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O SERTANEJO

José de Alencar

XI – Adolescência

O sol descambava.

D. Flor abriu as gelosias da janela e divagou os olhos pela floresta, que arreava-se então de toda a sua pompa vernal com a estação das águas.

Naquele extenso painel de verdura, cada árvore debuxava-se com uma forma e um matiz diverso. Viam-se todos os moldes da arquitetura desde a coluna e a pirâmide até a cúpula e o zimbório. O pincel do mais fino colorista não imitaria a gradação daquela admirável palheta desde o verde negro do jacarandá até o verde gaio do espinheiro.

Próximo à casa havia uma árvore sêca, mas a exuberância da seiva não consentindo que no seio da esplêndida transfiguração hibernal se destacasse um indício de ruína e perecimento, cobrira aquele esqueleto de um manto de púrpura, tecido com as flores de uma bignônia.

Um passarinho saltava do galho superior da árvore a outro mais baixo; e com êsse vôo compassado e alterno imitava perfeitamente o movimento da laçadeira, donde lhe veio o nome de rendeira, com que o designaram os povoadores.

D. Flor acompanhando o gracioso afã do passarinho, distraiu-se outra vez, e foi de novo levada por misterioso fio às cenas da infância.

Quem sua imaginação via, já não era o menino mal trajado e rôto, com a cara coberta de poeira, os cabelos cheios de carrapichos, e as mãos sujas de sangue. Agora aparecia um rapazinho de quinze anos, rude como sertanejo que era, mas trazendo com certo garbo nativo as vestes de couro de veado, que seu pai lhe tinha feito.

Arnaldo estava então na adolescência. Já ajudava o pai a campear; mas desde aquele tempo manisfetara-se sua repugnância para todo o serviço obrigatório, feito por ordem e conta de outro. Tinha êle paixão pela vida de vaqueiro, e passava dias e semanas no campo fazendo voluntariamente o trabalho de dois bons ajudantes, e entregando-se com entusiasmo a todos os exercícios daquele mister laborioso. Se, porém, lhe determinavam tarefa, desaparecia e ganhava o mato, onde se divertia a caçar.

Dois meninos tinham aumentado a sociedade infantil da Oiticica. Eram Alina, que ficara órfã pouco tempo antes, e fôra com sua mãe recolhida por D. Genoveva, e Jaime Falcão, um sobrinho do capitão-mór, e também órfão, o qual esteve quatro anos na fazenda, até os quinze anos, em que foi para Lisboa viver na companhia do avô.

Êsse Jaime, a-pesar-de mais velho que Arnaldo, lhe ficava muito inferior na fôrça, destreza, coragem e em todos os dotes físicos. Nos folguedos a cada instante revelava-se esta desigualdade que contrariava o vencido, e acabou por gerar um despeito concentrado.

Arnaldo não se ofendia com o afastamento, nem com as picardias de Jaime. Tomara-lhe amizade; e procurava todas as ocasiões de agradar-lhe. Até evitava mostrar a sua agilidade para não desgostar o companheiro. Tudo quanto possuia o vaqueirinho, fruta, pássaro, caça, era de Jaime, salvo se D. Flor o desejava, porque essa era a senhora de todos.

Jaime porém, se era invejoso, tinha o brio e a dignidade de seu ressentimento. Embora fosse muita a cobiça por alguma novidade que Arnaldo trazia do mato, não a pedia, e oferecida, recusava-a. Era D. Flor que então acabava a briga: fazendo seu o objeto, o dava ao primo, que daquela mãozinha mimosa não se animava a rejeitá-lo.

Alina, mais moça do que os outros, e de gênio sossegado, não tinha ainda naquela sociedade infantil uma fisionomia própria, a não ser a sua risonha e afetuosa brandura. Só em um ponto sua vontade pronunciava-se: era quando os companheiros voltavam-se contra Arnaldo, porque então ela tomava seu partido e abraçava-se com êle, e chorava para enternecer os outros.

D. Flor reviu em sua imaginação aquele rancho de quatro crianças, os folguedos em que se entretinha, as zangas que às vezes o perturbava, para logo depois se desfazerem em novas festas e travessuras.

Então os quadros mais salientes dêsse viver jovial se desenharam em sua memória como painéis ainda vivos.

Uma parda, que fôra ama de D. Genoveva, era a incumbida de acompanhar Flor e Alina quando estas saíam a passeio pelos arredores da fazenda. Já quebrada pela idade e também pelos achaques, a velha Filipa cansava logo e deixava-se ficar sentada ao pé de um algodoeiro, cujos capulhos ia cardando para entretaer o tempo.

Se D. Flor queria continuar, a velha que não sabia resistir ao rôgo da feiticeira menina, dava o seu consentimento:

— Está bom: podem ir meus netinhos,; mas, olhem lá, bem sossegados; e há de ser por aquí pertinho. Cuidado com o capeta do Arnáo, que aquilo não é gente. Cruzes!… O Jaime, êste é bom menino; sai ao pai, coitadinho, o defunto sr. Lourenço Falcão, rapaz do meu tempo, que ainda me conheceu moça, quando eu era uma rapariga sacudida, que hoje não presto mais; estou uma velha coroca. Deus tenha sua alma, que foi um homem bom, mesmo pela palavra; só tinha que não podia ver cabeção de cacundê que não ficasse logo como pipoca na frigideira! Eu que o diga! Ai! ai! tempo!

Os meninos não ouviam senão as primeiras frases desta ladainha, o que não impedia a velha de a continuar até o fim; e era tal às vezes, que durava até à volta do rancho. Da recomendação faziam o mesmo caso; e seguiam Arnaldo que era o seu guia constante, aonde êste os queria levar.

Uma tarde chegaram a um aberto, onde crescia uma touceira de catolezeiros, ainda novos. Um boi mal encarado rodeava as palmeiras, e empinando-se conseguia alcançar os cachos com a bôca e colhêr os frutos, de que o gado é mui guloso.

Flor, vendo as pinhas de coquinhos amarelos, cobiçou-os, e pediu os catolés. Arnaldo encaminhou-se à touceira. O boi sentindo-lhe os passos lançou-lhe de esguelha um olhar de ameaça, que não o atemorizou, mas tornou-o cauteloso. Dando volta e aproximando-se sutilmente, pôde o rapazinho apanhar uma porção de côcos, derrubados pelo animal.

Alina achou-os deliciosos; a filha do capitão-mór rejeitou-os desdenhosamente.

— Eu quero o cacho! disse ela terminantemente.

— Pois vá querendo, respondeu-lhe Arnaldo resoluto.

— Êle está com mêdo do boi! disse Jaime triunfante.

— Arnaldo não tem mêdo de nada! acudiu Alina.

Flor, porém, que desejava ardentemente o acho de catolés, empregou o meio que ela sabia infalível para render Arnaldo. Pousando-lhe a mãozinha mimosa no ombro, disse-lhe com meiguice de rôla:

— Tire um cacho pra mim, sim, Arnaldo? Tire que eu lhe quero muito bem.

— Pois então ponha-se no poleiro, que o boi é manhoso.

Arnaldo levantou as duas meninas e deitou-as de sobrado nos ramos das árvores; o Jaime deixou-se ficar no chão, mas por segurança junto ao pé do pau.

Quando o boi percebeu que Arnaldo ia direito aos catolezeiros, voltou-se raivoso; o rapazinho atirou um galho sêco ao animal, que investiu furioso. As meninas gritavam estremecendo aos urros medonhos; e Jaime já estava de palanque para ver correr aquele touro.

Arnaldo esperou o boi a pé firme; seus companheiros, vendo o animal cair sôbre êle, julgaram-no esmagado. Mas o intrépido vaqueirinho segurou os chifres da fera e saltou-lhe no cachaço.

Abalou-se o touro, e lá foi pelo campo aos corcovos, fazendo esforços desesperados para arrojar de si o rapazinho, que divertia-se com essa fúria vã. Afinal correu o boi para os catolezeiros e começou a esfregar o lombo no tronco das palmeiras, como um meio de arrancar o fardo das costas.

Logrou-o, porém, o menino, que erguendfo-se em pé sôbre a alcatra, alcançou o cacho de catolés e cortou-o. Depois do que, saltando em terra, veio apresentar a Flor a sua conquista, tão gloriosa como a dos pomos de ouro das hespérides.

Flor ainda estava pálida do susto que sofrera, e agradecendo a Arnaldo com a voz trêmula, distribuiu os côcos pelos companheiros.

— E você, Flor? perguntou Arnaldo.

— Eu não devo comê-los, por meu castigo.

E lançando um olhar cheio de desejos ao cacho de côcos, afastou-se sem prová-los, a-pesar-das instâncias dos camaradas.

Outra vez foi à margem do Sitiá.

Era no meio do inverno; o rio com a cheia tinha uma torrente caudalosa e rolava com fragor medonho. O rancho aproximou-se receoso, parecendo-lhe que essa torrente empolada ia saltar de seu leito e arrebatá-lo.

Da outra banda um maracujazeiro dessa espécie delicada que alí chamam suspiro, prendendo-se aos galhos das árvores, formava entre lindas grinaldas de flores, um mimoso colar de seus lindos frutos dourados e fragrantes.

— Que bonitos maracujás! exclamou D. Flor. Quem me quisesse bem, não me deixava aguar com a vista deles.

— Não sou eu, disse Jaime.

— E você, Arnaldo?

— Mas êle morre! exclamou Alina.

— Ora, que mêdos!

Arnaldo já não estava alí; tinha-se metido no mato para tirar a roupa, amarrando a camisa à cintura como uma tanga, e acabava de arrojar-se à corrente. Êle já conhecia êsse rio, e tinha lutado com êle, quando mais criança.

O menino nadava com pausa, poupando suas fôrças e investigando com olhar rápido a veia do rio. Se algum madeiro enorme, arrancado pela cheia, vinha remoinhando pela água abaixo, êle mergulhava para escapar ao embate que o esmagaria. A travessia foi longa; e durante ela Flor e Alina ajoelhadas e de mãos postas rezavam pela salvação do camarada.

Quando Arnaldo alcançou terra e colheu os maracujás, que enrolou ao pescoço, elas sossegaram um pouco; mas preparando-se o rapazinho para voltar, recomeçaram os gritos; tanto uma, como a outra, suplicava-lhe que esperasse até passar a maior correnteza.

Arnaldo não lhes deu ouvidos e tornou afoitamente pelo mesmo caminho. Ao receber as frutas que êle trazia-lhe, Flor tinha o rosto perlado de lágrimas, e sorria-se da alegria de ver salvo o camarada. Dos maracujás ninguém comeu; ela os guardou como jóias até que secaram de todo.

Nessa noite Flor pediu à mãe um cordão de ouro para o pescoço de Nossa Senhora, a quem o havia prometido.

O cumprimento dessa promessa deu causa a um novo e singular capricho da menina. Reparou ela que a Virgem da capela pisava a cabeça de um dragão, em cuja figura a tradição católica simbolizava o inimigo. Aquela circunstância ficou-lhe gravada, trabalhou-lhe no espírito e afinal deu de si. Um dia Flor lembrou-se de pisar a cabeça de uma cobra.

Os outros riram-se; mas Arnaldo achou aquilo muito natural.

No outro dia, quando saíam a passeio, o filho da Justa levou o rancho a um oitizeiro, onde mostrou-lhes a curiosidade que alí tinha guardada. Era uma cascavel amarrada pelo pescoço ao pé da árvore, e furiosa por escapar-se.

Jaime avistando a cobra quis matá-la, pelo que Arnaldo ia brigando com êle. Alina deitou a correr e Flor, a-pesar-de corajosa, ficou um tanto passada.

— Não tenha mêdo; arranquei-lhe todos os dentes.

Dizendo o que, Arnaldo agarrou a serpente pelo pescoço, abriu-lhe a bôca ensanguentada, e meteu nesta os dedos. Animada com isso, D. Flor aproximou-se, e segurando Arnaldo a cauda da cascavel para que não se enrolasse na perna da menina, satisfez esta o seu capricho, ecalcou com o tacão de seu lindo borzeguim a cabeça do monstro.

Arnaldo cuidou nesse momento que via a Nossa Senhora da capela, porém ainda mais bonita do que estava na imagem.

Se o vaqueirinho tinha por devoção fazer todas as vontades de Flor, com risco de sua vida e até de seu pundonor, pelo castigo a que muitas vezes expunha-se, em troca não consentia que ninguém o privasse dêsse contentamento.

Foi essa a causa das brigas que teve com Jaime. Tudo suportava êle do outro com paciência; a convicção que tinha de sua vantagem, o tornava calmo e condescendente. Quando, porém, tratava-se de Flor, não havia ninguém mais teimoso e irritadiço.

Eis a prova.

Flor desejou uns ovos de anum que são, como todos sabem, muito lindos pelo azul celeste da côr, e muito cobiçados pelas crianças. Nessa tarde a menina estava amuada com Arnaldo; e talvez mesmo para fazer-lhe pirraça pediu a Jai,e que fosse tirar um ninho feito em um tabocal.

Jaime apressou-se em satisfazer o pedido da prima:

— Não vai, disse Arnaldo.

— Por quê? perguntou Jaime.

— Porque eu não quero.

— Ora!

— Há de ir! disse Flor.

— Eu lhe mostrarei.

— Não vá, Jaime! acudiu Alina suplicando e já com voz chorosa.

— Eu lá faço caso dêste bezerro bravo! exclamou Jaime com arrogância.

Arnaldo se postara diante da touceira de taquaras, para impedir o outro de passar. Jaime investiu por três vezes e de todas o vaqueirinho agarrou-o pela cintura e arremessou-o longe no chão.

Ainda quis voltar ao ataque; mas Flor o reteve. A menina estava muito irritada contra o seu colaço.

— Deixe, Jaime; chegando em casa eu mandarei tirar os ovos do ninhopelo Moirão. Quero ver, se isto pode com êle.

O isto foi pronunciado com um soberano desdém do lábio mimoso, que distendeu-se para indicar o filho da Justa.

— Êste ninho, se o quiser, há de pedir-me a mim, disse Arnaldo.

— Não peço.

— Pois então fica sem êle.

— Vou pedir a meu pai.

— Não tenha êste trabalho.

De um salto Arnaldo ganhou o tabocal e voltou com o ninho cheio de ovos, pois os anuns andam em bandos, em tal regime comunista, que até os filhos são promíscuos.

— Está vendo? disse Arnaldo mostrando o ninho.

Foi tão forte a tentação de Flor à vista dos lindos ovos, azues como turquesas, que a menina esteve por pouco a ceder de sua tenção; mas venceu o capricho. Ela voltou desdenhosamente as costas.

Arnaldo atirou o ninho ao chão e esmagou os ovos com o pé. Alina soltou um gritozinho de dôr, lembrando-se dos passarinhos que alí se estavam gerando e das mãezinhas deles.

Flor levantou os ombros com desprêzo.

— Há muitos ninhos de anuns, disse ela.

— Eu vou tirá-los todos, e quebrar os ovos, como fiz com êste. Juro que você não há de ter nenhum.

Com êste pensamento desapareceu.

Quando o rancho dos meninos chegava à casa, apareceu-lhe Arnaldo, com uma coleção de ninhos de anuns.

— Está vendo? disse a Flor, fazendo menção de arrojar os ocos ao chão.

A menina não resistiu mais; a contrariedade de seu desejo, ela a dominaria; mas foi vencida pela pena que lhe inspiravam as vítimas inocentes de seu capricho e da impiedade de Arnaldo.

— Dê-me, Arnaldo! disse estendendo a mão.

O rapaz entregou-lhos todos, esquecido já da pirraça da menina.

Flor, porém, não lhe perdoou facilmente êsse triunfo. Se desde aí não pediu mais a Jaime coisa alguma, também por muito tempo evitou de manifestar o menor dos seus desejos a Arnaldo.

XII – Anhamum

Ao tempo destas cenas de infância, que reviviam agora na memória de D. Flor, o sertão de Quixeramobim era infestado pelas correrias de uma valente nação indígena, que se fizera temida desde os Cratiús até o Jaguaribe.

Era a nação Jucá. Seu nome, que em tupí significa matar, indicava a sanha com que exterminava os inimigos. Os primeiros povoadores a tinham expelido do Inhamuns, onde vivia à margem do rio que ainda conserva seu nome.

Depois de renhidos combates, os Jucás refugiaram-se nos Cratiús, de onde refazendo as perdas sofridas e aproveitando a experiência anterior, se lançaram de novo na ribeira do Jaguaribe, assolando as fazendas e povoados.

Não se tinham animado ainda a assaltar a Oiticica, onde o capitão-mór estus insultos eram constantes. Não se passava semana em que não matassem algum agregado da fazenda, ou não queimassem plantações.

Resolveu o capitão-mór Campelo castigar êsse gentio feroz; e saíu a manteá-lo com uma numerosa bandeira, em que lhe servia de ajudante o Louredo, pai de Arnaldo, que era vaqueano de todo aquele sertão.

Com tal astúcia manobrou o vaqueiro, que os Jucás apanhados de surpresa foram completamente destroçados, ficando prisioneiro seu chefe, o terrível Anahmum, nome que na língua indígena significa irmão do diabo.

Desamparado pelos seus, o formidável guerreiro defendeu-se como um tigre, e só rendeu-se quando o número dos inimigos cresceu a ponto de submergí-lo. Então mandou o capitão-mór amarrá-lo de pés e mãos e conduzí-lo à Oiticica, onde foi metido no calabouço.

Arnaldo não fez parte da bandeira; o Louredo não o quis levar consigo, e êle submeteu-se à vontade paterna. Assistira, porém, a todo o combate como simples curioso; e viu o denôdo do valente Anhamum, que lhe ganhou a admiração e a simpatia.

O rapaz tinha lá para si que os índios não faziam senão defender a sua independência e a posse das terras que lhes pertencia por herança, e de que os forasteiros os iam expulsando. Fôra esta a razão por que não se empenhara em combatê-los.

Quando ao voltar à Oiticica ou viu dizer aos bandeiristas que o chefe dos Jucás estava no calabouço e ia ser supliciado no dia seguinte com estrépito, para exemplo e escarmento do gentio, Arnaldo revoltou-se e protestou a si mesmo salvar Anhamum.

A intenção do capitão-mór fôra efetivamente em princípio fazer do suplício do selvagem um espetáculo de incutir o terror, convocando para assistir a êle todos os moradores conjuntamente com dois outros índios prisioneiros, que levariam aos seus a notícia das torturas infligidas ao chefe.

Mudou, porém, de idéia o Campelo, e resolveu meter Anhamum em uma gaiola de ferro, como se faz com os tigres, e enviá-lo a Lisboa com um procurador, que de sua parte oferecesse a El-rei essa preciosa curiosidade do sertão, ornado de todos os seus petrechos bélicos e insígnias de chefe.

O calabouço da fazenda ficava na extremidade do quartel. Era um poço ou cisterna coberta por alçapão feito de pranchas de pau-ferro, que três homens robustos levantavam com esfôrço por meio de dois moitões onde passavam as correntes.

Foi aí que atiraram Anhamum. Ao conduzí-lo, Moirão que era o cabo da escolta, querendo obrigar o selvagem a deixar o passo grave e consertado para andar mais ligeiro, travou do penacho de plumas de canindé que o chefe trazia à cabeça pregado com resina de almécega, e puxou-o para diante.

Anhamum deitou-lhe um olhar terrível e não deu mais um passo. Foi preciso arrancá-lo dalí, e carregá-lo até o calabouço, onde o lançaram.

Descido o alçapão, o Aleixo Vargas deitou-se por cima dizendo:

— Se tu és irmão do diabo, caboclo mofino, pede a êle que te tire daquí.

Fechou-se a noite. Arnaldo desde a tarde trabalhava na emprêsa em que se empenhara.

Tinha êle meses antes descoberto no sopé da colina em que estava construída a casaria da herdade, um profundo socavão, formado pelo enxurro das águas. A primeira vez que rompendo a balsa, descobriu essa cova, deu-lhe curiosidade de conhecê-la e penetrou dentro.

Era uma galeria subterrânea, que subia em ladeira atá às grossas raízes de uma árvore secular, entre as quais ficava uma pequena abóbada esclarecida por um óculo superior. Reconheceu Arnaldo naquela árvore a oiticica do terreiro e compreendeu como se havia formado o corredor subterrâneo.

Um dos três estipes em que se dividira desde a raiz o tronco da árvore secular, brocado pelo cupim, ficara reduzido ao córtice, que entretanto ainda absorvia bastante seiva para nutrir os ramos superiores. As chuvas enchiam êsse grosso tubo que fazia o efeito de uma calha ou bica, e ia despejar no seio da terra a sua corrente. A erosão das águas, buscando uma saída, havia minado o solo e formado a galeria, pela qual só agachado podia um homem passar.

Lembrou-se Arnaldo, que a meio do corredor ouvira o eco de vozeria que lhe pareceu dos acostados e bandeiristas; do que induziu que estava embaixo do quartel. Foi essa lembrança que o levou naquela tarde a examinar de novo a galeria e estudar a sua direção.

Verificou sua primeira suspeita. O corredor passava por baixo do quartel e ao lado do calabouço. Cavando uns palmos à sua esquerda, deu com a muralha da cisterna, e sem mais demora começou a arrancar a argamassa com a ponta da faca e a tirar os tijolos.

À meia-noite estava concluído o seu trabalho e feita a brecha. Mal tirara o último tijolo sentiu um sôpro nas faces e o contacto de uma mão forte, como a garra de uma onça. Anhamum ouvira o rumor, percebera a natureza do trabalho, e sem compreender a quem devia a salvação esperou-a.

Arnaldo conduziu o selvagem fora da caverna sem trocar uma palavra, alí apontou-lhe a floresta, pronunciando uma palavra tupí:

— Taigoara!

O rapazinho não sabia a língua dos selvagens; mas retivera algumas palavras e uma delas era essa, que significa livre.

O selvagem com um ente de seu colar de guerra sarjou a pele, fazendo uma marca simbólica por cima do peito esquerdo, e afastou-se proferindo uma palavra cujo sentido Arnaldo ignorava.

— Coapara.

Só depois veio a saber o rapaz que êsse vocábulo traduzia-se em português por camarada, mas queria dizer tanto como amigo dedicado.

No dia seguinte, Flor apareceu triste, com pena do selvagem que supunha condenado a morrer. Arnaldo para desvanecer essa mágoa contou em segrêdo à menina que êle tinha livrado o chefe dos Jucás da prisão.

Poucas horas depois descobriu-se a evasão que deixou tonto por muitos dias ao nosso amigo Moirão. Desde então deu êle por provado que Anhamum era de fato irmão do diabo; do que duvidara até alí por não lhe constar que Satanaz, o verdadeiro, fosse caboclo.

Não se explicava a evasão do selvagem. O alçapão não fôra aberto; Aleixo Vargas dormira em cima; a cisterna estava intacta; somente notou-se que a argamassa de um lado estava fresca; mas atribui-se à umidade.

O capitão-mór estava no auge da sua ira sempre formidável, e embora repelisse a idéia de atrever-se alguém a auxiliar a fuga do selvagem, protestava, se tal coisa houvesse acontecido, condenar o criminoso a ser enterrado vivo.

No meio das indagações que fazia o potentado, apareceu D. Flor, que ouvindo falar do acontecimento, exclamou:

— Eu sei quem foi!

— Quem deu escapula ao gentio? perguntou o capitão-mór.

— Sim, meu pai. Foi Arnaldo.

O capitão-mór ouvindo êsse nome voltou-se com um senho terrível para o rapazinho também alí presente:

— É verdade! disse o filho do Louredo tranquilamente.

Flor não medira o alcance de suas palavras. Maravilhada com o heroísmo de seu camarada, cuidou que os outros o admiravam como ela, e quis restituir a glória da proeza a seu desconhecido autor.

O capitão-mór desprendera o seu grosso e pesado riso.

— Então foste tu, pirralho?… Ora já viram!

— Não foi êle não, meu pai! acudiu Flor, que havia caído em si. Eu estava brincando!

— Que não foi êle, bem o sei, e ainda bem, que essa graça lhe custaria a pele e os ossos.

Fôra o prodigioso da emprêsa que salvara Arnaldo. Se para um homem forte já a consideravam desmarcada, como acreditar que a praticasse um menino?

Arnaldo não dirigiu a Flor a menor exprobração. Foi a menina que, desvanecido o susto, aproximou-se dele prara dizer-lhe em segrêdo:

— Você ia morrendo por minha causa, Arnaldo.

O rapazinho fitou nela os olhos.

— E por quem hei de eu morrer, Flor?

A menina corou e esteve todo êsse dia preocupada.

Por essa época morreu o Louredo. Tinha êle feito uma pequena ausência na fazenda; na volta deitou-se como de costume em sua rede, embrulhou-se nela e no dia seguinte acharam-nomorto.

Arnaldo sofreu profundamente com êste golpe. Todos os sentimentos dêsse menino tinham a pujança e energia de sua organização, o amor como o ódio, a ternura como a ira, eram nele paixões violentas, veradeiras irrupções d’alma.

Pouco depois completou Flor quatorze anos; e desde então um impulso natural começou a separá-la da companhia e intimidade em que até alí vivera com Jaime e Arnaldo. O instinto feminino que desenvolvia-se com a adolescência, inspirava-lhe o recato. Já não se animava a passear só pelo mato com o primo ou o colaço, nem consentia que êles a suspendessem nos braços, como faziam outrora.

Não pensava ela que houvesse algum mal nesses folguedos a que se entregava dantes com tanto prazer; mas agora causavam-lhe uma perturbação, que de certo modo ofendia a sua altivez nativa. Porisso esquivava-se às excursões e passeios, demorando-se mais ao lado de sua mãe, para fazer-lhe companhia.

Alina, que tinha gênio mais romanesco, inventava aventuras caseiras, para substituir as travessuras campestres.

Na novela ou auto da loura menina, Flor vinha a ser princesa ou rainha, cuja formosura enchia o mundo com sua fama, e cuja mão era pretendida por todos os príncipes cristãos. O mais belo, e também o mais bravo dêsses campeões, era o príncipe por excelência, representado na pessoa do sobrinho do capitão-mór.

Ora, a princesa tinha sua dama, assim como o príncipe devia ter seu pagem. Êsses dois papéis tocavam a ela Alina e a Arnaldo, parecendo-lhe de razão que os criados fiéis se reunissem como acontecia nos romances pelo mesmo sentimento que prendia os amos, de modo, que em vez de um, houvesse dois casamentos. Êste desfecho, porém, a autora não o divulgava, deixando que o fio dos acontecimentos o inspirasse.

Tal era o quadro da novela imaginada por Alina. Teve, porém, de sofrer duas alterações. Flor não admitiu Jaime como pretendente à sua mão e assinou-lhe o papel de príncipe irmão. Quanto a Arnaldo era um pagem sempre ausente, em recados, e que só figurava na imaginação da órfã. O vaqueirinho ignorava completamente o romance de Alina, e vindo a sabê-lo, é de crer que não tolerasse o papel subalterno que lhe haviam distribuído, além de comprazer-lhe mais a solidão da floresta do que o terreiro de casa.

Era aos domingos que se faziam as representações da novela, sempre dirigidas por Alina. Em uma dessas condescendeu Flor com os rogos da companheira, e consentiu figurar de noiva. Inprovisou-se então um oratório; arvorou-se uma rapariguinha em padre, vestindo-se-lhe uma saia preta atada ao pescoço, e começou a cerimônia.

Apresentou-se D. Jaime, como campeão vencedor em um torneio imaginário; exaltou suas proezas e a formosura de D. Flor. Depois do que, oferecendo o braço à princesa, avançaram os dois com passo de procissão. Alina, como dama da princesa, carregava a cauda de seu manto real; seguiam-se uma guarda de honra composta de uns seis meninos montados em cavalos de talos de carnaúbas, armados com espadas de taquara, e um bando de crianças de todas as côres e tamanhos, crias da fazenda, endomingados especialmente para essa festa. No coice vinha a velha Filipa fazendo mil visagens.

O préstito devia dar duas voltas ao terreiro para dirigir-se ao altar. Ao começar a segunda, apareceu Arnaldo, que trazia um casal de jaçanãs para Flor. Dando com a procissão parou surpreso, e compreendeu logo a natureza do brinquedo, que os outros aliás trataram logo de explicar.

Esteve o menino uns instantes perplexo; de repente saltou sôbre Jaime, separou-o de Flor, atirou com êle no chão arrancando-lhe as fitas de que vinha enfeitado; correu depois ao altar que deixou em destrôço; e sumiu-se.

Passou fora oito dias.

Foi dessa vez que, vagando pelo campo do lado do Riacho do Sangue, encontrou atirado ao chão um homem nos últimos arrancos.

Arnaldo perguntou-lhe o que tinha:

— Sede! respondeu o morimbundo com a voz extinta.

Cortou o menino uma haste de mandacarú, e tirando os espinhos, espremeu-a na bôca do desconhecido, para aplacar o maior ardor, enquanto ia à busca de uma cacimba, pois era pela sêca e os rios já tinham desaparecido.

Reparou então o menino que o velho tinha as mãos atadas às costas:

— Quem o amarrou?

— Eu mesmo.

Ao gesto de espanto de Arnaldo, acrescentou:

— Eu queria morrer. Mas é horrível!…

Resolvido a deixar-se morrer, o velho armara um laço, cruzara os pulsos nas costas, e metendo-os na corda, fizera disparar o nó que lhe atara as mãos.

Assim, ainda quando quisesse buscar água para matar a sede, não poderia. Condenara-se à mais atroz das mortes, e já tinha sofrido terrível suplício quando o menino o encontrou.

Arnaldo salvou o infeliz e o persuadiu a acompanhá-lo. Jó, pois era êle, sentira desde logo uma atração irresistível para êsse menino; sua existência, que nada já prendia à terra, achara alí um elo misterioso. Deixou-se conduzir e governar por aquela criança.

O vaqueirinho levou Jó à casa materna. A Justa agasalhou o velho, enquanto o filho construia para seu amigo a cabana da várzea. Nunca soube-se na Oiticica donde viera êsse desconhecido; dele apenas se obteve esta informação vaga:

— Eu tinha uma cabana no Frade; os malditos puseram-lhe fogo para queimar-me vivo.

Jó serviu de mestre a Arnaldo. Sentado à soleira da cabana, durante as noites esplêncidas do sertão, o velho deixava que o pensamento divagasse pela intensidade do céu e da terra, e vazava no espírito ávido do sertanejo todos os tesouros de sua experiência.

Arnaldo tinha partilhado das lições que o padre capelão dava a Flor, Alina e Jaime; mas sabidas as primeiras letras, o haviam tirado da escola, visto que um vaqueiro não carecia de mais instrução, e essa mesma já era luxo para muitos que se contentavam em saber contar pelos riscos de carvão.

Foi de Jó que recebeu o menino conhecimentos irregulares, sem método e ligação, porém muito superiores aos que se encontravam no sertão por aquele tempo em pessoas do povo. Entre muitas coisas, ensinou-lhe o velho a língua tupí, na qual era versado.

Suspeitava Arnaldo que havia na existência do velho um doloroso mistério; mas respeitava-o, e essa reserva foi talvez uma das causas da grande afeição que inspirou ao infeliz ancião.

XIII – A viúva

Tornando à fazenda depois de oito dias de ausência, Arnaldo andava arisco e sem ânimo de aproximar-se de Flor.

Receava-se do ressentimento que a menina devia conservar contra êle por causa do desbarato a que reduzira a festa e o altar do casamento. Assim andava por longe, espiando às ocultas a formosura de sua santa, e matando as saudades que tinha curtido naqueles últimos dias.

A primeira vez que ousou chegar-se para os companheiros, Flor atirou-lhe desdenhosamente estas palavras:

— Bicho do mato!

— Onde andou você todo êste tempo, Arnaldo? perguntou Alina queixosa.

— Ainda você pergunta? Esteve com os seus companheiros, dele, os caitetú. Isto não sabe viver entre gente.

Arnaldo não respondeu. O que Flor dizia era a verdade; êle nascera para habitar no seio das florestas; era sertanejo da gema.

Jaime pouco mais demorou-se na fazenda. O capitão-mór aproveitou a partida de um parente seu do Aracatí para enviá-lo a Lisboa, onde o esperava o avô.

De novo espalhou-se o terror pelos campos de Quixeramobim. Anhamum, o feroz chefe dos Jucás, voltara à frente de quinhentos arcos, e desta vez para assaltar a Oiticica e tirar a desforra.

Logo divulgou-se a notícia, o capitão-mór preparou-se para receber os selvagens, os quais não se fizeram esperar. Uma noite chegaram êles à margem do Sitiá e anunciaram-se pela sua formidável podema de guerra. No dia seguinte as casas da fazenda estavam cercadas.

Por muitos dias não fizeram os selvagens a menor demonstração hostil; sentia-se que êles estavam perto, mas não se mostravam a descoberto. Esperavam ocasião azada para investir, ou queriam obrigar os sitiados a uma sortida.

Nisto deu-se por falta de duas pessoas na fazenda: Arnaldo e Aleixo Vargas. A crença geral foi que tinham ambos caído nas mãos dos Jucás e já todos lamentavam a sua perda. Flor derramou lágrimas sentidas e copiosas por seu colaço e a pedido dela o capitão-mór ordenou uma sortida com o fim de livrar os dois prisioneiros, se ainda o fossem, e já não estivessem mortos.

Eis o que havia acontecido.

Arnaldo espiava o acampamento selvagem, à espreita de uma ocasião para encontrar-se com Anhamum. O rapaz tinha seu plano. Nisto Moirão levado pela curiosidade, afastou-se da casa mais do que devia, e foi empolgado pelos índios, que o levaram à ocara.

Viu Arnaldo que o Moirão estava perdido, e arrastado por um impulso de seu coração generoso, cuidou em salvá-lo. Os Jucás entretidos com o prisioneiro, não sentiram que eram seguidos às ocultas. Assim conseguiu chegar o vaqueirinho à ocara, onde logo acudiu Anhamum, avisado pelos brados de seus guerreiros.

Saltou-lhe Arnaldo em face, e apontando para o peito esquerdo do chefe, repetiu a palavra que êste pronunciara seis meses antes, na noite de sua evasão.

— Coapara!

Anhamum dirigiu ao rapaz um floreio de seu arco, saudação devida a um guerreiro ilustre; e depois uniu-se a êle, costa com costa, para significar-lhe a união em que estavam, o que era o mais estreito abraço da amizade.

Seguiu-se depois o diálogo da hospitalidade.

— Tu vieste?

— Vim.

— Sê benvindo ao campo de Anhamum, a quem salvaste.

A êsse tempo já os índios tinham despido o Moirão e distribuído as várias peças do seu vestuário que foram imediatamente reduzidas a tiras para servirem de faixas e cintas guerreiras.

Arnaldo exigiu de Anhamum duas coisas: primeiro, que êle não levantaria seu arco nunca mais contra os donos da Oiticica; segundo, a entrega do Aleixo Vargas. Anhamum preferia que o seu camarada lhe pedisse uma orelha, um ôlho, ou metade de seu sangue; mas não podia recusar nada ao seu salvador.

Nesse mesmo dia o chefe dos Jucás levantou a taba e Arnaldo voltou à Oiticica conduzindo o vargas. O que êle não levou foi a roupa dêste, e o nosso amigo Moirão para fazer uma entrada decente teve de embrulhar-se em fôlhas de banana, o que deu-lhe ares de uma enorme moqueca.

Depois dêstes acontecimentos, Arnaldo por mais de uma vez foi à taba dos Jucás, levantada à margem do rio a que êles deram o nome; e sua amizade com Anhamum estreitara-se ainda mais, com os mimos de armas que lhe fizera.

O chefe dos Jucás dera-lhe um aseta de seu arco, em penhor de aliança.

— Quando careceres do braço de Anhamum, envia-lhe esta seta, que êle correrá a defender-te.

De dia em dia as relações entre os dois colaços foram afrouxando, à medida que Flor tornava-se moça. A juventude que prendia mais a donzela à sala, por outro lado arrojava mais o sertanejo para o deserto.

Flor só o via de longe em longe; tratava-o, porém, com um modo afetuoso e muitas vezes, quando a ausência prolongava-se, ela o recebia com alguma demonstração mais expansiva, como sucedeu na sua volta do Recife.

Eram estas as recordações que a donzela ainda repassava na memória, recostada à janela, no momento em que arnaldo a avistou. Depois vieram as reminiscências dos últimos tempos até aquela tarde, em que o sertanejo excedera-se a ponto de forçá-la quase a um ato violento.

Tornando a si desta longa interrogação do passado, a donzela aterrou-se ante uma idéia que surgiu-lhe de chofre. Essa afeição que tinha a Arnaldo seria mais do que a simples amizade de uma irmã de criação por seu companheiro de infância?

Não. Ela, a filha do capitão-mór Cmapelo, não podiaa ver em um vaqueiro outra coisa senão um agregado da fazenda, ao qual dispensava um quinhão da estima protetora, que repartia com seus bons servidores, como a Justa, a Filipa e outros.

Daí em diante cumpria-lhe manter a distância que a separava do seu colaço, para que êste não a esquecesse outra vez, e de um modo tão grosseiro. Sentiu que havia de custar-lhe bastante envolver Arnaldo, a quem sempre distinguira com sua afabilidade, no mesmo trato frio e imperativo que usava com a gente da fazenda. Mas assim era preciso, e assim havia de ser.

Nunca a sua proteção faltaria a Arnaldo. Todos os sacrifícios ela os faria, sendo necessário, para poupar-lhe um desgôsto, e auxiliá-lo nos trabalhos da vida. O que vedava-lhe o seu decôro, era a confiança e familiaridade, em que até alí havia consentido com tamanha imprudência.

A resolução da donzela e o esfôrço que lhe tinha custado, refletiam-se em sua fisionomia severa e altiva, quando ao toque de ave-maria, ela saíu ao terreiro e foi beijar a mão dos pais.

Arnaldo a seguira com os olhos cheios d’alma. A donzela ao voltar-se o avistara; mas desviou dele a vista, sem a menor perturbação ou sobressalto, com uma indiferença plácida e fria, que traspassou o coração do sertanejo.

Adivinhou que Flor acabava de separar-se dele para sempre.

Depois de Trindades, D. Genoveva chamou a filha e levou-a à presença do capitão-mór, que esperava sentado no canapé.

— D. Flor, minha filha, a senhora chegou à idade de tomar estado; e nossa obrigação, era procurar-lhe um marido, digno por suas prendas de merecer aquela a quem mais prezamos no mundo. Lembrámo-nos de seu primo Leandro Barbalho, do Ouricurí, filho do falecido Cosme Barbalho, homem de prol, a quem o filho não desmentiu nas obras:

— Aceito; meu pai; basta ser de sua escolha, para que eu o tenha no melhor conceito.

Campelo comunicou à filha que nesse mesmo dia despachara um portador com carta ao Leandro Barbalho, o qual breve estaria na Oiticica, e agradando a D. Flor, como era de esperar, se trataria logo das bodas.

O que não disse o capitão-mór fo o motivo de tamanha pressa. Não lhe saía da lembrança o dito de Fragoso; e receoso de que pela intercessão de algum santo, ou por artes ocultas, conseguisse o despeitado mancebo abrandar-lhe o ânimo, pensou que o melhor esconjuro contra êsse malefício era casar quanto antes a filha.

D. Flor, que outrora assustava-se com a idéia do casamento, aceitou-a nessa ocasião com um modo pressuroso que não lhe era habitual. Porventura entrevia ela na sua aliança conjugal, um apôio para a resolução que tomara, e da qual ainda receava desviar-se?

À noite, pouco antes do toque de recolher, chegaram à Oiticica dois viajantes: uma dama que trajava de luto, ajoelhou-se aos pés do potentado.

— Sou uma desventurada, que vem pedir ao sr. capitão-mór Campelo, como pai dos pobres e a Providência dêstes sertões, agasalho e proteção contra seus perseguidores.

— Agasalho terá, que a ninguém se nega na oiticica; proteção, a darei se a merecer; mas primeiro diga para o que a pede, mulher!

— É tarde, e eu não quero pagar com incômodo da família a hospitalidade que vossa senhoria me concede. Se o sr. capitão-mór dá licença, eu deixarei para amanhã relatar-lhe minhas desgraças.

— Amanhã a ouviremos.

D. Genoveva já tinha dado ordem para preparar-se um aposento, no qual foi ela própria, com Flor, instalar a dama, que lhes captara as simpatias, não só por sua desventura, como por seu modo, ao mesmo tempo digno e modesto.

Quando a desconhecida ergueu o crepe que a velava de dó, sua beleza deslumbrante produziu nas duas damas um movimento de ingênua admiração. Não se recordavam de ter visto semblante tão formoso. Flor era aos olhos da mãe o tipo da graça e da gentileza; mas não tinha a fascinação que derramavam os olhos negros e aveludados da desconhecida.

Soube então D. Genoveva que sua hóspede chamava-se Águeda, e era viúva. Como, porém, com a lembrança recente de seu infortúnio desatasse em pranto, a fazendeira depois de a consolar, retirou-se para não perturbar-lhe o repouso de que devia carecer.

No outro dia, logo pela manhã, veio Águeda à presença do capitão-mór, trazida por D. Genoveva, a qual a animava com a esperança de obter a proteção que viera solicitar do dono da Oiticica.

— Diga o seu agravo, mulher, e conte que lhe faremos justiça, determinou o capitão-mór com a gravidade de um desembargador daquele tempo, que os de hoje são mais gaiteiros.

— Com a justiça infalível do sr. capitão-mór conto eu, que a sua fama corre todo êste sertão, e não há quem não a conheça e louve e respeite, pois nunca faltou ao pobre e desvalido; e assim não abandonará esta mísera viúva, que vivia afortunada e na abastança, mas agora aquí está a seus pés, desgraçada, sem marido, sem abrigo, na maior penúria, e tudo por quê? Só porque na sua casa venerava-se acima de tudo o nome do capitão-mór Gonçalo Pires Campelo.

— Que diz, mulher? exclamou o dono da Oiticica com um estremeção que fez estalar a poltrona.

— É a verdade, sr. capitão-mór. Vossa senhoria talvez não se lembre de meu marido, o Tomaz Nogueira?

— O Tomaz Nogueira? repetiu o capitão-mór, interrogando a memória.

— Da Barbalha, acrescentou a viúva.

O fazendeiro consultou com o olhar a D. Genoveva, ao capelão e ao ajudante, que eram os três arquivos ou canhenhos dos fastos de sua vida; mas nenhum recordava-se do nome pronunciado pela viúva.

— Meu marido conheceu o sr. capitão-mór Campelo no Icó, de vista, que de fama já o conhecia desde pequeno; e tal era a veneração que tinha por vossa senhoria que muitas vezes me dizia: «Olha, Águeda, se não fosse minha mãe estar já tão velhinha e não querer por coisa alguma sair da Barbalha, com certeza mudava-me para o Quixeramobim só para ter o gôsto de servir ao capitão-mór Campelo. Aquilo é que é homem! El-rei escreve a êle todos os anos com muitas partes para agradá-lo, porque tem mêdo que o capitão-mór não tome para si todo o sertão, com esta capitania do Ceará e mais a de Pernambuco. Que isto é só êle querer. El-rei bem sabe». E era uma vontade tão grande, que estava sempre a repetir.

— Tenho uma lembrança de seu marido, mulher, disse o capitão-mór. Parece-me que o vi no Icó, numa festa.

— É isso mesmo!

O Campelo não se recordava de tal Nogueira; mas entendeu que não podia ser alheio a um homem, que tinha por sua pessoa aquele profundo acatamento.

— Que aconteceu então a seu marido?

— Apareceu na Barbalha êste ano um tal Proença que foi toda a nossa desgraça.

— Um conhecido por Vareja? perguntou Campelo.

— O próprio. Êsse homem não sei por que tinha raiva do sr. capitão-mór, e então foi meu marido quem pagou; porque um dia apresentou-se em nossa casa com três cabras, e intimou ao sr. Nogueira, que pusesse a bôca em vossa senhoria, e o chamasse já e já de… Não me atrevo a dizer.

— Há de atrever-se, mulher, que lhe ordenamos nós. Chamasse de quê?

A viúva fez um esfôrço:

— De sapo cururú.

O capitão-mór que já a custo sofreava a cólera, saltou como uma explosão:

— Agrela, mande já sem demora encilhar os cavalos, que eu não durmo enquanto não ensinar o cabra! Vá aprontar a minha maca, D. Genoveva. Não ouve, senhora?

Enquanto a mulher e o ajudante saíam a cumprir suas ordens, o capitão-mór cruzava o terreiro a largos passos, sôfrego de montar a-cavalo. Amainando a refega da ira, caminhou para a viúva que ficara imóvel no mesmo lugar:

— E seu marido que fez, mulher?

— Nogueira? Não tinha que saber. Disse e repetiu que o sr. capitão-mór era o primeiro homem do mundo e a Providência desta terra, pelo que o havia de louvar sempre. Foi então que o malvado gritou: — «Pois eu faço tanto caso dele como de um surrão velho, e toma lá a prova». Matou meu marido, deitou fogo na casa…

Os soluços e lamentações da viúva eram abafados pela voz do capitão-mór que retumbava:

— Meu bacamarte, D. Genoveva! Onde estão êstes cavalos? Pegou no sono, Agrela? Anda com estas botas, negro do inferno?

Êsse Vareja era um sujeito de Russas. Tendo uma vez dito que o Campelo não era capitão-mór às direitas, porisso que o Quixeramobim ainda não subira a vila; e sabendo disso o potentado, mandou-o chamar, com o que tal mêdo tomou, que desapareceu, e não houve mais novas dele.

Por aquí se avaliará da gana que devia ter o capitão-mór, de agarrá-lo para pagar-se do novo e do velho.

D. Genoveva, a-pesar-de habituada a estas sortidas, afligira-se com aquela partida tão precipitada. A ausência do Campelo naquela ocasião a assustava: nem ela sabia por qual motivo. Entretanto não se animando a opor-se diretamente à resolução do marido, incumbiu a D. Flor dessa difícil missão.

A donzela exercia no ânimo do pai decidida influência, e isso provinha do dom que ela tinha de identificar-se com a sua vontade, de modo que cedendo-lhe, pensava o capitão-mór que cedia a si mesmo.

D. Flor não usou de nenhuma das razões em que a mãe insistira; não empregou argumento de família. Abundou no sentimento do pai; mas confessou-lhe que admirava-se de sua partida.

— Por quê?

— É dar muita importância a um vilão. Basta que mande buscá-lo por uma escolta. Que não dirão quando souberem que o capitão-mór Campelo abalou-se de sua fazenda para prender um bandoleiro?

— Pois mandarei o Agrela.

— Isto sim.

Nesta conformidade, deu o capitão-mór suas ordens; e o ajudante preparou-se para sair naquela mesma hora com uma escolta de cincoente homens.

Arnaldo chegava nesse momento, e a primeira vez que viu Águeda, experimentou uma sensação estranha, que se poderia chamar de acerba admiração. A esplêndida beleza dessa mulher, que o arrebatava a seu pesar, fazia-lhe mal, como se o fulgor que dela irradiava lhe queimasse a alma.

Quando o sertanejo soube da próxima partida do Agrela, ficou preocupado. Podia o ajudante demorar-se na expedição, e nesse tempo voltar o Fragoso de Inhamuns.

Antes demeio-dia partiu a escolta. Já iaa na várzea, quando saíu-lhe ao encontro Arnaldo que aproximou do cavalo de Agrela o seu.

— Preciso falar-lhe, sr. ajudante.

— Da parte do sr. capitão-mór? perguntou Agrela secamente.

— Da minha.

— Que negócio pode haver entre nós? tornou o ajudante surpreso.

— O serviço dos donos da Oiticica, respondeu Arnaldo com o tom firme.

Agrela inclinou a cabeça com um sinal adesivo e demorou o cavalo, acenando à escolta que passasse adiante. Quando se acharam sós, voltou-se para o sertanejo.

— O que há?

— O sr. Agrela não me gosta; não sei a razão, nem a pergunto. Eu por mim não lhe quero mal, e espero que ainda havemos de ser amigos.

O ajudante comoveu-se com essa linguagem singela e nobre:

— Estimarei que assim aconteça.

— Mas não se trata de nós agora. A Oiticica vai ser atacada.

— Por quem? perguntou o ajudante surpreso.

— Pelo Marcos Fragoso.

— Como sabe?

— Sei; é quanto basta.

— Já avisou ao sr. capitão-mór?

— Não; e enm o avisarei.

— Por quê?

— Talvez me engane. Demais êsse Fragoiso é meu inimigo, e não posso denunciá-lo.

Agrela era homem para compreender semelhante suscetibilidade.

— Que devo eu fazer então? perguntou ao sertanejo.

— Voltar quanto antes.

— Conte comigo.

Os dois mancebos despediram-se. Eram duas almas nobres que sentiam-se atraídas pela estima recíproca; mas os acontecimentos as tinham separado, lançado entre elas um gérme de desconfiança.

Apartando-se do ajudante, Arnaldo esteve algum tempo a refletir, e encaminhou-se para a gruta.

— Um de nós deve partir.

— Para onde? perguntou Jó.

— Para a taba dos Jucás.

— Dá-me a seta.

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