo semblante, que nenhum perigo turbava. Quando êle saíu da vertigem que o assaltara, seus olhos fitaram-se na donzela.
Flor abaixou as pálpebras para não ver êsse olhar, e respondeu ao pai com uma voz calma, ainda que tocada de leve aspereza:
— Amanhã ou neste momento, meu pai, quando m’o ordenar, receberei por espôso meu primo Leandro Barbalho.
O sertanejo levou a mão ao seio para suster o coração que lhe desfalecia, e fugiu dalí com a morte n’alma.
Entretanto êle vinha cheio de esperança trazer a paz e a alegria àquela casa, onde lhe estava guardada a dôr mais pungente que podiam inflingir à sua alma.
Quando o capitão-mór se recolhera ao camarim para ler a carta, Arnaldo fôra sentar-se embaixo da oiticica onde estavam o Manuel Abreu e alguns dos agregados.
À distância de quinhentos passos, avistava-se uma linha escura que cingia o centro da fazenda, como um arco do qual a serra de Santa Maria figurava a corda. Nessa faixa somrbia luziam, aquí e alí, pequenos fogos vermelhos, que derramavam pelo espaço um clarão intermitente.
Eram as redes, que movidas ao compassado balanço, ocultavam às vezes o foco da luz e logo o descobriam, fazendo correr pelo campo umas sombras vagas, trêmulas e esguias, que lembravam os fantasmas e espectros das lendas populares.
Manuel Abreu e seus companheiros observavam atentos a linha, que indicava o acampamento das bandeiras do Fragoso e o cêrco pôsto à casa da Oiticica. No prolongamento do arco e ligação dos postos entre si, ciam êles o empenho de impedir a comunicação com o exterior.
O dono da Oiticica não podia contar senão com seus próprios recursos, e devia abandonar a esperança de obter socorro de for; pois antes que êste chegasse, o inimigo teria levado de assalto a casa.
— Não ouve um tremor? perguntou Arnaldo de repente ao feitor. Talvez tenham esperado pela noite para atacar-nos.
— Mas se agora mesmo veio uma carta do homem! disse o Abreu.
— Que tem isso? acudiu o Nicácio. É manha o cabra. Então aquele Onofre que é da pelo do cão.
— Não há que fiar! observou João Coité!
A-pesar-de suas dúvidas, Manuel Abreu conhecia bem a perspicácia do sertanejo para desprezar o seu aviso. Adiantou-se até o parapeito do terreiro e os companheiros o seguiram para verificar, se com efeito alguma partida se aproximava.
Quando tornaram aos bancos, Arnaldo havia desaparecido. Os outros suspeitaram que êle havia-se divertido à custa do Abreu; e porisso afastara-se dalí, para outro ponto do terreiro.
Enganavam-se. Apenas tinham êles voltado s costas, Arnaldo com uma agilidade, que em outro seria para admirar, mas era nele comezinha, de um salto suspendera-se a um ramo da Oiticica, e sumira-se por entre a espêssa folhagem.
Ganhando o tronco, despiu a roupa, que estendeu pelos galhos, e resvalou pela broca da árvore até a cava subterrânea, e gatinhando às vezes como um cão, ou rojando como um réptil, foi sair na bôca do fôsso.
Daí em diante corria uma levada cheia pelo inverno e que atravessava a linha de cêrco estendida pelo inimigo. O sertnaejo aproveitou-se do córrego, como de um caminho coberto, para transpor o acampamento.
Seguiu por dentro sutilmente, com água até os olhos. Quando chegou perto das barracas e tendas, os cães latiram, e acudiu logo uma das rondas ligeiras que os capitães das bandeiras tinham estabelecido para melhor guardar os passos entre os postos, e mais apertar o cêrco.
Arnaldo, porém, mergulhara, e caminhando por baixo d’água como a lontra ou a capivara, foi surdir muito aicica, e de que serviu-se para distrair a atenção do Manuel Abreu e sua gente.
Continuou no rumo dessa repercussão da terra, que lhe indicava a marcha de uma multidão. A certa distância êle soltou o berro da jibóia que era o grito de guerra de Anhamum. Outro berro lhe respondeu e o tropel dos passos cessou.
Momentos depois os dois amigos encontravam-se na espessura da floresta.
— Anhamum recebeu sua flecha que tu lhe mandaste, chefe dos tapijaras; e soprou o boré para convocar os seus guerreiros. Êle veio pelo rasto dos inimigos.
— Tu és um amigo fiel, chefe dos Jucás; teus guerreiros terão muitos inimigos a combater, e muitas armas e roupas para levar à sua taba.
Arnaldo sabia quanto os índios eram ávidos daqueles objetos, principalmente dos veludos e sêdas de côres vivas, com que se enfeitavam; porisso, embora tivesse confiança na dedicação do chefe, quis por êsse modo estimular a gana dos selvagens.
Combinou o sertanejo com o chefe um plano de ataque.
Os selvagens ficariam ocultos na mata, de espreita ao inimigo. No momento de assalto à casa, e a um sinal convencionado, Anhamum cairia sôbre as bandeiras do Fragoso, e as meteria entre dois fogos.
Despachou-se também imediatamente um guerreiro para ir ao encontro do Agrela, que Arnaldo supunha já estar àquela hora de volta da Barbalha; pois não era muito que, avisado como fôra, desse conta da expedição em oito dias, tanto mais quanto ao chegar a seu destino conheceria a mentira da suposta viúva.
O mensageiro devia prevenir o ajudante do cêrco pôsto à Oiticica; e recomendar-lhe da parte de Arnaldo que aguardasse a ocasião do assalto para dar também sôbre o inimigo, e cortar-lhe a retirada.
Tomadas estas disposições, tornou o sertanejo pelo mesmo caminho.
Tinha a sorte do Fragoso em sua mão; e ia oferecer ao capitão-mór a maior satisfação que êle podia experimentar nesse momento: a de castigar a insolência do rapazola que se atrevera a afrontar seu poder.
Maior, porém, era o seu júbilo de arredar para sempre daquele sítio o homem que tinha ousado erguer os olhos para D. Flor e cobiçar a sua beleza.
Imagine-se, pois, do golpe que o trespassou quando, entrendo pressuroso no camarim do capitão-mór, ouviu aquelas palavras em que a donzela, conformando-se ao desejo do pai, dava-se por espôsa a Leandro Barbalho.
Fugindo, seu primeiro ímpeto foi correr ao terreiro, apanhar as armas que alí estavam de prontidão, dispará-las umas após outras contra a gente do Fragoso, empenhar o combate, e assim provocar a morte.
Mas terminada a luta, ou o capitão-mór vencia, como era de esperar depois das providências tomadas, e Flor se casaria do mesmo modo com o primo, ou o Fragosos lograria seu intento e levaria a espôsa que viera tomar à mão armada.
— Não; eu não posso morrer. O capitão-mór vencerá; mas Leandro Barbalho não há de ser marido de Flor.
Ia alta a noite.
Na casa da Oiticica reinava o silêncio. A família recolhera-se a tomar algum repouso e o capitão-mór acompanhou a mulher para mais sossegá-la, contando voltar depois para seu pôsto.
No terreiro também os homens da escolta e mais gente acomodaram-se por baixo da oiticica, ao longo da calçada; e dormiam ao relento, com a cabeça encostada ao braço, e a espingarda segura entre os joelhos.
Os vigias, colocados ao correr do muro, investigavam os corredores, para dar rebate ao menor movimento suspeito do inimigo; e Leandro Barbalho embalançava-se na rede que mandara armar nos ramos da oiticica.
A capela estava aberta; e pelo vão da porta via-se à luz mortiça de uma candeia padre Teles que alí andava dispondo os paramentos e cuidando de outros arranjos para a próxima cerimônia, no que era ajudado por um rapazinho, filho do Abreu, e que lhe servia de sacristão.
Arnaldo, que observava aqueles movimentos com uma ânsia cruel, decidiu-se afinal; e atravessando o terreiro, aproximou-se da rede do Leandro Barbalho.
— Tenho um particular com o senhor, disse-lhe o sertanejo.
— Pode falar, Arnaldo.
— Há de ser em lugar onde ninguém possa ouvir-nos.
— Onde quiser.
O sobrinho do capitão-mór seguiu o sertanejo até a extremidade do terreiro, onde já começavam as encostas da serra. Passava alí o muro do quintal, que vinha do canto da casa e galgava pelos alcantís. Por baixo ficava uma quebrada onde passava um córrego.
Arnaldo escolhera de propósito aquele sítio escuro, onde dois homens podiam bater-se a gôsto, sem temer vistas indiscretas. O que sucumbisse rolaria pelo barranco; e não deixaria vestígios que denunciassem a luta.
O sertanejo não demorou a explicação.
— O capitão-mór não tem fôrça para resistir a um assalto; só há um meio de salvá-lo.
— Qual é? perguntou Barbalho.
— Ficar D. Flor solteira.
Arnaldo era sincero. Nauqele instante de angústia que passara, êle tinha jurado não salvar a Oiticica e seus moradores, senão por aquele preço.
— Êsse meio, Arnaldo, meu tio não o afeita.
— O sr. capitão-mór tem seu orgulho; mas o senhor é que não deve consentir em um casamento que será a destruição de toda a família.
— Não tenho que ver nisso, respondeu o mancebo placidamente.
— Assim não lhe importa a desgraça de seus parentes?
— Meu tio Campelo ordenou-me e eu obedeço. Se êle me dissesse «Barbalho, vai agora mesmo àquela canalha do Fragoso, e mete-lhe o rêlho», eu iria direito ao cabra, e a primeira lambada ninguém lhe a tirava do pêlo. O que sucedia era coserem-se alí às facadas; mas o homem nasceu para morrer. Ora, meu tio quer que me case com Flor; é o mesmo, devo fazer-lhe a vontade.
Arnaldo olhou admirado e comovido para o homem que lhe falava com aquela simplicidade heróica.
— Pelo meu gôsto ficaria solteiro. Não tenho jeito para aturar mulheres; demais não é nada agradável andar um homem com a morte atrás de si, porque êsse Fragoso, quando mesmo escapássemos desta, não descansaria enquanto não me despachasse. Mas devo desafrontar as barbas de meu tio Campelo, e se fosse preciso, eu me casaria até com o diabo em pessoa.
Como o sertanejo não respondesse ainda, o mancebo concluiu:
— Portanto, amigo Arnaldo, se não há outro meio de salvar-nos, vamos dormir, que êste não serve.
Quando o sobrinho do capitão-mór afastava-se, Arnaldo, preso de uma comoção profunda, murmurou:
— Eu não posso matar êste home. Mas Flor?…
O sertanejo saltou o barranco; e rodeando o tombador até à levada por onde passara no princípio da noite, de novo atravessou o cêrco, mas desta vez para dirigir-se à caverna de Jó.
O velho dormia; despertando ao rumor dos passos de Arnaldo, viu ao tênue vislumbre que entrava pelas fendas o vulto do mancebo.
— Arnaldo!
— Preciso de ti, Jó.
— E por quem ainda ando eu, alma penada, por êste mundo, filho?
Arnaldo contou ao velho o que sucedera aquela noite na Oiticica.
— Anhamum chegou.
— Ouví os seus passos.
— Êle possue um veneno que mata, e outro que faz dormir apenas.
— Conheço.
— Tu lhe pedirás uma seta ervada que faça dormir um homem.
— E um arco.
— Sabes atirar com êle?
— Outrora eu flechava as andorinhas no ar.
— Posso contar contigo?
— Conta com Deus, filho, se êle quiser abençoar-te.
— Não te demores.
— O teu pé não tem a asa de teu desejo, como a terá o meu que é velho e cansado.
Arnaldo tornou à casa. Começava a empalidecer o horizonte. Na habitação e em tôrno dela reinava o mesmo silêncio. No acampamento do Fragoso, os bandeiristas, fatigados talvez da vigília noturna, entregaram-se ao repouso da madrugada.
Apareceu no patamar o capitão-mór Campelo que desceu ao terreiro, passou revista à sua gente, visitou os postos que se tinham estabelecido em vários pontos que se tinham estabelecido em vários pontos mais próprios para a resistência e mandou fazer nova distribuição dos cartuchos fabricados naquela noite.
Depois de ter provido à defesa, o senhor da Oiticica chamou o capelão com quem teveuma breve prática. Azoado com as ordens que recebia, o capelão redarguiu:
— Êle não sofrerá, sr. capitão-mór?
— Que remédio tem senão sofrer?
— E as consequências?
— Tem mêdo, reverendo?
— Se me desem um bacamarte, mostraria que um padre é um homem; porém assim de braços cruzados, como um criminoso que vai a fuzilar…
— Temos dito, padre Teles; trate de cumprir as nossas ordens.
O capelão chamou alguns agregados à capela, donde êsses homens conduziram para a frente do terreiro, adiante da oiticica, vários objetos cuja natureza não se podia bem distinguir por causa do escuro que ainda fazia.
À claridade da alvorada que raiava, pôde-se então divisar um altar já vestido de rica toalha de labirinto e renda, desfraldada sôbre o frontal de brocado carmesim. Na peanha erguia-se a cruz de pau-santo, com a imagem de Cristo lavrada em prata; dos lados estavam as serpentinas igualmente de prata.
Foi grande a surpresa no campo do Fragoso, quando alí deram com a novidade que ia pelo terreiro da Oiticica.
Uma alvorada de cornetas chamou a atenção de todos, cujas vistas voltaram-se para aquele ponto, e fitaram-se cheias de curiosidade no espetáculo, que se lhes apresentava.
A escolta do capitão-mór formava em duas alas de um e outro lado do terreiro, a partir dos cantos de casa, figurando as naves do altar, que ficava no centro. O menino, que servia de sacristão, acendia com o gancho as velas da serpentina, cuja flama ainda luzia na fôsca palidez do crepúsculo.
Ourém, que fôra um dos primeiros a acudir ao toque da alvorada, estava conjeturando sôbre a significação da quela cena estranha, e ouvia as observações de João Correia e Daniel Ferro:
— É alguma ladainha que vão rezar para pedir a intercessão divina, opinara o último.
— Ou talvez queiram ouvir missa, para que o Espírito-Santo inspire ao Campelo uma boa resolução. E não passe de lembrança da mulher, a D. Genoveva.
— E da filha. Que pensa? Ela já estava rendida à ternura do nosso Fragoso, e por seu gôsto as coisas tomariam outro jeito.
— Mas, senhores meus, acudiu Ourém, ladainha ou missa, não tinham êles a capela da fazenda, que lé está aberta?
— É que não caberiam dentro.
— Não é gente da fazenda que lá vem descendo? atalhou o licenciado, apontando para o Nicácio que nesse momento deixava o terreiro em busca do acampamento do Fragoso.
— Espere!… E traz carta, acrescentou Daniel Ferro, afirmando a vista.
Fragoso apareceu então. Embora tivesse acordado antes, e ouvisse o toque das cornetas, não quis mostrar-se em desalinho, e primeiro cuidou de compor-se com o apuro do costume, que não dispensava em nenhuma circunstância, quanto mais nesta em que achava-se à vista de D. Flor e podia a cada momento ser chamado à sua gentil presença.
— Então que novidades temos, primo Ourém? perguntouo capitão.
O licenciado respondeu apontando o portador que aproximava-se, e declamando com ênfase os versos que abrem um dos cantos dos Lusíadas:
Depois de procelosa tempestade,
Noturna sombra e sibilante vento,
Traz a manhã serena claridade,
Esperança de amor e casamento.
— Digo amor e casamento, que para o nosso caso vale tanto como pôrto e salvamento; pois, que melhor pôrto para o coração batido pelo mar proceloso das paixões do que o afeto sereno da espôsa; e que melhor salvamento para as calamidades de uma guerra de família, do que transformá-la em festa de bodas, e fazer dos inimigos parentes?
Fragoso, alvoroçado com as palavras do Ourém, e com a vista do emissário que parecia confirmá-las, recebia satisfeito essa alvíçaras; mas como acontece quando se alcança a realização de um desejo muitas vezes frustrado, o mancebo ainda vacilava emacreditar na sua felicidade.
— Quem lhe diz, primo Ourém, que essa carta do capitão-mór nos trará tão boa nova?
— Diz-me aquele altar que lá está armado, primo Fragoso. O capitão-mór é soberbo e também desconfiado, cede à intimação porque não tem outro remédio; mas quer fazer as coisas de modo que pareça que é êle quem ordena, guardando-se ao mesmo tempo de alguma futura logração.
— Cuida então que êle vai exigir de mim a condição de casar-me sem mais demora com a filha? tornou Fragoso a rir.
— Tenho-o como certo. Aquela carta é uma ordem, ou como diríamos em linguagem forense, um mandado cominatório para o capitão Marcos Antônio Fragoso comparecer incontinenti na oiticica a fim de receber-se em matrimônio com a sr. D. Flor Pires Campelo, sob pena de, não o fazendo, ser tido e havido por desleal, indigno, etc.
— Boa maneira de sair-se da entalação! observou João Correia.
— Assim fica parecendo que é êle quem obriga o primo Marcos Fragoso a casar, e não ao contrário; mas, como chegamos ao mesmo fim por êste ou aquele modo, que mal nos faz o velho rabugento?
— Eu é que não o admitia, se fosse comigo, exclamou Daniel Ferro.
— Em verdade êsse desfecho não me parece muito conforme, primo Ourém, disse Fragoso, abalado pela opinião de seu parente de Inhamuns.
— Não nos venha cá embrulhar o caso, com as suas arrancadas de touro bravo, Daniel Ferro; isto não é vaquejada; trata-se de caça mais fina. E você, primo Fragoso, lembre-se que no fim de contas o capitão-mór Campelo é seu futuro sogro.
Nesse momento o Nicácio que ainda vinha a uns cincoenta passos de distância, fincou no chão uma vara que trazia, e tornou atrás, deixando a carta pegada na ponta da estaca.
Marcos Fragoso e Daniel Ferro trocaram entre si um olhar significativo; e voltaram-se à uma para o licenciado de quem esperavam a explicação de tão singular procedimento.
O Ourém, um tanto enfiado com aquele excesso de prudência, que por certo não indicava mensagem pacífica e amistosa, adiantou-se ao encontro do João Correia, que tinha ido em busca da carta.
— Então, primo Ourém, é assim que se usa intimar os mandados lá no su fôro? disse Fragoso em tom de mofa.
— Vamos a ver! respondeu o licenciado, abrindo a carta que lhe entregara o joão Correia.
Os quatro amigos leram a um tempo estas poucas palavras escritas em bastardo no meio da fôlha de papel:
«O capitão-mór de Quixeramobim, Gonçalo Pires Campelo, vai mostrar, ao nascer do sol, o caso que faz das ameaças de um bandoleiro atrevido».
Não se tinha dissipado ainda o pasmo produzido por êste repto insolente, quando o sino da capela começou a tanger uns repiques festivos.
Todos os olhares voltaram-se para a casa; e fitaram-se atônitos na cena que alí se desdobrava naquele instante.
O primeiro golpe de luz, jorrando do oriente, foi bater de chapa na frente da casa.
Tinha nascido o sol.
No patamar, acabava de assomar o vulto majestoso do capitão-mór Campelo, que trajava a sua farda de veludo escarlate com recamos e galões dourados.
Os calções eram, como a véstia, de gorgorão branco entretecido de prata; e os coturnos do mais fino cordovão, tinham no salto vermelho a espora de ouro, e na pala do rosto uma fivela de pedrarias.
Ao lado pendia-lhe do talim bordado a espada com bainha também de ouro e copos cravejados de diamantes, como o argolão que prendia-lhe ao pescoço a volta de fina cambrais, cujas pontas caíam sôbre os folhos estofados da camisa.
O chapéu de feltro, armado como então usava-se, com a aba da frente apresilhada e um respeitável rabicho com laçada de fita amarela completavam o trajo de cerimônia do capitão-mór.
Com êle saíra D. Genoveva, também vestida de gala, com uma roupa mui rica de veludo azul, alcachofrada de ouro, e coberta de gemas preciosas desde o pente do toucado até os sapatos de setim.
Colocaram-se ambos, marido e mulher, de um e outro lado da porta, um tanto voltados para dentro como esperando alguém que devia passar.
Apareceu então D. Flor.
A donzela vinha radiante de formosura e graça. Debuxava-lhe o talhe airoso um vestido de lhama de ouro, justo e de estreita roda como usam-se agora à moda daquele tempo.
Uma petrina de setim azul recamada de rubís como uma faixa de céu estrelado, cerrava-lhe a mimosa cintura, e recortando-se em coração, debuxava um colo do mais perfeito cinzel. Eram dessa mesma teia celeste os chapins em que se engastavam as jóias de dois pés de sílfide.
A túnica de veludo carmesim, atufando-se em dois elegantes falbalás, formava a cauda que a gentil donzela arrastava com o altivo garbo de uma rainha.
O toucado alto, composto de crespos que borbulhavam uns sôbre outros como as ondas de uma cascata, era coroado por um diadema de brilhantes, que cintilavam aos raios do sol nascente, sôbre aquela fronte senhoril, como se a aurora brilhasse da terra para o céu.
Preso por um airão de ouro, o longo véu de alva e finíssima renda de escócia, todo semeado de raminhos de alecrim e flor de laranja, com lizes de ouro, descia-lhe até os pés, e arfando às auras matutinas, formava-lhe uma nuvem diáfana.
Pousava a mão calçada com luva de sêda branca no braço de Leandro Barbalho, também trajado com apuro e riqueza e pelo mesmo teor do capitão-mór com a diferença de trazer a casaca de setim verde de Macau.
A êsse tempo, padre Teles vestido com os paramentos sacerdotais, saía da capela acompanhado pelo sacristão, e ia ao encontro do capitão-mór recebê-lo e à sua família de hissope e turíbulo, como era então de rigor fazer aos príncipes e governadores.
D. Flor conduzida pelo cavalheiro, desceu os degraus da escada, e dirigiu-se ao altar, precedida pelo capelão e acompanhada pelo capitão-mór e D. Genoveva. Alina, Justa, e outras mulheres do serviço da casa tiveram licença para assistir à cerimônia.
Faziam parte do séquito e seguiam logo após do capitão-mór, três pagens negros como azevixhe, vestidos à moda antiga de pelotes de setim amarelo os quais levavam ao ombro os bacamartes do dono da Oiticica.
Os agregados da fazenda estavam surpreendidos com aquele espetáculo, cuja significação muitos ainda não atinavam. Nesse enleio, olhando a formosa donzela que passava radiantae, parecia-lhes ver a imagem de Nossa Senhora da Conceição no resplendor de sua festa.
D. Flor tinha com efeito em seu puro e níveo semblante a maviosa serenidade que se admira nos mais belos modelos da Santíssima Virgem; e que é como um ressumbro do céu.
Para a casta e altiva donzela, o ato em que tomava parte não era um casamento, nem nesse instante a dominavam os enleios que a cerimônia nupcial produz naturalmente em uma virgem, e os sentimentos que desperta êsse transe solene da vida.
D. Flor não se recordava nessa hora senão que ia vingar a sua dignidade ultrajada, e desafrontar o orgulho de seu pai escarnecido pela insolência do Fragoso.
Os mais antigos lembraram-se de D. Genoveva, quando vinte anos antes, e moça gentil como a filha, o capitão-mór Campelo a conduzira o altar, vestida com aquelas mesmas roupas e adereços de gala, que serviam agora a D. Flor.
Naquele tempo era assim, os estofos e fazendas tinham tal dura que passavam de pais a filhos e transmitiam-se por muitas gerações. Hoje em dia os tecidos merecem a mesma fé que as palavras e as ações do homem; são uns ouropéis, de um brilho efêmero, que desaparecem com as modas.
Porisso, quando na véspera Campelo comunicou sua resolução a D. Genoveva, esta não careceu para preparar o trajo de noiva da filha senão de abrir o baú de cedro forrado de primavera, onde guardava as ricas louçanias de suas bodas.
Arnaldo, arredio, contemplava esta cena como desespêro n’alma. Quando D. Flor surgiu no fulgor de sua beleza, êle fechou os olhos deslumbrado, como se ostivessem ferido os raios do sol.
Vendo a mulher de sua adoração presa das chamas e estorcendo-se em horríveis convulsões, sem poder salvá-la, não passaria pelos tratos cruéos que sofreu naquele instante.
D. Flor atravessou o terreiro com o seu séquito e foi ajoelhar em frente ao altar sôbre a almofada de veludo que alí a esperava. Leandro Barbalho ajoelhou a seu lado, o capitão-mór e D. Genoveva logo após.
O sacerdote começou a celebrar, e toda a gente da fazenda ouviu devotadamente a miss, incluindo a escolta que rezava de mãos postas e com a espingarda abraçada ao peito.
Soou de repente um brado seguido muito de perto de grande alarido e de uma descarga de fuzilaria.
Marcos Fragoso, como seus amigos, tomados da primeira surpresa, não compreenderam logo a significação da cena que tinham diante dos olhos. A distância, produzindo alguma confusão no aspecto dos grupos, não lhes deixou ver claramente a posição de D. Flor ao lado do Leandro Barbalho, e as flores de laranja e ramos de alecrim, emblemas do matrimônio.
Conheceram bem que tratava-se de uma cerimônia religiosa; mas estavam longe do desfecho ordenado pelo capitão-mór, que não lhes acudiu a idéia de um casamento àquela hora, e nas circunstâncias em que se achavam o dono e moradores da Oiticica.
O respeito ao símbolo da redenção e aos sacramentos da igreja, dominou-os a todos; e os teve por algum tempo calados, imóveis, perplexos e curiosos de uma explicação daquela singular ocorrência.
Foi quando o sacerdote, depois de ter levantado a Deus, voltou-se com a hóstia consagrada e administrou a Santa Comunhão a D. Flor primeiro, e a Leandro Barbalho depois, que Fragoso teve súbita revelação do que era até alí um enigmapara êle e seus companheiros.
— Inferno! bradou em fúria. Vão casar-se.
— O jeito é disso, observou Daniel Ferro.
— Fogo! ordenou o moço capitão aos seus bandeiristas.
— E a missa? perguntou o Onofre por desencargo de consciência.
— Leve tudo o diabo! gritou Fragoso, armando o bacamarte.
— Então, minha gente, começa o fandango. Quero ver esta pontaria! Na cabeça do padre, que é a casusa de tudo. Sem padre não se faz casamento.
A bandeira do Onofre com o Marcos Fragoso à frente deu a primeira descarga, e carregou para avançar. João Correia e Daniel Ferro correram ao sítio onde tinham acampado a sua gente, para atacar de seu lado.
Quanto ao Ourém, não tendo conseguido com a sua diplomacia resolver o casus belli, reservou-se para mais tarde ajustar a paz; e dando trégua à retórica, passou a mostrar que, sendo preciso, também exercitava-se nas lides de Marte, embora preferisse as de Calíope e Mercúrio.
Ao estrondo da fuzilaria, houve no terreiro da Oiticica uma percussão geral, como era de prever; mas o capitão-mór, erguendo-se de um ímpeto e perfilando a corpulenta estatura, bradou com uma voz formidável:
— Ao fogo, os da escolta. Ninguém mais se mova. Padre, acabe a cerimônia.
Padre Teles compreendeu que sendo êle, não o agente, mas o instrumento da provocação imaginada pelo capitão-mór, devia tornar-se o alvo principal dos tiros do Fragoso empenhado sobretudo em impedir o casamento.
O nosso capelão fazendo êste raciocínio sentiu um ligeiro arrepio, e encolheu-se um tanto dentro da casula como um jabutí no seu casco, lançando de esguelha um olhar para o campo inimigo. Mas continuou a oficiar como se estivesse na capela entre grossas paredes.
D. Flor, absorta em seus pensamentos, ergueu a fronte ao estampido da fuzilaria, e fitando com sublime expressão a imagem do Cristo suspensa ao crucifixo, seu rosto iluminou-se de um sorriso angélico.
Talvez nesse instante ela entrevisse o martírio com um sentimento de bem-aventurança e pedisse a Jesús a sorte da Mãe Santíssima, espôsa e virgem, espôsa para desafrontar o orgulho paterno e a sua dignidade, virgem para voar ao céu imaculada como de lá descera sua alma.
Leandro Barbalho teve um ímpeto de impaciência. Queria-se já unido a D. Flor e desembaraçado a cerimônia religiosa para correr ao combate, e desfechar sôbre o inimigo os assomos belicosos, que o estremeciam de raiva.
— De-pressa, padre!
— Cuida êle que estou aquí num regabofe?
D. Genoveva ajoelhada junto de Flor, estremeceu com a descarga; seu primeiro movimento foi adiantar-se para cobrí-la com seu corpo, sentindo não ser-lhe dado repartir-se em duas, uma que alí ficase, e outra que seguisse o marido.
Do resto das mulheres, todas tiveram mêdo; mas quem ousaria fugir, quando o capitão-mór expunha sua própria mulher e filha ao maior perigo? Alina, quase desmaiada, caíu sôbre os joelhos; e Justa, trêmula de susto, foi colocar-se perto de D. Genoveva, para morrer ao lado de sua filha de criação.
Intimando a sua ordem, o capitão-mór com a gente da escolta acudiu a postos; e travou o combate com os assaltantes. As descargas sucediam-se com rapidez de um e outro lado, cruzando um fogo rolante, que tornava-se cada vez mais mortífero à proporção que diminuia a distância entre os dois bandos.
O capitão-mór Campelo, em pé em cima do muro, disparava um após outro os três famosos bacamartes que os seus pagens carregavam logo depois do tiro, e ainda assim não bastavam ao seu braço infatigável. A violenta repercussão das armas de tão grosso calibre não abalava o porte dêsse homem possante, que formava êle só uma bateria de três bôcas de fogo.
Porisso em frente do lugar, onde se postava, abria-se um rombo na linha inimiga. Se o Fragoso, ou algum de seus capitães de bandeiras, juntava sua gente em coluna e investia contra a casa, o capitão-mór corria-lhe ao encontro; os três bacamartes vomitavam uma chuva de balas e metralhas, diante da qual o inimigo destroçado rebolcava-se para trás.
Quando os cabras do Onofre viam a bôca medonha do Jacaré, ou o clarão vermelho do Farol, e ouviam o estampido do Trovão, diziam baixinho: — ave-maria! e apalpavam-se para conhecer se tinham algum estilhaço na pele.
Mais rude e terrível combate era o que nesse instante dava-se n’alma de Arnaldo.
Crivado ao solo como um poste, no meio das balas que zuniam-lhe aos ouvidos, os olhos saltando de D. Flor a Leandro Barbalho e remontando ansiosos à copa da oiticica, êle estava alí como um homem atado ao potro, e dilacerado pelo bárbaro suplício. Uma parte de sua alma, D. Flor a levava após, e debalde êle a chamava a si; outra, o horror do que via a arrancava dalí e a arrojava para longe.
Entretanto no meio do fogo rolante, o Campelo ao abaixar o bacamarte fumegante, lançava um olhar rápido para o altar e bradava em tom imperioso:
— Prossiga, padre!
O capelão não carecia de ser instigado; êle compreendia a grande vantagem que havia para todos, começando por si, em terminar brevemente a cerimônia, já que não a pudera evitar como aconselhara e era mais prudente.
Rolos espessos de fumo da pólvora, tangidos pela viração da manhã, se foram condensar no ponto do terreiro onde erguia-se o altar, e envolviam de uma bruma sinistra o grupo formado pelo sacerdote e pelas pessoas ajoelhadas a seus pés.
Essa névoa pardacenta era às vezes iluminada pelos clarões purpúreos dos tiros mais próximos ou pelas balas vermelhas que passavam sibilando e iam perder-se além, ou cravar-se no tronco da oiticica.
A-pesar-da resistência deseperada do capitão-mór e de seua escolta valente com as armas, não podia êsse punhado de homens repelir por mais tempo o assalto bem dirigido das três bandeiras do Fragoso, cada uma delas mais numerosa do que a pequena fôrça dos sitiados.
Assim Campelo já não cuidava senão de dar tempo a que se acabasse de celebrar o casamento para morrer defendendo sua família, e lavando no sangue o insulto que sofrera. A cada tiro que dava, ouvia-se sua voz retumbante gritar:
— Acabe, padre!
Nesse momento o sacerdote estendeu a ponta da estola, sôbre a qual é do rito católico unir as mãos dos noivos, no momento de proferirem as palavras sacramentais.
Ouviu-se então um frêmito de terror e a voz de Arnaldo que bradou em um grito de angústia:
— Jó…
Uma descarga mais próxima tinha alcançado a escolta da Oiticica, e a um e outro lado do capitão-mór tombaram as pilhas de combatentes.
Foi o Xavier um dos que mordeu o pó. Ferido mortalmente, o infeliz estrebuchou no chão; mas soerguendo-se logo sôbre o cotovêlo, gritou em uma golfada de sangue:
— A absolvição, senhor padre! Pela graça de Deus.
Justa e outras mulheres transidas de horror, mas tocadas de comiseração, tomaram o moribundo nos braços e o levaram ao sacerdote, que ficou perplexo.
— Êle não pode esperar, disse D. Flor erguendo-se.
O capelão suspendeu a celebração do casamento; e tomando os santos óleos administrou a extrema-unção ao morimbundo.
— Está acabado, padre Teles? bradou o capitão-mór, voltando-se para o altar.
O sacerdote levantou de novo a ponta da estola, e travou da mão de Leandro Barbalho primeiro; depois recebeu a de Flor; mas não chegou a uní-las ambas, porque nesse momento a do noivo fugiu-lhe.
Soara rápido sibilo; uma seta fina e breve, cortando os ares, picara a artéria cervical do sobrinho do capitão-mór. O mancebo ainda ergueu a mão esquerda, supondo-se mordido por uma abelha; mas não a levou ao pescoço. Caíu fulminado.
No meio do esturpor causado por esta morte, ninguém tinha notado o salto de Arnaldo, que em um arremêsso feroz sacara a faca da bainha, e correu sôbre o altar. Ao baque do corpo, êle estacara; mas ainda com o golpe alçado.
Foi D. Flor quem primeiro o avistou, quando as mulheres que a cercavam, cedendo afinal ao terror, fugiam espavoridas, e D. Genoveva abraçada com ela, a puxava para a casa.
— Arnaldo! disse a donzela, resistindo à sofreguidão materna e acenando ao sertanejo que se aproximasse.
— Recolha-se, Flor, exclamou Arnaldo, recobrando afinal o seu ânimo pronto e resoluto.
— Meu lugar é aquí perto de meu pai, disse ela, mostrando o capitão-mór que não poupava os tiros de seus bacamartes. Morreremos juntos.
— Não, Flor, não morrerá.
— Fique aquí perto de mim, Arnaldo. Se meu pai cair antes que uma bala me leve, quero que me trespasse o coração com sua faca. Jure-me, Arnaldo! Jure-me, que não cairei viva nas mãos dessa ralé.
— Nem viva, nem morta, eu o juro, Flor.
Enquanto Justa, a um aceno dele, agarrava D. Flor e a levava à casa, seguida de D. Genoveva, Arnaldo galgando o muro, soltou o grito de guerra do chefe Anhamum, e arrojou-se ao combate, montando no corisco, oculto alí perto à sua espera.
Levantou-se além, em tôrno da linha inimiga a pocema dos Jucás; e uma longa fila de selvagens ornados de penas de canindés e araras coleou pelo campo semelhante a uma serpente monstruosa que enroscasse em seus elos os bandeiristas do Fragoso.
Pouco depois Agrela à frente de sua escolta avançou pela várzea e foi cortando a bandeira do João Correia, como a cunha de um machado que penetra no cerne do madeiro e o fende.
Os assaltantaes, que já estavam a tomar de escalada o terreiro da Oiticica, atacados pela retaguarda e metidos entre dois fogos, recuaram em desordem atropelando-se.
Quando o capitão-mór e Arnaldo investindo caíram sôbre êles, a derrota foi completa. O sertanejo desforrava-se do tempo que perdera, imóvel no terreiro, e pelejava por dez. Seu bacamarte esquentou a ponto de inflamar a pólvora com o calor; então arrancando o arcabuz de um inimigo que sucumbiu, nomeou-o como uma clava.
Fragoso batia-se também com uma sanha de leão. Já os outros fugiam à rédea sôlta, que êle e o Daniel Ferro ainda sustentavam o choque do inimigo; mas quando as fôrças contrárias refluiram todas sôbre êles, não puderam mais suster o ímpeto, e por sua vez abandonaram o campo.
Enquanto o Campelo com Arnaldo e Agrela acossava os fugitivos, e o chefe Anhamum com seus índios despojava os cadáveres de que estavam os campos juncados, D. Genoveva tornando do assombro causado pelas útimas cenas, deu ordem às escravas que fossem buscar o corpo de seu sobrinho Leandro Barbalho.
Elas obedeceram; mas o corpo não foi encontrado e ninguém sabia explicar o fato. A velha Filipa que espiava por uma seteira, dizia ter visto um diabo carregando o morto e persignava-se. Mas a descrição que ela dava do tal diabo que tinha chifres amarelos, e chamas a saírem-lhe do corpo, era de um índio bravo com cocar e trofa de penas.
Foi só por tarde que o capitão-mór voltou de perseguir o inimigo e não coltou senão obrigado pela fadiga de sua gente que pelejava desde o romper do dia, e também pela estafados cavalos. Mas o orgulhoso fazendeiro deixou rastejadores para descobrirem a pista do Fragoso; e jurou que em poucos dias se poria a caminho para arrasar a fazenda das Araras nos Inhamuns, e agarrar o atrevido onde quer que êle se escondesse.
A poucos passos da fazenda, Arnaldo viu Jó ao longe, sentado em um tôco de pau negro do fogo e com os olhos submergidos no azul do céu.
— Por que tardaste, Jó?
— Aquele homem não te pertencia enquanto a sorte pudesse mudar seu destino. Esperei para ver se Deus mandava uma bala que o levasse.
— Sua vida não corre perigo.
— Sua vida, não; foi sua felicidade que mataste.
— Êle não ama D. Flor.
— Ama sua liberdade, filho.
Arnaldo ficou pensativo; êle sabia que amor é êsse da independência, a melhor aura do coração brioso.
— Não te desconsoles, filho; é preciso que os homens se devorem entre si, para que a terra caiba à raça de Caim.
O velho absorveu-se de novo em sua cogitação; e Arnaldo dirigiu-se à Oiticica, onde o capitão-mór já tinha chegado, e achava-se no meio de sua família, depois de haver trocado as efusões do mútuo contentamento.
A recordação da morte de Leandro Barbalho anuviara a alegria que em todos excitava o triunfo inesperado em tão árduas circunstâncias como aquelas em que se achara a fazenda. Mas essa mágoa esqueceu naquele instante de ventura para voltar depois.
O capitão-mór já sabia pelo Agrela de tudo quanto Arnaldo fizera para prevenir o assalto e rechaçá-lo com vantagem. Assim, vendo aproximar-se o sertanejo, êle foi ao seu encontro, e travando-lhe da mão, veio apresentá-lo à mulher e à filha.
— D. Genoveva, aquía está quem salvou-nos. A êle devemos todos a vida, Flor.
— Mais que isso, meu pai; a felicidade de estarmos agora aquí reunidos, e a satisfação de ver castigados aqueles que nos insultaram.
— É assim. Arnaldo, nós queremos dar-lhe uma prova de nossa gratidão pelo serviço que nos prestou. Peça o que quiser.
— O sr. capitão-mór promete dar-me o que desejo? perguntou o sertanejo singelamente.
— Não prometemos, e nem juramos. Está feito! O capitão-mór Gonçalo Pires Campelo não é quem manda aquí neste momento; fale, Arnaldo, para ser obedecido.
O sertanejo estremeceu. Uma vertigem passou-lhe pelos olhos, que êle cravou no chão. Afinal recalmando a emoção que lhe tinham causado as palavras do capitão-mór, respondeu já calmo e com voz segura:
— Peço a mão de Alina.
— Essa lhe pertence, Arnaldo, criei-a para ser sua mulher, disse o capitão-mór.
Um leve desmaio perspassara o formoso semblante de D. Flor. Quanto a Alina, sentira-se como envôlta por uma chama; a onda, que refluira do coração, abrasando-lhe as faces, turbou-lhes os sentidos.
— Não peço a mão de Alina para mim, replicara entretanto Arnaldo; mas para um coração nobre que a merce; para o ajudante Agrela.
— Oh!… fez o fazendeiro surpreso. Que diz a isso nosso ajudante?
— Que seria a minha ventura, sr. capitão-mór, se ela consentisse.
— E para si, Arnaldo, que deseja? insistiu Campelo.
— Que o sr. capitão-mór me deixe beijar sua mão; basta-me isso.
— Tu és um homem, e de hoje em diante quero que te chames Arnaldo Louredo Campelo.
Proferindo estas palavras em uma expansão de entusiasmo, o capitão-mór abraçou o sertanejo. Depois tomando a mão de Alina, deu-a ao Agrela.
— As bodas se farão, logo que se acabe o luto por nosso infeliz sobrinho Leandro Barbalho.
Foi cruel o desencanto de Alina quando ao tornar a si da comoção produzida pelo pedido de Arnaldo, sentiu sua mão na mão do Agrela. A linda moça fitou no sertanejo um olhar de mártir e suas pálpebras cerrando-se com uma expressão de dorida, pareciam desdobrar um sudário para velar a formosa estátua.
Agrela pressentira o que se passava n’alma de Alina, e soltando-lhe a mão, murmurou:
— Não se assuste, Alina. Juro que não aceitarei sua mão, enquanto não m’a der de sua livre vontade.
O capitão-mór e D. Genoveva recolheram-se à casa, onde os seguiu Alina; Agrela apertou a mão de Arnaldo e retirou-se também.
Era então ao pôr do sol.
Flor, que pouco antes apartara-se do grupo da família, fôra sentar-se no banco da oiticica, e engolfou-se nas cismas, que despertava a lembrança ainda tão recente dos acontecimentos que haviam agitado sua existência feliz e serena.
Arnaldo aproximou-se, e viu o mavioso semblante da donzela tocado de uma doce melancolia, como se o crepúsculo do céu que ela fitava se refletisse em suas feições gentís. Os grandes olhos límpidos e brilhantes empanaram-se; e duas lágrimas rolaram pelas faces rubescentes.
— Está triste, Flor? disse Arnaldo.
A donzela sobressaltou-se:
— Estou com pena de Leandro.
— Queria-lhe muito? perguntou Arnaldo trêmulo.
— Era meu primo; e morreu por minha causa.
— Só?…
O sertanejo interrogou o semblante de Flor, que pousando nele seus olhos aveludados, respondeu:
— Deus não quer que eu me case, Arnaldo!
No transporte do júbilo que inundou-lhe a alma, o sertanejo alçou as mãos cruzadas para render graças ao Deus que lhe conservava pura e imaculada a mulher de sua adoração.
Flor corou; e afastou-se lentamente. Quando seu vulto gracioso passou o limiar da porta, Arnaldo ajoelhando, beijou o ar ainda impregnado da suave fragrância que a donzela derramava em sua passagem…
Aquí termina a história a que dei o título de Sertanejo.
O mistério que envolve o passado de Jó só depois veio a revelar-se; e como êsses acontecimentos prendem-se intimamente à vida de Arnaldo, guardo-me para referí-los mais tarde, quando escrever o fim do destemido sertanejo cujas proezas foram por muitos anos naqueles gerais o entretenimento dos vaqueiros nos longos serões passados ao relento, durante as noites do inverno.
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br