Depois de algumas voltas pelo jardim, as duas amigas sentaram-se em um banco de grama, próximo ao gradil da rua, onde enramava-se uma trepadeira de flores escarlates.
Houve na conversa breve pausa. D. Guilhermina espreitava disfarçadamente pelos claros do gradil; e Guida com o sobrolho levemente rugado parecia refletir observando distraída o gesto da amiga.
- Sabe, D. Guilhermina, esse moço... o Dr. Nunes..., disse Guida com indiferença.
- O amigo do Fábio?
- Está justo para se casar com uma prima em São Paulo.
- E anda por aqui divertindo-se?
- Que injustiça! Veio na esperança de ganhar alguma coisa para pagar as dívidas da mãe, e casar-se então; porque a noiva é tão pobre como ele.
- Coitadinha!
- E não é muito dinheiro de que precisam. Vinte contos apenas!
- Não é qualquer bagatela, Guida!
- Ora! Você não gasta mais do que isso por ano?
- Sim; mas em minha posição!...
- Pois esse dinheiro que nós deitamos fora em vestidos, jóias e luxo durante um ou dois anos, bastava para fazer a felicidade de tanta gente e por toda a vida.
- Que gente?
- O Ricardo tem uma irmã, D. Luisinha que também está para casar com o amigo...
Guida sentindo a inquisição suspeitosa do olhar de D. Guilhermina, disfarçou a colher uma flor e concluiu:
- Com o Fábio!
- Ah!... Quem lhe disse? exclamou a mulher do Barros mordendo os beiços.
- O Dr. Nunes!
- Não sabia que estava tão íntimo com você, Guida!
- Eu o estimo pelas suas qualidades e sisudez.
Erguera-se D. Guilhermina, e a pretexto de olhar para a rua, afastou-se um momento para dominar a comoção produzida pelas palavras da amiga, e que no primeiro instante contida, a estava sufocando.
De seu lado favorecendo-lhe os desejos, Guida aproximara-se da casa, fingindo que a chamavam; mas realmente para deixar a outra em liberdade.
Quando de novo se encontraram, os olhos de D. Guilhermina estavam magoados, e as faces conservavam a marugem das lágrimas. Guida que se teria rido um mês antes, compreendeu aquela dor e respeitou-lhe a mudez, mostrando-se inteiramente alheia.
- Eu, se pudesse, disse Guida reatando a conversa, teria um prazer imenso fazendo-os felizes e realizando de repente os seus lindos sonhos!... Deve a gente sentir-se no céu, quando faz-se instrumento da graça e misericórdia de Deus!...
O profundo sentimento que ressumbrava nestas palavras de Guida, o fervor de seu gesto e o esplendor que iluminou seu lindo perfil, surpreenderam D. Guilhermina que fitou admirada o rosto da amiga; a cintilação dessa luz que manava o coração, filtrou-lhe n'alma; ela compreendera.
- Também eu! murmurou corando.
- Pois ajude-me!
- Como?
- É preciso conhecer as particularidades da família... O Dr. Nunes, se eu lhe perguntar, desconfiará e com certeza há de recusar, mas o Fábio...
- Ele nunca me falou na família do Ricardo.
- Porque não lhe tocou nisso.
- Hei de perguntar-lhe!
- Talvez ele apareça aqui esta tarde.
- Não deve tardar... Isto é, creio que ele vem, corrigiu a tempo a moça com vexame.
Mas Guida não fez reparo; e afastou-se na direção do gradil, olhando para a rua através dos recortes da folhagem. Momentos depois voltou pressurosa ao lugar onde ficara D. Guilhermina triste e pensativa:
- Aí está ele.
Efetivamente chegava Fábio ao portão; e avistando as senhoras ao atravessar o jardim, foi-lhes ao encontro.
Depois dos cumprimentos e banalidades usuais, Guida trocando com a amiga um olhar de inteligência, procurou um disfarce para deixá-la só com o Fábio.
- O senhor nunca me disse que seu amigo Fábio tinha uma irmã? foram as primeiras palavras que D. Guilhermina dirigiu ao moço, interrogando-lhe a fisionomia com o olhar.
Ficou passado o Fábio. Apesar de sua leviandade, evitava com o maior cuidado tocar no que tinha relação com sua vida de São Paulo, pelo receio de divulgar o seu ajuste de casamento com Luisinha.
Imagine-se pois do atordoado que estaria, vendo a pessoa de quem mais desejava esconder essas particularidades, tão ao corrente, e sentindo assim evaporar-se de repente o seu castelo encantado.
- Não sabia que a senhora tomava tanto interesse por meu amigo! respondeu o moço buscando uma evasiva nessa ponta de ciúme.
- Mais do que o senhor pensa; e tanto que desejo pedir-lhe certas informações a respeito dele.
- A mim!
- Sem dúvida. Não é o senhor amigo íntimo do Dr. Nunes?
- Por isso mesmo, deve compreender quanto as suas palavras me fazem sofrer.
- Não vejo motivo. Conheço uma pessoa, que, sendo infeliz no seu casamento, consola-se quando pode fazer a felicidade dos que se amam.
Vinham estas palavras envoltas em um suspiro e perfumadas de suave melancolia.
- E recusa fazer a minha, quando sabe a paixão com que a adoro!
- Essa pessoa soube, não sei como, que o Ricardo tinha um casamento ajustado em São Paulo com uma moça a quem ama; mas sua felicidade depende de uma soma necessária para o pagamento de certas dívidas...
- Sua felicidade dependia de um escrúpulo. Hoje nem isso!...
- Deixe-me acabar. O que eu desejo que o senhor me diga, pois está no segredo da família, é o modo de pagar essas dívidas, sem que seu amigo saiba, nem desconfie, senão depois de tudo acabado. Assim não haverá mais impedimento à felicidade dele...
A voz da bela senhora afogou-se na reticência de uma lágrima.
- E à sua! disse afinal com emoção. O senhor poderá casar-se com aquela a quem ama, Luísa, não é o nome?
O primeiro assomo de Fábio foi a negativa; mas à sua alma, nobre no meio da volubilidade e extravagância da mocidade folgazã, repugnou essa apostasia de sua primeira afeição.
- Eu amo Luisinha, confesso; mas também a amo, D. Guilhermina, e com paixão!
- Essa paixão é impossível.
- Porque a senhora a despreza.
- Eu devo-lhe as únicas alegrias de minha vida, condenada a um triste desencanto. Deixe-me guardar estas recordações doces e puras dos dias passados; não devemos envenená-las com um crime que faria a infelicidade de duas pessoas e a nossa.
Fábio travara da mão da senhora e a beijava. D. Guilhermina retirando-a enternecida, chamou a amiga para romper o a sós que a estava comovendo:
- Guida!...
- Cruel!...
- Ainda não satisfez o meu pedido sobre a dívida de seu amigo.
- Oh! isso é fácil. O pai de Ricardo deixou a chácara hipotecada na casa bancária de Gavião Peixoto pela quantia de dez ou doze contos de réis; mas com os juros já monta a dívida a vinte. Desembaraçada a casa, podia D. Benvinda viver com a família modestamente sem pesar sobre o filho.
- O senhor me há de dar por escrito uma lembrança de tudo isto, com os nomes...
- Para quê? tornou o moço com escrúpulo.
- Já lhe disse.
- Para apressar o casamento de Ricardo com Bela?... Mas é inútil.
- Deveras? perguntou D. Guilhermina lançando um olhar para Guida que se aproximava.
- Foi uma surpresa! Ontem, quando menos esperava, recebeu Ricardo uma carta de São Paulo. Abriu; era de Bela, que lhe participava seu casamento com o Lemos, outro primo.
Ouviu Guida essa notícia, ao aproximar-se; e vacilou com a emoção que abalou o seu talhe esbelto. Felizmente passava naquele momento por uma estátua de bronze representando Flora, cujo pedestal lhe serviu de apoio e também de refúgio para esconder a alteração do gesto, pois Fábio colocado do lado oposto não podia perceber-lhe o vulto.
Notando o soçobro da amiga, a arfagem violenta do seio, que se expandira com o ímpeto d'alma, e a contração do rosto ao esforço da vontade a reprimir o grito que rompia do seio, D. Guilhermina voltou-se para o outro lado, o que obrigava o moço a imitá-la, desviando assim os olhos da estátua.
- O que dizia a carta? perguntou a mulher do Barros.
- Não devia Ter dado a notícia, disse Fábio arrependido; mas como sempre se havia de saber...
- Decerto. Que mal faz?
- Quanto à carta, não posso. Ricardo não me perdoaria.
- Essa é a confiança que lhe mereço? disse D. Guilhermina queixosa.
- Se fosse meu, não hesitaria. Mas este segredo não me pertence.
- E pertencia-me a mim a afeição que lhe dei?
- Direi, com uma condição.
- Por negócio, dispenso.
E a moça deu ao talhe uma lânguida inflexão que era o irresistível condão de sua beleza.
- Pois bem, à senhora eu conto, disse o moço correndo o olhar em torno.
Guida, já sobre si, tivera o cuidado de colher a cauda do vestido e ocultar-se por trás do pedestal de bronze, de modo que Fábio não se apercebeu de sua presença.
- Pode falar, disse D. Guilhermina. Ninguém nos ouve.
- A carta era muito curta. Bela dizia a Ricardo que, não podendo fazer sua felicidade, cedia aos desejos do pai aceitando o esposo que tinha escolhido.
- E o Ricardo, como recebeu a notícia?
- Tem sentido muito. Ele amava sinceramente a prima; era uma afeição de infância.
- Mas há de consolar-se.
- Que remédio!
- Os homens esquecem depressa!
- As injustiças que lhes fazem aquelas a quem adoram.
- Há de ver que daqui a um mês o Ricardo amará outra.
- Duvido, disse Fábio. Eu o conheço; é dessas almas concentradas, onde tudo, afeição, idéia, lembrança, cria raiz funda. É preciso tempo!
- Veremos!
Deixara D. Guilhermina cair essa palavra do lado da estátua, afastando-se para deixar a Guida retirar-se sem que a percebesse Fábio. Aproveitou a moça o momento, e deu uma volta para encontrar-se mais longe com os dois.
Ao tomar pela alameda que prolonga-se com o gradil, viu uma pessoa que entrava o portão e que dirigindo-se à escada de mármore, parou de repente em meio caminho.
Reconheceu Ricardo, e notou sua perturbação; no gesto e olhar traía-se a perplexidade do espírito. Após breve luta, voltou ele sobre os passos; e saindo novamente o portão, afastou-se apressado para o lado de São Clemente.
Teve Guida ímpetos de chamá-lo; mas faltou-lhe o ânimo. Já não possuía a sua antiga isenção.
Chegaram D. Guilhermina com Fábio:
- Sabe quem passou por aqui? disse Guida com uma voz que apesar do esforço tremia: seu amigo.
- Ricardo?
Acenou Guida que sim, fitando um olhar fagueiro em D. Guilhermina.
- Por que não vai chamá-lo? disse a mulher do conselheiro a Fábio. Se ele soubesse que o senhor estava aqui, com certeza entrava.
- Maçado como anda?
- É bom que se distraia, disse a senhora, e voltou-se para Guida:
- O Dr. Nunes teve um desgosto.
- Ah!
- Mas não quer que se saiba, acudiu Fábio.
- Esteja descansado, que ninguém vai tocar-lhe nisso. Não se demore.
- De que lado tomou?
- Seguiu para São Clemente, respondeu Guida.
Fábio saiu naquela direção. A pequena distância encontrou o amigo, que naturalmente já vinha de volta, pois não tardou que as duas moças, através da folhagem, os avistassem a ambos, passando em frente ao gradil.
Em um irresistível assomo de júbilo, Guida abraçou a D. Guilhermina, que retribuiu-lhe afetuosamente a carícia, murmurando:
- Você pode ser feliz!
Sentiu Guida o egoísmo de sua alegria, e apagou com um beijo o sorriso triste que abrira nos lábios da amiga.
Na linda várzea do Brás, onde se desdobra um dos mais pitorescos arrabaldes da capital de São Paulo, há uma chácara extensa, cujos terrenos bordam a margem esquerda da estrada de ferro.
A casa é grande, abarracada, ao gosto paulista, e bem antiga. Cercam-na vastas hortas e largos tabuleiros de flores.
No mesmo dia em que Ricardo recusava a mão de Guida, por volta de seis horas da tarde estavam reunidas várias pessoas na varanda daquela casa, em volta da mesa de jantar, onde acabavam de colocar dois castiçais com velas de estearina.
A senhora idosa, de agradável parecer e porte refeito, que sentava-se à cabeceira da mesa, era a mãe de Ricardo, D. Benvinda. Com as mãos cruzadas ao peito, no trepasse do lenço vermelho que trazia aos ombros, escutava com religiosa atenção a leitura de uma carta.
A seu lado estava uma linda moça, tipo dessa beleza plástica e serena, que distingue as paulistas, e à qual só falta um nada da petulância que têm as fluminenses às vezes em demasia. Era bela, essa moça; e ao vê-la no repouso de sua formosura correta e imaculada, compreendia-se o culto de Ricardo que tinha em alto grau o sentimento artístico.
A Bela seguia-se Luisinha, e depois os irmãos e irmãs. Era a fisionomia de Ricardo, reproduzida sete vezes, em traços mais indecisos; neste perfil, com a suavidade do contorno feminino; naquele, com a alacridade da travessura infantil.
E dias de chegada de paquete, como esse, Bela que morava perto da matriz, vinha passar a tarde com a tia, para receber notícias da corte, e ouvir as longas cartas que Ricardo escrevia com recados para todos, especialmente para ela.
Acabava Juca, um dos filhos de D. Benvinda, de chegar do correio, trazendo duas cartas, uma delas bastante volumosa e portulada com um batalhão de estampilhas. Pelo sobrescrito conheceu logo a velha que a do filho era a mais pequena.
Abriu-a, e disse com um suspiro ao passá-la à Luisinha para ler:
- Tão curta!
- É mesmo! repetiu Luisinha com a doce voz arrastada. Ele sempre escreve tanto!
A carta continha apenas estas palavras:
"Minha boa e querida mãe.
De prevenção e à pressa lhe envio estas linhas. Estou ocupado com um trabalho importante, que devo concluir até amanhã; e receio me roube o tempo que eu destino para conversar com aquelas a quem amo.
Mas trabalhando, não tenho eu sempre vivas em minha alma, para dar-lhe coragem, a sua imagem, minha querida mãe, a de Bela, de Luisinha, de todos aqueles por cuja felicidade eu rogo a Deus todos os dias?
Abençoe-me, querida mãe; e dê a Bela o santo beijo que eu de longe não posso receber.
Seu filho
Ricardo
18 de agosto de 1871."
Quando Luisinha terminou a leitura da breve carta duas lágrimas rolavam pelas faces de D. Benvinda, que parecia absorvida na imagem do filho ausente. Bela se erguera, e enxugando com o lenço de cambraia as faces da velha, dobrou os joelhos para receber na fronte o beijo de Ricardo, ungido pela bênção materna.
Entretanto Luisinha voltava de todos os lados a carta volumosa, em cujo sobrescrito reconhecera admirada a letra de Fábio, o qual raras vezes escrevia e sempre de afogadilho, por desencargo de consciência.
- E esta é de Fábio? perguntou D. Benvinda.
- Não sei, respondeu Luisinha vermelha como lacre. Creio que é.
- Basta ver a letra, disse Bela.
- Desta vez desforrou-se! observou D. Benvinda contando as laudas da carta que tinha aberto. Toma, Luisinha; vamos ver o palavreado do rapaz. Já estou-me rindo!
- Leia você, Bela, murmurou Luisinha com as faces a arderem.
Era o costume. As duas noivas trocavam a vez nessa leitura.
A carta de Fábio era uma garrulice de estróina, mas não destituída de chiste e boas lembranças.
Suprimidos os nomes próprios, e metida em meia dúzia de colunas, aquela prosa caseira e do cote, podia bem gozar das honras do folhetim, e não teria que invejar aos mais asseados e domingueiros que aí aparecem.
Ao escrever essa carta passava o noivo de Luisinha por um desses momentos de plenitude moral, em que o espírito, como o coração, transbordam, e carecem de vazar a afluência de vida. Durante seis meses fartara-se de prazeres, divertira-se a não poder mais, gozara do mundo, era amado por uma mulher bonita e do grande tom. Estava cheio.
Retido em casa à espera de uma resposta que devia trazer-lhe dinheiro, o moço lembrou-se, para disfarçar a impaciência, de escrever à sua futura sogra, e começou neste belo teor:
"Minha futura mãe e respeitável senhora.
Há tempos recebi uma carta sua em que me perguntava como ia na advocacia. Deixei passar alguns meses, antes de responder, para dar-lhe uma informação mais segura.
Agora posso dizer-lhe tudo que há a tal respeito e não é muito. O nosso Ricardo está com um escritório já bastante acreditado; tem clientes magníficos; e vai ganhando sofrivelmente. Eu só apareço lá, de longe em longe, para não espantar a caça; mas vou-lhe mandando as causas que posso. Sou um jornal vivo; mas jornal de sala, que é mais aristocrático, e mais barato."
Neste gosto continuava a carta, que Bela ia lendo no meio das risadas de D. Benvinda e dos muxoxos de Luisinha. Chegou, porém, um ponto, em que redobrara a atenção das três senhoras:
"A Bela deve estar orgulhosa do noivo que tem. Se ela soubesse até que ponto Ricardo a ama!... Ele, estou certo que nada lhe dirá; mas eu é que não sou caixeta de segredos; e este me está fazendo cócegas.
Aí vai, no ouvido, de cochicho, que não o ouça uma certa sonsinha, cujo pecado é a curiosidade."
- Isto é com Luisinha! Disse D. Benvinda.
- É o que ele sabe me dizer.
Imagine-se a curiosidade com que foi ouvido o trecho seguinte, que leu Bela com a voz palpitante de emoção:
"Há aqui na corte uma moça, que é a rainha da moda; chama-se Guida; é filha de um homem que não sabe quanto possui; tem dezenove anos e muito espírito; a respeito de beleza e elegância, não se fala; é o tipo: ninguém a excede.
Imagine quantos sujeitinhos andam-lhe arrastando a asa, apaixonados ao mesmo tempo pelos olhos pretos e os milhões amarelos dessa peregrina formosura.
Todo o alto coturno comercial, político, literário, inscreveu-se neste concurso; e cada um espera que lhe toque o anel.
Mas ela não faz caso de nenhum destes pretendentes; e o seu fraco é por um certo advogado paulista, que nem dá fé das provocações, tão voltado anda para essas bandas da ínclita Paulicéia, onde lhe ficaram os olhos e o coração.
Bastava-lhe querer para em pouco tempo estar senhor de uma riqueza colossal e marido da mais bonita moça do Brasil, já se sabe, depois das duas que não é preciso mencionar. Mas ele sacrifica tudo à constância."
- É bem meu filho! Interrompeu D. Benvinda com assomo de orgulho materno.
" É verdade que não é ele o único; pois também outra pessoa tem sofrido sem pestanejar o fogo rolante dos mais feiticeiros olhos do Rio de Janeiro; mas, etc., etc., o resto pelo seguinte vapor."
Terminada a leitura, quanto Luisinha e a mãe se inclinaram para acariciar Bela e regozijar-se com ela por mais essa prova do profundo amor de Ricardo, viram, ao retirar-lhe o papel ainda aberto diante dos olhos, que tinha o rosto banhado de lágrimas.
- Está chorando, Bela! exclamou Luisinha.
- É de felicidade, menina; também eu tenho os olhos cheios d'água, disse D. Benvinda.
Desde criança, de envolta ainda com os brincos da infância, começara Bela a amar Ricardo, com a efusão de uma alma que se entrega sem reservas de todo e para sempre. Estava em sua natureza querer com esse abandono de si mesma, sem pedir nem esperar retribuição.
Quando Ricardo formou-se, não lhe permitindo as apertadas circunstâncias da família realizar desde logo seu casamento, Bela resignou-se a esperar, com plácida confiança, e possuída da inalterável convicção de fazer a felicidade daquele que a amava.
Freqüentes vezes insistiu seu pai em convencê-la da necessidade de casar-se com o Felício Lemos, outro primo seu, também formado, que desde a infância a disputava a Ricardo, mas preterido sempre. Aos reiterados pedidos opunha a moça uma repulsa doce, magoada, quase súplica, mas inflexível. Ela julgava-se um bem de Ricardo; acreditava que deus a reservara para fazer a ventura desse coração, que ela admirava. Não discutia pois, não se defendia; refugiava-se em seu amor.
Ao ler a carta de Fábio, no meio do espanto que produzia-lhe o tom leviano do estouvado a profanar as coisas mais santas, pela primeira vez uma dúvida cruel traspassou-lhe a alma. "Não era ela a única mulher do mundo que podia fazer a felicidade de Ricardo? Havia para esse homem outra ventura, outro futuro, outra existência, além que de lhe devia dar o seu amor?"
Com o soçobro causado por essa primeira percussão d'alma, arrasaram-se-lhe os olhos de lágrimas sem que ela mesma soubesse por que chorava. Assim, quando ouviu a explicação que D. Benvinda deu a seu pranto, disse com um sorriso contrafeito:
- Há de ser de alegria mesmo!
Momentos depois recolhia-se Bela à sua casa e achou na sala o pai, o Dr. Lopes, em companhia de Felício Lemos.
- Estávamos falando em você, Bela, disse o pai que dobrava um papel.
- Meu tio! Vm. prometeu-me que não contaria a Bela, disse o Lemos com exprobração.
- Mas é necessário que ela saiba, para perder a ilusão em que vive; portanto dispense-me da palavra que lhe dei.
- Perdão, meu tio, eu o respeito muito, mas neste ponto não devo condescender. Bela pode suspeitar que são meios empregados para demovê-la de sua resolução.
- Todos sabem que você é incapaz disso.
- Embora; não quero ser portador de más novas.
- Mas o que é, meu pai? perguntou Bela. Alguma notícia triste?
- Eu lhe digo. Ao passo que você espera com uma constância nunca desmentida ao homem a quem prefere sem razão, o ingrato lá na corte está tratando de arranjar um casamento rico.
- Ricardo? disse Bela com sublime confiança. É impossível, meu pai.
O Dr. Lopes desdobrou a carta que tinha em mão e apresentou-a à filha.
- Ainda duvida? pois leia, Bela!
- O senhor me compromete! disse Felício com reproche, afastando-o do lado da janela.
Surpresa, e cerrado o coração de pressentimentos, correu Bela os olhos pelo papel.
A carta escrita ao Felício por um colega da corte, repetia os boatos da Rua do Ouvidor que davam Ricardo como pretendente assíduo da filha do banqueiro Soares e o preferido entre todos pela moça.
- Então? perguntou o Dr. Lopes à filha quando esta acabou de ler.
- Ricardo não falta à sua palavra, meu pai.
E deitando a carta sobre a mesa, recolheu-se à alcova.
- Breve se há de desenganar! exclamou o pai irritado com aquela cega confiança.
Decorreu uma semana, durante a qual a alma de Bela, como um vaso de jaspe onde a custo filtra a essência, levou a embeber-se dos acontecimentos, que vieram perturbar o sereno remanso da sua vida de amor e saudades.
Outra vez chegou o correio, mas nesse dia a moça não foi como de costume para a casa da tia esperar cartas; e desculpou-se com uma enxaqueca, esse grande recurso diplomático das mulheres. Por volta de "ave-maria" trouxeram-lhe da parte de D. Benvinda uma carta.
De longe, apenas a viu na mão do portador, Bela adivinhou que era de Ricardo.
À frouxa luz do crepúsculo, recostada à ombreira da janela, com os olhos úmidos e a alma tomada de um indefinível sobressalto, leu a moça as palavras afetuosas que lhe dirigia o noivo.
"Minha querida Bela.
Deus ouviu suas preces, as preces de um anjo, e abençoou os meus esforços.
Breve estaremos reunidos e para sempre. Viveremos na pobreza, a que a sorte nos condena; mas não é só a opulência que tem o direito de ser feliz neste mundo; ao contrário, muitas vezes ela não acha no meio de seu luxo um instante da alegria que enche a casinha do pobre.
Teremos de passar ainda por grandes provanças, minha querida Bela; não devo iludi-la. A vida é difícil para aqueles que trilham a áspera vereda, e não se deixam arrastar pelas brilhantes equipagens, que passam cobrindo-os de pó!
Não me assusta a luta; conto, para dar-me coragem, com o nosso amor, que tem sido e há de ser o conforto de minha vida.
Às vezes perdido neste turbilhão da corte, minha querida Bela, têm-me vindo também a mim sonhos d'ouro, castelos encantados como fazem todos que têm imaginação. A riqueza para certos indivíduos não passa de uma indigestão de dinheiro, é na mão de quem compreende um dom sublime, quase celeste, porque transmite ao homem um influxo da Providência: enxuga as lágrimas da miséria, fortalece a virtude vacilante, e anima os nobres cometimentos.
Mas eu os espanco, a esses silfos tentadores, que agitam sussurrando suas asas de ouro, e me refugio nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas, e me refugio nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas, meu anjo da guarda, estou com Deus; e posso desafiar o mundo. Sei para sempre. Ricardo."
Soavam trindades na torre fronteira da matriz.
Ajoelhou-se Bela para rezar a "ave-maria". As andorinhas esvoaçavam pela fachada da igreja, retalhando os ares com vôos intermitentes. Já caía a noite quando duas se encontraram diante da janela, beijando-se com alegres chilidos, que assustaram a moça.
Ainda Bela não tinha rezado, tão absorvida estava em seus pensamentos.
No dia em que Ricardo recusara a mão de Guida, espontaneamente oferecida, chegou à casa de volta de Andaraí, atordoado ainda pelo procedimento singular, como pela decisão de caráter dessa moça.
Eram três horas.
O jantar o esperava, e durante ele, a conversa com a dona da casa e a tagarelice das crianças o distraíram da preocupação que trazia e à qual desejava arrancar o espírito.
À tarde, fumando um charuto e sentado à janela do sótão donde avistava as verdes encostas de Santa Teresa e mais longe o Corcovado, o moço deixou-se ir à discrição do pensamento que o levava para os acontecimentos daquela manhã. Não tardou o envolvesse um desses castelos encantados de que falava na carta a Bela.
Imaginou-se outro homem, que não ele. Um moço pobre, de alguma inteligência, lutando corajosamente com a sorte, mas sem o vínculo de uma afeição, que o prendesse para sempre. Caminhava curvado ao peso do trabalho, quando uma voz celeste o chama. Ergue os olhos, e vê descer das nuvens a moça mais gentil, deslumbrante de beleza, cintilando graça e espírito que lhe diz:
"Minha alma é virgem e pura, como o sorriso de que Deus a formou. Nunca amei; não sei que mistério é esse da criação. Ensinai-me vós a amar; acordai em mim as doces emoções dessa felicidade que eu não conheço. A linguagem dos anjos que eu falava no céu é doce; mas quero aprender em vossos lábios outra linguagem mais suave e maviosa, a que entende o coração. Eu sou a flor que nasce, cheia de fragrância, que toda guardei para derramar em vosso seio: colhei-me."
E o moço ficava enlevado a admirar a esplêndida formosura, não podendo crer que Deus houvesse formado aquela sublime criatura e a conservasse imaculada no regaço do céu, para enviá-la de repente a ele, como um anjo, que o inundasse de felicidade. Mas interrompendo um instante o afã, ajoelhava para admirar a peregrina imagem.
"Erguei-vos, dizia-lhe a moça. Meu senhor não há de calcar o pó da terra. Tenho riquezas sem conta para dar-lhe. Quero ser querida em um palácio, entre as magnificências do luxo, cercada de tudo quanto seduz e deslumbra. Quero ser amada assim para que, no meio de todos esses esplendores, ele só busque meus olhos, só deseje meu sorriso."
Desfraldando as asas, a imaginação de Ricardo bordou sobre o gracioso tema um desses arabescos orientais, cheios de encantamentos e fascinações, como são os contos árabes.
Quando ele surpreendeu-se no meio desse devaneio, teve um remordimento; e para fugir aos enlevos da fantasia, asilou-se nas recordações das puras afeições da família e dos santos amores de sua infância.
Tomou a pena e escreveu a Bela a carta que este lera à janela, na hora da ave-maria; depois conversou longamente com sua mãe, em duas folhas de papel, renovando as reminiscências dos tempos que tinham passado juntos em São Paulo antes da separação.
No dia seguinte recomeçou Ricardo a lida do escritório; e o trabalho, que é o mais forte detersivo do coração, apagou os vestígios da alucinação que sofrera. Todavia, quando uma circunstância lhe recordava Guida, sentia-se o mancebo tomado por um terror indizível, e estremecia com a idéia de cair outra vez no sonho, ou antes no pesadelo d'ouro, que já uma vez fizera presa nele.
Antes de findar a semana, estando Ricardo em seu escritório, recebeu do carteiro sua correspondência de São Paulo. Dentro da carta de D. Benvinda, que dava notícias de todos os seus, achou uma de Bela; e guardou-a para a ler em casa, a sós, sem risco de o interromperem.
Avalia-se do espanto de Ricardo ao ler estas poucas linhas:
"Meu primo.
Um pressentimento, que não engana, diz-me que sou um obstáculo em sua vida; e portanto o meu dever é afastar-me para que você possa livremente seguir a brilhante carreira que lhe prometem seus talentos e virtudes.
Outra, mais prendada e escolhida por Deus, fará sua felicidade, oferecendo-lhe toda a sorte de alegrias e encantos, que eu não poderia dar, eu que apenas tenho um coração. Esse o acompanhará de longe com seus votos; e creia, meu primo, que outros não haverá mais ardentes pela sua ventura.
Desde que nos separamos, meu querido pai insta para que aceite uma união, que ele sempre desejou. Ocultei-lhe este segredo de família para não afligi-lo, em compensação de tantos sacrifícios que você aí sofria só; era justo que tomasse para mim unicamente essa contrariedade.
Enquanto me julguei necessária à sua felicidade, tive forças para resistir a meu pai; agora faltam-me, e também o direito de opor-me à sua vontade, e recusar o destino traçado por ele, quando outro não me resta, nem eu tenho mais que esperar do mundo.
Quando receber esta carta, já estará partido o vínculo que nos unia; pois vou dar a meu pai o consentimento que me pede há tanto tempo.
Sua prima e amiga
Isabel Lopes
20 de agosto de 1871."
Por diversas vezes, Ricardo retrocedeu ao princípio da carta e releu os períodos, para compenetrar-se do pensamento, que exprimiam essas palavras. A surpresa e pasmo produzidos por tão inesperado teor tinham-lhe embotado a compreensão; com os olhos fitos no papel, havia momentos em que não via as letras, ou vendo-as, não sabia soletrá-las.
Passado o primeiro abalo, quando o mancebo pôde coligir as idéias e refletir sobre o caso, sua mente procurou naturalmente a a explicação do estranho acontecimento; e certo de a ter encontrado, deleitou-se em passá-la e repassá-la no espírito.
Foi um consolo.
Para Ricardo a carta de Bela não era senão um engenhoso meio de justificar sua ingratidão e perfídia. Cansada de esperar, a moça de coração volúvel, resolvera casar com o Felício Lemos, que além de arranjado, estava à mão.
A indignação do mancebo, a revolta do seu caráter em face de tal procedimento, sobrepujou a mágoa de se ver esquecido, e a dor de perder as mais doces ilusões de sua vida.
- E foi por essa mulher, que eu recusei um coração virgem, e o futuro mais brilhante que podia sonhar em meus arroubos de imaginação!
À noite Ricardo saiu à procura de Fábio, a quem encontrou na Rua do Ouvidor. Conseguiu trazê-lo à casa, para mostrar-lhe a carta de Bela, e vazar em seio amigo a exuberância de sua alma.
Fábio informou-se do que havia, tratou o ocorrido com a sua habitual leviandade, consolando Ricardo dessa insignificante derrota, que às vezes, dizia ele, era o princípio dos mais esplêndidos triunfos.
- Vem dar um passeio comigo ao Carceler. Um sorvete e um charuto de Havana, são os melhores específicos para esses achaques. O primeiro apaga um incêndio mais chibantemente do que o coronel dos bombeiros; o segundo desfaz em fumo a paixão a mais descabelada. Ontem ouvindo o Rossi, fiz esta reflexão, que tem escapado aos mais profundos pensadores: Se Otelo fumasse, não estrangulava Desdêmona, e Shakespeare não poderia escrever aquela cena sublime do final; ficaria reduzido ao soco inglês.
Não ouvia Ricardo as pilhérias do amigo, nem deu fé quando ele, no meio da sua parolice, eclipsou-se pela escada do sótão, para ir pautear pela calçada do Carceler e Rua do Ouvidor, na esperança de encontrar a mulher do conselheiro Barros.
No dia seguinte, recordando o golpe que na véspera sofrera, e estava ainda aberto dentro n'alma, teve Ricardo uma veleidade, um desejo, um impulso... Ver Guida. Para quê? Sob que pretexto? Em que intuito? Nem ele o sabia; nem lembrou-se de inquirir de si próprio; pois logo repeliu essa idéia como uma extravagância do espírito.
Durante as horas do trabalho, a agitação da cidade, o movimento dos negócios, o rumor das ruas, distraíram o moço. À tarde, porém, a lembrança que despontara pela manhã, tornou-se em necessidade imperiosa: e ele não pôde resistir.
Deixou-se levar à toa, como um batel que voga ao fluxo das águas. Chegando à praia de Botafogo, apeou-se do bonde e seguiu a pé até o portão do palacete. Foi depois de entrar, que se lhe apresentou a estranheza do passo.
Só a convite, e de longe em longe, viera à casa do Soares; nunca tinha freqüentado as reuniões de todas as noites, nem mesmo as partidas semanais do banqueiro. Que explicação tinha pois essa visita avulsa e sem causa?
O resultado da reflexão foi sair apressadamente, receoso de que o vissem. Não tinha porém dado cem passos, que já se arrependera de não haver realizado o primeiro intento, e moderou o andar, pensando em retroceder.
Avistou Fábio que saía nessa ocasião; foi-lhe ao encontro. Aí estava o pretexto da visita.
- Vi-te passar. Estava em casa do Soares, no jardim; vem comigo; passaremos lá a noite.
- Tens razão, respondeu Ricardo apertando-lhe a mão. Neste momento preciso muito daquele gramo de loucura, com que o poeta manda temperar o juízo; e que realmente é o melhor sal da razão, pois a preserva de corromper-se.
Começava o crepúsculo.
Apesar da sombra que já havia no jardim, sobretudo onde copava o arvoredo, perceberam as duas moças a profunda alteração da fisionomia de Ricardo, não que estivessem descompostas suas feições, mas havia nelas a impressão digna e fria da dor vencida após uma luta heróica.
Guida envolveu em seu olhar compassivo o rosto do mancebo e murmurou dentro d'alma:
- Como ele a amava!
Entretanto, D. Guilhermina procurava reanimar a conversa:
- É um milagre, vê-lo, já não digo em nossa casa, porque a não ser uma visita de cartão, não lhe merece mais; mas aqui! Nem passando lembrou-se de entrar.
- Tenho desculpa, minha senhora. Falta-me o tempo.
- Agora não a tem!
- Agora, por quê? perguntou Ricardo volvendo um olhar suspeitoso para Fábio, que se eclipsou.
Guida estremeceu; e D. Guilhermina mordendo o beiço com um riso malicioso, afastou-se do lado que tomara Fábio, tanto para evitar um novo lapso, como para deixar os dois em liberdade.
Apoderou-se de Guida um enleio invencível, quando se viu a sós com Ricardo, no jardim; e mais crescia sua perturbação com o silêncio do moço, que de seu lado também parecia tomado de súbito constrangimento.
Nesse momento, as salas iluminadas derramaram sobre o jardim o clarão das janelas; e um murmúrio de vozes na entrada anunciou a chegada das visitas habituais, que vinham passar a noite em casa do Soares.
- É melhor entrarmos, disse Guida; e correu ao encontro de Clarinha, que passava com o barão de Saí.
Ricardo a acompanhou de longe, e instantes depois procurava nas conversas e burburinhos da sala, aquele grão de sal de que ele carecia para serenar a sua tristeza.
Mais de uma vez chegou-se para a filha do banqueiro com intenção de lhe dirigir a palavra; mas alguma força oculta o tolhia, que afastava-se, disfarçando o primeiro movimento.
Não escapou a Guida esta perplexidade. Convencida de que Ricardo lhe desejava falar, mas retraía-se na presença das pessoas que a cercavam, afastou-se um instante da roda das moças e cavalheiros a pretexto de ir ao interior; na volta chegou-se ao piano, e demorou-se em escolher uma peça para tocar.
Ricardo, recostado nesse momento ao vão de uma janela, foi talvez a única pessoa que seguiu os movimentos da moça, enquanto ela folheava o álbum, e não chamava a atenção ferindo as teclas do instrumento.
Guida colocou o livro na estante, e afastando o banco com a ponta do pé, volveu os olhos para Ricardo. Encontrando os dele, sentiu expandir-se a alma, que veio abrir-se em flor num sorriso fagueiro.
Esperou ainda um momento e sentou-se. Debaixo de seus dedos mimosos cantaram as teclas a súplica maviosa do dueto final de Romeu, escrito por Vaccai:
"Vieni, ah! vieni,
Mio bene, mia speme;
Fugiamo insiemi,
Amor ci condurra".
Ricardo não ouviu as notas, como não vira o sorriso.
Vexado de que lhe surpreendesse a moça o olhar ansioso, dissimulara, com intenção de aproximar-se logo depois, como atraído pela música.
Com efeito assim fez, mas ao mesmo tempo que ele, chegava Clarinha, o Guimarães, e todo o enxame de adoradores cercava o piano, levando o advogado a arredar-se, o que aliás fez de bom grado.
Pouco depois era meia-noite. As famílias se retiravam; D. Paulina com a filha as foram acompanhar até o portão, como de costume, por fineza aos hóspedes e por passeio.
Guida, de braço com Mrs. Trowshy, aproximou-se de Ricardo:
- Como está a noite serena! disse a moça. Havemos de Ter uma bonita manhã para ir a Andaraí, Mrs. Trowshy.
- E a lição de harpa?
- Que tem isso?
Voltou-se para Ricardo:
- É verdade! Quando leva aqueles papéis à avozinha? Creio que ela precisa deles.
- Já devia ter ido... Talvez amanhã.
- Eu a prevenirei para esperá-lo.
Este curto diálogo passou desapercebido no meio do gorjeio das moças que se despediam.