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TIL

José de Alencar

O que vira ela?

Não pudera a menina atinar ainda, nem com a explicação desse terror, nem com o resto da história, que de mais se complicava.

No meio do súbito pavor, cobrava Zana a vontade, estendia os braços crispados, parecia tomar um objeto que apertava ao seio convulso, como se quisesse esconder ou sufocar; e atirava-se fora do aposento com um ímpeto de horror que a levava até um cubículo da cozinha, onde fazia sua dormida.

Dir-se-ia que deitava o fardo no chão e corria ao fogão para tirar dali alguma coisa, que depois de moída espalhava nas palmas das mãos para ir esfregar o objeto escondido no cubículo.

Saía então ao terreiro, e passeava de um a outro lado com os modos de uma ama, ninando criancinha de colo. Era nessa ocasião que, balançando o corpo, com os braços arredondados ao peito, ela entoava a monótona cantiga, que Berta conseguira decifrar.

De repente transmudava-se completamente a doida, passando daquela extrema volubilidade a uma apatia balorda. Parecia fazer-se um vácuo em suas reminiscências, que fugiam-lhe deixando a alma sepultada se intrumescia com a expressão do idiotismo.

Nesse estado de estupor, vagava a passos trôpegos pela casa, até que parava automaticamente na porta da alcova e estendia o pescoço para dentro. Devia de ser de ser horrível o espetáculo que ali surgira a seus olhos, porque depois de tantos anos, a só imagem a fulminava.

Erguia-se-lhe o corpo hirto; um grito de terror estalava no peito e vinha estrangular-se nas fauces. Volvia sobre si; e tombava ao chão, como uma pedra.

XIX

O DESCONHECIDO

Tal era o esboço grosseiro do misterioso drama, que ali se representara e do qual Berta debalde se empenhava em devassar o segredo.

Mais estimulava a sua curiosidade o cuidado com que em criança a tinham arredado da casa em ruínas, já inspirando-lhe um terror supersticioso da louca, já recomendando-lhe que nunca se dirigisse para aquela banda.

Também quando a menina queria saber a história de Zana e a razão por que a negra doida ali vivia abandonada numa casa em ruínas, que devia ter pertencido a pessoa abastada, ninguém lhe respondia; mas procuravam uma evasiva para não falar sobre tal assunto.

Tudo isto, longe de arredar a menina daquele sítio, bem ao contrário desenvolvia nela uma dessas tentações de criança que não conhecem obstáculos. A pouco e pouco, de susto em susto, animou-se ao cabo de muitas semanas a aproximar-se das ruínas e observar Zana em distância, até que afinal se convenceu que era uma criatura inofensiva a mísera doida.

Já tinha então Berta seus quinze anos, e com a afoiteza da idade também ganhara mais largueza e desenvoltura da ação para sair de casa e demorar-se fora sem inspirar cuidados.

Berta passava por enjeitada e ela o sabia, pois nunca lho ocultavam. Fora a mãe de Miguel, nhá Tudinha, quem a recolhera e criara com o maior desvelo. Na casa, porém, onde se achava emprestada e por comiseração, era ela a verdadeira senhora, pois que os donos se faziam cativos seus e porfiavam em adivinhar-lhe as vontades para satisfazê-las.

Sem dúvida que nhá Tudinha queria mais bem ao filho de suas entranhas; mas não tinha para ele os extremos, as debilidades e carinhos, que fazia por essa filha de criação, a enjeitadinha. De seu lado, Miguel, embora se estremecesse pela mãe, decerto que pensava mais em Berta, sua colaça.

Sentindo a sedução que exercia em torno de si, não abusava todavia a menina, transformando-se em uma pequena tirania doméstica, à imitação de certas crianças dengosas. A não ser para conservar a liberdade, a que a habituara uma educação campestre, no mais esquivava-se quanto podia ao império que lhe deferiam os súditos de sua graça e gentileza.

Assim explica-se como podia Berta passar horas e horas nas ruínas, observando Zana e esforçando por desvendar o mistério dessa louca solitária, que ali vivia ao desamparo, completamente esquecida e nutrindo-se de terra de raízes cruas, antes que a menina se incumbisse da tarefa de prover a sua subsistência.

No dia em que estamos não acabou Zana a pantomima de sua visão diária.

Quando se aproximava pé ante pé da janela da alcova, em atitude de quem espreita, os olhos da negra esbarraram com os de um homem. Era o Barroso que assomara de dentro do mato, pouco antes, e dirigiu-se passo a passo para as ruínas.

Estremeceu a doida, e tão violenta foi a propulsão, que a fez saltar sobre si. Com os olhos esbugalhados, a boca escancarada e os beiços arregaçados, ficou banza um instante; mas logo, espancada pelo terror, precipitou-se para fora tão desastradamente que errou a porta e bateu em cheio na taipa.

De novo arremeteu, e rechaçada pelo choque, andou aos embates contra a parede, até que acertando com o vão da porta fugiu estremunhada de pavor.

Advertida pelo primeiro sintoma de estupefação da louca, Berta seguindo-lhe a direção do olhar, avistara também o Barroso, que nesse momento parado em face da janela, a alguns passos apenas, a encarava com uma expressão de profundo rancor.

Teve medo a menina, e recuou instintivamente. Estava acostumada a correr só os campos vizinhos, onde freqüentemente encontrava caipiras e toda a casta de gente malfazeja, de quem aliás nunca se receara. Esse homem, porém, inspirava-lhe uma indefinível repugnância e terror.

Esteve Barroso a considerá-la alguns instantes, com ar de quem se resolve. Por fim, mascando um riso mau, que revia-lhe dos lábios, afastou-se murmurando:

- Eu hei de saber! Ah! se fosse!...

Com a partida do desconhecido, recuperou Berta a calma de espírito e volvia os olhos pela sala procurando Zana, que vira fugir, quando lhe feriram o ouvido gritos esganidos e sufocados, que vinham do terreiro.

Precipitando-se da alcova, a preta viera até o terreiro da cozinha, onde, faltando-lhe as forças, abateu-se como um fardo a que retiram o apoio.

Imediatamente de dentro do balseiro saltou com o arremesso de um gato do mato uma estranha criatura cuja roupa de grosso brim escorria para a ilusão. Acocorando-se em cima do corpo inerte da louca, apertava-lhe ao pescoço as mãos crispadas, procurando esganá-la, enquanto com os pés e os joelhos malhava-lhe o ventre.

Foi esta cena cruel que Berta viu de relance ao chegar à porta da cozinha, chamada pelos gritos. Arrojando-se do mesmo ímpeto ao terreiro, seus lábios lançaram com um tom de severa exprobração o nome do perverso, que espancava tão barbaramente uma criatura inofensiva.

- Brás!

Não se animou o rapaz a erguer a cabeça, tão acabrunhado ficara, e tão corrido de sua barbaridade. Naquele instante não havia forças para obrigá-lo a fitar o semblante de Berta, e afrontar a cólera de seu olhar.

Agachado, como se quisera sumir-se pela terra a dentro, fugira ele antes que a menina chegasse para tirar-lhe a preta das garras; e foi esconder-se por detrás de um marachão da taipa, que esboroara da parede do outão.

Cuidou Berta de levantar a cabeça da doida, na esperança de reanimá-la, o que só conseguiu depois de muito tempo. Quando a preta se pode erguer, ajudou-a ela a ganhar o cubículo, onde à noite se agasalhava a infeliz. Havia tempo que trouxera a menina uma esteira, sobre a qual a acomodou, prometendo a si mesma voltar logo mais com aguardente e pano para deitar sobre a contusão que tinham deixado as mãos de Brás.

Este continuava agachado por trás do medão de taipa; espiando à sorrelfa os movimentos de Berta, quedava-se com a humildade do rafeiro quando espera que a mão do senhor o fustigue pela falta cometida. Ao rumor dos passos da menina, que vinha de seu lado, encolheu-se ainda mais; parecia concentrar-se todo para o transe difícil.

Trazia Berta no olhar uma profunda repulsão, e o lábio frisado por um assomo de cólera. A perversidade do rapaz contra a mísera doida a revoltara dolorosamente a ponto de esquecer que também esse ato cruel era de um espírito enfermo, e quem sabe se mais digno de lástima.

Parou ela em face do culpado, perplexa, hesitando por ventura no castigo que devia infligir-lhe. Por fim deixou cair dos lábios um sorriso de desprezo e afastou-se rapidamente.

Esperava o rapaz uma severa repreensão. Este desprezo e repentino abandono, o trespassaram de dor. Quis levantar-se para correr após a menina, e as pernas lhe fugiram. Voltando-se ao rugido que ele soltara, o viu Berta de joelhos, estorcendo as mãos súplices e esforçando arrancar das fauces uma palavra que o sufocava.

- Não! disse a menina.

Esta palavra fulminou Brás, que estrebuchou no chão, estorcendo-se em uma convulsão medonha, que dobrou-lhe o corpo hirto, como se fosse uma verga de chumbo. Espumava-lhe a boca, e os dentes rangiam com horríveis contrações, que deformavam-lhe o semblante.

Vencida pela compaixão dessa agonia, Berta correu a ele; e sentada sobre a relva, o tomou ao colo para amimá-lo como o faria a uma criança, acalentando-a com meiguices e carinhos.

XX

A POUSADA

Quem transitava pela estrada de Campinas via, meia légua antes de Santa Bárbara, dois casebres unidos por uma espécie de rancho ou telheiro.

Um dos edifícios era bem velho, o outro novo, porém ambos de grosseira fábrica, sem reboco nas paredes mal emboçadas, que mostravam entre os torrões de barro as varas atadas com cipó aos frechais. O chão despido de ladrilho, ou qualquer espécie de soalho, estava cheio de buracos e poças; de pintura não havia traços, nem mesmo de uma simples caiação.

Na extremidade da casa velha, as duas portas abriam para uma espécie de taberna, a julgar pelo balcão de pau que dividia o aposento a meio, e por duas ou três ordens de prateleiras, onde se viam alguns rolos de fumo em corda, rapaduras envolvidas com palha de milho, e uma dúzia de garrafas arrumadas em fila.

Da venda passava-se por uma porta lateral para o aposento próximo que, em sendo preciso, servia de pousada.

Era uma quadra de tamanho regular, Ao centro da parede interna encostava-se uma tosca mesa, ladeada em todo o comprimento por um só banco estreito. Em cada canto havia uma cama, cuja barra era feita de tiras de couro cru entretecidas a modo de esteira.

Era já sol fora.

Abrira-se de pouco a taberna, que parecia deserta, como todo o resto da habitação. Ao menos quem passava na estrada, acertando de enfiar os olhos pela porta, não via no meio da silenciosa imobilidade do interior outro sinal de vida a não ser o vôo das moscas pousando sobre o balcão para sugarem o mel de umas farpas de rapadura, que ali tinham deixado os viajantes da véspera.

Não era, porém, tão absoluta como parecia, nela a solidão.

Na venda, por trás de uma quartola, arrumado em cima do balcão e de bruços neste, cochilava um sujeito com a cabeça posta sobre os dois braços cruzados em cima da tábua. Quando algum tropel soava na estrada, levantava ele a meio a testa, e enfrestava pela aberta que havia entre a parede e o bojo da quartola uma vista encadeada pela claridade. Passado que fosse o viajante, voltava à contínua modorra.

Ainda moço e robusto, derramava-se não obstante no físico desse homem certo ar de indolência, que nesse momento mais se carregava com a sonolenta expressão do rosto seco, pálido, baço, e levemente sombreado por alguns raros fios de barba. O cunho especial dessas feições, e particularmente o viés dos olhos com os cantos alçados para as têmporas, revelavam o cruzamento do sangue americano com a casta boêmia.

Do lado oposto da habitação, em um compartimento, que tinha jeito de varanda, cozinha e pátio de criação, tudo ao mesmo tempo, fervia a panela posta em uma trempe de pedra no meio do chão. O fogo, apenas alimentado por gravetos, mal cozia o feijão e couves, destinados ao sustento daquele dia.

Fronteira à janela, sentada ao chão, com os joelhos levantados e os braços caídos sobre eles, estava uma rapariga de seus vinte e cinco anos, que parecia muito e muito ocupada em observar a fervura da panela; pois não tirava dela os olhos, nem fazia outra coisa. Perto dela jaziam, espalhados pelo chão, ou dentro de uma gamela, vários pratos brancos de beira azul, uma tigela igual e algumas colheres de estanho.

Diferentes vezes já, a rapariga lançara um olhar de enfado para a louça ainda suja do serviço da véspera, e alongava depois a vista pela porta afora até lá embaixo no brejal, onde passava o rego da água, e media a distância a percorrer. Abria então a boca em um interminável bocejo, espreguiçava o lombo estirando os braços; e, quando parecia levantar-se para cuidar na lavagem dos pratos, achatava-se ainda mais no chão, murmurando:

Tem tempo!

Ouvindo o estrumpido de animal na estrada, ergueu o sujeito a cabeça para olhar pela fresta; e seu rosto debuxou, através da sorna habitual, um gesto de aborrimento e agastadura, produzido pela vista do viajante que se aproximava.

Era este homem de trinta anos, de tão alto e esguio talhe que se curvava ao peso de uma cabeça enorme e guedelhuda, ou talvez pelo hábito de cavalgar derreado à banda, como usam os caipiras. Sua fisionomia grosseira nada tinha de notável, a não ser a malha que lhe marchetava de nódoas brancas a tez acobreada, bem como as costas das mãos.

Vestia um pala em bom uso, sobre fina camisa de morim e calça de brim de listra. O chapéu era novo e de meio castor; as botas de couro de veado com chilenas de prata. Trazia no arção da sela uma espingarda de dois canos, e na cinta uma garrucha.

Parando a mula à entra da venda, o cavaleiro bateu com o cabo de rebenque na porta, gritando:

- Oh! de casa!... Ainda se dorme por aqui, nhô Chico?... Querem ver que o diabo do Tinguá está mesmo ferrado na soneira?... Foi volta de samba esta noite, e samba grosso que deu de si até a madrugada. Não tem dúvida! Oh! lá de dentro! basta de dormir! Já deve estar bem cozida a camueca!

Desenganado de que não se ia o importuno, resolveu-se afinal o sujeito da venda a fingir que despertava da sonata; e, estorcendo-se em um ruidoso bocejo, estirou a cabeça por fora do bojo da quartola.

- Quem é?... Ah! nhô Gonçalo!

- Ora, bem aparecido!... Parece que por cá anoiteceu de madrugada!...

- Não sei o que é; mas ando com uma canseira agora. Tenho cismado que seja dureza. Levo só a dormir!...

No rosto do Chico nem vestígios restavam mais da expressão aborrida que provocara a presença do Gonçalo. Ao contrário, com o riso postiço e a oficiosidade própria dos estalajadeiros, que sabem seu ofício, se erguera para falar ao freguês; e, apenas o viu apear, preparou-se para acudir pressuroso a seu serviço.

Neste ponto fazia o dono da taberna uma exceção à habitual indiferença com que de ordinário via chegarem à sua casa, e nela posarem, viajantes de posição muito superior à do Gonçalo. Haveria por ventura a respeito deste alguma razão particular.

- Bebe-se café por aqui, ou não se usa?

- Sempre há de se arranjar!

- Pois então vamos a isto; enquanto descanso um tantinho. Aqui onde vê este degas, já desanquei uma capangada! Quiseram se meter de gorra!...

- Nhanica!... bradou o Chico para dentro. Coa um bocado de café!

Ergueu-se então a rapariga e sem espreguiçar-se; tirou da trempe a panela de feijão para deitar o boião d’água; e arranjando o saco, onde ainda estava o polme da véspera, que servia para dois dias, correu a buscar água para lavar a louça.

Entretanto o Gonçalo, derreado sobre o balcão, chalrava com o Chico sobre o que vinha a pelo:

- E o Bugre, como vai? perguntou de repente o Gonçalo.

- Eu lá sei, homem! Anda pelos matos, enquanto não dão cabo dele, que não tarda muito!...

- Então acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonçalo com um alvoroto de prazer, que mal disfarçou.

- É o mais certo! Dizem que estão lhe pondo o cerco.

- Ora, isso há muito tempo!

- Mas um dia chega a caipora.

- Como? Se ninguém sabe onde ele vive?...

- Lá isso é verdade! ninguém!

- Pois eu cá não me escondo! Quem quiser que venha!

De costas para o interior da venda, o Gonçalo, embora olhasse para fora, espreitava de soslaio o Tinguá, que nesse momento, debruçado sobre o tampo do balcão, onde fincava os cotovelos, parecia inteiramente absorvido em examinar as ferraduras da mula.

- Um dos cravos da mão está bambo! disse ele apontando para o casco do animal.

- É mesmo! tornou Gonçalo, que levantara a pata da mula. Pincha-me cá o martelo.

Nesse instante, no topo do caminho que descia à esquerda pela rampa de uma colina, apareceu uma troça de caipiras. Vinham a pé, com as espingardas ao ombro; e diante deles trotavam a cruzar o caminho e farejar as moitas, dois cães de caça.

XXI

O BACORINHO

No inverno costumam passar por aquelas paragens ranchos de caçadores que demandam o sertão para a montearia das antas e veados que ainda abundam nos campos de Araraquara e Botucatu.

Parecia uma dessas partidas de caça, o magote de caipiras que parou fronteiro à venda, e para lá encaminhou-se depois de combinarem entre si os companheiros.

Um deles, que parecia ter sobre os camaradas tal ou qual preeminência, adiantou-se enquanto os outros atravessavam muito vagarosamente a testada da casa.

- Viva, patrício! Queremos arranchar aqui para almoçar!

- Pois sim! respondeu o Tinguá com a sua voz sorneira sem mexer-se do balcão onde continuava debruçado.

Habituados certamente a esse modo de acolhimento, os caipiras foram por si tomando conta da casa e aboletando-se na pousada. Uns se estiravam nas camas, e outros já sentados no banco junto à mesa esperavam o almoço com uma fome de caçador.

- Sô Filipe, venha alguma coisa que se masque, para despregar a barriga do espinhaço! exclamou um dos companheiros.

- E também que se chupite, para untar os gorgomilhos, e consolar o peito! acudiu outro.

- Aí vem, camaradas, não se assustem! retorquiu Filipe.

Dirigindo-se ao balcão, pesquisou ele com os olhos nas prateleiras e por todo o âmbito da taberna, o que havia para matar a fome: e sempre arranjou-se com um velho queijo de Minas, algumas rapaduras e farinha de milho.

- Pode nos das café? perguntou ao Chico.

- Há de se poder! tornou o vendeiro.

Rodearam os caipiras a mesa e devoraram as provisões, depois de terem molhado a garganta com um copázio de boa cachaça de Piracicaba, a fim de escorregar-lhes bem o bocado, e não os engasgar.

Na extremidade oposta, tomava o Gonçalo seu café, observando os caçadores com a curiosidade natural à vida monótona do interior, mas também com um recacho de arrogante fatuidade. Sem dúvida tinha-se ele por um grande personagem, incógnito àqueles pobres diabos.

- Isso há de ser tarde já! disse olhando céu.

Era um pretexto para travar a conversa; mas os outros com a boca cheia não estavam dispostos à palestra. Apenas o Filipe correspondeu com um meneio de cabeça.

Virou o Gonçalo a palangana de café e acendeu o pito.

- É servido? perguntou oferecendo fogo ao caipira.

- Nada, obrigado.

- Ainda que mal pergunte, o patrício vem de longe?

- De Campinas!

- E anda caçando? Por estas bandas há muito veado e paca: mas como os caititus este ano, nunca se viu: é mesmo uma praga!

- Nós cá andamos no rasto, mas é de outra caça! atalhou um dos caipiras a rir.

- Viemos desencovar uma onça! acudiu outro.

- E é suçuarana!

- Qual! Tigre verdadeiro!

Fizeram coro os caipiras na gargalhada que despertara o dito do companheiro. Não compreendendo a pilhéria, o Gonçalo estava a olhá-los meio desconfiado e com um riso insosso.

- O patrício não lobriga?

- Por vida, que não! tornou o Gonçalo. Ainda que Suçuarana é o sobrenome cá do degas; por causa de ser malhado como a bicha. Não vê?...

E mostrou as manchas da cara.

- Sem falar da munheca!... Talvez o amigo não acredite; mas onde a vê, já pegou queda de braço com uma; e mais era um bichão da altura daquela porta, sem exageração! Agora quanto às risadas dos patrícios, a falar verdade não avento!

- Já vê que é caça gorda.

- É cá uma história!

- Por força que há de conhecer um tal Jão Bugre?

- Conheço bem!

- Pois aí está a bicha fera que viemos desencovar. Parece que a furna dele fica por aqui perto. Não podia nos dar notícia?

- Mas então os camaradas andam-lhe na pista?

Entrava o Chico Tinguá, com a pichorra de café e as palanganas que deitou sobre a mesa, recostando-se depois ao portal da entrada, com a perna trançada e a mão no quadril.

- Não ouviu falar no Aguiar, do Limoeiro, não?... Um fazendeiro, que o tal Bugre arrumou com duas facadas, há de andar por uns dois meses?

- Tenho uma idéia, replicou o Gonçalo.

- O negócio deu brado, porque o homem era rico e andava sempre com uma ruma de capangas. Mas Bugre fez-lhe as contas.

- É um temível!

- Marcado como ele só!

- Nem por isso! observou o Pinta. Mas então é por causa dessa morte que os camaradas vêm prendê-lo?

- O filho do Aguiar dá dois contos a quem filiar o meco.

- Não digo que não!

- Se quer entrar na festa?

Relanceando um olhar ao Tinguá, que parecia cochilar encostado à ombreira da porta, respondeu o Gonçalo com frouxidão:

- Nada; tenho obra mais fina.

- Quem sabe se o senhor conhece o Bugre?

-Pois que dúvida!

- Será mesmo o durão que dizem?

- É conforme. Eu cá não conto com ele.

- Hum!...

- O senhor bem podia nos dar alguma inculca do bicho?

- Cá o amigo Chico é quem há de saber por onde anda o cujo. Oh! psiu!...

- Nhô Pinta... Ah! Nhô Gonçalo! Acudiu o Tinguá querendo engolir as primeiras palavras escapadas.

- Não sabe que rumo levou o Jão?

- Tanto como mecê.

- Ora, ande lá.

- Ele aparece aqui, e arrancha tal e qual como os outros; não conta onde pousa; nem a gente indaga da vida alheia.

- Pois tocava uma boa maquia a quem nos pusesse no rasto da onça. Cem bicos!

Nesse momento um bacorinho de pelo ruivo, embestegava com um trote miúdo, mas ligeiro, pela cozinha, e atravessou toda a casa até a pousada, onde conversava a capangada. Aí começou a fossar nas pernas do Chico Tinguá, que, arrancando-se à balorda posição, desfechou no importuno animal um pontapé.

- Arre, patife.

Deu-se por advertido o bacorinho, que imediatamente enfiou outra vez pela venda e foi sair no quintal, onde pôs-se a grunhir com o focinho ao vento e os olhos na porta da cozinha.

- Pelos modos lá o homem de Campinas está com gana mesmo no Bugre? observou o Gonçalo que não tirava os olhos do Chico.

Pudera não! Da maneira por que arranjou-lhe o pai!

- Xô!... Eh! Baia!... xô!... Diabo de mula canhambola!

Partiam vozes do vendilhão, que fazia um grande escarcéu com braços e pernas, a fim de espantar uma besta muar que sua imaginação figurava estar furando a cerca do pasto, ao lado direito da casa. Entretanto o inocente animal assim caluniado pelo dono restolhava pacatamente a grama tosada, em companhia de uma porca e um bacorinho preto, de tamanho igual ao do outro.

Afinal atirou-se o Chico para a cerca, sempre a enxotar o burro, e quebrando o canto desapareceu.

O Gonçalo, a quem não escapara esse manejo, ergueu-se pronto da mesa, e, correndo ao ângulo da casa, observou o campo oculto pela quina da parede.

O bacorinho trotava pela vereda que ia dar ao mato, e seguindo-lhe as pegadas, o Chico Tinguá estugava o passo.

Riu-se o Gonçalo, e do terreiro disse ao Filipe:

O patrício faz favor?

XXII

O TRATO

O tal Gonçalo era um valentão; e tinha-se na conta do mais façanhudo espoleta de toda aquela redondeza.

Não acreditava, porém, a gente do lugar nas proezas de arromba que blasonava o pábulo, nem tomava ao sério as roncas e bravatas com que andava sempre a azoinar aos mais.

Para dar à sua peça um tom ameaçador e ao mesmo tempo disfarçar o senão do rosto, engendrara o Gonçalo sagazmente o apelido de Suçuarana, que a todo instante atirava à barba dos outros, mostrando as pampas da cara.

Mas à exceção dele, ou de algum súcio que lhe filava a pinga, ninguém o chamava pelo tal apelido senão pela alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para o distinguir de outro Gonçalo carafuz, também morador no lugar.

Não aturava, porém, o valentão esse desaforo; e disparatava com quem o tratasse pela alcunha. Para não se meter em rixas, evitava a gente de o chamar daquele modo na presença, ainda que muitas vezes pelo costume lá escapava a palavra; mas o Gonçalo fingia não ouvir. Também, segundo contavam, já por vezes lhe tinham chimpado com o Pinta de propósito e mesmo na bochecha, sem que ele respingasse.

Todavia o que mais amofinava o Gonçalo era a fama de Jão Fera, de quem invejava não só a força e valentia, como o apelido, que lhe granjeara sua malvadeza, o terror que inspirava aquele nome, e até as mortes de que acusavam o outro, eram para ele façanhas de estrondo.

Chegava o zelo do valentão a ponto de consumir-se quando ouvia mencionar o Bugre como o maior criminoso de toda a província de São Paulo. Muitas vezes em seu despeito encavacou seriamente; e andava pelas vendas e ranchos com a canseira de provar que ele, Gonçalo Suçuarana, merecia cem vezes mais a forca do que Jão; pois as perversidades cometidas por este eram travessuras de criança comparadas com os seus espalhafatos.

O subdelegado sabia disso e fazia como o juiz de paz, a quem a lei o substituíra. Deixava bem descansado de seu o Gonçalo Pinta, que assim podia a salvo gabar-se de ser um fama sem segundo na arte de matar gente.

Todavia enquanto vivesse Jão Fera, sabia o valentão que o nome deste havia sempre de ser o mais falado e temido de toda aquela redondeza, e por isso o tinha em grande ojeriza, apesar do serviço, que lhe prestara o Bugre, havia anos, livrando-o de um recruta que o levava preso.

Já ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não se atrevesse a atacá-lo de frente, espreitava ocasião de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito rondava disfarçadamente pela venda do Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o inculca e espia do capanga foragido.

Tais eram as disposições do Gonçalo quando chamou o Filipe para dizer-lhe em particular:

- O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? perguntou ele.

- Mas decerto, homem!

- E não sabe onde ele se encafua?

- Que esperança! Pois ainda estava aqui?

- E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?

- Abra o preço, amigo.

- Duzentos bicos?

- Topado.

- Mas há de ser com um ajuste...

- Diga lá.

- Isto fica entre nós dois só. Negócio de muitos não serve.

- É assim mesmo.

- Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem. Olhe que o Tinguá é ressabiado, hein! Vá andando por aí afora. Passando este morro, atrás do outro, há um rancho. Eu já me boto pra lá. É só enquanto avio aqui outro negocinho.

Este curto diálogo travara-se no canto da casa, junto da cerca, onde havia um grosso toco de árvore, denegrido pelo fogo da coivara que ali passara outrora. Ainda quando menos os preocupasse o assunto, dificilmente distinguiria qualquer dos interlocutores, ali a dois passos dele, o vulto decrépito de um negro, arrimado a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia, como o escorço de uma sapopema.

Seguiu Filipe o aviso de Gonçalo, e, pagando a despesa à Nhanica, mulher do Tinguá, que fazia no balcão as vezes do marido na ausência dele, pôs-se a caminho com os companheiros.

Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope. Era o Barroso que descambando o outeiro, na rápida guinilha do castanho, veio parar à porta da venda.

- Já está por cá? perguntou o Gonçalo que o esperava no terreiro.

- Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei, já teve tempo de grelar! tornou o Gonçalo rindo-se da sua pilhéria.

- Pois bom proveito lhe faça a roça!

Retorquindo assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso à vendeira:

- Quedê este homem?

- Ele não está, nhor, não!

- Onde foi?

- Na vila, nhor, sim.

- Quando volta?

- Volta logo.

- O diabo o leve e mais quem o ature.

Saiu o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tinguá que lhe havia pregado um famoso logro; qual fosse, não o dizia ele; mas despicava-se em ferrar o dente no pobre do vendeiro.

- Que lhe fez cá o homem? inquiriu Gonçalo.

- É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão Bugre.

- O patrão também tem negócio com esse danado? disse Gonçalo.

- Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata nem desata; e já a coisa me cheira a caçoada.

- Que quer? O senhor foi se meter com ele: não tinha que ver!

- Então não é o que dizem?

- Qual! Gabolice tudo! Não deixava de ser valente. Lá isso é verdade. Mas onde vê, já o encostei, e só com este braço. Não é debalde que me chamam de suçuarana!

- Com tanto que me avie o diabo depressa.

- Não custa. É só falar; o mais fica por minha conta. Eu cá não sou lerdo como o Bugre. Ainda bem o ajuste não está feito, que eu já ando com a obra em meio.

- Pois vamos acabar com isto de uma vez.

Cavalgaram os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direção que havia tomado pouco antes o Filipe e sua troça.

Neste momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo, surdia por cima da velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam carbúnculos, se alongaram pelo caminho além.

- Eh! Branco mesmo!... resmungou uma voz trôpega.

XXIII

NHÁ TUDINHA

Era pela volta das oito horas.

Nhá Tudinha entrava e saía, andando de um lado para outro, na labutação do costume. Não por necessidade, que só por gênio vivia ela nessa contínua lida caseira desde que amanhecia até o escurecer.

Tinha essa mulherzinha baixa e rolha tal prurido da pele que não podia estar um momento sossegada. Por força que se havia de ocupar alguma coisa; e para que lhe rendesse a tarefa, muitas vezes desfazia o que já estava pronto, a fim de Ter o gosto de arranjar de novo.

Nunca sentia-se tão feliz e contente como nos dias em que a apoquentavam de trabalho. Correr daqui para ali, revolver os cantos da casa, abrir e fechar portas, acudir da varanda à cozinha, e dar vazão a tudo; nisso consistia o seu maior prazer nesse mundo.

Quem a visse naquela dobadoura da manhã à noite, ficaria admirado de seu ar lépido e agudo; pois decerto não se podia esperar semelhante volubilidade naquele corpo rechonchudo, com suas perninhas curtas e socadas.

Achava-se então nhã Tudinha em uma de suas boas vezes. O São João estava à porta; e ela, que tinha, e com muita razão, o seu garbo de doceira afamada, por costume antigo se pusera na obrigação de mandar em dias de festa os mimos feitos por suas mãos, no que estava o chiste, às pessoas de amizade, cujo rol começava necessariamente pelo compadre Luís Galvão, padrinho de Miguel.

Por isso já de véspera andava ela às voltas com o alguidar e o forno.

Sentada na varanda sobre uma esteira e rodeada de todos os petrechos, estava mui atarefada e, anaçar ovos e amassar fubá mimoso para fazer as broas saborosas e os bolos de milho que ninguém preparava como ela.

Ajudava-a neste mister a Fausta, preta de meia-idade. Eram, essa escrava e a casinha, os restos da abastança de que outrora gozara em vida de seu finado marido, Eugênio de Figueiredo, companheiro e amigo de Luís Galvão. Más colheitas e juros enormes, tinham consumido os modestos haveres.

Quando estava nhá Tudinha mais embebida em fazer um passarinho de biscoito, de repente lho arrebataram sutilmente da mão, e uma voz brejeira que arremedava tanto quanto podia abocanhar de um cãozinho, gritou:

Nhau!...

Voltou-se a rechonchuda mulherzinha debulhando-se em uma risada gostosa, porque adivinhava o autor da travessura, que não era outra senão a ardilosa da Berta, em quem ela achava uma graça imensa, Não fazia a menina um trejeito, nem dizia uma facécia, que a viúva não se desfizesse em gargalhadas. Era a efusão de sua ternura pela pequena. O coração de nhá Tudinha só tinha para exprimir o amor dois vocábulos, o riso, ou então o choro nos dias de tristeza e luto.

- Ai, menina!... Quiá!... quiá!... quiá!... Já se viu, que ladroninha?

- Uh! pumbu!... dizia entretanto a Berta, beijando o biquinho da rola de biscoito; e acrescentou voltando-se para a viúva. Quer ver como voa?

Começou então a traquinas a fazer voar o biscoito, no meio das cachinadas de nhá Tudinha, que de tanto se estorcer, afinal arrebentou o cós da saia.

Cansada Berta, ou antes aborrecida daquele brinco infantil, e curado o frouxo riso da viúva, levantou-se esta para o almoço, que já estava posto à mesa, e frio de esperar.

- Que mãezinha má! tornou Berta com faceirice. Fez tantos biscoitos e não me guardou um só!

- Pois então! Não me deixaram sozinha? Cuidei que não voltavam mais hoje. E o almoço esfriando!

- Bem bom! Não queima a gente!

- E o outro?... perguntou a rir a viúva. Por onde anda?

- Quem sabe se perdeu-se?... Coitadinho do Miguel!...

- Ai, que já não posso! Quiá, quiá, quiá!... Mas você, aposto que foi ver a Zana!

- Que tem?

- Eu fico mesmo tão assustada quando Inhá vai para aquelas bandas! Não é graça, não!

- Por que?... Tem medo que o tutu me pape? Ele que se meta em bulir comigo e verá! Olhe, mãezinha, eu agarro-o pelas orelhas, assim; e meto-lhe um cipozinho, zás, zás, zás, que ele vai por aí gritando, ui, ui, ui!...

Nova gargalhada de nhá Tudinha, que já sentada no banco junto à mesa foi obrigada a erguer-se para apertar as ilhargas temendo estalassem com as embigadas que lhe fazia dar o frouxo riso.

A esse tempo chegara Berta à porta e chamou o Brás, que se deixara ficar no meio do quintal, a alguns passos da casa, com os olhos fitos no lugar onde sumira a menina a quem ele acompanhava.

Depois que Berta com seu desvelo e afago dissipou os violentos paroxismos da convulsão em que se estorcia o rapaz, e foi-se a crise acalmando, procurou ela adormecê-lo, cerrando-lhe docemente as pálpebras.

Da posição em que estava junto à tapera da Zana, descobria-se uma volta da senda tortuosa que enredava-se pelas faldas ensombradas de um serrote. Desde algum tempo seus olhos voltavam-se a espaços naquela direção, e agora, amiúde, com certa impaciência.

Vendo o rapaz quase adormecido, repousou-lhe a cabeça em uma leiva de grama, e adiantou-se pelo trilho além, parando às vezes, para depois continuar.

Havia andado já grande extensão, quando reparou que fazia-se tarde; e malograda sua esperança retrocedeu ao lugar onde tinha deixado o Brás. Este porém já ali não estava; apenas se afastara a menina, que ele abrira os olhos, e agachado, lhe seguira sorrateiramente e de longe os passos.

Quando viu o rumo que ela tomava, um movimento de ira escapou ao monstrengo, que atirou ao vento os murros das punhadas convulsas, arquejando de raiva. Rastejou então como um réptil, por meio da relvagem, e sumiu-se nas entranhas da terra.

Metera-se ele em uma espécie de fojo que tinha recentemente praticado em um barranco atufado de junças, e a cuja borda passava o trilho. Aí cavava o chão, com as unhas aduncas, e como tomado de um frenesi; até que percebeu, por uma repercussão da cova, o passo de Berta que voltava.

Vendo-o com as mãos cheias de terra, e a roupa suja de arrastar-se pelo chão, a menina o ralhou brandamente e conduziu-o à casa onde acabava de chegar.

- Venha almoçar! disse Berta da porta.

- Não quero!

Esta resposta do menino, deu-a ele com sua fala particular, que era uma rouca explosão da voz, despedida em ásperas e bruscas articulações, como o rugido de um animal, ou a blateração de um surdo-mudo.

A quem não estivesse muito habituado com essa pronúncia desabrida e selvagem, seria impossível discernir de pronto os vocábulos, pela velocidade com que eram arremessadas as sílabas incisas e truncadas.

Aproximara-se nhá Tudinha com a curiosidade de ver a quem Berta falava, e como reconhecesse o menino, escapou-lhe um gesto de visível repugnância. Mas um olhar da menina bastou para apagar essa repulsa, e convertê-la em agasalho.

- Ande, Brás! disse a viúva com afabilidade. Tome uma coisa que lhe guardei.

Desta vez nem se deu o rapaz ao trabalho de responder com a voz. Fez uma careta má a nhá Tudinha e voltou-lhe as costas.

- Brás!...

Nesse monossílabo proferido por Berta, com sua voz sempre doce e melodiosa, percebia-se uma vibração íntima que destoava no meio daquela harmonia. Era como o brandimento da corda que estalava, ou como o áspero triscar do diamante no vidro.

Voltou-se Brás e veio dócil e humilde, acompanhando a indicação do gesto de Berta, colocar-se em frente dela, que, depois de lavar-lhe as mãos e cortar-lhe as unhas, o sentou a seu lado no banco da mesa. Aí tomou um prato, que lhe serviu ela, e comeu com uns modos comedidos, embora um tanto hirtos, que ia copiando da moça. Ninguém diria que fosse este o mesmo lambaz, que na mesa de Galvão metia o queixo na xícara, deixava na toalha uma roda de sobejos, e lambuzava a cara de sopa e manteiga.

Foi rápido o almoço.

Nhá Tudinha não tirava o sentido do forno onde assava um bolo de mandioca puba; além de que de prova em prova já petiscara seus biscoitos bons. Berta, essa comia como um passarinho, aos beliscos. Antes de sair de casa pela alvorada, tomara café, e de caminho trincara as roscas de goma que levava para Zana.

O Brás também não tinha fome. O constrangimento, em que o punha a presença da menina e a sua fascinação, deviam de embotar-lhe o apetite insaciável, com que de ordinário devorava quanto lhe deixassem.

XXIV

A LIÇÃO

Àquela hora da manhã, projetava a casa larga sombra para o oitão voltado ao poente.

Nessa fresca penumbra, que recatava da estrada uma cerca de estacas de cambuís já enramadas, acomodou-se Berta para passar a sesta, que se aproximava. Daí avistava-se por uma ogiva rendada que abria a folhagem em arabescos, o caudal Piracicaba, adormecido no regaço da campina.

Sentara-se a menina em um pedaço de alto pranchão, que aí tinham colocado para servir de banco; e suas mãos sutis e ligeiras tomavam o ponto às meias, ou serziam e remendavam a outra roupa lavada, que precisava de conserto e enchia o balaio posto a seu lado na ponta do tabuão.

Adiantando a sua tarefa diária, que pelo hábito já os dedos ágeis faziam às cegas e com uma presteza admirável, escutava com atenção ao Brás, ajoelhado ao outro lado do balaio, na esteira de tábua, que servia de tapete, ou antes de tabuleiro para a roupa já consertada, a fim de não misturar-se com a outra da cesta.

Com as mãos postas, e um modo sério, repetia o rapaz de cor a Salve-Rainha, sem titubear. Dir-se-ia que estava lendo no formoso semblante de Berta por mágica influição aquelas palavras ignotas, tal era a fixidez da pupila e a absorção de sua alma no hausto desse olhar.

Era sem dúvida a primeira vez que o Brás dizia certa a oração, pois no gesto da menina, onde vislumbrara uma vaga inquietação, derramou-se grande contentamento pelo triunfo obtido sobre a fatalidade que encadeava aquele espírito bronco.

- Assim, Brás! disse a gentil mestra desfolhando-se, como uma bonina, em ledos sorrisos.

- Til contente? perguntou timidamente o rapaz, com certa brandura de voz, que desvanecia o tom brusco e explosivo.

- Muito!...

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