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História da Literatura Brasileira

José Veríssimo

Muito menor foi o renome e a influência de Tobias Barreto como poeta do que como pensador. Eclipsou-lhos Castro Alves, seu feliz êmulo no condoreirismo e seu triunfante rival em toda a poesia. O lirismo de Tobias Barreto, no que tem de melhor, é em suma da mesma espécie do comum lirismo brasileiro, amoroso ou antes namorado, sensual, dolente, abundante em voluptuosidades ardentes e queixumes melancólicos. Se alguma cousa o distingue é, de um lado, o tom oratório, ainda épico, em que oscila entre as extravagância dos Voluntários pernambucanos e quejandos poemas e os belos rasgos do Gênio da humanidade; de outro, a nota popular simples, vulgar, mesmo trivial, que às vezes lhe dá a cantiga um sainete particular e, ocasionalmente, encantador. Mas dessa nota abusa, bem como barateia e vulgariza o estro em glosar notas, à moda dos poetas seiscentistas e arcádicos, e em celebrar com inaudita facilidade de admiração e trivialidade de emoção a quanto cabotino ou cabotina acertava de passar pelo Recife. Quer como poeta, quer como prosador, uma das maiores falhas de Tobias Barreto foi a de gosto. A atividade poética de Tobias Barreto exerceu-se aliás, principalmente nos primeiros anos da sua vida literária (1862-1871), quando ainda estudante, o que lhe explica e desculpa as deficiências e senões. Que, apesar do seu incontestável estro, não era propriamente uma vocação de poeta, prova-o o haver quase abandonado a poesia pela filosofia, o direito, a crítica e outros estudos.

É a Antônio de Castro Alves que por consenso geral pertence a primazia entre os poetas desta geração. Nasceu ele na Bahia a 14 de março de 1847, e ali morreu em 6 de junho de 1871. Da sua terra natal, ainda não completos os estudos de preparatórios, passou-se a Pernambuco para os acabar, e estudar Direito. Foi lá que realmente estreou em 1862. Seis anos depois deixou Pernambuco por S. Paulo, passando pelo Rio de Janeiro, onde lhe serviram de introdutores José de Alencar e Machado de Assis. Trazia na sua bagagem literária, com vários poemas soltos avulsamente publicados, o drama Gonzaga ou a Conjuração Mineira, já representado na Bahia. Em S. Paulo, ao contato de uma juventude entusiasta de poesia e eloqüência, ao estímulo de festas repetidas que lhe depararam ensejo de dar provas de ambas, acabou de se lhe desabrochar o engenho poético. No fim de 1869, dali recolheu enfermo à terra natal, onde pouco depois faleceu, tendo antes dado a lume os seus versos reunidos, sob o título de Espumas flutuantes (1870). Poucos livros brasileiros, e menos de versos, têm sido tão lidos.

Tem-se dito que os latinos não temos poesia, senão eloqüência. Não discuto o asserto. Nós brasileiros, que apenas seremos por um terço latinos, sei que somos nimiamente sensíveis à retórica poética. Não nos impede isso aliás de comovermo-nos também, embora superficialmente talvez, ao sentimento da poesia quando ela canta as fáceis paixões sensuais do nosso ardor amoroso de mestiços ou chora os nossos fáceis desgostos de gente mole. São exemplos os casos de Gonçalves Dias, poeta do amor, e dos realmente deliciosos cantores da segunda geração romântica, e de Fagundes Varela, ainda hoje os poetas mais vivos na nossa memória e no nosso coração. A ingenuidade, porém, a virtude cardial dos maiores poetas anglo-germânicos, essa sim, é quase de todo estranha à nossa poesia, que assim carece de um dos mais sedutores elementos da arte, quando, após os últimos românticos, os nossos poetas se fizeram refinados e se puseram a apurar com a forma o sentimento à moda dos parnasianos franceses, deixaram de fato de comover o público, ou só continuaram a impressioná-lo pelo aspecto externo dos seus poemas perfeitos, pela sonoridade constante dos seus versos. Porque em suma o que preferimos é a forma, mormente a forma eloqüente, oratória, a ênfase, ainda o "palavrão", as imagens vistosas, aquelas sobre todas, que por seu exagero, sua desconformidade, sua materialidade, mais impressionam o nosso espírito, de nenhum modo ático. É este no fundo o motivo do nosso antigo afeto ao épico e da nossa moderna predileção pelos poetas sobretudo eloqüentes e brilhantes, como os condoreiros, Pedro Luís, José Bonifácio e o Sr. Bilac. É verdade que nenhum destes vale apenas por qualidades de brilho e facúndia poética. Essas tinha-as em alto grau, e da boa espécie, Castro Alves, mas tinha outras além delas.

Passada a sentimentalidade sincera, mas pouco variada, e que sob o aspecto da expressão acabara por se tornar monótona, das gerações precedentes, a inspiração de Castro Alves apareceu como uma novidade. Era, pois, bem-vindo o jovem poeta baiano, e não lhe custou a assumir no breve tempo que viveu e poetou o principado da poesia. É possível que Tobias Barreto o precedesse de dois ou três anos no arremedo de Hugo e na facúndia poética alcunhada de condoreirismo. Esta precedência meramente cronológica, não seguida de influência apreciável, por forma alguma prejudica o fato incontestável da preeminência poética de Castro Alves neste momento. Além de maior talento poético, de mais rica inspiração, de estro mais poderoso e da expressão ao cabo mais formosa e mais tocante, concorreram para o sobrelevar ao poeta sergipano a sua saída de Pernambuco e vinda ao Rio e S. Paulo, e que lhe dilatou a fama além do estreito círculo pernambucano, no qual se confinou a de Tobias Barreto, e, mais ainda, a publicação em 1870 dos seus versos, ao passo que os do seu rival só vieram à luz onze anos depois. E em tanto que as Espumas flutuantes, de Castro Alves, têm hoje oito ou dez edições, afora numerosas publicações avulsas de alguns dos seus poemas, os Dias e noites de Tobias Barreto não alcançaram mais de duas. Este fato marca suficientemente o grau de estima em que os dois poetas são tidos.

Havia em Castro Alves, como em Álvares de Azevedo, que ele grandemente admirava e imitou, o fogo sagrado, alguma cousa que à nossa observação superficial e pendor para o exagero de juízos, parecia gênio, um grande talento verbal, uma sincera eloqüência comunicativa, um simpático entusiasmo juvenil. Tudo isto encobria as imperfeições evidentes da sua obra, e disfarçava-lhe as incorreições de pensamento e expressão. Não se viu então que à farragem daquela verbosidade de escola sobrelevava de muito a feição por onde se ele ligava ao nosso lirismo e o continuava dando-lhe — e este é o seu mérito e importância — com um verbo mais vivo, mais brilhante, mais sonoro, uma vida nova, formas mais variadas, cores mais rutilantes, sentimentos menos comuns, maior fundo de idéias, maior riqueza de sensações. Não é que naquele estilo pomposo não tenha Castro Alves dous ou três poemas verdadeiramente belos. Há, por exemplo, em Vozes d’África, e ainda no Navio negreiro, mais que a ênfase ou a retórica da escola, eloqüência dos melhores quilates, profundo sentimento poético, emoção sincera e, sobretudo no primeiro, uma formosa idealização artística da situação do continente maldito e das reivindicações que o nosso ideal humano lhe atribui. E mais uma então ainda não vulgar perfeição de forma. Não a perfeição métrica simplesmente, porém, mérito mais alto e mais raro, a correlação da palavra com o pensamento, a sobriedade da expressão que se não desvia e derrama do seu curso, e por vezes uma concisão forte que realça singularmente toda a composição, além de imagens novas, verdadeiras, belas de fato, e uma representação que em certas estrofes atinge do perfeito senão ao sublime. São disso exemplo esses versos que têm o vigor de uma grande pintura:

Lá no solo onde o cardo apenas medra,

Boceja a esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas

As cegonhas espiam debruçadas,

O horizonte sem fim

Onde branqueja a caravana errante

E o camelo monótono, arquejante,

Que desce de Efraim...

Com Castro Alves pode dizer-se que se alarga a nossa inspiração poética, objetiva-se o nosso estro e os poetas entram a perceber que o mundo visível existe. Poeta nacional, se não mais nacionalista, poeta social, humano e humanitário, o seu rico estro livrou-o de perder-se num objetivismo que, não temperado de lirismo, é a mesma negação da poesia. As cousas sociais e humanas as viu e entendeu e as cantou como poeta, às vezes com prevalência da eloqüência sobre o sentimento, mas sempre com sentida emoção de poeta. A sua influência foi enorme, senão sempre estimável. Atuou vantajosamente em alguns dos seus melhores sucessores, o que desculpa a calamidade dos imitadores medíocres.

Foi contemporâneo destes poetas em Pernambuco, quiçá os emulou, Luís Nicolau Fagundes Varela, fluminense do Rio Claro, onde nasceu em 17 de agosto de 1841. Na sua mesma província, em Niterói, faleceu em 18 de fevereiro de 1875. Poetou entre os anos de 60 e 75. Cronológica e literariamente sucede aos primeiros poetas da segunda geração romântica, que admirou e imitou. Além da deles, sofreu visível e confessadamente como aliás aconteceu a todos os poetas posteriores a Gonçalves Dias, a influência do poeta maranhense. Estes diversos influxos foram decisivos na formação do estro e estilo poético de Varela. Foi menor o de Tobias Barreto e Castro Alves, não obstante ter Varela assistido em Pernambuco no tempo em que os dous emulavam ali pela supremacia poética. Varela era de essência um puro sentimental, e isso ficou apesar das suas medíocres tentativas de poesia patriótica. Mas a sua originalidade, se a tinha, ressentiu-se demasiado de todas essas influências. Lido após aqueles poetas, deixa-nos a impressão do já lido. No tom propriamente lírico dos seus poemas, nada se depara de novo, nem no fundo nem na forma. E como ambos não têm nele quaisquer virtudes notáveis ou sinais particulares de distinção, e haja em seus versos demasiadas reminiscências daqueles poetas, e repetições de seus próprios pensamentos e dizeres, à impressão de falta de originalidade junta-se a da banalidade. É que poeta espontâneo, de uma inspiração quase popular, é também poeta muito descuidado do seu estro e da sua arte, todo entregue à pura inspiração, que as reminiscências e o prestígio daqueles poetas queridos freqüentemente comprometem. Havia, entretanto, nele um grande fundo de poesia, isto é, de sentimento poético. Se não tivera cedido com demasiada negligência do seu próprio engenho às influências que banalizaram parte considerável da sua obra, outro poderia ter sido o valor desta. Juvenília é um dos mais admiráveis trechos do nosso lirismo, como o é também o Cântico do calvário, uma das mais eloqüentes, quero dizer uma das mais comoventes, uma das mais belas entre as elegias da nossa língua. Mas enfim a sinceridade que parece haver no seu sentimento, a simplicidade às vezes deliciosa do seu cantar, a melancólica voluptuosidade e o íntimo brasileirismo daquele sentimento, com a mesma ingenuidade da sua poética seduzem-nos irresistivelmente e justificam a estima que, apesar das restrições feitas, ele merece e teve dos seus contemporâneos. Dos poetas do seu tempo é o que mais tem a inspiração nacionalista então em declínio, talvez o único de inspiração americana, ainda indianista. Foi parte principal nesta a sua devoção por Gonçalves Dias, a quem evoca no Evangelho das selvas, como o "mestre da harmonia". Este poema seria a derradeira manifestação do indianismo. A de Machado de Assis tem feições próprias que a separam do indianismo tradicional. Com belíssimos versos brancos, há ainda neste poema de Varela formosos trechos, mas, em suma, revela o cansaço da escola e o seu esgotamento, se não a mesma insuficiência do poeta para o gênero. Os seus poemas patrióticos, inspirados de um momento crítico da vida nacional, e que dele e dos sentimentos que agitavam o país tiravam interesse, foram por isso mesmo parte grande na fama que em vida adquiriu Varela, acaso acima do seu valor real. Passado o motivo de sua inspiração, nos parecem agora apenas declamatórios, não tendo guardado nada que esteticamente nos comova. O que há de bom, às vezes mesmo de excelente, em Varela, é o seu lirismo sentimental, as suas manifestações de dor de pai ou de amante, os seus lamentos de poeta infeliz, ou que, por amor do romantismo, se fez infeliz, quando, o que desgraçadamente acontece com demasiada freqüência, não lhe desmerecem o canto imitações ou reminiscências de outros poetas.

Machado de Assis e Luís Guimarães Júnior, cronologicamente desta geração, estrearam com ela. Machado de Assis, porém, mesmo como poeta, tem um lugar à parte e merece capítulo especial da história da nossa literatura. Luís Guimarães Júnior, a despeito da cronologia, pertence antes à geração parnasiana que a esta. Foi como parnasiano que ele teve na poesia brasileira um lugar, se não distinto, notável, que os seus Corimbos (Pernambuco, 1869), pelos quais pertence aos últimos românticos, não bastariam para dar-lhe.


Capítulo XV

O MODERNISMO

O MOVIMENTO DE IDÉIAS que antes de acabada a primeira metade do século XIX se começara a operar na Europa com o positivismo comtista, o transformismo darwinista, o evolucionismo spenceriano, o intelectualismo de Taine e Renan e quejandas correntes de pensamento, que, influindo na literatura, deviam pôr termo ao domínio exclusivo do Romantismo, só se entrou a sentir no Brasil, pelo menos, vinte anos depois de verificada a sua influência ali. Sucessos de ordem política e social, e ainda de ordem geral, determinaram-lhe ou facilitaram-lhe a manifestação aqui. Foram, entre outros, ou os principais: a guerra do Paraguai, acordando o sentimento nacional, meio adormecido desde o fim das agitações revolucionárias conseqüentes à Independência, e das nossas lutas o Prata; a questão do elemento servil, comovendo toda a nação, e lhe despertando os brios contra a aviltante instituição consuetudinária; a impropriamente chamada questão religiosa, resultante de conflito entre as pretensões de autonomia do catolicismo oficial e as exigências do tradicional regalismo do Estado, a qual alvoroçou o espírito liberal contra as veleidades do ultramontanismo e abriu a discussão da crença avoenga, provocando emancipações de consciências e abalos da fé costumeira; e, finalmente, a guerra franco-alemã com as suas conseqüências, despertando a nossa atenção para uma outra civilização e cultura que a francesa, estimulando novas curiosidades intelectuais. Certos efeitos inesperados da guerra do Paraguai, como o surdo conflito que, apenas acabada, surgiu entre a tropa demasiado presumida do seu papel e importância e os profundos instintos civilistas da monarquia, não foram sem efeito neste momento da mentalidade nacional. Também a Revolução Espanhola de 1868 e conseqüente advento da República em Espanha, a queda do segundo império napoleônico e imediata proclamação da república em França, em 1870, fizeram ressurgir aqui com maior vigor do que nunca a idéia republicana, que desde justamente este ano de 70 se consubstanciara num partido com órgão na imprensa da capital do império. Esta propaganda republicana teve um pronunciado caráter intelectual e interessou grandemente os intelectuais, pode dizer-se que toda a sua parte moça, ao menos. Outro caráter da agitação republicana foi o seu livre-pensamento, se não o seu anticatolicismo, por oposição à monarquia, oficialmente católica.

Atuando simultaneamente sobre o nosso entendimento e a nossa consciência, pela comoção causada nos espíritos aptos para lhes sofrer o abalo, estes diferentes sucessos produziram um salutar alvoroço, do qual evidentemente se ressentiu o nosso pensamento e a nossa expressão literária. Às idéias, nem sempre coerentes, às vezes mesmo desencontradas daquele movimento, fautoras também nos acontecimentos sociais e políticos apontados, chamamos aqui de modernas; expressamente de "pensamento moderno". A novidade que tinham, ou que lhe enxergávamos, foi principalíssima parte no alvoroço com que as abraçávamos. Na ordem mental e, particularmente literária, os seus efeitos se fizeram sentir numa maior liberdade espiritual e num mais vivo espírito crítico.

Foi um dos seus principais agentes, mormente no norte do país, onde então a vida intelectual, com o seu centro em Pernambuco, tinha certa atividade, Tobias Barreto, já atrás estudado como poeta. Eis como o porventura mais inteligente dos seus alunos, o Sr. Graça Aranha, no estilo com que a nossa gente se escusa a clarificar as próprias idéias e se embriaga de palavras, lhe diz o feito insigne: "Em 1882, Tobias Barreto, que os seus condiscípulos não compreenderam e de cuja intensa reputação ainda se espantam e sorriem, abalava como um ciclone a sonolenta Academia do Recife. Ele invade a sociedade espiritual do seu tempo como um verdadeiro homem da sua raça. E o segredo da sua força está na absoluta e constante fidelidade a esse temperamento, em cuja formidável composição entram doses gigantescas de calor, de luz e de todas aquelas ondas de vida, que o sol transfunde regiamente ao sangue mestiço... Tinha a exuberância, a seiva, a negligência que o fazia estranho a todo o cálculo, mesmo o da sua reputação de além-túmulo, o prodigioso dom de fantasiar, o fabuliren dos criadores, e mais a impaciência e a temível explosão da revolta que permanecerá como o traço vivaz do seu caráter. Não houve vaso que o amoldasse; não conheceu senão os limites inabordáveis da liberdade e os de extrema irresponsabilidade. Pôde como um sertanejo viver com o povo, foi descuidado, miserável e infeliz. Cresceu músico e poeta. E mais tarde, quando lhe chegar a cultura, ela virá na barca fantástica da poesia. E foi pelo impulso dessa volátil essência do seu temperamento, que Tobias Barreto passou da arte para a filosofia. O pensador nele é uma modelação do vate. Transportará para a metafísica, para as ciências biológicas, para o direito, a magia da adivinhação, o improviso milagroso, a necessidade de idealizar e de imaginar, que é a poesia. Quase toda a sua ciência, quando não vem da legislação ou da língua, é feita principalmente da intuição, e os seus vastos descortinamentos, os clarões que abre, a vida que dá às idéias apenas entrevistas no prisma da sua visão, é mais a criação do poeta que a lógica do sábio. E nisto foi um homem do seu tempo e da nossa raça. É preciso que o sangue corra longamente, durante séculos, numa infinita descendência, para que o precipitado das forças originais do nosso espírito seja a idealização científica. O máximo, o que por enquanto podemos atingir, foi o que nos deu Tobias Barreto, a filosofia através das cores solares da poesia".133

Esta página, aliás bela, é por mais de um título preciosa. Primeira como documento do nosso gosto do verbo pelo verbo, quanto mais pomposo e rutilante mais amado, "imensa reputação", "abalava como um ciclone", "formidável composição de um temperamento", "doses gigantescas", "prodigioso dom de fantasiar", "a magia da adivinhação", "o improviso milagroso", "os vastos descortinamentos", e tudo mais assim magnificado e exorbitante.

Nunca os máximos pensadores dos grandes países de alta cultura, um Kant, um Spencer, um Comte lograram ser assim tão grandiloquamente celebrados pelos seus compatriotas.

Mas é sobretudo precioso este discurso, porque o próprio vago e ambíguo desta representação de Tobias Barreto e sua obra revê o incerto e equívoco dessa figura e dessa obra, ainda hoje ambas mal definidas, graças principalmente aos seus indiscretos panegiristas. Já vimos em que verdadeiramente lhe consistiu a ação, que, ainda reduzida a essas proporções, foi todavia considerável, como estímulo e impulso. As nossas academias ou faculdades superiores foram desde o meio do século passado os principais focos da nossa atividade literária. Dessa origem lhe virá a fraqueza dos resultados, a sua imperfeição e inconsistência. A nossa literatura desde o Romantismo foi principalmente feita por estudantes ou moços apenas saídos das faculdades, com pouca lição dos livros e nenhuma da vida. Nelas se geraram quase todos os nossos movimentos, e todas as novidades de ordem mental, como era natural, acharam nelas terreno adequado, tanto para o joio como para o trigo. Foi sobretudo mediante os seus alunos do Recife, literariamente deslumbrados pela facúndia do professor, deslumbramento aumentado da simpatia que lhes inspiravam os seus hábitos boêmios e alguns dos seus mesmos defeitos, tudo levado à conta de poesia ou filosofia, que Tobias Barreto influiu na mente brasileira. Sem outra originalidade, talvez, que a do seu verbo, como ele desordenado e exuberante, sem nenhum saber científico realmente sólido, agitou, entretanto, uma porção de idéias novas, pregou ou doutrinou concepções desconhecidas da maioria, citou, com enfáticos encômios, nomes alemães e russos de quase todos ignorados, e cujo valor raríssimos podiam verificar, e firme e desassombradamente proclamou a necessidade de refazermos completamente a nossa cultura em outras fontes que aquelas onde até aí principalmente bebiam as portuguesas e francesas. A estas não conseguiu aliás que de todo as deixássemos, pois nela é que principalmente bebemos ainda. Não foi, porém, inteiramente perdido o seu reclamo. Concorreu muito para entrar conosco a dúvida salutar de que as nascentes tradicionais da nossa cultura não seriam as únicas benéficas, e a curiosidade do nosso espírito se alargou consoantemente. Basta isso para lhe assegurar um posto proeminente na nossa evolução literária, ou antes cultural, sem necessidade de lhe exagerarmos o valor da obra.

Esta é a fragmentária e dispersiva, e não guarda outra unidade que a da inspiração acaso mais lírica que filosófica do seu gênio e da sua fé, na superioridade da cultura alemã e na legitimidade da sua hegemonia. Em estilo descomposto como lhe era a vida, numa forma muito pessoal, e por isso mesmo viva e interessante, com propositada ou congenial carência daquela urbanidade de que os latinos faziam uma virtude literária, escreveu dezenas de opúsculos, artigos e ensaios. Teoria literária, crítica, filosofia, sociologia, religião, direito, psicologia, literatura comparada, filosofia científica, biologia, história, em suma de omni re scibili, tudo versou neles. Esta afetação de saber universal, sempre suspeito num puro autodidata, realçado em verdade por um grande e sincero calor de exposição, em que superabundavam provas de talento, abalou a mocidade da escola onde professava e por ela boa parte da mentalidade moça do país. Livro, não publicou em vida mais que os Estudos alemães, coleção de artigos diversos, e Menores e loucos, monografia de direito criminal. A maior parte da sua obra saiu póstuma. A sua ação foi sobretudo oral, a do seu ensino, dos seus discursos, das suas palestras, e reflexa, operada por intermédio dos seus discípulos. E de fato se não exerceu e tornou sensível com prioridade que lhe assegure a primazia de precursor do movimento modernista aqui. Sem falar dos seus anos de estudante no Recife (1862-1871), em que "cultivou preponderamente a poesia",134 a sua ação útil só verdadeiramente começou com o seu professorado ali em 1882. Os dez anos anteriores (1871-1881) passara-os ele na pequena cidade pernambucana da Escada, obscuro e desconhecido. Nesse lugarejo, que não era nenhuma Weimar, publicou opúsculos em português e alemão. Destes últimos seria ele próprio um dos raríssimos leitores, porque, segundo nos exprobrava como de uma infâmia, não havia então aqui mais que umas escassas dezenas de pessoas que lessem essa língua. Esta excêntrica atividade literária da Escada não teve nenhuma publicidade e menos repercussão. Só foi lembrada quanto Tobias Barreto se tinha feito conhecido como professor no Recife e começava a criar prosélitos. Ninguém que de todo não ignore as condições da nossa vida intelectual, admitirá a influência de um escritor, por mais genial que o suponhamos, cuja atividade se exerça esporádica e fragmentariamente em magros folhetos e efêmeros periódicos, numa cidade sertaneja. Somente em 1882 começou, pois, a ação de Tobias Barreto a se fazer sentir, e de primeiro exclusivamente no Recife.

Antes disso, porém, desde os primeiros anos do decênio de 70, e sob as influências notadas, manifestava-se no Rio de Janeiro o movimento modernista. Foi nos próprios livros franceses de Litré, de Quinet, de Taine ou de Renan, influenciados pelo pensamento alemão e também pelo inglês, que começamos desde aquele momento a intruir-nos das novas idéias. Influindo também em Portugal, criara ali a cultura alemã uma plêiade de escritores pelo menos ruidosos, como Teófilo Braga, Adolfo Coelho, Joaquim de Vasconcelos, Antero de Quental, Luciano Cordeiro, amotinados contra a situação mental do Reino. Além destes, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão vulgarizavam nas Farpas, com mais petulância e espírito do que saber, as novas idéias. Todos estes, aqui muito mais lidos do que nunca o foi Tobias Barreto, atuaram poderosamente a nossa mentalidade. E o movimento coimbrão, como se chamou à briga literária do "Bom senso e bom gosto", pelos anos de 65, teve certamente muito maior repercussão na mentalidade literária brasileira do tempo, do que a pseudo-escola do Recife. Muito mais daquele movimento do que da influência de Tobias Barreto, derivou a Literatura brasileira e a Crítica moderna (1880) do Sr. Sílvio Romero, e bem assim os seus principais estudos da história da literatura brasileira. O positivismo comtista inaugurava aqui e em S. Paulo a sua propaganda, primeiro somente do aspecto científico da doutrina. Essa pregação convencida, tenaz, teve desde logo a seu lado, a prestigiá-la, alguns bons sabedores das ciências positivas, particularmente das matemáticas. E em 1875, estranho a qualquer influência do excêntrico filósofo da Escada, um velho diplomata, Araújo Ribeiro (visconde do Rio Grande), publicava no Rio de Janeiro o seu volumoso livro O fim da criação, o primeiro de doutrina darwinista, se não materialista, escrito no Brasil.

Na mesma década entrou a instrução pública a ocupar mais seriamente a atenção dos governos e do público. A Tipografia Nacional tirava em volume as traduções dos livros de Hippeau sobre o ensino público nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Prússia. Reformava-se, procurando-se desenvolvê-lo, o Colégio de D. Pedro II, único foco de estudos clássicos que possuíamos, hoje quase extinto. Criavam-se conferências e cursos públicos, onde se começaram a agitar as novas idéias filosóficas, científicas e literárias. Remodelava-se o antigo curso da Escola Central, organizando-se a Escola Politécnica, acrescentando-se-lhe aos cursos profissionais as duas importantes seções de ciências físicas e naturais e ciências físicas e matemáticas. Para reger as novas cadeiras vieram da Europa professores especiais, como o físico Guignet, o fisiologista Couty, o mineralogista e geólogo Gorceix, logo depois incumbido da fundação e direção da Escola de Minas de Ouro Preto, nesse tempo criada. Também o ensino médico foi reformado, acrescido de matérias e cadeiras novas. A reforma que igualmente sofreram o Museu e a Biblioteca Nacional determinou maior atividade e mais útil efeito destas velhas e paradas instituições. O Museu começou a publicar os seus interessantes Arquivos em cujos três primeiros volumes (1876-1878) se encontram trabalhos originais de antropologia, fisiologia, arqueologia e etnografia e história natural de sabedores brasileiros, Lacerda, Rodrigues Peixoto, Ladislau Neto, Ferreira Pena, e estrangeiros ao serviço do Brasil, Hartt, Orville Derby, Fritz Müller e outros. Simultaneamente com os Arquivos do Museu vêm a lume os Anais da Biblioteca Nacional, ricos de informações bibliográficas, de eruditas memórias e monografias interessantes para a nossa história literária e geral. Nos ensaios de ciência (1873), Batista Caetano de Almeida Nogueira funda o estudo das línguas indígenas brasileiras segundo os novos métodos da ciência da linguagem, recriada pelos alemães, tirando-o do fantasioso empirismo em que até então andou. Os estudos da história do Brasil no século XVI (1880), não obstante o seu exíguo tomo, revelavam no Sr. Capistrano de Abreu raras capacidades, posteriormente confirmadas por outros trabalhos, para essa ordem de estudos, aqui também depois da morte de Varnhagen quase que entregues à pura improvisação. Pelo fim do mesmo decênio, Araripe Júnior, um dos melhores espíritos deste momento, começara a publicar o seu perfil literário de José de Alencar, uma das obras capitais da crítica brasileira, e no prefácio da primeira edição, em 1882, declarava que a reconstituição das suas idéias datava de 1873. No Ceará, donde era e onde residia Araripe Júnior, formara-se por aquele tempo um grupo literário composto dele, de Capistrano de Abreu, do malogrado Rocha Lima, de Domingos Olímpio, de Tomás Pompeu e doutros nomes menos conhecidos, grupo ledor de Spencer, Buckle, Taine e Comte e entusiasta das suas novas idéias. Esse grupo ficou estranho à influência da Escada e precedeu de dez anos a do Recife. O José de Alencar, de Araripe Júnior, inspirava-o manifestamente o critério crítico de Taine, como o descobrimento do Brasil e seu desenvolvimento no século XVI (1883), de Capistrano de Abreu, o evolucionismo spenceriano. Em 1874, um médico de S. Paulo, o Dr. Luís Pereira Barreto, publicava, sob o título de Três filosofias, a exposição e discussão, que ficou aliás incompleta, dos três estados do espírito humano, conforme a doutrina de Augusto Comte. E as questões históricas, filosóficas, jurídicas, políticas e ainda culturais que se prendem ao grave tema do poder e autoridade do papa e das suas relações com o século eram, em 1877, larga e eruditamente discutidas pelo Sr. Rui Barbosa numa copiosíssima introdução à sua versão para o português da obra alemã do Cônego Doellinger, O Papa e o Concílio. Nessa prefação, o Sr. Rui Barbosa revelava, acaso excessivamente, a vastidão da sua literatura não só francesa ou alemã, mas universal.

Destes fatos não é lícito senão concluir que a ação de Tobias Barreto, conquanto considerável, não foi tal qual se tem presumido, e que efetivamente só entrou a exercer-se pelo ano de 1882. Então já no Ceará e em S. Paulo pelo menos, e no Rio de Janeiro, desde o princípio do século passado o nosso mais considerável centro intelectual, manifestamente se desenhava o movimento a que tenho chamado de modernismo. Principalmente reflexa, a ação de Tobias Barreto nesse movimento operou-se mediante os seus discípulos imediatos, dos quais um ao menos, o Sr. Sílvio Romero (S. Paulo de quem Tobias é o Cristo), teve considerável influência na juventude literária dos últimos vinte anos do século passado. No empenho, aliás simpático na sua inspiração, de o exaltarem, inventaram uma "escola do Recife", da qual o fizeram instituidor. Não viram, como atiladamente nota o mesmo Sr. Graça Aranha, que "a força singular desse homem estava na genialidade poética por onde lhe veio a intuição científica e filosófica" e que "essa genialidade, essa imaginação faltaria aos seus discípulos porque ela era uma expressão puramente individual e que se não repete... Extrairiam dos livros e das frases do mestre apenas as fórmulas audazes, confundiriam a sátira com a seriedade do pensamento, tomariam os vagos delineamentos por conclusões definitivas e espalhariam numa língua bárbara a dogmática doutrina para as quais não teriam nem a ciência, nem adivinhação profética".135 A "escola do Recife" não tem de fato existência real. O que assim abusivamente chamaram é apenas um grupo constituído pelos discípulos diretos de Tobias Barreto, professor diserto e, sobretudo, ultrabenévolo, eloqüente orador literário e poeta facundo, mais do que Tobias pensador e escritor. Cumpre, aliás, repetir que esse grupo, salvo imigrações individuais posteriores, restringiu-se ao Norte, donde era a máxima parte de seus alunos, e mais exatamente a Pernambuco.

Mas ainda reduzida a estas proporções, que me parecem as verdadeiras, a figura de Tobias Barreto e o seu papel na nossa literatura, ou mais exatamente na nossa mentalidade, é relevante. Ele atuou duplamente, primeiro, e acaso principalmente, como demolidor dos nossos valores mentais que pela sua própria imobilidade se tornavam um impedimento ao nosso progresso espiritual, depois como uma força de estímulo e reforma para essa mentalidade. Apontou, se não abriu, caminhos novos e novas direções à nossa inteligência, criou discípulos em que se lhe frutificaram os ensinamentos e cuja ação foi considerável, suscitou discussões e polêmicas com que agitou o nosso meio intelectual, em suma, deu um forte e útil abalo ao nosso pensamento, como quer que seja no momento inerte. Não foi, porém, nem um sábio, nem um pensador original ou profundo. O seu darwinismo não podia ser senão de mera predileção sentimental. Carecendo da instrução científica, e especialmente biológica, para apreciar idoneamente as doutrinas de Darwin e seus discípulos ou êmulos, não podia, sem impertinência, pronunciar-se sobre elas e menos professá-las. Aliás quase todos os nossos pseudo-filósofos evolucionistas, transformistas ou darwinistas o foram, como ele, de palpite. Um princípio, um conceito, uma idéia sua, não se lhe conhece naqueles domínios. Não fez de fato senão expor, ao que parece com grande eloqüência professoral, em todo caso, mesmo escrevendo, com grande calor comunicativo, a arrogância própria para impor, o que em filosofia, em crítica, em literatura, em direito, faziam os alemães, por cuja cultura se enrabichou com exclusivismo pouco abonatório do seu espírito crítico. Como a sua pregação, endereçava-se a um público para quem a Alemanha, sob o aspecto da cultura, era terra incógnita, e mais um público principalmente constituído de rapazes tão ignorantes como facilmente impressionáveis, nada mais fácil do que alcançar foros de oráculo.

O modernismo de que, em todo caso, foi ele aqui um dos principais fautores, produto de forças heterogêneas, teve também desencontrados efeitos na ordem literária: na ficção em prosa, deu o naturalismo, ou melhor favoreceu o advento do naturalismo francês; na poesia simultaneamente o parnasianismo e a extravagância da chamada poesia científica. Em outras ordens de atividade, na filosofia, na crítica, em sociologia, em história, influiu com outros métodos e porventura mais esclarecido entendimento. Mas também, e em maior número talvez, produziu repetições, descorados ou desajeitados arremedos do que nesses ramos de conhecimento se fazia lá fora. Desvairando, porém, a nossa fraca ciência deu lugar ao que Herculano chamou com propriedade de "gongorismo científico". Acaso o seu mais útil e notável efeito foi, apesar destas máculas, o desenvolvimento do espírito crítico. Efetivamente nesta fase da nossa literatura, mais que em qualquer das que a precederam, se nos depara esse espírito e às vezes da boa qualidade. Fora, porém, da poesia e do romance, ou da oratória parlamentar, justamente em plena e brilhante florescência nos últimos anos do Império, não produziu um conjunto de obras que se possam agrupar sob uma qualificação particular ou a que una qualquer pensamento ou idéia geral comum. A mais considerável saída desse movimento, menos aliás por virtudes intrínsecas, que pelos seus efeitos, e essa produto direto do estilo criado em Pernambuco por Tobias Barreto, mas concebida e realizada no Rio de Janeiro, é talvez a já citada História da literatura brasileira do Sr. Sílvio Romero (1888).

O romance romanesco e nimiamente sentimental de Alencar, Macedo ou Bernardo Guimarães, quando já o naturalismo francês não era uma novidade, acabara por, ainda em antes deste movimento, ceder o passo ao de Taunay, Machado de Assis e Franklin Távora, únicos dos romancistas sucessores daqueles que fizeram uma obra equivalente à sua. Esta, porém, salvo no segundo, era ainda, como a dos românticos, intencionalmente nacionalista, e em Franklin Távora até propositadamente regionalista. Somente continuando com o nacionalismo literário, estes e outros que os acompanharam, o fizeram com atenuação da fórmula romântica dominante. Eles pertencem antes à última fase do Romantismo. Os verdadeiros naturalistas segundo as receitas francesas já aviadas em Portugal por Eça de Queirós e seus discípulos vieram depois, quando esses últimos românticos iam em meio da sua literária, e até quando o naturalismo entrava já a declinar em França.


Capítulo XVI

O NATURALISMO E O PARNASIANISMO

RARISSIMAMENTE, SE ALGUMA VEZ acontece, exprimem fielmente as etiquetas literárias o fenômeno que presumem definir, ou lhe compendiam exatamente o caráter. Não escapou o naturalismo a esta regra. Nenhuma das suas várias definições satisfaz plenamente. Para a mesma ficção em prosa, a que primeiro e particularmente foi esse nome dado, não se lhe acha explicação cabal. No entanto, os autores o aplicam à crítica, à oratória, à filosofia, à história e até à poesia. Historiadores da literatura francesa, por exemplo, sob este vocábulo designam o período literário de 1850 a 1890.136

É, que, como o Romantismo, o naturalismo foi sobretudo uma tendência geral. Como aquele fora uma reação contra o classicismo, foi o Naturalismo um levante contra o Romantismo. Caracteriza-o e distingue-o a sua inspiração diversa do Romantismo, mormente a sua inspiração muito menos espiritualista que a deste, e conseqüentemente a sua vontade de proceder diferentemente dele. Revela-se este seu íntimo sentimento e propósito no sacrifício ou diminuição da personalidade do autor, exuberante no Romantismo; numa observação mais rigorosa e até presumidamente inspirada em métodos científicos; numa representação mais fiel do observado, reduzindo ao mínimo a idealização romanesca; no menosprezo dos constantes apelos à sensibilidade do leitor, pelo abuso do patético; na invasão, não só do romance, mas de todos os gêneros literários, pelo espírito crítico, que era principalmente o do tempo. Tudo isto revia o momento, da prevalência das ciências exatas e de uma filosofia inspirada de seus métodos e baseada nos seus resultados sobre a metafísica eclética do princípio do século.

O nosso naturalismo, que foi uma das resultantes do modernismo, nada inovou ou sequer modificou no naturalismo francês seu protótipo. Ao naturalismo inglês, anterior a este, e ao mesmo tempo tão sóbrio e distinto, ficou de todo alheio. Apenas se lhe vislumbra o contágio na ficção de Machado de Assis. Mas estreitamente ainda que o nosso Romantismo seguira o francês, arremedou o naturalismo indígena o naturalismo da mesma procedência modelando-se quase exclusivamente por Émile Zola e o seu discípulo português Eça de Queirós. De novelas, contos, curtas e ligeiras ficções e ainda romances, segundo a fórmula pessoal destes dois escritores, houve aqui fartura deste 1883 até o rápido esgotamento dessa fórmula pelos anos de 90, quando ela se não procrastinou em exemplares inferiores que importunamente ainda a empregavam. Obras realmente notáveis e vivedouras, ou sequer estimáveis, bem poucas produziu, e nomes que mereçam historiados são, acaso, apenas três: Aluísio de Azevedo, Júlio Ribeiro e Raul Pompéia.

Além de haver formulado estes fiéis discípulos, e muitos outros somenos, atuou o naturalismo aqui, como fica atrás verificado, modificando e atenuando em romancistas como Franklin Távora e Taunay e nas nossas letras em geral, as feições e os excessos do Romantismo. Resultou em visão mais clara das cousas, observação mais sincera e expressão em suma melhor.

Aluísio de Azevedo nasceu no Maranhão em 14 de abril de 1857 e veio a morrer como cônsul do Brasil em Buenos Aires em 31 de janeiro de 1913. Como tantos dos nossos escritores, com insuficientes letras lançou-se no jornalismo, que, as dispensando, é uma boa escola de escrita corrente e fácil. O seu primeiro livro foi um romance, na pior maneira romântica, Uma lágrima de mulher (Maranhão, 1880). Logo depois enveredou pelo caminho que lhe antolhava o naturalismo, conservando, contudo, ressaibos daquela moda. Quando apareceu o seu segundo livro, outro romance, O mulato (Maranhão, 1881), onde, ao jeito da nossa estética, era estudado o caso do preconceito de cor na província natal do autor, protraía-se ainda o Romantismo nos romances sempre lidos de Alencar e Macedo e de Bernardo Guimarães, ainda vivo. Como tipos de transição entre as duas correntes literárias, romântica e naturalista, haviam aparecido desde 1870 Taunay e Franklin Távora, para não citar senão os que fizeram obra mais considerável. Estreando-se no romance em 1872, com a Ressurreição, eximira-se Machado de Assis quase completamente do Romantismo, sem cair, porém, no que ao seu claro engenho lhe parecia o engano do naturalismo. Ele de fato nunca pertenceu a escola alguma, e através de todas manteve isenta a sua singular personalidade literária.

Não obstante a sua procedência provinciana, teve O mulato o mais simpático acolhimento do Rio de Janeiro e do país em geral. A novidade um pouco escandalosa que trazia, ajudada demais do cansaço, de fórmula romântica, foi grata ao nosso paladar enfastiado do romanesco dos nossos novelistas, e pouco apurado para saborear as finas iguarias do Brás Cubas, de Machado de Assis, publicado em 1881. A gente habituada ao despejado naturalismo, mesmo cru realismo das discussões políticas e brigas jornalísticas, aqui sempre descompostas ambas, e mais à proverbial licença da nossa conversação, a maneira zolista devia forçosamente de agradar.

Passando-se da terra natal para o Rio de Janeiro, continuou Aluísio de Azevedo a obra encetada com O mulato, e continuou aperfeiçoando-se, o que de comum não tem sucedido nas nossas letras, onde, como já fica notado, não são poucos os autores cujos melhores livros são justamente os primeiros. Aluísio de Azevedo não só reformou O mulato, melhorando-lhe em nova edição a composição e o estilo, mas, não obstante a boêmia que por um resto anacrônico do Romantismo ainda praticou, pôs sério empenho de aperfeiçoamento na obra subseqüente. Os romances A casa de pensão (1884), O homem (1887), O cortiço (1890), confirmaram o talento afirmado no Mulato e asseguraram-lhe na nossa literatura o título de iniciador do naturalismo e do seu mais notável escritor.

O principal demérito do naturalismo da receita zolista, já, sem nenhum ingrediente novo, aviada em Portugal por Eça de Queirós e agora no Brasil por Aluísio de Azevedo, era vulgarização da arte que em si mesmo trazia. Os seus assuntos prediletos, o seu objeto, os seus temas, os seus processos, a sua estética, tudo nele estava ao alcance de toda a gente, que se deliciava com se dar ares de entender literatura discutindo de livros que traziam todas as vulgaridades da vida ordinária e se lhe compraziam na descrição minudenciosa. Foi também o que fez efêmero o naturalismo, já moribundo em França quando aqui nascia.

Não seria, porém, justo contestar-lhe o bom serviço prestado, tanto aqui como lá, às letras. Ele trouxe à nossa ficção mais justo sentimento da realidade, arte mais perfeita da sua figuração, maior interesse humano, inteligência mais clara dos fenômenos sociais e da alma individual, expressão mais apurada, em suma uma representação menos defeituosa da nossa vida, que pretendia definir. Dos que aqui por vocação ou mero instinto de imitação, demasiado comum nas nossas letras, seguiram o naturalismo e se nele ensaiaram, o que mais cabalmente realizou este efeito da nossa doutrina literária foi Aluísio de Azevedo, com uma obra de mérito e influência consideráveis, qual a daqueles seus quatro romances, aos quais podemos juntar o último que escreveu, o livro de uma sogra. Este aliás não é mais plenamente naturalista, e a sua execução lhe saiu inferior à dos primeiros. O resto de sua obra, de pura inspiração industrial, é de valor somenos.

Foi também naturalista de escola, mais talvez por amor da sua novidade e voga que por sincera simpatia com ela, Júlio Ribeiro, no seu único romance dessa fórmula, A carne (S. Paulo, 1888).

Júlio César Ribeiro, filho de norte-americano com brasileira, nasceu em Minas Gerais aos 16 de abril de 1845 e faleceu em S. Paulo, onde exerceu a sua atividade literária, em 1 de novembro de 1890. Como é aqui muito comum, era autodidata, votado por natural inclinação aos estudos lingüísticos. De atividade dispersiva e índole móbil, acaso trêfega, foi cumulativamente professor de línguas, jornalista, polemista, pondo nestes dois ofícios grande ardor e até veemência. Além dos antigos , necessários à sua educação filológica, estudou ou simplesmente leu desordenadamente os modernos, sobre todos os moderníssimos, sem talvez os meditar bastante. De seu natural ardoroso, alvoroçou-se com as mais frescas novidades intelectuais. O melhor fundamento da sua reputação é a sua gramática portuguesa (S. Paulo, 1881), um dos mais notáveis produtos da nossa copiosa literatura do gênero. Com suficiente saber e inteligência do assunto, há talvez nessa obra demasiado e quiçá indiscreto entusiasmo pelas últimas novidades glotológicas e pelos seus inventores. Da mesma especialidade publicou também Júlio Ribeiro outros estudos. A sua obra propriamente literária cifra-se, porém, naquele romance e no que o precedeu Padre Belchior de Pontes (Campinas, S. Paulo, 1876-1877, nova edição, Lisboa, 1904). Chamou-lhe ele de "romance histórico original", mas a despeito do aparato de erudição de que o cercou, e de serem históricos fatos, episódios e algumas principais personagens bem como o protagonista, ainda o é menos que os de Alencar ou Macedo. Nada no livro nos dá a ilusão da época e do meio romanceados, antes pelo contrário. Padre Belchior de Pontes, não obstante a afetação de ciência, afetação que na Carne sedes desmandaria até ao ridículo, não obstante maior objetividade de inspiração e da representação romanesca, era ainda uma pura novela romântica, canhestramente composta.137 Não tem sequer este romance as excelências de expressão que imaginaria encontrar num gramático profissional quem não soubesse que por via de regra são os gramáticos mofinos escritores.

O modernismo teve em Júlio Ribeiro, como fica insinuado, um dos seus fervorosos adeptos. Seguindo, menos acaso e inspiração que por enlevo da novidade, então muito festejada, a corrente do romance naturalista, escreveu A carne nos mais apertados moldes do zolismo, e cujo título só por si indica a feição voluntária e escandalosamente obscena do romance. Salva-o, entretanto, de completo malogro o vigor de certas descrições. Mas A carne vinha ao cabo confirmar a incapacidade do distinto gramático para obras de imaginação já provada em Padre Belchior de Pontes. É, como dela escrevi em 1889, ainda vivo o autor, o parto monstruoso de um cérebro artisticamente enfermo.138 Mas ainda assim no nosso mofino naturalismo sectário, um livro que merece lembrado e que, com todos os seus defeitos, seguramente revela talento.

É do mesmo ano da Carne, O ateneu de Raul Pompéia. Nascido em 12 de abril de 1863 e falecido a 25 de dezembro de 1895. Raul d’Ávila Pompéia escreveu este romance ainda em começo da juventude. Inexperiente na vida, com aquela "vigorosa ignorância que faz a força da mocidade", de que fala Brunetière, mais com a impressão forte, como seriam todas em a sua natureza excitável e vibrátil, das novas idéias e pressentimentos que alvoroçavam a mocidade do tempo, Raul Pompéia deu no Ateneu a amostra mais distinta, se não a mais perfeita, do naturalismo no Brasil. Ao contrário dos seus dous principais êmulos nessa moda literária, Aluísio de Azevedo e Júlio Ribeiro, que, achegando-se demasiado ao seu figurino francês, sacrificaram-lhe a originalidade que acaso tinham, Raul Pompéia, com dotes de pensador e de artista superiores aos dous, não perdeu a sua. O seu romance é mais original e o mais distinto produto da escola aqui, sem ser tão bem composto como os melhores de Aluísio de Azevedo. Pelo Desenvolvimento, volume e ainda qualidade de sua obra, este ficaria, entretanto, e como tal é considerado, o principal representante indígena da escola. No que decididamente os sobreleva a todos Raul Pompéia é, não só na maior originalidade nativa e na distinção, sob o aspecto artístico, do seu único romance, mas ainda no talento superior revelado na abundância, roçando acaso pela demasia de idéias e sensações não raro esquisitas e sempre curiosas, que dão ao seu livro singular sainete e pico. Nesse livro, porém, que tantas promessas trazia e tantas esperanças despertou, parece se esgotou todo o engenho do malogrado escritor e espírito brilhantíssimo.

Não houve no Brasil, como não houve em parte alguma, poesia a que se possa chamar de naturalista no mesmo sentido em que se fala de romance, e ainda de teatro, naturalista. É que não existe poesia sem certa dose de idealismo, incompatível com tal naturalismo. Enganavam-se redondamente, como ao tempo lhes mostrou Machado de Assis, 139 os imitadores indígenas de Baudelaire que nas Fleurs du mal buscavam justificação do seu realismo ou naturalismo. E a sua inteligência os condenou à imitação pueril e falha.

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