No dia seguinte, às onze horas e meia, chegou Ricardo no Andaraí.
Achou na sala de visitas D. Leonarda recostada no sofá; Guida sentada a seus pés na almofada desenhava à aquarela sobre uma mesinha de charão para divertir a avó; e Mrs. Trowshy fazia "frivolidade" ( frivolité).
Guida estava triste.
A efusão de alegria que tivera na véspera a ver Ricardo, quando já o sabia desobrigado da promessa que o separava dela, essa primeira expansão de sua alma desvanecera-se mais tarde, durante a vigília.
Como uma gota de fel, caiu-lhe do espírito no coração uma idéia, que a amargurou. O afã com que Ricardo aproximava-se dela, logo depois da decepção, e sem dar tempo à alma não já de esquecer, mas de acalmar-se, não estava revelando o plano de uma vingança ou de um cálculo sôfrego?
Esteve a não ir ao Andaraí; mas pensou que o melhor era não demorar essa crise de sua vida.
Viera; não com a alma cheia de enlevos e ternuras como a tinha na véspera quando tocava Romeu, porém no desencantamento de um coração que sente fanar-se morno bafo do aquilão, a primeira bonina, que apenas começava a florir.
Desculpou-se o advogado na demora da restituição dos papéis; elogiou a aquarela de Guida, o que levou a conversa para os desenhos de Ricardo e as recordações do verão passado na Tijuca. Falou-se da beleza das pitorescas montanhas, dos encantos de sítios tão aprazíveis; e uma doce tinta de saudade ressumbrava nessa conversa de passatempo.
Depois de um quarto de hora ou mais, vendo Ricardo que não havia mutação de cena, e perdendo a esperança de uma longa e íntima efusão, como ali tivera Guida com ele vinte dias antes, ergueu-se com intenção de sair.
- O senhor ainda não viu a chácara da avozinha? É muito bonita.
- Qual! disse a velha. Já foi, agora está maltratada.
- Quer dar um passeio? perguntou a moça.
- Com muito gosto! respondeu Ricardo.
- Vamos, Mrs. Trowshy.
A mestra estava pronta sempre para passear.
Querendo facilitar a Ricardo a entrevista, que ele desejava, e sentindo ao mesmo tempo vexame de achar-se de todo a sós com o mancebo, Guida escolhera o passeio, que lhe deixava toda a liberdade de movimentos para dissimular as emoções e interromper a conversa a propósito.
O bando de moleques disparou adiante, como um rebanho de cabritos, quando o soltam do redil pela manhã, e espalhou-se pela chácara, a pretexto de apanhar frutas para nhanhã Guida, mas realmente para as comerem eles e fazerem mil diabruras.
Mrs. Trowshy, que despedira da cancela pela rua afora, como bala de canhão, e lá se fora em passo de carabineiro inglês assaltando um reduto, depois de três voltas sentara-se esbaforida à sombra de uma jaqueira, a debulhar um cacho de uva para refrescar-se.
Em frente da jaqueira passava uma rua de mangueiras, por onde vinham Guida e Ricardo a par, em um silêncio que os embaraçava a ambos; mas nenhum queria rompê-lo com banalidades, receando afastar o momento da confidência e talvez impedi-lo.
Animou-se Ricardo afinal:
- Lembra-se do que me disse aqui nesta casa, há quase um mês, quando nos despedimos? Que seu romance acabava alegre.
- É verdade! respondeu Guida. Eu disse e...
A moça conteve-se, receando lhe escapasse o segredo das lágrimas que tinham orvalhado seu amor ao nascer.
Ricardo esperou um instante, mas vendo que o silêncio ia outra vez envolvê-los, continuou:
- Pois o meu acabou triste, bem triste.
- Conte-me, disse Guida com bondade.
- Não vale a pena. Uma afeição de infância, que lutou anos contra a adversidade para ser traída e ludibriada no momento em que lhe sorria a esperança! Quem dá valor a estas futilidades do coração? concluiu o mancebo em tom amargo.
- Compreendo quanto deve doer a perda de uma ilusão, observou a moça.
- Não é a perda de uma ilusão, mas a ruína de minha vida inteira. O coração está morto; é uma terra sáfara onde não brotará nunca mais a flor de uma afeição. E é esta a maior felicidade que Deus me pode conceder ainda neste mundo!
Volveu Guida um olhar tímido e queixoso.
- Por quê?
- Amar outra vez? Seria martírio incessante. Não me animaria jamais a oferecer àquela a quem eu amasse os destroços de uma vida despedaçada pela traição, os bocejos de uma alma devorada pela dúvida. Oh! não! Se isso acontecesse por minha desgraça, eu havia de adorá-la em silêncio, no mais recôndito de minha consciência, quando não conseguisse arrancar do coração esse espinho doloroso.
Com a fronte inclinada e o seio palpitante, escutava Guida as palavras de Ricardo, que as proferia com o olhar vago, receando pousá-lo no semblante da moça. Timidamente observou:
- Não conheço os mistérios do coração. Mas penso que não pode haver maior júbilo do que seja esse de reviver um coração morto, de apagar um passado triste, e criar para aquele a quem se... estima, uma nova existência!
- Quantos encontraram no mundo um anjo como esse? perguntou Ricardo.
Guida não respondeu.
- Quando recebi a carta, que deu o golpe à minha vida, a princípio não pude entender. Pensei estar louco. Li e reli; aquilo excedia minha compreensão. Enfim a certeza penetrou-me como um raio, e senti-me como arremessado do alto de um rochedo, que me dilacerara a alma. Reneguei tudo quanto respeitava; descri das coisas mais santas; cheguei a duvidar de minha mãe!... Era a vertigem; a dor veio depois, e atroz. Carecia de um coração amigo, com quem desabafasse. Aqui só tinha Fábio; mas com ele era profanar a minha desgraça. Lembrei-me da senhora. Talvez não devesse; mas acreditei que me havia de compreender.
- Não se enagnou.
- E, não sei por quê, tinha um pressentimento de que isso me havia de fazer bem: e fez. Estas poucas palavras que trocamos restituíram a calma a meu espírito. Sentia vacilar-me a razão a modo de ébrio; parecia-me que a consciência faltava-me, como a terra embaixo dos pés; e agora estou outra vez seguro de mim; perdi as ilusões e as crenças, mas conservo a possessão do eu; já não receio que uma paixão ou um vício me arrebate na correnteza como às alforrecas, que o mar lança à praia.
- Mostre-me a carta! murmurou Guida.
- Aqui a tem; eu a trouxe pensando que desejasse vê-la.
Recebeu Guida o papel com a mão trêmula, e procurou o abrigo de uma mangueira, cujo grosso tronco a escondia, para ler sem despertar a curiosidade da mestra. Ricardo voltou-se para não vexá-la.
Estava a moça comovida e palpitante. Aquele momento ia decidir de seu destino; e era preciso que ela tivesse ainda uma vez a energia de curvar a fortuna a seu império, e vencer ela mesma, de iniciativa própria, os obstáculos.
Sua alma superior compreendia agora o assomo confuso, obscuro, travado de hesitações e arrojos, que desde a véspera impelia Ricardo para ela, sôfrego de abrir-lhe o coração. O fenômeno que o mancebo não podia bem discernir em sua própria consciência, ela o penetrava com a luz pura de seu nobre coração.
Com as mãos apertadas ao seio para recalcar a efusão de seu júbilo, murmurou consigo:
- Ele me ama, sem o pensar. Quando viu-se livre, lembrou-se que nada o separava de mim. Mas eu sou rica e o mundo não acredita que se possa amar uma mísera criatura de carne, de preferência a uma barra de ouro!... Ricardo duvidou de si, ele mo disse há pouco; julgou-se arrastado para mim, não pelo afeto mas pelo interesse. Então, revoltando-se contra si mesmo, em vex de me dizer: - "Sou livre, aceito" - ao contrário, procura cavar um abismo que o separe para sempre de mim, a fim de não sucumbir à tentação. Não pode mais amar? Pertence à outra para sempre? Pois bem! Assim é que eu o quero, para afastá-lo tanto desse pesadelo vivido sem mim, que não se lembre de ter jamais amado a outra mulher.
Estes pensamentos não os alinhou Guida em palavras na mente, mas desenhavam-se como figuras de painel iluminadas de repente por um jato de luz. Também não duraram senão o tempo de abrir a carta de Bela, que a moça amarrotara entre as mãos, quando comprimira a arfagem do seio.
Leu Guida uma e duas vezes. Na Segunda, sua mão caiu-lhe desfalecida. Compreendera tudo: divisara naquele papel mudo o pensamento de Bela como perscrutara pouco antes o segredo do advogado através de suas palavras confusas.
Dobrou a moça a carta enquanto se dominava e aproximou-se de Ricardo:
- Bela o ama, como eu pressinto que havia de amar, se Deus não me houvesse retirado sua graça.
- E esta carta?
- É uma sublime abnegação. Bela acreditou que era ela quem a condenava à pobreza e à obscuridade. Enganaram-na certo, asseverando que o senhor tinha outra afeição; fez o que devia: renunciou à sua felicidade para não sacrificar aquele a quem ama.
Ricardo abriu a carta que a moça lhe restituíra, e leu-a de novo. Ali estava a alma de Bela, a santidade daquele coração em todo esplendor. Fora preciso que a palavra pura e nobre de Guida lhe dissipasse a névoa dos olhos para que ele visse.
Erguendo os olhos, pousou-os brandamente no rosto de Guida.
- A senhora que lê no coração de Bela, inspire-me! Que devo fazer?
Guida voltou-se e colheu uma folha de avenca, nas fendas de um velho muro. Era um disfarce para ocultar o soluço que rompia-lhe o seio.
- O seu dever. Bela espera a resposta; é ela que vai decidir de sua sorte. Vá, vá a São Paulo e...
Pareceu que a voz de Guida afogava-se num soluço. Ricardo olhou, e viu-a sorrindo acabar a frase:
- E seja feliz!
A moça foi ter com Mrs. Trowshy e instantes depois, terminado o passeio, retirava-se Ricardo.
- Ela não pode amar-me!... pensou o moço em caminho para a cidade. E eu... eu tenho medo de amá-la!
Dois dias depois partia o vapor de Santos. Ir a São Paulo, como lhe dissera Guida, foi idéia em que não se demorou o ânimo do advogado; não o permitia o escritório, nem o estado de seu espírito. Resolveu porém escrever a Bela em termos que a demovessem da suspeita de não ser amada, como o fora sempre.
- Serei eu quem me sacrifique à sua felicidade.
No momento de pôr a pena no papel corou: nunca poderia escrever o que não sentisse; não falou a linguagem do coração, mas a da razão.
"Bela
Amamo-nos desde a infância, e juramos unir-nos para sempre. Pertencemo-nos pois um ao outro, e nada neste mundo a não ser a violência pode jamais separar-nos.
Vi em sua carta uma suspeita, que não devia demorar-se em seu espírito. Considero-me seu marido perante Deus; e conheço meu dever.
Adeus, etc.
Ricardo"
Esta carta fria e austera ainda mais confirmou Bela na convicção de que já não era amada como o fora outrora. Documento do nobre caráter de Ricardo, tinha a secura do pergaminho.
Contudo a moça não precipitou o desfecho do drama íntimo de sua vida, e deixou escoar-se o tempo, até que decorridos uns três meses e insistindo seu pai em favor do Felício, arrancou-lhe o consentimento para essa união.
Depois da entrevista de Andaraí, Guida e Ricardo encontraram-se freqüentemente na sociedade.
O advogado, cujo escritório rendia para lhe permitir mais que a decência, sem sacrifício de alguma economia, procurava nas salas e reuniões o sossego de espírito que não encontrava em seu gabinete de trabalho, e nos passeios solitários pela calada da noite.
Não via Guida sem emoção; e se não cedia à atração que a gentil menina exercia sobre ele, também não a evitava como anteriormente, quando o acaso os aproximava. Ao contrário, nessas ocasiões, se alguma circunstância não o vinha distrair, ou se a moça não se afastava, ele se esquecia com ela em alguma dessas conversas cintilantes, que lembrava-lhe o seu passeio à "Vista dos Chins".
Não se falava porém mais entre eles da matéria sentimental; esse capítulo estava cancelado. Nenhum se animava a folheá-lo.
Como um homem, que tem consciência de sua força, e conta com uma vontade inflexível para sofrear os mais veementes impulsos, Ricardo permitia-se aquele inocente devaneio, que lhe caía nos seios d'alma como orvalho celeste. Não tinha receio de trair-se; e pois bebia o doce cordial como um enfermo, que precisa restaurar as forças.
Sabia retrair-se a tempo, e afastar a taça dos lábios, quando sentia a primeira névoa da ebriedade desse amor impossível, que ele rejeitara, mas não podia extirpar.
De seu lado Guida, se algumas vezes cedia ao embevecimento dessas conversações, não despia a reserva com que tratava ultimamente a Ricardo; reserva que era tão-somente o pudor de sua afeição, como o receio de afagar um amor condenado, que devia morrer desconhecido, como tinha vivido.
Assim decorreram três meses.
A notícia do casamento de Bela, que se realizou em poucos dias, produziu nas relações de Guida e Ricardo uma alteração sensível.
A princípio a moça deixou-se influir um assomo de altivez. Entendeu que não devia aceitar o sacrifício de Bela, por lhe parecer humilhante. Preferia matar seu amor, sufocá-lo no seio, a profaná-lo em um casamento frio, e rejeitado por outra.
Mais tarde, mudou completamente. Não vendo Ricardo, adivinhou que era a dor da perda de Bela que o afastava dela, e teve ciúmes. Outra vez sentiu o impulso generoso de disputar esse nobre coração ao desânimo e à descrença, de povoar com seu imenso amor o deserto daquela alma assolada pela desgraça.
Ricardo porém sucumbia ante a perda irreparável da mulher a quem amara; e só então conheceu a profundeza do golpe que sofrera. Por muito tempo ele pertenceu exclusivamente à mágoa que enlutara sua vida e à saudade do passado amor.
Quando Guida o viu, desfigurado e pálido, respeitou a santidade dessa dor, e aprendeu nela a resignar-se.
A continuação de se tratarem freqüentemente, depois de gastas as primeiras expansões da mútua, mão não correspondia afeição, tornou-os ao cabo de algum tempo indiferentes. Encontravam-se já em emoção, como sem enleio.
No verão passado Guida passou em Petrópolis os dois meses de mais forte calor. O pai deixou-lhe a escolha; ela não quis a Tijuca, de que tanto gostava anteriormente.
Nessa ocasião espalhou-se a notícia de estar justo o casamento de Guida com o Bastos. O Soares interpelado riu-se; e Guida já não correspondeu às perguntinhas das amigas com um remoque, segundo o seu costume.
Grande mudança se tinha operado no corretor. O Soares uma vez depois do jantar enfiara-lhe o braço, e lhe dissera brincando:
- Meu caro Bastos, o que seduz as borboletas são as flores e não os frutos. Já tens bastante dinheiro. Trabalha menos, e agrada mais.
- De que modo?
- Vês esta pedrinha? disse o Soares apontando para um seixo reluzente entre a areia do passeio. Foi a correnteza d'água que a poliu; atira-te na correnteza dos homens. A massa é boa, por força que há de sair alguma coisa.
Saiu um homem elegante, de bom senso e inteligência elevada, que, embora não dado a estudos teóricos, pôde desenvolver-se com acerto e superioridade em qualquer assunto.
O Guimarães foi à Europa gastar a henrança do pai; e o Nogueira, atordoado com a dissolução inesperada que lhe gorou a candidatura, vai-se consolando na advocacia administrativa da sua dupla derrota, a política e a matrimonial.
Mrs. Trowshy anda muito contente com a esperança de voltar breve à Inglaterra na companhia de Guida, a qual naturalmente logo depois do seu casamento fará uma viagem à Europa.
Fábio casou-se; mora em São Paulo, e tem um projeto de estrada de ferro para Santo Amaro, primitiva colônia alemã, onde se faz boa manteiga fresca, igual à de Petrópolis. Já requereu o privilégio, e conta ganhar uma centena de contos, para vir gozar da corte, de que tem saudades.
O visconde da Aljuba, consta que anda arranjando um escritor para zurzir o autor deste livro, por tê-lo copiado tão ao vivo; portanto prepare-se o público para ler as rajadas que não tardam a aparecer por aí em estilo de níquel.
Informaram-me também que o Sr. Benício já foi à cocheira do Porto, examinar o mais rico dos cupês de gala, a fim de estar preparado para encomendá-lo apenas se marque o dia do casamento de Guida.
Por seu gosto não seria Bastos o noivo; pois o bom do amanuense não perdeu ainda o teiró que tomara ao corretor pela concorrência ativa que este lhe fazia antigamente no artigo das encomendas. Mas, quando se tratava de obsequiar, não havia sacrifício que fizesse recuar o heróico Sr. Benício.
Assim terminaram estes "sonhos d'ouro", tão parecidos com os outros que a cada instante por aí acendem e se apagam, como os arrebóis da tarde.
Ilmo. Sr. Garnier
Se ainda não tirou a lume a Segunda parte dos Sonhos d'ouro, peço-lhe o favor de mandar imprimir o incluso pós-escrito que leva a última notícia de nossos personagens.
Amigo e atento venerador
SÊNIO
S.C. 6 setembro, 1872
Há quinze dias teve Ricardo de assistir a uma vistoria, em questão de terras, para o lado de Jacarepaguá.
Na volta lembrou-se de visitar D. Joaquina, a quem não via desde muito. Achou a casinha e a dona no mesmo estado: velhas como as deixara, mas contentes e sossegadas.
A tia de Fábio recebeu o advogado com muita festa e agasalho; perguntou notícias do sobrinho e da nova sobrinha; e pediu a Ricardo que lhes mandasse muitas e muitas recomendações, quando escrevesse.
Eram duas horas. Já D. Joaquina tinha jantado; mas havia carne assada e improvisou-se uma fritada, que Ricardo aceitou de bom grado, para Ter o prazer de passar com a velha o resto da tarde. O advogado comeu com apetite; e não trocaria o copo d'água cristalina, que bebeu depois do melado, pelo mais esquisito champanha.
- O senhor é que ainda não quis casar? disse D. Joaquina, preparando-lhe uma chávena de café.
- Creio que fiquei para tio, disse Ricardo sorrindo.
- Qual!... A dificuldade é encontrar aí algum peixãozinho que lhe ponha um feitiço; como um que veio aqui outro dia.
- Não tenha receio, trago uma figa, que me livram do quebranto, tornou Ricardo no mesmo tom.
- Deixe ver, disse a velha.
- Estão lá dentro, no coração.
A velha riu-se. E o advogado acendendo o charuto saiu a dar uma volta de passeio a pé, enquanto se ia buscar ao pasto o "Galgo", que naturalmente andava também matando saudades, pois desde muito tempo residia na corte à Travessa do Espírito Santos, n. 19, cocheira do Viana.
Tomou Ricardo pelo mesmo caminho em que à primeira vez o encontramos, e não tinha dado vinte passos que as recordações de outros tempos surgiram para envolvê-lo como o aparato de uma cena armada de improviso.
Ouviu tropel de animal; reconheceu o "Galgo"; viu passar Fábio; trocou palavras com ele; perdeu-se entre os tufos do arvoredo; sentiu o sobressalto que tivera outrora, despertado por um riso argentino; e contemplou com entusiasmo de artista, e um enlevo que então não sentira, o gracioso vulto da gentil amazona.
Depois correram as vistas; novas cenas sucediam-se; e a imaginação as povoava de recordações vivazes, que entretanto pareciam extintas.
Este volver ao passado incomodava Ricardo, que pensou escapar-lhe fugindo àquele sítio.
Ao voltar uma curva descobriu duas senhoras, que se aproximavam lentamente pelo mesmo caminho; e qual não foi seu espanto reconhecendo Guida acompanhada de Mrs. Trowshy.
Desde certo tempo a saúde de Guida se alterara. Não se queixava, nem tinha mesmo incômodo ou mal determinado. Perdera a alegre vivacidade; e sentia invadi-la um abatimento indefinível. Sua vida nos meses últimos não era mais do que um lento delíquio; parecia-lhe que estava desmaiada. As flores, se é que têm sensibilidade, devem experimentar uma impressão igual quando murcham.
Ultimamente o desfalecimento chegara ao ponto de inquietar a família; os médicos receitaram as duas panacéias do costume, o casamento e o campo. Pobres dos médicos! Queixam-se deles. Ah! Se tivessem na sua farmacopéia certas drogas preciosas, como o amor, a ambição, a glória, que de curas milagrosas não fariam!
Quando se tratou de escolher o arrabalde, Guida pediu a Tijuca; não que ela esperasse tirar proveito para a saúde. Bem longe disso; era um desejo recôndito de rever aqueles sítios, e saciar-se das reminiscências que eles guardavam. Matassem embora essas árvores, como a mancenilha; queria embriagar-se de seus perfumes.
Lembrava-se da Africana que vira representar ultimamente; e invejava aquela morte, ela que dois anos antes, naquelas mesmas montanhas, zombava de Safo, a mais ilustre entre as mártires do amor.
Guida trajava naquela tarde um vestido cinzento e, sobre ele, um casaco preto guarnecido de marta. A alvura imaculada de seu rosto destacava-se nesse trajo escuro, entre os negros cabelos, com uma lividez que assustava: parecia o perfil de uma estátua em alabastro.
Reconhecendo Ricardo, teve a moça uma violenta comoção, e tomou para suster-se o braço da mestra, que atribuiu o choque a susto e debilidade da moléstia.
- Não sabia que estava na Tijuca, disse Ricardo.
- Viemos há oito dias.
- Ela tem andado doente; o doutor mandou tomar ares, disse Mrs. Trowshy em português arrevesado.
- Há de fazer-lhe bem a Tijuca, tornou Ricardo.
- À saúde?... perguntou Guida.
E abanou a cabeça desfolhando um triste sorriso. Foi então que Ricardo reparou o estado de abatimento da moça. O talhe, tão esbelto e grácil, retraía-se como o cálix do lírio do vale quando fana-se, e os olhos de embaciados, só intercadentes, como o trepidar da estrela, rutilavam para desferir lampejo febril.
Não se concebe a comiseração que sentiu Ricardo notando aquele deperecimento lento de uma beleza, que ele vira tão esplêndida. Lágrimas umedeceram-lhe os olhos; e teve impulso de ajoelhar-se aos pés da mártir, sacrificada ao paganismo social.
Lembrou-se da conversa que tivera com a moças dois anos antes, pouco distante daquele sítio. Guida era uma das vítimas desse martirológio da família, que poucos sabem e ninguém compreende. Nascera rica; educaram-na para a opulência; e a grandeza sufocava.
Havia um meio de salvar-se; era esfarfalhar sua alma pelas salas em afeições efêmeras; tornar-se a moça da moda, faceira, namorada, perseguida e disputada por um enxame de adoradores. A dignidade inata fechou-lhe essa válvula do coração.
Guida o guardara virgem e intacto para o seu primeiro amor; porém este não o encontrara no mundo. Por quê? Não havia um homem que a merecesse? Guida estimava o homem, mais do que ele valia, porém na pureza do ideal; por isso os indivíduos da espécie lhe pareciam escorços, senão caricaturas.
- Por que não sou eu o homem que ela sonha, disse Ricardo; por que não me deu o criador um raio do fogo sagrado para reanimar esta vida que se extingue, para reter na terra esta bela mulher que se está transformando em anjo?
Guida sentara-se à beira do caminho, numa leiva coberta de relva, e acompanhava o recorte das nuvens com o olhar mórbido, que às vezes eclipsava sob os longos cílios e volvia rápida e sutilmente ao rosto de Ricardo.
- Deve passear! disse Ricardo para romper o silêncio.
- Ela não gosta mais de sair como dantes, observou Mrs. Trowshy.
- Fatiga-me tanto! tornou Guida. Já três vezes viemos para este lado; e ainda não pude chegar até a outra volta.
- Quando estiver mais forte.
- Tenho tanta vontade! Mas hoje hei de ir; já descansei. Venha conosco! disse pousando o olhar súplice no semblante do moço.
Não era longe a volta a que a moça desejava chegar.
- Lembra-se? perguntou a Ricardo. Aqui nos encontramos pela primeira vez.
- Não esqueceu?
- E a nossa flor... Ainda estará no mesmo lugar?
Ricardo rompeu o arvoredo, e procurou:
- Aqui está ela!
Guida aproximou-se.
O arbusto, reverdecido com as águas do inverno, começava a florescência. Nas pontas dos renovos germinavam já os lindos cálices de nácar, com os pjngos d'ouro.
Roçou Guida as mãos pelas folhas glabras do arbusto como para sentir-se acariciada pelo doce frolido:
- Sonhos d'ouro! murmurou.
- É verdade! exclamou Ricardo sorrindo.
- Nem se lembrava! disse Guida com leve exprobração.
- Não culpe a pobre florinha, se o vento da tempestade a mirrou e cobriu de pó, tornou Ricardo apanhando os secos despojos da passada floração.
- Estes morreram, murmurou Guida olhando as flores murchas, mas vão nascer. E os meus?
A voz da moça expirou nos lábios, e exalou-se em um suspiro:
- Os meus nasceram aqui também, porém morreram para sempre!
Ergueu Ricardo surpreso os olhos, e viu o semblante da moça banhado em lágrimas.
- Guida! exclamou ele.
E cingiu-lhe a cintura com o braço para ampará-la, porque a via desfalecer.
- Eu queria morrer aqui! balbuciou ela descaindo-lhe a fronte ao ombro de Ricardo, e reclinando o talhe ao peito onde conchegou-se hirta, sem movimento.
Mudo e estático, Ricardo não sabia o que fizesse; não tinha forças para separa de si o corpo desfalecido, nem ousava observar-lhe o semblante, temendo nele ver a máscara da morte.
Foi rápido o lance, e durou enquanto Mrs. Trowshy, que duas vezes investira com o arvoredo, mas fora repelida por causa da sua rotundidade, fazia volta para aproximar-se.
- Guida! repetiu Ricardo aflito.
A moça ergueu a fronte e engolfando-se no olhar que banhou o rosto do mancebo, sorriu:
- Cuidei que morria... e era feliz!
Ricardo pousou um beijo casto na fronte da moça.
- Há de viver!
- Para quem?...
- Para mim!
- Por ele e para ele, meu Deus! disse ela ajoelhando com as mãos erguidas ao céu.
- What!... gritou a mestra vendo Guida naquela posição.
Ergueu-se Guida com um sorriso:
- Estava agradecendo a Deus a bênção que me enviou.
E abraçando-a com efusão, cobriu-a de beijos.
- Child! Dear child!... exclamava a inglesa esmagando as lágrimas nos olhos.
***
À última hora.
O casamento de Guida com Ricardo efetua-se qualquer destes dias.
O Bastos consolou-se com a sociedade que lhe deu o Soares em sua casa bancária.
O Benício anda em uma dobadoura: da modista para o Carceler, da florista para a cocheira. Ninguém lhe encomendou cousa alguma; mas ele se julgaria desonrado se não tomasse parte ativa no grande acontecimento.
Suscitou este livro, recentemente publicado, duas censuras ao distinto folhetista do Diário do Rio.
Nada aproveita mais à propagação das boas letras do que seja a crítica leal e inspirada pelo sentimento artístico. A mim deleitam os certames literários.
Argúi o ilustrado crítico de personagens estrangeiros as duas figuras principais do romance.
"Guida, a jovem caprichosa e aristocrática, Ricardo, o homem dos devaneios e do orgulho intelectual, são tipos naturais da nossa sociedade íntima, tão franca e democrática?"
Eis sob a forma da interrogação a primeira censura.
Antes de tudo, não disse o autor que ia esboçar os seus personagens pelo prisma da vida íntima. Bem ao contrário, os apresenta ele a maior parte das vezes fora da intimidade da família, em passeio ou na convivência de pessoas estranhas.
Feita esta observação, entro com a crítica.
Por que razão não apresentará nossa sociedade, a mundana ou a íntima, o tipo de uma menina caprichosa e aristocrática?
Não há capricho no Brasil?
Aqui as rosas são, como dizia Mílton das do Éden, sem espinhos (without thorn)?
Também será deserdada de toda superioridade esta raça brasileira, a ponto de não sentirem os espíritos elevados quaisquer assomos da aristocracia natural que não vem da linhagem, mas de alguma preeminência social, chame-se esta dinheiro, talento ou posição?
Desconhece a vida fluminense quem negar a existência do que se chama entre nós a "alta sociedade", embora sem o esplendor do grand monde em Paris e da high life em Londres.
Se o ilustrado crítico chegasse à janela da sua tipografia em um dia de festa, veria passar-lhe diante dos olhos não uma, senão muitas moças mais caprichosas e aristocráticas do que a Guida.
Mas onde está a aristocracia de Guida?
Não nos diz o ilustrado crítico, e pois força-nos a conjeturar, o que será longo e fastidioso. Podia forrar-nos a esse trabalho apontando os fatos.
Estará a aristocracia de Guida no passear na Tijuca em cavalo do Cabo? Em trazer roupão de caxemira e luvas de peau de Suède? Em Ter uma governanta e criado estrangeiro para acompanhá-la?
Creio que a sociedade fluminense em peso protestaria contra semelhante apoucamento de nossa corte. Não é preciso ser filha de capitalista para ter semelhante tratamento.
Talvez que o severo crítico sentisse o ressaibo de estrangeirismo no fato de trazer Guida em sua carteira uma nota de cinqüenta mil-réis para fazer com ela uma esmola disfarçada por uma travessura.
Se ainda não desapareceu em todas as zonas da sociedade fluminense o tempo do "papai me dá um vintém", não é menos certo que um melhor princípio de educação doméstica já condenou aquela tacanha e mesquinha inquisição familiar, que excedia-se em preparar a massa dos hipócritas, dos avaros e dos perdulários.
É indispensável habituar um homem desde criança a lidar com esse tóxico perigoso, que se chama dinheiro; do contrário corre o inexperiente o risco de embriagar-se com ele; e essa embriaguez produz em de dous efeitos: o delirium tremens da prodigalidade, ou o idiotismo da avareza.
Atualmente é comum das famílias ricas terem as filhas seus alfinetes, e nas pobres, quando as posses dos pais não chegam para essa verba, as moças laboriosas formam com os seus trabalhos de agulha os pequenos pecúlios, com que vão acudindo às exigências do toucador, sem a necessidade e o vexame de estarem a cada instante importunando os pais com o pedido de dinheiro para uma fita, um grampo, um crochete. (Deixem passar essa aclimação que é irmã do colchête, melhor do que crochê.)
Que resta da inculcada aristocracia de Guida?
Uns desperdícios feitos pela moça, que dava chocolate a comer ao seu cavalo e mandava-o lavar com vinho em vez de aguardante.
Estas e outras extravagâncias não são ditas pelo autor, mas referidas por uma das personagens, em cujas palavras ele por certo não jura. Bastava este simples reparo para não se tomar a rigor aquelas coisas, dando ao contrário o desconto à exageração habitual dessa murmuração social que serve de tema às palestras.
Mas prescinda-se da atenuação. Em um país onde tanto se esbanja com extravagâncias, onde homens sérios queimam centenas de contos em baboseiras, não se concebe que a filha de um banqueiro pudesse ter quejando capricho? Será necessário ir às sociedades da velha fidalguia para encontrar exemplos dessas dissipações?
Ao contrário, o traço brasileiro está aí se revelando. Desses caprichos não se lembraria Guida se, apesar de rica, não se ocupasse com os arranjos de casa e não tivesse as chaves da despensa.
Passemos a Ricardo.
Em que é que os devaneios e o orgulho intelectual repugnam com a sociedade brasileira, aponto de não poderem germinar em seu seio?
Não nos disse a crítica e era o essencial.
Neste país dos trópicos, onde a própria natureza devaneia nas cambiantes da luz, no capricho das formas, nos contrastes do belo; nestas naturezas meridionais de imaginação vagabunda, cismar será acaso uma aberração?
O orgulho da inteligência também não vinga nesta terra onde ele se ostenta todos os dias desde o legítimo brio do talento laborioso até a fofa vaidade da "suficiência" lerda e obesa, que refocila na reputação mal ganha?
Nem um nem outro destes dois senões tinha-os Ricardo que entretanto, como homem ou como personagem, não estava isento de defeitos.
Longe de ser o "homem dos devaneios", Ricardo é o homem prático, preocupado dos interesses positivos da vida, compenetrado de sua grave responsabilidade como chefe de uma família não pequena e paupérrima que tem nele o único arrimo.
Professa a advocacia, donde espera tirar recursos; luta com uma corajosa tenacidade contra as dificuldades do tirocínio. Nas horas de lazer não faz verso, desenha, como eu costumo fazer às vezes, à toa e por desfastio, sem nunca ter aprendido; e confesso que esses grosseiros empastes me divertem.
Aí vai esse neologismo, feito com a nossa mobília cá de casa (do verbo empastar) para traduzir o pastiche, que os franceses trouxeram do italiano pasticcio.
Quanto a orgulho de inteligência, é coisa de que o moço não tinha nem sombras. Em suas palavras não há uma alusão à sua capacidade; não trai aspirações literárias nem políticas; não sonha com a glória. Sua preocupação é, para o coração, o amor da família e a afeição de uma moça; para a razão, a posse de vinte contos, necessária para assegurar o bem-estar dos seus.
São dois colegas que de passagem e em ocasiões diversas fazem alusão "a seu talento"; pois ele o tinha, se o autor não se enganou em dar o nome a alguma dessas fosforescências que usurpam aí pelo mundo esse título.
Creio ter exaurido a primeira pecha de estrangeirismo; e se alonguei-me foi pelo sistema da crítica, incômodo e laborioso para o autor, que deseja defender o seu livro, pois, além da tarefa de arcar com a habilidade do crítico, é obrigado a adivinhar-lhe os motivos.
Tachando as duas personagens principais de estrangeiras, deu a entender que destoavam da nossa "sociedade franca e democrática".
Mas não será franca e democrática a sociedade onde se passam as cenas do romance? Onde dois moços pobres e desconhecidos são convidados a jantar, logo depois de rápido conhecimento, feito pela manhã em um encontro? Onde a fidalguia é representada por titulares de carregação, como um barão que foi tropeiro, um visconde que foi belchior, e um conselheiro que tem casa de consignações?
Uma observação ainda.
No romance de costumes, e não sei se os Sonhos d'ouro podem levar tão alto suas pretensões, nem todas as personagens são tipos, nem todas figuram na "comédia social", de que o autor aproveita um ato ou um trecho.
As principais na grande parte dos casos são atores no drama, que formam o esqueleto do livro, e lhe tecem o enredo, fibra vital dessa espécie de obra cujo fim é antes de tudo o conto, a fábula, que pretende o espírito e o deleita.
Divaguem como queiram os modernos discípulos de Aristóteles: aquele é o escopo do romance, o mais não passa de acessórios e ornatos, às vezes é certo, de tão subido preço, que sobrepujam o todo, como os diamantes de que se bordam as vestes.
Nem Guida, nem Ricardo são tipos, mas caracteres formados pelas nossas condições sociais, idiossincrasias, como outras que aí estão se reproduzindo ao infinito, sob a influência de um concurso qualquer de circunstâncias.
A diferença entre um tipo e um caráter não careço de a determinar, pois não a ignora o ilustrado crítico. O tipo é moral; o caráter é psicológico. Este só contraste basta: dá-nos ela outra importante aferição. O tipo forma-se exteriormente pelo molde social; o caráter é uma criação espontânea, que se produz internamente pelas modalidades da consciência.
O marinheiro, o soldado, o estudante, o advogado, etc., são tipos de maior ou menor relevo. O avaro, o egoísta, o ambicioso, são caracteres que variam como as folhas de uma árvore e os logaritmos de uma mesma forma natural.
Fazendo aplicação destes prolegômenos da crítica a nossas personagens, não será difícil discernir o que pertence ao caráter e o que ao tipo, em cada uma delas.
Em Guida a altivez do gênio, a elegância fidalga, os caprichos dissipadores, a isenção da alma, tudo isto é do caráter, no qual sente-se a leve impressão da educação inglesa. O que há de típico nessa figura é a forma de que se revestem suas travessuras, a garrulice brasileira desse lábio malicioso, o impulso de caridade que se expande traquinando, o modo por que apesar da riqueza vive sem luta no meio de uma sociedade que lhe não convém.
Em Ricardo o caráter revela-se nos escrúpulos de probidade e no pudor da pobreza, que os afasta dos círculos onde arrota-se ouro, não por orgulho ou inveja, mas pelo recato da dignidade.
O homem que não jantou, curte sua fome em casa e não vai espiar a mesa farta dos ricos, sob pena de ser um mendigo de casaca. A vida é um banquete, onde nem todos são convivas, como disse com lúgubre ironia o infeliz Gilbert; porém muitos ficam à porta.
Ricardo pensava por esta forma; se bem, se mal, é o que a crítica filosófica devia decidir, mas absteve-se.
A profissão de advogado, única esperança de decente ganha-pão para ele que não tinha proteções, nem se encaminhara a outras profissões igualmente independentes, como o comércio e a indústria; as recordações de S. Paulo e as amizades e os amores ali tecidos com as noitadas do tempo de estudante; o tom da amizade escolástica e fraternal que o liga a Fábio; o seu modo de viver; eis o que há de típico em Ricardo, e não o viu o ilustre crítico por estar sob o domínio de uma prevenção.
Havemos de chegar a ela, a seu tempo.
Sênio
11 de setembro de 1872.
Fonte: www.bib.futuro.usp.br