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Auto Representado na Festa de São Lourenço

Padre José de Anchieta

TEMA

Após a cena do martírio de São Lourenço, Guaixará chama Aimbirê e Saravaia para ajudarem a perverter a aldeia. São Lourenço a defende, São Sebastião prende os demônios. Um anjo manda-os sufocarem Décio e Valeriano. Quatro companheiros acorrem para auxiliar os demônios.

Os imperadores recordam façanhas, quando Aimbirê se aproxima. O calor que se desprende dele abrasa os imperadores, que suplicam a morte. O Anjo, o Temor de Deus, e o Amor de Deus aconselham a caridade, contrição e confiança em São Lourenço. Faz-se o enterro do santo. Meninos índios dançam.

PRIMEIRO ATO

(Cena do martírio de São Lourenço)

Cantam:

Por Jesus, meu salvador, Que morre por meus pecados, Nestas brasas morro assado Com fogo do meu amor Bom Jesus, quando te vejo Na cruz, por mim flagelado, Eu por ti vivo e queimado Mil vezes morrer desejo Pois teu sangue redentor Lavou minha culpa humana, Arda eu pois nesta chama Com fogo do teu amor.

O fogo do forte amor, Ah, meu Deus!, com que me amas Mais me consome que as chamas
E brasas, com seu calor.

Pois teu amor, pelo meu Tais prodígios consumou, Que eu, nas brasas onde estou, Morro de amor pelo teu.

SEGUNDO ATO

(Eram três diabos que querem destruir a aldeia com pecados, aos quais resistem São Lourenço, São Sebastião e o Anjo da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os tentadores cujos nomes são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados)

GUAIXARÁ

Esta virtude estrangeira Me irrita sobremaneira.

Quem a teria trazido, com seus hábitos polidos estragando a terra inteira? Só eu permaneço nesta aldeia como chefe guardião.

Minha lei é a inspiração que lhe dou, daqui vou longe visitar outro torrão.

Quem é forte como eu? Como eu, conceituado? Sou diabo bem assado.

A fama me precedeu; Guaixará sou chamado.

Meu sistema é o bem viver.

Que não seja constrangido o prazer, nem abolido.

Quero as tabas acender com meu fogo preferido Boa medida é beber cauim até vomitar.

Isto é jeito de gozar a vida, e se recomenda a quem queira aproveitar.

A moçada beberrona trago bem conceituada.

Valente é quem se embriaga e todo o cauim entorna, e à luta então se consagra.

Quem bom costume é bailar! Adornar-se, andar pintado, tingir pernas, empenado fumar e curandeirar, andar de negro pintado.

Andar matando de fúria, amancebar-se, comer um ao outro, e ainda ser espião, prender Tapuia, desonesto a honra perder.

Para isso com os índios convivi.

Vêm os tais padres agora com regras fora de hora prá que duvidem de mim.

Lei de Deus que não vigora.

Pois aqui tem meu ajudante-mor, diabo bem requeimado, meu bom colaborador: grande Aimberê, perversor dos homens, regimentado.

(Senta-se numa cadeira e vem uma velha chorar junto dele.

E ele a ajuda, como fazem os índios.

Depois de chorar, achando-se enganada, diz a velha)

VELHA

O diabo mal cheiroso, teu mau cheiro me enfastia.

Se vivesse o meu esposo, meu pobre Piracaê, isso agora eu lhe diria.

Não prestas, és mau diabo.

Que bebas, não deixarei do cauim que eu mastiguei.

Beberei tudo sozinha, até cair beberei.

(a velha foge)

GUAIXARÁ

(Chama Aimberê e diz:) Ei, por onde andavas tu? Dormias noutro lugar?

AIMBIRÊ

Fui as Tabas vigiar, nas serras de norte a sul nosso povo visitar.

Ao me ver regozijaram, bebemos dias inteiros.

Adornaram-se festeiros.

Me abraçaram , me hospedaram, das leis de deus estrangeiros.

Enfim, confraternizamos.

Ao ver seu comportamento, tranqüilizei-me.

Ó portento! Vícios de todos os ramos tem seus corações por dentro.

GUAIXARÁ

Por isso no teu grande reboliço eu confio, que me baste os novos que cativaste, os que corrompeste ao vício.

Diz os nomes que agregaste.

AIMBIRÊ

Gente de maratuauã no que eu disse acreditaram; os das ilhas, nestas mãos deram alma e coração; mais os paraibiguaras.

É certo que algum perdi, que os missionários levaram a Mangueá.

Me irritaram.

Raivo de ver os tupis que do meu laço escaparam.

Depois dos muitos que nos ficaram os padres sonsos quiseram com mentiras seduzir.

Não vê que os deixei seguir — ao meu apelo atenderam.

GUAIXARÁ

De que recurso usaste para que não nos fugissem?

AIMBIRÊ

Trouxe aos tapuias os trastes das velhas que tu instruíste em Mangueá.

Que isto baste.

Que elas são de fato más, fazem feitiço e mandinga, e esta lei de Deus não vinga.

Conosco é que buscam a paz, no ensino de nossa língua.

E os tapuias por folgarem, nem quiseram vir aqui.

De dança os enlouqueci para a passagem comprarem para o inferno que acendi.

GUAIXARÁ

Já chega.

Que tua fala me alegra, teu relatório me encanta.

AIMBIRÊ

Usarei de igual destreza para arrastar outras presas nesta guerra pouco santa.

O povo Tupinambá que em Paraguaçu morava, e que de Deus se afastava, deles hoje um só não há, todos a nós se entregaram.

Tomamos Moçupiroca, Jequei, Gualapitiba, Niterói e Paraíba, Guajajó, Carijó-oca, Pacucaia, Araçatiba Todos os tamoios foram Jazer queimando no inferno.

Mas há alguns que ao Padre Eterno fiéis, nesta aldeia moram, livres do nosso caderno.

Estes maus Temiminós nosso trabalho destroem.

GUAIXARÁ

Vem tentá-los que se moem a blasfemar contra nós.

Que bebam, roubem e esfolem.

Que provoquem muitas lutas, muitos pecados cometam, por outro lados se metam longe desta aldeia, à escuta dos que as nossas leis prometam.

AIMBIRÊ

É bem difícil tentá-los.

Seu valente guardião me amedronta.

GUAIXARÁ

E quais são?

AIMBIRÊ

É São Lourenço a guiá-los, de Deus fiel Capitão.

GUAIXARÁ

Qual? Lourenço o consumado nas chamas qual somos nós?

AIMBIRÊ

Esse.

GUAIXARÁ

Fica descansado.

Não sou assim tão covarde, será logo afugentado.

Aqui está quem o queimou e ainda vivo o cozeu.

AIMBIRÊ

`Por isso o que era teu ele agora libertou e na morte te venceu.

Há também o seu amigo Bastião, de flechas crivado.

GUAIXARÁ

O que eu deixei transpassado? Não faças broma comigo que sou bem desaforado.

Ambos fugirão logo aqui me virem chegar.

AIMBIRÊ

Olha que vais te enganar!

GUAIXARÁ

Tem confiança, te rogo, que horror lhes vou inspirar.

Quem como eu nas terras existe que até Deus desafiou?

AIMBIRÊ

Por isso Deus te expulsou, e do inferno o fogo triste para sempre te abrasou.

Eu lembro de outra batalha em que Guaixará entrou.

Muito povo te apoiou, e, inda que lhes desses forças, na fuga se debandou.

Não eram muitos cristãos.

Contudo nada ficou da força que te inspirou, pois veio Sebastião, na força fogo ateou.

GUAIXARÁ

Por certo aqueles cristãos tão rebeldes não seriam.

Mas esses que aqui estão desprezam a devoção e a Deus não reverenciam.

Vais ver como em nossos laços caem, logo estes malvados! De nossos dons confiados, as almas cederam passo para andar do nosso lado.

AIMBIRÊ

Assim mesmo tentarei.

Um dia obedecerão.

GUAIXARÁ

Ao sinal de minha mão os índios te entregarei.

E à força sucumbirão.

AIMBIRÊ

Preparemos a emboscada.

Não te afobes.

Nosso espia verá em cada morada que armas nos são preparadas na luta que se inicia.

GUAIXARÁ

Muito bem és capaz disso Saravaia meu vigia?

SARAVAIA

Sou demônio da alegria e assumi tal compromisso.

Vou longe nesta porfia.

Saravaiaçu me chamo.

Com que tarefa me aprazas?

GUAIXARÁ

Ouve as ordens de teu amo, quero que espies as casas e voltes quando te chame.

Hoje vou deixar que leves os índios aprisionados.

SARAVAIA

Irei onde me carregues.

E agradeço que me entregues encargo tão desejado.

Como Saravaia sou, aos índios que me aliei enfim aprisionarei.

E neste barco me vou.

De cauim me embriagarei.

GUAIXARÁ

Anda logo! vai ligeiro!

SARAVAIA

Como um raio correrei! (Sai)

GUAIXARÁ

(Passeia com Aimbirê e diz:) Demos um curto passeio Quando volte o mensageiro a aldeia destroçarei.

(Volta Saravaia e Aimberê diz:)

AIMBIRÊ

Danado! Voltou voando!

GUAIXARÁ

Demorou menos que um raio! Foste mesmo, Saravaia?

SARAVAIA

Fui.

Já estão comemorando os índios nossa vitória.

Alegra-te! Transbordava o cauim, o prazer regurgitava.

E a beber, as igaçabas esgotam até o fim.

GUAIXARÁ

E era forte?

SARAVAIA

Forte estava.

E os rapazes beberrões que pervertem esta aldeia, caiam de cara cheia.

Velhos, velhas, mocetões que o cauim desnorteia.

GUAIXARÁ

Já basta.

Vamos mansinho tomá-los todos de assalto.

Nosso fogo arda bem alto.

(Vem São Lourenço com dois companheiros.

Diz Aimbirê:)

AIMBIRÊ

Há um sujeito no caminho que me ameaça de assalto.

Será Lourenço, o queimado?

SARAVAIA

Ele mesmo, e Sebastião.

AIMBIRÊ

E o outro, dos três que são?

SARAVAIA

Talvez seja o anjo mandado, desta aldeia o guardião.

AIMBIRÊ

Ai! Eles me esmagarão! Não posso sequer olhá-los.

GUAIXARÁ

Não te entregues assim não, ao ataque, meu irmão! Teremos que amedrontá-los, As flechas evitaremos, fingiremos de atingidos.

AIMBIRÊ

Olha, eles vêm decididos a açoitar-nos.

Que faremos? Penso que estamos perdidos.

(São Lourenço fala a Guaixará:)

SÃO LOURENÇO

Quem és tu?

GUAIXARÁ

Sou Guaixará embriagado, sou boicininga, jaguar, antropófago, agressor, andirá-guaçu alado, sou demônio matador.

SÃO LOURENÇO

E este aqui?

AIMBIRÊ

Sou jibóia, sou socó, o grande Aimbirê tamoio.

Sucuri, gavião malhado, sou tamanduá desgrenhado, sou luminosos demônio.

SÃO LOURENÇO

Dizei-me o que quereis desta minha terra em que nos vemos.

GUAIXARÁ

Amando os índios queremos que obediência nos prestem por tanto que lhes fazemos.

Pois se as coisas são da gente, ama-se sinceramente.

SÃO SEBASTIÃO

Quem foi que insensatamente, um dia ou presentemente? os índios vos entregou? Se o próprio Deus tão potente deste povo em santo ofício corpo e alma modelou!

GUAIXARÁ

Deus? Talvez remotamente pois é nada edificante a vida que resultou.

São pecadores perfeitos, repelem o amor de Deus, e orgulham-se dos defeitos.

AIMBIRÊ

Bebem cuim a seu jeito, como completos sandeus ao cauim rendem seu preito.

Esse cauim é que tolhe sua graça espiritual.

Perdidos no bacanal seus espíritos se encolhem em nosso laço fatal.

SÃO LOURENÇO

Não se esforçam por orar na luta do dia a dia.

Isto é fraqueza, de certo.

AIMBIRÊ

Sua boca respira perto do pouco que Deus confia.

SARAVAIA

É verdade, intimamente resmungam desafiando ao Deus que os está guiando.

Dizem: “Será realmente capaz de me ver passando?”

SÃO SEBASTIÃO

(Para Saravaia:) Serás tu um pobre rato? Ou és um gambá nojento? Ou és a noite de fato que as galinhas afugenta e assusta os índios no mato?

SARAVAIA

No anseio de devorar as almas, sequer dormi.

GUAIXARÁ

Cala-te! Fale eu por ti.

SARAVAIA

Não vás me denominar, pra que não me mate aqui.

Esconda-me, antes, dele.

Eu por ti vigiarei.

GUAIXARÁ

Cala-te! Te guardarei! Que a língua não te revele, depois te libertarei.

SARAVAIA

Se não me viu, safarei.

Inda posso me esconder.

SÃO SEBASTIÃO

Cuidado que lançarei o dardo em que o flecharei.

GUAIXARÁ

Deixa-o.

Vem de adormecer.

SÃO SEBASTIÃO

A noite ele não dormiu para os índios perturbar

SARAVAIA

Isso não se há de negar.

(Açoita-o Guaixará e diz:)

GUAIXARÁ

Cala-te! Nem mais um pio, que ele quer te devorar.

SARAVAIA

Ai de mim! Por que me bates assim, pois estou bem escondido? (Aimbirê com São Sebastião )

AIMBIRÊ

Vamos! Deixa-nos a sós, e retirai-vos que a nós meu povo espera afligido.

SÃO SEBASTIÃO

Que povo?

AIMBIRÊ

Todos os que aqui habitam desde épocas mais antigas, velhos, moças, raparigas, submissos aos que lhes ditam nossas palavras amigas.

Vou contar todos seus vícios, Em mim acreditarás?

SÃO SEBASTIÃO

Tu não me convencerás.

AIMBIRÊ

Têm bebida aos desperdícios, cauim não lhes faltará.

De ébrios dão-se ao malefício, ferem-se, brigam, sei lá!

SÃO SEBASTIÃO

Ouvem do morubixaba censuras em cada taba, disso não os livrarás.

AIMBIRÊ

Censura aos índios? Conversa! Vem logo o dono da farra, convida todos à festa, velhos, jovens, moçocaras com morubixaba à testa.

Os jovens que censuravam com morubixaba dançam, e de comer não se cansam, e no cauim se lavam, e sobre as moças avançam.

SÃO SEBASTIÃO

Por isso aos aracajás vivem vocês freqüentando, e a todos aprisionando.

AIMBIRÊ

Conosco vivem em paz, pois se entregam aos desmandos.

SÃO SEBASTIÃO

Uns aos outros se pervertem convosco colaborando.

AIMBIRÊ

Não sei.

Vamos trabalhando, e ao vícios bem se convertem à força do nosso mando.

GUAIXARÁ

Eu que te ajude a explicar.

As velhas, como serpentes, injuriam-se entre dentes, maldizendo sem cessar.

As que mais calam consentem.

Pecam as inconseqüentes com intrigas bem tecidas, preparam negras bebidas pra serem belas e ardentes no amor na cama e na vida.

AIMBIRÊ

E os rapazes cobiçosos, perseguindo o mulherio para escravas do gentio.

Assim invadem fogosos...

dos brancos o casario.

GUAIXARÁ

Esta história não termina antes que desponte a lua, e a taba se contamina.

AIMBIRÊ

E nem sequer raciocinam que é o inferno que cultuam.

SÃO LOURENÇO

Mas existe a confissão, bem remédio para a cura.

Na comunhão se depura da mais funda perdição a alma que o bem procura.

Se depois de arrependidos os índios vão confessar dizendo: “Quero trilhar o caminho dos remidos”.

— o padre os vai abençoar.

GUAIXARÁ

Como se nenhum pecado tivessem, fazem a falsa confissão, e se disfarçam dos vícios abençoados, e assim viciados passam.

AIMBIRÊ

Absolvidos dizem: “na hora da morte meus vícios renegarei”.

E entregam-se à sua sorte.

GUAIXARÁ

Ouviste que enumerei os males são seu forte.

SÃO LOURENÇO

Se com ódio procurais tanto assim prejudicá-los, não vou eu abandoná-los.

E a Deus erguerei meus ais para no transe ampará-los.

Tanto confiaram em mim construindo esta capela, plantando o bem sobre ela.

Não os deixarei assim sucumbir sem mais aquela.

GUAIXARÁ

É inútil, desista disso! Por mais força que lhes dês, com o vento, num dois três daqui lhes darei sumiço.

Deles nem sombra vereis.

Aimbirê vamos conservar a terra com chifres, unhas, tridentes, e alegrar as nossas gentes.

AIMBIRÊ

Aqui vou com minhas garras, meus longos dedos, meus dentes,

ANJO

Não julgueis, tolos dementes, por no fogo esta legião, Aqui estou com Sebastião e São Lourenço, não tentem levá-los à danação.

Pobres de vós que irritastes de tal forma o bom Jesus Juro que em nome da cruz ao fogo vos condenastes (Aos santos ) Prendei-os donos da luz! (Os santos prendem os dois diabos )

GUAIXARÁ

Basta!

SÃO LOURENÇO

Não! Teu cinismo me agasta.

Destes provas que sobejam de querer destruir a igreja.

SÃO SEBASTIÃO

(A Aimberê:)

Grita! Lamenta! Te arrasta! Te prendi!

AIMBIRÊ

Maldito Seja! (Preso os dois fala o Anjo a Saravaia que ficou escondido)

ANJO

E tu que está escondido será acaso um morcego? Sapo cururu minguá, ou filhote de gambá, ou bruxa pedindo arrego? Sai daí seu fedorendo, abelha de asa de vento, zorrilho, maritaca, seu lesma, tamarutaca.

SARAVAIA

Ai vida, que me aprisionam! Não vês que morro de sono?

ANJO

Quem és tu?

SARAVAIA

Sou Saravaia Inimigo dos franceses.

ANJO

Teus títulos são só estes?

SARAVAIA

Sou também mestre em tocaia, porco entre todas as reses.

ANJO

Por isso és sujo e enlameias tudo com teu negro rabo.

Veremos como pateias no fogo que a gente ateia.

SARAVAIA

Não! Por todos os diabos! Eu te dou ovas de peixe, farinha de mandioca, desde que agora me deixas, te dou dinheiro aos feixes.

ANJO

Não te entendo, maçaroca.

As coisas que me prometes em troca, de onde roubaste? Que morada assaltaste antes que aqui te escondeste? Muito coisa tu furtaste?

SARAVAIA

Não, somente o que falei.

Da casa dos bons cristãos foi bem pouco o que apanhei; Tenho o que trago nas mãos, por muito que trabalhei.

Aqueles outros têm mais.

Para comprar cauim aos índios, em boa paz, dei o que tinha, e demais, pois pobre acabei assim.

ANJO

Vamos! Restitui-lhes tudo o que tiveres roubado.

SARAVAIA

Não faças isto, estou bêbedo, mais do que o demo rabudo da sogra do meu cunhado.

Tem paciência, me perdoa, meu irmão, estou doente.

Das minhas almas presente farei a ti, prá que em boa hora as cucas lhes rebentes, Leva o nome destes monstros e famoso ficarás.

ANJO

E onde lhes foste ao encontro?

SARAVAIA

Fui pelo sertão a dentro, lacei as almas, rapaz.

ANJO

De que famílias descendem?

SARAVAIA

Desse assunto pouco sei.

Filhos de índios talvez.

Na corda os enfileirei presos todos de uma vez.

Passei noites sem dormir, nos seus lares espreitei, fiz suas casas explodir, suas mulheres lacei, pra que não possam fugir.

(Amarra-o o anjo e diz:)

ANJO

Quantas maldades fizeste! Por isso o fogo te espera.

Viverás do que tramaste nesta abrasada tapera em que pro fim te pilhaste.

SARAVAIA

Aimberê!

AIMBIRÊ

Oi!

SARAVAIA

Vem logo dar-me a mão! Este louco me prendeu.

AIMBIRÊ

A mim também me venceu o flechado Sebastião.

Meu orgulho arrefeceu.

SARAVAIA

Ai de mim! Guaixará, dormes assim, sem pensar em me salvar?

GUAIXARÁ

Estás louco, Saravaia Não vês que Lourenço ensaia maneira de me queimar?

ANJO

Bem junto, pois sois comparsas, ardereis eternamente.

Enquanto nós, Deo Gratias!, sob a luz da minha guarda viveremos santamente.

(Faz uma prática aos ouvintes) Alegrai-vos, filhos meus, na santa graça de Deus, pois que dos céus eu desci, para junto a vós estar e sempre vos amparar dos males que há por aqui.

Iluminado esta aldeia junto de vós estarei, por nada me afastarei — pois a isto me nomeia Deus, Nosso Senhor e Rei! Ele que a cada um de vós um anjo seu destinou.

Que não vos deixe mais sós, e ao mando de sua voz os demônios expulsou.

Também São Lourenço o virtuoso, Servo de Nosso Senhor, vos livra com muito amor terras e almas, extremoso, do demônio enganador.

Também São Sebastião valente santo soldado, que aos tamoios rebelados deu outrora uma lição hoje está do vosso lado E mais — Paranapucu, Jacutinga, Morói, Sariguéia, Guiriri, Pindoba, Pariguaçu, Curuça, Miapei E a tapera do pecado, a de Jabebiracica, não existe.

E lado a lado a nação dos derrotados no fundo do rio fica.

Os franceses seus amigos, inutilmente trouxeram armas.

Por nós combateram Lourenço, jamais vencido, e São Sebastião flecheiro.

Estes santos, em verdade, das almas se compadecem aparando-as, desvanecem (Ó armas da caridade!) Do vício que as envilece.

Quando o demônio ameaçar vossas almas, vós vereis com que força hão de zelar.

Santos e índios sereis pessoas de um mesmo lar.

Tentai velhos vícios extirpar, e as maldades cá da terra evitai, bebida e guerra, adultério, repudiai tudo o que o instinto encerra.

Amai vosso Criador cuja lei pura e isenta São Lourenço representa.

Engrandecei ao Senhor que de bens vos acrescenta.

Este mesmo São Lourenço que aqui foi queimado vivo pelos maus, feito cativo, e ao martírio foi infenso, sendo o feliz redivivo.

Fazei-vos amar por ele, e amai-o quanto puderdes, que em sua lei nada se perde.

E confiando mais nele, mais o céu se vos concede.

Vinde à direita celestial de Deus Pai, ireis gozar junto aos que bem vão guardar no coração que é leal, e aos pés de Deus repousar.

(Fala com os santos convidando-os a cantar e se despede) Cantemos todos, cantemos! Que foi derrotado o mal! Esta história celebremos, nosso reino inauguremos nessa alegria campal! (Os santos levam presos os diabos os quais, na última repetição da cantiga choram)

CANTIGA

Alegrem-se os nossos filhos por Deus os ter libertado.

Guaixará seja queimado, Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado! Guaixará seja queimado, Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado!

(Voltam os santos)

Alegrai-vos, vivei bem, vitoriosos do vício, aceitai o sacrifício que ao amor de Deus convém.

Daí fuga ao Demo-ninguém! Guaixará seja queimado, Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado!

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