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A Campanha Abolicionista

José do Patrocínio

7-IV-1888
Ângelo

E assim que o tratamos a ele, o bom, o grande.

Alma sem rugas, não se lhe refolham ódios nem pretensões. Quanto mais cresce mais se democratiza; quanto mais sofre mais ama.

Só lhe conhecemos uma vaidade: a de não ter precisado nascer nestas paragens do Cruzeiro do Sul para ser um dos primeiros, dos mais beneméritos brasileiros.

Poeta do lápis, as suas musas são a justiça, a liberdade, a fraternidade.

Tem nas suas veias o sangue de todas as raças; faz do seu coração o depósito dos sofrimentos de todas as classes, enxameiam-se no seu cérebro todos os ideais de progresso e de perfectibilidade.

Não é de ninguém e é de todos. Dá-se espontaneamente e não se deixa domar nem por ameaças, nem pelas maiores angústias.

Não sabe advogar; evangeliza. Causa que ele abrace, leva-lhe a alma e coração.

Não conhece geografia para fazer o bem. O seu coração é pátria para todos os que sofrem.

Não conhece lei nenhuma que possa preterir a da solidariedade humana.

Vive fora de todos os partidos para poder castigar, ou servir a todos.

Pratica o bem pelo bem.

Não quer que lhe reconheçam o sacrifício: tem o pudor das suas amarguras. A sua mão esquerda nunca soube o que estava fazendo a mão direita. Por isso mesmo, à proporção que ele ia construindo os alicerces para o Brasil novo, ia cavando a mina do seu lar.

Pai, perfilhou os cativos, e dividiu com eles o pão, conquistado pelo seu trabalho genial, ao ponto de quase deixar com fome os filhos legítimos, tão pequeno era o quinhão que lhes tocava.

Nunca vi levar mais serenamente aos lábios a taça de fel e bebê-la com tanta coragem. O estoicismo não teve na propaganda abolicionista melhor representante.

Quando o escravismo pretendeu levantar a opinião, chamando-o estrangeiro audaz, hóspede ingrato, o Ângelo sorria-se e limitava-se a dizer: bom, enquanto não me deportam, eu aproveito o tempo para dizer o que sinto e o que penso. E é preciso dizer logo de uma vez, em grosso, o que teria de dizer por meias palavras e por circunlóquios.

Quando lhe guerrearam o jornal no interior, quando pretenderam reduzi-lo pela fome, alguns amigos tímidos quiseram que ele atenuasse os seus ataques à escravidão.

Ele nem respondeu.

Quanto mais perseguido, mais intemerato.

Não há meio de o fazer desviar uma linha da sua carreira. Para ele os princípios são outros tantos dogmas.

Na imprensa, não tem amigos nem inimigos. Conhece apenas ações. É um magistrado severo quando empunha o lápis.

Debruçado sobre a pedra, que lhe vai receber o espírito, transfigura-se.

Ele que é uma pomba, converte-se num tigre, quando é preciso acometer.

Só conhece para a imprensa, para o jornalista, uma responsabilidade que não deve ser arrostada: a de não dizer a verdade.

-Se tu fosses deportado, o que farias?

-A História do Brasil ilustrada, -respondeu tranqüilamente.

Não desanima; não hesita; não gradua o seu fervor. Uma vez na luta, só conhece dois deveres: vencer ou morrer.

Ângelo não é só um propagandista, é um apóstolo. Não defende só, ama realmente os negros. Comove-se diante dos seus sofrimentos, indigna-se como um irmão, como um pai, quando os vê maltratados.

O Brasil deve-lhe tanto que só poderia remunerá-lo em parte, se o seu parlamento decretasse a nacionalização de Ângelo, como o testemunho da gratidão nacional.

O presente já o estima; o futuro há de adorá-lo.

Tenho orgulho em abraçá-lo como ao irmão mais velho.

7 abr. 1888

23-IV-1888
Abolicionistas no seu posto

Está ganha a primeira batalha abolicionista em favor dos escravizados.

O sr. Ferreira Viana saiu das urnas coroado pela mais gloriosa manifestação de uniformidade de vistas da opinião com o programa do Gabinete 10 de Março.

O eleitorado declarou-se francamente abolicionista. A votação, recaindo nos nomes do ministro da Justiça e de Quintino Bocaiúva, deu ao pleito o caráter de uma aclamação à santa causa dos cativos.

A maioria extraordinária obtida pelo sr. Ferreira Viana quer simplesmente dizer que o povo quer já ver feita lei a aspiração que mais o preocupa neste momento.

O Partido Republicano, apresentando a candidatura de Quintino Bocaiúva, quis somente dizer que ele, atualmente abolicionista também, não se julgava, entretanto, obrigado à trégua partidária, que o Partido Liberal e abolicionistas de todos os matizes entenderam necessária.

Travado, porém, o pleito, o Partido Republicano limitou-se a dar mais uma vez a Quintino Bocaiúva testemunho de sua estima e deixou a eleição correr serenamente no álveo abolicionista.

Dir-se-ia que todo o eleitorado havia lido o Abolicionismo do sr. Joaquim Nabuco e cada partido praticava a lição haurida nas páginas do livro do ilustre doutrinador.

São de S. Ex.ª as seguintes reflexões:

«É com efeito difícil hoje a um liberal ou conservador, convencido dos princípios cardeais do desenvolvimento social moderno e do direito inato -no estado de civilização- de cada homem à sua liberdade pessoal, e deve sê-lo muito mais para um republicano, fazer parte homogênea de organizações em cujo credo a mesma natureza humana pode servir para base da democracia e da escravidão, conferir a um indivíduo, ao mesmo tempo, o direito de tomar parte no Governo do país e o de manter outros indivíduos, porque os comprou ou os herdou -em abjecta subserviência forçada durante toda a vida.»

Segundo o sr. Joaquim Nabuco e a boa razão, nenhum homem político, de orientação moderna, pode ater-se dentro de tais organizações.

O republicano, porém, ainda tem mais um dever, que o escritor lhe aponta, quando lhe define o que seja o abolicionismo, nestes termos:

«O Abolicionismo num país de escravos é para o Republicano de razão a República oportunista, a que pede o que pode conseguir e o que mais precisa e não se esteriliza a querer antecipar uma ordem de coisas da qual o país só pode tirar benefícios reais quando nele não houver mais senhores.»

Em seguida S. Ex.ª acrescenta:

«Todos os três partidos baseiam as suas aspirações políticas sobre um estado social, cujo nivelamento não os afeta; o abolicionismo, pelo contrário, começa pelo princípio, e, antes de discutir qual o melhor modo para um povo livre de governar-se a si mesmo -é essa a questão que divide os outros- trata de tornar esse povo -livre, aterrando o imenso abismo, que separa as duas castas sociais em que ele se extrema.

Nesse sentido o abolicionismo deverá ser a escola primária de todos os partidos, o alfabeto da nossa política, mas não o é; por um curioso anacronismo houve um Partido Republicano muito antes de existir uma opinião abolicionista, e daí a principal razão por que essa política é uma Babel, na qual ninguém se entende.»

Esmiuçando bem o que devia ser o abolicionismo entre os partidos existentes, S. Ex.ª entrou em indagações para saber se seria ou não provável a organização de um partido abolicionista no Brasil, como aconteceu nos Estados Unidos, e chegou a esta conclusão:

«É natural que isto aconteça no Brasil; mas é possível também que -em vez de fundir-se num só partido por causa de grandes divergências internas entre liberais, conservadores e republicanos- o abolicionismo venha a trabalhar os três partidos de forma a cindi-los sempre que seja preciso -como foi em 1871 para a passagem da Lei Rio Branco- reunir os elementos progressistas de cada um numa cooperação desinteressada e transitória, numa aliança política limitada a certo fim; ou que venha mesmo a decompor e reconstituir diversamente os partidos existentes, sem todavia formar um partido único e homogêneo.»

Durante o pleito eleitoral praticaram religiosamente essas previsões do sr. Joaquim Nabuco todos aqueles que votaram no sr. Ferreira Viana.

O eleitorado compreendeu que a divisa era abolicionista sem partido e daí muito naturalmente considerar-se um erro político desviar votos do candidato que podia como Governo realizar na lei a aspiração nacional.

Considerou-se, como nós também consideramos, indébita a intervenção da política abstrata nesta hora em que o Governo se apresentava às urnas para robustecer-se com a opinião para decretar o primeiro direito do homem -a sua liberdade pessoal.

Entendeu-se e muito bem que nenhum homem, por maior que ele seja, por mais títulos que ele tenha à gratidão nacional, tem o direito de adiar por um minuto a hora da liberdade pessoal de seu semelhante.

O candidato republicano, bem o sabemos, não tinha esse propósito; mas, concorrendo às urnas para disputar a prioridade da forma de Governo, se vencesse, teria obrigado o Governo a tratar concomitantemente de acautelar a liberdade dos cativos dos assaltos dos senhores e o trono, do ataque dos seus adversários intransigentes.

Ora, se é legítimo que o republicano anteponha a forma de Governo à libertação de seus concidadãos escravizados, é também natural que o monarquista o faça, e, por conseqüência, o esquecimento do abolicionismo da parte do primeiro era igualmente natural da parte do segundo.

Na organização do pleito eleitoral a cooperação da Confederação Abolicionista foi, admitidos os princípios do sr. Joaquim Nabuco, a mais lógica e patriótica.

São imprudentes, insensatas mesmo, todas as reflexões em contrário.

A Confederação Abolicionista entendeu que o momento não era nem do Partido Conservador, nem do Partido Liberal, nem do Partido Republicano; era dos escravos; e, cumprindo o seu dever, esforçou-se por afastar das urnas toda a idéia que pudesse perturbar o triunfo claro, e praticamente provado, do abolicionismo.

Apresentado em nome da República o sr. Quintino Bocaiúva, a Confederação não podia sufragar-lhe a candidatura sem atraiçoar compromissos anteriores com abolicionistas que são sinceramente monarquistas.

Um destes é o sr. Joaquim Nabuco, o nome mais prestigioso do abolicionismo, dentro e fora do país, onde S. Ex.ª o tem ido levar para ser coroado pelos aplausos do mundo civilizado, que vê em S. Ex.ª a encarnação do abolicionismo no Brasil.

A Confederação Abolicionista, essa mesma corporação gloriosa que várias vezes se encontrou abandonada, pelos homens políticos, em risco de vida na praça pública; essa corporação que, sem imunidades parlamentares e respondendo por si e por todos, os presentes, como os ausentes; os soldados da linha negra, como os diplomatas que iam buscar lá fora a aliança moral da civilização e da religião para a nossa santa causa -viu-se atacada com a mesma ferocidade pelo arbítrio sanguinário de liberais e conservadores, e nunca hesitou em dizer a verdade e arrostar os ódios de uns e de outros, lamentou sinceramente não poder cooperar para a vitória de Quintino Bocaiúva, que ela conta no número dos seus beneméritos.

Mas antes de tudo, era preciso salvar os princípios e por isso os abolicionistas sacrificaram o coração.

Não nega a Confederação Abolicionista que o imortal jornalista republicano foi, desde o dia em que se dedicou à propaganda em favor dos cativos, um batalhador que nunca descansou, que nunca escolheu campo de combate, nem posto no exército beligerante. Tanto lhe fazia pegar da arma para entrar na fileira, como dar plano entre os generais. Era tão grande no quartel-general, como na linha de atiradores. Não se lhe conhecia o valor pelas dragonas, mas pela intrepidez.

Entretanto, a Confederação viu-se forçada a não preferi-lo nas urnas ao ministro da Justiça.

Por esquecimento dos seus grandes serviços? Não; por coerência com os seus princípios.

O pensamento da Confederação foi homologado pelo eleitorado. Nas guerras em que entram aliados, é fato vulgar ver revezarem-se nas funções de generalíssimo generais das diversas nacionalidades aliadas. Dá-se o mesmo no abolicionismo, que é um exército formado pela tríplice aliança de republicanos, conservadores e liberais.

Assim como os exércitos se não desnacionalizam por servirem debaixo de ordens de generalíssimo estrangeiro, a Confederação Abolicionista não se descaracteriza por servir a este ou àquele partido na luta da abolição.

Considerá-la bagagem conservadora ou liberal, por servir ao sr. Dantas ou ao sr. João Alfredo, é de duas uma: não ter pela dignidade alheia o respeito que se quer impor pela própria; ou, por egoísmo condenável, querer Deus para si e o diabo para o próximo.

O pleito provou que a Confederação não quer divisões odientas na irmandade abolicionista. Ela não admite irmãos que fiquem com o patrimônio de outro por um prato de lentilha. Divide igualmente o seu carinho. Tanto para os liberais, tanto para os conservadores, tanto para os republicanos.

Mãe carinhosa, dessas que dividem o amor como a luz a sua claridade, ela não faz testamento deixando a terça a um dos filhos com prejuízo dos outros.

Por isso mesmo ela contribuiu para a eleição do sr. Ferreira Viana, em nome dos conservadores que com ela trabalharam, como outrora contribuiu para a eleição do sr. Bezerra de Meneses, em nome dos liberais que pertenciam ao seu grêmio, sufragando em ambos os candidatos as suas idéias.

Congratulemo-nos, pois, todos os abolicionistas pela transformação que o abolicionismo operou no caráter nacional. Os preconceitos de partidos e de posições extinguiram-se. Não se olha mais a homens, porém a idéias. A pátria vale mais que os partidos.

Reproduziu-se na corte o mesmo que se deu no 5º distrito de Pernambuco, há dois anos.

Um candidato liberal, forte no seu distrito, tendo ali prestado serviços imediatos, serviços de todos os dias e de todas as horas, abriu mão do seu lugar, adiou o seu direito a uma cadeira no parlamento, porque entendeu que o sr. Joaquim Nabuco prestaria na Câmara serviços muito mais relevantes.

Os abolicionistas da corte tiveram abnegação igual a desse ilustre pernambucano, que elegeu o sr. Joaquim Nabuco. Sacrificaram a candidatura de Quintino Bocaiúva à do sr. Ferreira Viana, porque parlamentarmente o ministro da Justiça prestará mais serviços do que o deputado republicano prestaria, apesar de todo o seu talento e de todo o seu prestígio.

23 abr. 1888

30-IV-1888
Estamos em plena aurora

Dentro em três dias vai começar a História Moderna do Brasil e fechar-se a triste história dos tempos bárbaros da nossa terra.

Não é possível imaginar de um lance de pensamento o que será todo esse iluminado futuro, não obstante o presente fornecer-nos o esboço do que ele será nos largos traços dos acontecimentos, que nos surpreendem.

O que está por trás do dia 3 de maio não cabe na previsão dos políticos, e não é demasiado otimismo profetizar que a nossa evolução nacional será feita com a mesma rapidez da dos Estados Unidos.

As estrelas do Sul dentro em um quarto de século não invejarão o fulgor da constelação do Norte.

Já podemos acentuar orgulhosamente um contraste.

A maior revolução social de nossa terra está sendo feita entre bênçãos e flores. Nada mais extraordinário: bastaram o atrito da imprensa e o calor da palavra para limar e fundir os grilhões de três séculos de cativeiro.

A alma nacional mostrou-se preparada, em todas as camadas sociais, para praticar e receber a liberdade.

Em nenhuma história do mundo se encontram páginas como as que se têm escrito ultimamente em nossa terra. A esses fazendeiros pródigos, que atiram pela janela fora a carne tarifada de seus cativos, carne que era a sua fortuna legal, porque era gênero de valor no mercado da desumanidade antiga e da afronta à moral e à civilização; a esses fazendeiros, que precedem a lei para afirmar que nunca, em nossa pátria, o interesse se colocará diante da Justiça, a rebeldia diante da razão, correspondem os libertos que, tendo parecido acumular ódios de três séculos, demonstram que nunca souberam senão sofrer resignados, que não viram, no seu martírio, um crime de opressores, mas uma tremenda e inexplicável fatalidade; os libertos que devendo ter aprendido na escravidão a anarquia, provam ao contrário que lá mesmo conservaram intactos o patriotismo e o amor da ordem, e saem do cativeiro para cooperar na obra do bem-estar geral, tanto que se iniciam na vida cedendo em favor da produção uma parte dos direitos da sua liberdade: -o salário.

Os poucos que, sinceramente, se arreceiam de que os primeiros fenômenos resultantes da revolução social, que se está operando, sejam perturbações da ordem, abandono do trabalho, desassombrem os espíritos.

Há de reproduzir-se em todo o Brasil o que se deu no Ceará. Em vez de guerra fratricida, paz patriarcal; em vez da estagnação da produção, aumento de riqueza e progresso.

As epopéias de Itu e de Friburgo aí estão.

Esses negros que atravessam povoações com a cabeça baixa, depois de um combate em que haviam revelado a coragem dos companheiros de Leônidas; e apesar de famintos, maltrapilhos e sangrando feridas do tiroteio e da luta corpo-a-corpo, conduzindo crianças extenuadas, não atacam a população aterrorizada, não abusam da sua força nem para satisfazer às mais urgentes necessidades da vida; esses outros negros que respondem aos senhores no dia da libertação: descansai quanto à organização da vossa nova existência industrial -nós não queremos salário nos primeiros tempos: esses negros falam por uma raça, são os endossantes da letra de amor à ordem e à probidade, que eles pretendem descontar no regime da liberdade e da igualdade nacional.

O que há de mais admirável na nova fase de nossa vida de povo civilizado é a uniformidade de pensamento, desde o Governo até ao último liberto.

O Ministério restaura a segurança pública em todas as manifestações.

O presidente do Conselho garante a fortuna do país, esforçando-se para restituir à moeda, representação do trabalho, o seu valor exato na cotação universal. Bate-se, como um duelista tão inimigo de luta, como terrível no combate, e, em menos de um mês de administração, derrota a horda dos especuladores do câmbio.

Este glorioso trabalho de valor inestimável é feito sem estrépito, com a modéstia do dever cumprido.

O empréstimo foi o mais solene desmentido ao escravismo, que nos dava como o único título de crédito europeu o sermos o último país, cuja fortuna se baseava no tráfico das almas, no roubo do trabalho.

O ministro da Fazenda provou que o país podia comparecer perante o mercado do ouro levando como valores a hipotecar a sabedoria de seu procedimento, resolvendo sem perturbação da ordem o mais temeroso dos problemas, e a certeza de que este país foi dotado pela natureza de tesouros que nem mil séculos de prodigalidade poderão gastar.

O ministro da Justiça garante a liberdade do cidadão com a letra cega da lei e com a lucidez humanitária do seu espírito. Quebra-lhe o punhal da vingança, para dar-lhe a balança das reparações e da correção.

Põe o código à cabeceira de cada cidadão, por mais humilde que ele seja; todos podem dormir tranqüilos dentro de seus limites legais.

A autoridade perdeu a carranca de Medusa com que petrificava o Direito.

Ela não pode mais espalhar caprichosamente pânico e lágrimas, violências e calúnias.

E porque veio da imprensa, e porque veio da desilusão popular, esse ministro extraordinário, compreendendo que para pregar a boa nova da regeneração governamental é preciso, como Jesus, freqüentar as multidões, dar vinho às suas bodas, distribuir com as próprias mãos pão e peixe aos famintos, parar junto das sepulturas para ressuscitar os mortos; esse ministro está em todas as festas para que é convidado, distribuindo o vinho generoso, o cordial de sua palavra, que é banho de nardo no corpo do mendigo, o agno do Cenáculo ao espírito das crianças.

O ministro da Guerra faz recolher a quartéis o Exército, que se viu obrigado a vir à praça pública reclamar como cidadão o que o seu patriotismo lhe impediu que exigisse como soldado: respeito pelo seu brio e pelo seu direito.

Certo de que está salvando a pátria e de que ela bem merece o sacrifício de conveniências efêmeras, o ministro enche a fé de ofício dos heróis com as repetidas provas de confiança do Governo; faz-se no poder o órgão da opinião, que cercou com o seu prestígio os perseguidos da véspera.

O que será este país amanhã, quando o que hoje surpreende for a norma do procedimento dos Governos e do povo? Quando, extinta a recordação do cativeiro, cada cidadão entender que ele é tanto maior, quanto mais respeitar, no direito de outrem, o seu direito e o direito de todos?

Temos o olhar alongado sobre esse amanhã que vem rápido, vertiginosamente, e que, entretanto, afigura-se, à nossa ansiedade, lento como o desdobrar de um século.

Bate-nos novamente o coração, perguntando-nos ao pensamento se é com efeito verdade que, dentro em poucos dias, uma senhora vai comparecer perante a assembléia de um povo, não para impor, mas para pedir e conquistar, como a tímida Ester, piedade para os milhares de desgraçados, os filhos de uma raça que foi degradada por haver contribuído tanto como qualquer outra para a grandeza de sua pátria.

Sabemos que a promessa de homens de bem é a antecipação da realidade e, entretanto, temos ainda essa incredulidade fugitiva que nos provoca o bem muito maior do que esperávamos.

E por isso mesmo, perdoamos aos que não acreditam de todo, aos que julgam que amanhã havemos de chorar de despeito.

Não há negá-lo: a corrupção havia minado tanto o país, que é quase impossível acreditar que se conservasse intacta uma porção do caráter completamente refratário ao contágio.

Demais, é melhor não esperar muito, para morrer de alegria recebendo tudo.

30 abr. 1888

11-VI-1888

Temos, desde muito, opinião externada a respeito do sr. barão de Cotegipe.

Consideramo-lo um velho demagogo, que se dissimula em conservador, para poder conspirar à sombra do Senado e com a garantia do subsídio que lhe facilita os meios de almoçar, jantar e cear.

O seu Ministério confirmou o nosso juízo.

Estão na memória pública as aventuras a que S. Ex.ª arrastou a Coroa, durante os malsinados dois anos e meio de sua administração. Depois de haver atirado o Império de encontro às baionetas do Exército, lançou-o na torrente do êxodo de São Paulo, que por bem pouco deixou de afogá-lo numa inundação de sangue. Pela falta de lealdade no cumprimento das leis, pelo desrespeito acintoso do parlamento, pelo ataque aos mais incontestáveis direitos políticos dos cidadãos, S. Ex.ª levantou contra as instituições a indignação geral do povo. Finalmente, S. Ex.ª trouxe um dia o trono para a praça pública e expô-lo aos golpes das machadinhas da marinhagem.

Quando o historiador tiver de julgar esse Gabinete de 20 de Agosto, há de ficar admirado do estado a que chegamos, de decomposição parlamentar e de abatimento do espírito público, pois só no último grau podiam tolerar a permanência dessa administração desastrada, que fomentava por todos os modos a revolução, em desproveito do povo e da Coroa.

É S. Ex.ª o mais perseverante dos demolidores do trono, porque serve-se, sempre que pode, da sua alta posição para desprestigiar o soberano.

Deixando o Ministério Caxias, S. Ex.ª levou ao Senado cartas que ele havia recebido em confiança daquele glorioso brasileiro e converteu-as em arma de ridículo contra o imperador.

Demitido agora de presidente do Conselho, procurou converter em libelo contra a regente o ato de energia e de patriotismo com que ela desinfetou a administração.

Não o fez, porém, de fronte erguida, como adversário leal; procurou pela manha, pela astúcia, disfarçar em perigo iminente do sistema representativo o merecido castigo que lhe foi infligido.

A sua declaração de guerra ao atual Ministério foi mais uma demonstração da fé púnica, essência de seu espírito.

Depois de haver combinado, como o revelou o sr. João Alfredo, em quais seriam as explicações e informações a dar ao Gabinete, o sr. barão de Cotegipe quis fazer crer ao parlamento e ao país que a regente se acovardara diante da demissão do Gabinete 20 de Agosto e obrigara o Ministério 10 de Março a iniciar o seu Governo por uma inverdade, destinada a embair o parlamento.

Recordam-se todos das palavras do velho lobo parlamentar, vestido de pastor, à última hora, para guardar o rebanho constitucional.

Para alarmar o espírito público, o ex-presidente do Conselho aludiu a uma famosa carta, pela qual a regente se despedia da Constituição, desconhecendo a missão dos seus ministros, e tomava como inspiradoras fontes turvas de informações.

O fim do S. Ex.ª era fazer crer que o Ministério passado caíra simplesmente por uma conspiração de camarilha de palácio, quando toda a gente via na aba da farda de S. Ex.ª a pegada do pontapé dos marujos.

A armadilha de maio não produziu o efeito esperado.

O povo, longe de convencer-se de que a regente havia exorbitado, demitindo o Ministério, aplaudiu a soberana que, exercendo uma das funções majestáticas, assumiu a responsabilidade de colocar a vontade da nação no nível constitucional de que o interesse oligoplutocrático a havia desviado.

Não tendo conseguido, como pretendia, despir a regência em público, S. Ex.ª recorre agora à indenização, como meio de agitar ainda mais o mar de lama do escravismo.

O sr. barão de Cotegipe é um velho cético.

Para ele, só existe no mundo o interesse: primo vivere, deinde philosophare (sic). Por isso, S. Ex.ª nunca procurou falar à alma dos seus sequazes; fala-lhes sempre ao estômago e à bolsa. Em vez de apresentar idéias, ele sacode moedas na mão.

Foi fazendo tilintar a tarifa Saraiva que ele conseguiu ser governo e manter-se no poder. O seu Ministério foi a porcentagem dada pelo concorrente à feira de gado humano a preço fixo.

Não há ninguém que tenha procurado tornar mais clara esta proposição: a Monarquia brasileira, nos moldes do Segundo Reinado, só foi movida pelos interesses da escravidão.

Para deslustrar o terceiro reinado, que se anuncia tendo por molde o respeito da opinião, S. Ex.ª quer dar-lhe por base a indenização, que o privará dessa auréola redentora, sua maior força.

Pouco se importa o sr. barão de Cotegipe com suas contradições. Ontem, S. Ex.ª dizia no Governo à regente: não ceder ao abolicionismo porque ele é revolução; hoje, quando o escravismo se revoluciona, francamente, audaciosamente, apesar da sua impotência, filha da sua impopularidade, o sr. barão de Cotegipe empunhou a bandeira revolucionária da indenização e quer plantá-la no Senado.

S. Ex.ª diz que está convencido de que a propriedade escrava é tão sagrada como a que mais o seja; S. Ex.ª, o mesmo chefe de polícia de Gonçalves Martins, um dos maiores sabedores dos mistérios do tráfico, e por conseqüência da legalidade da atual propriedade escrava no Brasil. Já o nosso ilustrado colega da Gazeta de Notícias assoprou o castelo de cartas da indenização e por isso não nos ocupamos em rebater os fundamentos falsos dessa exigência revolucionária.

O nosso fim é outro: deixar demonstrado que o sr. barão de Cotegipe tem apenas em vista, como demagogo, perturbar o início do terceiro reinado, em nome da escravidão.

Os do conselho negro espalham que têm votos para derrubar o Ministério, ou melhor, para pôr em prova a confiança da Coroa.

É fácil de compreender o que está no fundo desse plano. O que o escravismo pretende é apoderar-se de novo do Governo, provocando uma consulta às urnas neste momento em que os ex-proprietários de escravos põem a consciência em leilão, oferecendo votos e apoio a quem mais der.

Para o sr. barão de Cotegipe tudo serve. Se ele consegue arranjar maioria para a indenização, há de acontecer uma de duas: ou o Ministério retira-se, e neste caso a indenização atirará com os abolicionistas para o campo revolucionário; ou a Coroa dissolve a Câmara, e as novas eleições dão à nova assembléia a agitação revolucionária, que o escravagismo por todos os meios provoca para vingar-se da heroicidade da princesa, que fulminou a pirataria.

O sr. barão de Cotegipe não pensa na pátria; pouco tem ele com ela. Já o provou quando empregou todas as suas forças para criar uma ditadura militar, repelida em boa hora pelo bom senso e patriotismo do nosso Exército.

Chefe dessa oposição encapotada, que não mostra a cara com medo da gargalhada popular que há de enfarinhar-lhe as jogralices perversas, como já o fez ao sr. Coelho Rodrigues, quer o sr. barão de Cotegipe armar-se com o cadáver da escravidão, em falta de outra arma para a batalha.

É muito difícil, fora do campo da instituição negra, atacar o Gabinete que se propõe a realizar todas as reformas urgentes.

O Senado ouviu surpreendido o discurso pronunciado pelo sr. presidente do Conselho.

O contraste com o Governo da chocarrice, da chalaça de cocheiro, da truanice do palhaço, foi tamanho, que a própria oposição liberal emudeceu.

O sr. João Alfredo desdobrou-se em toda a extensão do seu grande espírito e do seu vasto saber, e com essa serenidade olímpica, essa altivez aborígine, que são os distintivos da pureza do seu patriotismo e da inflexibilidade de seu caráter, sem afagar condescendências, comprometeu-se a inaugurar essa política larga, científica, única bastante fecunda para alvear a evolução democrática de nossa pátria.

O país ficou sabendo que tem na direção de seus destinos um homem do talho de Gambetta, capaz de acelerar uma revolução, apesar de todos os riscos, e de aproveitar-lhe as conseqüências com inteira sabedoria.

O presidente do Conselho não acenou com uma vã miragem à popularidade para subir ao poder. Não, ele só aceitou o Governo porque em longos anos de trabalho e de meditação formou a consciência de sua idoneidade para dirigir a política nacional.

No seu discurso, a democracia fica de pé, à vontade, destacada e iluminada em todos os seus contornos, como o Moisés de Miguel Ângelo dentro do Vaticano.

Os períodos ressumam a probidade política do orador, a honradez indígena do seu patriotismo.

O sr. João Alfredo não quer ser ministro dos seus amigos, mas ministro de um povo, que tem todas as qualidades e todos os dotes para ser grande e só por falta de um braço forte, que desbarate a oligarquia, desceu ao ignominioso papel de mercador de escravos e mendigo de empregos públicos.

O escravismo perdeu a esperança desde que viu no Governo, secundado por homens de valor extraordinário, o glorioso brasileiro.

Não teve coragem de dar-lhe batalha de frente, por isso mesmo tergiversa.

Os srs. Paulino de Sousa e Cotegipe, sem talentos, sem serviços que não sejam os da escravidão, vêem ameaçados o prestígio e o pão da parentela e dos compadres.

A escravidão era a sua única força e a sua única renda política. Era por ela que S. Ex.as recolhiam nas sinecuras e pepineiras os rábulas de aldeia, os fazendeiros quebrados.

O sr. João Alfredo tira-lhes a mamadeira da boca improvisadamente e adeus leite, adeus franga e adeus ovos!

Confessemos que é uma dos diabos.

O que hão de fazer os homens senão ver se arraigam na consciência dos ex-proprietários a idéia de que se há de dar com a lei de 13 de maio o mesmo que se deu com a de 7 de novembro de 1831.

Olhem, vocês podem ter uma república ou um governo bem agitado, que, assoberbado pelas dificuldades, não lance os olhos para o tráfico de ingênuos, para o regime do calote, máscara do antigo trabalho sem salário, para os assassinatos e espancamentos de trabalhadores.

Eis o fim dos indenizadores.

Os primeiros que se julgam com direito à indenização são chefes de grei, porque os pobres diabos não valem dez réis de mel coado sem o Tesouro.

O negócio das fazendas de saúva e samambaia gorou; o presente de casas, feito pelo Estado, aos amigos do sr. conselheiro foi também um dia.

Que diabo! É preciso apanhar uma lambugem e a melhor é a república de tenentes-coronéis e barões, república que já nasce confiscada pelos indenizadores; república que é uma nova fazenda, cujo primeiro título é a dívida antes da fundação.

Ah! tartufos! como a história os há de amaldiçoar.

11 jun. 1888

18-VI-1888

Os manifestos encheram a semana. Os jornais publicaram o manifesto Saldanha, o manifesto S. Paulo, o manifesto Werneck, o manifesto Paulino.

Nada mais curioso do que o estudo dessas diversas manifestações patológicas da ambição pessoal e do despeito o mais vulgar.

Todos esses manifestos tomam como ponto de partida a abolição da escravidão, o que quer dizer que a Monarquia podia dormir tranqüila a esta hora, se, em vez de haver obedecido ao reclamo nacional e humano, integrando a nacionalidade brasileira, se houvesse limitado a declarar como outrora os novos evangelistas da nossa liberdade política que ela aspirava ver extinta a instituição degradante.

Não é felizmente difícil a qualquer espírito descobrir a causa da súbita efervescência republicana, que nós comparamos à que se dá numa solução ácida quando se lhe lança um pouco de sal básico. A tempestade de copo d'água dá-se até que a saturação seja completa.

O esclavismo, o Proteu que toma todas as formas, desde a republicana até a de assassino vulgar; que maneja tão facilmente Spencer como o punhal do Rio do Peixe, não contava com o dia 13 de maio. Ele acreditava que, simulando generosidade para com os escravizados, por um lado evitaria o êxodo dos deserdados da lei, por outro lado cegaria o Governo ao ponto de fazê-lo crer que o melhor meio de resolver o problema era entregá-lo a essa generosidade, em que tanto falavam os srs. Martinho Campos, Paulino e Andrade Figueira.

O Governo, porém, entendeu e muito bem que o seu primeiro dever era sistematizar as aspirações nacionais, convertendo-as em leis, para que a dispersão natural dos interesses de indivíduos ou de castas não perturbasse a harmonia necessária às transformações sociais.

Não aqui, nos estreitos limites de uma resenha semanal, mas largamente, tomando de alto o assunto, discutiremos esses manifestos, cada qual mais digno de uma desinfecção demorada de lógica e bom senso.

Há no Guarani, de José de Alencar, um quadro que extasia a quantos o lêem: é a descida de Peri ao fundo de um algar, para apanhar uma jóia que a preferida de sua alma lá deixou cair.

O selvagem sabe que lá embaixo, sob o trançado da vegetação bravia, na noite e na umidade daquele bojo sem sol, vivem legiões e legiões de seres venenosos, agentes fatais da morte. O menor descuido, e o dente de um urutu ou de uma sucuruinha lhe vazará nas veias a peçonha mortífera.

Nem por ser terrífico o cometimento, Peri deixa de empreendê-lo e, empunhando um facho e imitando o canto da açanã, lá se entranha pelo abismo.

Temos de fazer viagem igual, por amor de nossa pátria, vestindo os nossos lábios com o cântico íntimo da Justiça e da fraternidade, e tendo nas mãos o archote da verdade.

Por hoje, porém, basta-nos acender nas bordas do abismo neo-republicano a carta do sr. Paulino de Sousa.

Dissemo-lo desde o dia em que observamos com mais atenção o espírito desse homem, que, por seu nome, se tornou o exegeta do Sul: o sr. Paulino de Sousa não tem nenhuma qualidade de estadista.

Dia a dia, historiando a direção que ele dava ao seu partido, acumulávamos provas probantes da nossa asseveração.

É sabido que, mesmo depois do êxodo de S. Paulo, quando já havia a petição patriótica do Exército, que em nome do seu brio e da sua missão civilizadora reclamava contra os destacamentos para o desempenho das funções de capitão-do-mato; quando já pesava sobre o ministério a intimação Prado-João Alfredo para que em maio deste ano viesse ao parlamento, para ser definitivamente resolvido, o problema servil; o sr. Paulino de Sousa ainda garantia aos seus clientes fluminenses a permanência da escravidão por mais três anos.

O plano de S. Ex.ª foi revelado pelo sr. barão de Cotegipe, quando não pôde negar que Sua Alteza, a Regente, mais de uma vez, chamara a sua atenção para a questão negra.

O sr. Paulino de Sousa contava com a dissolução, o mais lógico dos adiamentos imagináveis, ou pelo sr. barão de Cotegipe mesmo ou pelo sr. Lafaiete, a quem estava destinada a sucessão. Daí vinha a certeza com que dava de leve fiança à escravidão por três anos.

O golpe patriótico de 10 de março, pela qual a regência emancipou-se do cativeiro, a que havia sido reduzida pela coligação escravista, desnorteou completamente o sr. Paulino de Sousa, que não é homem para dar batalhas fora do Governo.

A sua carta é um nariz-de-cera, é a confissão pública do seu atordoamento. Faz-nos lembrar o Nero de Giacometti, poltrão, desvairado, protegido apenas por alguns libertos, a sentir o tropel da cavalaria de Galba, sem saber se há de render-se ou suicidar-se.

Por um lado, o sr. Paulino de Sousa diz à Regência: conte comigo; só eu posso reorganizar a Monarquia desmantelada pelo Gabinete João Alfredo; por outro lado, S. Ex.ª diz aos seus eleitores: ameaçai por mim a Regência, tornai-me necessário, ou para a Monarquia, ou para a República.

É um conjunto de contradições tão extraordinário que é difícil saber por onde começar a desfiá-las.

O sr. Paulino de Sousa contentava-se com tudo, depois de haver recusado tudo.

Queria que o Governo respeitasse, como um dogma, a propriedade escrava, e ao mesmo tempo contentava-se com a decretação de medidas ilusórias.

Por um lado, S. Ex.ª confessa-se monarquista; vê na Monarquia constitucional a forma para assegurar a integridade do Império; reconhece no imperador um grande servidor do bem público; por outro lado, S. Ex.ª quer experimentar a anarquia, proveniente da confusão dos partidos, saborear os frutos da indisciplina nos domínios do desconhecido.

Não sabe S. Ex.ª o que há de aconselhar: se a resignação das vítimas do atropelo revolucionário de 13 de maio, se o desforço contra aqueles que o espoliaram. O que aconselha, em resumo, o sr. Paulino de Sousa? Nada e tudo.

Acha que a indenização é um ato de probidade pública e aconselha aos fazendeiros que a reclamem com pertinácia.

Resisti -é a senha do sr. Paulino de Sousa. «Se os lavradores, em vez de unirem-se, diz S. Ex.ª, com decisão e coragem, fizerem ainda nas localidades esse jogo estreito e ridículo, em que o látego fornecido pela autoridade anda de umas para outras mãos, sendo cada um por seu turno flagelado; se se deixarem levar pelas graças e postos, com que nos momentos de angústias lhes acena o Governo, continuarão a ser ludibriados nos seus direitos e não lhes direi senão que terão merecido a sorte que lhes determinarem. Não há hoje quem duvide que cada povo é governado como merece.»

S. Ex.ª proclama, pois, o divórcio necessário do seu eleitorado para com as instituições, que difama, dando-lhes apenas o caráter de essencialmente corruptoras, visto como só em momentos de angústia distribuem graças e posta.

E entretanto esse mesmo homem ainda fica no isolamento, ao ver, de um lado, a província que o fez o que é, roubada na sua propriedade, e de outro lado, exposta à corrupção do Governo.

É pusilanimidade ou incapacidade? É um homem de Estado este Mac-Mahon de terreiro, que espia através da República a volta ao esclavagismo?

Entretanto, confessemos que essa carta, dentro da qual se cria a ratazana da indenização, tem um merecimento.

Através da sua despreocupação hipócrita, deixa ver bem qual o fim dos reformadores.

O sr. Paulino de Sousa, como todos os seus apaniguados, guardara até a última hora a esperança de ver continuado o esclavagismo.

S. Ex.ª pensava que o sr. João Alfredo tinha a alma daquele ministro de Estrangeiros, que se chamava também Paulino de Sousa, e que, afrontando a verdade friamente, declarava na Câmara que não entravam mais negros novos no país, quando defendia ao mesmo tempo a pirataria, como desafronta da honra nacional contra os vexames do cruzeiro inglês.

O sr. Paulino de Sousa pensava que o sr. João Alfredo se prestaria, como S. Ex.ª, a manter as tradições do visconde de Uruguai, o mais desabusado defensor da pirataria.

De feito, a tradição com relação à escravidão.

Aboliu-se o tráfico em 1831, os ministros continuaram a ser os protetores dos traficantes e muitos deles seus associados, de modo que vários pobretões se converteram em milionários.

O tráfico se fez ainda durante 25 anos, acabando somente no desembarque de Serinhaém.

Proibiu-se a escravidão dos nascituros e os ingênuos ainda aí estão escravizados, sob a forma imoral e infame da tutela, e nesta exploração miserável entram homens de Estado.

Fez-se mais: apesar de marcado prazo fatal para a matrícula da lei de 1871, ainda em 1878 houve ministro que mandasse abrir matrícula na Comarca de Palmeiras, se não nos falha a memória.

O sr. Paulino de Sousa e seus sequazes viram, porém, que o Ministério não está deliberado a condescender com o esclavagismo, e que não lhe permitirá continuar sob outra forma qualquer a escravidão. Daí a ira.

O que a carta do sr. Paulino de Sousa nos diz é que S. Ex.ª está pronto com os seus amigos a servir ao Governo que lhes prometer sociedade com os cofres públicos.

Este pedido de indenização, de auxílios à lavoura, de bancos de emissão, essa lenga-lenga do venha a nós dos cofres públicos, demonstra o que sempre dizemos: que a escravidão havia convertido o Governo brasileiro no socialismo o mais baixo e torpe, porque se resumia no roubo do país inteiro em benefício de uma classe: a lavoura.

Indenização dos herdeiros dos ladrões que piratearam a alma humana e a honra da pátria durante 25 anos!

Auxílios à lavoura, a essa lavoura do absenteísmo, a essa lavoura da jogatina, do luxo, da imprevidência, da oligarquia, a essa lavoura que produziu como estadista o sr. Paulino; como instituições livres a escravidão, o parlamento do sim e não, o júri dos assassinos do Rio do Peixe; como indústria o funcionalismo; como finanças o deficit; como economia nacional a hipoteca e o exclusivismo do comércio estrangeiro!

Bancos de emissão, mas com que banqueiros? Com esses agiotas que mal sabem ler e escrever; como essa classe de judeus, que reduziu o crédito a uma camarilha, que vive a acobertar falências criminosas e a perseguir o trabalho honesto; que divide a honra em nacionalidades? Bancos de emissão nas mãos de quem? Desses que ainda ontem pediam ao Estado garantia de juros para o crédito real, tendo por base o escravo; para esses que emprestaram dinheiro à lavoura, a título de beneficiá-la, levando-lhe os olhos da cara?

Se pudéssemos dar conselhos ao Governo, dir-lhe-íamos simplesmente:

O Ministério que fez a lei de 13 de maio e a princesa que a sancionou devem à pátria a energia a mais decidida e a decisão a mais completa.

É necessário não ouvir a grita que parte do lado dos vencidos.

Os clubes neo-republicanos são os mesmos clubes de lavoura da escravidão. O tom, a ameaça são os mesmos.

Só há dois meios para acomodá-los: ou fazer como o imperador em 1885, entregar-lhes de uma vez o Governo; ou então fazer uma larga política popular e com o punho de Luís XI esmagar esse feudalismo, que quer mascarar com a federação a coligação de suseranias ameaçadas pela abolição.

O Governo não deve perder a calma.

O povo, o verdadeiro povo, que não é composto nem de caloteiros de bancos, nem de comissários despeitados, nem de bacharéis vadios, que querem suprir a falta de clientes pelo subsídio; o povo que vê nas mãos da maioria desses republicanos das dúzias o calo do chiquerador de eito; o povo está pronto a apoiar, a sustentar o atual estado de coisas.

Que o Governo o faça votar; dê-lhes meios de resistir à oligarquia que domina as urnas; essa oligarquia com que o sr. Paulino de Sousa conta para a experiência de indisciplina; essa oligarquia que ontem era conservadora de fazer inveja e hoje ameaça eleger republicanos.

Que promova desde já a desapropriação das terras à margem das estradas de ferro e dos rios navegáveis, e sistematize para aí a imigração; que faça rever os traçados de nossas estradas de ferro e lhes dê uma orientação econômica; que abra as portas à laicização completa e absoluta do país; finalmente entre numa política larga e prática e deixe vozear para aí a pirataria despeitada, que, não podendo mais explorar o negro, quer explorar o Tesouro.

18 jun. 1888

30-VII-1888
A oposição chegou à incandescência esta semana.

Abolicionistas e negreiros da Câmara dos Deputados ligaram-se para desfechar golpe mortal ao Ministério. Aproveitaram o momento em que o sr. presidente do Conselho comunicava ao parlamento que estava dando a última demão a um contrato de auxílio à lavoura por intermédio do Banco do Brasil, ao qual emprestaria, sem juros, seis mil contos de réis.

Os liberais, os mesmos liberais que procediam de tal modo, que o sr. Silveira Martins temia que eles merecessem o epíteto de câmara dos servis, entenderam que o procedimento do sr. Alfredo era uma punhalada no sistema representativo.

Foi o sr. Lourenço de Albuquerque, o mesmo a quem o sr. Martinho Campos chamava rabadilha ministerial, durante o Ministério Sinimbu, o incumbido de fazer a catilinária contra a perversão do sistema.

S. Ex.ª entende, como bom chefe do grupo Zé que o auxílio à lavoura é urgente, que o Ministério devia ter desde logo invocado o patriotismo da Câmara para que discutisse o projeto a respeito e, para demonstrar com que açodamento a oposição se prestaria a discutir o assunto importantíssimo, S. Ex.ª falou com os olhos no relógio para conseguir pela hora o adiamento da discussão.

Não era, porém, preciso que a oposição liberal recorresse a esse meio pouco engenhoso para demonstrar a sua sinceridade. A simples aliança com os mais ferrenhos negreiros da Câmara demonstrava por si só que a tática partidária afivelava a máscara do bem público. Esperava-se que o sr. Gomes de Castro arrastasse mais gente do que trouxe e, portanto, deixaram-se de lado os princípios para cuidar dos lugares.

Quanto aos soldados negros do sr. Paulino, os zulus parlamentares, é já sabido que o único fito de S. Ex.ª é guerrear o Ministério por todos os meios.

Estavam prontos a votar a indenização proposta pelo sr. Coelho Rodrigues e estão prontos a votar tudo, inclusive a venda da pátria para indenizarem-se e aos respectivos amigos. Votam, entretanto, contra o auxílio à lavoura.

O voto da oposição teve, porém, um grande merecimento: deixou a descoberto a capacidade, a inteireza e o patriotismo da oposição.

No debate do crédito real e agrícola, ela declarou ao Governo que não votava, porque sabia que o dinheiro do Estado ia ser desbaratado, visto como o lavrador não tem recursos para fazer face aos encargos contraídos pela hipoteca.

Presentemente, ela justifica o seu voto contra o acordo com o Banco do Brasil, dizendo que o auxílio chegou tarde e, portanto, já não aproveita. A lavoura já efetuou a colheita e está desafrontada.

Como se vê, a contradição é palpável. Se a lavoura pôde arrostar uma crise aguda e instantânea, como a de 13 de maio, sem lançar mão de outro recurso além do saldo de fortuna e crédito de que já dispunha; se os capitais bancários não se arrecearam de um naufrágio em plena tempestade, está claro que a lavoura pode honrar, na pior das hipóteses, os compromissos que contrai. Quer isto dizer que o Governo tem toda a razão quando diz que a sua garantia aos bancos de crédito real e agrícola é simplesmente nominal.

Ora, como facilitar o crédito ao devedor solvável não é senão fomentar a prosperidade social, segue-se que o Governo, garantindo o juro da letra hipotecária, longe de ameaçar o país com a bancarrota, por amor de uma classe, não vai senão aproveitar, em benefício da comunhão, a atividade e a experiência dessa classe.

Reconhecer, por um lado, que a lavoura tem recursos para bastar-se durante uma crise violenta e não lhe querer fornecer o crédito necessário ao seu desenvolvimento é um contra-senso econômico.

Povos da maior experiência na matéria iniciaram, como o projeto de crédito real e agrícola do Governo, o manejo deste poderoso instrumento de valorização da terra.

A Alemanha fez mediante ela a libertação do pequeno lavrador, desfeudalizou com o emprego do sistema a propriedade, que já lá chegou a adquirir o duplo movimento de desagregação para condensar a população, de agregação, para lhes conservar o valor adquirido.

E é preciso notar que o Estado que prestou a sua garantia para libertar o pequeno proprietário é ainda o agente direto para impedir a desvalorização pelo fracionamento exagerado.

Propusesse-se o sr. João Alfredo a tentar em nosso país igual obra e ver-se-ia que os liberais mais extremados eram os mais encarniçados adversários.

O liberalismo quer proteger o pequeno lavrador; o escravismo, o grande; mas um e outro estão dispostos a protegê-lo entregando-o aos seus próprios recursos.

Até ontem, nós, os abolicionistas, dizíamos que a escravidão havia empobrecido de tal forma o país que ele não comportava nenhum progresso por falta de economias realizadas pelos particulares. Tornou-se popular a nossa frase: as ruas dos Beneditinos e Municipal são a cruz da lavoura.

Se é verdadeira esta proposição, como exigir que a lavoura marche desoprimida, inicie os aperfeiçoamentos agrícolas, substitua a rotina pela ciência, o trabalho braçal pouco inteligente pela máquina, condenando-a eternamente a carregar essa cruz que a exiciou por tanto tempo?

Onde há de ir a lavoura buscar crédito, senão nos intermediários ou comissários? Nos bancos? Quais são, excetuado o do Brasil, os bancos que se prestam a servir à lavoura mediante o juro que ela comporta? Em bancos especialmente fundados para este fim, responder-me-ão. Mas, neste caso, voltamos ao princípio. Se a lavoura pode pagar o serviço do capital, de que carece por si só, sem endosso do Estado, está claro que este é inteiramente nominal e, desde que a garantia pública limita os lucros do estabelecimento, ele terá o cuidado de a dispensar.

Deve a lavoura ficar adstrita ao estado atual? Para quê? Para viver ou para morrer.

Se ela pode viver com os juros atuais, como não poderá pagar os que decorrem do projeto do Governo? Se é para morrer, o que é que nos dão os oposicionistas em troca da fonte de produção de que nos privam?

Não se improvisa a economia de um povo, como se improvisam discursos.

Se fosse possível com um simples surge et ambula constituir a pequena propriedade; se fosse possível manter nos mercados o preço dos nossos gêneros de exportação, em tal altura que desse sempre a remuneração correspondente do trabalho do produtor; se, semeando no solo as idéias dos teóricos, elas se convertessem em instrumentos de trabalho, casa, salário, nada era mais simples do que operar sem nenhum ônus para o Estado a transformação agrícola.

Infelizmente, porém, não grelavam na terra as palavras dos barbeiros contra o rei Midas e até hoje não se conseguiu fazer pegar de galho as teorias dos mais poéticos reformadores.

O dinheiro é uma fatalidade; é impossível prescindir dele para qualquer obra humana. Para nascer, como para morrer; para amar, como para odiar; para ser poeta, como para ser milionário, ele é sempre, sempre necessário.

O estado em que nos achamos é tal que não é só a lavoura que precisa de crédito do Estado para constituir o próprio. Se houvesse um governo capaz de fechar os olhos a tudo, de prescindir de teorias e citações do estado contemporâneo do mundo, esse governo garantiria até juros aos capitais que se destinassem a favorecer os brasileiros, que fundassem casas de comércio, fábricas de grandes e pequenas indústrias.

O socialismo do Estado, largo, franco, sem hesitações, é o único meio de movimentar esta grande máquina, enferrujada pela escravidão.

O segredo da força do Governo alemão é este: ele compreendeu que o Estado deve ser o primeiro mestre econômico do povo, e não hesita em intervir sempre que essa intervenção é benéfica. E ali trata-se de um país homogêneo, de um país onde se acumulam os saldos de trabalho; de um país onde o espírito de coletividade está profundamente desenvolvido, onde o espírito de Schubre (sic) fecunda a cooperação e a solidariedade.

O que faria um governo, daquele molde, num país como o nosso, que além da emigração fatal de saldos pelo fato de sermos vítimas da imigração nômada, ainda pela compra de todos os objetos necessários à vida, desde a camisa até a locomotiva, exportamos todo o capital de que carecemos para fundar a indústria nacional?

Fala-se nos trezentos mil contos que o Estado vai dar, mas não se fala no prazo que vai decorrer. A perda é uma hipótese, o tempo é uma realidade. Contavam os oposicionistas quais os lucros que podem provir desses trezentos mil contos, em mãos de particulares, ou melhor, em circulação, durante o longo período de 30 anos?

Mas não é de projetos úteis ou ruinosos ao Estado que a oposição trata? Estamos vendo que os mesmos que votaram a lei de 13 de maio opõem-se hoje ao Governo por havê-la decretado.

E não vemos todos os dias os liberais, que reclamaram para seu partido o direito de fazer a libertação, aplaudir o movimento republicano que daí proveio e ameaçar o trono com este movimento?

O que se está passando não é sério. A oposição atual não merece respeito dos homens que estudam e que amam sinceramente a pátria.

É uma guerrilha de negreiros e de ambiciosos.

O fim do escravagismo é enfraquecer o Governo para obter de qualquer modo a indenização; isto é, tirar dos cofres públicos em proveito de alguns o dinheiro que só deve ser dado em benefício de todos.

Servem-se dos liberais, da vaidade desse partido desmanchado, para chegar aos seus fins.

O sr. João Alfredo é um obstáculo a essa conspiração imoral: é preciso destruí-lo. O pirata em alto-mar não respeita a bandeira do navio honrado; ataca-o indistintamente.

A pirataria da nossa terra não tem lei diversa.

30 jul. 1888

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