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TIL

José de Alencar

- Sabe o que significa?

- Não.

Frisaram-se os lábios vermelhos da menina para soltar a palavra; mas como as pétalas de uma flor que se desfolha, emudeceram deixando apenas escapar o perfume. Reclinou ela a fronte vergonhosa e repetiu dentro d’alma o que se não animara a dizer.

Como se operou tão rápida a transformação de Miguel que até a véspera esquivo e reservado com Linda, agora preso de seu encanto, se engolfava na ventura de sentir-se querido, e esquecia Berta, que ainda pela manhã lhe cativara o coração?

O mesmo é perguntar a flor como nasce. A semente que o vento lança na terra, sabe-se acaso, porque enfeza ou brota? Às vezes lá fica na eiva do rochedo, tempo esquecido, até que o céu lhe manda uma réstia de sol e uma gota de orvalho.

Assim aconteceu com Miguel. O germe desse amor, há muito o guardava no coração, desde que admirara pela primeira vez a beleza de Linda. Mas o afastamento natural em sua posição inferior; as suscetibilidades próprias de um caráter nobre; e, mais ainda, a sedução irresistível que exerciam em sua jovem imaginação a graça e lindeza de Inhá, tinham sopitado esse amor à nascença.

Quisesse Berta que Miguel não amaria senão a ela, e esqueceria de todo a imagem de Linda. Mas a menina, em vez de aceitar para si o afeto, só o queria para a amiga, cujo segredo ela pressentira havia meses.

Desde então se desvelara Inhá com extremosa solicitude em grajear para Linda a ternura de Miguel, e fazer a ventura de ambos. Nesse emprenho encontrava um obstáculo, que era sua própria gentileza, na qual se enlevava o mancebo; mas dela mesma o seu tato delicado soube tirar partido.

A beleza de Linda era para a imaginação ardente e poética de Miguel uma linda imagem sem calor e sem luz; estátua de jaspe imersa na sombra. Berta o compreendeu; e fez de sua alma a centelha que devia animar o mármore.

Inspirado artista, ela tirou de sua graça, como de uma rica palheta, as cores mais mimosas para retocar a figura vaga e suave de Linda. Vazou nos lânguidos olhos da amiga as rutilações de sua pupila brilhante; e enflorou com o seu feiticeiro sorriso os lábios onde se aninhara o suspiro.

De cada vez, um traço do ideal se estampava na fantasia de Miguel, que muitas vezes surpreendia sua alma na contemplação dessa virgem desconhecida, em que a formosura de Linda se perfumava com a faceirice de Inhá.

Naquela manhã, tinha Berta tentado mais uma vez a transfusão de seu espírito gentil na serena beleza da amiga, e então a favoreceu o acaso, fazendo que Linda se aproximasse, e que Miguel ainda fascinado pelo retrato que ela esboçara, visse graciosa e encantadora a virgem dos seus amores.

A confissão arrancada a Miguel transfigurou Linda como por encanto. Sua expressão melancólica embebeu-se de um júbilo sereno como o alvor da manhã; desprendeu-se o gesto da timidez que dantes a atava, e tomou inflexões ternas e apaixonadas. De toda sua pessoa manavam santos eflúvios do amor feliz, que lhe teciam de luz e perfume uma auréola celeste.

Miguel embebeu-se na adoração dessa beleza, que se revelava pela primeira vez à sua alma; e o enlevo durava ainda no momento em que se trocava com Linda frases truncadas.

A moça havia tirado do seio o cravo branco e respirava-lhe o aroma, roçando-o pelos lábios.

- Não disse o que significa? insistiu Miguel.

- O senhor sabe.

- Eu não! respondeu o moço com um sorriso.

- Sabe sim!

Houve uma pequena pausa, durante a qual a palavra adejou nos lábios de Miguel, enquanto na alma de Linda já ressoava a sua doce melodia.

- Casamento? balbuciou uma voz submissa.

Linda velou-se em uma nuvem de rubor. Com a confusão, naturalmente escapou-lhe a flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mão trêmula da moça não recebeu senão a doce pressão.

- Quebrou-se o talo! disse ela rapidamente.

Era um motivo para rejeitar a flor, que não podia mais prender no decote, e o pretexto para dá-la ao moço em penhor de sua ternura. Fechando na palma o cravo, Miguel levou-o aos lábios e o beijou com efusão.

Berta, que a distância contemplava toda a cena com uma doce tinta de melancolia, sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho. Mas a mão comprimindo-o rápida, sufocou o turture queixume que se desprendia em um suspiro.

XVIII

REVELAÇÃO

Berta erguera-se, relanceando em torno um olhar sôfrego.

O que procurava ela?

Um brinco, um prazer, uma alegria, onde se refugiasse da tristeza que ia apoderar-se de sua alma. Mas, no meio daquela festa que a envolvia, ela sempre tão jovial, ela em cujo lábio o sorriso borbulhava como onda perene, não encontrou um folguedo que a atraísse.

Descobrira, porém, acocorado contra o ressalto do alicerce, Brás, que roÍa um sabugo de milho assado, cujo grão já tinha devorado. Nessa ocupação, esgrimindo os queixos e coaxando a língua, não desprendia ele os olhos do rosto de Berta, cuja melancolia se refletia na obscuridade de sua alma, como se reflete na face da terra a sombra da nuvem que intercepta os raios do sol.

Chegou-se a menina pressurosa para junto do idiota; o conforto, que não encontrara nas folias que a cercavam, ali estava na afeição generosa e compassiva que lhe inspirava aquela mísera criatura. O desânimo a invadira, acreditando estar só no mundo; mas já não o sentia, pois sua alma tinha ainda uma dedicação para a ocupar, e sacrifícios em que derramasse os mananciais inexauríveis de sua bondade e ternura.

Afagou o idiota com as palavras meigas, de que seu lábio tinha o condão; e ficou ao seu lado para o consolar do isolamento em que o deixavam. Já que não podia caber àquele ente infeliz outro quinhão nessa noite de tamanho regozijo para todos, ao menos lhe reservava ela seu carinho.

Não se teve, porém, a menina que não volvesse outra vez os olhos para o lindo grupo formado pelos dois namorados. Linda, com os estremecimentos íntimos da planta que a manhã orvalha, e a fronte de leve pendida, embebia-se na palavra apaixonada de Miguel, que reclinava-se por detrás da haste da palmeira para falar-lhe ao ouvido.

De novo aflou o seio de Berta com um suspiro, que ela, como ao primeiro, recalcou; mas já não pode desprender o pensamento das cismas em que se enleara, a ponto que não viu o Brás esgueirar-se pela sombra e sumir-se.

Que passava na alma da menina?

Não fora ela quem aproximara Miguel de Linda, e com admirável paciência durante meses urdira a teia delicada que envolvia os dois namorados?

Não era obra sua esse amor, que ela própria embalara como um filho querido, nutrindo-o de suas carícias, enfeitando-o com seus encantos, vivendo e sorrindo-se nele?

Como agora, obtido o êxito de seus desvelos incessantes, em vez da satisfação de ver realizado um voto querido, confrangia-se-lhe o coração com o quadro suave do mútuo afeto, que ainda naquela manhã luzia-lhe na imaginação qual doce esperança?

Parecerá excêntrica e até incompreensível esta situação da alma de Berta naquele instante: entretanto nada mais lógico e natural.

Tinha a menina por Miguel uma dessas afeições de infância, puras, calmas e serenas, primeiros botões, dos quais ninguém sabe que flor vai sair, se uma doce amizade, se uma paixão ardente.

Adivinhando um dia que Linda gostava do moço, em vez de zelos sentiu contentamento de ver querido seu irmão de leite e companheiro de infância. Talvez que ela com sua ingênua admiração bafejasse, no coração da amiga, aquele afeto nascente, retocando com os lumes de sua graça o nobre perfil do mancebo.

A natural esquivança de Miguel trouxe as desconsolações de Linda, que se julgava desdenhada, e vertia no seio da amiga a confidência dessas mágoas. Agoniava-se Berta com essas névoas de melancolia, que ensombravam a fronte da moça; e, para desvanece-las, ia pedir um olhar, uma palavra ao mancebo.

Apesar de ter recebido uma instrução regular, que sua inteligência brilhante desenvolvia com o estudo possível ao lugar onde habitava e às suas condições de fortuna, conservava Miguel certos hábitos que, durante a infância, se incrustam na individualidade, da qual dificilmente os arranca mais tarde a própria vontade.

Esses cacoetes de caipira molestavam o tato delicado de Linda, a quem a educação esmerada, que recebera de sua mãe, dera a fina flor das maneiras e imprimira o tom da mais pura elegância.

Quando Miguel a tratava de mecê, ou enrolava diante dela a palha de um cigarro, o coração da menina apertava-se com agastura indescritível, e ela sofria desgosto igual ao que lhe causaria uma nódoa caindo no mais bonito e faceiro de seus vestidos.

A repetição dessas pequenas decepções acabaria sem dúvida por delir completamente n’alma de Linda a imagem de Miguel. Berta o percebeu, e desde então empenhou-se em desbastar as asperezas que magoavam o melindre da filha de D. Ermelinda.

Não lhe era difícil transmitir os toques da elegância que, ao contato de Linda, prontamente se comunicara à sua alma, de tão pura gema como a dela, embora não a polisse o amor de mãe prendada e rica.

A dificuldade estava em sofrer o gênio esquivo de Miguel esse desbaste de costumes e maneiras, que se tinham impregnado em sua natureza, que faziam parte de sua pessoa, e o tinham formado à semelhança de seus patrícios e camaradas. Mudar esses modos era quase renegar o exemplo de seu pai, as tradições de sua terra, e envergonhar-se de ser paulista, o que bem ao contrário lhe inspirava um justo orgulho.

Não resistiram, porém, estas suscetibilidades ao encanto de Berta. Soube ela provar a Miguel que, antes de ser paulista da gema, era homem e devia render preito à beleza e ao capricho da mulher. Com que raciocínios chegou a essa conclusão, bem se adivinha; o cérebro feminino é uma roda movida pela manivela do coração.

Nessa metamorfose de Miguel, cuidou Berta que apenas a movia o desejo de contentar Linda; mas, sem o sentir, era também levada pelo prazer recôndito de ver seu irmão de leite subir na estima geral e primar entre os outros moços.

Queria-lhe muito bem, a ele, como era então; porém, mais lhe havia de querer, quando fosse o que ela desejava.

Tudo isso fizera Berta para que Miguel e Linda se amassem; fora ela quem, diligente abelha, fabricara, sugando as flores de sua alma, aquele mel perfumado, de que os dois amantes libavam a fina essência.

Mas iludira-se!

Enquanto aquele amor fluía e refluía nela, como uma onda que banhava seu coração; enquanto Linda e Miguel se queriam dentro de sua alma, através de seu olhar ou de seu sorriso, identificara-se por tal forma com essa afeição, que a sentia duplamente, por si e pela amiga.

Era ela quem amava Miguel; mas por Linda. Era Linda a quem Miguel amava; mas na pessoa dela, Berta.

Agora que na delícia das primeiras efusões, nesse egoísmo sublime do amante que se convolve em si para dar-se todo ao objeto amado; quando Miguel e Linda a esqueciam, e, absorvidos no mútuo afeto, a deixavam só, erma de seu pensamento, órfã de seu mútuo afeto, ela suspirava.

E esse suspiro era a tímida confidência que lhe fazia o coração, de um amor que ela sentia pela vez primeira, no momento de o perder para sempre!

- Agora vou eu! gritou Afonso perto do mastro.

Ao mesmo tempo soava o alarido dos rapazes, e Berta corria arrebatadamente para Linda.

Alguma coisa de extraordinário sucedera.

XIX

A LÁGRIMA

No vão de uma janela conversava Luís Galvão com alguns de seus convidados, entre os quais havia mais de um antigo camarada, rapaz de seu tempo.

Voltados para o terreiro, observavam de longe as folias, de que tinham saudades; e muitos porventura invejavam ainda aos moços o prazer das estrepolias, que já lhes permitiam a gravidade dos anos e a rijeza dos músculos.

- O Afonso é endiabrado!

- Tem a quem sair.

- Oh! Se tem! Cá o Luís foi de truz!

- Um maganão chapado!

- Como se enganam! retorquiu Luís a rir. Sempre fui da pacata!

- Da sonsa, talvez!

- O que sei é que no nosso tempo ninguém punha pé em ramo verde!

- Mas não pescava senão peixões.

- Que história estão vocês aí a inventar? tornou o fazendeiro com disfarce.

- E a filha do Guedes, lembra-se?

- A que o marido abandonou?

- A Besita, sim!

- Essa não! exclamou involuntariamente Galvão contrariado.

- Ora negue! Antes e depois.

- Do parto?

- Do casamento!

- Que tal o cujo? exclamaram diversos.

Uma risada geral acolheu a pilhéria, que perturbou o fazendeiro.

- Mudemos de conversa! disse ele com algum vexame.

D. Ermelinda que se tinha aproximado da janela vizinha, à procura da filha, apanhara aquele trecho de conversa; e teve um aperto de coração.

Esquecendo-se do que a trouxe à janela, submergiu-se em uma triste cogitação, com a face apoiada na palma da mão; nem viu mais o que se passava no terreiro, ali quase em face dela.

Miguel continuava a falar a Linda, sobre coisas indiferentes. Mas não escutava a menina essas palavras sem sentido naquele momento: toda ela repassava-se da voz palpitante que penetrava-lhe a alma como a suave melodia de um hino de amor.

Avistara Berta a figura de D. Ermelinda; e receando estranhasse ela a intimidade que tão rapidamente se estabelecera entre a filha e Miguel, correra para disfarçadamente avisar à amiga da presença da mãe, e evitar assim aos dois namorados uma contrariedade.

Outra vez se esquecia de si para lembrar-se de Linda? Ou sua alma generosa desforrava-se por aquele modo, com mais um impulso de abnegação, do esquecimento dos dois amantes?

Foi nessa mesma ocasião que soara o clamor dos rapazes junto ao mastro, o qual oscilava com fortes vibrações e ameaçava partir-se ou arrancar-se do chão, ao peso excessivo que de repente lhe carregara a ponta.

No momento em que Afonso chegava-se para tentar a subida, o pinheiro estremecera violentamente abalado; e os rapazes surpresos descobriram o Brás encarapitado no cimo a que se agarrava com unhas e dentes.

O isolamento e a melancolia de Berta haviam impressionado o idiota, que ruminou em seu bestunto sobre a causa dessa mudança. O rude engrolo de idéias que amassou no cérebro grosseiro, não obteria ele jamais exprimir; nem é possível descreve-lo,

A maior alegria era junto do mastro onde galhofavam os rapazes, e as moças palpitavam à espera da prenda que seu apaixonado alcançaria para ofertar-lhe. Til se afastara e parecia triste; ela, sempre travessa e contente. Devia de ser porque também cobiçava as galanterias que estavam no cabaz preso à ponta do mastro.

Desde então a animalidade do estafermo se resumiu em um só desejo, que tornou-se em ânsia ou desespero de subir ao tope do mastro. Mas como, se ele não se animava a aproximar-se da roda dos rapazes, com receio da vaia que sofreria? Além de que, bem sabia que suas pernas trôpegas não eram para aquele árduo esforço.

Surdiu-lhe uma lembrança. As janelas do mirante ficavam sobranceiras ao tope do mastro, e a última delas justamente defronte, embora em distância que um homem ágil não poderia transpor de um salto.

Que lhe importava! Ele era um louco; e, para levar ao cabo temeridades desse jaez, tinha a grande vantagem de sua brutalidade. Aproveitando-se da distração de Berta, escapou-se de seu lado; sorrateiro ganhou o interior da casa e subiu ao mirante.

Contava com as alças das canastras de Galvão, chegado à tarde de Campinas. Atou uma das cordas à dobradiça da janela, e seguro às pontas, saltou fora, empurrando-se da parede com os pés e embalando-se nos ares.

Em um dos vaivéns, soltando a corda, pode abarcar o tope do mastro, e coroa-lo com o improvisado cocuruto que encheu de pasmo aos rapazes; mas arrancou-lhes depois boas gargalhadas.

Com a força do arremesso, o mastro percutido até a base cambou, e sem dúvida iria ao chão, esmagando o Brás na queda, se Miguel advertido pelo alarido, não visse o perigo e corresse ainda a tempo de evitá-lo.

Em risco de ser também esmagado, o moço escorou com os braços o pesado madeiro, que tombava, e deu tempo a que os outros rapazes, rompendo o enleio do espanto, e animados pelo exemplo, sustivessem o seu esforço.

Já, porém, o Brás, que havia escorregado até o meio do mastro, se deixara cair no terreiro, e corria para Berta com as mãos cheias de flores e mimos, que havia conquistado com a sua temeridade.

Estava Berta junto de Linda, a quem arrancara de seu doce enlevo; mas não a tempo de evitar que a mãe percebesse a sua intimidade com Miguel. D. Ermelinda descobrira os dois namorados, justamente quando Miguel beijava outra vez com fervor o cravo branco, e a mão mimosa de Linda, querendo tomar a flor, deixava-se colher entre as mãos trêmulas do moço.

Despertada como a dos outros pela algazarra, a atenção de Berta se voltara para o mastro, onde passava o incidente, que ela acompanhou com ansiedade. Quando em face dela parou o Brás, que mal se podia suster de comoção, e lhe estendia desgarradamente as mãos cheias de prendas, sem força de balbuciar uma palavra, o coração da menina exultou.

O aborto humano; a figura estrambótica e ridícula; o monstrengo, caíra como o disfarce do arlequim, e descobrira a feição mais nobre da criatura. O que Berta viu foi um coração, e maior ainda e mais sublime, no seio da brutalidade que o constringia.

Abraçou a menina com veemência ao pobre sandeu, e sentindo úmida a face, enxugou nos pelos ásperos da ruiva melena uma gota que empanara o brilho de seus olhos cintilantes. Outras havia chorado, mas foram bolhas d’água: lágrima, era aquela a primeira.

Depois começou ela a enfeitar-se com as flores que lhe trouxera o idiota, prendendo-as pelo talho do vestido e entrelaçando-as nos cabelos. Não trocaria nesse momento os arroubos que, havia pouco, invejara a Linda, pelo júbilo dessa tosca demonstração de um amor, que não tinha para exprimi-lo senão os esgares de um parvo, e cujo sorriso era um repulsivo engrimanço.

Adivinhava-lhe o instinto que não havia afeto mais puro, extreme e sincero do que o desse coração trancado a todas as ilusões do mundo, o desse afeto de uma alma que abortara?

Linda, que observava sorrindo a faceirice de Berta e a ajudava a prender as flores nos cabelos, voltou-se à voz de sua mãe:

- Faça o favor de não sair mais da sala, minha filha, disse D. Ermelinda.

Velava o olhar e a voz da senhora um ressumbro de triste severidade, que anuviou o coração de Linda.

Nesse instante um foguete que rasou a terra, listrando na escuridão da noite uma faixa de luz, destacou ao longe na fímbria da mata um vulto de homem.

Berta reconheceu Jão Fera.

XX

O SAMBA

À direita do terreiro, adumbra-se na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.

Do centro dessa mole negra surge um longo penacho de fumaça, cujo cabo se tinge de escarlate com as línguas da chama quando ala-se. Escapa-se também um borborinho formado não só pelos ressolhos da labareda e crepitações da lenha, como por vozeio e vivas d’envolta com os retumbos soturnos do jongo.

É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.

Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, danças os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se.

Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco.

No furor causado pelo remexido infernal, alguns negros arremetiam contra a fogueira e sapateiam em cima do borralho ardente, a escorrer do braseiro.

Entre estes o primeiro e o mais endiabrado, foi Monjolo; tomando por sua parceira de batuque a própria fogueira, atirou-lhe tais embigadas, que a pilha de lenha derreou e foi esboroando-se. Entretanto o negrinho, a requebrar-se, abria o queixo e atroava os ares com esta cantiga:

Candonga, deixa de partes
É melhor desenganar,
Que este negro da carepa
Não há fogo pra queimar.

Salvo os rr finais que ele engolia e os ll afogados em um hiato fanhoso, tudo o mais era produção do estro africano e da sua veia de improviso.

Uma grossa anca resvalara da fogueira com as embigadas e viera cair junto aos pés cambaios do negro, que saltando-lhe em cima com ímpetos de possesso, começou de moer as brasas com os calcanhares, berrando:

Monjolinho soca milho
Bem socado, pa-ta-pá!
O mamãe, que dê a gamela
Pra juntar este fubá!
Tuque, tuque, tuque, tuque,
Tuque, tuque, zuque, zuque.

De vez em quando o garrafão de cachaça corria a roda. Cada um depois de mil trejeitos e negaças dava-lhe o seu chupão, e fazendo estalar a língua repinicava o saracoteio.

À parte, junto a um dos portões e sob o alpendre das tulhas que ficam a um canto do quadrado, estão em grupo os feitores e camaradas; uns de pé, arrimados aos esteios, outros sentados no pranchão que serve de soleira.

O Mandu arranha na viola uma chula, e o Pereira acompanha o toque com repentes que lhe acodem, enquanto os outros contam façanhas de caipira e vão-se impingindo limpamente um par de formidáveis carapetões.

Bem desejavam os sujeitos entrar na súcia e fazer uma perna no batuque; mas, impedidos pela disciplina da fazenda, contentam-se em olhar de fora e engraçar com as crioulas, que às vezes saem da roda para vir trocar lérias e receber, em paga dos milhos assados e batatas, algum descante neste gosto:

Não como inhame cozido;
Não gosto de milho assado;
Quem me quiser derretido
Me dê mendubi torrado.

Uma preta, porém, ali estava, que decerto não fora trazida por aquele motivo, pois recostada ao frontal do portão, com os olhos voltados amiúde para o lado da casa de morada do senhor, ouvia distraída as chalaças dos capangas.

Essa preta é a Florência: uma estátua de Juno, toscamente lavrada em mármore negro, e coberta com um cabeção de renda que lhe mostra o colo, e uma saia de riscado caída até o meio da perna musculosa.

O Mandu logo que ela chegara, atirou-lhe este mote.

Casca preta, bago branco,
Mas arde que não se agüenta:
Huê, que visaje é esta,
A fruita virou pimenta?

- Qual, disse o Pereira. A moça está com sentido no pajem.

- Ora menina, deixe-se disso. O patife do Amâncio não vem cá!

- Está lá ao cheiro da cozinha! acudiu outro.

A crioula mordeu os beiços de cólera; e começou de rufar os dedos nas grades do portão. Quase ao mesmo tempo destacou na sombra um vulto, no qual logo se reconheceu o mulato.

- Não vem! exclamou a Florência voltando-se com ar exultante para os caipiras e mostrando-lhes o pajem.

- Como vai o pagode, por cá? disse o Amâncio.

Disfarçadamente a crioula arredou-se do grupo dos capangas, e encaminhou-se para a roda do batuque, lançando um olhar ao pajem. Não estava ainda de todo satisfeito o seu gostinho, que era fazer o Amâncio cair no samba rasgado.

Que triunfo para ela, negra da roça, se humilhasse a mucama Rosa, sua altiva rival.

Hesitou o mulato algum tempo, receoso de derrogar de sua nobreza de pajem misturando-se com a ralé da enxada, até que rendido pelos lascivos requebros da crioula, que já se espreguiçava ao som do urucungo, saltou no batuque.

No mais forte sapateado, porém, sentiu o pajem que lhe travavam da gola da jaqueta; e puxado para fora da roda com força, achou-se em face da mucama Rosa, que viera arranca-lo da dança, furente de ciúmes.

As duas rivais se afrontaram com o olhar, por diante da cara desfaçada do mulato. Os alvos dentes de Rosa brilharam engastados em um riso de escárneo, que lhe arregaçava os lábios carnudos, e dentre as fendas dos incisores partiu um rápido esguicho, que bateu em cheio na cara da outra.

Foi pronta a réplica de Florência. Vibrando no ar o braço habituado a manejar a enxada espalmou a mão na bochecha da mucama, que titubeou e decerto iria ao chão a não ampara-la o mulato.

Amâncio à vista do bofetão decidiu-se pela Rosa, e atirou à Florência uma cabeçada. Mas a preta agarrou-o pelos cabelos; e ele apertou-lhe as goelas a fim de livrar-se das garras daquela fúria. Entretanto a Rosa ferrava os dentes no ombro da rival, que defendia-se aos pontapés.

Os pretos da roça acudiram à sua parceira, insultada pela cambada de pajens e mucamas. Os capangas tomaram o partido de Amâncio por uma espécie de coleguismo; e assim tornou-se geral o banzé.

Agachado no meio do terreiro, bebendo seu pito, Monjolo que se retirara do batuque, observava com viva agitação aquela cena. Seus olhos saltados das órbitas, como dois lagartos negros quando pulam da toca, devoravam com uma volúpia feroz a figura de Rosa.

Felizmente acudiu o Faustino que ajudado de outros pajens, arrancou a mucama do sarilho; e levou-a à força para a casa.

À porta do administrador batia a sineta o toque de recolher.

XXI

O INCÊNDIO

Terminara a festa.

A escuridão profunda de uma noite brumosa envolve a casa das Palmas e os edifícios adjacentes.

Do borralho acamado sobre as extintas fogueiras apenas escapam raras fagulhas, que esfoliam-se no ar e se apagam.

Soa ao longe tropel de animais, intercalado às vezes por trechos de alegre descante. São ranchos de convidados que tornam às casas.

Da várzea, entre o zumbir dos insetos noturnos, perpassavam nos sopros da brisa as rascas da viola, que à porta da palhoça ainda arranhava por despedida algum caipira saudoso.

Pouco mais era de meia-noite. A função que prometia prolongar-se até lá pela madrugada, esfriara de repente, com bastante pesar dos velhos comilões, os quais não puderam atolar-se na lauta ceia, pois o tempo mal lhes chegou para fartarem-se uma só vez de cada prato.

Ferida nas duas cordas mais delicadas de seu coração, no amor de esposa e mãe, D. Ermelinda, apesar de grande esforço e do habitual disfarce que o trato da boa sociedade prescreve como regra de cortesia, não pode abafar a tristeza que lhe transbordava dos seios d’alma.

O amortecimento das maneiras afáveis e da graciosa amabilidade da dona da casa derramou nos convidados um súbito constrangimento; a festa perdeu desde logo a sua expansiva alegria; os mais desconfiados, ou os mais paulistas, cuidaram em retirar-se, que não acharam a costumada e carinhosa resistência.

Então começou a debandada. Ainda tentou Luís Galvão reanimar a folia; mas um olhar de sua mulher e o abatimento que se pintava em seu gesto, o demoveu logo do propósito de reter os amigos e prolongar os folguedos.

Já todos se haviam acomodado para dormir; só D. Ermelinda, com o mesmo traje da festa, que não despira ainda, velava imóvel no seu toucador.

Atirada ao fundo de um sofá, na sombra que projetava um vaso de porcelana colocado diante da vela para quebrar a luz, tinha os olhos fixos na imagem de N. S. das Dores, que se via sobre a cômoda em um nicho de jacarandá.

Talvez pedisse à Mãe de Deus, à divina consoladora dos aflitos, um conforto para sua alma, atribulada naquele instante por pensamentos que a enchiam de horror e angústia.

Nunca passara pela mente de D. Ermelinda pedir a seu marido contas de um passado que não lhe pertencia, e até por melindre natural evitara sempre folhear aquela página da mocidade de Luís Galvão. Advertia-lhe o coração das desilusões que ali a aguardavam; e por isso preservara a sua ignorância como um véu protetor contra as suscetibilidades e zelos de sua alma.

Subitamente, porém, quando menos esperava, surge-lhe aquele passado, dentre as alegrias de uma festa, e lança em seu espírito uma certeza fatal, a que por muitos anos e tão cuidadosamente se esquivara.

E sobre esse golpe, outro ainda mais cruel talvez para almas como a sua, apuradas por uma suprema delicadeza e uma esquisita sensibilidade. A forma rude e baixa por que se tinha revelado o passado de Galvão, sobretudo a magoou profundamente.

Se lhe contassem da mocidade de seu marido alguma afeição pura e generosa, no meio do seu desencanto, teria ao menos o doce consolo de haver delido d’alma de Luís aquela imagem querida, gravando sobre ela a sua.

Mas a notícia de uma aventura galante, própria de um libertino, além de arranca-la à querida ilusão de ter sido o primeiro amor, lhe derramara n’alma uma agrura, como nunca sentira.

O caráter que até ali respeitara, descia de repente em seu conceito; e ela enchia-se de pavor quando sua imaginação, exaltada pelo sofrimento, lhe abria as profundezas insondáveis onde podia se precipitar o homem a quem ligara sua sorte.

Depois, por uma natural associação, recordando-se da intimidade de Linda com Miguel, no coração da mãe caíam as gotas acerbas que vazavam do coração da esposa. Pensava D. Ermelinda, que a filha criada por ela com tanto esmero, sucumbia à fatalidade e ia arrastada por um pendor irresistível, que o pai lhe transmitira de herança.

Assim como Luís uma vez deslizara da honra que pautara sempre os atos de sua vida, e a nobreza de seu caráter se eclipsara ante a sedução de uma moça, Linda cuja alma ela se comprazera em colocar numa esfera elevada, se inclinava a um rapaz de posição muito inferior.

E aqui a sua fantasia, convolvendo as torturas da esposa com ânsias de mãe, esvairava por modo que ela, espavorida de sua própria mente e não podendo sofreá-la, asilava-se contra esse delírio numa oração fervente a Nossa Senhora.

Luís Galvão, inquieto com a demora da mulher, a chamara; e, não recebendo resposta, veio acha-la na mesma posição.

- Que tem você, Ermelinda?

Estremeceu a senhora; e toda ela pulsou, como se a dor que tinha calcado dentro da alma se agitasse para refluir aos lábios. Mas a boca descerrando-se deixou escapar apenas um ofego, e ficou muda.

A palavra é estreita para dar passagem às mágoas amassadas no coração, quando se arremessam no primeiro ímpeto e de um só jato.

- Nada! respondeu D. Ermelinda.

- Por que não se deita?

Nesse instante repercutiu no aposento o som de três pancadas fortes, secas e breves, dadas rapidamente uma sobre outra.

Abriu Galvão a janela do canto, que ficava na ala direita do edifício, para observar o terreiro, donde viera o estrépito. Mas este cessara bruscamente com a última pancada; e o silêncio de todo se restabelecera.

Debruçando-se à janela, o fazendeiro lobrigou uma sombra que parecia resvalar ao longo da parede.

- Quem está aí?

Não houve resposta. Julgando ter-se enganado em tomar por vulto humano o vôo de um morcego ou qualquer outro pássaro noturno, ainda mais o convenceu disso um guincho de curiau, que estrugiu para o lado da senzala.

Não se enganara, porém, o fazendeiro. Foi de fato um homem, que se coseu à parede e se encaixou no vão de uma porta, onde permanecia imóvel e esticado para dissimular a saliência do corpo.

Tendo fechado por fora os pajens e capangas no repartimento que eles ocupavam, cuidou Faustino de impedir-lhes a saída por uma das janelas que não tinha grades. Para esse fim munido dos instrumentos necessários, encostou-se a ela para prega-la.

A esse tempo arrumava-se ao muro uma trouxa negra que avançara pelo terreiro aos pinchos como um sapo. Era o Monjolo que já havia furtado as chaves da senzala e vinha ter com o pajem.

O africano ruminava a idéia de suprimir desde logo o Faustino, a fim de lograr ele só os proventos do trama. Naquele curto instante correu o pajem sério perigo de que o salvou o rumor da janela ao abrir-se.

Afastando-se ligeiro para a senzala, soltou o Monjolo o guincho que tranqüilizou o fazendeiro, e entretanto era o sinal do trama sinistro.

Acabava Luís Galvão de correr o trinco da janela quando no canavial a primeira labareda se arremessou nos ares, enroscando-se como uma serpente de fogo.

XXII

A TRAIÇÃO

Rolos de chamas envoltas em denso bulcão de fumo subiam aos ares.

A casa das Palmas e suas dependências, vistas de longe, pareciam submersas em um turbilhão de fogo, que surgia das entranhas da terra e convolvia-se pelo negrume do espaço.

Açoitada pelo vento, a labareda estorcendo-se e rabiando, rugia de sanha; ou sufocada um instante pelas abóbadas de fumaça e pelas camadas de palhiço, troava como um canhão, arrojando-se às nuvens.

De instante a instante ouvia-se uma descarga de fuzilaria, correndo ao longo daquela faixa incendiada que figurava a ala de um exército em renhida batalha. Eram os gomos das canas, que estalavam ao intenso calor do fogo.

Com os sibilos da labareda enroscada no ar, confundiam-se os silvos das cascavéis e jararacas, que surpreendidas pelo incêndio, arremessavam-se furiosas contra o fogo e rompiam estortegando pelo campo abrasado.

As aves noturnas deslumbradas com o súbito clarão, fugiam soltando guinchos de terror, enquanto as feras, insufladas pelo instinto da desolação, uivavam no fundo da floresta e trotavam ligeiras para arrebatarem a presa ao incêndio e se abeberarem de sangue.

Medonho espetáculo!

O incêndio crescia com tal velocidade, que parecia uma catarata de fogo, a inundar o espaço, ameaçando comunicar-se à floresta, e submergir a terra em um pélago de chamas.

Do seio daquele surdo rumor produzido pelo ressolho da labareda, se desprendeu e reboou ao longe um grito soturno; mugir da turba espavorida antes as tremendas convulsões da natureza.

- Fogo!... fogo!... fogo!...

Correndo à janela e abrindo-a outra vez, Luís Galvão recuou espantado com a viva claridade, que o incêndio projetava sobre o terreiro e que lhe ferira os olhos.

Foi rápido, porém, o deslumbramento. Debruçando-se no peitoril e descobrindo o foco do incêndio que vomitava labaredas como a cratera de um vulcão, o fazendeiro compenetrou-se imediatamente da realidade.

- O que é? perguntou D. Ermelinda, que parara aterrada no meio do aposento.

- Fogo no canavial.

Atirada esta resposta à mulher, Luís Galvão saltou no terreiro e deitou a correr para as plantações, lançando aos brados aquelas mesmas palavras, como aviso aos feitores e gente da fazenda.

À exceção de alguns escravos fechados na senzala, a quem o clarão despertara, estavam os mais ferrados no sono profundo, que sucedera mui naturalmente ao cansaço dos folguedos de São João e às libações copiosas.

Assim, já Luís Galvão passara a tronqueira da roça que o administrador, ainda tonto de sono, babatava à busca das chaves da senzala para soltar a gente; e os feitores, acordados de sobressalto, se olhavam estupefatos, sem consciência do que estava passando.

O fazendeiro lançou-se na direção do incêndio, pensando que toda a gente da fazenda não tardaria a segui-lo, e ansioso por avaliar da intensidade do fogo como de sua marcha. Lembrara-se que o tanque ficava sobranceiro ao canavial, a arrombando-o podia arrojar sobre o foco do incêndio uma formidável manga d’água que o extinguisse.

Enganara-se, porém, Galvão. Apenas lhe iam no encalço, mas agachados e esgueirando-se por entre a folhagem os dois vultos de Faustino e Monjolo, impaciente de assistirem à catástrofe, e verem consumado o crime de que dependia a satisfação de seus desejos.

Ainda desta vez Monjolo tinha amiúde ímpetos de atirar-se ao pajem, e cravar-lhe o quicé no coração; sobretudo quando lembrava-se que Barroso prometera àquele a liberdade e posse de Rosa.

Mas continha-se; e não por escrúpulo, mas por um requinte de crueldade.

Só, na alcova onde a tinha deixado o marido, D. Ermelinda transida de susto com o anúncio do incêndio, arrastou-se afinal para a escada do mirante; ao tempo em que já a filha despertada pelo rumor a procurava, e Afonso arrancado ao sono ganhava terreiro para acudir ao que fosse preciso.

- Onde está meu pai? perguntou ele.

- Lá, no canavial, Afonso! Corre, meu filho!...

Estimulando o mancebo com esta prece ansiada, acompanhava a senhora com olhar ardente o vulto do marido, que chegava ao canto do carreador e destacava-se na zona abrasada que o incêndio projetava em torno.

Tinha-se já arremessado avante o mancebo, quando estacou de súbito, ouvindo um grito de angústia que partia do mirante. Voltou-se e não viu mais D. Ermelinda.

- Minha mãe! O que é?

- Acuda, mano! clamava Linda com voz dilacerante.

Um reflexo da labareda mostrou rapidamente ao moço, no muro do mirante, a figura transtornada da irmã, que apontava para o canavial, arcando contra o parapeito como se quisesse precipitar-se. Mas antes que o vislumbre da chama passasse, abateu-se aquela sombra.

Chorava a filha sobre o corpo inanimado da mãe.

Desmaiara D. Ermelinda ao ver, no canavial, surgir da sobra um homem, que, brandindo um cacete sobre a cabeça de Luís Galvão, o prostrou ao chão como um corpo morto.

Era o Gonçalo Suçuarana.

XXIII

VAMPIRO

Quando Gonçalo se curvava para soerguer o corpo do fazendeiro e arremessa-lo no meio das chamas, um vulto emergiu da sombra.

Jão Fera estava em face dele.

Recuou o Suçuarana de um salto, e sacou da cinta a pistola que desfechou sobre o inimigo à queima-roupa. Não acertando o primeiro e segundo tiro, puxou da catana; e começou a esgrimi-la cortando o ar.

O capanga avançava lento, mudo, sombrio, sem arma em punho, nem sequer um gesto de ameaça; e, todavia, era ele Gonçalo, apesar de armado, quem recuava diante daquele vulto impassível.

Afinal, o pulso do Suçuarana, fatigado de cutilar o vento, afrouxou. Não teve ele tempo de pressentir o perigo; colhido pelas espáduas girou no ar e foi abater-se no canavial abrasado onde o arrojara o braço pujante de Jão Fera, que antes de arremessar o corpo, o havia estrangulado.

Nesse momento conseguira erguer-se Luís Galvão. Recobrando gradualmente os sentidos, observara o fazendeiro o fim da luta, e compreendera que devia a existência a Jão Fera.

Este fitava a labareda que envolvera o corpo do Suçuarana. Espessa e carregada de grosso fumo, a chama se arrastava como a jibóia que lambe a presa para traga-la; mas outra vez ligeira e farfalhante desprendeu-se no ar como a língua da serpente; e fendendo-se mostrou no meio do brasido o corpo já calcinado do fanfarrão.

Um sorriso de feroz volúpia franziu os lábios do capanga, que ficou um instante absorto naquele intenso prazer. Recobrado afinal, voltou-se com a idéia de correr além, e deu com Luís Galvão, que estendia-lhe a mão:

- Você me salvou, Jão! Obrigado!

- Salvei; mas não sabe por que? respondeu o capanga com a fala soturna, cravando um duro olhar no semblante do fazendeiro.

Este ia responder; Jão atalhou-o.

- Livrei-o de morrer, porque sou eu quem o há de matar, quando chegar sua hora!

Lançando-lhe estas palavras com desprezo, voltou as costas o capanga para afastar-se dali.

- Tanto mal quer-me você, Jão?

O Bugre estacou sofreado por uma força íntima a que ele tentava resistir; depois de curta hesitação, arrojou-se em frente do fazendeiro para dizer-lhe com a voz dilacerada pela cólera:

- Mais de cem vezes já eu teria cravado em teu coração esta faca, se não fosse aquela que está no céu, e a filha que deixou na terra. Vê que raiva sinto eu quando me lembro que tu ainda vives!

Rangiam os dentes do capanga; e, todo ele convulso de furor, ameaçava o fazendeiro com a sanha de um tigre.

Ainda desta vez, porém, conseguiu dominar-se. Arrebatando-se ao ímpeto que já o arrojava sobre Luís Galvão, deitou a correr por um carreador que invadira o incêndio; e desapareceu por baixo das abóbadas formadas pelas chamas.

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