História da Literatura Brasileira (José Veríssimo) - Página 12

História da Literatura Brasileira

José Veríssimo

Punge-o também a idéia da morte, como era natural de uma alma de raiz romântica, afligida pelo ódio da sua profissão monástica, pelo desespero de um mal-aventurado amor e ainda pela miséria de um organismo doentio. Entrevê-se-lhe aquela idéia em vários passos dos seus poemas, e claramente e numa bela frase poética mostra-se no intitulado Morte:

Pensamento gentil de paz eterna

Amiga morte, vem.

Punge-o porém, sem a expressão angustiosa de Álvares de Azevedo ou Casimiro de Abreu, se não mais conformada e serena. Os seus poemas característicos, a manifestações mais significativas do seu sentimento e estro e do seu feitio poético, são Meu filho no claustro, A órfã na costura, Frei Bastos, A profissão de Frei Ramos, A freira, Ela, Saudade, Desejo, Morte, Temor. Estes sobretudo lhe dão a feição que o distingue no grupo da segunda geração romântica. Nenhum deles tem a perfeição relativa que se pode exigir de quem poetava em época em que se não era tão pontilhoso nas exigências da forma poética, mas reunidos desenham uma não vulgar fisionomia de poeta.

IV — CASIMIRO DE ABREU

Tem-na também própria e notável Casimiro de Abreu. Poetando desde 1855, havendo mesmo publicado em Portugal desde 1856, na Ilustração Luso-Brasileira, alguns poemas, só em 1859 deu à luz as suas Primaveras, porventura o mais lido dos nossos livros de versos.

Casimiro José Marques de Abreu era natural da Barra de São João, na província do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1837 e morreu em 1860. Seu pai, português como o de Gonçalves Dias, como esse o destinava ao comércio. Menos tratável, porém, que aquele, quis obrigar o filho a ficar numa profissão a que este era de todo avesso.

Dos poetas da sua geração é Casimiro de Abreu, talvez mais que outro qualquer, o poeta do amor e da saudade. Os dois sentimentos são a alma da sua poesia. Este pobre rapaz fraco e enfermiço nascera poeta, com a sensação viva, dolorosa do que o grande poeta latino chamara as lágrimas das cousas, cujo mortal encanto lhe penetrou cedo a alma melancólica. O drama íntimo da sua vida, o desconhecimento do seu talento, a contrariedade oposta à sua vocação e, acaso, as imperfeições do lar paterno, tudo teria sido exagerado até ao trágico pela sua sensibilidade doentia. É grande a mágoa que de tudo lhe vem; grande, real e sincera. Da sua vida amorosa nada de certo sabemos. Os seus biógrafos, mesmo aqueles que mais intimamente, parece, o conheceram e trataram, como Reinaldo Montoro e Teixeira de Melo, divagam e amplificam, segundo tem sido aqui o mau vezo dos biógrafos, em vez de lhe investigarem a vida e de a contarem sem impertinentes recatos.127 Nos seus versos, porém, há a impressão pungente de um amor infeliz que lhe deixou a alma malferida e para sempre dolorosa. O afastamento, a ausência da terra natal, o exílio, como, imitando a Gonçalves Dias, lhe chamou, completaria a exacerbação da sua sensibilidade orgânica e lhe daria ao estro o tom nostálgico que, sem igualar a simplicidade genial do seu inspirador, não lhe ficará somenos em emoção.

É sob a influência da nostalgia e do amor, ambos de fato nele uma doença, que se põe a cantar o Brasil. Mas o Brasil, que canta em seus sentidos versos, a pátria por quem chora e que celebra, é principalmente a terra em que lhe ficaram as cousas amadas e mormente a desconhecida a quem dedicou o seu livro e que, segundo a meia confidência de um daqueles biógrafos, teria encontrado morta quando voltou à terra natal. A saudade desta com os encantos que a saudade empresta aos seus motivos é que o faz patriota, se mesmo com esta restrição se lhe pode aplicar o epíteto, que não vai aqui como elogio. A sua nostalgia é sobretudo o amor, não só à mulher querida, mas a quanto este amoroso amava, o torrão natal, a casa paterna, a vida campestre, que para as almas sensíveis como a sua se enche de prestígio ignorados do vulgo.

Lá de longe cantou a sua terra, os sítios da sua infância, as suas recordações de toda a ordem, avivadas pela saudade, com sentida e comovedora emoção. As penas de amor e de saudade fizeram-no o poeta que foi. Toda a sua curta vida, ainda depois de restituído à sua terra, uma saudade incerta, uma indefinida nostalgia ficar-lhe-ia na alma como um ferrete daquelas penas. E o nosso povo, que do português herdou o senso desses dois sentimentos, em a nossa raça irmanados na mesma emoção, achou porventura em Casimiro de Abreu o mais fiel intérprete das suas próprias comoções elementares, primárias, do amor do torrão e da mulher querida. Pelo que é Casimiro de Abreu o poeta brasileiro que o nosso povo mais entende e a quem mais quer. Ama-o, recita-o, canta-o, fazendo-o um poeta popular, em certos meios quase anônimo. Comprova este asserto o fato de ser Casimiro de Abreu, de todos os nossos poetas, excetuando Gonzaga, certamente o que tem sido mais vezes reimpresso, total ou parcialmente. As suas Primaveras têm, pelo menos, oito edições.

Voltando doente e abatido à terra natal, a vista daquelas cousas tão choradas no exílio põe-lhe na alma dolente acentos raros atingidos pela nossa poesia. E dele se haviam de inspirar Luís Guimarães Júnior, Lúcio de Mendonça e outros que cantaram iguais estados d’alma:

Eis meu lar, minha casa, meus amores,

A terra onde nasci, meu teto amigo,

A gruta, a sombra, a solidão, o rio

Onde o amor me nasceu, cresceu comigo.

Os mesmos campos que eu deixei criança,

Árvores novas, tanta flor no prado!...

Oh! como és linda, minha terra d’alma,

—Noiva enfeitada para o seu noivado.

Foi aqui, foi ali, além... mais longe,

Que eu sentei-me a chorar no fim do dia,

—Lá vejo o atalho que vai dar na várzea...

Lá o barranco por onde eu subia!...

Acho agora mais seca a cachoeira

Onde banhei meu infantil cansaço,

—Como está velho o laranjal tamanho

Onde eu caçava o sanhaçu a laço!...

Como eu me lembro dos meus dias puros!

Nada me esquece!... Esquecer quem há de?

—Cada pedra que eu palpo ou tronco ou folha

Fala-me ainda dessa doce idade.

E a casa?... as salas, estes móveis, tudo,

O crucifixo pendurado ao muro...

O quarto do oratório, a sala grande

Onde eu temia penetrar no escuro!...

É da melhor, da mais alta, da mais profunda poesia. Como poeta do amor, não é demais dizer que Casimiro de Abreu deu à nossa língua, tão rica sob este aspecto, algum dos seus mais comovidos senão mais formosos cantos. A uns destes os prejudicou, no conceito da geração imediata ao poeta, a mesma popularidade que os vulgarizou nos recitativos de salão, como foram de moda. Não obsta que poemas como Amor e medo e Minha alma é triste sejam, sem encarecimento, apesar da sua toada que nos é hoje menos agradável, dos mais belos da nossa poesia.

Com incorreções de forma poética, a que somos depois do parnasianismo demasiadamente sensíveis, têm eles em alto grau, sentimento, idealização, emoção da melhor espécie poética, e até, em mais de um passo, peregrinas excelências de expressão. Há em Amor e medo notadamente um ardor de volúpia ao mesmo tempo contida e exuberante, que lhe realça sobremodo a beleza, e formosuras de sensação e de expressão que não teriam o direito de desdenhar os mais reputados sequazes de Baudelaire. É forte a sua tradução das tentações amorosas da carne, como o diriam estes poetas, e, mais, de todo nova na nossa poesia, senão também na da língua portuguesa:

Ai! Se eu te visse no calor da sesta,

A mão tremente no calor das tuas,

Amarrotado o teu vestido branco,

Solto o cabelo nas espáduas nuas...

Ai! Se eu te visse, Madalena pura,

Sobre o veludo reclinada a meio,

Olhos cerrados na volúpia doce,

Os braços frouxos, palpitante o seio!...

Ai! Se eu te visse em languidez sublime,

Na face as rosas virginais do pejo,

Trêmula a fala, a protestar baixinho,

Vermelha a boca soluçando um beijo!...

Desprezados, como necessariamente sucederá dentro em pouco, os preconceitos que a vulgarização de tais versos contra eles criou, eles nos aparecerão em toda a sua novidade e beleza de sensação e expressão. Ver-se-a o seu realismo de idéias e estilo, nem sequer suspeitado então como fórmula ou processo de escola, do mesmo passo que se lhes sentirá o ardor e a intensidade que desafia quanto a paixão à cola daquele poeta francês e dos seus discípulos pôs nos versos dos nossos ulteriores poetas. Em que lhes pese ao estúpido desdém pelo verdadeiro e notável poeta que é Casimiro de Abreu, facilmente se verifica que eles lhe sofreram a influência e freqüentemente o imitaram, raro o igualando e nunca o excedendo na realidade da emoção nem no sublime da expressão. Pela profundeza e sinceridade do seu sentimento poético, tem ele mais razão de viver do que estes; já vive de fato mais do que eles viverão, e o futuro, não duvido vaticinar, o desforrará cabalmente dos seus tolos desdéns.

Tristeza ingênita, melancolia amorosa, acerba nostalgia, angustioso sofrimento de uma alma rica de ingênuas e ardentes aspirações de glória e de amor, tudo deu a este delicioso poeta a feição dolorosa que ainda no meio dos poetas dolentes da sua geração o distingue. Tinha também, como os outros, o pressentimento da morte prematura. Mais de um poema seu o declara ou o revê.

A um amigo recém-morto dizia:

Dorme tranqüilo à sombra do cipreste...

—Não tarda a minha vez;

Com efeito, dois anos depois, finava-se com vinte e três de idade, na sua fazenda ou sítio de Indaiaçu, no torrão natal, às cinco horas e vinte e cinco minutos da tarde do dia 18 de outubro de 1860.128

V — POETAS MENORES

Tais são estes poetas, os principais da geração que, estreando pelos anos de 1850, viveu literariamente até o fim da seguinte década e ainda além. Afora estes, poetaram, por esse tempo, com ou sem livros publicados, Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889), José Bonifácio de Andrada e Silva (1827-1886), Aureliano José Lessa (1828-1861), Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1827-1884), José Alexandre Teixeira de Melo (1833-1907), José Joaquim Cândido de Macedo Júnior (1842-1860) e outros de menor merecimento e reputação.

Francisco Otaviano e José Bonifácio, chamado o Moço, para distingui-lo do seu tio do mesmo nome, o patriarca da Independência, foram dous brilhantes poetas amadores, dous insignes diletantes da poesia, e também, dous brilhantes espíritos, porventura dous talentos de primeira ordem. Mas a sua vocação, se a vocação não é "senão a incapacidade de falharmos às inclinações naturais do nosso espírito", não eram as letras ou ao menos as letras praticadas com a assiduidade de uma profissão. Com encantador e não vulgar estro poético, ambos, apenas esporádica e ocasionalmente, poetaram. Esse dom, o exerceram antes como uma prenda de sociedade, mais uma distinção a juntar às muitas que possuíam como políticos, jornalistas, parlamentares, juristas, do que por necessidade do seu temperamento literário. José Bonifácio, cuja obra poética esparsa contém algumas obras-primas (O redivivo, Um pé, Primus inter pares, A margem da corrente), publicou apenas, ainda em antes que começasse esta geração, com a qual principalmente cantou, um pequeno folheto de versos Rosas e goivos, em 1848.129 Francisco Otaviano versificou copiosa e elegantemente em jornais, revistas e álbuns mulheris, fez primorosas traduções de Byron, deixou admiráveis versos proverbiais, mas ao cabo nenhum volume por onde possamos cabalmente apreciá-lo. Nem um, nem outro tiveram na nossa poesia a importância a que os seus talentos lhes dariam direito incontestável e até os obrigavam; ambos, porém, exerceram nela, ao menos no círculo dos poetas que puderam conhecê-los e a sua dispersa produção, inegável influência. São antes dous grandes nomes literários, algo lendários, que dous escritos notáveis.

Está exatamente nas mesmas condições Pedro Luís Pereira de Souza (1839-1884). Também ele foi um poeta brilhante, o precursor da inspiração política e social e do que depois se chamou condoreirismo, na nossa poesia, político de relevo, jornalista, conversador agradabilíssimo, segundo quantos o trataram, e homem do mundo de rara sedução. Deixou meia dúzia de poemas, os melhores no tom épico (Os voluntários da morte, Terribilis Dea) que todo o Brasil conheceu, recitou e admirou. Mas a sua obra dispersa de mero diletante, se lhe criou um nome meio lendário como o de José Bonifácio e Francisco Otaviano, não basta a assegurar-lhe um posto de primeira ordem na nossa poesia.

Sem lhes ter a fama, valem acaso mais para a história da nossa literatura Teixeira de Melo, Aureliano Lessa e principalmente Bernardo Guimarães. Teixeira de Melo, cujas Sombras e sonhos precederam as Primaveras de Casimiro de Abreu, e que era um quase conterrâneo do poeta da alma triste, era também, como ele, de seu natural melancólico. A sua tristeza nativa e o seu estro sofreram a influência de Gonçalves Dias, mas por sua vez o seu lirismo não deixou de influir no de Casimiro de Abreu, em que se encontram imagens e expressões de poemas das Sombras e sonhos, e que epigrafou com versos destes poemas as suas Primaveras. Mas Teixeira de Melo, com desenganados queixumes métricos da vida, cedo abandonou a poesia e burocraticamente, fazendo bibliografia e erudição, viveu septuagenário. Como poeta, além de ser um legítimo e estimável representante da poética da sua geração, foi um dos mais corretos versificadores dela, devendo-lhe a arte do verso aqui as melhorias de um alexandrino mais perfeito do que antes dele se fizera e de nas estrofes de quatro versos rimá-los sempre alternadamente, o que antes só excepcionalmente se fazia.

Aureliano Lessa, ligeiramente mais objetivo que Álvares de Azevedo, e de um sentimento menos profundo que qualquer dos poetas desta geração, nem assim lhe escapa aos estigmas característicos. Ao contrário, pertence-lhe por todas as feições da sua poesia, sem que tenha nenhuma que particularmente o distinga. Destes poetas secundários desta progênie, o maior, pela sua mais distinta fisionomia, pela cópia da sua produção e ainda pelos quilates destas, é, sem dúvida, Bernardo Guimarães. Este, aliás, pertence-lhe antes cronológica que literariamente, antes por ser do mesmo tempo, ter vivido a vida de alguns deles, poetado conjuntamente com eles, do que por paridade de sentimento ou estro com eles. Não há nos seus poemas — e a sua produção foi uma das mais copiosas do tempo — nem o excessivo subjetivismo, nem o mórbido sentimentalismo, nem a tristeza e dolência dos seus companheiros de geração, e menos ainda a sua ardente voluptuosidade. É mesmo o único deles que não é triste ou que sabe disfarçar a tristeza e mágoa, que às vezes declara galhofando dos seus mesmos pesares ou expondo-os mais a sorrir que a chorar, como preferiam fazer aqueles. É em todo o nosso romantismo o único poeta alegre, o que versejou de cousas alegres e com inspiração e intenção jovial. E versejou geralmente bem, se não com mais arte, com arte diferente da dos seus companheiros e mais variada inspiração. É ele quem reintegra o descritivo na poesia desta geração, que dela o tinha quase abolido. O seu temperamento poético, principalmente considerado em relação à época em que poetou (1858-1864), é mais clássico ou antes mais arcádico, que romântico; não há ao menos nas suas manifestações as exuberâncias e menos os excessos de emoção do Romantismo. Mas também não há o melhor da sua sensibilidade. Bernardo Guimarães teve em seu tempo, e não sei se continuará a ter, mais nome como romancista que como poeta. Não me parece de todo acertado este modo de ver.


Capítulo XIV

OS ÚLTIMOS ROMÂNTICOS

I — PROSADORES

ANACRÔNICO E AMANEIRADO procrastinava-se o Romantismo, conservando os seus traços distintivos; a intenção nacionalista, realizada no poema ou no romance, já indianista, já do pitoresco patrício da paisagem ou da vida, e a sentimentalidade idealista. Afora os românticos da primeira hora, que se sobreviviam a si mesmos — e eram quase todos porque esta geração, ao invés da segunda, viveu velha, — havia os que, aparecendo quando já se acabava o alento literário que a criara, ainda lhe sofreram a influência ou cediam também ao prestígio daqueles fundadores. Os mesmos que se desviam de Alencar, a principal figura literária do tempo, o reconhecido chefe da literatura nacional, até os que o negam (aliás poucos) não contestam ou sequer duvidam a legitimidade do propósito nacionalista. É que este revia o íntimo sentimento a que, com a sua ordinária propriedade de expressão, Machado de Assis chamaria de "instinto de nacionalidade". Presume esta História haver cabalmente verificado o desabrochar desse instinto desde ainda mal iniciada a formação do nosso povo, bem como o seu constante desenvolvimento a par com o deste. A espontaneidade do fenômeno não prova, entretanto, que não assentasse em um errado conceito do nacionalismo na literatura. Desde 1873, no artigo de que acabo de citar uma feliz expressão, Machado de Assis oferecia a primeira contrariedade, que me conste, à opinião ao seu parecer errônea, que só nas obras consoantes aquele propósito reconhecia espírito nacional e conceituosamente escrevia "não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabelecemos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trata de assuntos remotos no tempo e no espaço".130 Este programa devia ele cumpri-lo com peregrina distinção, despreocupadamente.

Iniciava-se, porém, a reação contrária ao Romantismo, sob o seu aspecto de nacionalismo exclusivista. Após largos anos de paz, de tranqüilidade interna, de remansosa vida pacata sob um regime liberal e bonachão, apenas abalada por mesquinhas brigas partidárias que não logravam perturbá-la, rebentou a guerra do Paraguai, que durante os últimos cinco anos do decênio de 60 devia alvoroçar o país. Pela primeira vez depois da Independência (pois a guerra do Prata de 1851 mal durou um ano e não chegou a interessar a nação) sentiu o povo brasileiro praticamente a responsabilidade que aos seus membros impõem estas coletividades chamadas nações. Ele, que até então vivia segregado nas suas províncias, ignorando-se mutuamente, encontra-se agora fora das estreitas preocupações bairristas do campanário, num campo propício para estreitar a confraternidade de um povo, o campo de batalha. De província a província trocam-se idéias e sentimentos; prolongam-se após a guerra as relações de acampamento. Houve enfim uma vasta comunicação interprovincial do Norte para o Sul, um intercâmbio nacional de emoções, cujos efeitos se fariam forçosamente sentir na mentalidade nacional. A mocidade das escolas, cujos catedráticos se faziam soldados e marchavam para a guerra, alvoroçou-se com o entusiasmo próprio da idade. Os que não deixavam o livro pela espada, bombardeavam o inimigo longínquo com estrofes inflamadas e discursos tonitruantes, excitando o férvido entusiasmo das massas. O amor, a morte, o desgosto da vida, os queixumes melancólicos, remanescentes do Romantismo, cederam lugar a novos motivos de inspiração. Por outro lado, acontecimentos exteriores que tinham aqui grande repercussão, as lutas do liberalismo francês contra o Segundo Império napoleônico, lutas em que a poesia e a literatura tomavam tão grande parte, a implantação de uma monarquia européia na América, a revolução republicana na Espanha e o fenômeno de um grande poeta, Victor Hugo, contrapondo-se em toda a grandeza do seu gênio e da sua cólera republicana ao Império e desafiando-o em face do mundo atônito, comoviam também a mente nacional. Impressões de todos esses sucessos há na poesia do tempo. Poetas e ainda prosadores eram por eles solicitados em outras direções que o estreme subjetivismo romântico. Debuxou-se então a reação anti-romântica. Iniciava-se, porém, sem alvoroto, nem decisão como que a medo. Ainda vencedora, não o suplantara de todo na radicada opinião de que o assunto brasileiro primasse em a nossa literatura e até em quaisquer lucubrações nossas. Salvo o que o cumprimento deste preceito pudesse ter de excessivo, não era ele inteiramente desarrazoado. A função faz o órgão. A aplicação constante dos nossos sentimentos nacionais na idealização literária ou noutro labor intelectual a assuntos brasileiros devia em rigor acabar por criar e desenvolver em nós aquele instinto. A história da nossa literatura prova, aliás, que assim sucedeu.

Já começada a reação, menos contra esse instinto legítimo e necessário que contra o conceito abusivo da sua aplicação, apareceu nas nossas letras um escritor que, sem embargo da sua procedência francesa e ser de raça um puro europeu, o possui como poucos brasileiros da nossa formação tradicional, o visconde de Taunay. Em 1872, Machado de Assis, que viria a suceder a Alencar no principado das nossas letras, estreava no romance com um livro a todos os respeitos novo aqui, Ressurreição. No mesmo ano publicou Taunay a Inocência, formoso exemplar do "romance brasileiro" segundo a fórmula aceita. Um ano antes estreara com a Mocidade de Trajano. Apesar da antipatia posteriormente manifestada pelo autor, na sua obra crítica, às novas correntes que começavam a arrastar para fora do Romantismo a ficção francesa, figurino sempre canhestramente copiado da nossa, sente-se-lhe todavia o influxo em ambos os romances.

Alfredo d’Escragnolle Taunay, visconde de Taunay, nasceu no Rio de Janeiro em 22 de fevereiro de 1843 e nesta cidade faleceu em 1899. Engenheiro militar e oficial de exército, fez a campanha do Paraguai e exerceu várias comissões técnicas. Professou também letras e ciências naturais na Escola Militar e, como Alencar, foi homem político, deputado geral, presidente de província e senador do Império. Teve talentos e aptidões variadas, era pintor e músico, e possuía, com boa educação liberal, prendas de homem do mundo. Foi um dos escritores mais versáteis e fecundos do seu tempo, mesmo o foi talvez com desleixada facilidade, acaso com menosprezo da sua situação literária. Aludo a livros como o Encilhamento ou Como e porque me tornei kneipista e que tais escritos seus. Esta falha, porém, revia a sua esquisita bonomia e o ingênuo ardor de propagandista que nele houve sempre e se manifestou nas suas campanhas de imprensa e de tribuna por questões públicas tomadas calorosamente a peito. Não é ocioso recordá-lo, pois mostra a feição prática do gênio de Taunay, feição que não foi estranha à sua fórmula literária.

À sua obra, considerada pela cópia e ainda pela qualidade, faltou coesão e intensidade que lhe dessem mais solidez e distinção. E como quer que seja dispersiva, feita com facilidade que roça pelo banal e inconseqüente. Além da propriamente literária, romance, crítica, teatro, compreende viagens e explorações de engenheiro, relatórios técnicos, relações de guerra, estudos etnográficos, escritos políticos e sociais, questões públicas, biografias, história e peças musicais. Dois livros destacam-se de toda ela, que lhe asseguraram em vida nomeada de bons quilates e lhe dão um lugar na nossa literatura: a narrativa, feita com grande talento literário, de um episódio da guerra do Paraguai, a Retirada da laguna e o romance de costumes sertanejos Inocência, já referido.

Taunay, a quem tive a ventura de conhecer de perto, não obstante a sua dupla origem estrangeira, era um genuíno brasileiro de índole e sentimento. Não lhe faltavam sequer sinais das nossas peculiaridades, o que lhe completava a caracterização nacional. A sua literatura de inspiração, sentimento e intenção brasileira é a expressão sincera desta sua feição. O seu europeísmo ainda muito próximo, apenas lhe transparece no ardor com que, apesar de conservador de partido, se empenhou por idéias liberais que a seu ver deviam atrair e facilitar a imigração européia, da qual foi ardoroso propugnador. Sob o pseudônimo, logo descoberto, de Sílvio Dinarte, estreou na literatura com o já citado romance A mocidade de Trajano, em 1871. Quer neste, quer em Inocência, que se lhe seguiu de perto, atenua-se a sentimentalidade excessiva e o romanesco do romance em voga. Paisagens e costumes são descritos com mais senso da realidade e mais sobriedade e exatidão de traços. E não somente a sua representação interessa ao autor, senão também aspectos políticos, sociais e morais, que ressaiam da ação, das personagens ou dos usos. Não se libertara ainda da preocupação doutrinal dos seus antecessores, tinha-a, porém, com mais largueza espiritual e mais desenvoltura de expressão. Em A Mocidade de Trajano havia manifestações de livre-pensamento e sátira quer aos nossos costumes políticos, quer a práticas devotas, desusadas na nossa ficção.

Tinha feitio diferente de tudo o que no gênero aqui se publicara, a Inocência. Romance feito de impressões diretas de paisagens, cenas, tipos e fatos gerais, apenas idealizados por uma recordação que devia de ser saudosa, havia neste, com uma representação esteticamente verdadeira, ao mesmo tempo singela e forte, do sertão e da vida sertaneja no Brasil central, um sincero sentimento, uma simpatia real, sem excesso de sensibilidade, do seu objeto. Não obstante desfalecimentos de estilo, havia mais nele o mérito da novidade. Estavam em voga os romances de Alencar, Macedo e Bernardo Guimarães. O primeiro era nimiamente romanesco e idealista, feições que ao tempo as suas reais qualidades de escritor não bastavam para atenuar. Macedo, mestre de que aliás Taunay se confessava discípulo, sobre romanesco, de língua desleixada e estilo frouxo, pode dizer-se que não tinha propriamente feitio literário. Bernardo Guimarães, com qualidades artísticas inferiores, como Macedo, era como Alencar, mas sem o seu talento, um romântico idealista piorado pelo romanesco sentimental. Sem falar em Manoel de Almeida, cujo único romance não teve repercussão, é Taunay quem na Inocência, talvez sem propósito, levado apenas dos instintos práticos do seu gênio e nativo realismo do seu temperamento, e ainda pelo que chamarei o seu materialismo literário, escreve o primeiro romance realista, no exato sentido do vocábulo, da vida brasileira num dos seus aspectos mais curiosos, um romance ressumando a realidade, quase sem esforço de imaginação, nem literatura, mas que a emoção humana da tragédia rústica, de uma simplicidade clássica, idealiza nobremente. Precedera-o de três anos o Casamento no arrabalde, de Franklin Távora, de idêntica feição. Sobre não ter a intensidade e o compendioso de Inocência, nem, portanto, a sua emoção, publicado na província, passou despercebido menos por uma conspiração de silêncio, como erradamente suporia o autor, mas em virtude mesmo das necessárias condições da nossa vida literária. Ao contrário, o romance de Taunay saía acompanhado da calorosa recomendação considerável de Francisco Otaviano, que lhe augurava longa vida e acertou no vaticínio. Não havia em Inocência os arrebiques e enfeites com que ainda os melhores dos nossos romances presumiam embelezar-nos a vida e costumes e a si mesmos sublimarem-se. E com rara simplicidade de meios, língua chã e até comum, estilo natural de quase nenhum lavor literário, composição sóbria, desartificiosa, quase ingênua, e, relativamente a então vigente, original e nova, saía uma obra-prima.

Infelizmente se não repetiria jamais na obra do romancista. Os seus seguintes romances terão quase todos o mérito, ainda extraordinário, de melhor observação, de intenção de psicologia e estudo e desenho de caracteres, de língua mais cuidada. Esta, porém, por demasiado impessoal e dessangrada, nunca logrou ser um estilo. Depois de Inocência, a sua obra mais viva, e digno par desta, é a Retirada da Laguna, ou antes La Retraite de Lagune, pois foi escrita em francês. O ser escrita nesta língua porventura contribuiu para lhe dar a sóbria elegância e o intenso vigor descritivo que a distinguem na sua obra, mas de alguma sorte a desterra da nossa literatura. Taunay aumentou o nosso cabedal literário, enriquecendo do mesmo passo a nossa ficção, com outros romances, Lágrimas do coração (1873), republicado nos anos de 90 com o título menos romântico de Manuscrito de uma mulher, Ouro sobre azul (1874), Histórias brasileiras (1878), Narrativas militares (1878) e No declínio (1899). Dons de observação, qualidades de narração e também de composição, apesar da fraqueza e ineficiência da aplicação psicológica e maior simplicidade de estilo, geralmente os sobrelevam aos romances de Macedo ou Bernardo Guimarães e até, embora menos, aos de Alencar. Nos últimos era já evidente o influxo do naturalismo na sua fase extrema. Eram, porém, acaso mais realistas que naturalistas, porque o realismo estava no fundo do engenho literário de Taunay, como o idealismo no de Alencar.

Ensaiou igualmente Taunay o teatro (Amélia Smith) e a crítica (Estudos críticos, 1881-1883), mas em nenhum destes gêneros deixou obra considerável. O seu lugar na história da nossa literatura são os seus romances somente que merecidamente lho conferem.

A precedência de Franklin Távora aos dois romancistas atrás nomeados, Taunay e Machado de Assis, é apenas cronológica. Não obstante se haver estreado no romance desde 1862, com os Índios de Jaguaribe, só de fato começou o seu nome a sair da obscuridade provinciana pelos anos de 70, primeiro com a publicação escandalosa das Cartas a Cincinato, depois com os romances O cabeleira (1876), O matuto (1878), Lourenço (1881).

Joaquim Franklin da Silveira Távora era do Ceará, nascido em 13 de janeiro de 1843. Passou a maior parte da sua vida no Norte, onde se lhe formou o espírito e pelo qual tinha um apego bairrista. Os seus últimos anos viveu-os no Rio de Janeiro, e aqui faleceu em 18 de agosto de 1888. Acaso mais por espírito de insubordinação dos escritores novéis contra os consagrados, que por justificadas razões, foi dos que se insurgiram contra a hegemonia literária de Alencar. Tem sido sempre aqui a literatura uma cousa à parte na vida nacional. Feita principal se não exclusivamente por moços despreocupados da vida prática, que sacrificavam a ingênuas ambições de glória ou à vaidade de nomeada, nunca assegurou aos seus cultores posições ou proveitos, como não constituiu jamais profissão ou carreira. Nestas condições tal insurreição, como outras quejandas, e tanta cousa da nossa vida literária, era apenas uma macaqueação de idênticas rebeliões nos centros literários europeus. Com violência que tanto pode haver sinceridade de convicções como a congênita irritabilidade dos poetas, e sob pseudônimo de Semprônio, atacou Franklin Távora a José de Alencar, e aos seus livros, nomeadamente a Iracema e o Gaúcho, em uma série de cartas primeiro publicadas num periódico do Rio, depois reunidas em livro de nítida edição de Paris.131

Sob o disfarce de Cincinato eram endereçadas ao escritor português José Feliciano de Castilho. Ainda banindo da literatura e da vida, como devem ser, quaisquer estreitas prevenções nacionais, de todo impertinentes na ordem intelectual, essa obra de Franklin Távora, aliás apreciável como crítica e como estilo, era uma má ação. Fossem quais fossem os defeitos da de Alencar, não eram tais que o desclassificassem do posto que ocupava nas nossas letras. Determinava-a demais uma verdadeira vocação literária, como a inspiravam uma sincera e nobre ambição de promover a literatura nacional. E em verdade o fazia com honrado labor e engenho no momento incomparável. Ao mesmo empenho, aliás, se consagrara Franklin Távora, encetando a sua atividade literária com livros da chamada "literatura brasileira", Os índios de Jaguaribe, Um casamento no arrabalde. E o mesmo propósito teve o resto da sua vida. Nem ao cabo a sua literatura diferia notavelmente da de Alencar, senão por lhe ser inferior. Os índios de jaguaribe, O cabeleira, O matuto, Lourenço, que são as suas obras típicas como indianismo ou regionalismo pitoresco, não se diferenciam essencialmente dos romances de Alencar da mesma inspiração, e menos ainda os excedem em merecimento. São-lhes antes somenos como imaginação e estilo. E era a um escritor estrangeiro que se fizera aqui o negador sistemático ou o instigador da negação sistemática, do nosso engenho e capacidade literária, que Franklin Távora tomava por parceiro nesse jogo de descrédito do escritor que com tanta bizarria, e não sem sucesso, se empenhava no fomento da literatura nacional. Mas na vida literária não há maior satisfação nem melhor prêmio, de que vermos seguir-nos os passos os mesmos que nos contestam e nos atacam. Se Alencar fosse um homem de espírito, a investida de Franklin Távora, acompanhada de seus "romances brasileiros", devia intimamente rejubilá-lo. Sem embargo de endereçadas ao irmão de Antônio de Castilho, o serôdio árcade contra quem se tinha revoltado não havia muito a mocidade literária portuguesa, as Cartas a Cincinato eram acaso repercussão do famoso e ridículo motim literário do Bom senso e bom gosto. Não tiveram, porém, o eco da célebre carta deste título de Antero de Quental àquele, nem motivaram senão as respostas malignas e ainda ferinas do seu equívoco destinatário.

Com excelentes qualidades literárias, tinha Franklin Távora, mais do que é lícito a um homem de espírito, preconceitos provincianos, quizila à "Corte", cujos literatos, aliás na maioria provincianos, imaginava apostados em desconhecer e hostilizar os escritores da província. Algum tempo, justamente naquele em que fazia as suas primeiras armas literárias Franklin Távora, prevaleceu este estado de espírito, que o revia mesquinho, em certo grupo de homens de letras nortistas, indiscretamente revoltados contra a legítima e natural preponderância mental do Rio de Janeiro. Como se, dada a nossa formação histórica e cultural, e organização política, não fosse absurdo o regionalismo espiritual que lhes apetecia. Desta ridicularia ainda haverá algum representante anacrônico, e nunca se emancipou Franklin Távora. Manifestou-o ainda no prefácio da 2.ª edição, aqui publicada, de Um casamento no arrabalde. Esta prevenção lhe teria gerado a desinteligente ojeriza a Alencar, como um dos "sacerdotes sumos", segundo o seu dizer, da literatura dos que no Rio de Janeiro menosprezavam a da província. Do mesmo preconceito lhe viria a infeliz idéia da repartição da literatura brasileira em "literatura do Norte" e "literatura do Sul", conforme a região brasileira que lhe fornecia a inspiração e o tema. Quão melhor alumiado não andou Alencar escolhendo os seus sem preferência de regiões, para compor segundo o belíssimo dizer de Machado de Assis "com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional de sua obra".

Mas a obra construtiva de Franklin Távora, os seus quatro ou seis romances publicados de 1869 a 1881, excluídos os Índios de Jaguaribe, tentativa malograda de indianismo da sua juventude inesperta, sobreleva de muito este seu mal-avisado trabalho de demolição. Ele não tem nem a imaginação nem o alinde do estilo literário de Alencar, escreve todavia com mais apuro e observa com mais fidelidade. A sua representação da natureza e da vida é mais exata, se não mais expressiva. A sua língua mais simples, menos enfeitada, atingindo mesmo às vezes, como no Casamento no arrabalde, uma singeleza encantadora, livra-o da retórica sentimental que Alencar nem sempre evitou. Este último romance é no seu gênero um dos melhores da nossa literatura, um daqueles em que a vida burguesa provinciana, e não só nas suas exterioridades, mas nos seus caracteres intrínsecos e essenciais, se acha mais fiel e artisticamente reproduzida. Um casamento no arrabalde, como a Inocência, de Taunay, é um romance de um realista espontâneo, para quem o realismo não exclui por completo a idealização artística, que é como o sopro divino que lhe anima a feitura. Algo deste caráter realista se nos depara em todos os romances de Távora, o que faz dele, como do seu contemporâneo Taunay, um dos reatores contra a romântica aqui ainda então prevalecente, um dos precursores, portanto, do naturalismo.

O teatro e a literatura dramática no Brasil não tiveram nunca a importância, nem o mérito, do romance ou da poesia. Ficaram-lhes sempre somenos em quantidade e em qualidade. A época de maior florescimento, sob estas duas espécies, do nosso teatro e da nossa literatura dramática, são as duas décadas de 1860 a 1880. Pertence-lhes quase todo ou o melhor do teatro de Macedo, de Alencar, de Quintino Bocaiuva, de Agrário de Meneses, de Pinheiro Guimarães e de outros numerosos autores de teatro, cujos nomes, entretanto, cabem mais na história deste que na da literatura em geral. Não só no Rio de Janeiro, mas nas capitais das províncias principais, existiam e mantinham-se casas de espetáculos de peças nacionais, portuguesas ou traduzidas, representadas por companhias compostas quase por igual de atores brasileiros e portugueses fixados no Brasil, e até aqui feitos, dos quais alguns nomes ainda vivem na tradição, como Joaquim Augusto, Furtado Coelho, Florindo, Vicente de Oliveira, Eugênia Câmara, Ismênia dos Santos, Manuela Luci, Xisto Baía, Corrêa Vasques, e ainda outros. Mas, ou por deficiência dos nossos autores dramáticos, ou por defeito do próprio meio de que se inspiravam, faltou sempre ao nosso teatro capacidade de representação teatral da nossa sociedade, que invariavelmente falsificava. E como também não tiveram o talento de expressão mais alta da nossa vida que, embora a desnaturando, atingisse a uma realidade humana geral, a nossa literatura dramática consta antes de ótimas intenções que de boas obras.

Nela trabalhou também Franklin Távora, de quem se conhecem pelo menos três dramas: Um mistério de família (1861), Três lágrimas (1870) e Antônio, representado aqui no Rio, mas que parece se não chegou a imprimir. Os impressos corroboram o conceito acima, não se distinguem nem como representação da nossa vida, neles adulterada ao influxo da dramaturgia francesa, sempre aqui dominante, mas aqui sempre estéril, nem como expressão geral de sentimentos e atos humanos.

Deixou Franklin Távora também algumas excelentes páginas de crítica, gênero que tratou com evidente disposição e talento, mas que não cultivou bastante para destacar a figura nele.

II — POETAS

Pela época em que se estrearam estes romancistas, as principais feições ou correntes da poesia brasileira, no que tinha esta de mais peculiar, eram ainda, se não o indianismo, o brasileirismo dos primeiros românticos, e o sentimentalismo doentio, de envolta com o ceticismo literário e a desilusão e desalento, dos segundos. Esgotavam-se essas duas correntes quando surgiram, com pouco intervalo, Machado de Assis (1839-1908), Tobias Barreto (1839-1889), Fagundes Varela (1841-1875), Luís Guimarães Júnior (1847-1898) e Castro Alves (1847-1871), que podemos considerar os últimos românticos da nossa poesia, que já não sejam anacrônicos.

Aliás nenhum traço comum saliente liga estes poetas. Quando muito, o teriam Tobias Barreto e Castro Alves na feição oratória do seu estro, a que se deu o nome de condoreirismo, porque os seus arroubos poéticos presumiam semelhar-se ao surto do condor. Denominação aliás, como tantas outras inventadas na nossa literatura, de pouca propriedade. Naquele grupo não caberia senão aos dois poetas nomeados ou a algum seu secundário imitador, indigno de menção particular. Demais não foram nem Tobias, nem Castro Alves os inventores desse falso gênero de poesia enfática e declamatória. Antes deles, Pedro Luís publicara os seus poemas Nunes Machado, A sombra de Tiradentes, Os voluntários da morte (1863), Terribilis Dea, Justamente no diapasão que devia dar àqueles dois poetas o epíteto extravagante de condoreiros. E na procura das últimas fontes do mesmo veio, poderíamos acaso remontar ao Napoleão em Waterloo, de Magalhães, a certos poemas de José Bonifácio, o Moço, e a outras anteriores amostras da nossa facúndia poética. Está esta no nosso temperamento, e o condoreirismo não era uma novidade na nossa poesia, mas apenas o exagero, sob a influência do entusiasmo patriótico do momento e da retórica hugoana, desse defeito do nosso estro poético. O aparecimento simultâneo de Varela com o seu Pavilhão auviverde, e de Vitoriano Palhares com o seu A D. Pedro II, a propósito do conflito anglo-brasileiro de 1862, e de numerosos poemas tão patrióticos como bombásticos de José Bonifácio e Pedro Luís, coincidindo com os de Castro Alves e Tobias Barreto, da mesma entoação, estão atestando que não havia novidade essencial no chamado condoreirismo de 60 a 70.

O Romantismo byroniano, temperado por Álvares de Azevedo, de Musset e Spronceda e de outros condimentos de idêntico sabor literário, tinha certamente desviado da sua direção primeira, cristã, patriótica e moralizante, o movimento literário com que aqui se iniciara a nossa literatura nacional. Mas além da parcial impressão que fez nos três principais poetas da mesma geração, mal fizera escola com Aureliano Lessa, Bernardo Guimarães e menores poetas, desvairados sobretudo com as extravagâncias da Noite na taverna. Nos anos de 60, mesmo no atrasado Brasil, já não havia atmosfera para ele. A voz do desespero, da ironia, do ceticismo daqueles poetas europeus substituía-se como um clarim de guerra vibrante de cóleras, mas rica de esperanças, ora flauta bucólica, ora lira amorosa, tuba canora e belicosa ou doce avena da paz, mas em suma otimista, a voz de Victor Hugo. Esta ouviram e seguiram mais ou menos de perto da geração que entrou a cantar por esta época. Também os houve que escutaram de preferência a melodia lamartiniana impregnada do idealismo cristão. Mas não se sai imune de uma corrente literária para outra. Levam-se sempre ressaibos daquela. Estes poetas apresentam um misto de romantismo e das tendências estéticas que em nascendo para a vida literária encontraram no seu ambiente. Tem em dose quase igual o desalento sentimental, mesmo o ceticismo, apenas menos anunciado daquela geração e os ideais práticos, as emoções sociais, a preocupação humana, ainda política, com os instintos de propaganda da corrente hugoana. E apenas alguma leve nota de indianismo ou brasileirismo nela transformada num mais íntimo que ostensivo sentimento nacional. E como em Victor Hugo, além da feição social e humanitária, o que mais os impressiona são os aspectos verbais do seu estro, a sua altiloqüência poderosa, caem no arremedo, geralmente infeliz, desse feitio da sua poética. Daí derivaria a alcunha, que cumpre não tomar a sério, que de hugoanos tiveram alguns.

A facúndia poética do grande vate francês, cujo prestígio se aumentava do seu papel político, achava no meio escolar onde se ia fazer este novo movimento literário, terreno propício. Às predisposições oratórias ou verbosas da raça, amiga da frase empolada e do vocábulo pomposo, juntava-se aquela venturosa idade em que nem a reflexão nem o estudo apuraram ainda o gosto e o discernimento. Em tal meio, as tiradas poéticas de Tobias Barreto e Castro Alves, que hoje nos parecem extravagantes despropósitos, eram achadas sublimes:

A lei sustenta o popular direito,

Nós sustentamos o direito em pé!

Um pedaço de gládio no infinito,

Um trapo de bandeira na amplidão.

Ver o mistério eriçado,

Rodeando os mausoléus,

Morrer... subindo agarrado

No escarpamento dos Céus.

Pernambuco anelante

Suspende na mão possante

O peso do Paraguai!132

Quejandos versos, estrofes, que digo?, poemas inteiros neste estilo alvoroçavam aquela mocidade, cujo indiscreto entusiasmo não serviria senão para mais perverter o estro desses poetas e desvairar o gosto público.

Dos chamados condoreiros apenas dois, os já nomeados Tobias Barreto e Castro Alves, lograram distinguir-se por outras partes que essa falaz poesia, entre os que, como eles, presumiam reproduzir aqui a Victor Hugo, quando não faziam senão contrafazer-lhe os mais patentes defeitos.

Tobias Barreto de Menezes nasceu em Sergipe em 7 de junho de 1839, e a 20 do mesmo mês de junho de 1889 faleceu no Recife, em cuja Faculdade de direito se formou e onde principalmente exerceu a sua atividade literária. Não obstante o dispersivo, o incoerente e até, de algum modo, o extravagante dessa atividade, que não lhe permitiu deixar em qualquer direção em que se exerceu, mais que uma obra fragmentária e incongruente, certo é ele uma das figuras singulares das nossas letras. Tinha grande talento, memória acaso ainda mais grande, rara aptidão para línguas como para música, e decidida vocação para o estudo, ora servida, ora prejudicada, pelos seus estímulos desencontrados de mestiço impulsivo e malcriado. Orador nativo, amava a pompa dos grandes gestos e das grandes frases. Apenas a sua educação roceira e rudimentar atenuava e amortecia esta sua predileção com a vulgaridade, que não raro chegava ao chulismo da expressão, em que o rústico transparecia sob o letrado. Fazendo filosofia, crítica, sociologia e ainda poesia, freqüentemente se lhe revela este vício de origem ou temperamento. É justamente o contrário do honnête homme consoante La Rochefoucauld. A sua fama, um pouco factícia, a deveu mais às suas brigas e polêmicas, por via de regra descompostas, ou ao pregão temerário de discípulos, que propriamente à sua obra, de fato muito pouco lida. Como filósofo que presumiu ser ou pretenderam fazê-lo, como crítico, como sociólogo, foi sobretudo um negador dos valores existentes da nossa intelectualidade, um contemptor sistemático da cultura francesa e portuguesa e um pregoeiro e vulgarizador da cultura alemã. Tinha ao menos a desculpa de que sabia perfeitamente o alemão, — e puerilmente se desvanecia de o haver aprendido consigo mesmo, — o que não aconteceu talvez a nenhum outro dos seus discípulos, presunçosos germanistas. Como jurista, nada mais fez que recomendar, com o descomedimento que é um dos traços do seu temperamento literário, as novas idéias jurídicas alemãs, contrapondo-as apaixonadamente às idéias clássicas aqui vigentes.

Se o pensador e o jurista em Tobias Barreto iam à cultura germânica, tratada embora por ele mais lírica que objetivamente, o seu temperamento estético, em música e em poesia, revê demais o mestiço luso-africano. Como poeta é simultaneamente um sentimental, um orador sem algo da profunda ingenuidade da poesia alemã. Em música, não obstante a sua, ao que parece, grande ciência desta arte, confessa ele próprio que não compreendia senão a italiana. Não é incontestável que fosse o introdutor do hugoísmo na nossa poesia. Tal invento, aliás, não bastaria para afamá-lo. De parte a sua inspiração política, social, objetiva em suma, a poesia de Hugo influiu aqui, ainda nos seus melhores discípulos, muito mais pelos seus aspectos extreriores e pelo defeito da sua feição oratória, que pelo profundo lirismo íntimo e alto sentimento poético que acaso a sobreleva entre toda a poesia do século.