Como romancista, a sua produção oferece duas fases, das quais a segunda é, se não de declínio, de relativa inferioridade. Ele próprio parece o haver sentido quando, desde 1870, trocou o seu nome já ilustre pelo pseudônimo de Sênio, declarando-se velho da velhice não do corpo, feitura dos anos, mas da alma, gerada das desilusões. "Há duas velhices — escrevia tristemente à frente do Gaúcho, publicado aquele ano —: a do corpo, que trazem os anos, e a da alma, que deixam as desilusões. Aqui onde a opinião é terra sáfara e o mormaço da corrupção vai crestando todos os estímulos nobres, aqui a alma envelhece depressa. Ainda bem! A solidão moral dessa velhice precoce é um refúgio contra a idolatria de Moloch." Tinha apenas quarenta e um anos quem estas desenganadas palavras escrevia. As desilusões lhas dera a política, criando-lhe ambições que lhe não deixou satisfazer. Artista nervoso e nimiamente suscetível, um sensitivo, alma de impressionabilidade doentia, não soube Alencar sofrer com isenção e superioridade o malogro das suas ambições políticas, mais quando vinha acompanhado da negação dos seus talentos literários e da sua obra, em arremetidas açuladas pelos mesmos com quem o seu temperamento irritadiço, quiçá vaidade de intelectual que se não dissimulava bastante, o tinham politicamente incompatibilizado. Com a recusa do imperador de o escolher senador na lista sêxtupla em que tinha o primeiro lugar, recusa inspirada num alto sentimento de moral pública, pois Alencar era ministro na ocasião do pleito, com a sua desavença com os seus correligionários, coincidia a guerra já aludida que ao literato fizeram Franklin Távora e José de Castilho e outros, seguindo-se-lhe os primeiros ataques da crítica (Joaquim Nabuco, Sílvio Romero), aos quais se mostrou mais que de razão sensível. E ele que em opúsculos políticos, nomeadamente nas Cartas de Erasmo, a sua principal obra de publicista, se mostrava um devotado imperialista e havia feito, com a apologia do imperador, a defesa do poder pessoal, que lhe argüiam, e até preconizado o uso deste poder, agora, por uma reviravolta vulgar nos nossos temperamentos de impulsivos, atribuindo ao monarca todos os seus dissabores, encheu-se de ódio contra ele, desdisse-se e contradisse-se, em demasia entregue a este abalo moral. Como quer que seja o melhor da sua obra literária, é justamente a anterior a este período, o Guarani, as Minas de prata, as novelas de 1860, Lucíola, Diva, Iracema. Há nas que vêm após aquela crise um gosto malsão do extravagante, mesmo do monstruoso, uma afetação do desengano e de desilusão, que lhe revê a chaga da alma malferida. O Gaúcho, Til, a Pata da gazela e ainda o Tronco do ipê são disso documento. E voltando ao romance histórico, de que dera em Minas de prata o nosso mais perfeito exemplar, descai na sátira propositada e, o que é pior, feita sem talento nem finura. A Guerra dos mascates (1871), onde, com o imperador, quase sem disfarce encarnado no governador de Pernambuco, figuram alguns magnates da política grossamente caracterizados e outros contemporâneos de algum destaque, é antes um panfleto que um romance histórico. E como obra d’arte é a todos os respeitos inferior, sem que a execução lhe desculpe a má sortida inspiração.
A obra propriamente literária de Alencar, romance e teatro, fundamento do seu renome, é, a despeito das restrições que se lhe possam fazer, valiosa. Mas só as suas virtudes estéticas não lhe assegurariam a proeminência que nas nossas letras ele tem, não fora a sua importância e significação na história da nossa literatura. A vontade persistente de promover a literatura nacional, o esforço que nisto empenhou, a mesma cópia e variedade desta obra, mais talvez que o seu valor propriamente literário, lhe asseguram e ao seu autor lugar eminente nesta história. A sua porção principal, onde se nos deparam três ou quatro livros porventura destinados a perdurar, são os romances e novelas de antes de Sênio, compreendida Senhora, não obstante a sua data (1857). Não possuindo a língua com seguro conhecimento, tinha Alencar, entretanto, com um fino sentimento dela, dons naturais de escritor que o distinguiram, desde que apareceu, entre todos os seus contemporâneos, antes que Machado de Assis, sob este aspecto ao menos, os excedesse a todos. Mas com essas qualidades nativas, alguma afetação e certos amaneirados de estilo, aumentados na fase de Sênio. As críticas geralmente justas feitas à sua linguagem não tiveram senão o efeito de lhe exacerbarem o orgulho ou vaidade literária. Pôs-se a estudar a língua mais com o propósito de encontrar nesse estudo antes justificativa do que emenda dos seus defeitos de escritor, nos quais desarrazoadamente e com dano da sua literatura perseverou do mesmo passo acoroçoando com o seu exemplo ilustre a funesta intrusão individual em o natural desenvolvimento da língua. Há no estilo de Alencar, colorido, sonoridade, mesmo música, eloqüência, emoção comunicativa, mas há também ênfase e mau gosto. Como escritor faltava-lhe, pode dizer-se inteiramente, espírito, que parece apenas revelou nas discussões parlamentares, onde aliás os seus ataques e réplicas são mais aceradas que espirituosas. Como Herculano, segundo lhe reprochou Camilo Castelo Branco, Alencar era de uma insulsez além do que se permite ao escritor público. Daí o malogro do seu romance caricatural da Guerra dos mascates, e a fraca vida das suas comédias. Foi-lhe acaso funesto o ter começado por uma obra-prima, muito admirada e celebrada e lhe haver faltado o bom espírito de se não embevecer do seu sucesso, aliás merecido.
Três anos antes do Guarani, com que José de Alencar retaurava nas nossas letras a inspiração pseudonacionalista do indianismo periclitante, aparecia o primeiro volume das Memórias de um sargento de milícias, por "Um Brasileiro". O pseudônimo está revendo a preocupação nacionalista que era ainda por muito a da literatura do tempo e da qual Alencar se vinha justamente fazer o arauto convencido. Também o era o das Memórias de um sargento de milícias, mas depurado do preconceito indianista. Assentava antes numa intuição mais justa do objeto da nossa ficção.
Como Macedo quando escreveu a sua Moreninha, o autor era um estudante de medicina, jornalista, redator do Correio Mercantil, então um dos mais literários do Rio de Janeiro, Manoel Antônio de Almeida, nesta cidade nascido em 1830. Formado em 1857, no ano do Guarani, dos Tamoios e dos Timbiras, pouco depois, em 1861, pereceu num naufrágio indo de viagem para Campos. Com ele, pode dizer-se, naufragou a talvez mais promissora esperança do romance brasileiro. Pouco falta, com efeito, às Memórias de um sargento de milícias para serem a obra-prima do gênero na fase romântica. É original como nenhum outro dos até então e ainda imediatamente posteriores, aparecidos, pois foi concebido e executado sem imitação ou influência de qualquer escola ou corrente literária que houvesse atuado a nossa literatura, e antes pelo contrário a despeito delas, como uma obra espontânea e pessoal. Em pleno Romantismo, aqui sobreexcessivamente idealista, romanesco e sentimental também em excesso, o romance do malogrado Manoel de Almeida é perfeitamente realista, ainda naturalista, muito antes do advento, mesmo na Europa, das doutrinas literárias que receberam estes nomes. Não pertence a nenhuma escola ou tendência da ficção sua contemporânea, antes destoa por completo do seu feitio geral. É uma obra inteiramente pessoal em relação no meio literário de então. Antes de ninguém, pratica no romance brasileiro e pode afirmar-se que a pratica com suficiente engenho, mais que a pintura ou notação superficial, a observação a que já é lícito chamar de psicológica do indivíduo e do meio, a descrição pontual, sem preocupações de embelezamento dos costumes e tipos característicos, a representação realista das cousas, sem refugir, o que haveria escandalizado a Macedo e Alencar, mesmo aos seus aspectos mais prosaicos e até mais repugnantes, mas evitando sempre tanto as cruezas que trinta anos depois haviam de macular o naturalismo indígena, no seu grosseiro arremedo do francês, como os fingimentos e afeites com que presumiam aformosear a nossa vida e a sua literatura os romancistas seus contemporâneos. A língua e o estilo deste romance, menos trabalhados que o de Alencar e menos desleixados que os de Teixeira e Sousa e Macedo, tem, se não maior correção (e a sua é certamente maior que a destes últimos), mais fluência e espontaneidade e mais personalidade.
Acaso foram estas feições, que hoje revelam aos nossos olhos este romance, a causa dele não ter tido na nossa literatura a influência merecida. O gosto e a inteligência do público àquela data iam preferentemente às qualidades opostas às que agora nos parecem constituir o mérito. Habituado ao romance romanesco e moralizante qual era não só o nosso, mas o português nessa época, em rever-se embevecido nas concertadas criações dos seus romancistas, não se podia o público enfeitiçar com um romance que para o seu gosto tinha o defeito de ser demasiado real e desenfeitado. Este seria também o sentimento dos próceres do Romantismo, então com toda a autoridade na opinião literária nacional. Parece indicá-lo o fato do Brésil littéraire, de Wolf, sabidamente inspirado por Magalhães e Porto Alegre, não aludir sequer às Memórias de um sargento de milícias, e ao seu mal-aventurado autor, nem o representar na antologia, onde tanta cousa péssima vem, que adicionou ao seu livro. O desaparecimento de Manoel de Almeida, quase imediato à publicação do seu romance, o triunfo inconteste da romântica de Alencar, prejudicariam essa obra até então a mais original e a mais viva da nossa ficção e lhe impediriam de ter a influência que nela merecia ter tido e que porventura lhe daria outra e melhor feição. A sua reedição em 1862, por Quintino Bocaiúva, ainda todo devotado às nossas letras, embora provando que a certos espíritos não era o seu valor desconhecido, ainda encontrou a opinião pública a mesma em matéria literária. Só muito mais tarde, quando o naturalismo entrou a desbancar o Romantismo que aqui se procrastinava, se começaria a ver no romance de Manoel de Almeida e precursor indígena, mas sempre desconhecido, da romântica em voga.
Simultaneamente com Alencar, dous romancistas principalmente disputavam a atenção do nosso público, Joaquim Manoel de Macedo e Bernardo Joaquim da Silva Guimarães. Cronológica e literariamente, Macedo pertencia à primeira geração romântica. Era um genuíno produto daquele momento e meio literário, e foi na sua plena vigência que estreou nas letras, iniciando do mesmo passo com Teixeira e Sousa o romance, e com Martins Pena e Magalhães o teatro brasileiro. Escritor copiosíssimo como, excetuado presentemente o Sr. Coelho Neto, não tivemos outro, Macedo, aliás sem jamais progredir nem variar, ultrapassou a sua época e foi ainda o mais abundante dos prosistas da segunda geração. Sem falar dos seus livros de história ou de crônica e numerosos escritos políticos e literários dispersos em jornais e revistas, tudo geralmente insignificante, são da fase ocupada por esta geração (1850-1870) os Romances da semana, O culto do dever, A luneta mágica, As vítimas algozes, Nina, As mulheres de mantilha, A namoradeira, A baronesa do amor, para não citar senão os, aos menos pelo tomo, mais consideráveis. E no teatro, excetuado o Cego, que é de 1849, é desta mesma fase toda a sua abundante literatura dramática. Mas quer no romance, quer no teatro. Macedo não fez mais ainda na véspera ou já em pleno dia do naturalismo que continuar, por inércia, o movimento adquirido com a primeira geração romântica. Esta imobilidade, que não basta à inspiração social de Vítimas algozes, e de alguma sua peça de teatro, para desmentir, decididamente o fixa nesta geração, sem embargo dele ter vivido, e sempre escrevendo, até 1882. Nem a concepção do romance ou do teatro, nem o estilo de Macedo, variaram nunca do seu conceito primitivo de uma história inventada e recontada com muita poesia, ou, o que ele cria tal, para comover a sentimentalidade do leitor ou do ouvinte, com o fim de o edificar moralmente. Com este conceito, que foi o de todos os nossos românticos, sem exceção de Alencar, Macedo o realizou sem engenho que o relevasse, a sua obra é, do puro aspecto literário, de somenos valia. Há nela, porém, alguma cousa que a levanta e faz viver da vida mesquinha que ainda tem: primeiro a sua sinceridade, a sua ingenuidade na representação do primeiro meio século da nossa existência nacional, segundo a alegria que há nela, e que agradavelmente destoa da estranha tristeza de todos os seus companheiros de geração. Como quer que seja, ele tem, sem grande riqueza e força aliás, imaginação e facilidade. Como autor de teatro foi talvez o que melhor o soube fazer aqui. O desleixo com que geralmente escreveu, senão também pensou as suas obras, prejudicou-as consideravelmente em o nosso atual conceito. Mas os seus defeitos de concepção e de forma, a que somos hoje nimiamente sensível, não afrontavam os seus contemporâneos, dos quais foi um favorito. Ainda hoje é dos nossos romancistas mais lidos, se bem que às escondidas e em segredo. É o que tem sido mais repetidamente editado. E Taunay, que estreava já na terceira geração, dedicando-lhe o seu romance A mocidade de Trajano, como a um mestre, apenas exprimiu o sentimento de comum apreço pelo operoso e divertido escritor.
Bernardo Guimarães nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em 1827.124 Era filho de Joaquim da Silva Guimarães, um desses muitíssimos poetas merecidamente esquecidos de que o Brasil é abundante. Além de versejar, o pai escrevia prosa; era pequeno jornalista provinciano. Bernardo Guimarães encontrou, pois, uma tradição literária na família. Devia-lhe avultar a herança e comunhão da Sociedade Acadêmica de S. Paulo, cuja Faculdade de Direito, no tempo em que a freqüentou, era um foco de atividade intelectual. Ali teve por colegas e companheiros Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e outros jovens poetas e escritores. Segundo a tradição constante, ele, como aliás tantíssimos outros dos nossos doutores, tudo fez menos estudar. Depois de formado, foi sucessivamente magistrado em Goiás, professor de Retórica e Filosofia na sua terra e jornalista no Rio de Janeiro. Fixando-se mais tarde na sua Província, aí exerceu quase toda a sua atividade literária, que não foi pequena. Como prosador, Bernardo Guimarães começou, ao que parece, pela crítica, feita em jornais em que escrevia no Rio. Não sabemos o que vale a sua crítica. Como ele não perseverou nela e não deixasse como crítico obra por que o avaliemos, pouco nos importa sabê-lo, rebuscando jornais velhos.
Muito mais que Alencar e acaso mais até que Macedo, Bernardo Guimarães, como romancista é um espontâneo, sem alguma prevenção literária, propósito estético ou filiação consciente a nenhuma escola. É um contador de histórias no sentido popular da expressão, sem a ingenuidade, às vezes excelente, destes, porque em suma é um letrado, e as suas letras lhe viciam a naturalidade. Se o seu primeiro romance, O ermitão do Muquem, é um "romance brasileiro", segundo a classificação costumeira, com grandes laivos indianistas, é porque essa era a corrente do momento e também porque se lhe deparou, quando nos sertões goianos, um tema sobre muito próprio para impressionar a imaginação, extremamente favorável à idealização romanesca, consoante o conceito e gosto dela aqui vigentes. As datas da primeira publicação do Guarani em jornal e depois em livro, e da edição do Ermitão, autorizam a admitir a influência daquele na intenção deste. Não há nele, entretanto, influência formal do romance de Alencar, nem dos seus processos, tirante a excessiva sentimentalidade e o desmarcado romanesco, em suma a idealização descomedida, que era o achaque do tempo. Qualquer que seja a qualidade do engenho de Bernardo Guimarães, e como poeta ele é dos bons que tivemos — a verdade é que, sem literariamente ser o que chamamos um espírito original, não é um espírito imitativo e subordinado. Como poeta, não obstante ter vivido no foco da reação ultra-romântica e na intimidade espiritual do seu principal corifeu, ele conserva a sua individualidade distinta por feições que contrastam com as dos companheiros de geração; emoção e expressão mais sóbrias, sentimentalidade menos exuberante, alma e veia menos triste e ainda jovial, apenas algum alarde do ceticismo ou desesperação.
Os seus romances e novelas são todos natural e correntemente contados sem preocupação ou trabalho de escrita, mas também sem a peregrina virtude de a conseguir bela, independentemente deste esforço. Nele, como em Macedo e no geral dos nossos românticos, a espontaneidade não é a literária, e menos a que, sem grande trabalho, dá com a forma justa. Ainda menos é a que, ainda com trabalho, às vezes grande, logra, o que é o sumo da arte, iludir-nos dando-nos a impressão da facilidade. Bernardo Guimarães escreveu mal, quero dizer sem apuro de composição, nem beleza de estilo. O seu é o de todo o mundo que não cuida do que escreve, a sua língua é pobre, a sua adjetivação corriqueira, o seu pensamento trivial. São os defeitos de Macedo e ainda mais de Teixeira e Sousa, mas no escritor mineiro mais sensíveis por virem depois destes e quando a literatura nacional já tinha trinta anos de existência e de produção nunca descontinuada. Com uma justa intuição das exigências da composição literária, faltou aos nossos românticos uma crítica que os esclarecesse delas. A que aqui se começou então a fazer, provinha em linha reta da que tinha em Portugal por órgãos principais as Academias e Arcádias e os censores oficiais, uma crítica de hiperbólicos encômios, de campanudos elogios, em que os juízos tomavam por via de regra a forma de equiparações disparatadas com os autores célebres ou de assimilações antonomásticas não menos estapafúrdias. A crítica ali, aliás, oscilou sempre entre o panegírico e o vitupério, a louvaminha e a diatribe. Com a mesma índole passou ao Brasil, e os que a fizeram aqui, nos nossos primeiros jornais e revistas, como o Patriota, a Minerva, o Guanabara, Niterói, movidos do sentimento presumido patriótico de encarecer os nossos valores intelectuais, ainda lhe exageram aquela tendência atávica. A crê-los, esses nossos começos de literatura nacional seriam um acervo de obras-primas. Não fora essa crítica louvaminheira e puerilmente patriótica que teve Macedo por um gênio literário e cada uma das suas defeituosas produções por um primor, os seus seguidores e discípulos e ele próprio, que viveu mais que bastante para emendar-se, teriam necessariamente nos saído mais perfeitos. Essa crítica continuou para Bernardo Guimarães, havido no seu tempo (e ainda hoje pela opinião bairrista) por um grande romancista e escritor. O público parece aliás não lhe ter endossado o conceito, pois o Ermitão, publicado em 1859, não teve até agora mais que essa edição. E os seus outros romances não passaram igualmente da primeira, ao invés das suas poesias, que já atingiram a quarta, o que prova que o público é mais inteligente do que se nos afigura. É esta a lição da nossa história literária, que a crítica indiscretamente animadora não é só inútil, mas prejudicial. Apenas serve para produzir frutos pecos, desencaminhando atividades porventura melhor empregadas fora da literatura ou acoroçoando vaidades que se tomam por vocações. Sem embargo deste ensino, continua a ser este o conceito da crítica aqui, quando não é a diatribe ou a simples arrogância de indigesta erudição.
Na romântica brasileira, Teixeira e Sousa havia criado o gênero, iniciado o romance de costumes populares rurais ou urbanos, Macedo o continuara, mas romanceando principalmente a vida burguesa da capital, Manoel de Almeida ensaiara-se apenas, mas com engenho superior ao destes, no romance da vida carioca de um quarto de século antes, segundo o conceito tradicional, com evidente propensão e clara inteligência para a análise dos caracteres e sentimentos. Alencar, depois de se haver ensaiado na novela romanesca da vida social, iniciara o romance do "período da conquista" da "luta em que a raça invasora destrói a raça indígena" com o manifesto propósito de reabilitar o índio da má fama que lhe fizeram os cronistas, o que só idealizando-o extravagantemente podia conseguir.125 Este propósito era aliás o mesmo de Magalhães, de Gonçalves Dias de outros indianistas, e o que de alguma sorte o legitimava é que a nação inteira o adotou.
Bernardo Guimarães é o criador do romance sertanejo e regional, sob o seu puro aspecto brasileiro. O meio cujo era, determinou esta tendência da sua romântica. Mas ao contrário do que se devia esperar de escritor tão familiar com o ambiente que lhe fornecia os temas, não se lhe apura nas obras a imagem exata, seja na sua representação objetiva, seja na sua idealização subjetiva. Em toda a obra romântica de Bernardo Guimarães será difícil escolher uma página que possamos citar como pintura ou expressão exemplar do meio sertanejo. Teve ele ambições mais altas que esta pintura de gênero, ensaiou-se também no romance histórico e no de intenções sociais, com o Seminarista, onde versou o caso celibato clerical, com a Escrava Isaura, em que dramatiza cenas da escravidão, com Maurício, em que tenta ressuscitar uma época histórica da vida colonial da sua província. Infelizmente os mesmos defeitos que lhe viciam os romances sertanejos lhe maculam estes, acrescidos da pobreza do seu pensamento e acaso maior insuficiência da sua expressão.
125Como e Porque Sou Romancista, 44 e seg.
Capítulo XIII
A SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA. OS POETAS
AS ÚLTIMAS MANIFESTAÇÕES do Romantismo com os rasgos que deram ao nosso a sua feição particular, nomeadamente o indianismo, a inspiração patriótica e o propósito nacionalista, o espiritualismo filosófico, o sentimentalismo, a religiosidade e a intenção moralizante, alcançam até meados dos anos de 60, com a publicação do Colombo, de Porto Alegre, em 1864. Ainda em antes do seu esgotamento como forma literária, surge uma nova geração de poetas e prosadores, na qual se contam alguns dos nossos principais escritores. Simultaneamente com a primeira geração romântica, mas depois desta bem estreada, isto é, após 1846, coexiste, como já relatamos, o grupo maranhense que por Gonçalves Dias, a sua mais eminente individualidade, se liga ao grupo formado no Rio de Janeiro por aquela geração. Gonçalves Dias estabelece também a transição entre essa e a seguinte. Esta apenas mui parcialmente lhe acompanhará a inspiração indianista. Sofrerá, porém, a influência da sua poética e ainda do seu sentimento poético.
Desde 1853, com as Obras Poéticas de Álvares de Azevedo, seguidas das Trovas de Laurindo Rabelo (1854), das Inspirações do Claustro de Junqueira Freire 91855), das Primaveras de Casimiro de Abreu (1859), revela-se uma nova progênie de poetas. Juntam-se-lhe os prosadores, alguns também poetas, José de Alencar, que estréia em 1857; Macedo, que vinha da primeira, mas como romancista ocupa nesta um grande lugar e como escritor dramático quase totalmente lhe pertence; Manoel de Almeida, porventura a mais promissora e infelizmente malograda esperança da novelística brasileira; Bernardo Guimarães, Agrário de Meneses se menores ou menos importantes.
Como epígonos da primeira geração de iniciadores, continuam-lhe a tradição e o labor, influídos ou não por novas idéias e conceitos literários, Pereira da Silva, Varnhagen, Macedo, Norberto Silva, além de outros somenos, contemporâneos e companheiros seus.
Principalmente distingue esta geração da precedente a sua maior liberdade espiritual, e conseqüente mais largo conceito estético, quer no seu pensamento geral, quer na sua aplicação à literatura. Aquele não é mais o estreme idealismo católico dos primeiros românticos. Ressente-se ao contrário o seu do influxo do ceticismo literário, do "satanismo", para falar com De Maistre, de Byroin, Musset e outros românticos europeus de feição menos religiosa que a do primeiro movimento na Europa e aqui. O Brasil também progredira política, econômica e mentalmente. Ao cabo da primeira metade do século, asseguradas da independência, a monarquia e a ordem, não havia mais motivo e lugar para os ardores patrióticos e as paixões nacionalistas de antes. Na geração literária que surge por esta época, e que será talvez a mais brilhante de toda a nossa literatura, entra a desvanecer-se a miragem do indianismo, que justamente por esse tempo João Lisboa, no seu Jornal de Timon, metia pela primeira vez à bulha. Apesar do grande exemplo e durável sucesso de Gonçalves Dias, e da Confederação do Tamoios, de Magalhães, publicada em 1856, nenhum poeta caiu mais nesse engano, ao menos com a convicção ou sentimento dos seus criadores na nossa literatura. Restaurou-o, ou melhor instaurou-o, no romance José de Alencar, publicando, um ano depois dos Tamoios e no mesmo dos Timbiras, o Guarani.
O pensamento de uma literatura brasileira, que fora expressamente o de Magalhães e seus companheiros, que a obra de Gonçalves Dias principalmente avigorara, o reassumira José de Alencar com mais clara consciência e mais firme propósito de o executar. Pensou servi-lo criando o romance da vida indígena selvagem ou misturada com a vida civilizada dos colonizadores, como no Guarani, ou pura ou quase pura na Iracema e depois, serodiamente, no Ubirajara. Mas não obstante o real talento de escritor que neste propósito pôs, e daquelas duas primeiras obras de mérito verdadeiro com que procurou realizá-lo, ele lhe ficou infecundo. Não conseguiu empecer a decadência do indianismo, nem assentar definitivamente o senso nacionalista da literatura brasileira, como o quisera. Não ficou, entretanto, de todo sem repercussão ou influência. Os próprios portugueses Mendes Leal e Pinheiro Chagas se meteram a fazer com O calabar (1863), Os bandeirantes (1867), A virgem guaraciaba (1868), literatura nacionalista brasileira. O estímulo puramente industrial dessas obras insinua-lhes claramente o malogro. Os jovens poetas que desde 1850, ainda em antes de publicados em livros, vinham versejando, não curam mais de índios nem do que lhes concerne. Não são sequer patriotas no sentido em que o foram Magalhães e os do seu grupo. Nem os preocupa ao menos a formação de uma literatura nacional. O seu brasileirismo de todo estreme dos preconceitos nacionalistas, vem-lhe mais do íntimo e é em suma mais racional. São mais subjetivos, mais pessoais, mais ocupados de si, dos seus amores, das suas paixões, dos seus sofrimentos e dissabores, que de literatura ou de política. É menor neles do que fora nos seus antecessores a influência de Chateaubriand, avoengo do nosso segundo indianismo. Pratica-o também pela mesma época um outro romancista, Bernardo Guimarães, mas pratica-o antes por imitação, sem a espontaneidade e menos o talento de Alencar. E sendo melhor poeta que romancista e tendo poetado copiosamente, jamais poetou do índio.
Os poetas da segunda geração romântica possuíram em grau notável a primeira virtude de quem nos quer comover, a sinceridade. Circunstâncias fortuitas de sua vida fizeram com que todos eles de fato vivessem a sua poesia ou sentissem realmente o que com ela exprimiram. Talvez por isso não são artistas mas poetas, com o mínimo de artifício e o máximo de emoção, em mais de um deles ingênua, conforme convém à boa arte. O que se lhes pode descobrir de nacional, o seu brasileirismo mais íntimo que de mostra, como o era o dos da geração anterior, é já a revelação da nossa alma do povo diferente, como se ela viera formando e afeiçoando em três séculos de vida histórica e em trinta anos de existência autônoma, a expressão inconsciente do seu sentir ou do seu pensar, indefinidos sim, mas já inconfundíveis. Não são brasileiros porque cantem o bronco silvícola destas terras, ou porque celebram-nas a estas. Não rebuscam temas, nem forçam a inspiração ao feitio indígena. Com exceção de Gonçalves Dias, que é mais da primeira geração que desta, nenhum destes poetas é, ainda parcialmente, indianista, ou tem sequer o propósito nacionalista. Protraem-se estas feições apenas nalgum mais medíocre ou em um ou outro prosador, cujo provincianismo sertanejo os sujeitava mais à influência do ambiente nacional, onde mais vivazes eram ainda as tradições da terra brava e do seu primitivo habitador. Tais são José de Alencar, que confessa a influência do sertão brasileiro na germinação do Guarani,126 e Bernardo Guimarães, que diretamente dos nossos sertões meio selvagens recebe mais que a inspiração os assuntos de suas novelas.
Criados e educados já de todo fora da influência mental portuguesa, são os escritores desta geração menos portugueses de pensamento e expressão do que os da primeira. O seu brasileirismo, menos político do que o destes, é mais emotivo, mais de raiz, e por isso mesmo, está mais nos seus defeitos e qualidades de inspiração e de estilo, que nas inferioridades da sua manifestação. Conservando muito do sentimento poético português, do senso da saudade e da nostalgia, da melancolia amorosa que tanto o distingue, e que em Gonçalves Dias, embora ardente e voluptuosa, não atinge ainda a luxúria, o lirismo destes poetas tem já desenganadamente o tom que separa o lirismo brasileiro do português. Nada o prova melhor que a comparação destes poetas com os seus contemporâneos portugueses João de Lemos, Soares de Passos, Mendes Leal, Serpa Pimentel, aos quais pode afirmar-se que ficaram de todo estranhos os nossos.
Afora em alguns poetas da Renascença portuguesa como Camões, o lirismo português não foi jamais casto, antes sempre mais luxurioso que voluptuoso. O lirismo brasileiro, porém, exagera e piora esta feição. Desde a segunda geração romântica — o da primeira pecara mesmo por demasiado continente — entra a ser desenfreadamente erótico, como o de um povo onde o amor nasceu entre raças desiguais e inimigas e portanto entre violências e brutezas de apetites e carnalidades, e um povo onde a fácil e franca mistura de uma gente européia em decadência com raças inferiores e bárbaras devia produzir um mestiço excessivamente sensual, em todas as acepções do termo. A influência particular portuguesa que acaso se descobre nesta geração é a de Garrett. Mas o tom popular que Garrett restituíra à poesia portuguesa e que há na destes poetas, apenas porventura lhes revê o íntimo brasileirismo, feito sob a influência do meio ainda matuto, simples e desartificioso. Nessa influência concorreria a da poesia que andava tradicionalmente na boca das mucamas negras, crioulas, mamelucas e mulatas que haveriam sido as primeiras educadoras desses poetas e suas iniciadoras sentimentais, como o foram de gerações de brasileiros.
A riqueza relativa do seu estro, se o compararmos ao dos românticos da primeira hora, e ainda aos dos nossos poetas que imediatamente lhes sucederam, a naturalidade e viveza da sua expressão, além dos já notados atributos de espontaneidade, sinceridade e candura, sempre raro na poesia da nossa língua, impuseram estes poetas, mais que à admiração, à afeição dos seus patrícios. Efetivamente são porventura os melhores que jamais teve o Brasil, e é incontestável que são ainda hoje os mais estimados da nação, os mais repetidamente publicados, os mais constantemente lidos. E a sua influência, que foi grande, ainda não desapareceu. Queira-o ou não, mais de um poeta atual e não dos somenos, é discípulo dos desta geração. Não obstante o aumento da cultura, o presumido aperfeiçoamento do gosto e o desenvolvimento exagerado do reclamo, nenhum poeta nosso depois deles, com exceção talvez de Castro Alves, que deles aliás procede, teve um número de reimpressões parciais ou totais e de leitores que estes tiveram.
Com os poetas da segunda geração romântica, nomeadamente com Álvares de Azevedo, entra um novo motivo na poesia brasileira, a morte. Cantores da terra, das damas, de magnates, de temas abstratos, da natureza, de indivíduos, do amor, da pátria, de sentimentos personificados e até do sofrimento e da dor, nenhum cantara entretanto a morte, ou a morte, a despeito de ser um dos grandes temas líricos, não fora para nenhum, estímulo de inspiração. Estes poetas são todos tristes. A todos eles contagiou a melancolia de Gonçalves Dias, o primeiro dos nossos poetas com quem andou a idéia da morte.
Além das heranças ancestrais e das influências deprimentes do ambiente e de poetas estrangeiros nimiamente admirados e seguidos, contribuiu para a sua tristeza e desalento a sua fraqueza física congênita ou sobrevinda, atestada pela existência enfermiça e morte prematura de todos eles. O que mais velho morreu, Gonçalves Dias, tinha apenas quarenta e um anos; dos outros nenhum alcançou os quarenta, e os mais deles nem aos trinta chegaram. Álvares de Azevedo finou-se aos vinte. À natureza débil e doentia destes poetas juntaram-se em todos eles circunstâncias pessoais de desacordo com o seu ambiente doméstico ou meio social que lhes agravaram o triste estado d’alma para o qual já os predispunha a sua astenia. Também passara a época dos grandes entusiasmos e vastas esperanças criada pelos sucessos conseqüentes à Independência e ao 7 de abril. A nação entrava na sua existência sossegada e pouco estimulante de quaisquer energias.
I — ÁLVARES DE AZEVEDO
A Lira dos vinte anos e as Poesias diversas, que compunham o primeiro tomo das Obras poéticas de Álvares de Azevedo, eram uma novidade na poesia brasileira, quase igual ao que haviam sido os Suspiros poéticos, de Magalhães, em 1836, e os Primeiros cantos, de Gonçalves Dias, em 1846.
Manoel Antônio Álvares de Azevedo nascera em S. Paulo em 1831. A infância passou-lhe no Rio de Janeiro. De menino revelou grande inteligência e curiosidade mental, estudando e tanto e tão bem que aos dezesseis anos completara com aproveitamento e brilho o curso do Colégio de Pedro II e recebia a carta de bacharel em letras. Mais que assíduo leitor, era um devorador de livros, ainda na idade em que a tal apetite não pode corresponder igual capacidade de assimilação. Em S. Paulo, para onde passou a estudar Direito, distinguiu-se pelo talento com que acaso supria a aplicação e pelo seu precoce engenho poético. A liberdade que lhe outorgava a vida de "acadêmico", numa pequena cidade escolar onde os estudantes tinham graças de estado de que usavam e abusavam, a ausência do constrangimento familiar e as mesmas isenções que lhe conferia o renome de menino prodígio que levara do Rio, influíram-no a viver a vida romântica, realizando as idealizações dos poetas de que se achava saturado, Musset, Byron, Espronceda, George Sand, ou imitando a existência e vezos que lhes atribuía a eles ou tinham as suas criaturas. E pela imaginação ao menos, começou a viver tal vida na qual, com as suas nativas inclinações, entrou muita literatura. Como, porém, o arremedo se lhe fundia perfeitamente com o temperamento e correspondia em suma aos seus mais íntimos instintos poéticos, não resultou em disparate conforme com mais de um tem acontecido. Da combinação das próprias tendências com a imitação literária, criou-se uma vida factícia. Presumiu transplantar para a mesquinha vida de S. Paulo de meados do século passado, costumes e práticas do Romantismo europeu. Quis praticar as façanhas sentimentais dos heróis de Musset e Byron. A candura com que o fez não só o salvou de um ridículo naufrágio, mas até o engrandeceu, criando-lhe a feição que o distinguiria na poesia brasileira e o faria um dos seus dominadores. Daquele seu teor da vida romântica, a expressão literária é a Noite na taverna, composição singular, extravagante, mas acaso na mais vigorosa, colorida e nervosa prosa que aqui se escreveu nesse tempo.
Mostrava-se Álvares de Azevedo poeta pessoal e subjetivo, como não fora talvez nenhum dos nossos antes dele e raros o seriam depois. Impressões da natureza ou de arte não lograva nunca objetivá-las. Transfundiam-se-lhe naturalmente em íntimas sensações, por via de regra dolorosas. É, neste período, o primeiro que quase unicamente canta de amor, que fica alheio à natureza que o cerca ou à nação a que pertence. Só lhe interessa a mulher, "o eterno feminino" de que foi talvez o primeiro a ter aqui o sentimento à maneira goetiana, e que o absorve e alucina. Não é fácil distinguir o que é nele inspiração e sensibilidade poética do que são instintos e impulsos sensuais de moço brasileiro, superexcitado pela tísica que o minava. Eram raros nele os temas objetivos vulgares em Magalhães, Porto Alegre e Gonçalves Dias e menos os temas retóricos ou adequados às amplificações poéticas, tão ao gosto destes, inclusive o último. Quando casualmente os tratava, ou incidentemente lhe acudiam, envolvia-os com o seu sentimentalismo romântico, preocupações femininas ou amorosas, em imagens, pensamentos e sensações. Malsinando dos políticos traidores de seus ideais e que tudo sotopõem aos seus baixos interesses, a imagem de que se socorre é ainda de poeta amoroso:
Almas descridas de um sonhar primeiro
Venderiam o beijo derradeiro
Da virgem que os amou.
Mesmo quando o desespero romântico, a sua sensibilidade doentia o reverte às crenças tradicionais como nos Hinos do profeta, declamação poética muito à moda romântica, se bem mais eloqüente que similares de Magalhães, ainda nesses momentos se lhes insinua na inspiração o eterno feminino, um eterno feminino qual o podia conceber um poeta brasileiro, jovem, sensual e ardoroso. Como aliás nenhum dos poetas da sua geração, Álvares de Azevedo não é um poeta descritivo, um paisagista, conforme mais ou menos serão quase todos os nossos depois dela. Quando, porém, acerta de ter uma inspiração da natureza, à sua emoção mistura-se infalivelmente a mulher e o amor, reagindo sobre a materialidade da impressão e idealizando-a. Vejam Tarde de verão, Tarde de outono, em que ao descritivo inculcado pelo título se substituem puras sensações subjetivas.
Segundo era já consuetudinário na nossa poesia, a sua terra também lhe inspira um canto de amor em que não falta o confronto preferencial com terras estrangeiras:
No italiano céu nem mais suaves
São da noute os amores
Não tem mais fogo os cânticos das aves
Nem tem mais flores!
Onde sentimos reminiscências da Canção do exílio, de Gonçalves Dias. Mas o que lhe aformoseia a terra natal e lha faz amada é ainda a mulher querida que nela vive. Ao descante de sua terra mistura os seus transportes amorosos.
Aos homens doentes e desconsolados pela idéia da morte, máxime se são poetas, acontece recolherem-se em si mesmos e viverem de uma vida interior. Álvares de Azevedo, valetudinário precoce, foi levado a viver essa vida, apesar das alegrias da idade que lhe resumam em mais de um poema faceto ou humorístico. Alegrias e tristezas chocam-se-lhe na alma jovem, ardente e ambiciosa, produzindo a ironia por vezes amarga de alguns dos seus poemas (O poema do Frade, Um cadáver de poeta, Idéias íntimas, Boêmios, Spleen e charutos) os gritos de descrença e desesperança desses e de outros e de prosas como a Noite na taverna. Dessa ironia é ele o único exemplar na nossa poesia, como seria o instituidor nela dessa desesperação e descrença. De tal estado d’alma lhe veio, com o nímio subjetivismo, o sentimento ora acerbo, ora zombeteiro, da vida, e a carência ou a pobreza de impressões da natureza ou da sociedade na sua poesia. Destas últimas apenas se lhe achará um exemplo claro no único poema objetivo que deixou, Pedro Ivo, aliás um dos mais admiráveis da nossa poesia, dos raros em que o motivo político ou social da inspiração não sufoca ou amesquinha os elementos propriamente poéticos, antes lhes serve excelentemente à expressão. É que no poema de Álvares de Azevedo predominou o mesmo objeto da sua inspiração, a sua íntima emoção mais de poeta que de repúblico.
Entre estes poetas foi Álvares de Azevedo um dos espíritos literariamente mais cultos. Conheceu as obras-primas das melhores literaturas na sua língua original, e tinha boa lição das letras-mães da nossa. Havia atilamento e bom gosto no seu espírito crítico, apenas iludido pelo seu entusiasmo juvenil. Conhecia e amava os portugueses, e foi um dos que sofreu a influência de Garrett, a quem tinha alta e merecida estima. Do influxo do lirismo e da forma garretiana há talvez sinais em seus poemas Ai Jesus!, o poeta, amor e poucos mais. É porém uma influência toda lateral, digamos assim, em que o poeta brasileiro, ainda sofrendo-a, conserva a sua personalidade. Nem ela obrou então aqui com a mesma generalidade ou força, com que atuava a literatura portuguesa antes do Romantismo.
A idéia da morte é uma obsessão em Álvares de Azevedo. Direta ou indiretamente, intencional ou inconscientemente, aparece ou insinua-se-lhe nos versos como a que, com a do amor, lhe é mais familiar. Lembranças de morrer, um dos seus mais belos poemas, como Se eu morresse amanhã, de igual sentimento e beleza, não são mais que manifestações explícitas da íntima angústia de sua alma de que, como verdadeiro poeta, ele fez deliciosas canções. E apenas haverá algumas das suas que a não reveja.
II — LAURINDO RABELO
Laurindo José da Silva Rabelo, fluminense ou antes carioca, viveu de 8 de junho de 1826 a 28 de setembro de 1864. Menos a educação e a cultura, que, não obstante a sua formatura em Medicina, parece não terem sido apuradas, havia nele feições de Álvares de Azevedo. Foi igualmente, talvez desde a puberdade, doente e fraco. De origem e condição humilde, mulato de raça, a consciência da sua situação, sem a força de caráter necessária para a contrastar, amargurou-lhe desde cedo a existência que levou à boêmia, obrigado da necessidade, se não também pelo natural relaxamento a angariar amizades e proteções da benevolência social, ornando e animando partidas e festas com o seu estro e as suas facécias, improvisos, glosas, poesias recitadas ou cantadas à viola, como um aedo ou trovador primitivo, e mais os ditos que se lhe atribuem. Foi, como nenhum outro, o poeta popular, mais conhecido em seu tempo pela alcunha de Poeta lagartixa, tirada de seu corpo escanifrado, que pelo seu nome. Não o roçou a descrença romântica, como a Álvares de Azevedo e a Junqueira Freire. Não lhe fugiu, ou sequer se lhe desvaneceu notavelmente a ingênua crença doméstica, conservada, como é tão comum, por hábito, e nele, poeta de nascença, por necessidade sentimental. A desventura, o sofrimento, aumentou-lhe, porém, a tristeza dos da sua geração e exacerbou-lhe a sensibilidade, e como àqueles criou-lhe a angústia da morte, que atormentava o poeta da Lira dos vinte anos, afligia a Junqueira Freire, a Casimiro de Abreu e a outros da mesma família literária. Do Rio Grande do Sul, aonde o levara o seu emprego de médico do exército, escrevia nos formosos tercetos endereçados ao seu amigo Paula Brito, o bondoso e ingênuo mecenas, tão mesquinho como os poetas que patrocinava:
Tenho n’alma um cruel pressentimento
(Talvez não mui remota profecia
Que não posso apagar do pensamento!)
Espero cedo o meu extremo dia
E a morte, da pátria tão distante,
É quadro que me abate de agonia!
Das humilhações que ao seu talento e brio impunha a sua mofina condição, defendia-se com o orgulho com que se lhe fingia indiferente, mas que às vezes lhe irrompiam ou em gestos desabridos ou em gritos poéticos verdadeiramente dolorosos e comoventes, porque vindos d’alma. Tais são: Meu segredo, Minha vida, A linguagem dos tristes, Não posso mais, Último canto do cisne:
Eu me finjo ante vós, porque venero
O sublime das lágrimas; conheço-as
São modestas vestais, vivem no ermo
Aborrecem festins.............................
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Bem fechadas no claustro de meus olhos
Dentro em meu coração hei de contê-las
Guardá-las bem de vós, contentes, hei de
Porque a dor me não traia neste empenho
Zelosa e vigilante sentinela
Em meus lábios trazer constante um riso.
Pungia-o esse tão comum mal secreto, de que um dos nossos poetas devia, duas gerações depois, dizer num soneto modelar. Serviu-lhe grandemente o estro esse mal. Na sua desgraça, de que a sua índole de boêmio e a sua doentia sensibilidade de poeta fizera um real sofrimento, achou motivos de inspiração cuja sinceridade se traduz numa forma comovida e tocante, se não excelente. Esta mesma lucrou da sua existência de poeta popular a simplicidade do sentimento e a singeleza da expressão que lhe dão à poesia um cunho particular e não raro delicioso. O título de Trovas que lhe pôs calha admiravelmente aos seus poemas em que a espontaneidade da inspiração e a ingenuidade do sentimento se não embaraçam de dificuldades e caprichos de expressão. Laurindo Rabelo é um poeta no sentido profundo que o povo dá a este nome. Também nenhum outro dos nossos teve a alma tão perto do povo.
III — JUNQUEIRA FREIRE
Luís José Junqueira Freire nasceu na Bahia em 1832 e ali mesmo faleceu, sem nunca ter saído da terra natal, em 1855. Os seus estudos exclusivamente literários, fizera-os com pouco sistema nas aulas primárias e avulsas secundárias da sua terra e em seguida no Liceu Provincial. Completou-os ou os aperfeiçoou depois com a leitura copiosa e variada, principalmente dos poetas latinos e modernos. As suas tentativas críticas não lhe desmerecem essa capacidade e são escritas numa língua em que porventura havia um bom embrião de prosador.
Uma temporã paixão amorosa mal-aventurada levou Junqueira Freire, por desespero romântico, a fazer-se frade. Não tinha nenhuma vocação ou sequer vivo sentimento religioso. Ao revés, dos fragmentos autobiográficos dele restantes verifica-se que era antes um espírito crítico, já meio desabusado, que metia à bulha devoções e crendices acatadas pela Igreja. Ao desespero amoroso a que a vida monástica não dera remédio, ajuntou-se lhe logo o desespero da vida, para a qual não nascera, e com ele a revolta contra o seu estado de frade e até contra o estado monástico em geral. Foram os dois sentimentos conjugados que o fizeram poeta e lhe deram a originalidade de ser na nossa literatura, senão também em toda a poesia da nossa língua, o único francamente rebelde a uma das feições mais particulares do catolicismo, e que de o ser tirou inspiração. Ao livro de seus primeiros poemas publicados na Bahia em 1855, pouco antes de sua morte, chamou de Inspirações do claustro. O título é impróprio, pois faz erroneamente supor que lhos inspirou a religião do claustro, quando motivaram-nos o desespero e a revolta contra ele. Sob a estamenha do monge continuou a palpitar o seu coração enamorado, e no claustro mesmo o seu amor, numa ardência de desejos insatisfeitos e agora irrealizáveis sem crime, irrompia em poemas que, no seu estado, frisavam ao sacrilégio. Dessa coleção justamente os poemas mais fracos são os de inspiração presumida de religiosa, O apóstolo entre as gentes, A flor murcha do altar, O incenso do altar, Os claustros e quejandos, em que idéia, emoção, estilo são de lamentável frouxidão. A todos falta a unção que só dá menos uma fé confessada que um íntimo sentimento religioso. Nenhum parece vindo tão do fundo d’alma como as suas imprecações de frade desiludido ou os seus lamentos de amoroso desesperado. A mesma observação cabe aos seus poemas intencionalmente brasileiros. Destes poetas é Junqueira Freire o único a ainda sacrificar ao indianismo e a propósitos patrióticos, embora escassamente e sem convicção nem entusiasmo. Ressentem-se destas falhas os seus poemas (O hino da cabocla, Dertinoa) dessa inspiração, que estão em tudo e por tudo bem longe do modelo evidentemente mirado, Gonçalves Dias, com quem Junqueira Freire teve relações pessoais e a quem dedicou um dos seus poemas. Não aprendeu, aliás, dele a ciência do verso branco, que ao seu falta harmonia e relevo. Os melhores versos de Junqueira Freire são talvez os de contextura popular, sem preocupações de métrica. Afetava demasiado o verso de onze sílabas, geralmente desagradável pelo seu soar agalopado.