Quem tem lido os meus artigos com relação ao atual movimento político sabe que eu nunca procurei magoar os velhos republicanos sinceros, os que pugnaram sempre pela verdadeira República.
Tenho feito guerra aos especuladores da República, aos egoístas que procuram especular, com a mais santa das idéias políticas.
Não há uma única palavra minha que não seja dirigida aos neo-republicanos da indenização e aos seus patronos, que viram neles o melhor instrumento para os seus despeitos encanecidos.
Basta ler a coluna de O Paiz, sob a epígrafe Partido Republicano, para ver que esta república baseada na indenização, que é combatida pela Federação, deve ser combatida por todos os que entendem que a política não é uma especulação miserável.
Não obstante, a Federação que, pelas suas tradições, devia dar neste momento exemplo de moderação, de cortesia e de bom senso; que devia distinguir entre uns e outros dos que se dizem republicanos e dos que dizem praticar as doutrinas democráticas; a Federação entra na guerra da difamação contra a minha pessoa nos seguintes termos:
«Se o senhor Patrocínio ajoelhou-se, não foi porque a libertação fosse um benefício que precisasse ser pedido de joelhos; a libertação não foi uma dádiva, foi uma conquista, uma imposição; se o senhor Patrocínio ajoelhou-se, é porque há naturezas que nunca estão tão bem como quando estão de joelhos.
O grande representante da raça negra não pode ser um renegado, vão procurá-lo entre os que souberam sentir com altivez.
O grande negro não é Luís Gama para ser o senhor José do Patrocínio!»
Quando foi que pedi, de joelhos, a libertação?
Seria pedir de joelhos o manter-me durante dez anos em guerra contra tudo e contra todos os que não eram abolicionistas?
Para que caluniar miseravelmente aquele a quem aplaudiram na véspera?
Onde está o ato meu, durante a propaganda abolicionista, que demonstre um simples pestanejar diante do perigo?
Enquanto o Partido Republicano, que merece aplausos à Federação, comia tranqüilamente o suor do negro, e tratava a chicote os seus irmãos; enquanto o sr. Rafael de Barros e os seus soldados formavam reputação para as suas coudelarias e tornavam-se notáveis pelo seu apuro no meio da boa sociedade; o que era que eu fazia senão combater dia e noite na tribuna e na imprensa?
Que fizeram os republicanos neste tempo? Qual o sacrifício coletivo por eles feito?
Nem o partido, nem nenhum deles fundou um jornal. Os que escreviam recebiam dinheiro das empresas ricas que os chamavam. Nenhum se prestou a colaborar no órgão da abolição.
É uma infâmia da canalha negreira a opinião que a Federação, infelizmente, endossou com o seu prestígio.
Esses bandidos, em cuja cara eu sempre escarrei, nos tempos da propaganda abolicionista, acharam que era agora o momento de vingarem-se contra a minha altivez.
Não tenho agora tempo, mas hei de contar a história de cada um desses patifes, que entenderam que as costas dos próximos foram feitas para servir de escada às suas ambições.
Disse-o sempre: o meu único fito em meu país é cooperar, antes de tudo, para a extinção da escravidão. Nunca iludi ninguém. Apoiei o sr. Dantas, sendo entretanto republicano, e colocava Severino Ribeiro muito acima do sr. Saldanha Marinho.
Declarada de direito a extinção da escravidão, entendi que devia ficar ao lado do Governo para vê-la realizada de fato, o que ainda se não deu por culpa do republicanismo de relho e indenização, republicanismo do Rio do Peixe e de Itu.
Disse que hei de honrar a princesa e que lhe agradeço, como ao Governo, ter decretado a abolição.
Emprestei alguma glória à Sua Alteza e ao Gabinete?
Pois não está aí o movimento republicano atual demonstrando a glória desses beneméritos?
Se eles nada fizeram, se legalizaram apenas o que todos já haviam deliberado, por que os odeiam tanto?
A Federação é injusta para comigo. Eu apelo para o futuro, mas declaro que prefiro morrer, como Tibério Graco, a ser ministro gordo e abafado do Governo do sr. Saldanha Marinho.
31 jul. 1888
Uma cilada descoberta, uma emboscada sem êxito, eis a semana.
A oposição quis de surpresa apoderar-se da Mesa da Câmara dos Deputados, mas a imperícia da manobra não deu senão para uma exibição do sr. Coelho Rodrigues, que se indignou com uma porção dos seus apelidos.
Quis a oposição reviver na Câmara dos Deputados o tempo da eleição de gola, o tempo das cédulas recheadas. A tramóia deu em água de barrela e a Mesa continuou a exprimir o voto e a vontade da maioria.
Na verdade, é para desanimar e alucinar não poder vencer um adversário que se julgou matar no primeiro encontro.
O escravismo, depois de parafusar longo tempo, concluiu que o melhor era deixar decretar a abolição de direito e, em seguida, apoderando-se do poder, manter a escravidão de fato.
Pensou lá com os seus botões que não havia nada mais cômodo do que ter uma lei para enganar o mundo, como a de 7 de novembro de 1831, e os lucros da escravidão no interior. Era tão simples: tudo se pode fazer, a questão é de jeito. A experiência lhes dizia que o difícil era conter a onda humanitária, mas não canalizar os interesses dos que eram solidários na exploração do mesmo crime.
Derrotado o Gabinete, o novo Ministério veria que não devia ser tão radical. O sr. Paulino de Sousa andara bem na encenação da república da indenização e, por este lance teatral, seqüestrar-se-ia mais uma vez a opinião do Poder Moderador.
Ficava assim o campo livre e com uma dose de recrutamento, bem aplicada, lançar-se-ia o pânico entre os novos cidadãos, de modo a obter deles trabalho sem salário. Era, pois, o melhor dos mundos, um paraíso ainda mais delicioso que este em que viveu a pirataria desde Marambaia até Serinhaém, durante 25 anos.
Infelizmente, os escravistas puseram e os fatos dispuseram.
Todas as profecias de terror foram desmentidas.
Não haveria colheita, disseram eles; a estatística demonstra que a diferença das entradas de café entre os anos de 1887 e 1888 é de mais de 245 mil sacas a favor deste ano.
Perdia-se todo o café, não havia meio de colhê-lo e, entretanto, a diferença para mais, este ano, é espantosa.
Sim, dizem eles, mas seria o dobro se não fosse perturbado o trabalho. Admitamos, porém não nos esqueçamos de que o argumento foi outro. Não se falou na perda do excesso, falou-se no aniquilamento da colheita, o que faz com que tenhamos direito em não acreditar na alegação posterior.
Diziam os escravistas que a renda diminuiria, que todos os capitais se retrairiam. A Alfândega rendeu no mês de julho, mais do que em julho de 1887, a quantia de 1.240:810$400! O algarismo da renda foi o maior conhecido até hoje, 4.811:886$287. O movimento da Bolsa do Rio de Janeiro tem sido vertiginoso. É verdade que se tem misturado muita intriga à verdade, mas o fato é que os capitais se agitam e se expandem.
O câmbio já esteve quase ao par e, apesar de todos os manejos, de todas as negaças imaginadas pela judiaria esterlina, conserva o mais alto nível a que nestes últimos tempos era possível imaginar. Os 24 d. do sr. Belisário, o ministro da conta corrente, ficaram já a perder de vista.
O testemunho do comércio imparcial é que a cifra de vendas das mercadorias essenciais à vida do trabalhador é o quádruplo da que se conhecia até antes de 13 de maio. A roupa feita, os chapéus, os sapatos e chinelos, os morins e algodões vendem-se vertiginosamente, o que quer dizer que os novos cidadãos têm feito os enxovais da liberdade.
O número de casamentos é prodigioso. Os corações, que se imobilizavam no cativeiro, começam a bater e apinhar-se, como um pássaro que, longo tempo engaiolado, voa, voa, até ir repousar bem longe, num ninho desde muito ambicionado.
O desmentido ao escravismo não podia ser mais completo. Onde ele fantasiava o deserto, surge um oásis; onde ele assentava a desolação, esplendem a alegria e o movimento vivaz. Que fazer? Cruzar os braços? Não, porque o impenitente morre vociferando.
Explicam-se pelo desespero os manejos empregados para falsificar as eleições de mesa parlamentar e a opinião pública.
É assim que se quis fazer crer que, da parte do Governo, havia a maior fraqueza, que se dera uma submissão indireta no contrato com o Banco do Brasil.
Entretanto, a singeleza mesma da operação basta para demonstrar que ainda uma vez o sr. presidente do Conselho manteve os seus créditos de prudência e de energia, de inflexibilidade e segurança de vistas.
O Banco do Brasil pagava a multa de oito por cento (8%) por não querer completar a sua carteira hipotecária.
Não há quem não compreenda logo que se o Banco do Brasil se negava a emprestar à lavoura era por motivo de interesse do estabelecimento, isto é, por julgar que o negócio não era bom.
É, pois, uma vitória, quando se anuncia a ruína total da lavoura, conseguir do estabelecimento que melhor a conhece volver de novo ao negócio, por ele considerado tão mau, que preferia a fazê-lo pagar a multa de 8% de amortização da sua emissão de papel-moeda.
Assim, pois, se o sr. presidente do Conselho obtivesse do Banco do Brasil somente a volta ao negócio, neste momento, já era um triunfo extraordinário, visto como, em tempos considerados lisonjeiros, aquele estabelecimento se negou, apesar da coação da multa.
Mas S. Ex.ª obteve muito mais. O Governo empresta, é certo, ao Banco do Brasil seis mil contos, mas o banco, por sua vez, entra para a carteira hipotecária com a quantia de seis mil contos.
Quer isto dizer, primeiro, que o sr. presidente do Conselho conseguiu que o Banco do Brasil realizasse o capital a que se obrigou emprestar à lavoura e mais uma responsabilidade de seis mil contos para com o Estado; segundo, que o sr. presidente do Conselho conseguiu a declaração pública, o depoimento prestigioso do primeiro estabelecimento de crédito do país, de que o estado da lavoura não é o que o pessimismo partidário e alucinado assoalha, com perigo do crédito do Estado.
Ressalta, à simples vista, que obter pelo empréstimo de seis mil contos o desmentido solene de uma crise, conjurar o mais formidável abalo de que podíamos ser vítimas, por tão insignificante soma, é dar prova do mais profundo tino.
Está na memória de todos que o Estado fez muito maior sacrifício quando teve que dominar a crise bancária na praça do Rio de Janeiro e, entretanto, não se havia dado uma transformação radical na sociedade.
Mas o empréstimo foi sem juros; é exato, porém é muito menos oneroso que se fosse emitido papel-moeda, que deprecia o meio circulante e perturba todas as relações econômicas do país e vós outros, em circunstâncias menos graves, lançastes mão desse recurso desesperado.
O favor é grande para o Banco do Brasil e a prova é a alta das suas ações.
É preciso distinguir o lucro direto e o lucro proveniente do aumento de confiança pela sabedoria da operação.
O Banco do Brasil, entrando com seis mil contos de sua carteira comercial para a hipotecária, priva-se de lucros certos e prontos, e muito maiores. Quer os tivesse colocado em apólices, com o juro de 5% certo, capitalizado de seis em seis meses; quer em letras comerciais, já pela segurança do empréstimo, já pela facilidade de liquidação, o banco tinha lucros que ele considerava superiores a 8% do valor do capital retirado das transações hipotecárias. A razão é óbvia, ninguém evita sob pena de multa um negócio lucrativo.
Se é verdade que o Tesouro empresta sem juros, é também verdade que o banco se priva de lucros imediatos e se aventura a transações em que ele já não confiava, e em que reentra por ter uma base certa, um cálculo seguro, para cobrir-se no futuro.
O fim do Governo não é ter casa bancária; não é negociar em dinheiro; é aplicá-lo de modo útil ao Estado.
Desde que o Tesouro não perde, desde que o estado não se priva de nenhum serviço necessário, não há que estranhar que ele aplique uma soma qualquer, que vai conjurar uma crise, com inteira segurança de reembolso.
Acresce que a quantia emprestada não pode sofrer nenhum desvio do fim especial a que é destinada, pois que será feita à proporção que o banco a for distribuindo pela lavoura.
A cotação das ações subiu e era lógico. Desde que a carteira hipotecária, sobre a qual pairavam as nuvens agoureiras do pânico teatral do escravismo, teve o horizonte desanuviado, os capitalistas, renascida a confiança, deviam voltar à procura das ações do banco.
A bolha de sabão do empréstimo espocou por si mesma no ar e não há, portanto, que admirar se ela não serviu para o balão de ensaio.
Qualquer que seja o ponto de vista, sob o qual encaremos a oposição, vemos que ela não tem nenhuma razão patriótica para combater o Ministério.
É necessário fazer barulho e a oposição agita-se; nada mais.
A verdade é que o Ministério da Redenção continua a bem merecer da pátria e consolidando pela sabedoria administrativa o nome e a fortuna nacionais no exterior e no interior.
6 ago. 1888
Estava o sr. Silva Jardim a pedir que o deixassem rir, e os seus ouvintes faziam-lhe cócegas à vaidade, quando lhe irromperam dos lábios estas palavras:
«Deixai que eu me ria desses republicanos abolicionistas que, depois da abolição, ajoelharam-se aos pés da Monarquia.»
-Uma voz. -José do Patrocínio.
-O orador. -«Eu não sei onde há monturos, e quando os haja, eu, como bom republicano, não devo revolvê-los».
Estou de acordo com o sr. Silva Jardim.
O monturo de misérias e ambições sobre o qual S. S.ª assentou a tenda de combate, infecciona ainda mesmo não sendo revolvido. É que ele se fez com o lixo de todas as consciências, com a podridão de todas as almas que se decompuseram ao contato da lepra da escravidão.
Representando uma propaganda que tem como arma a difamação a mais baixa dos seus adversários; fazendo do seu talento a cloaca máxima onde o ódio dos vagabundos, forçados ao trabalho pela Lei 13 de Maio, dejetam toda a bile; o sr. Silva Jardim, para sentir sempre exalações nauseabundas, não precisa de sair fora das teorias, que anda pregando.
É assim que, caluniando a História, entre outras falsidades levantadas para adular a lavoura, S. S.ª disse que era obra de lavradores a Revolução de 1817, a santa revolução a que eu filiei, como republicano que sou, a causa da abolição, desde o primeiro dia que falei e escrevi, desde os tempos em que, muito ingênuo ainda, acreditando que os chefes republicanos eram sérios, ia interromper o sr. Quintino Bocaiúva numa apresentação de candidaturas, pedindo-lhe, em nome da tradição de 1817, que ele se externasse quanto à abolição.
Quando se tem a coragem do sr. Silva Jardim para mentir assim, com a palidez de um missionário, com a doce feição de um barbadinho que evangeliza, quando se dá aos assassinos da República de 1817 a glória da sua vida; quando impudentemente se profana a sepultura do padre Miguelinho para empanzinar crianças e deliciar despeitados, tem-se com certeza coragem para tudo. Quem não hesita diante do saqueio da memória dos mortos, como há de recuar diante do assalto à honra dos vivos?
Os movimentos republicanos do Brasil são obra dos lavradores!
Eu só conheço um: a Inconfidência, devida à capitação lançada pela metrópole sobre os escravos empregados na mineração.
Mas este, como o de agora, não pode ser invocado como justificativa.
Pedia-se a República para melhor explorar a escravidão.
A apologia dos lavradores dá a medida da sinceridade do sr. Silva Jardim, na atual propaganda republicana, e não admira, pois, que S. S.ª se faça o pregoeiro público de todas as calúnias, com que o esclavagismo procurou macular a propaganda abolicionista.
Eu sou realmente um monturo, porque fui obrigado a arquivar as misérias da escravidão. O monturo não existe senão porque há uma sociedade que vai depositar nele tudo quanto ela tem de mais asqueroso.
A ilha da Sapucaia, que saiu pura e imaculada das entranhas da natureza, não tem culpa de que a escolhessem para depósito de lixo.
Eu fui a ilha em que a fatalidade da História depositou o lixo das consciências dessa geração miserável, que vivia de explorar os seus irmãos.
O sr. Silva Jardim não quer ir revolvê-la, porque tem medo de encontrar aí algum trapo que de alguma forma lhe pertença.
Acha o tribuno da Nova República ridículo o qualificativo Redentora dado à princesa.
O que hei de eu achar no qualificativo beneméritos dado aos comissários e fazendeiros, que o aplaudem?
Qual é mais digno, beijar a mão da senhora que levantou uma raça ao ponto de o sr. Silva Jardim já a considerar capaz de poder presidir a República, por um dos seus representantes, quando até o último dia muitos dos seus correligionários só a julgavam digna do chicote e do tronco e de servir como semovente à garantia de hipotecas; ou apoiar-se na fortuna e no ódio dos escravistas para subir às altas posições do Estado?
Há no meu procedimento uma contradição e eu a não contesto.
Quem é o responsável, porém, eu ou o Partido Republicano?
Eu era republicano revolucionário durante a propaganda abolicionista e nesse tempo o Partido Republicano negou-se a deixar aferir a sua bandeira pelos sentimentos abolicionistas.
Aí estão os manifestos de S. Paulo como prova, aí está o discurso do sr. Quintino Bocaiúva e o seu silêncio durante a redação do Globo, da tarde, para demonstrá-lo. O sr. Saldanha Marinho homologou as declarações dos seus correligionários. Os srs. Campos Sales e Prudente de Morais, ambos senhores de escravos, não queriam mais que o sr. Dantas.
O Partido Republicano não tinha pejo de declarar que não assumia a direção da propaganda, porque se indisporia com a lavoura.
Mais ainda: quando já a vitória abolicionista se anunciava pela resistência desesperada ao sr. Dantas, pela lei de 1885, pelo Ministério Cotegipe e a monstruosa administração policial do sr. Coelho Bastos, o Partido Republicano não se organizou, como agora, para acompanhar o sr. Quintino Bocaiúva, que tinha confraternizado finalmente com a propaganda abolicionista.
Em vão nas partes policiais, o sr. Coelho Bastos, para indispor os abolicionistas com a princesa regente, declarava que nós nos retirávamos das conferências e dos meetings dando vivas à República, os republicanos esperaram o 14 de maio, o fato consumado da abolição, para reclamar como obra republicana aquilo para que só haviam contribuído pela resistência.
O que fez a princesa regente? Ainda, sob o Ministério Cotegipe, ela, a santa, a meiga Mãe dos Cativos, dava à propaganda abolicionista tudo quanto podia: as abundâncias de piedade do seu coração. Seus filhos, os pequenos príncipes, nos seus jornaizinhos glorificavam a propaganda abolicionista, enquanto ela, a princesa, debaixo de chuva e aos estampidos do trovão esmolava pelos cativos, e quando voltava a palácio repartia um pedaço do seu manto de rainha com os escravos foragidos, que iam implorar-lhe proteção.
Os republicanos não assumiam a responsabilidade da propaganda abolicionista; a princesa não se arreceava de tornar patentes, públicos os seus desejos de ver extinta a escravidão.
Qual é mais nobre? O republicano que não arriscou um voto, ou a princesa que jogou num assomo de fraternidade a coroa da sua dinastia?
Deixo à História a resposta.
Disse o sr. Silva Jardim que há homens que só vivem para o estômago; eu repito a frase.
Estou convencido de que no dia em que cortarem os víveres à propaganda republicana atual, ela perderá muito de entusiasmo.
A República da meia dúzia de sujeitos, que arrastam S. S.ª a pedir cabeças de seus semelhantes para a forca e para a bala do sicário, como se fossem cabeças de porco para feijoada, é assim. Passeia à custa de subscrições, chama à vadiação exílio, e aos bailes no Banlieu, tortura.
Ainda não há seis meses esses mártires de hoje deixavam morrer à míngua a Gazeta Nacional, filha dos sacrifícios de um republicano, que tem tanto de exaltado quanto de leal às suas idéias.
Previna-se o sr. Silva Jardim, enquanto é tempo. Eles tirarão de si quanto puderem e em seguida hão de difamá-lo com o mesmo sangue-frio com que hoje caluniam a (sic).
14 set. 1888
O Senado continua em sua ferrenha campanha protelatória; mas a fatalidade dos acontecimentos incumbiu-se de infligir o castigo necessário aos réus de leso-decoro parlamentar.
Nos debates têm vindo à tona da opinião, idéias e aspirações que os senadores obstrucionistas não queriam sequer fossem suspeitadas no íntimo deles.
O sr. Lafaiete, por exemplo, apavonara-se para a presidência do Conselho e foi obrigado a despir a plumagem do veto à lei de 13 de maio e mostrar-se o que realmente é: a gralha vesga da indenização.
Acostumado a ver os adversários acovardados ao flagício da sua sátira, o Quasímodo senatorial pensou que o melhor meio de chegar ao Governo era com o palavreado dos cães, e armazenar no Senado as diatribes e ambições do escravismo.
E não refletiu nas conseqüências, não mediu o alcance das suas palavras, nem a responsabilidade do carreto que fazia, tendo ao peito a chapa numerada pelo sr. Paulino de Sousa.
Com espanto de todos, que não reparavam na proporcionalidade da queda dos cabelos do Sansão de olho torto, com a decadência da sua força intelectual; o sr. Lafaiete foi ao Senado pedir a indenização e em nome dela intimar a retirada do Gabinete.
Não está esquecida ainda a solenidade preparada para esse debate, que devia mudar o eixo da vida parlamentar, fazendo com que o Senado assuma desde logo a sua missão de iniciador de situações políticas.
O sr. Lafaiete disse-o, uma, dez vezes: que a permanência do Ministério ameaça as instituições, que depois do abalo de 13 de maio, só podiam viver da reparação dos prejuízos causados.
Por outra, S. Ex.ª pregou francamente, positivamente, a indenização, fazendo daquela a razão de ser das instituições, pela razão muito simples de que a abolição sem indenização equivalia à morte com o confisco dos bens.
Não obstante, dias depois, o Rigoletto zarolho veio fazer uma emenda a si mesmo e declarar que não tinha dito o que todo o mundo ouviu, sem ainda desta vez medir as ilações que resultam de tal declaração.
O obstrucionismo do Senado tinha razão, quando empregado para depauperar o Gabinete e obrigá-lo a retirar-se, para dar ao parlamento ensejo de forçar o imperador a uma política diferente, isto é, para coagir o imperador a aceitar a indenização.
Desde o momento em que o sr. Lafaiete declara que a indenização não é problema para se impor, sem ter em conta o estado do Tesouro, fica fora de dúvida a inoportunidade, ou, mais precisamente, a impertinência e a obstrução.
O sr. Lafaiete concorda com o Ministério num ponto: não há dinheiro para indenizar os ex-proprietários de escravos. Por que motivo, pois, responsabilizar o Gabinete por não querer iniciar uma política de esperanças vãs?
Não manda a boa compreensão da responsabilidade do Governo esperar pelos novos trabalhos ministeriais, para que, na futura sessão, bem apreciadas as condições do Estado, ver o que é possível adiantar em benefício da lavoura e sem gravame das demais classes populares?
Como, depois de provado pelo próprio sr. Lafaiete que a oposição apenas levantou a poeira com a indenização; como, depois de demonstrado pelo sr. Dantas que a política de Gabinete é a única de conformidade com o nosso momento social, os senadores oposicionistas ainda teimam em protelar a votação dos orçamentos?
Não é muito mais patriótico terminar a sessão e dar tempo a melhor julgamento, preparando-se a oposição, por meio de acordo, para dar batalha na próxima sessão? Os homens de boa-fé concordarão conosco, mas não assim, os que fazendo vida de política, os que têm a legar aos seus descendentes a tradição de instrumento de partidos tão cegos quanto imprestáveis.
Para esses, o que nós dizemos não é senão o fruto do salário que recebemos, confundindo assim a nossa com a consciência deles.
Além da poeira da indenização, o debate no Senado levantou da sua sepultura o «Lázaro hediondo, a miserável questão chinesa».
Felizmente, a palavra do honrado senador Taunay já intimou à peste amarela a quarentena perpétua que lhe impôs o patriotismo brasileiro. A opinião pública confraternizou com S. Ex.ª e deixou mais uma vez patente que não haverá quem tenha força para atentar tão barbaramente contra a nossa nacionalidade.
O chinês não entrará em nosso país, quaisquer que sejam as astúcias empregadas pelos que pretendem explorá-lo.
Aconselhado como sucedâneo da escravidão; apresentado como um fator arbitrário da baixa do salário, o chinês encontra diante de si a mais formidável barreira: a consciência nacional, de que ele é o mais poderoso perturbador do progresso brasileiro.
Dizemo-lo com a tranqüilidade da mais íntima convicção; não nos receamos da entrada do chinês em nosso país.
Fundem-se, não um, mil bancos; reunam-se para favorecer a mongolização do Brasil, todos os favoneadores de interesses inconfessáveis; gritem, estipendiem adesões, reformem os processos e o chinês não entrará.
Será mais fácil voar pelos ares o Senado vitalício, dar juízo ao sr. Lafaiete, fazer tudo quanto parece impossível neste país.
O chinês não entrará no Brasil, nem puxado pelo rabicho por toda a oligarquia e plutocracia que nos infelicitam.
Mas os oposicionistas no Senado não viram isto; esqueceram-se de que o Governo Sinimbu teve na questão chinesa um dos maiores afluentes que lhe formaram o vasto estuário de impopularidade.
Quando a simples tática política, desde o momento em que se reconheceu a formação indenista no Partido Liberal, aconselhava que se restringisse o debate às matérias do orçamento, como um meio de impedir revelações impopulares; a oposição entendeu que devia dar à língua, e o resultado foi este: sair do partido que se diz liberal a adesão ao chinês, ou por outra, a confissão pública de que se premedita um atentado contra todos aqueles que nasceram e residem no Brasil.
Foi por isso que dissemos que a fatalidade dos acontecimentos se incumbiu do castigo dos obstrucionistas.
Que confiança podem merecer ao país estadistas que pretendem defraudar um povo inteiro para servir à sua clientela agrícola?
Com que direito podem querer impor-se à Coroa estadistas que antes de tudo confessam que a Monarquia só se pode manter empregando como alicerce do trono interesses inconfessáveis, tais como a indenização e a peste amarela?
O Partido Liberal tem neste momento mais urgência de calar-se do que o Ministério de ver votado o orçamento.
Cada dia de debate deixa mais e mais patente a incapacidade do grosso dos chefes liberais para governar, e cria maior dificuldade à confiança da Coroa no Partido Liberal, pois que está demonstrado que uma situação dele reproduziria a de 1878 a 85, pela instabilidade dos presidentes do Conselho.
Se pudéssemos dar um conselho aos obstrucionistas, seria este: calem-se, quando V. Ex.as abrem a boca desmoralizam o seu partido.
29 out. 1888
O sr. Quintino Bocaiúva, certo de que pela sua decadência intelectual e pelas falhas de sua vida não pode travar luta jornalística comigo, escondeu-se por detrás da -A Província de São Paulo, velha cadela que viveu sempre das sobras do rancho dos piratas do barrete frígio.
Editando os insultos, que me foram atirados por essa mediocridade empapelada que se chama Rangel Pestana, magro bode branco, gasto ao cio dos pastos de fazenda, o sr. Quintino Bocaiúva assumiu a responsabilidade do artigo que pretende infamar-me.
Antes da resposta, uma explicação:
Acusam-me de traição à República, os Rangel e os Quintino; entendem que a minha atitude junto ao Ministério 10 de Março e da princesa imperial é devida à venda dos meus princípios republicanos. Para dar, como dou, o meu apoio ao Ministério e à minha Senhora Veneranda, que é alvo de todos os ódios da atual propaganda republicana entendem esses velhos ganhadores da imprensa que me fiz numerar, a exemplo deles, pela placa de um dono.
Os salteadores da honra alheia, não tendo por onde me ferir no passado, injuriam a minha pobreza presente.
Os homens públicos não têm vida privada; devem expô-la toda em suas íntimas minudências ao público.
Eu sou hoje paupérrimo. Tudo quanto tenho é fruto do meu trabalho quotidiano, a exploração dolorosa e árdua da minha inteligência.
Entretanto, entrei relativamente afortunado para a imprensa, porque a família de minha consorte pôs à minha disposição a sua bolsa, que eu deixei vazia.
Além disso, eu saquei sobre o meu crédito e contraí dívidas extraordinárias para poder sustentar a campanha da imprensa, que se estendeu desde 1881 a 1888, por minha conta, nos jornais que dirigi.
Terminada a 13 de maio, na lei, a luta abolicionista, pensei em retirar-me da imprensa, posto que para mim não tinha sido senão do mais cruciante sacrifício.
Eu esperava apenas registrar as aclamações triunfais à abolição, para dar por finda a minha missão jornalística.
Fui, porém, surpreendido pela grita de uma propaganda que ameaçava destruir pela indenização a obra imortal de 13 de maio.
O meu lema, desde o primeiro dia em que me apresentei ao público, foi sempre abolição imediata e sem indenização. Os escravistas reclamavam esta; eu conservei-me na imprensa para resistir-lhes.
Com grande mágoa minha vi que os antigos clubes de lavoura convertiam-se em republicanos, e que os seus manifestos reclamavam a indenização.
Compreendi, como todos os homens de bem, que a República não era senão a máscara grosseira de que se servia o escravismo, para ver se fazia dos propagandistas que o haviam derrotado instrumentos da sua vingança e dos seus interesses.
Do mesmo modo que antes havia flagiciado os republicanos, que não queriam medir a sua bandeira pela abolição, fiz da pena um látego para castigar os mercadores da democracia que inscreviam na sua bandeira a indenização à pirataria.
Os cobardes recuaram; e, embuçados na mais torpe hipocrisia, disseram nuns congressos caricatos que não eram indenistas, enquanto os candidatos nas circulares e os deputados provinciais nas assembléias permitiam ou votavam a indenização.
Que os meus golpes iam-lhes ao coração, prova o ódio que me votam. Apesar de tudo, não podem os Rangel e Quintino negar que eu sou um negro de talento.
Vendo que não podiam bater-me no terreno dos princípios, porque eu tinha por mim um passado de firmeza e intransigência, ao passo que eles tinham o mais triste passado de tergiversações e dobrez, os Rangel e Quintino recorreram à difamação.
Declararam-me traidor à República e como sabem que eu sou pobre e sou negro venderam-me ao Governo.
Já no dia imediato à abolição da escravidão, sem que nenhuma palavra minha houvesse dito qual a orientação política futura do amigo da véspera, eu era já o último negro que se vendera.
A luta tornou-se pessoal; eu neguei aos Rangel e Quintino a capacidade de diretriz de que precisa o Partido Republicano; eles que não podiam negar o seu erro político, abstendo-se da responsabilidade da propaganda abolicionista, fizeram-me a guerra cobarde e traiçoeira da calúnia anônima.
Devia eu abandonar a imprensa, quando era combatido desenfreadamente pelos indenistas?
Podia eu negar o concurso da minha pena ao Ministério, que era combatido, só por ter assumido a responsabilidade da lei de 13 de maio?
A nova República, além disso, deixava em paz o sr. d. Pedro II e arremetia furiosamente contra a princesa.
Há algum homem de honra que diga que eu devia cruzar os braços diante desses ataques?
Explicando a atitude que assumi, eu disse algures:
Imaginem, meus senhores, que eu sabia que em certa estrada havia uma quadrilha de ladrões, e como não pudesse passar sozinho por ela e oferecer combate aos bandidos, apelava para os sentimentos de fraternidade de cavalheiros, de opiniões políticas contrárias às minhas.
Esses cavalheiros resolviam-se auxiliar-me, e, juntos, dávamos batalha, vencendo os ladrões.
Terminado o combate, desarmados os bandidos, diziam estes:
Ouça, nós somos seus correligionários políticos; entregue-nos esses senhores que vieram em sua companhia, porque eles só o acompanharam por especulação.
Devia eu entregar aos bandidos, só porque se diziam meus correligionários, os leais companheiros que me haviam dado a honra e a glória de garantir os direitos da civilização?
Não há dúvida que os neo-republicanos se dizem meus correligionários, mas não há também dúvida que eles na véspera faziam parte da quadrilha de ladrões de alma e suor da raça negra.
Cumpria à minha honra política entregar a princesa a esses miseráveis?
O presente não responderá, mas eu olho serenamente para o futuro.
Pela minha atitude franca, leal, ao lado do Ministério e da redentora dos cativos, concluiu-se que eu sou um judas e que troquei pelos trinta dinheiros da verba secreta a minha consciência.
Nos Juízos desta cidade e no Tabelião dos Protestos há os vestígios do meu bem-estar presente. A verdade é que eu tenho encontrado mais piedade nos meirinhos do que nos evangelistas da fraternidade.
A Cidade do Rio tem vivido da magnanimidade de grande parte de seus empregados, e do heroísmo e desinteresse de um núcleo de homens de bem que aumentam a sua dedicação à medida dos meus sofrimentos.
Se ainda não se fechou essa pequena fortaleza de brio e de coerência é simplesmente porque alguns dos meus credores, os de soma mais avultada, confiam na minha honra, ou são generosos bastante para não aumentarem a aflição ao aflito.
O que o Ministério me tem dado é o mesmo que dá a toda a imprensa: as suas publicações, que eu não sei se têm avultado mais na caixa do O Paiz do que na da Cidade do Rio.
Os Rangel e Quintino, porém, propalam que eu recebo mundos e fundos e mandam espalhar por toda a parte que se prepara emprego de grande renda para mim.
É assim que me nomearam subdiretor do Correio, diretor do Diário Oficial, tabelião da corte, distribuidor-geral desta cidade, cônsul de Montevidéu, quando eu não requeri nenhum desses lugares e nem fiz concurso para nenhum deles.
Agora a resposta:
Suponhamos que eu me vendi.
Os meus difamadores não coram ao proferir esta miséria?
Pois não é uma vergonha para esses que reclamam, hoje, os louros da vitória abolicionista, saber-se que um dos soldados da sua fileira saiu tão pobre que teve necessidade de vender a sua consciência para poder viver?
Que qualidade de chefes é esta que sai nédia e próspera, enquanto os soldados que entraram relativamente ricos saem a pedir esmola? Não fica assim demonstrada a especulação dos supostos heróis?
A quem me vendi eu? Aos negreiros?
Se a estes, como foi que não enriqueci, quando é sabido que eles deram aos Rangel e Quintino os meios com que eles engordaram o seu silêncio até a hora em que desanuviou-se no horizonte a estrela do abolicionismo?
Aos abolicionistas? Estes não precisavam de comprar o que se lhes oferecia de alma alegre e coração alvoroçado.
A quem me vendi eu, e se me vendi, onde está este dinheiro, que não serve ao menos para que eu me possa libertar dos vexames judiciais?
O sr. Quintino Bocaiúva fez mal em editar as torpezas d'A Província de S. Paulo. Veio dar-me ensejo de justificar-me plenamente aos olhos dos meus concidadãos e de demonstrar que o vendilhão, useiro e vezeiro, é ele que se estreou na imprensa a defender uma companhia de seguros de vida de escravos, da qual recebia salário, e que não passava de uma vergonhosa armadilha à ingenuidade dos senhores.
Eu vou fazer a biografia do sr. Quintino Bocaiúva; com subsídios republicanos e com outros que a memória pública registrou.
Veremos quem é o Judas, se é o pobre diabo que tem vivido sempre por si, ou o Catão engomado, que surge sempre de dentro de uma burra de milionário.
4 jan. 1889