A história da província explica, se não justifica, o ódio secular das duas famílias, hoje desmembradas e espalhadas pela vastidão do território cearense, balda de fortuna e de prestígio. Todo o século 18 reboou com o ruído das batalhas desses poderosos rivais, que, de par com os Lyras, foram os Deucaliões do sul do Ceará. Ramos do mesmo tronco genealógico, uma questão de terras separou-os para sempre, e ambos puseram-se em campo, em guerra fratricida, guerra em que as crueldades assombram, as devastações aterroram. As tribos selvagens, assoldadas por eles, foram os executores dos seus tremendos veredictos, e basta isto para perceber-se a monstruosidade das execuções. Ao anoitecer a quietação claustral das fazendas era perturbada pelo toque dos instrumentos guerreiros. Uma seta inflamada atirava o cartel fatal aos moradores, e as labaredas vermelhas de um incêndio, rompendo a custo novelos densos de fumo, apelavam para um, combate sem tréguas. E, no meio da confusão, do alvoroço e do terror, barulhando-se na treva ou arquejando ao calor insuportável do incêndio, os dois exércitos encontravam-se braço a braço, depois de se terem crivado por nuvens de flechas, por descargas de mosquetaria, e ferozes, sanguissedentos, disputavam linha a linha a vitória, cujo coroamento era o sacrifício de mulheres, de crianças e de anciãos. Debalde as justiças da Metrópole tentaram pôr fim a essas contendas ensangüentadas; as ciladas esperavam-nas, e a derrota das milícias era infalível diante dos poderosos sertanejos, senhores de barço e cutelo das povoações, influências invencíveis nos senados das câmaras, agasalho de perseguidos e facínoras. A rivalidade irreconciliável terminou por desmoronar essa grandeza colossal, intumescida de orgulho e de crimes, e no presente século as ruínas apenas sobrenadam ao vasto mar de sangue que teve por praias a extensão de um século.
Não obstante, os velhos descendentes não mudavam na adversidade a paixão dos tempos felizes.
O vigário Paula sintetizou um dia o caráter de Rogério numa das suas frases de fino espírito:
- É um bom homem, que há de ir parar no inferno a dar esmolas.
Queiroz, ouvindo-o proferir esta sentença contra o seu velho amigo, repeliu-a com azedume, admirado de que fosse Paula quem tal dissesse de um homem cujo valimento dera-lhe a paróquia.
- O que quer você, Queiroz? Eu digo o que sinto. A maior virtude do homem é o perdão, e Rogério não sabe perdoar.
- Ora, adeus, homem - respondeu-lhe o professor.
Mas, impressionado pelas palavras do vigário, tentou remover do coração do amigo aquela mancha, que tinha herdado aos seus maiores. Vão propósito: o ódio de Monte estava dissolvido no seu próprio sangue.
Tal era o homem, que não se arreceou de agasalhar a "corja de ladrões" com aplauso de Irena e Eulália e do bondoso Queiroz.
Os paroquianos, comentando a cena da igreja, mostravam-se arrependidos. No fim de contas aquela gente era desgraçada, merecia compaixão, e tanto que soube corresponder à bondade de Rogério cavalheirosamente. Desde o dia seguinte foi instalar-se no Engenho, na vizinhança do Feiticeiro.
Abonançada a inquietação dos primeiros momentos, ninguém mais se lembrou de chamar temerário ao velho Rogério Monte, e a paróquia recaiu na sua vida monótona, dividida entre os comentários dos acontecimentos dos últimos dias e as antevisões dolorosas do seu destino, entre a devoção matinal e o sono letárgico logo ao cair da noite.
Paula continuou a dizer tranqüilamente as suas missas a meter-se três vezes à mesa durante o dia, a consolar o queixoso Marciano, a passar as tardes no casebre deste, a dar o seu quarto de hora de manhã à palestra e duas horas por noite à bisca na casa de Queiroz.
Estas duas horas e pouco eram o seu maior tormento e o seu maior prazer. Via Eulália, sempre confusa diante dele, como que amedrontada, a querer abrir-se em uma fraqueza, e a hesitar. O seu despeito folgava com essa tortura lenta, agravada pelo pudor de Eulália; mas o coração repercutia-lhe dolorosamente aquele sofrimento, que já ia alterando a fisionomia santa do seu ídolo, e então Paula custava a domar o desejo impetuoso de ajoelhar-se junto à moça, pedir-lhe que o perdoasse ou desprezasse, mas que vivesse feliz, despreocupada como outrora. Porém o hálito morno do beijo que lhe embalsamava a mão, sempre que entrava ou saía da casa do professor, alucinava-o de novo, e acordava-lhe, ruidosa como um temporal, a paixão que se estorcia na sombra como as torturas do Ugulino dantesco, venenosa como as serpentes, feroz como as panteras. Lábios que tinham hálito tão perfumoso, de uma tepidez tão suave, deviam dizer carícias angélicas, enquanto as mãos delicadas desfiassem afagos de fazer estremecer, como o rolar de uma gota de água pela medula. E que temeridade, que energia heróica não teria aquele amor, erupto de um coração que acordava com a violência da mocidade, depois de um sono cataléptico de quatro anos, consagrados somente à piedade filial? Não; não podia deixar que outrem fruísse os gozos que a fatalidade, aquela batina cruel, que ele sacudia com as raivas do tigre, lhe proibia. Não seria sua, mas também não seria de ninguém!
E todos os dias, preocupado com a sua vingança recalcada pelas conveniências, frio como as escamas das cobras, calculava como irritar os brios de Eulália, e afastar para sempre Augusto Feitosa, ainda que para consegui-lo fosse preciso vê-la morta.
Uma tarde, a conversar com ela, na horta, achou ocasião de apunhalar-lhe pela terceira vez o mísero coração.
- Por que foge sempre de mim - perguntou-lhe -, ou fica tão contrafeita quando me vê?
Eulália admirou-se de ouvi-lo com uma entoação meiga e tanta bondade no olhar. Estava agora acostumada a outras maneiras, ao desabrimento brutal ou descortesia hipócrita, e por isso o tom manso e cordial do padre fê-la estremecer; mas logo, lembrando-se das palavras de Irena, alvoroçou-se de contentamento. Tratava-a, de feito, como seu pai, e por isso não percebia que às vezes a magoava muito.
- Eu? - respondeu-lhe. - O sr. vigário é que parece continuar mal comigo.
- Não hei de tratá-la com intimidade, quando a vejo esquivar-se...
- É desconfiança.
- É verdade; eu sou meio caboclo, e desconfio muito, principalmente de quem calcula.
- De quem... ? - perguntou a moça, que não ouviu bem a última palavra.
- Digo que - repetiu o vigário, sorrindo e sacudindo o seu longo indicador - não gosto de quem faz cálculos para fazer-se estimada.
- Mas é comigo que fala? - interrogou Eulália, corando muito.
- O padre sou eu, minha sonsinha - respondeu com bonomia. - Eu sou quem pode confessar; você apenas deve cumprir as penitências, de que precisa bem.
- Eu calculo, para ser estimada? ! Por quem?
- Há de ser por mim; pois por quem há de ser mais?. Aviso-a com o segredo do confessionário.
E retirou-se, deixando-a humilhada, perplexa, diante da acusação que o seu recato de virgem considerava esmagadora.
- Eis aí por que me maltrata - disse ela; - eu vi logo a ponta da intriga: hei de desfazê-la.
E perdeu-se num mar de conjeturas, para atinar com a origem da ignóbil difamação.
Toda a paróquia com as suas pequenas murmurações, com os seus dichotes à meia voz, desfilou-lhe pelo pensamento, num préstito sombrio e lúgubre, a olhá-la vesgamente como para um ente abjeto. Deixava de ser a santa filha de Queiroz, alegre como o gazear dos pássaros, para ser a mulher sonsa a calcular com os seus encantos - diziam todos talvez a essa hora. Quando passasse, ouviria o cascalhar represo das risadas malignas, provocadas pela infame calúnia, que se insinuara sorrateiramente no ânimo da paróquia, e, sem que ela própria o sentisse, estampara-lhe na fronte um ferrete ignominioso, quem sabe se indelével!
A calúnia era infame demais para que a revelasse e pedisse a seu honrado pai uma desafronta. Fora amargurar-lhe a existência, ferir-lhe no âmago a vida, enxovalhar-lhe a nobreza. Demais, o sr. vigário impusera-lhe o segredo do confessionário.
Não havia, pois, outro remédio senão ficar abatida aos próprios olhos, deixando-se devorar em silêncio por aquela amargura, até que um dia a justiça do céu se incumbisse da sua reabilitação.
Apressou o passo, e chegando-se timidamente ao vigário:
- Mas o senhor não acredita nessa mentira, não é verdade? perguntou com acanhamento.
- A mulher perdeu o mundo - respondeu sorrindo... - Eu sei lá ... . mas se diz que não...
- Juro que não, pela alma de minha mãe!
- Não é bom falar nos mortos, d. Eulália - replicou austeramente; - não se deve profanar as sepulturas; errar é dos homens.
As lágrimas rebentaram em fios dos olhos tristes da moça, e os seus lábios trêmulos mal puderam tartamudear:
- Seja o que o sr. vigário quiser.
- As lágrimas fazem-na tão bonita, Eulália, que eu não tenho forças para deixar de acreditá-la! - exclamou Paula com uma ternura infinita, apertando entre as suas a mão abandonada de Eulália.
Estremeceram ambos ao mesmo tempo, como se um olhar indiscreto os surpreendesse. A moça apertou o passo para entrar em casa, e Paula conservou-se imóvel a olhar para o chão, como se uma força ignota lhe violentasse o olhar.
Uma toada triste rumorejou então distante, com um eco soturno e lúgubre.
Era o Joaquim Maluco, pai inconsolável, que passava, cantando a sua desgraça na inconsciência da loucura.
- Será um aviso do céu?! - murmurou Paula perturbado.
Mas logo, sacudindo os ombros:
- Seja - continuou consigo. - Prefiro o inferno com ela!
De volta à sala de Queiroz, Eulália e Paula estavam apoderados de sentimentos diversos.
A filha do professor tinha medo de si mesma. Lembrava-se de que um enleio inexplicável avassalou-a e converteu-a em títere de um impulso ignoto, mas triunfante, que a entregaria ao vigário como escrava. O calor daquelas mãos, que apertaram as suas com um tremor carinhoso, coara-se-lhe como um veneno pelas veias; sentiu-se alquebrada, sem vontade, sem domínio sobre si, e deixar-se-ia até beijar se não fosse o canto providencial do doido.
Semelhante recordação afogueava-lhe o pudor e obrigava-a a ocultar-se para esconder as lágrimas. Mas a solidão fazia-lhe medo; via-se fraca, dominável por tudo, inerte ao ponto de se deixar vencer até pelo raio do sol moribundo. O polido do espelho do seu quarto figurava-se-lhe uma lanterna que lhe acendiam dentro da consciência, a cuja luz não podia esconder que o vigário a impelia com um aceno, escravizava-a com um olhar. Lutava então contra o amargor de tão triste certeza, mas a imaginação baralhava-se-lhe num cismar cambiante como as vistas de um caleidoscópio. No entanto, não tinha forças para repreender-se severamente, porque o que sentia agora não era senão a reprodução do que sentira desde a infância pelo sr. vigário.
Recordava-se de que, em pequena, era de um gênio violento e excessivamente traquinas. Em vão as carícias paternas e as de sua boa mãe buscavam contê-la: continuava sempre, e, se a castigavam, cedia por temor, mas não por estar convencida de que fizera mal. Entretanto, se a ameaçavam dizendo que iam contar ao sr. vigário, aquietava-se logo, e, sem ressentir-se, distraía-se e ia ler ou amimar sua boneca. Depois de crescida, já mocinha, sentia uma satisfação untuosa, fresca como o contato de uma pele, ouvindo as prédicas daquele homem que fazia estremecer todos os corações, que falava em nome de Deus, e não obstante na sua casa desfazia-se em afagos e em meiguices para consigo. Depois foi gradativamente compreendendo que Paula era um homem de espírito, superior à gente rude da paróquia, que o maldizia porque não o entendia, e não se compenetrava de que o pároco, gravitando em outra esfera, não podia deleitar-se com os seus divertimentos grosseiros e com os seus costumes semi-selvagens. Este conceito exagerado, que cimentou-se com as repetidas afirmações de Queiroz, predispuseram-na a deixar-se levar pelo vigário, a quem devotava uma afeição quase igual à que dava ao pai; afeição desinteressada, sem laços materiais, como se evidenciava do desassombro com que ouvia falar na filha do sacristão, a formosa Mundica.
Hoje, porém, descobrira em si fraqueza demais na sua afeição; fora obrigada a corar por ela, e sobressaltada, querendo fugir de si mesma, Eulália não tinha coragem de comunicar a ninguém o estado do seu espírito, e nem ao menos ousava repreender-se: fora confessar a si mesma um crime sem perdão.
Paula, ao contrário, deixava transparecer uma alegria serena, mas expansiva, que precisava de corrigir-se pelo seu hábito inveterado de conter-se, ainda nos momentos mais difíceis.
O seu espírito, orgulhoso do triunfo conseguido sobre Eulália, tinha necessidade de apossar-se de todo o horizonte, de ter a largueza de quem se espreguiça para afugentar os restos do sono.
O conchego da família do seu amigo era um círculo estreito para a sua respiração: abafava-o. Precisava de ar livre, da posse ampla do ambiente para que os seus pulmões resfolegassem com a amplitude do seu contentamento.
- Vou fazer uma obra de caridade - disse ele a Queiroz: - vou até o Engenho conversar com essa pobre gente que lá tem arranchado;
- É um belo passeio - ponderou-lhe Queiroz -, mas é um pouco distante e você voltará já com a noite.
- Que quer? É o meu oficio.
- O que vale é que faz luar.
- O dever não espera pelo escuro, nem pela claridade.
- Nem sempre - respondeu o professor, batendo-lhe no ombro.
Paula saiu com o seu passo firme e compassado, e enveredou pela ladeira norte da colina, a cumprimentar aqui e ali os paroquianos, que se descobriam todos ao vê-lo. Pouco demorou a estar fora do povoado e a ficar só, no isolamento sussurrante da estrada e no júbilo do seu amor, agora esperançado.
A soledade dava-lhe alguma coisa de fantástico: parecia o luto visitando a devastação. A sua batina negra como que distendia-se por diante do povoado, extensa como a espessa barreira de trevas em que a população inteira vinha abismar-se e asfixiar-se na desesperança e no pranto.
A vegetação combalida, agitada pelo vento da tarde, parecia estremecer ante o hóspede inesperado, as claridades do crepúsculo recuavam diante dele como diante da noite. O cruzeiro do cemitério, sobranceiro aos arbustos de copa emurchecida, envolvia-o com o seu olhar sem pupilas, o agudo olhar da crença que penetra no mais insondável do desconhecido. Mas Paula caminhava com o mesmo passo inalterável, tranqüilo, absorto na sua alegria, sentindo talvez nas suas o calor virginal da mão trêmula de Eulália.
A cerca do cemitério começou a aparecer diante dele, perfilada como um pelotão apresentando as armas ao seu superior, e Paula, estremecendo, malgrado seu, descobriu-se. Os zumbidos dos grilos, sobressaindo no profundo silêncio, avultavam como se fossem gemidos alados de dentro das sepulturas: um coro trépido vindo de além-túmulo.
A solenidade da morte, pairando sobre o terreno limpo do campo-santo, impunha-se com todo o seu respeito supersticioso. Paula sentia a conquista desse poder inexplicável, e tanto que, apesar seu, apressava o passo e fazia ressoar pisadas mais fortes.
Em frente à cancela que fechava o cemitério um outro homem impressionava-se também e punha o ouvido à espreita. Era o Joaquim Maluco, o endemoninhado. Todas as noites o mísero pai vinha exacerbar a sua loucura com uma visita ao jazigo dos filhos, ou, como ele dizia, esperar o vigário, que tinha fugido para muito longe. Esta visita dolorosa foi principalmente a causa de o julgarem endemoninhado, porque havia noites em que, nas violências dos seus acessos, o velho Joaquim, depois de abraçar-se com o cruzeiro solitário, rogar-lhe piedade e justiça para a sua angústia, indignava-se contra o seu silêncio e concluía por um grito sacrílego:
- Ah! Não me respondes? Vou esbofetear-te, cuspir-te na face, filho daquela alcoviteira; espera!
E marinhava alucinado pelo madeiro nu, até chegar aos braços onde julgava encontrar o Cristo, para profaná-lo. Lá em cima, despeitado e receoso, o doido, escarranchando-se no cruzamento dos dois madeiros, atordoava o povoado com uma vozeria horrífica, misto de blasfêmias e de pedidos de socorro, seguido de gargalhadas medonhas.
- Fugiu; fugiu também com o vigário; ele também fugiu! Vejam, ele fugiu porque sabia que eu vinha cá em cima esbofeteá-lo!
O povoado inteiro abalava-se então, e, transido de terror, suplicava ao endemoninhado que descesse.
O Joaquim Maluco, certificando-se de que alguém se aproximava, levou o indicador aos lábios, e, acocorando-se por detrás do esteio da cancela, esperou.
Quando Paula ia passar em frente, o doido, pulando com a elasticidade da loucura, veio colocar-se-lhe em frente, agachado como um tigre preparado para dar o bote.
- Pare aí, pare! - bradou o desventurado... - Então pensava que ela estava aqui sozinha como no confessionário? Vai morrer já, agora mesmo.
Paula, com os cabelos eriçados, a fisionomia descomposta pelo susto, estremecendo convulsivamente, tinha estatelado em face do velho Joaquim. O doido aparecia-lhe com as cores sobrenaturais do remorso; o seu olhar esgarado subjugava-o com a força de um pulso de aço e deixava-o imóvel, mudo e passivo como um cadáver.
- Quer rezar primeiro? - perguntou-lhe o doido. - Venha rezar para morrer.
Travou-lhe violentamente do braço, puxou-o após si até junto do cruzeiro. Paula, tendo nas veias a anestesia do remorso, deixou-se ir, abandonado àquela fúria que, ao mesmo tempo que o torturava, fazia-lhe bem. A lembrança de Eulália, não tendo tido tempo de esvair-se, sobrestava-lhe o pensamento, radiante no abandono da cena da horta, prestes a vergar ao menor aceno audaz. Ser-lhe-ia agradável morrer assim; a morte viria como um desmaio suave, sob o contato carinhoso daquela imagem imaculada.
- Ajoelhe-se e reze - continuou o doido -, eu vou acordá-la; ela está acolá; há de gostar de vê-lo estrebuchar.
Retirou-se, olhando de vez em quando para o vigário, que, de pé, o fitava também, imóvel e silencioso. Mas a alguns passos deteve-se, e voltando-se rapidamente, veio de novo parar diante de Paula.
- Ajoelhe-se - repetiu o desgraçado. - Tem medo da morte?... A minha filha adormeceu sorrindo; o meu filho, o que está ali fora de sentinela, não pestanejou quando teve de partir. Reze!
Livre da pressão do seu temível ameaçador, Paula foi pouco a pouco recobrando o seu sangue-frio habitual. Conservou-se de pé, olhando o doido que se afastava, e sorriu, meneando a cabeça piedosamente. Depois, cruzando os braços sobre o peito, relanceou os olhos pelo cemitério, como quem procura alguma coisa. Encostado à cerca, próximo à cancela, luzia o aço polido de uma enxada, como o olhar facínora, ávido de um crime.
Paula, com o seu sorriso de desprezo, encarou para o instrumento, e depois volveu o olhar à direção tomada pelo doido.
- Coitado, talvez eu tenha de feri-lo ou estrangulá-lo! -resmungou desdenhosamente.
Continuou imóvel à espera, sombrio como a premeditação nefanda de um crime hediondo. A perversidade daquela natureza avultava em todo o seu relevo, na plenitude dos seus contornos. As mangas largas da batina deixavam-lhe ver os pulsos sertanejos, grossos e achatados, traindo a força dos vaqueiros que derrubam com uma laçada os touros bravios, e semelhantes a duas jibóias enroscadas esperando presa. Mas Paula cansou por fim, e com o seu passo firme e pausado, relanceando o olhar em torno de si, retirou-se sem que fosse sentido.
O mísero pai, alucinado, de joelhos sobre uma sepultura na extremidade do cemitério, ocupava-se exclusivamente em acordar o esqueleto soterrado da filha.
Já o vigário estava no Engenho, sentado a conversar com os seus novos habitantes, e quem passasse pela frente do cemitério veria ainda o doido, ajoelhado, batendo com as mãos espalmadas na terra, e ouvi-lo-ia, com uma rouquidão carinhosa, exclamar repetidas vezes:
- Acorda, filha; vem, ele está ali; eu vou matá-lo.
À noite, Eulália e Irena estavam juntas, e, conforme o seu costume, fecharam-se por dentro, na alcova da primeira.
Mais do que a porta de cedro, separava-as do resto da família a abstração em que elas se achavam. A caçula dormia e os velhos, na sala das aulas, jogavam calorosamente a bisca, emparceirados com d. Ana e Chiquinha. Duas caboclas, que eram as criadas da casa, encostadas aos umbrais da porta, espiavam o jogo.
As duas moças, atravessadas na rede, que Eulália impelia de quando em quando, fincando no ladrilho a pontinha do pé, puseram-se a conversar.
- Tem-no visto? - perguntou Eulália.
Irena fitou significativamente a sua amiga e meneou a cabeça, afirmando.
- E não está alegre?
- Você bem sabe que eu não posso ficar alegre quando o vejo; cada olhar seu parece que me afasta de meu pai para sempre.
Estas palavras, proferidas com a sincera acentuação de uma dor verdadeira e profunda, foram seguidas por um longo silêncio, durante o qual as duas moças, balançando-se sem se encarar, olhavam com indiferença para o espelho que as refletia em frente.
- Você já sondou seu pai, Irena? Talvez não se zangue, ele estima-a tanto! - ponderou Eulália. - Cede por força.
- Acredita? Pois era o mesmo que dar-lhe uma facada.
E Irena, sentando-se, desfiou as razões da sua afirmação peremptória:
Tinha-o conversado sobre os Feitosas, a propósito das palavras do vigário; lembrara-lhe que mais de um rio de sangue já havia passado sobre as ofensas das duas famílias e nada mais devia existir entre os seus parentes e os seus rivais.
O velho pai respondeu-lhe, porém, com o laconismo da intransigência:
- Os Feitosas são homens que insultam mulheres, que assassinam as crianças dos seus inimigos; não serei eu, nem filho meu, que os perdoe.
- Então não há nenhuma esperança?
- Nenhuma - suspirou tristemente Irena -, e tenho vontade de dizer-lhe que o melhor para nós ambos é o esquecimento. Mas...
- Não pode - continuou Eulália. - E assim mesmo quando se encontra um embaraço.
- Não posso, minha amiga, não posso.
Pôs-se então a dizer com que profunda dedicação amava Feitosa. Foi através de dois séculos de ódio, separados por um rio de lágrimas e sangue, em cuja correnteza boiavam cabeças decepadas de anciãos, de mulheres e de crianças, recordações tristíssimas das cenas mais bárbaras, destroços de habitações, novelos de fumo ainda prenhes de labaredas de incêndio; foi através da antipatia mais arraigada que se viram. Foi isto em janeiro, em uma procissão de preces. Feitosa estava na paróquia havia poucos dias e era o alvo dos comentários de todos, e só por isso levantou os olhos para ele. Os seus olhares se encontraram, os seus cabelos loiros e a pele muito fina, suando sangue, impressionaram-na. Pareceu-lhe não ser um Feitosa, mas um gêmeo seu, com a mesma alma tímida, com a mesma índole condescendente. Desde logo Irena sentiu que ele também se impressionara consigo, e, de volta da procissão, olhavam-se com um olhar comunicativo, sem sombras, quase sem receio, prestes a ser íntimo.
Em fins de janeiro, Rogério Monte deixou por alguns dias o povoado, para ir até a fazenda, e Irena ficou em casa de Queiroz, onde, pela primeira vez, falou com Augusto Feitosa. As poucas palavras que trocaram entre si foram uma revelação invencível, espontânea, partida ao mesmo tempo de ambos, ardente, expansiva, irredutível. Só mais tarde, quando já a saudade alimentava-lhes a paixão, quando o impulso do coração desmoronava os brios tradicionais, pensaram na rivalidade das duas famílias. Feitosa jurou imediatamente contrapor a espontaneidade do seu afeto à resistência dos seus, mas Irena, certa de que era a única alegria do velho Rogério Monte, hesitou e tremeu pelo futuro. Deveria sacrificar ao egoísmo do coração a honra do pai? O amor respondia-lhe peremptoriamente - sim! Mas a piedade filial aconselhava-lhe que - não! Pensou então em suplicar-lhe, em demovê-lo do pensamento mau que lhe pairava como ave agoureira sobre a integridade do caráter, mas não teve coragem de levar por diante a sua tentativa, porque viu alevantar-se ameaçador, intransigente, o ódio vivaz com que o velho tinha sido aleitado, embalado na meninice, alimentado na mocidade. O seu espírito condescendente conciliou por um adiamento as dificuldades da sua posição, e Irena deliberou continuar clandestinamente a amar Feitosa, apesar de seu pai.
Um dia o noivo falou-lhe em fugir, e tremeu depois da sua revolta. Pediu-lhe que a deixasse, que não a quisesse perder, assassinando seu pai; mas aos poucos a certeza da intransigência paterna habituou-a com o triste pensamento, e foi ela mesma quem, mais tarde, disse que às vezes tinha vontade de fugir.
- E o que há de por fim acontecer - concluiu Irena, enxugando as lágrimas que lhe borbulharam incontinenti.
Osilêncio interpôs-se de novo à confidência, e os vaivéns da rede tornaram-se mais fortes, fazendo ranger a corda nos armadores. De espaço a espaço ouviam-se as risadas e os protestos de Chiquinha, arrebatada no calor do jogo, e a barulhada de todas as vozes, comentando a mão acabada.
- Penso mal, não é, Eulália?
- Não sei, filha; se não houver outro remédio!... Mas pense bem primeiro; talvez se faça por gosto dele: pense bem.
- Qual! - murmurou Irena, meneando a cabeça. - Meu pai não volta atrás o que diz.
- Você está resolvida então?
Irena afirmou com o gesto, mal contendo os soluços, e escondeu a cabeça nos punhos da rede, para ocultar da amiga o rosto envergonhado. Eulália calou-se amigavelmente e, inclinando-se sobre Irena, beijou-lhe a face escaldada pelo pudor.
- Eu também resolvi ainda agora uma coisa contra o vigário - disse Eulália. - Não o quero aturar mais.
- Continua com os seus modos? - perguntou Irena.
- Cada vez mais desabridos; eu sou o seu adufe.
- Mas de onde tirou o vigário estes modos com você, ele que a estimava ternamente?...
- Agora - disse Eulália, sorrindo tristemente -, eu calculo para ser estimada, como da outra vez eu faltava o respeito à religião junto do andor de Nossa Senhora.
- Você calcula? E que ele ainda está doente. Mas você por que não diz isto a seu pai?
- Eu?! - disse Eulália sobressaltada - Nem com você podia falar: foi um segredo do confessionário.
- Ah!
Quando reataram a conversação, Irena parecia alucinada; o seu coração impoluto, ferido pelo golpe desfechado em sua amiga, atinou facilmente com a causa das descortesias insensatas do vigário. Foi com um abraço estreito, com um beijo, longo como o seu sofrimento, que ela começou a revelar à amiga a sua suspeita.
- Você vai ficar mal comigo, Eulália, vai abandonar-me.
- Está doida, menina! - respondeu Eulália, com uma erupção brusca de jovialidade. - Olhe, o melhor é abreviar antes de tresler.
- Antes estivesse doida; mas infelizmente sou eu quem está sendo motivo para seu sofrimento!
- Você?
- Sim; eu pelo Augusto.
- Ah! Que malvado é o tal sr. vigário!
- Você bem disse que nós somos bem infelizes! Eu sou a culpada do que você sofre.
- Você? Que culpa tem você de que eles julguem mal os outros? Deixa-os ! Eu serei sempre sua amiga.
- Mas é preciso desconvencer o vigário, dizer-lhe que se enganou.
- Se eu pronunciasse o nome de Augusto era pior ainda: aquele homem é um perverso.
A última frase foi acentuada com o amargor da convicção, e a fisionomia de Eulália testemunhava a sinceridade com que fora ela proferida. Dir-se-ia que a filha do professor estava pronta para abrir luta com o maior amigo de seu pai; que lhe pagaria ofensa por ofensa, descortesia por descortesia. Mas o eco da voz de Paula penetrou, como um espião, dentro do quarto, e trazia umas palavras cheias de doçuras para o coração de Eulália.
- Onde estão as meninas? - perguntara o vigário.
- Enterrando os vivos e desenterrando os mortos - respondeu Queiroz. - Estão fechadas no quarto a conversar... Aproveita a vaza, Ana, não há mais trunfo fora.
- Contou mal, contou mal! - gritou Chiquinha, rindo muito. - Cá está o valete.
- E aqui um reizinho, minha filha, e você bem sabe que o rei mata.
- Mas não faz a gagosa, não passou escoteira.
- Paciência, mas vocês tomaram capote.
- Boas! Conte.
A voz de Queiroz continuou a penetrar no quarto de Eulália, agora com ecos da contagem, e afinal exclamou o professor:
- E quatro, oitenta e nove, e dois, noventa e um! Passa o capote ali para o vigário.
- Que grande coisa! Quando se está infeliz, tudo acontece.
- Tem razão - interveio Paula -, eu ia ainda agora morrendo.
Eulália, contendo a tempo um grito, buscou esconder a Irena a sua comoção, e perguntou-lhe sorrindo, com a sensaboria da dissimulação:
- Ouve o que ele está dizendo? Que ia morrendo... Irena, que levantara os olhos para a amiga, ficou assombrada de ver como estava descomposta a sua fisionomia.
- O que tem você, Eulália?
- Nada!... não sinto nada.
- Mas está tão pálida!
- É que eu não posso ouvir mais a voz do vigário; mas isto passa. Vamos lavar o rosto, porque você também está com os olhos pisados.
- É como lhes digo - continuou Paula -, fui assaltado pelo Joaquim Maluco, que me obrigou a voltar acompanhado.
Eulália lavava-se sofregamente e apressava Irena, como se lhe quisesse comunicar a própria impaciência.
Quando acabaram:
- Vamos para a sala - disse ela -, antes que nos chamem. Evitamos alguma graça do sr. vigário; principalmente eu.
Entraram na sala e depuseram os seus beijos respeitosos na mão de Paula, que prosseguia em historiar a cena da tarde com o doido.
- Aquele é um perigo para você, vigário - ponderou Rogério.
- É pedreiro livre - riu Francisco de Queiroz -, inimigo do altar.
- Ora, o que se lhe há de fazer? Há maiores doidos que vivem e ninguém os incomoda. Não concorda, não pensa do mesmo modo, d. Eulália?
- Mas esses outros são mansos - respondeu a moça; não querem matar os outros de emboscada.
- É exato, há diversos modos de ser doido.
Quem olhasse atentamente para Eulália veria quanto fel semelhantes palavras lhe haviam coado no coração. Mas felizmente para o vigário só Irena compreendia o amargor que as repassava, e esta limitava-se a desesperar com a sua amiga.
Paula demorou-se pouco; viera só deixar a perplexidade no espírito de Eulália, de certo ainda impressionada pelo que se passara na horta. O efeito estava produzido com mais eficácia do que tinha calculado. Saiu, pois, satisfeito, com o seu passo firme e pausado.
Rogério Monte entendeu também que devia cessar o jogo, e tomou o chapéu.
- Perdoe-me o que eu lhe faço sofrer - disse Irena, mal contendo as lágrimas.
- Não me faça padecer mais, Irena; que tem você com isso ? Você faz-me detestar ainda mais aquele miserável.
Maio entrou pela paróquia com a tristeza profunda de um féretro. Os dias ardentes, mas de uma claridade mesta como a chama dos brandões funerários, envileciam o seu brilho. esbatendo-se em quadros lutulentos.
Não havia pôr-de-sol em que o povoado não visse passar, sujos como as enxurradas do inverno, grupos de emigrantes misérrimos, em cujos semblantes transpareciam, com a mesma intensidade, as torturas da fome e da saudade do torrão natal abandonado.
O Engenho, com as suas lendas supersticiosas, com o seu aspecto sombrio de crasta alumiada por uma fraca lâmpada tornou-se ainda mais tristonho: parecia um corvo colossal cobrindo com a asa negra desmesurada a sua pútrida carniça. Os seus arredores exalavam o cheiro nauseabundo das sentinas não desinfetadas, o seu interior tresandava as exalações dos curtumes. Já não era a multidão despreocupada, sussurrante, feliz, ávida de contentamento, quem o enchia a transbordar, dando alma às ruínas, evocando-lhes o passado pletórico de vida dos tempos do poderio da família dos seus possuidores. Enchia-o agora a inundação da miséria, o vômito da esterilidade do sertão, gente seminua, cadavérica, faminta, que era atirada pelo cansaço por sobre os seus entulhos, como o náufrago moribundo cuspido pelo mar no lodaçal de um mangue.
A vasta área, que serviu de cenário ao espetáculo do Feiticeiro, estava agora dividida em muitos cubículos, feitos pelo envaramento de ramagens, que recatavam-lhes o interior com a folhagem seca. Nos claros deixados, viam-se aqui e ali lareiras improvisadas por três pedras soltas, sobre as quais as panelas negras de fuligem ferviam para escaldar o tapichã, enquanto a lenha, apenas emurchecida, chiava, deitando novelos de fumaça, debaixo da qual a chama vacilava em crescer, como se o próprio fogo se houvera tornado preguiçoso. Em torno das lareiras ou dos borralhos extintos, as crianças quedando sentadas, com a resignação hereditária do cearense, lembravam grandes entranhas acocoradas à beira do brejo.
O efeito moral da população adventícia no ânimo da paróquia prostrou-a num abatimento invencível, e, além disso, o tifo começou a tomar um desenvolvimento epidêmico. Pairou então sobre o povoado o ar consternado do penitente na noite do oratório. Via-se condenado a morrer por uma sentença irrevogável, porque a fatalidade pusera-lhe estreito cerco. De um lado, o sertão trasbordava, de outro lado, assustadoras notícias de Aracati diziam que, em quase todas as cidades e povoações, a morte engordava nas hecatombes da fome.
A intensidade do horror tinha sugerido uma crueldade atroz ao instinto de conservação da paróquia, tanto mais vivaz agora que a frialdade da cova já invadira, em parte, pelo terror.
O Feiticeiro e vários retirantes haviam abandonado o Engenho, deixando alguns deles a mísera família abandonada à desgraça, sem que ao menos lhe dessem, por despedida, uma palavra de conforto. Um pensamento ocorreu logo a todos e impôs-se como certeza. A fama dos Viriatos dos Cariris tomava grande vulto na voz pública; contavam-se já façanhas medonhas dessa quadrilha de ladrões, que se aliara com o flagelo da seca para levar a ruína e a miséria aos cearenses. Onde o sol abrasador, os ventos impetuosos e áridos não podiam chegar, penetravam as mãos dos bandidos; o que não conseguiam as moléstias reinantes, faziam os seus punhais cegos e desapiedados, que eram a guarda de honra que lhes garantiam as suas espoliações.
Falava-se muito também do desaparecimento de muitos homens de força provada, de agilidade aclamada. De um dia para outro ninguém mais os descobria: partiam sem deixar rasto, como se o chão os houvesse tragado. Começou-se, pois a suspeitar que esses homens eram voluntários que se iam alistar na temível quadrilha dos Cariris. A paróquia inteira, portanto, ao saber da fuga dos retirantes, volveu os olhos para as bandas de sudoeste, onde se levantavam com um azul de turquesa os picos da cordilheira infestada pelos Viriatos.
Alguns indícios apagados, mas ainda assim conducentes a justificar a suspeita, ficaram após os fugitivos. Durante muitos dias o Feiticeiro pareceu olvidar-se das suas cobras, que puderam dormir e enfurecer-se à vontade nas suas estreitas gaiolas. O homem misterioso tinha sido invadido por uma piedade estranha pelos miseráveis que co-habitavam o Engenho, e distribuía esmolas pelas crianças. A sua bolsa tornou-se o complemento da do velho Monte, a cujas expensas se mantinham os retirantes. Rompera-se carinhosamente o seu antipático silêncio; sorrisos paternais desbastavam-lhe a aspereza hostil do semblante: fizera-se conversador e tratável.
A seu convite, os homens mais valentes passavam as tardes a provar forças e travavam lutas corpo a corpo, porfiadas, e até algumas vezes ameaçadoras a ponto de ser necessária a intervenção do seu promotor.
- Eh! - resmungava o Feiticeiro. - Isto é só para desenferrujar para as viagens: não é de vida ou de morte.
Dois dias antes da fuga, o homem misterioso, conversando à tarde, tinha dito aos ouvintes:
- Homem! Vocês têm ouvido nomear uns tais Viriatos ?... É gente para se ter respeito - continuou ele após a resposta afirmativa; - é gente de pegar: onde eles chegam, fecha-se o tempo.
- São ladrões desabusados - disseram entre os ouvintes -, má casta de gente.
- Vingam muitos pobres inocentes - replicou o Feiticeiro - chamados ladrões por tirar uma cana, e às vezes ratada.
- Lá isto é verdade - concordou o grupo.
- E aqui mesmo há exemplo - continuou o Feiticeiro -, há muita gente que passa por ladrão sem nunca ter furtado nem a porção de açúcar que uma formiga carrega.
- Muita verdade, muita verdade, tio Luís - responderam;
- lá em Inhamuns toda a gente fala no Virgulino; ele que o diga.
Os olhos voltaram-se todos para o homem que na sacristia entregara o cordão de ouro ao vigário Paula, em paga da sepultura do seu sogro.
- Ora o que lá vai, lá vai - ponderou Virgulino -, para que falar mais nisso?
A insistência do grupo obrigou-o, porém, a vir em auxílio das suas palavras
Tinha sido morador num sítio de criação, e ali nunca houve nenhum vaqueiro mais estimado. Era como um filho da casa, confiariam dele montes de ouro em pó. Todas as tardes o filho mais velho do situado vinha prosear no seu rancho e balançar-se na rede da sala, contando histórias divertidas, muito de se ouvir, porque ele tinha ido a estudos na Fortaleza. Era, em suma, um rapaz da praça, bem falante e muito floreador. Virgulino recebia-o em casa sem diferença de irmão; ele e o Anacleto, que os ouvintes estavam vendo, eram uma e a mesma coisa. Mas, uma tarde, o moço adiantara-se com uma das irmãs de Virgulino, que, ao ver semelhante desacato ao seu pundonor de cearense, ainda teve prudência de lhe dizer acomodado:
- Mais devagar, amigo; guarde esses modos lá para a praça, quando for ao Ceará.
A resposta foi de ferver o sangue:
- Cala boca daí; tomara você que eu a queira.
Uma onda de indignação engoliu de um trago a prudência do vaqueiro, e, fora de si, rugindo injúrias pungentes, agrediu o rapaz temerário, espalmando-lhe uma tremenda bofetada.
O covarde vacilou, bamboleou e rodou por terra, onde o foi subjugar a cólera de Virgulino, que, por desprezo, cuspiu-lhe ainda na face. A vingança não demorou a se fazer sentir atroz, quanto fora brutal a afronta. O próprio pai do rapaz, o velho situado, abriu-lhe na fronte a cruz infamatória, corrente fatal de galé que nada pode quebrar, porque os seus elos são fundidos com o próprio sangue do condenado.
- Eis ai por que eu sou apontado como ladrão - terminou Virgulino.
- Mirem-se agora neste espelho - exclamou o Feiticeiro - e tenham raiva aos Viriatos.
E, prosseguindo com a sua voz pausada, enrouquecida, o Feiticeiro comentou a cena da igreja e a pouca piedade da paróquia.
- O velho Monte não pode sozinho matar a fome a mais de cem pessoas; dá o que pode o bom do velho, mas os outros nem um real! O sr. vigário nem confessa a gente, e dá a comunhão; mas a hóstia santa e o gole de água não matam a fome ao cristão. Aqui é como se vê sempre: a presença do pobre não faz dó, mete medo; o rico pensa logo que o infeliz o vem roubar. Eu não vivo da esmola; vivo do veneno das cobras. O veneno é menos cruel do que a esmola. Não preciso de rogar o bocado para a boca. Por isso mesmo não me vexo com o desprezo de todos; não sinto que olhem para mim como para um pesteado. Mas vocês...
A voz do Feiticeiro tomou então uma acentuação lúgubre. Enrugou-se-lhe a pele do rosto entre os supercílios, e os seus olhos vermelhos, meio ocultas as pupilas no sobrecenho carregado, luziram como duas brasas.
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