Depois de São Lourenço morto na grelha o Anjo fica em sua guarda, e chama os dois diabos, Aimbirê e Saravaia, que venham sufocar os imperadores Décio e Valeriano que estão sentados em seus tronos.
ANJO
Aimbirê!
Estou chamando você.
Apressa-te ! Corre! Já!
AIMBIRÊ
Aqui estou! Pronto! O que há!
Será que vai me pender
de novo este passarão?
ANJO
Reservei-te uma surpresa:
tenho dois imperadores
para dar-te como presa.
De Lourenço, em chama acesa, foram ele os matadores.
AIMBIRÊ
Boa! Me fazes contente!
À força os castigarei,
e no fogo os queimarei
como diabo eficiente.
Meu ódio satisfarei.
ANJO
Eia, depressa a afogá-los.
Que para o sol sejam cegos!
Ide ao fogo cozinhá-los.
Castiga com teus vassalos
estes dois sujos morcegos.
AIMBIRÊ
Pronto! Pronto!
Sejam tais ordens cumpridas!
Reunirei meus demônios.
Saravaia, deixa os sonhos, traz-me de boa bebida que temos planos medonhos!
SARAVAIA
Já de nego me pintei, ó meu avô jaguaruna, e o cauim preparei, verás como beberei nesta festa da fortuna.
Que vejo? Um temiminó? Ou filho de guaianá? Será esse um guaitacá
que à mesa do jacaré
sozinho vou devorar?
(Vê o Anjo e espanta-se.)
E este pássaro azulão,
quem será que assim me encara?
Algum parente de arara?
AIMBIRÊ
É o anjo que em nossa mão
põe duas presas bem raras.
SARAVAIA
Meus capangas, atenção!
Tataurana, Tamanduá,
vamos com calma por lá,
que esses monstros quererão
por certo me afogar.
AIMBIRÊ
Vamos!
SARAVAIA
Ai, os mosquitos me mordem!
Espera, ou me comerão!
Tenho medo, quem me acode.
Sou pequenino e eles podem
tragar-me de supetão.
AIMBIRÊ
Os índios que não se fiam
nesta conversa e se escondem
se os mandam executar.
SARAVAIA
Têm razão se desconfiam,
vivem sempre a se lograr.
AIMBIRÊ
Cala a boca, beberrão,
só por isso és tão valente,
moleirão impertinente!
SARAVAIA
Ai de mim, me prenderão,
mas vou por te ver contente.
E a quem vamos devorar?
AIMBIRÊ
A algozes de São Lourenço.
SARAVAIA
Aqueles cheios de ranço?
Com isto eu vou mudar
meu nome, de que me canso.
Muito bem! Suas entranhas
sejam hoje o meu quinhão.
AIMBIRÊ
Vou morder seu coração.
SARAVAIA
E os que não nos acompanham sua parte comerão.
(Chama quatro companheiros para que os ajudem.)
Tataurana, traze a tua muçurana.
Urubu, jaguaruçu, traz a ingapema. Sús Caborê, vê se te inflama pra comer estes perus.
(Acodem todos os quatro com suas armas)
TATAURANA
Aqui estou com a muçurana e os braços lhe comerei; A Jaguaraçu darei o lombo, a Urubu o crânio, e as pernas a Caborê
URUBU
Aqui cheguei!
As tripas recolherei, e com os bofes terei a panela a derramar.
E esta panela verei minha sogra cozinhar.
JAGUARUÇU
Com esta ingapema dura as cabeças quebrarei, e os miolos comerei.
Sou guará, onça, criatura, e antropófago serei.
CABORÊ
E eu que em demandas andei aos franceses derrotando, para um bom nome ir logrando, agora contigo irei estes chefes devorando.
SARAVAIA
Agora quietos! De rastros, não nos viram. Vou à frente.
Que não escapem da gente.
Vigiarei. No tempo exato ataquemos de repente.
(Vão todos agachados em direção a Décio e Valeriano que conversam)
DÉCIO
Amigo Valeriano minha vontade venceu.
Não houve arte no céu que livrasse do meu plano o servo do Galileu.
Nem Pompeu e nem Catão nem Cesar, nem o Africano, nenhum grego nem troiano puderam dar conclusão a um feito tão soberano.
VALERIANO
O remate, grão-Senhor desta tão grande façanha foi mais que vencer Espanha.
Jamais rei ou imperador logrou coisa tão estranha.
Mas, Senhor, esse quem é que vejo ali, tão armado com espadas e cordel, e com gente de tropelvindo tão acompanhado?
DÉCIO
É o grande deus nosso amigo, Júpiter, sumo senhor, que provou grande sabor com o tremendo castigo da morte deste traidor.
E quer, para reforçar as penas deste rufião, nosso império acrescentar com sua potente mão, pela terra e pelo mar.
VALERIANO
Mais me parece é que vem a seus tormentos vingar, e a nós ambos enforcar.
Oh! que cara feia tem!
Começo a me apavorar.
DÉCIO
Enforcar?
Quem a mim pode matar, ou mover meus fundamentos?
Nem a exaltação dos ventos, Nem a braveza do mar, nem todos os elementos!
Não temas, que meu poder, o que os deuses imortais me quiseram conceder, não se poderá vencer pois não há forças iguais.
De meu cetro imperial pendem reis, tremem tiranos.
Venço a todos os humanos, e posso ser quase igual a esses deuses soberanos.
VALERIANO
Oh, que terrível figura!
Não posso mais aguardar, que já me sinto queimar!
Vamos, que é grande loucura tal encontro aqui esperar.
Ai! ai! que grandes calores! Não tenho nenhum sossego.
Ai, que poderosas dores! Ai, que férvidos ardores, que me abrasam como fogo!
DÉCIO
Oh, paixão!
Ai de mim, que é o Plutão chegando pelo Aqueronte, ardendo como tição a levar-nos de roldão ao fogo do Flegetonte.
Oh, coitado que me queimo! Esse queimado me queima com grande dor!
Oh, infeliz imperador! Todo me vejo cercado de penas e de pavor, pois armado o diabo com seu dardo mais as fúrias infernais, vêm castigar-nos demais.
Já nem sei o que hei falado com angústias tão mortais.
VALERIANO
O Décio, cruel tirano!
Já pagas, e pagará Contigo Valeriano, porque Lourenço cristão assado, nos assará.
AIMBERÊ
Ô Castelhano!
Bom Castelhano parece!
Estou bem alegre mano, que Espanhol seja o profano que no meu fogo padece.
Vou fingir-me castelhano e usar de diplomacia com Décio e Valeriano, porque o espanhol ufano sempre guarda a cortesia.
Oh, mais alta majestade!
Beijo-vos a mão mil vezes, por vossa grã-crueldade pois justiça nem verdade guardastes, sendo juizes.
Sou mandado por São Lourenço queimado, levá-los à minha casa, onde seja confirmado vosso imperial estado em fogo, que sempre abrasa.
Oh, que tronos e que camas eu vos tenho preparadas, nessas escuras moradas de vivas e eternas chamas de nunca ser apagadas!
VALERIANO
Ai de mim!
AIMBIRÊ
Vieste do Paraguai?
Que falais, em Carijó.
Sei todas línguas de cor.
Avança aqui, Saravaia!
Usa tu golpe maior!
VALERIANO
Basta! Que assim me assassinas, não tenho pecado nada!
Meu chefe é a presa acertada.
SARAVAIA
Não, és tu que me fascinas, ó presa bem cobiçada.
DÉCIO
Ó miserável de mim, que nem basta ser tirano, nem falar em castelhano!
Que é do mando em que me vi, e o meu poder soberano?
AIMBIRÊ
Jesus, Deus grande e potente, que tu, traidor, perseguiste, te dará sorte mais triste entregando-te em meu dente, a que, malvado, serviste.
Pois me honraste, e sempre me contentaste ofendendo ao Deus eterno.
É justo pois que no inferno, palácio que tanto amaste, não sintas o mal do inverno.
Porque o ódio inveterado do teu duro coração não pode ser abrandado, se não for já martelado com a água do Flegeton.
DÉCIO
Olha que consolação para quem se está queimando!
Sumos deuses, para quando adiais minha salvação, que vivo estou me abrasando?
Ai, ai! Que mortal desmaio!
Esculápio, não me acodes?
Oh, Júpiter, porque dormes?
Que é do vosso raio?
Por que é que não me socorres?
AIMBIRÊ
Que dizeis?
De que mal vós padeceis?
Que pulso mais alterado.
É grande dor de costado este mal, que morreis!
Haveis de ser bem sangrado!
Há dias que esta sangria se guardava para vós que sangráveis, noite e dia, com dedicada porfia aos santos servos de Deus.
Muito desejo eu beber vosso sangue imperial.
Oh, não me leveis a mal que com isso quero ser homem de sangue real.
DÉCIO
Que dizeis? Que disparate, e elegante desvario!
Joguem-me dentro de um rio antes que o fogo me mate, ó deuses em que confio!
Não quereis socorrer-me, ou não podeis?
Ó malditos fementidos, ingratos desconhecidos, que pouco vos condoeis de quem fostes tão servidos!
Se agora voar pudesse, vos iria derrocar dos vossos tronos celestes, feliz, se a mim me coubesse no fogo vos projetar.
AIMBIRÊ
Parece-me que é chegada a hora do frenesi, e com chama redobrada, a qual será descuidada dos deuses a quem servis.
São armas dos audazes cavaleiros que usam palavrório humano.
E por isso, tão ufano, hoje vindes acolhê-los no romance castelhano.
SARAVAIA
Assim é.
Pensava dar, de revés, golpes de afiados aços mas enfim, nossos balaços se chocaram através com bem poucos canhonaços.
Mas que boas bofetadas lhes reservo para dar!
Os tristes, sem descansar, à força de tais pauladas com cães hão de ladrar.
VALERIANO
Que ferida! Tira-me logo esta vida pois, minha alta condição, contra justiça e razão veio a ser tão abatida que morro como ladrão!
SARAVAIA
Não é outro o galardão que concedo aos meus criados, senão morrer enforcados, e depois, sem remissão, ao fogo ser condenados!
DÉCIO
Essa é a pena redobrada que me causa maior dor: que eu, universal senhor, morra morte desonrada na forca como traidor.
Ainda se fosse lutando, dando golpes e reveses, pernas e braços cortando, como fiz com os franceses, acabaria triunfando.
AIMBIRÊ
Parece que estais lembrando, poderoso imperador, quando, com bravo furor, matastes, traição armando, Felipe, vosso senhor.
Por certo que me alegrais e se cumpre meus anseios ante desabafos tais, porque o fogo em que queimais provoca tais devaneios.
DÉCIO
Bem entendo que este fogo em que me acendo merece-me a tirania, pois com tão feroz porfia aos cristãos martirizando pelo fogo os consumia.
Mas que em minha monarquia acabe com tal pregão pois morrer como ladrão é muito triste agonia e dobrada confusão.
AIMBIRÊ
Como? Pedis confissão?
Sem asas quereis voar?
Ide, se quereis achar aos vossos atos perdão, à deusa Pala rogar.
Ou a Nero, esse cruel carniceiro do fiel povo cristão.
Aqui está Valeriano, vosso leal companheiro, buscai-o por sua mão!
DÉCIO
Esses amargos chistes e agressões me acrescentam em paixões e mais dores, com tão profundos ardores como de ardentes tições E com isto crescem mais os fogos em que padeço.
Acaba, que me ofereço em tuas mãos, Satanás, ao tormento que mereço.
AIMBIRÊ
Oh, quanto vos agradeço por esta boa vontade!
Eu, com liberalidade quero dar-lhe bom refresco para vossa enfermidade.
Na cova onde o fogo se renova com ardores perenais, os vossos males fatais aí terão grande prova das agruras imortais.
DÉCIO
Que fazer, Valeriano, bom amigo!
Testemunharás comigo desta pena envolvido na cadeia de fogo, deste castigo.
VALERIANO
Em má hora! Já são horas...
Vamos logo deste fogo ao outro fogo eternal, lá onde a chama imortal nunca nos dará sossego.
Sús, asinha!
Vamos à nossa cozinha, Saravaia!
AIMBIRÊ
Aqui deles não me afasto.
Nas brasas serão bom pasto, maldito quem nelas caia.
DÉCIO
Aqui abrasado estou!
Assa-me Lourenço assado!
De soberano que sou vejo que Deus me marcou por ver seu santo vingado!
AIMBIRÊ
Com efeito quiseste abrasar a jeito o virtuosos São Lourenço.
Hoje te castigo e venço e sobre as brasas te deito para morrer, segundo penso.
(Sufocam-nos e entregam aos quatro beleguins, e cada dois levam o seu.)
Vinde aqui e aos malditos conduzi para em bom queimarem, seus corpos sujos tostarem, na festa em que os seduzi para cozidos bailarem
(Ficam ambos os demônios no terreiros com as coroas dos imperadores na cabeça.)
SARAVAIA
Sou o grande vencedor, o que as más cabeças quebra, sou um chefe de valor e hoje me decido por me chamar Cururupeba.
Como eles, mato os que estão em pecado, e os arrasto em minhas chamas.
Velhos, moços, jovens, damas, tenho sempre devorado.
De bom algoz tenho fama.
Tendo o corpo de São Lourenço amortalhado e posto na tumba, entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a encerrar a obra, e no fim acompanham o santo à sepultura.
ANJOVendo nosso Deus benigno vossa grande devoção que tendes, e com razão, a Lourenço, o mártir digno de toda a veneração, determinam, por seus rogos e martírio singular, a todos sempre ajudar, para que escapeis dos fogos em que os maus se hão de queimar.
Dois fogos trazia n’alma, com que as brasas resfriou, a no fogo em que se assou, com tão gloriosa palma, dos tiranos triunfou.
Um fogo foi o temor do bravo fogo infernal, e, como servo leal, por honrar a seu Senhor, fugiu da culpa mortal.
Outro foi o Amor fervente de Jesus, que tanto amava, que muito mais se abrasava com esse fervor ardente que co’o fogo, em que se assava, Estes o fizeram forte.
Com estes purificado como ouro refinado, padeceu tão crua morte por Jesus, seu doce amado.
Estes vos manda o Senhor a ganhar vossa frieza, para que vossa alma acesa de seu fogo gastador, fique cheio de pureza.
Deixai-vos deles queimar como o mártir São Lourenço, e sereis um vivo incenso que sempre haveis de cheirar na corte de Deus imenso.
TEMOR DE DEUS
(Dá seu recado.)
Pecador, sorves com grande sabor o pecado, e não ficas afogado com teus males!
E tuas chagas mortais não sentes, desventurado!
O inferno como seu fogo sempiterno, Já te espera, se não segues a bandeira da cruz, sobre a qual morreu Jesus para que tua morte morra.
Deus te envia esta mensagem com amor, a mim que sou seu Temor me convém declarar o que contém para que temas ao Senhor.
(Glosa e declaração do recado.)
Espantado estou de ver, pecador, teu vão sossego.
Com tais males a fazer, como vives sem temer, aquele espantoso fogo?
Fogo que nunca descansa, mas sempre provoca a dor, e com seu bravo furor dissipa toda a esperança ao maldito pecador.
Pecador, como te entregas tão sem freio ao vício extremo?
Dos vícios de que estás cheios engolindo tão às cegas a culpa, com seu veneno.
Veneno de maldição tragas sem nenhum temor, e sem sentir sua dor, deleites da carnação sorves com grande sabor.
Será o sabor do pecado muito mais doce que o mel, mas o inferno cruel depois te dará um bocado bem mais amargo que o fel Fel beberás sem medida, pecador desatinado, tua alma em chamas ardida.
Esta será a saída do deleite do pecado.
Do pecado que tu amas Lourenço tanto escapou que mil penas suportou, e queimado pelas chamas, por não pecar, expirou.
Ele a morte não temeu.
Tu não temes o pecado no qual et tem enforcado Lucifer, que te afogou, e não ficas afogado.
Afogado pela mão do Diabo pereceu Décio com Valeriano, infiel, cruel tirano, no fogo que mereceu.
Tua fé merece a vida, mas com pecados mortais quase a tiveste perdida, e teu Deus, bem sem medida, ofendeste, com teus males.
Com teus males e pecados, tua alma de Deus alheia, da danação na cadeia há de pagar com os danados a culpa que a incendeia.
Pena sem fim te darão dentre os fogos infernais teus deleites sensuais.
Teus tormentos dobrarão, e tuas chagas mortais.
Que mortais são tuas feridas pecador. Porque não choras?
Não vês que nestas demoras, estão todas corrompidas, a cada dia pioras?
Pioras e te confinas, mas teu perigoso estado, na pressa e grande cuidado com que ao fogo te destinas, não sentes, desventurado?
Oh, descuido intolerável de tua vida!
Tua alma está confundida no lodo, e tu vais rindo de tudo, não sentes tua caída!
Oh, traidor!
Que negas teu Criador, Deus eterno, que se fez menino terno por salvar-te.
E tu queres condenar-te e não temes ao inferno!
Ah, insensível!
Não calculas o terrível espanto, que causará o juiz, quando virá com carranca muito horrível, e à morte te entregará.
E tua alma será sepultada em pleno inferno, onde morte não terá mas viva se queimará com seu fogo sempiterno!
Oh, perdido!
Ali serás consumido sem nunca te consumir.
Terás vida sem viver, com choro e grande gemido, terás morte sem morrer.
Pranto será teu sorrir, sede sem fim te abeberra, fome que em comer se gera, teu sono, nunca dormir, tudo isto já te espera.
Oh, morfio!
Pois tu veras de continuo ao horrendo Lucifer, sem nunca chegar a ver aquele molde divino de quem tiras todo o ser.
Acaba já de temer a Deus, que sempre te espera, correndo por sua esteira, pois não lhes vai pertencer se não lhe segues a bandeira.
Homem louco!
Se teu coração já toco, mudar-se-ão alegrias em tristezas e agonias.
Olha que te falta pouco para fenecer teus dias.
Não peques mais contra Aquele que te ganhou vida e luz com seu martírio cruel bebendo vinagre e fel no extremo lenho a cruz.
Oh, malvado! Ele foi crucificado, sendo Deus, por te salvar.
Pois, que podes esperar, se foste tu o culpado e não cessas de pecar?
Tu o ofendes, ele te ama.
Cegou-se por dar-te a luz.
Tu és mau, pisas a cruz sobre a qual morreu Jesus.
Homem cego, porque não começas logo a chorar por teu pecado?
E tomar por advogado a Lourenço que, no fogo, por Jesus morreu queimado?
Teme a Deus, juiz tremendo, que em má hora te socorra, em Jesus tão só vivendo, pois deu sua vida morrendo para que tua morte morra.
(Dá seu recado)
Ama a Deus, que te criou, homem, de Deus muito amado!
Ama com todo cuidado, a quem primeiro te amou.
Seu próprio Filho entregou à morte, por te salvar.
Que mais te podia dar, se tudo o que tem te dou?
Por mandado do Senhor, te disse o que tens ouvido.
Abre todo teu sentido, porque eu, que sou seu Amor, seja em ti bem imprimido
(Glosa e declaração do recado)
Todas as coisas criadas conhecem seu Criador.
Todas lhe guardam amor, pois nele são conservadas, cada qual em seu vigor.
Pois com tanta perfeição sua ciência te formou homem capaz de razão, de todo o teu coração ama a Deus, que te criou!
Se amas a criatura por se parecer formosa, ama a visão graciosa desta mesma formosura por sobre todas as coisas.
Dessa divina lindeza deves ser enamorado.
Seja tua alma presa daquela suma beleza homem, de Deus muito amado!
Aborrece todo o mal, com despeito e com desdém, E pois, que é racional, abraça a Deus imortal, todo, sumo e único bem.
Este abismo de fartura, que nunca será esgotado; esta fonte viva e pura, este rio de doçura, ama com todo cuidado.
Antes que criasse nada já a alma majestade te havia a vida gerado.
e tua alma, abrasada com eterna caridade.
Por fazer-te todo seu com amor te cativou e, pois que tudo te deu, dá tu todo o maior que é teu a quem primeiro te amou.
E deu-te alma imortal e digna de um Deus imenso, para que fosses suspenso nele, esse bem eternal, que é sem fim e sem começo.
Depois, que em morte caíste com vida te levantou.
Porque sair não conseguiste da culpa em que te fundiste, seu próprio filho entregou.
Entregou-o por escravo, deixou que fosse vendido, para que tu, redimido do poder do leão bravo fosses sempre agradecido.
Para que não morras, morre com amor bem singular.
Pois, quanto deves amar a Deus que entregar-se quer à morte, por te salvar.
O Filho, que o Padre deu, a seu Pai te dá por pai, e sua graça te infundiu, e quando na cruz morreu, deu-te por mãe sua Mãe.
Deu-te fé com esperança, e a si mesmo por manjar, para em si te transformar pela bem aventurança.
Que mais te podia dar?
Em paga de tudo isto, oh, ditoso pecador, pede apenas teu amor.
Despreza pois todo o resto por ganhar a tal Senhor.
Dá tua vida pelos bens que Sua morte te ganhou.
És seu, nada tens de teu, Dá-lhe tudo quanto tens, pois tudo o que tem te deu!
Levantai os olhos ao céu, meus irmãos.
Vereis a Lourenço reinando com Deus, por vós implorando junto ao rei dos céus, que louvais seu nome aqui neste chão!
Daqui por diante tende grande zelo, que Deus seja sempre temido e amado, e, mártir tão santo, de todos honrado.
Terei seus favores e doce desvelo.
Pois que celebrai com tal devoção seu claro martírio, tomai meu conselho: sua vida e virtudes tende por espelho, chamando-o sempre com grande afeição.
Tereis, por seus rogos, o santo perdão, e sobre o inimigo perfeita vitória.
E depois da morte vós vereis na glória a cara divina, com clara visão.
(LAUS DEO)
Dança de doze meninos, que se fez na procissão de São Lourenço.
1º) Aqui estamos jubilosos tua festa celebrando.
Por teus rogos desejando Deus nos faça venturosos nosso coração guardando.
2º) Nós confiamos em ti Lourenço santificado, que nos guardes preservados dos inimigos aqui Dos vícios já desligados nos pajés não crendo mais, em suas danças rituais, nem seus mágicos cuidados.
3º) Como tu, que a confiança em Deus tão bem resguardaste, que o dom de Jesus nos baste, pai da suprema esperança.
4º) Pleno do divino amor foi teu coração outrora.
Zela pois por nós agora! Amemos nosso Criador, pai nosso de cada hora!
5º) Obedeceste ao Senhor, cumprindo sua palavra.
Vem que nossa alma escrava de teu amor, neste dia te imita em sabedoria.
6º) Milagroso, tu curaste teus filhos tão santamente.
Suas almas estão doentes deste mal que abominaste, Vem curá-los novamente!
7º) Fiel a Nosso Senhor a morte tu suportaste.
Que a força disto nos baste para suportar a dor pelo mesmo Deus que amaste.
8º) Pelo terrível que és, Já que os demônios te temem, nas ocas onde se escondem vem calcá-los sob os pés, pra que as almas não nos queimem.
9º) Hereges que este indefeso corpo no teu assaram, e a carne toda queimaram em grelhas de ferro aceso.
Choremos, do alto desejo de Deus Padre contemplar.
Venha Ele neste ensejo nossas almas inflamar.
10º) Os teus verdugos extremos treme, algozes de Deus.
Vem, leva-nos como teus, que ao teu lado ficaremos assustando estes ateus.
11º) Estes que te deram morte ardem no fogo infernal.
Tu, na glória celestial gozarás, divina sorte.
E contigo aprenderemos a amar a Deus no mais fundo do nosso ser, e no mundo longa vida gozaremos.
12º) Em tuas mãos depositamos nosso destino também.
Em teu amor confiamos e uns aos outros nos amamos para todo o sempre.
Amém.
Fonte: virtualbooks.terra.com.br