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UBIRAJARA

José de Alencar

"Ela amaria seu esposo tanto que sua graça nunca se retirasse dela; pois saberia morrer quando não tivesse mais beleza para dar-lhe.

"A nação araguaia nunca levanta a taba do vale onde acampou, senão quando a terra já não pode dar-lhe mais frutos.

"Assim é o guerreiro. Ele não retira seu amor da esposa que habita, senão quando ela já não sabe alegrar sua alma."

Tornou a virgem tocantim

- A cajazeira depois que dá seu fruto perde a folha; o guerreiro busca a sombra de outra árvore para repousar.

"Mas vem a lua das águas e a cajazeira outra vez se cobre de folhas; sua sombra é doce ao guerreiro.

"A esposa é como a cajazeira. Quando o guerreiro não acha alegria em seus braços, ela sofre que busque outra sombra e espera que lhe volte a flor para chamá-lo de novo ao seio.

"Araci ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaquê. A cabana do grande chefe dos tocantins está cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou a esposa.

"As servas deram a Itaquê muitos filhos; mas os filhos da velhice, foi só Jacamim quem os deu ao grande chefe; porque o primeiro amor do guerreiro não morre nunca.

"Ele é como a grama que nunca mais deixa a terra onde nasceupodem arrancá-la que brota sempre.

"Araci quer apagar a tristeza de tua alma e beber o teu sorriso de mel, para que o esposo ache mais doces seus lábios, quando os provar.

"Tu serás irmã de Araci e lhe darás um filho de Jurandir, tão valente, como os que seu amor há de gerar no seio da esposa."

Jandira afastou os olhos da virgem dos tocantins, para desviar dela sua ira.

- Tua palavra dói como o espinho da juçara, que tem o coco mais doce que o mel.

"As flechas do teu arco não matam mais do que os sorrisos que o amor do guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia.

"Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira que ele primeiro escolheu para esposa, quando ainda era jovem caçador.

"Nos campos alegres, onde vão os guerreiros quando morrem, ele me chamará; e o guanumbi virá buscar a minha alma no seio da flor do manacá para levá-la a seu amor.

"Mata-me ou deixa que eu morra para não ver mais tua beleza e não ouvir o canto de tua alegria. "

Araci caminhou para Jandira e desatou-lhe os pulsos.

- O amor do guerreiro não pertence à mulher que seus olhos primeiro viram; mas àquela que ele escolheu.

"Apanha teu arco; e morra aquela que não souber defender seu amor e merecer o esposo. "

Araci disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira ficou imóvel, com os pulsos cruzados, como se ainda estivessem presos

- A vontade de Ubirajara atou os braços de Jandira; ela rejeita a liberdade dada por ti. Araci pode ser preferida; porém, não será mais generosa do que a filha de Majé.

O COMBATE NUPCIAL

Chegou o dia, em que os noivos de Araci deviam disputar a posse da formosa virgem.

Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha, estende pelo vale sua araçóia d'ouro.

A grande nação tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os anciões, que formam o grande carbeto.

Em frente aparece Araci, a estrela do dia, que há de ser o prêmio da constância e fortaleza do mais destro guerreiro.

Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos tocantins.

De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um cerca-se da esposa, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao combate.

É a única das festas guerreiras, em que o rito de Tupã consente a presença das mulheres, porque trata-se de sua glória.

Contemplando o esforço heróico dos mais nobres guerreiros para conquistar a formosura de uma virgem, as outras virgens aprendem a prezar a castidade, e as esposas se ufanam de guardar a fé no primeiro amor.

Itaquê, o grande chefe dos tocantins, preside ao combate, orgulhoso pela valente nação que dirige, como pela formosa virgem de que é pai.

Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de Araci, que se preparam a disputar a esposa, o grande chefe ergue a fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flores.

Os noivos se distinguem dos outros guerreiros pelo bracelete de contas verdes, que o guerreiro cinge ao pulso da esposa, quando rompe a liga da virgindade.

Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem obedece o manati e o golfinho.

Junto dele ergue-se Uiraçu, que tomou este nome do valente guerreiro dos ares, pelo ímpeto do assalto.

Vem depois Araribóia, a grande serpente das lagoas, Cauatá, o corredor das florestas, Cori, o altivo pinheiro, e tantos outros, ainda mancebos, e já guerreiros de fama.

Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da serrania.

Os músicos fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa; e os servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina.

Então os nhengaçaras levantaram o canto nupcial

"A esposa é a alegria e a força do guerreiro. Ela acende em suas veias um fogo mais generoso que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouso da cabana.

"Por isso, o primeiro desejo do mancebo, quando ganha nome de guerra, é conquistar uma esposa.

"Não basta ser valente guerreiro para merecer a virgem formosa, filha de um grande chefe; é preciso a paciência para sofrer e a perseverança no trabalho.

"Araci, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e a glória do mais forte e do mais valente.

"Os filhos que ela gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande chefe, serão os maiores guerreiros das nações."

***

Itaquê deu o sinal; o combate começou.

Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape

- Araci, estrela do dia, tu serás esposa do guerreiro Pirajá, que te vai conquistar pela força de seu braço.

Avançou Uiraçu, e disse

- A virgem formosa ama ao guerreiro Uiraçu e há de pertencer-lhe.

A noiva cantou

- Araci ama o mais forte e mais valente. Ela pertencerá ao vencedor, que vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da esposa.

A voz maviosa da virgem afagou a esperança de todos os campeões; mas seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de sua alma.

Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira.

Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversário, recuou um passo do lugar em que se postara. Pela lei do combate estava vencido, e teve de deixar o campo.

Araribóia tomou o seu lugar; e o combate prosseguiu com vária fortuna, até Cori que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram disputá-lo.

Faltava Jurandir. O estrangeiro avançou gravemente, como convinha a um grande guerreiro da nação araguaia.

Ele queria dar ao vencedor de tantos combates, o tempo preciso para descansar.

A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava erguer para um combate sem glória.

Quando Jurandir achou-se em face do vencedor, levantou a voz e disse

- Para merecer Araci, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem guerreiros, e não, combater um guerreiro fatigado.

"Tu empunhas um tacape; toma outro, habituado a vencer; ele restituirá a teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te arrebatar todas as tuas vitórias. "

Disse, e arremessou a arma aos pés do adversário.

Cori, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas Jurandir aparou-o na mão firme e, arrebatando o tacape que o ameaçava, arrancou o guerreiro do chão.

Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de partir o tronco, desprende a raiz da terra, onde nada o abalava.

Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado valentes guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores.

***

Os músicos tocaratn os borés; e os jovens caçadores trouxeram para o meio do campo a figura da noiva.

Era um grosso toro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhara, com o dente da cutia, a cabeça de uma mulher.

Três caçadores vergavam com o peso da carga e foram precisos dez para trazê-lo desde a cabana do pajé até o campo, onde ficou semelhante a uma mulher sentada.

Na véspera, o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o toro de madeira, e o esfregara com a banha do teiú, para que ele escorregasse da mão do guerreiro como o lagarto da mão do caçador.

Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo, troncos de árvores cortadas com as ramas e as folhas; e fincaram cercas de estacas entre os barrancos da várzea que ia morrer à margem do rio.

Itaquê deu o sinal; e os guerreiros começaram a nova prova, mais difícil que a primeira.

Era preciso que o guerreiro, à disparada, levantasse do chão, sem parar, o toro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para tomá-lo.

Esse jogo era o emblema da agilidade e robustez, que o marido devia possuir, para disputar a esposa e protegê-la contra os que ousassem desejá-la.

Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rápido chegou. Como o condor que, rebatendo o vôo, leva nas garras a tartaruga adormecida; assim o veloz guerreiro suspendeu a figura da esposa e com ela arremessou-se pela campina.

Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a presa. Na planície aberta seria vão intento porque nenhum corria como o estrangeiro.

Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as árvores derrubadas, os barrancos profundos e outros obstáculos de propósito acumulados.

Não hesitou, porém, o destemido mancebo. Saltou as corcovas, galgou as caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o chão.

Uma vez os guerreiros aproximaram-se tanto, que Jurandir sentiu nos cabelos o sopro da respiração ofegante. Em frente, erguia-se a alta estacada.

Se tentasse subir, carregado como estava, os guerreiros com certeza o alcançariam a tempo de arrancar-lhe a presa.

Então arremessou pelos ares o toro de madeira, como se fosse o tacape de um jovem caçador; e seguiu após.

Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta campina, e foi colocar a figura da esposa no meio do carbeto dos anciões.

Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a sua carga, saía triunfante da prova.

Ele mostrava como arrebataria a esposa do meio dos inimigos e a defenderia contra seus ataques até recolhê-la em um asilo seguro.

De todos os guerreiros só Cori e Uiraçu conseguiram ganhar a prova; mas nenhum com a galhardia de Jurandir

Cori por vezes foi alcançado, e só à confusão dos outros deveu escapar-se. Uiraçu recuperou a presa já perdida, porque Pirajá, que havia empolgado, falseou na corrida e tombou.

Os três vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O triunfo não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a presa que disputam duas serpes.

Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçaras, os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores.

***

Quando voltou o silêncio, Ogib, o grande pajé dos tocantins, estava em pé no meio do campo.

Junto dele, uma das velhas mães dos guerreiros segurava o camucim da constância, que tinha o bojo pintado de vermelho.

O pajé disse

- Não basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a esposa.

"É preciso que tenha a constância do varão, e não se perturbe com o sofrimento.

"É preciso que ele tenha a paciência do tatu, e suporte sereno as mortificações das mulheres, e as importunações das crianças.

"O guerreiro que não tem constância e paciência, depressa gasta suas forças.

"O rio que se derrama pela várzea, nunca verá suas margens cobertas de grandes florestas.

"Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma em lamentações.

"Nunca ele será pai de uma geração forte e gloriosa, nem verá sua cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.

"Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão ainda maior do que o famoso guerreiro que todos admiram."

O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura, bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro.

Jurandir meteu a mão no vaso. O semblante sempre grave do guerreiro cobriu-se de um sorriso doce como da luz a alvorada; e seus olhos, mais contentes que dois saís, pousaram no rosto de Araci.

O camucim da constância continha um formigueiro de saúvas, que o pajé havia fechado ali na última lua.

Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam para dilacerar a primeira vítima que lhes caísse nas garras.

A dentada da saúva, que anda solta no campo, dói como uma brasa; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira.

Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro para espreitar-lhe o mínimo gesto de sofrimento.

Mas Jurandir sorria; e seus lábios ternos soltaram o canto do amor. De propósito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o gemido com o rumor do grito guerreiro.

Assim cantou ele

- A dor é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco da craúba, da qual o guerreiro fabrica o arco e o tacape.

"A juçara tem setas agudasmas Araci quando atravessa a floresta, colhe o coco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão.

"O ferrão da saúva dói mais do que o espinho da juçara; mas Jurandir acha o mel dos lábios de Araci mais doce do que o coco da palmeira.

"Quando Jurandir era jovem caçador, gostava de tirar a cutia da toca, embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne.

"O ferrão da saúva não dói como o dente afiado; e Jurandir sabe que o pêlo dourado da cutia, não é tão macio como o colo de Araci.

"Jurandir despreza a dor. Seus olhos estão bebendo o sorriso da virgem, mais suave que o leite do sapoti. Sua mão está sentindo o roçar dos cabelos da virgem formosa."

Os anciões deram sinal para concluir a prova da constância; mas o guerreiro continuou o seu canto de amor.

- A cumari arde no lábio do guerreiro; mas torna mais gostosa a carne do veado assado no moquém.

"O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro d'alma.

"A saúva arde como a cumari e queima como o cauim; porém torna os beijos de Araci mais saborosose o amor de Jurandir espuma como o vinho generoso.

"Araci há de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe rasgar o seio.

"Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorriso de Araci lhe enche a alma de amor."

Foi preciso quebrar o camucim para que o guerreiro pudesse retirar a mão, de inflamada que ficara.

O grande pajé esfregou na pele vermelha o suco de uma erva dele conhecida; e logo desapareceu a inchação.

***

Faltava a última prova, chamada a prova da virgem.

As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do guerreiro, assim como a força de seu amor.

Nesta era que a virgem podia mostrar seu agrado pelo vencedor; ou livrar-se de um esposo, que não soubera ganhar-lhe o afeto.

Os cantores disseram

"Tupã deu asas à nambu para que ela escape às garras do carcará.

"Tupã deu ligeireza à virgem, para que ela fuja do guerreiro que não quer por esposo.

"Mas a nambu, quando ouve o canto do companheiro, espera que ele chegue para fabricar,seu ninho.

"A virgem, quando segue o guerreiro que ela prefere, pensa na cabana do esposo e corre devagar para chegar depressa."

Araci deixou a mãe, e avançou até o meio do campo.

O grande pajé colocou Jurandir na distância de uma muçurana, que cinge dez vezes a cintura do guerreiro.

Estrela do dia lançou para as espáduas as longas tranças negras que voaram ao sopro da brisa.

Arqueou os braços mimosos, vestidos com franjas de penas, como as asas brilhantes do arirama, e quando soou o sinal, desferiu a corrida.

Jurandir seguiu-a. Ele conhecia a velocidade do pé gentil de Araci, que zombava do salto do jaguar.

Nem que pudesse alcançá-la, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor, queria dever a esposa ao amor dela e não a seu esforço.

Disputaria Araci não só a todos os guerreiros das nações, como a todas as nações das florestas; só à vontade da própria virgem não a disputaria, pois a queria rendida e não vencida.

Mas sua glória mandava que ele, o chefe de uma grande nação, se mostrasse digno da formosa virgem, que o aceitasse por esposo.

Araci voava pela campina. Às vezes trançava a corrida como o colibri que adeja de flor em flor, outras vezes fugia mais rápida do que a seta emplumada de seu arco.

Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ela quisesse fugir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.

Jurandir abriu os braços e recebeu a esposa que se entregava a seu amor.

O guerreiro suspendeu a virgem formosa ao colo; e levou-a à cabana do amor que ele construira à margem do rio.

***

As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana e matizavam o chão de flores.

Araci foi buscar a rede nupcial, que ela tecera de penas de tucano e arara; e Jurandir conduziu os utensílios da cabana.

Então o estrangeiro sentou-se com a virgem no terreiro e, antes de passar a soleira da porta, revelou a Araci quem era o guerreiro que ela aceitara por esposo.

- Araci pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ela teve a glória de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ela será mãe dos filhos de Ubirajara; e terá por servas as virgens mais belas, filhas dos chefes poderosos.

"A palmeira é formosa quando se cobre de flores e o vento agita as suas folhas verdes que murmuram; mais formosa, porém, quando as flores se mudam em frutos, e ela se enfeita com seus cachos vermelhos.

"Araci também ficará mais formosa quando de seu sorriso saírem os frutos do amore quando o leite encher seus peitos mimosos, para que ela suspenda ao colo os filhos de Ubirajara."

Araci ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a fronte do esposo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.

Depois, sentindo os olhos de Ubirajara, que bebiam a sua formosura, ela vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça.

A túnica de algodão, entretecida de penas de beija-flor, desce das espáduas até a curva da perna, cingida pela liga da virgindade.

Quando Araci passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ela não corava, porque sua castidade a vestia, como a flor à sapucaia.

Mas agora, em presença do guerreiro a quem ama e para quem guardou sua virgindade, tem pejo, e esconde sua formosura às vistas de Ubirajara.

- Os olhos do esposo são como o sol, disse o guerreiro; eles queimam a flor do corpo de Araci.

"Araci tem medo que os olhos do esposo não a achem digna de seu amor; e vestiu seus enfeites.

"Araci queria ser como a juriti, e ter no corpo uma penugem macia, que só a deixasse ver em sua formosura.

"Foi por isso que tua esposa se cobriu com o seu aimará. Os olhos de Ubirajara não lhe queimarão mais a flor de seu corpo."

O guerreiro respondeu

- A flor do igapê é mais formosa quando abre, e se tinge de vermelho aos beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes.

Ubirajara tomou nos braços a esposa e pôs o pé na soleira da porta.

Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o vencedor à presença de Itaquê.

O carbeto dos anciões tinha decidido que o vencedor antes de receber a esposa, devia declarar quem era; pois fora recebido como estrangeiro, e ninguém na taba o conhecia.

A GUERRA

Itaquê esperava sentado na cabana e cercado do carbeto dos anciões. Jurandir entrou; Araci ficou na porta, orgulhosa do esposo que a conquistara e da admiração que ele ia inspirar aos guerreiros da sua nação.

Itaquê falou

- Quando o estrangeiro chegou à cabana de Itaquê, ninguém lhe perguntou quem era e donde vinha. O hóspede é senhor.

"Mas agora o estrangeiro saiu vencedor do combate do casamento e conquistou uma esposa na taba dos tocantins.

"É preciso que ele se faça conhecer; porque a filha de Itaquê, o pai da nação dos tocantins, jamais entrará como esposa na taba, onde habite quem tenha ofendido a um só de seus guerreiros."

O estrangeiro disse

- Morubixaba, abarés, moacaras, e guerreiros da valente nação tocantim, vós tendes presente o chefe dos chefes da grande nação araguaia.

"Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do grande Camacã, cujo sangue me gerou. Se quereis saber por que tomei este nome, ouvi a minha maranduba de guerra."

Ubirajara contou o seu encontro com Pojucã; o combate em que o venccu e a festa do triunfo, até o momento em que deixou a taba dos araguaias.

Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate da morte, como prometera ao prisioneiro.

Ninguém interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido; mas não soube que rompera do seio de Araci.

Itaquê arquejou como o rio ao peso da borrasca.

- Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou Itaquê, pai de Pojucã. Tenho em face o matador de meu filho; mas ele é meu hóspede!

"Chefe dos araguaias, tu és um jovem guerreiro; pergunta a Camacã que te gerou, qual deve ser a dor do pai, que não pode vingar a morte do filho. "

O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como o cedro altaneiro batido pelo tufão.

Pojucã tinha sua taba mais longe, na outra margem do rio. Ele partira na última lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava senhor do caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.

Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam que ele buscava na floresta o caminho da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava prisioneiro na taba dos araguaias o combate da morte.

Anciões e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dor do pai, e não ousavam perturbá-la.

Jacamim, a mãe de Pojucã, aproximara-se. O grande chefe ouviu seu gemido.

- A esposa de Itaquê não chora na presença do matador de seu filho. A voz do esposo, a mãe teve força para esconder no seio sua tristeza e mostrar-se digna do grande chefe dos tocantins.

Ubirajara falou

- A vingança é a glória do guerreiro; Tupã a deu aos valentes. Ubirajara venccu Pojucã em combate leal e aceita o desafio de Itaquê e de todos os chefes tocantins.

- Tu és meu hóspede; enquanto Itaquê brandir o grande arco da nação tocantim, ninguém ofenderá o amigo de Tupã na taba de seus guerreiros.

Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou com o estrangeiro a fumaça da despedida.

- Parte. O sol que viu o estrangeiro na cabana hospedeira o acompanhará amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o nandu, partirão para levar-te a morte.

Ubirajara tomou suas armas e disse

- O hóspede vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu verás chegar o guerreiro inimigo.

***

Itaquê seguiu o estrangeiro até o terreiro; em torno dele se reuniram os abarés, os moacaras e os guerreiros para assistirem à partida.

Ubirajara caminhou com passo lento e grave até o fim da taba.

Chegado ali, tornou rápido à entrada da cabana e retrocedeu, apagando no chão o vestígio de seus passos.

A nação tocantim o observava imóvel.

Por fim o estrangeiro postou-se no centro da ocara e com o formidável tacape vibrou no largo escudo um golpe, que repercutiu pela taba como o estrondo da montanha.

- O hóspede passou o limiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu rastro na taba dos tocantins.

"Quem está aqui é um guerreiro armado, que pisa senhor a taba de seus inimigos.

"Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lança, grande chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta."

Quando o guerreiro acabou de proferir estas palavras, Itaquê levantou os olhos e viu cravada na figura do tucano, que era o símbolo da nação, a seta de Ubirajara.

Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaquê abateu as armas de seus guerreiros.

Disse o morubixaba

- A lei da hospitalidade é sagrada. A cólera do estrangeiro não deve perturbar a serenidade do varão tocantim.

Depois voltou-se para o inimigo.

- Ubirajara, grande chefe dos araguaias, Itaquê, o pai da poderosa nação tocantim, aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o penhor do combate.

A corda do grande arco da nação tocantim brandiu, e a seta de Itaquê mordeu o escudo de Ubirajara.

- Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos à frente das nações.

- Ubirajara combaterá até que lhe restituas a esposa; assim como ele a conquistou a seus rivais, saberá conquistá-la a ti e à tua nação.

O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Araci que o esperava.

A formosa virgem fora à cabana do casamento buscar a rede nupcial e preparar-se para acompanhar o esposo.

- Ubirajara parte; mas antes de cinco sóis ele estará aqui para te conquistar à tua nação.

- A esposa te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e ela entregou-se a seu senhor. Araci te pertence; deves levá-la.

A virgem tocantim desejava seguir Ubirajara à taba dos araguaias. Falava em sua alma a ternura da esposa e da irmã.

Partindo, ela unia-se para sempre a seu guerreiro e esperava que o amor o moveria a salvar Pojucã.

Ubirajara pensou e disse

- Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Araci, ela era sua esposa; e ninguém a arrebataria de seus braços. Mas a virgem tocantim não pode abandonar a cabana onde nasceu, sem a vontade de seu pai.

Araci suspirou

- Ubirajara vai deixar a lembrança de Araci nos campos dos tocantins. Jandira o espera na taba dos araguaias e lhe guarda o seu sorriso de mel.

- A luz de teus olhos, Araci, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na taba dos seus, onde ressoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe à tua cabana.

"Quando ele partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé não o acompanhasse, a deu a Pojucã como esposa do túmulo."

- O goaná do lago voa longe, longe, para banhar-se nas águas da chuva que alagaram a várzea; mas logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da moita onde dormiu.

- Ubirajara é um guerreiro, ele não aprende com o goaná do lago, que foge do perigo, mas com o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca.

- Se Ubirajara amasse a esposa, também não a abandonaria. Os braços de Araci já cingiram o colo de seu guerreiro. O tronco não desprende de si a baunilha que se entrelaçou em seus galhos.

Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Araci

- Itaquê respeitou a lei da hospitalidade no corpo de Ubirajara; Ubirajara não deixará a traição na terra hospedeira.

"Araci não deve querer para esposo um guerreiro menos generoso do que seu pai."

A virgem emudeccu. Ela sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro.

Antes de partir, o chefe consolou a esposa

- Ubirajara vai pedir ao gavião suas asas para voltar ao seio de Araci. Ele virá à frente de sua nação, conduzido pela luz de teus olhos.

"As outras mulheres são o prêmio de um combate entre os servos de seu amor. Araci terá essa glória; que ela será o prêmio da maior guerra que já viram as florestas."

O chefe araguaia pôs as mãos nos ombros de Araci; duas vezes uniu o seu ao rosto dela, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia separar.

Quando o guerreiro desapareccu na floresta, Araci caminhou para a cabana do esposo, que ficara triste e solitária.

A virgem fechou a porta; sentou-se na soleira e cantou sua tristeza.

***

Dois sóis tinham passado; e viera a noite.

A última estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pisou os campos dos araguaias.

Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação araguaia derramou-se ao longe pelo vale, como o estrondo da montanha que arrebenta.

Com o primeiro raio do sol que subia o píncaro da serra, chegaram à grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos os seus guerreiros, convocados à ocara da nação.

Ubirajara mandou que Pojucã, o prisioneiro, viesse à sua presença

- Vê o mar de meus guerreiros que enche a terra, como as águas do grande rio quando alaga a várzea. Eles esperam o aceno de Ubirajara para inundarem teus campos.

"A nação tocantim carece neste momento do braço de seus maiores guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a glória de Ubirajara, seu vencedor.

"Tu és livre, Pojucã; parte e voa, que a guerra dos araguaias te segue os passos."

O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio

- Pojucã é um chefe ilustre; não merece esta desonra. Tu lhe prometeste a morte dos bravos. Ele exige o combate.

O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade

- Ubirajara não sabia que Pojucã era filho de Itaquê; pois ele nunca pisaria como hóspede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado um filho.

"É preciso que recuperes a liberdade para que não se diga que Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins."

Pojucã não respondeu. Ele reconhecera que a honra do seu vencedor exigia sua volta à taba dos seus.

- Parte. Nós combateremos à frente das nações. Ubirajara pertence a Itaquê; mas depois dele, terás a glória de ser vencido outra vez por este braço.

- Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupã não consente que Pojucã seja vencedor, ele não quer maior glória do que a de morrer combatendo Ubirajara.

Pojucã foi à cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara arrimou-se ao tacape, como o rochedo que se apóia ao tronco do ipê, e meditou.

Quando passou o chefe tocantim que voltava à sua taba, Ubirajara levantou a cabeça e disse:

- Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és irmão de Araci e vais para junto dela. Dize à estrela do dia que seu esposo está com ela.

O conselho dos abarés se reunira para meditar sobre a guerra. O velho Majé, a quem irritava o desaparecimento da filha, reparou que sem o voto do carbeto se convocasse a nação.

Veio um mensageiro chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara chegou. Antes que falasse a voz dos anciões, o guerreiro levantou o arco e disse

- O conselho dos anciões governa a taba e medita nas coisas da paz Toda a nação respeita sua prudência e sabedoria.

"Mas enquanto Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a guerra fechada em sua mão.

"Quando ele soltar o grito do combate, a voz que falar da paz, emudecerá para sempre, ainda que venha da cabeça do abar que a lua já embranqueceu.

"Quem não quiser assim, venha arrancar da mão de Ubirajara, este arco que ele conquistou por seu valor."

Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou e decidiu que a maior glória e sabedoria da nação era ter o seu grande arco de guerra na mão de um chefe como Ubirajara.

Camacã tratou com os anciões acerca da defesa das tabas; e o grande chefe abriu o caminho da guerra.

***

Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela margem do grande rio, ele viu que uma nação tapuia preparava-se para assaltar a taba dos tocantins.

O grande chefe tocou a inúbia, cuJa voz chamava o jovem Murinhém, primeiro dos cantores araguaias.

Correu o nhengaçara à presença do grande chefe, e dele recebeu a mensagem que devia levar ao campo inimigo.

Os cantores eram respeitados por todas as nações das florestas como os filhos da alegria; porque serviam de mensageiros entre as nações em guerra.

Eles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum guerreiro ousava ofender aquele a quem Tup concedera a fonte da alegria.

Murinhém atravessou rápido a campina e apresentou-se em frente de Canicrã, chefe dos tapuias.

- Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o arco da poderosa nação araguaia, te manda, a ti, quem quer que sejas, e a todos quantos te obedecem, a sua vontade.

O tapuia rugiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo sombrio e imóvel do meio dos borbotões da cachoeira.

- Os guerreiros de Canicrã só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicrã afronta a cólera de Tupã e das nações que ele gerou. Dize, mensageiro, o que pede Ubirajara ao grande chefe dos tapuias.

- Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nação tocantim aceitou a sua flecha de desafio, e ele não consente que ninguém combata seu inimigo, antes de o ter vencido.

- Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicrã veio trazido pela vingança. Pojucã, um dos chefes tocantins, penetrou em sua taba e incendiou a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas.

"Ubirajara é um grande chefe; ele que diga se o pai da nação pode sofrer tão dura afronta. Canicrã escutará a voz de sua amizade. "

O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao mensageiro a haste emplumada com as asas negras do anum, que era o emblema guerreiro de sua nação.

- Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliança.

Murinhém partiu e foi à taba dos tocantins levar igual mensagem. Itaquê escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu.

- Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do desafio, Pojucã tinha levado a guerra à taba dos tapuias.

"Canicrã veio trazido pela vingança; e a nação tocantim não pode recusar o combate. Mas Itaquê sabe honrar seu nomese Ubirajara quer, ele combaterá juntamente os dois inimigos."

O mensageiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois chefes. Ubirajara ouviu e meditou.

- Escuta a vontade de Ubirajara para levá-la aos inimigos. O grande chefe araguaia não roubará a Canicrã a glória da vingança; ele respeita a honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitui o penhor que recebeste.

"Itaquê pode aceitar o combate que Pojucã foi buscar; Ubirajara não ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de Araci.

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