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TIL

José de Alencar

V

FERA

Não se pinta a exacerbação de Bugre quando sentiu que lhe escapara o assassino de Besita.

Estuava-lhe a alma. Entrava na venda para matar a sede que o abrasava; mas a cachaça parecia-lhe chilra e insípida como a água do brejo. Sangue era o cordial que podia mitigar-lhe esse fogo intenso a lavrar-lhe dentro.

Queria brigar; tinham medo e fugiam dele. Matar a frio, maquinalmente, como o carniceiro faz à rês, e o caçador à perdiz, isso não o poderia; repugnava-lhe; tinha nojo ao cruor.

Foi nestas condições que um ricaço, informado da valentia de Jão, o tomou para capanga; e bem precisava ele, que não lhe faltavam inimigos. O preceito do Evangelho é "não fazer aos outros o que não queremos nos façam". Daí tinha o mandão extraído uma regra para seu uso, a qual em sua opinião, era apenas o complemento da máxima cristã. "Façamos aos outros o que eles nos pretendem fazer", dizia ele; e sem o menor escrúpulo, com perfeita serenidade de consciência, ia aviando os seus inimigos, para não lhes morrer às mãos.

Eis o homem a cujo serviço esteve Jão durante algum tempo, não só pela necessidade de ganhar a subsistência, como pela ânsia de saciar a sanha terrível que o devorava. Fez-se instrumento da perversidade do mandão; mas essas vinganças não eram senão brigas e combates, em que ele barateava sua vida, ansiando pela morte, que se obstinava em poupa-lo.

Sujeito que fugisse e se amedrontasse, não lhe tocava Jão, qualquer que fosse a recompensa ou ameaça do amo. Mas também quando se enfurecia, nada aplacava essa alma calcinada pelo fogo surdo que lavrava desde a morte de Besita.

Referiam-se desse homem as maiores atrocidades; e a alcunha de Jão Fera que lhe tinham dado por esse tempo, bem revelava a profunda impressão produzida na gente do lugar pelos fatos que ele praticara. Alguns não se explicavam, a não ser pelo delírio sanguinário que se apodera de certos homens, e não é talvez senão a exaltação do hábito levado até a mania.

Chamado, pago e protegido por homens poderosos para escolta-los em aventuras e servir às suas paixões, o Bugre recebeu a iniciativa e a animação que iam acostumando seu braço a ferir e a repousar depois do crime, como se tivesse praticado uma honrosa façanha, uma valentia digna de louvor.

Esta é com pouca diferença a história de todos os assassinos incorrigíveis, que infestam o interior do país. Eles foram educados pelos poderosos como os dogues que se adestravam antigamente para a caça humana, dando-lhes a comer, desde pequenos, carne de índio.

Durante o tempo que serviu como capanga a diversos patrões, não esqueceu Jão os dois pensamentos únicos de sua vida, ou antes único pensamento que se dividira agora em dois cuidados.

Era Besita que lhe deixara em legado, vingar sua morte, e proteger sua filha.

Não se passava um dia sem tirar Jão inculcas do Ribeiro, esperando que fizesse o acaso o que não pudera toda a sua diligência. Também de tempos em tempos vinha às ocultas até Santa Bárbara para ver Berta; e então sempre lhe trazia algum enfeite e deixava na mão de nhá Tudinha dinheiro para comprar-lhe o necessário, de modo que andasse bem pronta e arranjada.

Berta a princípio não queria saber daquele homem triste e carrancudo. Quando nhá Tudinha a levava pela mão até o mato, onde ele as esperava para não ser visto, a menina tinha medo. Mas a pouco e pouco foi se habituando, e afinal sentada em seus joelhos brincava com a faca de ponta que lhe tirava da cinta e arrepiava-lhe a barba ruiva.

Tinha Berta as feições da mãe, e Jão via com enlevos, travados muitas vezes de um terror supersticioso, surgir pouco e pouco do vulto da menina a imagem rediviva da mulher, a quem adorara como uma santa, embora tivesse amado também com a fúria de um possesso.

Quando já tinha Berta seus doze anos, e no corpo infantil iam se esboçando os relevos graciosos e suaves contornos da estátua feminina, deixava-se o Bugre ficar longas horas em muda contemplação, com os olhos pasmos na menina, que brincava pelo campo sem dar-lhe atenção.

Havia então singulares alucinações na alma desse homem. A paixão que jazera recalcada por tantos anos no fundo de seu coração, irrompia-lhe de novo com ímpetos medonhos, semelhante a um tigre sedento que se arroja contra a jaula para despedaçá-la.

Berta lhe pertencia. Não pela mesquinha razão de a ter salvado, mas pela consagração das angústias que sofrera. Ela era filha de sua dor; quando o pai a desprezara, abandonando a infeliz mãe, ele as envolvera ambas em uma ardente e incessante dedicação. A alma se lhe estancara nessa paixão imensa; carecia pois de orvalhos para umedecer a terra sáfara e exausta, que era sua existência agora.

Afigurava-se à sua mente enlevada, que Besita revivera na filha para pagar a ele Jão os extremos do puro e humilde afeto. Enleava-se nas cismas de outros tempos e surgiam-lhe os sonhos que fizera outrora, os devaneios da vida feliz, no seio da floresta, longe do mundo que o perdera. Seu amor era infindo; chegava para encher o deserto.

Todavia o olhar da menina o turbava, e desde muito tempo já não se animava ele a sentá-la nos seus joelhos, como dantes. Se acaso Berta lhe fazia um afago, ao contado da mão mimosa o sangue espadanava-lhe do coração como lavas; mas logo refluía, gelado por um calafrio glacial.

Já não era Berta que ele via e sentia, mas o vulto de Besita, surgindo triste e lacrimosa para defender a filha.

Nos arrancos e embates dessa luta correu a infância de Berta.

Havia um ano deixara Jão o ofício de camarada; e vivia oculto nas vizinhanças de Santa Bárbara, onde facilmente via Berta e lhe falava. Cessando a proteção que os potentados costumam dispensar a seus asseclas, e a imunidade de que os revestem, começou logo o Bugre a ser perseguido como um flagelo.

Mas até então zombara de todos os esforços, apesar de prosseguir em suas façanhas. Raro era o mês no qual não se consumava pelos arredores alguma vingança; e o instrumento era quase sempre ele, Jão Fera, a quem buscavam de preferência para esta tarefa, pela fama terrível que tinha adquirido.

VI

A RESTITUIÇÃO

Ao cabo de quinze anos voltara o Ribeiro a São Paulo.

Não se animaria contudo, se os anos, e mais ainda uma irrupção no rosto, não lhe tivessem alterado completamente as feições. Em Portugal o chamavam de Barroso, apelido que substituiu ao seu para maior segurança.

Já estava há meses na província, quando resolveu ir a Santa Bárbara. Com a vista daqueles lugares acendeu-se o ódio sopitado; um pensamento de serôdia vingança despontou em seu espírito e medrou.

Ouvira falar do Chico Tinguá como inculca de um sujeito que se incumbia, mediante boa espórtula, de arranjar esses negócios. Tocou no ponto ao vendeiro; este expediu o bacorinho a Jão Fera, que não tardou no rancho, onde se fechara o ajuste, mediante o sinal de vinte patacões.

Nenhum dos dois reconhecera o outro. Jão poucas vezes antes da morte de Besita vira o Ribeiro, e este nunca reparara no capanga, que raro tinha encontrado e de passagem em casa da noiva. Acrescia a mudança operada pela idade e outras circunstâncias.

Todavia notou Jão que esse homem lhe inspirava profunda aversão; e cada vez que o avistava tinha ímpetos de puxar briga com ele e mata-lo. Na Ave-Maria especialmente, no dia da tocaia, a não ser o urutu que espantou o cavalo, o Ribeiro cairia com o coração traspassado.

Ao vê-lo passar, na volta do caminho, entre os claros da folhagem, teve o capanga uma espécie de visão; pareceu desenhar-se a seus olhos a mesma face fouveira de raiva e terror, que rápida perpassara diante dele na tarde do assassinato de Besita, mas ficara para sempre estampada em sua reminiscência.

De seu lado o Ribeiro, embora não tivesse a menor suspeita do homem com quem lidava, não podia eximir-se de um involuntário confrangimento, quando se aproximava de Jão Fera. E se este carregava sobre ele o duro olhar, corria-lhe pela medula um frio glacial.

Assim estava impaciente de ver concluído o negócio para livrar-se do capanga; mas correram-lhe as coisas às avessas, pois agora depois do que passara na venda do Tinguá, sabia que o tinha no encalço, e tratou de aprecatar-se.

Contudo não esquecera o Ribeiro a sua vingança, embora tomasse ela outra feição da que tinha em princípio. Depois da tocaia na Ave-Maria, passara pelas Palmas e vira a família de Luís Galvão, reunida no terreiro, gozando a frescura da tarde, ao expirar de um dia cálido.

Afonso lia para a mãe e a irmã. D. Ermelinda acompanhava com os olhos as mutações das alvas nuvens que o vento carmeava no azul do céu, Linda fazia trabalhos de lã.

A serenidade e enlevo desse quadro pungiram acremente a alma do Ribeiro. Invejou a felicidade de Luís Galvão. Invejou a felicidade de Luís Galvão, no seio daquela família encantadora e no meio dos gozos que dá a riqueza.

Suas idéias tomaram um rumo desconhecido. Ele que tinha consumido toda a mocidade em uma vida aventureira e vagabunda, e se isolara inteiramente no mundo, sem outra companhia, além dos parceiros de jogo e prazer, sentiu de repente penetra-lo um eflúvio da vida calma, sossegada, que desliza docemente no lar doméstico, entre as alegrias íntimas e as festas singelas da família.

Mas já estava adiantado em anos para tratar agora de criar uma família. Seria como o tardo lavrador que planta a árvore da qual não verá o fruto. O que lhe servia era uma família já formada, com seu macio conchego, seus hábitos encantadores, onde ele chegasse e tomasse o seu canto, como um conviva, que acha na mesa do banquete o talher preparado.

E não estava ali, perto dele, a família de que precisava? Onde encontraria mulher mais agradável? Podia nunca esperar que viesse a ter outros filhos mais lindos e prendados do que esse par gentil?

Por estranhos que pareçam estes pensamentos, de tal modo se imbuíram no espírito do Ribeiro, que ele acabou rindo-se de seu primeiro projeto. Matar apenas Luís Galvão numa emboscada, como pretendia, era uma vingança brutal e estéril que afagava o seu ódio e nada mais.

Fazer porém desaparecer o fazendeiro, e tomar o seu lugar, como fizera ele outrora; essa era uma desforra de mestre, que não só ajustava as contas do passado, como garantia o futuro. Aplicando ao sedutor a pena de talião, fazia ele, Ribeiro, ainda por cima um bom negócio.

Desde então empregou toda sua atividade em levar ao cabo a obra, cuja realização fora marcada para a noite de São João.

Ao recolher, se manifestará no canavial das Palmas um incêndio que se há de atribuir a algum foguete desgarrado. Luís Galvão naturalmente acudirá para acautelar maior estrago. Nem os escravos da roça, fechados nos quartéis por Monjolo, nem os pajens trancados por artes do Faustino, poderão acompanhar o senhor.

Gonçalo Pinta, emboscado no caminho, derrubará Luís Galvão com uma cacetada e o lançará nas chamas, para acreditar-se que foi vítima do incêndio, e não de uma trama pérfida e covarde.

Então Ribeiro ou Barroso, que figura passar casualmente pela estrada, acode e extinguindo com o auxílio dos camaradas o incêndio, já de antemão cortado por largo aceiro, conduzirá o corpo do Galvão à casa e oferecerá à viúva seus serviços.

Eis o plano, em virtude do qual esperava Barroso estar casado com D. Ermelinda e senhor das Palmas, antes de findo o ano do luto.

Depois de fazer ao Faustino e a Monjolo as últimas recomendações, voltava ele acompanhado pelo Pinta, quando inesperadamente saiu-lhe ao encontro, de dentro do mato, Jão Fera.

O Barroso vacilou na sela; e o Gonçalo Suçuarana ficou ainda mais rajado, com a palidez que lhe afulou o semblante. Todavia não fizera o Bugre o menor gesto de ameaça; apenas lhes tomara a frente, postando-se no meio do caminho.

- É hoje véspera de São João. Seu dinheiro aqui está; não lhe devo mais nada.

Estas palavras foram ditas pelo capanga na sua voz arrastada e mansa, estendendo ao Barroso um maço de notas, que ele recebeu maquinalmente com a mão bamba.

- Agora passe bem. Havemos de encontrar-nos! continuou o Bugre, cujo olhar despediu uma chispa.

E desapareceu.

VII

FASCINAÇÃO

Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapéu, Linda veio ter com ela:

- Onde vai?

- Ali, já volto, respondeu Berta iludindo a pergunta, e sôfrega por evitar conversa naquele instante.

- Guarde seu segredo! tornou Linda ressentida do modo frio por que lhe respondera.

Conhecendo que se agastara a amiga, cingiu-lhe Berta a cintura com um braço, e impediu assim que ela se afastasse.

- Olhem a curiosa! Zangou-se porque não lhe disse onde vou? Ah! Quer saber? Pois eu lhe conto; depois não fique aí vermelhinha como uma pitanga. Escute!

Aproximando a boca ao ouvido de Linda segredou-lhe com malícia:

- Vou à casa, buscar Miguel para que ele venha decidir a nossa aposta, e dizer se eu menti afirmando que ele morre por certa pessoinha muito nossa conhecida.

À proporção que falava a travessa da Berta, abrasava-se a concha nacarada da orelhinha de Linda, enquanto os longos cílios velando os brandos olhos, ensombravam docemente a sua face enrubescida.

Quando pronunciava baixinho as últimas palavras, viu Berta uma formosa cabeça magana e brejeira, que se insinuava arteiramente entre seus lábios e o ouvido da companheira, soltando estas palavras com um tom de motejadora confidência:

- Eu também entro no segredo!

Era o Afonso.

- Ai! exclamou Berta, sentindo nos lábios o roçar do buço macio que pungia a face do mancebo.

- Que abelhudo você é, mano! acudiu Linda, um tanto contrariada por não ouvir o resto do que tanto lhe interessava.

- Não disfarce, menina, você mesma é que me disse que Inhá estava me chamando para dar-me um bei...

- Um beliscão! atalhou Berta cravando-lhe no braço a unha rosada, mas rija como a garra da araponga.

E abrindo rapidamente a porta, ganhou a alcova, com o sentido de fechar-se por dentro e evitar assim a desforra que o Afonso não deixaria de tomar e que ela bem suspeitava qual fosse.

Mas transtornou-lhe todo o plano o maganão, metendo de pronto o joelho à porta, antes que a chave desse volta. Começou então uma luta, que devia terminar pela derrota de Berta, apesar do petulante arrojo da menina, habituada aos folguedos de rapazes, e da galanteria com que Afonso moderava o seu impulso, a fim de não molestar a sua gentil competidora, e também para não lograr tão fácil a vitória.

Mas teve Berta um aliado, com o qual não contara o moço. Linda acudiu à amiga, como a formiguinha que mordeu o calcanhar do caçador para salvar a rola. Achegando-se ao irmão sorrateiramente, fez-lhe cócegas.

Afonso era árdego; estremeceu, rindo como um perdido, e apartando os cotovelos, para se desvencilhar da irmã, sem abandonar o posto.

- Assim, Linda! gritava Berta.

- Espera, sonsinha, que tu me pagas! dizia o Afonso no meio das risadas.

- Deixe a outra! acudia Linda.

Apertado entre dois fogos, voltou-se rapidamente Afonso, para fazer face à irmã, enquanto com as costas empurrava a aba da porta. Vivo e pronto como foi esse movimento não evitou que Berta com extrema agilidade, aproveitando-se da breve intermitência em que a fechadura aderiu ao batente, desse volta à chave.

Ficou de todo o ponto azoado o Afonso; e Linda, vendo-lhe a cara desconsolada, soltou uma risada gostosa.

Nisso repercutiu um grito; era de terror ou talvez de aflição; e vinha de dentro da alcova.

- O que foi, Berta? exclamou Afonso.

- Inhá, Inhá, é você! balbuciava Linda sufocada pelo susto e abalando a porta.

- Abra depressa! instava o moço cheio de inquietação.

Não tiveram resposta estas perguntas ansiadas e instantes. Reinava dentro grande silêncio, apenas cortado por um tinido vibrante, que arrepiava como o áspero trincar da lima no ferro.

- É graça; ela quer nos assustar! dizia Afonso disfarçando para consolar a irmã, porém angustiado por um terrível pressentimento.

Ao mesmo tempo, curvado, espiando pelo espelho da fechadura, investigava o interior quanto lhe permitia a estreita abertura por onde passava o olhar. A luz que entrava pelas janelas abertas esclarecia o aposento; assim via o rapaz distintamente o centro da parede fronteira, onde estava colocado o toucador da irmã. Com muito esforço, inclinando-se o mais possível à direita, percebia a orla do cortinado desfraldado pela cabeceira da cama.

- Viu-a? perguntou Linda que não cessava de chamar pela amiga.

- Não! respondeu agoniado o irmão.

- Basta, Inhá! disse a filha do fazendeiro, com o tom suplicante. Você nos aflige com esta brincadeira.

- Qual! Ela é pirracenta! replicava Afonso rindo-se para animar a irmã. Mas logo, quando eu a pilhar, há de arrepender-se. Eu cá me contento com uma dúzia; e você, Linda?

Assim galhofando, Afonso aplicava alternativamente os lábios e os olhos ao orifício da fechadura, para falar a Berta, e ver se ela dava sinal de o ouvir.

De repente pareceu-lhe que uma sombra se interpunha entre a porta e o toucador; e afirmando a vista reconheceu o vulto de Berta, que oscilava. Cuidou que a menina, para fazer-lhe negaça, estava de brejeira a bambolear o corpinho.

- Lá está ela se faceirando! exclamou Afonso cheio de contentamento.

- Aonde?

Lembrou-se, porém, o moço que Berta voltava-lhe as costas, em vez de virar-se para a porta, como era natural. Querendo verificar esse reparo, já não o pode, porque a sombra vacilara e desaparecera.

Sofregamente buscava ele de novo enxerga-la; e não o conseguia, quando casualmente seus olhos caíram sobre a face polida do espelho, que ornava o toucador de mogno.

Uma surda exclamação, que o moço não teve tempo de sufocar, lhe prorrompeu dos lábios.

- Ah!

- O que é? interrogou Linda transida de terror.

- Não sei o que ela tem... Sentou-se... Parece que caiu.

Estas palavras, proferiu-as o moço ofegante, recalcando as palpitações violentas, que lhe talhavam a fala, e sem tirar os olhos do espelho do toucador.

Fora ali que vira desenhar-se a imagem de Berta, sentada sobre o pavimento, com o talhe acabrunhado por súbito desmaio das forças; mas a cabeça promovida por um rígido impulso, e as negras pupilas dilatadas em um olhar fixo, estático, de vítreos lampejos.

Não se enganara Afonso; Berta se voltava com efeito para o interior, pois sua imagem refletia-se de frente no espelho. O que olhava, porém, ela com a vista assim pasma? Ansiava o moço por descobrir e não tardou muito.

Na borda inferior do espelho, sobre o friso da moldura de mogno, surgiu um ponto que foi a pouco e pouco avultando. Era a cabeça chata de um animal, coberto de três ordens de escamas transversais dispostas sobre um couro de pardo fulvo mosqueado de preto.

Um brado de horror escapou da gorja angustiada do mancebo, que recuando se arremessou com desespero, para espedaçar a porta.

Mas essa era da cabiúna; e desafiava as forças de muitos homens.

Linda caíra quase desfalecida sobre uma cadeira, ao ver a angústia e o espanto do irmão, o qual, reconhecendo a inutilidade de seus esforços contra a porta, se precipitara para o terreiro, com a idéia de saltar pela janela no interior do aposento.

Nesse momento, e como um eco de seu brado de terror, ouviu-se também do lado do canavial um grito, senão era uma gargalhada selvagem, semelhante ao grasnar do maracujá.

VIII

LETARGO

Uma cena espantosa acabava de passar na alcova.

Com o rumor que fizera Berta ao bater a porta, na ocasião de entrar, a cascavel alçou a cabeça, e descobrindo o vulto da menina, desdobrou-se para escorregar ao chão.

Apenas tocou o soalho, enroscou-se rapidamente sobre si, na sombra que embaixo do leito projetava o cortinado, e enristou o colo como um dardo inserido na seteira de uma torre e pronto para o arremesso. Ao mesmo tempo a cauda romba e curta, vibrada por uma crispação nervosa, batia no pavimento a primeira das três pancadas fatais que precedem o bote, chocalhando os cascavéis com a sinistra crepitação, que gela a medula ao mais destemido.

Assim com o bote armado, esperou o insidioso réptil se aproximasse o inimigo, para de um jacto cravar-lhe os dois croques terríveis que manam o sutil e mortífero veneno.

Quando Berta, aproveitando-se do descuido de Afonso, conseguira fechar a porta, imediatamente correu à cama a fim de tomar o chapéu que vira sobre as almofadas, e fugir pela janela, travessura que ela tinha em criança feito muitas vezes, e que se propunha a realizar agora antes de dar tempo ao moço para atalhar-lhe o caminho.

No meio do aposento, parou a menina de repente com um involuntário estremecimento. Ouvira o som áspero de um guizo estrídulo, tangido rapidamente; e sentiu logo um enjôo produzido por acre exalação que se derramara no ar.

Atraídos por um impulso misterioso, volveram-se os olhos de Berta, e caíram sobre a boicininga, cujas pupilas fulvas, fulguravam na sombra, jorrando em ondas uma luz fosforescente, como as chamas sulfúreas, que se levantam do seio da terra vulcânica e retalham o negrume da noite.

A fauce hiante, sangüínea, se eriçava com duas serrilhas de dentes aduncos e retorcidos como garras, e no meio dela agitava-se a língua negra, híspida, dardejante, cuja ponta bífida ressaltava como impulsa por oculta mola de dentro de si mesma; pois servia-lhe de estojo a parte inferior.

Foi nesse momento, ao avista a cobra que o grito de terror escapou-se da boca de Berta. Mas às perguntas de Linda e de Afonso, se ainda as ouviu confusamente, não teve ela mais voz para responder-lhes que seus lábios estavam gelados.

Encontrando-se o olhar da serpente e o seu, cravaram-se de modo, ou antes se imbuíram e penetraram tanto um no outro, que não pode mais a vontade separa-los e romper o vínculo poderoso. Parecia que entre a brilhante pupila negra da menina e a lívida retina da cascavel se estabelecera uma corrente de luz na qual fazia-se o fluxo e refluxo das centelhas elétricas.

A mesma cambraia que retraiu o dorso flexuoso da boicininga espasmou o talhe grácil de Berta, como se uma força única regera a vida nessas duas organizações. Aí estava produzida ao vivo a misteriosa identificação da mulher e da serpente, que deu tema ao poético mito da tentação.

Lentamente a cascavel afrouxava os anéis em que enroscara o toro, até que se espreguiçou ao longo pelo pavimento, pousando lânguida sobre a tábua a cabeça chanfrada. Recolheu-se a língua dentro da bainha, e esta desapareceu por baixo do focinho, que se abatera flacidamente sobre a mandíbula.

Toda a força vital da boicininga se concentrava no olhar, donde coava-se uma flama trepida, por entre as titilações da membrana sutil, que reveste a retina da serpente. Encadeada por esse fio luminoso ao olhar cintilante de Berta, o medonho réptil parecia como deslumbrado por súbito lampejo.

Também a menina sofria a repercussão dessa influência.

As pernas trêmulas vacilavam; invadida por súbito desfalecimento, vergou ao peso do próprio corpo, e convolveu-se como a campânula que frange as pétalas para cerrar o cálice e pender murcha sobre a haste.

Assim deixou-se Berta cair de joelhos e derreando sobre os calcanhares, foi preciso apoiar-se com a mão esquerda no soalho, a fim de suster o busto, que uma força misteriosa impelia avante, como para prostra-la de bruços e colear-lhe o talhe.

Ainda assim não resistia de todo àquela poderosa atração. Com o pescoço distendido, a cabeça lançada à frente, mostrava a ânsia de arrastar-se para vencer a distância que a separava da cascavel.

O desmaio da moça fora a princípio cheio de indizível angústia; apoderou-se dela um incompreensível pavor; queria fugir, e sentia-se elada a si mesma como a um poste de dor. Dir-se-ia que duas forças divergentes, duas naturezas em reação, lutavam dentro de sua alma e a dilaceravam, disputando-lhe o ser, como aves de rapina que brigam pelo cibo.

Uma dessas naturezas abatia-lhe a fronte, que a outra porfiava em manter excelsa; e estorcia-lhe o corpo feito para a estatura nobre e senhoril. Umas vezes, presa da estranha vertigem, via-se em pé, diante de si mesma, imperiosa e cheia de desdém, a esmagar sua própria cabeça. Outras vezes transformada em vípera, eleva-se pelo colo da menina gentil, que ela era, e conchegava-se ao tépido calor de um seio virgem.

Afinal, com um movimento hirto estendeu Berta o braço direito para a cascavel, aberta a mão e crispados os dedos, no ímpeto de tocar o rosto do réptil, ao qual tornou-se mais viva a trepidação do olhar.

Confrangendo-se, a boicininga propulsou de leve a cabeça, como se arrastara um fio invisível, e foi lentamente rojando para Berta. Nesse instante havia Afonso enxergado o réptil; e se precipitara horrorizado para despedaçar a porta,

Entretanto Berta, à proporção que avançava para ela a boicininga, ia-se retraindo; erigia-se o busto, e ressurgia-lhe n’alma essa elação que a desfere ao céu e que imprime na criatura humana a majestade do porte. Assumia a menina outra vez a fina têmpera de seu caráter altivo e inflexível.

Quando a cabeça da cascavel roçou-lhe a ponta dos dedos, um choque íntimo percutiu-lhe o corpo, e estorceu o toro da serpente. Mas passou instantaneamente; o réptil elando-se pelo braço mimoso, veio cingir-lhe as espáduas, formando colar.

Com o toque desse brando serpear sentiu Berta a doçura de uma carícia; a boicininga titilava de volúpia ao tépido calor da cútis acetinada; e escondendo a monstruosa cabeça na conchinha da mão que a menina recolhera ao seio, caiu no letargo.

IX

TRANSE

Enquanto rápidos corriam os últimos acontecimentos, Brás erguendo-se no canavial, ainda atordoado da queda e da vertigem, saltou a cerca do pátio.

Por diversar vezes tentou sungar-se pela parede e trepar à janela; mas escorregava por falta de apoio ou saliência a que se agarrasse para alcançar o batente. Afinal de um salto enorme logrou o intento; e pode grimpar-se até o peitoril, onde agachou-se.

Ao ver Berta, sentada no chão, junto à cama, e enlaçada pela cascavel, deu tremendo pulo o idiota, que travou da cabeça do réptil como faria ao cabo de um chicote, e fugiu espavorido, soltando um berro de cólera, e zimbrando o próprio corpo com a serpente que lhe servia de látego.

Era o castigo que ele se infligia pelo susto causado a Berta e perigo de que a ameaçara com seu desazo.

Subitamente arrancada ao encanto que a prendia, a menina correu à porta e abriu-a, lívida e palpitante de emoção. Linda atirou-se a ela para abraça-la; e logo depois chegou Afonso, que voltara ouvindo abrir-se a porta.

Às impacientes interrogações, Berta respondeu mostrando Brás, que rompia o canavial em uma corrida furiosa, vibrando o seu látego vivo, a zunir pelos ares. Cheios de espanto, Linda e o irmão seguiram com os olhos o vulto do idiota até que sumiu-se; e voltaram-se para obter de Berta a explicação daquela terrível insânia que eles não haviam compreendido.

Berta porém tinha desaparecido.

Restabelecida da fascinação que sofrera, recordou-se a menina do motivo que a trouxera àquela alcova, e receando ter perdido muito tempo, esgueirou-se ligeira pelo interior da casa para ganhar as plantações e seguir o rumo que vira tomar pai Quicé.

No fim do canavial ouviu ela um sussurro particular que parecia o zumbir de um grande besouro, e voltando os olhos para o lado donde trazia a brisa aquele zunzum, avistou acocorado a uma pedra, como uma intanha, o negro velho, que rosnava a sua monótona lengalenga em gíria africana.

- Psiu! fez a menina.

- Nhá moça?

- Vamos depressa que já perdi muito tempo.

Deitou-se a andar o paizinho e mais depressa do que se devia esperar da sua figura de arco de pipa. Apesar da torção que lhe vergara o espinhaço como uma hástea de taquaruçu, conservava ele ainda certa agilidade nas gâmbias, que se moviam à semelhança das patas de uma guaiamu.

Sulcava a capoeira um trilho estreito, porém muito batido a julgar pela fita de argila socada e nua que serpejava, à guisa de um cipó, entre a grama. Por aí tomou Quicé, e a menina o seguiu com tamanha impaciência que sua mão sôfrega tocava amiúde o liso casco do negro como instigando-o a apressar o passo. Sua imaginação lhe representava Jão preso, algemado; quisera ter asas para voar.

Da capoeira desembocava-se em um vasto campo de cerca de meia légua, regaço da floresta virgem que lhe corria em volta, e cuja espessura já o machado havia desbravado do lado por onde vinham Berta e seu guia.

Quando se achavam os dois a meio da campina, ouviram longe o ribombo do trovão, o que era para admirar-se, pois o céu estava límpido, e no azul cristalino não se via capulho ou flocos de nuvens.

Entretanto o surdo trovão crescia e vinha rolando das profundezas da floresta, mas contínuo, incessante, sem as intermitências dos roncos da procela. A terra, como percutida por violento abalo, tremia, reboando os ecos do estranho fragor.

De momento a momento condensava-se o hórrido estampido, que já parecia fremir na orla da floresta. De repente surdiram do seio desse ribombo e começaram a sulcá-lo, outros rumores estridentes. Ouvia-se o estalo das ramas despedaçadas, como se o pampeiro fustigasse a floresta; um áspero grunhido e também um ranger de ossos, que trazia à mente espavorida os contos de cemitérios e duendes.

Involuntariamente o preto velho estacou, volvendo em torno de si um olhar aflito. Súbito pavor lhe transtornara as feições, repuxando as rugas da pele relha e borrando-lhe o negrume da cútis.

Surpresa com o estampido e assustada pela expressão de terror que viu no semblante de Quicé, perguntou Berta:

- O que é?

- Queixada, respondeu o preto com a voz sumida.

Com efeito, da orla da selva rompia um bando de porcos do mato. Mais de cem desses animais selvagens, com a pupila chamejante, ouriçando as ruivas cerdas e afiando os longos colmilhos nos queixais chocalhados pela sanha, trotavam em fila, e figuravam na relva da campina a verga combusta do imenso arco de algum tamoio gigante.

Assim avançavam os ferozes queixadas, rompendo selvas, estraçalhando quando encontram com os cutelos das presas, ou esmagando-o sob a úngula bissulca das cem patas cadentes que batem o chão. Se o inimigo resiste ao primeiro ímpeto do centro, ou se receiam lhes fuja, as pontas do arco se estorcem e a vara fatal cinge o mísero, que tomba em pedaços, como a isca à flor de tanque piscoso.

Era medonho o aspecto daquela serra navalhada a se estender pelo campo afora com extrema rapidez. Berta compreendeu o perigo que a ameaçava e horrorizou-se pensando no fim cruel que lhe fora reservado, e ali estava debuxado ante seus olhos com vivo e temeroso relevo.

Tinha-lhe ferido os olhos o sangue coalhado na belfa de uma parte dos queixadas. Pelo focinho, como pelas unhas dos mais ferozes, viam-se fragmentos de animais, que pareciam cães, e também resto de um despojo que bem podia ser de criatura humana.

A última esperança todavia ainda não desamparou o coração de Berta ante esse quadro hediondo. Corajosa como era, quis salvar-se alcançando um abrigo que a subtraísse à fúria dos caititus. Mas na campina rasa poucas árvores perdidas se elevavam a trecho; dessas a mais próxima, ficava-lhe a cem passos, e já vergava rapidamente sobre esse ponto a ala esquerda da formidável falange.

O impulso de Berta foi precipitar-se para aquele refúgio e lutar de velocidade com os queixadas. Tinha confiança em suas forças, e contava alcançar a árvore antes das feras. Mas ao desferir a corrida, acudiu-lhe à mente o preto, que havia esquecido nas angústias daquele momento.

Abandonar o velho decrépito à fúria dos animais, não lhe sofria o coração, e contudo uma voz impiedosa, a voz da conservação, lhe exprobrava o sacrifício inútil de sua existência. Há almas assim, que Deus apura no crisol da abnegação, e forma para se derramarem como a luz, o ar, o perfume.

Travando o punho de Quicé, tentou Berta arrasta-lo em sua veloz corrida; não tinha dado vinte passos, que reconheceu a impossibilidade do violento esforço. O arco já se convolvia em caracol, fechando-a e a seu companheiro em uma espira sinistra, que cerrava-se de instante a instante como a constrição da jibóia em torno à presa.

Estacou a menina; cada passo a aproximaria da morte, que a espreitava por todos os lados.

- Trepa na cacunda de Quicé! disse o preto velho.

Com o olhar agradeceu Berta ao mísero cativo, que na impossibilidade de a salvar oferecia ao menos esse meio de retardar-lhe o martírio, conservando-a suspenda nos ombros enquanto não o dilaceravam as feras.

Enfim já não é arco, nem mesmo cadeia, o que cerca os dois infelizes; mas um turbilhão fulvo, que marulha, fossa, remoinha, grunhe, amolando os colmilhos, e batendo o chão.

Estreitou-se Berta em suas roupas, como a virgem cristã no anfiteatro romano; e pondo os olhos no céu, esperou o martírio.

X

A GARRUCHA

Não era natural a arrancada de tão numeroso bando de caititus por aquelas paragens, fora da mata cerrada e próximo de habitações.

Houvera, porém, um motivo para essa alteração nos hábitos dos filhos bravios das selvas.

Fora aquele dia, véspera de São João, o que marcara Gonçalo Pinta para atacar o Bugre e agarrá-lo dentro da toca. Nesse intento e valendo-se da espionagem que fazia desde muito, combinara com Filipe um plano que não podia falhar.

O esconderijo do capanga ficava no mais intrincado da mata, entre as fraguras de uma penha que lhe servia de baluarte e prolongava-se através da floresta como a geba de algum monstro hirsuto.

Esse lado parecia a abrigo de qualquer ataque. Se da choça do capanga, embora dificilmente, se podia galgar o rochedo, era isso impossível da outra banda em que a penha se talhava a pique, em abrupto alcantil.

Gizou, pois, o Gonçalo que pela madrugada, Filipe com os companheiros ganhariam as cabeceiras da mata virgem. Ocultos pelas brenhas se aproximariam do penhasco e tratariam de tomar a saída do único desfiladeiro por onde podia fugir o capanga.

Ao meio-dia, quando Jão Fera costumava descansar na grota, o Gonçalo com uma troça de espoletas, pagos pelo Ribeiro, deitaria cerco pela frente, e o capanga, assim colhido, se entregaria vivo ou morto.

Partira o Filipe com sua malta à hora aprazada, e rodeou a floresta. Por segurança levava os cachorros que podiam servir-lhe para rastejar o inimigo no caso de escapula. A matilha, tomando faro ao fartum que trazia a brisa do fundo da floresta, colou e, embrenhada pela espessura, levantou um bando de queixadas.

Acuaram as feras, voltando-se ameaçadoras. Avisados pelos latidos, acudiram os caipiras que tentaram defender a matilha e desvencilha-la. Os queixadas, porém, estavam enfurecidos e arremeteram estripando os cães. Diante do perigo que corria, fugiu a gente; porém um dos companheiros, jarretado pelas terríveis navalhadas, tombou e num momento foi despedaçado.

Então o bando feroz, acossado pelos tiros que lhe desfecharam os caipiras, arremeteu através da floresta, grunhindo de sanha, e foi romper no campo onde se devia representar o último ato do drama sanguinolento.

Resignada ao martírio, Berta erguera os olhos ao céu, pedindo-lhe asilo para sua alma pura prestes a desamparar a terra. Os porcos, removendo os queixos, já tocavam com as cerdas do focinho o babado da saia, aflado pela brisa.

Retiniu, porém, um brado espantoso, que reboou pelas crastas e penetrais da floresta como o berro medonho do sucuri quando surge à flor do imenso lago. Pávidos estancaram os queixadas, erguendo a tromba ao ar para conhecer donde provinha aquela ameaça.

Devorando a distância na corrida veloz, saltando por cima dos magotes que encontrava em seu caminho, e às vezes fazendo do próprio lombo das feras chão onde pisar, Jão precipitou-se enfim no lugar onde Berta e o negro velho aguardavam a morte contritos.

Suspendendo a menina com o braço esquerdo, enquanto brandia o direito a longa faca apunhada, o vigoroso capanga, aproveitando-se do espanto das feras ante sua audácia, arrojou-se para a árvore mais próxima, onde poderia colocar a menina a salvo de perigo.

Já ele transpunha a distância, quando ouviu-se um grito dilacerante: o negro velho agitando convulsivamente os braços debateu-se no meio dos queixadas, como um náufrago no torvelinho das ondas, e estrebuchou.

- Jão! exclamou Berta angustiada, mostrando o corpo do africano que tombava.

- Não!

Perseguido pelas feras, bem via o capanga que não tinha tempo a perder; a menor demora podia ser fatal. Os queixadas eram sanhudos e em numeroso bando. Se o envolvessem, tolhido como estava de um braço, corria grande risco Berta, a quem a morte dele Jão, longe de salvar, roubaria a última esperança.

Por isso recusou-se ao pedido da menina.

- Pois eu não o abandono!

Retorquindo-lhe por esse modo, Berta soltou-se do braço do Bugre, para correr ao negro, como se ela, frágil menina, pudesse valer-lhe naquele transe.

Preveniu-lhe Jão o impulso, e estreitando-a ao peito com força, atirou-se em um arranco de desespero para o lugar, onde o mísero Quicé acabava de cair às focinhadas dos porcos. Abarcando-lhe o crânio com a mão robusta, o capanga arremessou-o longe, de um boléu, como faria com uma pedra.

- Foje, bruto! disse ele à ossada que varava pelos ares e que estalou entre os seus dedos.

E com a faca de ponta que um instante segurava nos dentes para dispor da destra, começou a degolar e estripar os queixadas que o atacavam mais de perto e com sanha terrível. Era muitos, porém; e toda sua pasmosa agilidade não bastava para resistir ao aluvião de feras que sobre ele crescia, assaltando-o por qualquer lado com redobrado furor.

Entretanto, pai Quicé, caindo a vinte passos, onde o pinchara Jão, embora meio desconjuntado com o tombo, tinha-se arrastado para a árvore, e pode a muito custo içar-se pela rama a um galho mais rateiro, onde contudo estava a abrigo dos temíveis queixadas, que lhe tinham retalhado o couro relho das canelas.

Aí refocilando na refocilando na egoística satisfação de se ver a salvo do perigo, que ameaçava a outros, o paizinho contemplava o combate de Jão Fera com os queixadas, como se fosse uma divertida caçada.

Quando, porém, mais recobrado do abalo reparou na multidão dos animais bravios que envolviam o capanga, e na raiva com que investiam, o negro velho prevendo uma desgraça teve pena, e lançou os olhos ao redor com ânsia, buscando a esperança de um socorro que ele, débil e alquebrado, não podia dar.

Com efeito, já o sangue de Jão corria dos golpes, que recebera nas pernas, e embora cada um tivesse custado a vida a muitos inimigos, outros sucediam-se, e outros, sem a menor intermitência. Era um ferir sem cessar.

Por vezes quis o capanga servir-se da mão esquerda, recomendando a Berta que se agarrasse aos ombros; mas curvado como estava para alcançar o rasteiro inimigo, e com a menina atravessada aos ombros para subtraí-la ao furor de algum queixada, não se animara: temia que em momento de susto, ela escorregasse ao chão.

- Nhazinha! disse Jão de chofre esfaqueando sempre. Tire na minha cintura a garrucha.

Com a sua habitual vivacidade e petulância dobrou-se Berta pela espádua do capanga, para arrancar-lhe da cinta a pistola, que forcejou armar, porém não conseguiu.

- Como é, Jão?

- Ponha na minha boca, Nhazinha!

Armou o capanga a pistola com os dentes; e arrebatando-a rapidamente da mão de Berta, desfechou sobre os queixadas um tiro à queima-roupa, que os fez recuar de terror.

Aproveitou-se Jão desse momento para romper o círculo de navalhas que o ameaçava e precipitar-se pelo campo fora, em busca da árvore.

Mas os queixadas, passado o primeiro estupor, arremeteram de novo na furiosa avançada.

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