Com antecedência fora Jão Fera sabedor da trama urdida pelo Barroso. Desde que o Chico Tinguá o advertira do perigo, o Bugre, sempre alerta, redobrara de vigilância e não perdeu mais de vista a seus inimigos.
Assim havia surpreendido o segredo da maquinação de Barroso; e naquela manhã assistira, oculto no mato, à última combinação entre os cúmplices.
Já tinha o capanga na cinta o dinheiro preciso para desempenhar sua palavra, e esperava o momento de ajustar contas com o Barroso. O plano horrível excitou a ferocidade dessa alma, desde algum tempo sopitada pela influência de Berta.
Que esplêndida vingança não lhe preparava o inimigo com o terrível incêndio, que ia servir-lhe, a ele Bugre, de fogueira de São João para divertir-se também naquela noite de tanto folguedo?
A desolação e a ruína o deleitavam; ao calor das chamas, ouvindo resfolgar a labareda e agonizar os infelizes por ele arremessados ao fogo, ele sentia a inebriação da morte, e sua alma esvoaçava como a do vampiro, sobre os destroços do incêndio.
Desde o começo, acompanhava ele a realização da trama; vira o Gonçalo postar os companheiros, atear o fogo no canavial, e emboscar-se à espera do fazendeiro. A princípio nem lhe passara pela mente livrar Luís Galvão da morte que o ameaçava; mas a idéia de que Berta, ignorando a verdade, podia atribuir a ele esse assassinato, o estremeceu e impôs-lhe a dura necessidade de salvar o homem a quem mais odiava.
Escapara de chegar tarde, porque se demorara um instante em agarrar Monjolo. O africano, vendo Faustino atado de chofre como um feixe de sapé e pinchado ao fogo, escafedeu-se; mas, a pequena distância, caiu arpoado pela faca do Bugre.
Empurrando esse trambolho ao fogo, correra então o Bugre ao lugar em que havia deixado o Gonçalo de espreita, e onde acabava de passar a última cena.
Agora lá ia à busca do Barroso, que devia estar do outro lado do canavial, pronto a aparecer no momento preciso, e ao sinal convencionado, para representar a farsa, que havia de rematar o drama sanguinolento.
Quando Jão passou pela orla do canavial e que a chama bateu-lhe em cheio no semblante, Barroso o reconheceu e fugiu espavorido. Mas o capanga ia-lhe no encalço, e infalivelmente o alcançaria.
Esbaforido, prostrado de cansaço e de terror, o miserável se deixara cair em um fojo coberto de juncos e moitas; e, resignado, esperou a morte, que ele sentia aproximar-se no passo rápido do Bugre.
Nesse momento chegava Miguel, que a meio caminho de casa e surpreendido com o clarão do incêndio, voltara a correr na direção das Palmas.
Por um impulso generoso parou para defender o perseguido; e Jão Fera esbarrou de rosto com ele.
Três vezes o Bugre arremeteu e três vezes o brioso mancebo tomou-lhe o passo, resolvido a sacrificar-se antes do que deixar consumar-se o crime.
- Deixe-me passar, moço! bramiu o capanga rangendo os dentes.
- O que eu sinto, monstro, é não ter uma arma para castigar-te.
Rugiu o Bugre, e saltou sobre o mancebo, que o esperou calmo e resignado a tudo, mas sem recuar o passo.
Salvou-o um grito de Berta. A menina tinha acompanhado de perto a Miguel, deixando atrás nhá Tudinha, que não a pudera seguir.
Ouvindo a voz da menina, o capanga como se o espancasse a cólera celeste, disparou pelo campo fora e desapareceu.
NA TAPERA
Uma brisa cortante esgarçava a cerração, cujos retalhos flutuavam pelo tope das árvores.
Três dias tinham decorrido depois da festa de São João.
Berta seguia pela vereda que ia dar à tapera. Caminhava a passo lento e frouxo com a cabeça descaída, revolvendo na mente reminiscências que lhe pungiam o coração.
A pequena distância atravessou Miguel por diante dela:
- Sabe, Inhá? Jão Fera foi preso!
- Aonde? perguntou a menina surpresa.
- Perto de Campinas.
- E agora?
- Com certeza o enforcam!
Esta resposta o mancebo a deu já afastado e de caminho para o lado das Palmas.
Berta suspirou, pensando que Miguel ia ver Linda; mas logo seu pensamento desprendeu-se dessa idéia, para refletir sobre a desgraça do capanga.
Apesar do horror que lhe inspirava ele desde a véspera de São João, já pelo atrevimento de atacar Miguel, já pelas crueldades que praticara naquela noite, ela sentiu profunda compaixão pelo infeliz que ia morrer execrado e maldito por todos; e sua alma confrangeu-se de dor.
Tão absorta nessa pena chegou às ruínas que não reparou na singular atitude da negra em pé, no meio do terreiro, com o pescoço curvo, os olhos esbugalhados, à espreita de um objeto que, por ventura, lobrigava entre a folhagem.
Passara Berta e dirigia-se à porta da casa, quando a negra estendeu os braços hirtos para diante como se quisesse arremessar de si uma visão medonha, e caiu à estrebuchar em contorções dolorosas, arrancando guinchos aflitivos do peito ofegante.
Na orla do mato, à esquerda da tapera, assomara de repente a figura do Ribeiro, que aos olhos de Zana surgira como um espectro e a fulminara de terror.
Aos gritos da preta, Berta, arrancada ao seu recolho, correu assustada, sem atinar com a causa de semelhante acesso. Vendo-a, Zana que não se apercebera de sua chegada, atirou-se à ela, e cerrando-a ao peito com os braços mirrados, precipitou-se para casa em um ímpeto de desespero.
Assim arrebatada de chofre, não descobriu a menina o vulto do Ribeiro, nem ouviu o riso de escárneo que rincharam os lábios do assassino por ver o terror da negra e seu afã em levar a menina do terreiro e esconde-la na casa.
Tinha ele segura a presa, e por isso não açodava-se, querendo gozar por mais tempo a delícia dessa vingança, que julgava já extinta, e renascia de novo, como o broto de uma raiz morta.
Açulado por um ódio implacável, lembrara-se dias antes de rever as ruínas da casa onde imolara a vítima de seu rancor, e cevar-se nas recordações de sua covarde atrocidade.
Nessa ocasião, viu Berta, pela primeira vez, e logo entrou-o a suspeita de ser ela a filha de Besita, livre da morte pela súbita ameaça de um homem que ele não conhecera, mas supunha capanga de Luís Galvão.
Desde aí começou de tirar indagações e obteve a certeza que desejava. Seria pois esse o remate da vingança que há vinte anos principiara em Besita e devia acabar na filha, depois de haver exterminado o pai.
Furioso com o malogro do incêndio, porém aterrado com a sanha de Jão Fera, a quem só escapara pela corajosa intervenção de Miguel, o miserável tratou de fugir.
Ao passar por Campinas, soube que o Bugre fora preso na véspera por gente do Aguiar, e então animou-se a voltar a Santa Bárbara.
Seu primeiro pensamento foi Berta. Lembrando-se que ia matar a pobre menina, sentia um prazer bárbaro. Parecia-lhe que Besita revivia na pessoa da filha, e que assim podia ele assassina-la outra vez, saciando o seu imenso rancor.
Ele, que a princípio nem se apercebera da semelhança de Berta com a mãe, tão apagada estava em sua memória a imagem da mulher a quem amara alguns dias para odiá-la tantos anos com um rancor de além-túmulo, agora que o ódio lhe avivara a reminiscência, via surgir a sombra viva de Besita.
Zana, deixando Berta no meio do aposento, voltou ao terreiro para espreitar o inimigo. Tremia o corpo da preta com movimentos tetânicos, e os dentes lhe chocalhavam; mas em sua pupila esvairada lampejava um fulgor sinistro. Era horrível de ver-se aquela múmia viva, com os beiços repuxados, e as unhas a crisparem-se como as garras de um abutre.
O Ribeiro recuou e escondeu-se no mato, esperando que passasse aquele ímpeto de furor.
- Zana! Zana! Que tem você? dizia entretanto Berta, da porta da casa.
Serenou a agitação da preta com o afastamento do Ribeiro; e Berta, sentando-se na soleira, com as costas voltadas para o mato, submergiu-se outra vez nas cismas, em que se enleava agora sua alma, dantes tão isenta e descuidosa.
Seu espírito girava em torno de uma idéia que sobretudo a preocupava. Era a oposição que D. Ermelinda fazia ao amor da filha por Miguel. Já no fim da festa na noite de São João notara ela, Berta, o constrangimento de Linda, a quem a mãe não deixara mais arredar-se de junto de si.
No dia seguinte, ainda mais sensível tornou-se o rigor. Linda não se animou a falar com Miguel, nem a brincar pelo pomar. Todo o dia esteve na sala com a mãe ou umas velhas parentas; e Berta percebeu que os meigos olhos azuis da amiga tinham o rescaldo que deixam as lágrimas.
Recordando todas estas circunstâncias, às vezes tinha Berta seus assomos de júbilo, pensando que ela podia Miguel amar livremente, sem desgosto nem obstáculo. Mas logo reprimia aquele impulso do egoísmo; e perscrutava em sua imaginação um meio para remover o obstáculo que ameaçava a felicidade de Linda.
Depois acudia-lhe de novo à lembrança a notícia que lhe dera Miguel da prisão do Bugre; e sua alma esquecia as próprias tribulações para afligir-se da mísera sorte daquele perverso, que tamanha dedicação tinha por ela.
Entretanto o Ribeiro, oculto no mato, observava os movimentos da menina e sorrateiramente aproximava-se por detrás, contando surpreende-la. Mas Zana alerta lhe percebera a intenção e também de esguelha avançava para defender Berta e esganar o assassino se não lhe mentissem os pulsos descarnados.
A cada passo que dava o Ribeiro de um lado, arrastava-se a mísera louca; e Berta, que era o alvo da convergência desses dois impulsos, continuava inteiramente alheia ao que se passava.
De repente, Zana ficou estática e imóvel; depois começou de tartamudear sons roucos e afinal soltou uma gargalhada estridente que ressoou pela mata, violentamente agitada neste momento.
Berta, sobressaltada, ergueu a cabeça.
A ENTREGA
Sabe-se por que preço obtivera Jão Fera o dinheiro necessário para desempenhar a palavra dada ao Barroso.
O Chico Tinguá, incumbido de negociar a entrega do capanga mediante cinqüenta mil réis, dirigiu-se à fazenda de Aguiar, e fez sua proposta ao fazendeiro.
Desconfiou este do caso, como era natural; mas estando ali um camarada, conhecido do Tinguá, que assegurou ser Jão Fera um homem capaz daquela façanha, decidiu-se Aguiar a dar a soma, curioso de ver o resultado.
- Aí tem o dinheiro. Mas, olhe lá, que, se o patife não vier, quem paga é você.
- Não tenha medo que ele falte.
Marcou-se o dia. O fazendeiro mandou chamar o Filipe com sua gente, e aumentou a capangada para receber a visita do Bugre.
Antes de partir quis Jão Fera despedir-se de Berta e com esse pensamento dirigiu-se para a casa de nhá Tudinha. Levava a alma a transbordar e carecia nesse instante supremo da eterna separação vaza-la no coração da menina.
Berta cosia, sentada em seu canto habitual, à sombra do oitão da casa. O Bugre avistou de longe e parou oculto pelas árvores para contempla-la com religiosa adoração.
Passando o primeiro enlevo, quando lembrou-se do pensamento que o trouxera, não se animou a dar um passo e aparecer à menina.
Pressentia o horror que deviam ter causado em Berta as mortes por ele perpetradas na noite de São João, e a abominação que desde aí lhe votava aquele coração puro e santo.
Se a menina soubesse da trama urdida pelo Barroso contra Luís Galvão, talvez lhe perdoasse tamanha atrocidade, cometida na ocasião de salvar uma existência tão querida para ela.
Mas a menina ignorava, e não seria ele decerto quem lhe havia de revelar o terrível segredo, confessando a sua vergonha de salvar o mais vil dos homens.
Não foi este, contudo, o mais poderoso dos motivos que lhe tolheram o impulso. Berta naturalmente lhe perguntaria a causa da sua estranha resolução de entregar-se à prisão; e seria necessário tudo revelar.
A idéia de que a menina se pudesse afligir por ter causado, embora involuntariamente, a sua perda, o assustava. Ignorasse ela sempre quanto custara o juramento que lhe dera, de poupar a vida de Luís Galvão; e não sondasse nunca os antros profundos dessa consciência onde rugia o desespero.
Fechou os olhos o Bugre para subtrair-se ao encanto da gentil menina, e, arrancando-se com esforço àquele sítio, sumiu-se no rumo de Campinas.
Eram quatro horas da tarde, quando um homem à pé e coberto de pó chegava à tronqueira da fazenda do Aguiar.
Da janela do sobrado, onde por um excesso de prudência se fora postar, avistou o Aguiar ao caminheiro, em quem os capangas, agrupados no pátio, já tinham reconhecido Jão Fera.
Ligeiro calafrio correu pela medula desses homens valentes e avezados ao perigo.
Abriu o Bugre descansadamente a tronqueira, e avançou com a costumada pachorra para o terreiro, como quem entrasse por sua casa. Aí chegando, saudou o fazendeiro e outras pessoas com um toque no chapéu.
- Tenham todos boa-tarde.
Tão surpresos ficaram os outros daquele sossego, que nem se lembraram de responder à saudação.
- Aqui estou eu, meus senhores, na forma do prometido, tornou o Bugre com um triste sorriso.
O Filipe trocou um olhar com o patrão e acenando à sua gente, avançou para o Bugre.
- Pois renda-se, homem, que é o melhor.
- Alto lá, camaradas! disse Jão Fera vendo os capangas se aproximarem com intenção de agarra-lo. Não se cheguem muito.
- Deixe-se de partes!
- Os senhores sabem se eu tenho palavra. Estou aqui por minha vontade; e do mesmo modo irei para onde quiserem. O ajuste foi entregar-me; e me entrego mesmo. Mas se algum me puser a mão, está tudo perdido.
Retraiu o Bugre o pé esquerdo; e os ombros agitaram-se com uma ligeira contração, enquanto nos olhos torvos fuzilava um relâmpago.
Os capangas hesitaram; e a um aceno do fazendeiro, que do sobrado assistia à cena, Filipe acomodou a coisa.
- Está bom, camaradas, não zanguemos o homem.
- Para onde me levam? É para Campinas? Pois vamos lá! disse Jão Fera.
- Não há pressa. O senhor pousa aqui e amanhã com a fresca da madrugada nos botamos para lá.
O Bugre fez um gesto que exprimira indiferença; e sentando-se no ressalto da calçada, que havia no terreiro, preparou um cigarro e começou a pitar.
Mas nenhum dos capangas se animou a aproximar-se. Através do ar negligente e absorto da fisionomia do Bugre pressentia-se a viva atenção, que exercia em torno uma vigilância incessante.
À noite o Filipe convidou Jão Fera para cear com os outros camaradas. Ele, porém, recusou, contentando-se com um trago de aguardente.
Seriam nove horas e estavam todos acomodados no rancho, que ficava à direita do sobrado, quando Filipe sorrateiramente ergueu-se e passou fala aos camaradas.
- Enquanto não amarrarmos o danado, não sossego!
Convieram os outros e às agachas se foram acercando de Jão Fera, para cair sobre ele e segura-lo.
O capanga que não dormia, como eles pensavam, recebeu-os de frente:
- Ah! Vocês querem brincar? Pois vá lá!
Com o arrojo e destreza que ele possuía no mais alto grau, e o multiplicava, lançou mão de uma estava do rancho e espancou a troça do Filipe.
Depois de os ter sovado em regra, quando ia já em retirada, ouvindo a voz do Aguiar a perguntar pelo que havia, gritou-lhe de longe:
- A sua gente rompeu o ajuste; minha palavra está livre. Passe bem; mas fique descansado que eu lhe darei o pago deste desaforo. Há de ver se é bom ser amarrado como um negro fugido!
Deixando a fazenda encaminhou-se Jão Fera para Santa Bárbara, donde saíra aquela manhã, cuidando que nunca mais voltaria àqueles lugares.
O desfecho da traição do Aguiar o entristecia, e dentro de sua alma lamentava não estar àquela hora preso na cadeia de Campinas, ou enterrado no rancho da fazenda, onde algum dos capangas podia tê-lo facilmente prostrado com um tiro de melhor pontaria.
Incutia-lhe esse pesar o profundo pavor que dele se apoderava, pensando no seu encontro com Berta, e na indignação que sua presença devia causar à menina.
Por vezes parou, hesitando se devia retroceder.
O CIPÓ
O fim da noite foi para Jão Fera um pesadelo horrível.
A todo instante fulgurava em sua alma, ao clarão de uma chama satânica, a cena atroz do assassinato de Besita.
Mais de cem vezes, no resto da noite, reviveu esse momento de acerba angústia, no qual toda sua existência submergia-se, como rio caudal pela estreita gorja de um precipício.
Revia com a mesma ânsia o vulto do Ribeiro, e sentia que após vinte anos ainda não cicatrizara em sua alma o golpe que a tinha dilacerado, quando foi ele, Jão, obrigado a rasga-la, ficando junto de Besita, e não perseguindo o assassino.
A voz da mísera mãe ressoava-lhe constantemente no íntimo, com aquele pungente grito de desespero: - "Minha filha, Jão!... Ele... matá-la...".
Revolvia-se o capanga na dura laje que lhe servia de leito; e tentava subtrair-se à obsessão, lembrando que não passava aquela visão de um desvario de seu espírito.
Mas surgia-lhe a imagem de Besita, que descia do céu para implorar-lhe a salvação da filha; e o capanga, impelido por força misteriosa, erguia-se de um ímpeto; e vagava à toa pelo ermo, à busca do ignoto perigo que ameaçava Berta.
Uma vez chegou a cerca da casa de nhá Tudinha para certificar-se de que nada ocorrera de extraordinário naquela habitação. Vendo-a tranqüila como de costume, tornou à furna e esperou que amanhecesse.
Às seis horas encaminhara-se para a tapera, onde esperava encontrar Berta. Batia-lhe o coração pensando na cólera da menina.
Chegado ao ponto da vereda, onde ficava o fojo minado pelo Brás, o capanga que desde o princípio descobrira a cilada e a desprezara, sorriu, percebendo as escarchas da terra gretada pela escavação interior.
Batendo com o pé de champa, abateu a estiva, que, desmoronando-se com a camada de barro superposta, rolou pelo barranco abaixo.
Ouviu-se um berro, e o idiota, que desde o romper do dia, acocorado no fundo do desfiladeiro, esperava o corpo do capanga para cair-lhe em cima, fugiu amedrontado, mas sobretudo furioso por lhe ter falhado o ardil armado com tamanha paciência.
Jão tinha gana ao idiota, e prometeu a si castiga-lo. Entretanto, saltou a fenda do despenhadeiro, como por segurança se habituara a fazer desde que descobrira a cilada, e aproximou-se da tapera.
Aí chegou o momento em que Zana via a descoberto o vulto do Ribeiro, assomando na orla do mato.
O grito que soltou a negra, repercutiu na alma do Bugre, como o eco de um som remoto, mas que estrugia ainda a seus ouvidos. O semblante fulvo da louca surgiu diante dele como a figura que tinha gravada dentro da alma, no sombrio painel da morte de Besita.
Seu olhar acompanhou a vista esvairada de Zana e encontrou-se com o espectro, que tantas vezes lhe aparecera durante a noite. A expressão viperina daquele rosto, ele a conhecia; era a máscara que tinha servido, vinte anos antes, na horrível tragédia.
Apoderou-se do capanga uma súbita convulsão. Tremiam-lhe os músculos, como as estipes da palmeira, açoitadas pelo temporal. Batiam os dentes; e a língua trêmula nem força tinha para balbuciar.
A possante organização parece romper-se aos embates de uma paixão imensa, que se quer precipitar do íntimo, e não acha válvula bastante por onde escape.
A semelhança do monte percutido pelo fogo subterrâneo, que lhe dilacerava as entranhas, o corpo robusto e atlético de Jão Fera brande, e vacila até que abra-se enfim uma cratera a esse ímpeto vulcânico.
Durou a crise espantosa todo o tempo que levou Ribeiro a aproximar-se de Berta. A cada passo do facínora, crispava-se o capanga, no afã de colher as forças; mas abatia sobre si, como ao próprio peso se acalca a massa bruta.
Quando, porém, o Ribeiro já estendia o braço para tocar a menina, tal repercussão ele sentiu, que pulou arremessado como uma pela, e chofrou o inimigo com o arremesso da águia quando arrebatada a presa.
Sufocando na boca do miserável o grito que lhe escapava, arrastou-o para o mais espesso da mata.
Foi este rumor que Berta ouvira de envolta com a gargalhada estridente de Zana, a qual por uma súbita lucidez reconhecera o capanga, e adivinhara nele o vingador de Besita e o salvador da filha.
Entretanto, Jão Fera, embrenhado na espessura, atirava ao chão o corpo do Ribeiro, quase desfalecido pelo terror e pela constrição formidável dos braços que o arrochavam.
O capanga sacara a faca da cinta, e com o golpe suspenso procurou sofregamente um lugar para ferir, mas de modo que reanimasse com a mais intensa dor, aquele corpo desmaiado sem contudo lhe tirar a vida, que ele queria conservar como um avaro, para sua vingança.
Ao cabo de um instante de hesitação arremessou de si a arma; arquejante aos arrancos daquela sanha. Agachando-se então como um tigre que prepara o salto, com os dentes rangidos e os lábios espumantes, se arremessou em cima do Ribeiro e tripudiou sobre o corpo em um frenesi de selvagem ferocidade.
Quem o visse dilacerando a vítima com as mãos transformadas em garras, pensaria que a fera de vulto humano ia devorar a presa e já palpitava com o prazer de trincar as carnes vivas do inimigo.
Soou perto um brando de horror.
Transido e estúpido, Jão Fera viu Berta fugindo espavorida daquele sítio, ao qual a guiara o Brás, por uma estulta malignidade. O idiota espreitar a cena anterior, e forjara no seu bestunto aquela vingança.
O furor de Jão Fera transportou-se do cadáver, que já não o podia cevar, ao monstrengo; na sua raiva o teria despedaçado, se este não corresse a abrigar-se sob a proteção de Berta.
A menina, alucinada pelo medonho espetáculo a que assistira, se tinha encostado ao tronco de uma árvore; e a grande custo conseguiu suster o corpinho trêmulo e vacilante.
Foram os gritos de Brás, colhido pela mão do Bugre, que a despertaram. Vendo o perigo iminente do mísero idiota, recobrou um assomo de sua energia e arrebatou a vítima às garras da fera.
Mais prostrada ainda por aquele novo e tão violento esforço, voltou a arrimar-se ao tronco, e ofegante, a desfalecer, abraçou-se com ele para não cair.
Ficara Jão Fera como chumbado ao chão, sem força para fugir, sem coragem para aproximar-se. Afinal, passo a passo, senão de arrasto, avançou:
- Nhazinha! balbuciou com a voz cava e submissa.
Voltou-se a menina em um soberbo assomo de ira:
- Vai embora! Não te quero mais ver! Tu és pior do que fera: és um demônio. Não há sangue que te farte!...
De cabeça baixa, o Bugre, rechaçado por aquele ímpeto de indignação, afastara-se dois passos; mas apenas desviou-se o olhar cintilante da menina, retrocedeu:
- Perdoe, Nhazinha!
- Vai embora! gritou Berta.
Brás, que se agachara aos pés da menina, soltou um grunhir de escárneo. Teve Jão Fera um ímpeto de revolta. Queria suplicar seu perdão.
- Não vou! disse rispidamente.
O talhe de Berta vibrou como uma seta brandida nos ares. Sua mãozinha delicada partiu rápida a haste de um cipó, e com essa vergasta fustigou o rosto de Jão Fera.
Duas lágrimas sulcaram as faces do facínora, e lavaram uma gota de sangue que aí borbulhava.
DESPEDIDA
Abriu-se a janela da alcova de Linda.
Assustada e inquieta a menina aproximava-se do parapeito, mas não se anima a debruçar. Com a face unida à ombreira, e o corpinho oculto pelo relevo do portal para que não a vejam dos lados do edifício, alonga o olhar ansioso pelas plantações.
Não tarda a hora do almoço.
É esse o momento em que D. Ermelinda costuma determinar o serviço doméstico. A menina aproveita-o para escapar à vigilância materna, que desde véspera de São João a acompanhava incessante como a própria sombra.
Grande alteração havia sofrido a família depois da festa. O interior da casa, que dantes respirava tão serena alegria, tornou-se triste e sombrio. Em vez da cordialidade que dantes ali reinava, nota-se o afastamento, que isola uns dos outros corações habituados à mútua efusão.
D. Ermelinda ainda recalcava no íntimo o segredo que a torturava. Por vezes tentara exprobrar a Galvão aquela mácula do passado; e no momento fugia-lhe o ânimo de que se revestira anteriormente. Uma explicação naquelas circunstâncias podia romper o vínculo que a prendia ao esposo. Temia, pois, rasgar o véu já tão ralo de uma ilusão em que ela ainda se embebia, para refugiar-se contra o desespero.
A inclinação de Linda por Miguel também a fortalecia no obstinado silêncio que persistia em guardar, apesar das insistências de Luís Galvão. Carecia do conselho do marido e da autoridade do pai, naquele árduo empenho de arrancar a filha a uma paixão funesta.
De seu lado, Luís Galvão não vivia menos contrariado e aborrecido. A causa da tristeza de D. Ermelinda não era para ele um mistério; embora a senhora se recusasse a declara-la, tinha ele perscrutado o segredo da súbita mudança.
Combinando certos pormenores, como os remoques dos camaradas junto à janela, na noite de São João; e lembrando-se que vira D. Ermelinda aproximar-se naquele instante, suspeitou do que havia acontecido; e as alusões que às vezes escapavam à senhora não deixavam a menor dúvida.
Imagine-se quanto não sofreu Luís Galvão, humilhado assim na estima da mulher, ele que sentia-se rebaixado ante a própria consciência, quando recordava aquela vergonha de sua mocidade!
Outrora, se lhe passara pela mente que sua mulher viria a conhecer aquele segredo, havia em sua alma um acerbo confrangimento. Por vezes, quis arredar para longe a Berta, cuja intimidade na casa pelas relações com nhá Tudinha, lhe avivava a cada instante a lembrança de Besita.
Mas Luís Galvão era desses homens que vivem muito à superfície d’alma, onde o contentamento do mundo, os prazeres efêmeros e as impressões do momento formam uma camada que sopita alguma reminiscência mais profunda.
Ao cabo de algum tempo, a presença de Berta já não lhe despertava nenhuma triste recordação; ao contrário, produzia nele uma doce emoção. O aspecto dessa gentil menina, retrato vivo de sua mãe, refloria para ele as rosas da sua mocidade.
Toda a tristeza de seu amor por Besita ficava no fundo d’alma como um sentimento, e só flutuava a suave fragrância daquele afeto da juventude.
Às vezes, contudo, pensando no futuro daquela menina, um remorso o pungia; bradava-lhe a consciência que um meio ainda lhe restava, um único, de expiar seu crime: era resgatar o abandono da mãe pelo amor da filha.
Em véspera de partir para Campinas, impressionado um momento com os pressentimentos de D. Ermelinda a propósito de tocaias, escreveu ele seu testamento reconhecendo Berta. Fora esse o papel esquecido, à cata do qual voltou a pretexto de amostrar, levando-o consigo para faze-lo aprovar por um tabelião.
Essa resolução serenara de todo seu ânimo; e o remordimento que às vezes o confrangia de todo aplacar-se quando sobreveio a ocorrência da noite de São João perturbar, não somente o sossego de seu espírito, como a calma felicidade de sua mulher.
Nestas circunstâncias reconhecia Luís Galvão que só havia um meio de resolver a crise: era confessar o fato à sua mulher, franca e lealmente; mostrar-se a ela qual fora, e reconquistar a sua estima pela sinceridade dessa confissão, que exprimia o seu arrependimento.
Mas também ele hesitava no momento de provocar a declaração; e retraía-se vivamente, receoso de que essa revelação cavasse entre a mulher e ele o abismo da separação eterna.
Assim ansiavam por uma explicação, que os aterrava a ambos; e por isso evitavam-se, temendo que uma palavra escapa os arrastasse ao precipício onde podia se despenhar a paz e a ventura de sua mútua existência.
A estes motivos de mágoa e desgostos acrescia a lúgubre impressão, que tinham deixado o incêndio do canavial e as atrocidades de Jão Fera.
Todos o acusavam, exceto Luís Galvão, que lhe devia a existência; mas calava-se a respeito dos sucessos da noite fatal.
Nestas circunstâncias lembrara-se Luís Galvão de propor à mulher uma viagem à corte; e ela aceitara com fervor a idéia. Deixar as Palmas era um meio de escapar à tirania das pungentes recordações, e de afastar Linda de Miguel.
Ouvindo na véspera à noite o anúncio da viagem, a moça, cujo coração pressentia a oposição da mãe à sua escolha, compreendeu toda a extensão de seu infortúnio.
Ansiosa, pois, esperava Miguel, que havia uma semana, depois de São João, furtivamente vinha todas as manhãs até à cerca da horta para vê-la por entre as árvores.
Nessa manhã, avistando-o de longe, Linda correu ao quintal, e trêmula aproximou-se da cerca, além da qual se ocultava o moço. Ali, defronte, um do outro, os dois amantes não se animavam a quebrar o silêncio, nem mesmo a se olhar.
- Linda!... murmurou o moço afinal.
- O senhor não sabe? interrompeu a voz trêmula da menina. Vamos para o Rio de Janeiro.
- A senhora?... exclamou o rapaz sucumbido.
Linda soltou uma exclamação de susto. D. Ermelinda, vendo a filha passar, a acompanhara e surpreendera os dois amantes.
Não se irritou a senhora, que viu a aflição pintada no rosto da filha.
Ao contrário, abraçando-a com ternura, chamou a Miguel, o qual procurava esconder-se à sua vista. Aproximou-se o moço, pálido e confuso, para ouvir estas palavras pronunciadas com um tom de meiga severidade:
- Diga adeus a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela não pode pertencer-lhe!...
O moço abraçou Linda e partiu soluçando. A menina escondeu o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os olhos.
O CONGO
A cidade da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina que se enleva à margem do rio.
No centro, e sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por bons edifícios, entre os quais a veneração do povo aponta, como relíquia histórica, a vasta casa que foi de Costa Carvalho, o ilustre marquês de Monte-Alegre.
Fronteira à matriz, modesta igreja de uma torre, está a casa da câmara, construída ao uso antigo, com seu campanário no meio e as enxovias ao rés do chão, inteiramente isolada dos outros edifícios.
Era domingo; e havia na vila reboliço de festa.
Pelas ruas, de ordinário soturnas e ermas, passavam ranchos de gente a pé e grupos de cavaleiros que acudiam à função. Às vezes era algum carro de bois, coberto com esteiras e atopetado de moças, crias e mucamas, que atroava os ares com o chio estridente.
Pouco mais de nove horas havia de ser. Uma canoa acabava de abicar à ribeira junto à ponte, e dela saltavam nhá Tudinha, Berta e Miguel, que também vinham atraídos pela festa.
O rancho subiu ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido, investigava com um olhar de desânimo as janelas das casas. Berta a furto observava-o com uma expressão de terno ressentimento.
No trato dos dois moços entre si havia agora um certo constrangimento. Miguel acusado severamente pela própria consciência de ter mentido a seu primeiro amor e talvez que ligado ainda por esse elo que de todo não se rompera, fugia de conversar com Berta.
Na melancolia da menina e nos quebros de seus olhos negros, parecia-lhe sentir um ressumbro de meiga exprobração, que infiltrava-se dentro d’alma e somente exalava nalgum momento de cisma ou descuido.
Por isso, Berta evitava também a companhia do moço, receosa de trair a mágoa de seu coração. Bem desejava ela consolar Miguel, a quem D. Ermelinda cortara em flor a esperança de sua vida; mas temia que lhe escapasse nessa efusão o segredo de sua melancolia.
Nhá Tudinha, sempre contente e prazenteira, não desmentia a sua habitual agilidade. Caminhava adiante, garrulando sem cessar e voltando-se a cada instante para chamar a atenção dos dois moços a propósito de suas observações.
Atravessando o largo da matriz, os olhos de Berta, volvendo a esmo, caíram sobre a fisionomia de Jão Fera. Sobressaltou-se a menina, e seu primeiro movimento foi acenar ligeiramente com a mão, chamando o capanga.
Depois do castigo que em um ímpeto de indignação lhe infligira, nunca mais Berta vira o Bugre, que desaparecera de Santa Bárbara. Passados alguns dias e desvanecida a impressão da cena medonha a que assistira, sua alma embebeu-se dos eflúvios da piedade; e ela tinha dó quando lembrava-se da humildade com que Jão Fera sofrera uma punição tão cruel para seus brios.
Vendo ao capanga depois de tantos dias, cedeu, no primeiro assomo, a um impulso de bondade chamou-o. Porém logo apercebeu-se de seu equívoco. O rosto de Jão Fera lhe aparecera, mas por entre os varões de ferro da enxovia, em que a princípio não reparou.
Acabrunhado pelo desprezo da menina, sentindo que se tornara para ela objeto de asco e horror, o facínora veio a Piracicaba e entregou-se à prisão. Desde o dia da morte do Ribeiro, estava ele encarcerado na cadeia da vila.
Compenetrando-se da realidade e reconhecendo a impossibilidade em que estava Jão Fera de acudir a seu chamado, e o perigo que o ameaçava, curvou a menina a fronte com um gesto de mágoa e resignação.
Foi rápido este incidente e ocorreu durante o trajeto da família pela face lateral da cadeia até a próxima rua cuja esquina dobrou.
Nas horas mais quentes do dia amainou o rumor da festa para recrudescer ao cair da tarde, quando todas as janelas se atufaram de moças e a massa do povo se apinhou pelos cantos das ruas.
Ao repique de sinos e estrondo dos rojões, desfilava pelo largo da matriz a luzida cavalgada do Congo, precedida por um terno de rabecas e flautas, que compunham a banda de música.
Adiante vinham o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente ajaezados e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros e damas da corte, que não ficavam somenos aos soberanos do imaginário reino africano.
Fazia de rainha Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança; e todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas.
O luxo que ostentavam fora pago, parte com as suas economias, e parte com dádivas dos senhores, cuja vaidade se personificava nos próprios escravos. Cada um desses ricos fazendeiros se desvanecia da admiração que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente seus pajens, e pelos soberbos cavalos fogosos que eles meneavam com certo donaire.
No meio das figuras, vestidas à antiga e de fantasia, saltavam outras, cobertas ou antes eriçadas da cabeça aos pés com os molhos de um capim duro e híspido. Agitado pelo contínuo movimento, produzia essa croça verde um vivo sussurro, ao qual respondiam os chocalhos de latas e as cabaças, que tangiam os pretos assim mascarados.
Esse resquício dos folgares e danças dos índios caiapós dava à festa africana uns ressaibos americanos, que faziam inteiro contraste com as galas e louçanias emprestadas pela moda européia, ou pelos usos do Oriente.
De ordinário costumam as pretas fazer a sua folgança do Congo nas proximidades do Natal; mas nesse ano não a tinha podido aprontar para aquele tempo.
Quando passava a cavalgada pela casa onde estava a família de Luís Galvão, Rosa mordeu-se de inveja ao avistar Florência, repimpada no melhor cavalo de D. Ermelinda, com a trunfa riçada, um diadema na testa, e o régio manto escarlate roçagante pela anca do lindo ginete.
Nesse instante lamentou ser mucama, condição que a sujeitava a certo recato, e a privava, portanto, de tomar parte no folguedo. Como preta da roça teria outra liberdade; e ninguém lhe disputaria por seguro o título de rainha.
Linda, que via distraidamente passar a cavalgada, de repente estremeceu. Descobrira defronte, na calçada, Miguel ao lado de Berta; e o ciúme lhe mordeu o coração. A amiga, apesar do afastamento a que a obrigava a severidade de D. Ermelinda, lhe fizera um gesto de adeus; mas ela voltou o rosto para não corresponder àquela mostra de amizade.
Compreendeu Berta o que sentia Linda; e insensivelmente arredou-se do moço.
CONFISSÃO
Afonso, apenas avistou Berta, afastou-se da janela onde estava com a família, esgueirou-se por entre a multidão.
- Berta!... psiu!... disse ele chegando-se à menina.
- Olha D. Ermelinda!
- Ela não me enxerga, retorquiu o rapaz escondendo-se atrás de uma pinha de gente.
- Não tem medo?... E se ela ralhar com você? acudiu Berta atirando-lhe um remoque.
- Então sou alguma criança! disse o rapaz ferido nos brios, e realçando a estatura para afirmar sua hombridade.
- Mas não é capaz de fazer uma coisa contra a vontade de sua mãe! redargüiu Berta com o mesmo chasco, para excitar o amor próprio do camarada.
- Pois eu lhe mostro! respondeu Afonso com ar decidido, e adiantou-se para afrontar as vistas de D. Ermelinda.
Sorriu Inhá, que voltando-se para o moço, ocupou-se em travessear com ele, como outrora costumava.
Não tinha outro modo senão este de apagar no espírito de Linda o ciúme que a traspassara.
- Como está Linda? perguntou a menina depois de algum tempo consumindo em gracejos. Ainda se lembra de Miguel?
- Não sei!... respondeu Afonso constrangido.
- Teve ordem!... acudiu Inhá assistindo no remoque anterior.
- Não vê como anda triste!
- Então ela sempre quer bem a Miguel?
- Sempre!
- Preciso falar com ela! Como há de ser?
Nesse instante um caiapó de alto porte e compleição robusta, separado do bando que já ia longe de envolta com a cavalgata, atravessando a rua, parou defronte dos dois moços e afincou-se a observa-los.
De repente saltou em frente de Afonso e ouviram-se estas palavras, que rompiam da croça espessa, como da brenha escapa o rugido da fera:
- Teu pai matou a mãe dela; tu queres matar a filha; é duas vezes!
Desde alguns momentos o olhar de Luís Galvão descobrira da janela fronteira o filho a falar com Berta, e não se arredara mais do grupo. Aquele quadro brilhante da juventude, borrifado com os sorrisos de alegria e perfumado com as fagueiras primícias do coração, despertavam nele reminiscências tão suaves, dormidas no fundo da lama!
Lembrava-se das festas de outrora, quando era moço como o filho, e ali, na mesma vila de Piracicaba, tantas vezes escapulia da família para seguir o rancho de moças onde ia Besita, e à surrelfa apertar-lhe a mão, ou trocar uma palavra balbuciada a medo.
Para mais avivar as cores a essa tela da mocidade, que os anos tinham desbotado, ressurgiam aí diante de seus olhos as próprias figuras do gracioso painel; ele retratado na pessoa de Afonso; ela, revivendo na gentileza de Berta.
A D. Ermelinda não escapara essa distração; acompanhando a direção do olhar e reparando na expressão de ternura e enlevo que se derramava na fisionomia do marido, sobressaltou-a nova e mais cruel suspeita. À infidelidade do passado acrescentaria Luís Galvão a perfídia no presente?
Não teve tempo a desolada senhora de sondar esse novo abismo de dor que se rasgava em sua alma, já tão atribulada.
Mal lançara a Afonso o dito misterioso que lhe prorrompeu dos lábios, o caiapó travando com irresistível impulso do braço do moço, arrancou-o do lugar onde estava e trouxe-o até junto da janela de D. Ermelinda.
Aí, afrontando-se com Luís Galvão, apontou para o filho, e proferiu estas palavras, obscuras como as outras:
- Teu sangue mau quer matar teu sangue bom! Toma cautela!...
Com pasmosa rapidez passara essa cena estranha. Ainda não se desvanecera o espanto por ela causado nos assistentes, que já o caiapó havia desaparecido entre a multidão, sem que fosse possível indicar por onde se fora.
Ao mesmo tempo soava grande rumor na praça da matriz; e magotes de povo a correr pelas ruas deixavam entre o vozeio soturno da turba estas vozes repassadas de pânico terror, que retalhavam o borborinho como correntes vivas a sulcarem um brejo:
- Arrombada a cadeia!...