Quando Ubirajara aproximou-se da cabana, Pojucã tomou-lhe o passo.
- Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da nação araguaia, não confessaste tu, diante dos anciões das tabas e de todos os teus guerreiros, que Pojucã era o varão mais forte e o mais terrível no combate, que o sol tinha visto até o momento de ser vencido por ti?
- Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia.
- Desde que tu cruzaste comigo a seta do desafio até este momento, Pojucã, guerreiro varão, e chefe de uma taba na valente nação dos tocantins, mostrou-se pela sua constância e valor digno do sangue de seus avós?
- Pojucã o disse, e a fama o repete.
- Então, por que Ubirajara, o grande chefe dos araguaias, não concede a Pojucã a morte gloriosa, que os tocantins jamais recusaram a um guerreiro valente, e que somente se nega aos fracos? Já não serviu Pojucã à tua glória na festa do triunfo? Esperas dele que te obedeça como um escravo? Se aviltas o varão a quem venceste, humilhas o teu valor que ele exaltava.
O grande chefe araguaia ouviu sem interromper o prisioneiro e respondeu com gravidade
- Ubirajara não recusa ao bravo chefe tocantim, seu terrível inimigo, o suplício, que não negaria a qualquer guerreiro valente. Ele esperava que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucã possa, no dia do último combate, sustentar a fama de seu nome, e a glória de um varão que só foi vencido por Ubirajara.
O grande chefe dos araguaias levou aos lábios a inúbia de Camacã; a voz do mando reboou pelo vasto âmbito da taba.
Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem ele ordenou que chamasse a conselho os anciões.
Depois tornou ao chefe tocantim
- Os araguaias receberam de seus avós o costume das nações que Tupã criou. Eles destinam ao prisioneiro a mais bela e a mais ilustre de todas as virgens da taba, para que ela conserve o sangue generoso do herói inimigo e aumente a nobreza e o valor de sua nação.
"É esta também a lei, que os guerreiros tocantins observam em suas tabas.
"A mais bela e a mais nobre de todas as virgens araguaias, aquela que se ergue como a palmeira no meio da campina coberta de flores, é Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces favos da abelha."
Travando então do pulso de Jandira, que ali ficara presa de sua vista, levou-a ao prisioneiro.
- Recebe-a como esposa do túmulo.
***
Jandira, que ouviu espavorida aquelas palavras, quis fugir; porém a mão do chefe araguaia a reteve.
- Ubirajara parte, mas ele voltará para assistir a teu suplício e vibrarte o último golpe. Pojucã terá a glória de morrer pela mão do mais valente guerreiro.
***
Ficaram Jandira e Pojucã em face um do outro.
- Virgem dos araguaias, Tupã te reservou para esposa do mais terrível dos inimigos de tua nação. O filho de seu sangue será o mais valente dos guerreiros; tu sentirás orgulho por havê-lo gerado em teu seio.
- Pojucã, chefe tocantim, Jandira nunca será tua esposa.
- Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não te destinou ele para servir de noiva do túmulo ao guerreiro que vai morrer no suplício?
- Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia; à sua voz cala-se a palavra dos anciões; a seu gesto curva-se a fronte dos guerreiros; à sua vontade obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, ninguém manda, nem Tupã. Jandira é noiva de Ubirajara, e se ele não quiser aceitá-la, o guanumbi a levará para os campos alegres onde repousam as virgens que morreram.
- Pojucã não carece do amor de Jandira. Nas tabas dos tocantins, a mais bela das virgens se regozijaria de pertencer ao mais valente dos chefes e de habitar sua rede. Nas tabas dos araguaias, onde nascem guerreiros como Ubirajara, não faltarão virgens formosas, que desejem a glória de ser mãe de um filho de Pojucã.
- Jandira seria a primeira, se não conhecesse Jaguarê, o mais belo dos jovens caçadores, que é hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos chefes. Pojucã merece uma esposa que nunca tenha ouvido o canto de outro guerreiro, para dar-lhe um filho digno dele.
- Os ritos de tua nação não punem a noiva que rejeita o prisioneiro?
- Jandira sabe que sujeita-se à morte; mas a morte é menos cruel do que o abandono.
- Então foge, virgem dos araguaias; e esconde-te à cólera dos anciões. Talvez mais tarde Ubirajara se arrependa e te perdoe.
- Jandira parte. Ela te deseja uma esposa terna e a morte gloriosa.
A filha de Majé penetrou na floresta e afastou-se rapidamente da taba.
Quando já estava muito longe, sentou à sombra de um manacá coberto de flores e cantou
- Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava os favos de cera para enchê-los de mel saboroso.
"Agora arrancaram-me as minhas asas com que eu voava pela campina colhendo o pó das flores e secou a docura de meu sorriso.
"O canto que saía de meu seio era como o da patativa ao pôr-do-sol, quando se recolhe em seu ninho de paina macia.
"Agora eu queria ter no coracão uma serpente para morder aquela que roubou-me o amor de meu guerreiro.
"Guardei a minha formosura para orgulho do esposo, e inveja dos outros guerreiros.
"Agora eu trocaria a flor do meu rosto por um aspecto terrível que infundisse pavor.
"Meus seios mais lindos que os botões do cardo, por um peito feroz, e as mãos ligeiras que tecem os fios do algodão pelas garras do jaguar.
"Eu fui Jandira, o manacá viçoso que se vestia de flores azuis e brancas.
"Agora sou como a juçara que perdeu a folha, e só tem espinhos para ferir aqueles que se chegam."
***
Os anciões já estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara entrou.
Falou Camacã
- Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, os pais da grande nação araguaia escutam a tua voz.
O grande chefe três vezes bateu no chão com a ponta do arco e disse
- Pojucã, o chefe tocantim, pede a morte do combate; ele a merece, porque é um grande guerreiro e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe essa honra, como seu vencedor.
- Ubirajara é um inimigo generoso, respondeu Camacã.
Todos os anciões inclinaram gravemente a cabeça encanecida para exprimirem sua aprovação às palavras de Camacã.
Prosseguiu Ubirajara
- É tempo de escolher para o prisioneiro uma esposa digna de acompanhar em seus últimos dias ao herói inimigo, e de ser mãe do marabá, o filho da guerra.
Todos os abarés desejavam para si a glória de oferecer uma filha ao prisioneiro.
- Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé. Ela o merece por sua formosura e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias.
- Ubirajara é um grande chefe, disse Camacã.
Os anciões aprovaram outra vez com a cabeça; Majé acrescentou
- O sangue do velho Majé não desmentirá em Jandira a fama da nação araguaia.
- Não! disse Ubirajara, e todos os anciões repetiram-Não!
O grande chefe tornou com a voz pausada
- Celebrai a cerimônia da entrega da esposa ao prisioneiro. Ubirajara parte; só estará de volta na próxima lua para assistir ao suplicio de Pojucã. Se na ausência de Ubirajara cair na taba a flecha, núncia da guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraçam os grandes rios e soltai a voz da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será convosco.
Os prudentes anciões, com a cabeça inclinada para melhor ouvir, recebiam as palavras do grande chefe e as guardavam na memória.
Quando Ubirajara calou-se, Camacã repetiu, ainda mais pausado, as recomendações do filho
- É esta a vontade de Ubirajara?
- Tu o disseste.
- Os anciões guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda Camacã.
- Ela entrou no espírito dos abarés, como a raiz no seio da terra; observou Majé.
- Bem dito; repetiram todos.
Ubirajara saiu do carbeto; após ele os anciões se retiraram lentamente.
A HOSPITALIDADE
Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins. É a hora em que as sombras abraçam os troncos das árvores e o sol descansa em meio da carreira.
A floresta emudece e todos os viventes se abrigam da calma que abrasa.
Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos tocantins.
Quando chegou à distância do tiro de uma flecha despedida pelo mais robusto guerreiro, tocou a inúbia.
O guerreiro de vigia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta, alçou a mão direita para mostrar a senha da paz.
Então avançou para a taba; na entrada da caiçara que cercava o campo dos tocantins, atirou ao chão a seta partida.
Os guerreiros que tinham acudido ao som da inúbia, deixaram passar o estrangeiro sem inquirir donde vinha, nem o que trouxera.
Era este o costume herdado de seus maiores; que o hóspede mandava na taba aonde Tupã o conduzia.
Ubirajara passou entre os guerreiros e dirigiu-se à cabana mais alta que ficava no centro da ocara.
A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta, dizia que era ali a cabana do grande chefe. Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira à grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sítio once habitava Araci, a estrela do dia.
A cabana estava deserta naquele instante, mas ouvia-se a fala das mulheres que trabalhavam no terreiro.
Ubirajara transpôs o limiar e, levantando a voz, disse
- O estrangeiro chegou.
Acudiram as mulheres e conduziram Ubirajara à presença do grande chefe dos tocantins.
Itaquê passava as horas da ardente calma à sombra da frondosa gameleira, que podia abrigar cem guerreiros embaixo de sua rama.
Repousando dos combates, o formidável guerreiro não desdenhava as artes da paz em que era tão consumado como nas batalhas.
Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho à família de que era pai, e à nação de que era chefe.
Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas, urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em forma de pente. Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como na peleja vibrava o tacape. Sua mão ligeira tramava a teia de uma rede, que entretecia das penes douradas do galo-da-serra.
Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter rematado a urdidura, entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que estava a seu lado, e veio ao encontro do hóspede.
- O estrangeiro veio à cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim; disse Ubirajara.
- Bem-vindo é o estrangeiro à cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim.
Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãe de seus filhos
- Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, pare que ele e o estrangeiro troquem a fumaça da hospitalidade.
Os mensageiros já corriam pela taba, avisando os guerreiros moacaras da vinda do hóspede à cabana de Itaquê.
Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o passo grave à oca principal, a fim de honrar o hóspede do grande chefe da nação tocantim.
Ali chegados, cada um dirigiu ao estrangeiro a pergunta da hospitalidade e deu-lhe a boa-vinda.
***
Depois que Itaquê ofereccu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com ele trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram a saudação da chegada
"O hóspede é mensageiro de Tupã. Ele traz a alegria à cabana; e quando parte, leva consigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.
"Nas tabas por onde passe, e na terra de seus pais, ele conta aos velhos, que depois ensinam aos moços, as proezas dos heróis que viu em seu caminho, e de quem recebeu o abraço da paz.
"O hóspede é mensageiro de Tupã. Ele traz consigo a sabedoria; na cabana do guerreiro, que tem a fortune de o acolher, todos o escutam com respeito.
"Em suas palavras prudentes, os anciões da taba aprendem, para ensinar aos moços, os costumes dos outros povos, as façanhas de guerras desconhecidas por eles, e as artes da paz, que o estrangeiro viu em suas viagens.
"O hóspede é mensageiro de Tupã. O primeiro que apareceu na taba dos avós da nação tocantim, foi Sumé, que veio donde a terra começa e caminhou pare onde a terra acaba.
"Dele aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer a farinha; e a tirar do caju e do ananás o generoso cauim, que alegra o coração do guerreiro.
"O hóspede é mensageiro de Tupã. Quando o estrangeiro entra na cabana, o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, não sabe se ele é um chefe ilustre ou o grande Sumé que volta de sua viagem.
"O sábio ensina, por onde passa, os segredos da paz, e o herói, as façanhas da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade, a glória de ter abrigado um grande varão.
"O hóspede é mensageiro de Tupã. Por seu caminho vai deixando a abundância e a festa; depois do banquete da boa-vinda, as árvores vergam com os frutos e a caça não cabe na floresta.
"A cabana, que fecha a porta ao hóspede, o vento a arranca, o fogo do céu a abrasa. O guerreiro que não se alegra com a chegada do hóspede, vê murchar ao redor de si a esposa, os filhos, as mulheres e as roças que ele plantou.
"Bem-vindo seja o estrangeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da nação tocantim, que teve a glória de ser escolhido pelo hóspede.
"Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te saúdam, mensageiro de Tupã."
Enquanto na cabana ressoa o canto da boa-vinda, Jacamim, a esposa de Itaquê, chamou as amantes do marido, sues servas, pare ajudá-la a preparar o banquete da hospitalidade.
As servas pressurosas estenderam à sombra da gameleira as alvas esteiras de palmas entrançadas de airi; e colocaram sobre elas os urus cheios de farinha-d'água.
Trouxeram também os camucins rasos, onde se apinhavam as moquecas envoltas em folhas de banana, e peças de carne, assada no biaribi, que ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.
Depois suspenderam a caça mais volumosa, veados e antas, assim como as igaçabas de cauim, nos ramos inclinados da árvore, em altura que o braço do guerreiro pudesse alcançar.
Frutas de várias espécies, pencas douradas de bananas, cachos roxos de açaí, os rubros croás e os fragrantes abacaxis, enchiam o jirau levantado no meio do terreiro.
***
Jacamim conduzira o hóspede à sombra da gameleira, onde o esperava o banquete da chegada.
Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham vindo para a festa da hospitalidade.
Os guerreiros comeram em silêncio. As mulheres diligentes os serviam, enchendo de vinho de caju e ananás as largas cumbucas, tintas com a pasta do crajuru que dá o mais brilhante carmim.
Quando o hóspede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as mãos, Jacamim ordenou às servas que recolhessem os restos das provisões, e retirou-se com elas.
Também afastaram-se os jovens guerreiros, que ainda não tinham voz no conselho. Só ficaram sentados com o hóspede, Itaquê, e os moacaras, senhores das cabanas.
O cachimbo do grande chefe passou de mão em mão e cada ancião bebeu a fumaça da erva de Tupã, que inspira a prudência no carbeto.
Então disse o chefe
- Itaquê deseja dar a seu hóspede um nome que lhe agrade; e precisa que o ajude a sabedoria dos anciões.
A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao estrangeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação.
Talvez fosse um inimigo; e o hóspede não devia encontrar na cabana onde se acolhia, senão a paz e a amizade.
O chefe, que tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de que ele devia usar enquanto permanecia na cabana hospedeira.
Foi Ipê quem primeiro falou
- Tu chamarás ao hóspede Jutaí, porque sua cabeça domina o cocar dos mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro aparece por cima da mata.
Disse Tapir
- Chama ao hóspede Boitatá, porque ele tem os olhos da grande serpente de fogo, que voa como o raio de Tupã.
Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e como a voz começava do mais moço para acabar no mais velho, as últimas falas eram menos guerreiras e traziam a prudência da idade.
Assim Caraúba, que era o segundo antes do chefe, disse
- Itaquê, o hóspede é o núncio da paz. Tu deves chamá-lo Jutorib, porque ele trouxe a alegria à tua cabana.
Guaribu, cujos anos enchiam a corda de sua existência de mais nós, do que tem o velho cipó da floresta, falou por último
- O viajante é senhor na terra que ele pisa como hóspede e amigo; e o nome é a honra do varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta ao estrangeiro como ele quer ser chamado na taba dos tocantins.
- Bem dito!
Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião, perguntou a Ubirajara que nome escolhia; este lhe respondeu
- Eu sou aquele que veio trazido pela luz do céu. Chama-me Jurandir.
Nesse momento, Araci, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras e caminhou para a cabana.
Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a formosa caçadora. Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da virgem.
Os cantores saudaram de novo o hóspede pelo nome que ele escolhera
- Tu és aquele que veio trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha.
"Tu és aquele que veio trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos Jurandir; e o nome de tua escolha alegrará o ouvido dos guerreiros. "
***
De longe Araci viu o estrangeiro, sentado entre os anciões, como o frondoso jacarandá no meio dos velhos troncos das aroeiras.
A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e adivinhou que ele viera à cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.
O coração de Araci encheu-se de alegria. Seus negros cabelos estremeceram de contentamento, como as penas da jaçan quando pressente o formoso inverno.
O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixara o cocar das plumas da arara, que eram o ornato guerreiro de sua nação. Mas a imagem do jovem caçador ficara na lembrança da virgem, como fica na terra a verde folhagem, depois da lua das águas.
A lei da hospitalidade proibia à virgem revelar o segredo do estrangeiro, só dela sabido. Nesse momento foi à sua alma que obedeceu e não ao costume da nação.
Quando Araci chegou ao terreiro, os anciões se preparavam para ouvir a maranduba do hóspede. Os guerreiros e as mulheres escutavam em silêncio.
O estrangeiro começou
- Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não viveu bastante para saber o que os anciões da grande nação tocantim aprenderam nas guerras e nas florestas.
"O moço é o tapir que rompe a mata, e voa como a seta. O velho é o jabuti prudente que não se apressa.
"O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. O jabuti observa tudo, e sempre chega primeiro.
"Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas; e atravessou mais rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai.
"A primeira água em que Jaçanã, sua mãe, o lavou, quando ele rasgou-lhe o seio, foi a do grande lago onde Tupã guardou as águas do dilúvio, depois que as retirou da terra.
"Ainda Jurandir não era um caçador, quando ele se banhou no pará sem fim, onde os rios despejam a sua corrente, e cujas águas quando dormem se mudam em sal.
"Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios, desde a grande montanha onde nasce, até a várzea sem fim que ele enche com suas águas.
"Ele viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois chefes tocam a inúbia antes da peleja, para chamar seus guerreiros.
"Vêm de um lado as águas do mar; são os guerreiros azuis, com penachos de araruna; vêm do outro as águas do rio; são os guerreiros vermelhos com penachos de nambu.
"Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das águas.
"Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos ombros; solta o grito de triunfo.
"Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre as árvores, vêem passar correndo as águas do marsão os guerreiros azuis que fogem espavoridos e vão esconder-se na sombra das florestas.
"Jurandir também viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, que vivem embaixo das águas do grande rio.
"Só elas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros cativos de seu amor, sem privá-las da liberdade.
"Por isso, todas as luas, grande número de guerreiros as visitam em sua taba; e elas guardam para os mais valentes a flor de sua beleza.
"Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam somente as filhas; e enviam aos guerreiros os filhos, donde saem os maiores chefes.
"Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flor do seu sangue. O filho será maior do que ele; e o neto maior do que o filho.
"Sua geração vai assim crescendo de tronco em tronco; e forma uma floresta de guerreiros, onde o último cedro se ergue mais frondoso e robusto, porque recebe a seiva de seus avós. "
***
Quando Jurandir proferiu as últimas palavras, seus olhos que tinham muitas vezes buscado Araci, repousaram nela.
A virgem tocantim compreendeu que o estrangeiro se referia a si; e não escondeu sua alegria, como não esconde sua flor a juquiri que o rio beija.
A formosa caçadora cantou. Sua voz era límpida e sonora como o gorjeio do sabiá, quando se deleita com o calor do sol.
- Feliz a terra que recebe a semente do cedro frondoso e robusto; ela se cobrirá de sombra e frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí para falar da paz e da guerra.
"Ela é como a virgem que um chefe ilustre escolheu para sua esposa, e que se povoa de uma prole numerosa. As nações a respeitam porque é a mãe de valentes guerreiros; os anciões escutam seu conselho na paz e na guerra.
"As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, são como a palmeira do muriti, que rejeita o fruto antes que ele amadureça e o abandona à correnteza do rio.
"A esposa não desprende de si o filho, senão quando ele não chupa mais seu peito. Ela é como a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é a flor de seu sangue.
"Não é na terra das mulheres guerreiras que o estrangeiro deve buscar a esposa; mas na taba de sua nação, onde Tupã guarda para seu valor a mais bela das virgens, aquela que tem o sorriso de mel."
O hóspede respondeu
- Jurandir sabe onde encontrará a virgem que deseja para esposa. A luz do céu o guia, e nada resiste à força de seu braço.
Depois de responder ao canto de Araci, o estrangeiro continuou sua maranduba, que todos ouviram silenciosos.
Ele contou o que havia aprendido nas praias do mar, habitadas pela valente nação dos tupinambás, descendentes da mais antiga geração de Tupi.
Os pajés dos tupinambás lhe disseram que nas águas do pará sem fim vivia uma nação de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar.
Um dia esses guerreiros sairiam das águas para tomarem a terra às nações que a habitam; por isso os tupinambás tinham descido às praias do mar, para defendê-las contra o inimigo.
Os guerreiros do mar também tinham suas guerras entre si, como os guerreiros da terra. Então as águas pulavam mais altas do que os montes; seu estrondo era como o trovão.
Jurandir contou mais, que nas praias do mar se encontrava uma resina amarela, muito cheirosa, a qual a grande serpente criava no bucho.
Os tupinambás faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir mostrou a pulseira que lhe cingia o artelho, presente de um guerreiro daquela nação.
Essas contas tornavam o pé do guerreiro ágil na corrida, e protegiam o viajante contra os caiporas da floresta, que apartavam-se de seu caminho.
Muitas outras coisas referiu Jurandir; e os anciões admiravam-se de ver o juízo prudente de um abaré no corpo jovem de tão forte guerreiro.
Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o hóspede era filho de Sumé, mandado por seu pai correr as terras que o sábio tinha visto em sua mocidade.
Calaram porém seu pensamento, para o comunicarem aos anciões quando se reunisse o carbeto da nação.
***
O sol já descia para as montanhas, quando terminou a festa da hospitalidade na cabana de Itaquê.
Os moacaras partiram. Itaquê voltando à sua ocupação, deixou o hóspede senhor de sua vontade, para fazer o que lhe agradasse.
Vieram os jovens pescadores da taba, com os anzóis e jequis, saber do hóspede que peixe ele preferia.
Depois deles chegaram os jovens caçadores que, antes de partir para a floresta, vinham receber os desejos do hóspede.
Por fim aproximaram-se as mulheres que já tinham rompido o fio da virgindade; mas não eram nem esposas, nem amantes de guerreiros.
Essas eram as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando queriam, mas não recebiam a proteção de um guerreiro, nem podiam jamais ser mães da prole.
Os filhos, concebidos no próprio seio, só tinham por mãe a esposa, que o guerreiro tomou por companheira de sua existência e raiz de sua geração.
O rito da hospitalidade, entre os filhos da floresta, manda que se dê ao estrangeiro amigo tudo que deleita ao guerreiro.
Por isso vinham as moças oferecer a Jurandir sua beleza, para que ele escolhesse entre elas uma companheira, que partilhasse sua rede na cabana hospedeira.
Todas se tinham enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos olhos de Jurandir; pois não havia para elas maior glória do que a de merecer o amor do estrangeiro.
Umas traziam as tranças urdidas com penas vistosas dos pássaros de sua predileção; outras haviam perfumado da essência do sassafrás os cabelos soltos, que derramavam sua fragrância ao sopro da brisa.
Chegando diante do estrangeiro, começaram uma dança amorosa para mostrar a graça do seu corpo. Aquelas que tinham a voz doce cantavam em louvor de Jurandir.
Araci fora buscar seu balaio de palha vermelha, e sentara-se no terreiro, junto à porta da cabana. Seus dedos ágeis enfiavam as sementes de jequiriti, de que fazia um ramal para seu colo gentil.
Enquanto compunha o colar, a virgem percebia que os olhos de Jurandir abandonavam os encantos das mulheres e buscavam seu rosto.
Mas ela voltava-se para a floresta; com o trinado de seus lábios chamava o crajuá, que voava no olho da palmeira. O passarinho, iludido, vinha, cuidando ouvir o canto da companheira.
Jurandir apartou as mulheres e disse
- As moças tocantins são formosas; qualquer delas alegraria o sono do estrangeiro. Mas Jurandir não veio à cabana de Itaquê para gozar do amor de uma noite; ele velo buscar a esposa que há de acompanhá-lo até à morte, e a virgem que escolheu para mãe de seus filhos.
Quando Araci ouviu estas palavras cobriu-se de sorrisos, como o guajeru se cobre de suas flores alvas e perfumadas, com os orvalhos da manhã.
Jurandir voltou-se então para a virgem caçadora.
- Estrela do dia, Araci, conduze-me à presença de Itaquê. É tempo que ele saiba o segredo do estrangeiro.
- Os sonhos disseram a Araci, duas noites seguidas, que o jovem caçador chegaria à cabana de Itaquê; ela te esperou. Quando meus olhos te viram sentado entre os moacaras, logo conheceram que tu vinhas buscar a esposa.
O estrangeiro respondeu
- Jurandir chegou à taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o grande arco de sua nação. Mas a cabana do chefe estava deserta; e sua rede não lhe guardou o sono tranqüilo do guerreiro. Ele ouviu tua voz que o chamava, virgem tocantim, e ergueu-se; tua luz o guiou, filha do sol, e o trouxe à tua presença.
SERVO DO AMOR
Jurandir, conduzido pela virgem, caminhou ao encontro de Itaquê e disse
- Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veio à tua cabana para receber a hospitalidade; veio para servir ao pai de Araci, a formosa virgem, a quem escolheu para esposa. Permite que ele a mereça por sua constância no trabalho, e que a dispute aos outros guerreiros pela força de seu braço.
Itaquê respondeu
- Araci é a filha de minha velhice. A velhice é a idade da prudência e da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma esposa como Araci terá a glória de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê não pode desejar para seu hóspede maior alegria.
Desde esse momento, Jurandir não foi mais estrangeiro na taba dos tocantins. Pertencia à oca de Itaquê, e devia, como servo do amor, trabalhar para o pai de sua noiva.
Os guerreiros, cativos da beleza de Araci, conheceram que tinham de combater um adversário formidável; mas seu amor cresceu com o receio de perder a filha de Itaquê.
Jurandir tomou suas armas e desccu ao rio. Era a hora em que o jacaré bóia em cima das águas como o tronco morto; e a jaçanã se balança no seio do nenúfar.
O manati erguia a tromba para pastar a relva na margem do rio. Ouvindo o rumor das folhas, mergulhou na corrente, mas já levava o arpéu do pescador, cravado no lombo.
Jurandir não esperou que o peixe ferido desenrolasse toda a linha. Puxou-o para terra; e levou-o ainda vivo à cabana de Itaquê, onde três guerreiros custaram a deitá-lo no jirau.
As mulheres cortaram as postas de carne e os guerreiros cavaram a terra para fazer as grelhas do biaribi.
Jurandir partiu de novo e entrou na floresta. Ao longe reboavam os gritos dos caçadores que perseguiam a fera.
Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombara dos caçadores e vinha rompendo a mata como a torrente do Xingu.
As árvores que seu peito encontrava caíam lascadas.
Jurandir estendeu o braço. O velho tapir, agarrado pelo pé, ficou suspenso na carreira, como o passarinho preso no laço. Nunca, até aquele momento, encontrara força maior que a sua.
Uma vez descera à lagoa para beber. A sucuri, que espreitava a caça, mordeu-o na tromba. Ele fugia, esticando a serpente; e a serpente encolhendo-se, o arrastava até à beira d'água.
Assim tornou uma, duas, três vezes. Mas o tigre urrou de fome. O velho tapir disparou pela floresta; e a sucuri com a cauda presa à raiz da árvore arrebentou pelo meio.
O velho tapir rompeu a serpente como se rompe uma corda de piaçaba; mas não pôde abalar o braço de Jurandir, mais firme do que o tronco do guaribu.
O estrangeiro tornou à cabana com a caça. Nenhum dos guerreiros da taba, nem mesmo o velho Itaquê, pôde agüentar com as duas mãos a fera bravia.
Então Jurandir obrigou o animal a agachar-se aos pés de Araci e disse
- O braço de Jurandir fará cair assim, a teus pés, o guerreiro que ouse disputar ao seu amor a tua formosura, estrela do dia.
***
Nunca a abundância reinara na cabana sempre farta do chefe dos tocantins, como depois que a ela chegara o estrangeiro.
Jurandir era o maior caçador das florestas e o primeiro pescador dos rios. Seu olhar seguro penetrava na espessura das brenhas, como na profundeza das águas.
Nada escapava à destreza de sua mão. Onde ela não chegava, iam as unhas de suas flechas certeiras, que rasgavam o seio da vítima, como as garras do jaguar.
O estrangeiro soubera de Araci, qual era a caça que Itaquê preferia e qual o peixe que ele achava mais saboroso. Desde então nunca o velho chefe sentiu a falta do manjar predileto.
Se não era a lua própria do peixe desejado, Jurandir sabia onde o podia encontrar. Não tornava à cabana sem a provisão necessária para a refeição do dia.
Depois da caça e da pesca, Jurandir trabalhava nas roças de Itaquê. Fazia no tabuleiro os matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo.
Entre os filhos das florestas, a plantação devia ser feita pela mão da mulher, que era mãe de muitos filhos; porque ela transmitia à terra sua fecundidade.
A semente que a mão da virgem depositava no seio da terra dava flor; mas da flor não saía fruto. E se era um guerreiro que plantava, o aipim endurecia como o pau-d'arco.
Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra coberta de relva e outras plantas, e só deixava crescer o arroz, o inhame e as bananeiras.
Quando o estrangeiro partia pela manhã, Araci o acompanhava de longe pela floresta. Sua vontade a levava após ele.
O costume da taba não consentia que a virgem desejada pelos servos do seu amor preferisse um guerreiro, antes de saber se ele a obteria por esposa.
A filha de Itaquê não queria pertencer a outro guerreiro. Mas lembrava-se que a virgem deve merecer o esposo por sua paciência; assim como o guerreiro merece a esposa por sua constância e fortaleza.
Então voltava ao terreiroenquanto os outros guerreiros espreitavam sua vontade, ela tecia as franjas para a rede do casamento.
Sua mão sutil urdia como alvo fio do crauatá a fina penugem escarlate. Os noivos cuidavam que era a do peito do tucano; mas ela sabia que era do peito da arara e que tinha as cores do seu guerreiro.
Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se o canto de Jurandir que voltava da caça. A virgem, seguida pelos guerreiros, ia ao encontro do estrangeiro.
Então desciam ao rio. Era a hora do banho. Araci cortava as ondas mais lindas que a garça cor-de-rosa; e os guerreiros a seguiam de perto, como um bando de galeirões.
Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava como um boto, podia alcançar a formosa virgem. Ela parecia a flor do mururê que se desprendeu da haste e passe levada pela corrente.
Uma vez a filha das águas soltou um grito e desapareccu no seio das ondas. Jacamim cuidou que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu seio. Os guerreiros mergulharam pare salvá-la; mas não a encontraram.
Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir que trazia nos braços o corpo da virgem formosa. Pisando em terra, ela correu para a cabana, onde foi esconder sua alegria.
Desde então, era no banho que Araci recebia o abraço de Jurandir, sem que os outros guerreiros suspeitassem da preferência dada ao estrangeiro.
No seio das ondas ninguém a adivinhava a não ser o ouvido sutil de Jurandir, a quem ela chamava com o doce murmúrio do irerê.
Encontravam-se no fundo do rio, enquanto durava a respiração. Depois desprendiam-se do abraço e surgiam longe um do outro.
***
Tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta um rastro, que ele conhecia.
Chegado à cabana, entregou a Jacamim o veado que matara e saiu para visitar os arredores. Nada encontrou de suspeito; o rastro, que o inquietava, não chegara até ali.
No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois do banho, os guerreiros partiram para a caça e para a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim e as mulheres de Itaquê.
Araci tomou o arco e entrou na floresta. A imagem do guerreiro amado fugia naquele instante de seus olhos; eles buscaram entre as folhas o sinal de seus passos e não o descobriram.
Lembrou-se a virgem, que Jurandir gostava da polpa do guaraná adoçada com o mel da abelha; e colheu os frutos encarnados que pendiam dos ramos da trepadeira.
Nesse momento a arara cantou no olho do pirijá. Araci precisava de suas plumes vermelhas, para o cocar que ela tecia em segredo.
Era o cocar do amor, com que desejava ornar a cabeça de seu guerreiro e senhor, no dia em que ele a conquistasse por esposa.
A virgem armou o arco e seguiu a arara rompendo a folhagem. Quando ia disparar a seta, ouviu ao lado um rumor desusado.
Jurandir estava perto dela e segurava o braço de uma mulher, que ainda tinha na mão a macana afiada.
Araci conheceu a virgem araguaia pela faixa de algodão entretecida de penas, que lhe apertava a curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a noiva do guerreiro.
- Filha de Majé, tua mão quis matar a virgem que Jurandir escolheu para esposa. Tu vais morrer.
- Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ela começou a morrer, como a baunilha que o vento arranca da árvore. Acaba de matá-la; para que sua alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e te fale de noite na voz dos sonhos.
- A virgem araguaia ameaçou a vida de Araci; ela lhe pertence; disse a filha de Itaquê.
Jurandir cortou na floresta uma comprida rama de imbé e atou as mãos de Jandira.
- Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ela tem a astúcia da serpente e seu veneno.
- Eu era a cobra-d'água, amiga do guerreiro, que habita sua cabana e a guarda contra o inimigo. Quem foi que me fez a cascavel venenosa, que traz nos lábios o sorriso da morte?
Jurandir não respondeu. Nesse momento ele teve saudade de sue cabana e lembrou-se do tempo em que, jovem caçador, seguia na floresta a formosa virgem araguaia.
***
As duas virgens ficaram sós no claro da floresta.
Já o rumor dos passos de Jurandir se apagara ao longe e ainda tinham ambas os olhos cativos uma da outra.
Jandira pensou que ela não podia dar a Ubirajara a formosura da filha de Itaquê. Araci receou que o amor do guerreiro se voltasse outra vez para a linda virgem araguaia.
A filha de Majé preparou-se para morrer à mão de sua rival, mas ela preferia a morte ao suplício de contemplar sua beleza.
Araci, a estrela do dia, cantou
- O amor do guerreiro é a alegria da virgem; quando ele foge, a virgem fica triste como a várzea que perdeu sua relva.
"Por isso Jandira está triste; o amor do guerreiro fugiu dela; e a deixou solitária como a nambu, a quem o companheiro abandonou.
"Mas o amor do guerreiro é como o orvalho da noite. Quando o sol queima a várzea, ele desce do céu para cobri-la de verdura e de flores.
"Araci está alegre; porque o amor do guerreiro voltou-se para ela; e Jurandir vai fazê-la companheira de sua glória e mãe de seus filhos.
"Quando a esposa de Jurandir não tiver mais beleza para dar a seu guerreiro, ela consentirá que Jandira durma em sua rede.
"E o orvalho da noite descerá do céu para cobrir a várzea de verdura e de flores. E Jandira achará outra vez seu sorriso de mel."
Assim cantou Araci, a estrela do dia; e a virgem araguaia respondeu
- A árvore que morreu não sofre quando o fogo a queima. Jandira prefere a morte à vergonha de ser tua serva e à tristeza de ver a cada instante a formosura da estrangeira que roubou seu amor.
"Araci, a estrela do dia, é mais bela do que Jandira, mas não sabe amar o guerreiro, que a escolheu para mãe de seus filhos.
"Nunca Jandira ofereceria sua rede de esposa a outra mulher; e aquela que recebesse o amor de seu guerreiro morreria por sua mão.