Como poeta profano, Sousa Caldas se não extrema dos portugueses seus contemporâneos, se bem valha mais que qualquer dos seus patrícios coevos. E, salvo os mineiros, mais que todos os poetas seus antecessores. É mais correto e mais rico versejador que estes, e sobretudo mais vernáculo. Sob o aspecto da língua pode, entre os brasileiros, passar por distinto. As suas produções originais consideradas melhores são a cantata Pigmalião e a ode Ao Homem Selvagem. Àquela infelizmente se depara na cantata Dido, de Garção, um desfavorável confronto. A ode Ao homem selvagem, essa é realmente formoso transunto das idéias de Rousseau, em sustentação das quais foi escrita. Os seis sonetos que nos deixou Sousa Caldas, sem distinção alguma, antes lhe desabonam que lhe acreditam o estro.
À imitação das Lettres Persannes, de Montesquieu, Sousa Caldas escrevera uma obra em prosa de filosofia prática e moral em forma epistolar. Dela apenas nos restam duas cartas que não bastam para autorizar um juízo do seu trabalho. Revela-se contudo aí escritor fácil, castiço e, para o seu tempo, meio e estado, espírito liberal e tolerante. Versam justamente essas duas cartas sobre a atitude da Igreja perante os escritos contrários à sua moral e dogmas, o que o leva a considerar o tema geral geral da livre expressão do pensamento. Fá-lo Sousa Caldas com aquele latitudinarismo que foi sempre a marca do ultramontanismo franco-italiano.86
Não pode divergir muito o juízo que devemos fazer de José Elói Otôni, que, como Sousa Caldas, foi poeta sacro e profano. Mas o foi com menos talento, e principalmente, com menos vigor. As suas traduções dos pseudos Provérbios de Salomão e do Livro de Jó, feitos do latim da Vulgata, são antes paráfrases que traduções. Não há achar-lhes o sabor que do original parecem guardar algumas traduções diretamente feitas em prosa ou verso. As poesias originais de Otôni não destoam da comum mediocridade da poesia sua contemporânea.87 José Elói Otôni nasceu na cidade do Serro, em Minas Gerais, em 1764. Depois dos primeiros estudos em sua terra, esteve na Itália e em Portugal, onde ainda voltou duas vezes em outras épocas de sua vida, vindo a falecer no Rio de Janeiro, num emprego público subalterno, em 1851.
86V. essas cartas na Ver. Do Inst., III, 144 e 216.
87Jó, traduzido em verso por José Elói Otôni, etc. Rio de Janeiro, 1852, in 8.º gr., XXXIX, 42, 104 págs. É longa a lista de produções de Elói Otôni, começadas a publicar em Lisboa desde 1801, Cf. Inocência, Dic. Bibliográfico, IV, 309 e seg.
Um frade franciscano fluminense, Fr. Francisco de S. Carlos, compôs pela mesma época, "em honra da Santa Virgem", segundo reza o título, um poema, A Assunção, que é uma das mais insulsas e aborridas produções da nossa poesia. Em oito estirados cantos de versos decassílabos, rimados uniformemente em parelha, monotonia que é aumentada pela pobreza das rimas e geral mesquinheza da forma, descreve o poeta a Assunção da Virgem desde a ressurreição do seu túmulo, em Éfeso, até à sua chegada ao Paraíso, através de várias peripécias maravilhosas por ele imaginadas. O poema é do princípio ao fim prosaico, sem se lhe poder tirar algum episódio ou trecho realmente belo, a inventiva pobre, balda de novidades ou grandeza, a língua mesquinha e vulgar. Entretanto críticos houve que o acharam digno de rivalizar com o Paraíso Perdido, de Milton, e a Messíada, de Klopstock, e não duvidaram de qualificá-lo de "poema eminentemente nacional" e de considerá-lo como "um dos monumentos que nos legou a geração passada (do princípio do século XIX) para a formação da nossa literatura". Chamar-lhe "poema eminentemente nacional", porque introduziu nas suas descrições frutas, plantas e animais do Brasil e alguns aspectos da natureza brasileira, é equivocar-se sobre o sentido da expressão. O vezo de cantar as cousas da terra, de nomeá-las, citá-las ou descrevê-las, às vezes comovidamente, mas também às vezes sem emoção alguma, era velho na nossa poesia. Vinha, conforme mostramos, dos fins do século XVI; praticou-o Durão no Caramuru, cultivaram-no alguns dos poetas mineiros e outros. Tal sestro revia o despontar do sentimento nativista e o seu sucessivo desenvolvimento. Ao tempo de Fr. Francisco de S. Carlos era já tão comum o emprego desse recurso poético, que nada tinha de particularmente notável. Tanto mais que o usou o franciscano poeta sem a menor distinção. Apenas continuava uma tradição criada, da qual há exemplos noutros poetas seus contemporâneos deste infausto período das nossas letras, como na Discrição curiosa, do ruim poeta mineiro Joaquim José Lisboa. E como a continuava sem a relevar por quaisquer virtudes de fundo ou de forma, fazendo apenas nomenclaturas áridas, não sabendo tirar desse expediente nenhum partido estético, não lhe pode servir isso de recomendação ao seu insípido poema. O que era nos seus predecessores novidade interessante, reveladora de um sentimento, uma emoção, uma inspiração nova na poesia portuguesa, era nele simples repetição, não levantada por algum talento superior de expressão.
Destas duas dúzias de poetas menores, o único, além de Sousa Caldas, que porventura se destaca por uma inspiração mais sincera e dons de expressão que o extremam, é José Bonifácio de Andrada e Silva, o José Bonifácio, principal cooperador da nossa independência nacional. As circunstâncias que o fizeram e em que foi poeta, lhe explicam o destaque.
José Bonifácio nasceu em Santos, São Paulo, aos 13 de junho de 1763. Feitos os seus primeiros estudos no Brasil e completos os seus dezoito anos, passou-se a Portugal, e ali, em Coimbra, se formou em filosofia e leis. Fundada em 1774, pelo duque de Lafões, a Academia Real das Ciências de Lisboa, foi, com o patrocínio daquele magnate, seu membro e depois secretário. Ao mesmo apoio deveu a comissão especial de estudar nos principais centros científicos europeus ciências naturais e metalurgia. Dez anos empregou nestes estudos, percorrendo os principais países da Europa, onde os podia com mais proveito fazer. De volta a Portugal, foi nomeado intendente geral das minas, com a graduação de desembargador, recebendo também o grau de doutor em ciências naturais e o encargo de inaugurar na Universidade de Coimbra uma cadeira de metalurgia e geognosia, a qual regeu até à invasão francesa de 1807. Criado, por motivo desta invasão, um batalhão acadêmico, foi dele José Bonifácio major e logo depois tenente-coronel. Mais tarde serviu o cargo de intendente de polícia do Porto. Em 1819 retirou-se, com licença, para o Brasil. Vivia em S. Paulo, sua província natal, quando sobrevieram os acontecimentos de 1820 e 1821 e começaram no Rio de Janeiro os primeiros movimentos da Independência. Estes despertaram-lhe o sentimento nacional, acaso adormecido por cerca de quarenta anos de existência portuguesa. Fez-se parte conspícua nesse movimento, do qual foi, com D. Pedro, o principal protagonista. Como ministro e conselheiro muito ouvido do recém fundado império e deputado à sua assembléia constituinte, teve um grande papel nessa primeira fase da construção do país sob o novo regime, sendo, pelos seus talentos e capacidades, a primeira figura dela. A excessiva energia que, como primeiro-ministro, empregou contra os seus oposicionistas, ia comprometendo a causa que tão bem servira. Em todo caso motivou a excitação dos ânimos que produziu os sucessos donde resultou a demissão de José Bonifácio e o seu exílio.
Era José Bonifácio uma natureza pessoalíssima, de índole autoritária e violenta. Como todos os políticos do seu temperamento, tanto era despótico no poder como abominava o despotismo em não sendo ele o déspota. Nimiamente orgulhoso e demasiado convencido da sua superioridade, aliás real, no meio político donde o expulsavam, doeu-lhe profundamente o exílio a que o constrangiam os seus adversários, desterrando-o da pátria cuja independência, com mais presunção que razão, exclusivamente se atribuía. Encheu-se de despeito e raiva contra o soberano, a quem com mau gosto reprochou de ingrato, contra os políticos seus adversários, e até contra a pátria. Foi neste estado d’alma de homem que se crê indispensável e a quem dispensam, de homem soberbo de si e humilhado pelos mesmos a quem se julgava proeminente e tinha por seus devedores, que repontou em José Bonifácio, aos sessenta e dois anos, o estro poético de que já dera amostras quando estabelecido em Portugal. Facit indignatio versum. Em Bordéus, em cujos arredores se fixara durante o exílio, publicou o volume das Poesias avulsas, de Américo Elísio, em 1825. A sua forte e não comum cultura literária e científica, e grandes experiências da vida, fortificaram-lhe o engenho poético. A paixão real fez o resto. Era um apaixonado e estava apaixonado. Aquela deu-lhe aos versos, não obstante o ressaibo arcádico que se lhe descobre no estilo, no feitio e até na alcunha com que se disfarçou o autor, uma vida, uma emoção, uma sinceridade como se não encontra em nenhum dos poetas seus patrícios e contemporâneos, e que fazem dele acaso o único que tem personalidade e que, por isso, possamos ouvir ainda hoje. Ao contrário de toda a poesia do tempo, a sua, ao menos a inspirada da sua situação atual, é pessoal, vibrante das suas paixões políticas e patrióticas e dos seus mesmos sentimentos egoístas, do seu orgulho, da sua soberba, da sua vaidade malferida, e que ele não procura dissimular. Soam nelas queixas, reproches, imprecações e brados pela liberdade que ele próprio, de essência despótico, recusara aos seus antagonistas quando no poder. E mais, sem embargo de queixas e exprobrações que chegam à negação da pátria,
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram:
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou à justiça.
Vivíssimo amor dela e fervorosos anseios por ela. Ainda quando, por distrair-se das suas angústias de repúblico despeitado, recorre aos prazeres reais ou imaginários de que Baco era o patrono clássico, o pensamento saudoso e amargurado se lhe volve à pátria distante:
Em bródio festivo
Mil copos retinam;
Que a nós não nos minam
Remorsos cruéis;
Em júbilo vivo
Juremos constantes
De ser como dantes
À pátria fiéis
.........................................
Gritemos unidos
Em santa amizade
Salve, ó liberdade!
E viva o Brasil!
Sim, cessem gemidos,
Que a pátria adorada
Veremos vingada
Do bando servil.
A sua forte cultura, desempeçada do caturrismo português por longo comércio com a melhor da Europa, e aliviada do aparelho escolástico e clássico pela sua paixão, deu-lhe à expressão poética mais calor, mais vida e movimento do que tinha a do tempo. Há versos seus que, pela liberdade e personalismo da sua inspiração, pelo subjetivismo dos sentimentos, exuberância usual da expressão e despejo de apetites, como que aventam já o Romantismo. A sua ode A Natureza, no seu sincretismo do pseudoclássico com o que se chamava romântico nas terras por onde José Bonifácio peregrinou, é exemplo e testemunho de que nele a nova corrente literária começava, ainda a despeito seu, a influir. Lembre-se que José Bonifácio traduziu para nova língua, em verso, o pseudo Ossian, um dos ídolos do Romantismo.
Manifestações patrióticas como as de José Bonifácio, mas sem a vibração das suas, são aliás comuns na poesia desta fase. Raro será dos citados o poeta em que se não deparem. Ainda portugueses pela retórica, são já brasileiros pelo coração. Vimos como Caldas Barbosa, predecessor imediato desses poetas, não obstante as condições em que se lhe desenvolveu o engenho e em que poetou, conservou um íntimo sentimento da sua terra e espontaneamente o exprimia. O poema de Fr. Francisco de S. Carlos superambunda de manifestações do mesmo sentimento. Joaquim Lisboa consagra à terra natal uma descrição em verso, da qual aliás só se salva a intenção. Bartolomeu Cordovil celebra em seus poemas as cousas e melhorias do seu Goiás. Natividade Saldanha, esse mais que todos, canta as glórias do seu Pernambuco e os seus heróis, comparando-os aos da poesia e história clássicas. De envolta, celebrando o Brasil, proclama aos brasileiros:
Ó jovens brasileiros,
Descendentes de heróis, heróis vós mesmos
Pois a raça de heróis não degenera,
Eis o vosso modelo:
O valor paternal em vós reviva
A pátria que habitais comprou seu sangue,
Que em vossas veias pulsa.
Imitai-os, porque eles no sepulcro
Vos chamem com prazer seus caros filhos.
Vilela Barbosa festeja a primavera do seu "pátrio Brasil", retoricamente ainda, mas revendo o sentimento, desajudado de engenho, que o inspirava. O mesmo é exato dizer do Cônego Januário da Cunha Barbosa, cujo talento era também muito inferior às suas boas intenções e cuja obra, em todos os gêneros medíocre, apenas tem o mérito destas. A poesia brasileira deve-lhe entretanto um inestimável serviço, a compilação e publicação do Parnaso brasileiro,88 com que salvou de total perda grande número de produções dos nossos poetas da época colonial.
A atividade destes poetas é toda dos últimos anos do século XVIII e dos trinta primeiros do XIX. Muitos deles viram as suas obras publicadas, já em volume, já em coleções ou periódicos, na mesma época em que as compuseram. As de outros correram manuscritas ou impressas em folhas avulsas. Afora a tendência assinalada de celebrar a terra, com um mais vivo sentimento do que se pode chamar a sua capacidade política, com que continuavam a inspiração nativista de desde o início da nossa poesia, não há nesta fase nada que a distinga da ruim poesia portuguesa contemporânea, ou que a aproxime do que nesta havia de melhor. Excetuados José Bonifácio e Sousa Caldas, cuja obra é mais sólida e revela mais talento, os mais são de fato insignificantes. Em José Bonifácio só tem aliás valor os poemas inspirados da sua paixão de repúblico fundamente ferido na sua soberba, ou em que ele mais misturou essa paixão. O resto se não sobreleva à mediocridade comum. É de um árcade imbuído de filintismo. Predecessores do Romantismo, não lhe são os precursores, pois bem pouco é o que se lhes possa descobrir pronunciando o movimento que aqui se ia em breve iniciar, e do qual alguns destes poetas foram contemporâneos, inadvertidos. Não souberam sequer continuar os mineiros, dos quais não há neles outro sinal que o apontado, nem preceder os românticos. Ocupam apenas um vazio, a fase entre os dois movimentos poéticos, sem o preencherem. E tomados em conjunto, não se lhes sente na poesia impressão ou influxo da evolução que desde a chegada da família real portuguesa se operava aqui, nem mesmo da independência cujos contemporâneos e testemunhas muitos deles foram. Árcades de decadência, mostraram-se verdadeiramente impassíveis, muito antes que o desinteligente parnasianismo houvesse importado de Paris a moda de o ser de caso pensado.
II — PROSADORES
Sob o aspecto literário, tão mesquinha e despicienda como a poesia foi a prosa da fase que precedeu imediatamente o Romantismo. Nenhuma grande ou sequer notável obra literária produziu. Foi, porém, como a poesia, fértil em escrevedores de assunto que só remota e subsidiariamente poderão dizer com a literatura: economia política e social, direito público e administrativo, questões políticas, comércio e finanças. A história, que também fizeram, a trataram em mofino estilo, e mesquinhamente, à moda de anais e crônicas. O número relativamente grande dos que destes assuntos e de outros congêneres escreveram e a cópia dos escritos publicados neste período, são um documento precioso da nossa vida intelectual e da nossa cultura nessa época. Se os poetas, com raras exceções, ficaram alheios às circunstâncias precursoras da independência, os prosadores, ao contrário, mostram-se influenciados e interessados pelo que aqui se passava, e, de boa vontade e ânimo puro, lhe trouxeram ao seu concurso. Toda a sua obra, mal construída sob o aspecto literário, com pouco ou sem algum mérito de fundo ou forma que a fizesse sobreviver ao seu tempo, ou que lhe desse nele qualquer proeminência literária, obra de publicistas e de jornalistas de ocasião, apontando a fins imediatamente práticos, serviu ou procurou servir à constituição de nossa nação, a qual já tinha como certa e definitiva. Não se pode todavia incorporar ao nosso patrimônio propriamente literário.
Uma das manifestações espirituais mais interessantes do sentimento público brasileiro no momento que precedeu a independência é o aparecimento, em 1813, no Rio de Janeiro, do Patriota, jornal literário, político, mercantil, etc. Fundou-o e dirigiu, e publicou-o na Impressão Régia, criada em 1808 pelo príncipe regente, Manoel Ferreira de Araújo Guimarães, polígrafo baiano, formado em Portugal, matemático, engenheiro, economista, poeta e jornalista, homem, como tantos outros naquele fecundo período da nossa formação nacional, cheio de boa vontade. Como com muita razão reparava outro publicista nacional, Hipólito José da Costa Pereira, o famoso redator do célebre Correio Brasiliense, de Londres, que à só publicação de um jornal com o nome de Patriota era um sinal dos tempos. "Há dez anos, escrevia ele no seu Correio, em 1813, estando a Corte em Lisboa, que ninguém se atreveria a dar a um jornal o nome de Patriota, e a Henríada, de Voltaire, estava no número dos livros que se não podiam ler sem correr o risco de passar por ateu, pelo menos por jacobino. E temos agora em tão curto espaço já se assenta que o povo do Brasil pode ler a Henríada, de Voltaire, e pode ter um jornal com o título de Patriota, termo que estava proscrito como um dos que tinham o cunho revolucionário".89 Nos dois anos completos que durou, foi o Patriota um centro de convergência do trabalho mental brasileiro, particularmente aplicado ao estudo das cousas do país, e nele colaboraram, com alguns dos poetas citados, Pedra Branca, Silva Alvarenga, José Bonifácio e todos os homens doutos do tempo que deixaram qualquer sinal de si nas nossas letras, marquês de Maricá, Camilo Martins Lage, Pedro Francisco Xavier de Brito, Silvestre Pinheiro Ferreira, José Saturnino da Costa Pereira, etc. O Brasil e tudo quanto lhe interessava o conhecimento e o progresso eram os seus assuntos prediletos.
José de Sousa de Azevedo Pizarro e Araújo (1753-1830), José da Silva Lisboa (visconde de Cairu) (1756-1835), Baltazar da Silva Lisboa (1761-1840), Luís Gonçalves dos Santos (1764-1844), Mariano José Pereira da Fonseca (marquês de Maricá) (1773-1848), José Feliciano Fernandes Pinheiro (visconde de S. Leopoldo) (1774-1847), além de somenos nomes com que facilmente se alongaria esta lista, formam como prosistas o exato pendant dos poetas nomeados seus contemporâneos. Tem, porém, sobre estes a superioridade de uma obra que ao tempo foi mais útil e serviu melhor à causa da nação e particularmente da sua cultura. A de alguns deles tem ainda o mérito de haverem iniciado qualquer cousa na cultura ou nas letras brasileiras: assim a de Cairu estréia aqui os estudos econômicos e de direito público e mercantil, a de Maricá a literatura moralista. É o que lhes dá direito ao menos à menção dos seus nomes na história da nossa literatura. Com exceção de um ou outro, não são propriamente escritores com idéias e dons de expressão literária, ou que representem o espírito ou o sentimento do seu povo, nem as suas obras têm qualidades que nos permitam lê-las sem fastio e displicência e pelas quais se incorporassem no patrimônio das nossas boas letras. São, porém, expoentes ingênuos e expositores sinceros da cultura da sua época no Brasil, seus promotores e fautores aqui. Tais são principalmente o visconde de Cairu, o marquês de Maricá, o visconde de S. Leopoldo e o mesmo Aires de Casal, se não fora português.
José da Silva Lisboa, a quem seus grandes méritos literários e relevantes serviços públicos mereceram o título de visconde de Cairu, pelo qual é mais conhecido, é certamente pela extensão e solidez dos seus conhecimentos, e fecundidade do seu labor, a figura mais proeminente das nossas letras, tomada a expressão no seu sentido mais lato da fase que vamos historiando. Nasceu na Bahia em 1756, completou os estudos secundários e fez superiores em Portugal, onde lecionou grego e hebraico no Colégio das Artes, de Coimbra, e após uma longa e bem preenchida existência no Brasil como professor, publicista, funcionário público, magistrado e parlamentar, faleceu no Rio de Janeiro em 1836. O seu mérito é muito maior como jurista, economista, comercialista e publicista ou sabedor e escritor de questões públicas, políticas e administrativas, do que como literato, se bem tenha sido o visconde de Cairu um dos brasileiros de mais vasta literatura. Contemporâneo de Adam Smith, o criador da economia política, parece foi o nosso patrício o primeiro que nas línguas neolatinas escreveu dessa nova ciência, divulgando desde 1798 as idéias do pensador inglês. As três principais obras de Silva Lisboa sobre a matéria são Princípios de direito mercantil (1798-1803), Princípios de economia política (1804) e Estudos de bem comum (1819-1820). Conta-se que Monte Alverne, mais que seu adversário teórico, seu inimigo pessoal e inimigo rancoroso como saía ser, entrando na sua aula de filosofia do seminário de S. José no dia da morte de Cairu, com um gesto desabrido, com que acaso escondia o sentimento, declarara "que não dava aula porque morrera um grande homem, apesar de que a sua cabeça não passava de uma gaveta de sapateiro". Também a antipatia, em que pese a Carlyle, aguça a inteligência e facilita a compreensão. A frase atribuída ao soberbo frade90 traduz na sua vulgaridade uma impressão exata da copiosa, desigual e disforme obra do douto e laboriosíssimo escritor que foi Cairu. Consta-lhe a produção impressa ou manuscrita de setenta e sete números de obras maiores ou menores de direito, economia política ou social, história, questões do dia e públicas, didascálica, jornalismo, polêmica, pedagogia, moral.91 Como composição, fatura, estilo, esta produção é irregular, desigual e ainda extravagante e disparatada, revendo à pressa e até à precipitação do trabalho, a excitação ou a paixão do momento, o produto de ocasião. A literatura dela só podia aproveitar pequeníssima parte, a História dos principais sucessos políticos do Brasil por exemplo, a Vida de Wellington e pouco mais. Esta mesma, porém, carece de predicados literários que a recomendem à nossa estima. Em todos os gêneros produtos das circunstâncias, as obras de Cairu não sobrevivem às que as produziram.
Mariano José Pereira da Fonseca, quase somente conhecido pelo seu título de marquês de Maricá, vinha do tempo dos últimos vice-reis do Brasil, um dos quais o Conde de Resende, sob a inculpação de inconfidente, o teve preso por mais de dois anos. No vice-reinado de Luís de Vasconcelos fundaram alguns homens de estudo e letras do Rio de Janeiro, o doutor Manoel Inácio da Silva Alvarenga, mestre régio de retórica e conhecido poeta da plêiade mineira, João Marques Pinto, mestre régio de grego, o médico Jacinto José da Silva, o nosso Mariano José Pereira da Fonseca e outros letrados, uma sociedade literária. As reuniões periódicas destes homens de letras, em tempos em que ainda estava fresca a lembrança da chamada Conjuração Mineira, cujos sócios eram em maioria também homens de letras, foram havidas por suspeitas, dissolvida a sociedade e presos e processados os seus membros.
Mariano da Fonseca nasceu no Rio de Janeiro em 1773, e na mesma cidade faleceu em 1848. Formou-se em matemática e filosofia em Coimbra, o que correspondia à profissão de engenheiro. Como aconteceu geralmente a todos os brasileiros de instrução e mérito da época da Independência, teve importante situação política e social no primeiro reinado, distinções honoríficas e altos cargos, senador, conselheiro de Estado. Aos quarenta ou quarenta e um anos começou a publicar no Patriota, de Araújo Guimarães, as suas Máximas, pensamentos e reflexões, sob o pseudônimo de Um brasileiro. Porventura para lhes dar o peso da autoridade de maior experiência, mais tarde, em nova edição que delas fez, declarou havê-las escrito dos sessenta aos setenta e três. Norberto lhe reparou no equívoco e o corrigiu com razão.92 De 1837 a 1841 publicou, já sob o título de marquês de Maricá, as suas Máximas, pensamentos e reflexões em três partes respectivamente, distribuindo-as gratuitamente. Como ele tenha depois facultado a todos a reimpressão das suas obras, devemos crer que esta rara generosidade obedecia a um pensamento de interesse pela doutrinação moral dos seus patrícios. O marquês de Maricá, como La Rochefoucauld, com quem mui indevidamente o comparou uma crítica mais patriótica que esclarecida, não escreveu em sua vida senão máximas. Ele próprio as computou, na última coleção que delas imprimiu, em 1845. É, pois, segundo a qualificação moderníssima e depois do autor do Compêndio do peregrino da América e de Matias Aires, o primeiro moralista da nossa literatura. Não tinha, porém, uma filosofia sua ou sequer alheia afeiçoada pela sua própria experiência e meditação. Repete os lugares comuns da ética contemporânea, mistura de cristianismo sentimental e de liberalismo político. A sua psicologia, escolástica e vulgar, jamais vai ao fundo das cousas, nem descobre na alma humana novidades ou aspectos recônditos ou inéditos. À sua observação falta finura e penetração, ou originalidade. Faz parte da vulgar sabedoria comum e ele não a soube relevar pelos dons singulares de expressão que o gênero requer, e que são porventura o principal mérito dos seus grandes modelos franceses. Máximas e pensamentos, valem talvez principalmente pela forma que revestem. São o imprevisto, o ressalto, junto à concisão e à justeza desta que os valoriza. O escolho do gênero é a banalidade, clara ou mascarada com o paradoxo ou a singularidade. Neste escolho bateu freqüentemente o marquês de Maricá. Nem por isso perdem as suas Máximas a importância que lhe assinalei de primeiro exemplar do moralismo leigo e literário em a nossa literatura. E para o comum dos leitores que dispensam no assunto refinamentos, sutilezas de idéias e expressão, podem ser leitura agradável e proveitosa, porque o essencial é são e a forma escorreita, sem rebusca indiscreta de purismo e já do nosso tempo e gosto.
José Feliciano Fernandes Pinheiro, visconde de S. Leopoldo, nascido em Santos (S. Paulo) em 1774 e falecido em Porto Alegre (Rio Grande do Sul) em 1847, foi sujeito considerável pela sua ilustração e alta situação social e política no reinado do primeiro imperador. Formado em direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal fez os seus primeiros trabalhos literários, traduções e compilações de assuntos de imediata utilidade prática, ali publicados de 1799 a 1801. No Brasil, após haver exercido diversas comissões de serviço público, foi eleito em 1821, deputado às Cortes da nação portuguesa quando da reforma governamental por que esta passou, e como tal tornou a Portugal. Espírito conservador e moderado, foi dos poucos deputados brasileiros que juraram a constituição por elas feita. De volta ao Brasil em seguida à declaração da Independência, foi aqui deputado geral, presidente de província, ministro do Império, senador e ocasionalmente encarregado de uma missão de caráter diplomático. Por estes serviços teve o título de visconde de S. Leopoldo, nome por que ficou quase exclusivamente conhecido. Além de memórias biográficas de compatriotas ilustres ou sobre limites do Brasil e ainda monografias interessantes para a nossa história literária,93 escreveu uma obra notável para o tempo e ainda hoje estimável, Anais da Capitania de S. Pedro.94 Como livro, quero dizer, sob o puro aspecto bibliográfico, o mais bem feito dessa época, o mais perfeito de composição e estrutura. Não obstante algumas incorreções de linguagem, galicismos e alguns mais graves defeitos de estilo, a sua redação revê o homem educado em Portugal e a leitura dos portugueses. A língua é geralmente melhor do que aqui comumente escrita. Como historiador distingue-se já o visconde de S. Leopoldo por bom critério histórico, aptidões críticas, capacidade de apurar os sucessos nos documentos autênticos de preferência originais ou inéditos, informação segura das fontes ou informes impressos do assunto ou a ele aproveitáveis, arte de dispor e referir os fatos e, notavelmente, menos prolixidade como era, e continuou a ser, de costume. As suas Memórias, publicadas postumamente na Revista do Instituto Histórico (tomos 37-38), conquanto lhes falte o interesse das revelações inéditas e mesmo das indiscrições, que principalmente dão relevo e pico a este gênero de literatura, sem que lho levante também um estilo mais literário, são todavia, até pela raridade delas nas nossas letras, estimáveis.
Todos os mais autores de prosa desta mesma fase ainda menos consideráveis são. Nenhum é um escritor que se faça todavia ler com aprazimento.
Capítulo VIII
O ROMANTISMO E A PRIMEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA
TIVESSE O PRÍNCIPE regente de Portugal, logo depois rei D. João VI, o propósito de preparar o Brasil para a independência, não haveria porventura procedido tão atilada e eficazmente. Por uma série de medidas econômicas e políticas, mal chegado ao Brasil havia ele começado a reforma completa do velho regime colonial, naquilo justamente que mais devia concorrer para despertar nos brasileiros o sentimento da sua personalidade e importância e lhes acoroçoar veleidades porventura latentes de autonomia e emancipação. A autonomia nos dera de fato a transplantação da realeza para cá, a elevação do Brasil a reino e a ereção do Rio de Janeiro em capital da monarquia portuguesa. A emancipação surgiria do conflito dessa autonomia com a insensata contrariedade que lhe criou a reação recolonizadora portuguesa.
Da geração que testemunhou, acompanhou e até fomentou ou promoveu os sucessos da nossa independência política, surgiu um seleto grupo de homens de estudo e letras que lhe completaram o feito insigne, dando à recente nação o abono indispensável da sua capacidade de cultura. É esse grupo que, sob o aspecto literário, chamo a primeira geração romântica, quero dizer os escritores que, influenciados pelo Romantismo europeu e seguindo-lhe aqui os ditames, apareceram de 1836 em diante e cuja atividade se dilatou por um quarto de século.
Além de Monte Alverne (1784-1858), que foi de algum modo um precursor do movimento como o mais escutado preceptor filosófico dos seus principais fautores, e de Magalhães, o seu iniciador, mormente constituem essa geração intelectual, Porto Alegre (1806-1879), amigo e êmulo de Magalhães; Teixeira e Sousa (1812-1861); Pereira da Silva (1817-1898); Varnhagen (1819-1882); Norberto da Silva (1820-1891) e, o maior deles, Gonçalves Dias (1823-1864). Outros nomes podiam alongar esta lista, nenhum, porém, com a significação e importância de quaisquer destes.
Distingue-se esta geração pela versatilidade dos talentos, variedade da obra e propósito patriótico da sua atividade mental. Quase todos eles, senão todos, são poetas, dramaturgos, novelistas, eruditos, críticos, publicistas, e Porto Alegre será demais pintor e arquiteto. No seu ardor pelos créditos intelectuais de sua pátria, parecia quererem completa a sua literatura; que se não limitasse, como até então, quase exclusivamente à poesia.
Quando todos eles se faziam homens, o cônego Januário da Cunha Barbosa, que com grandes créditos de literato e orador sagrado vinha da geração anterior, zeloso dos interesses mentais da novel pátria, fundou com outros letrados e homens de boa vontade o Instituto histórico, geográfico e etnográfico brasileiro. Com a publicação do Parnaso Brasileiro (1829), foi este o melhor serviço prestado por Januário Barbosa, não só às nossas letras, mas à nossa cultura. Teve o Instituto histórico, em verdade, o papel de uma Academia que, sem restrições de especialidades, se abrisse a todos as capacidades nacionais e a todos as lucubrações por pouco que interessassem ao Brasil. E assim, de propósito ou não, deu ao movimento espiritual que se aqui operava uma base racional no estudo da história, da geografia e da etnografia do país, compreendidas todas largamente. Os principais românticos foram todos seus sócios conspícuos e colaboradores da Revista que desde 1839 começou o Instituto histórico a publicar trimensalmente. A todos os literatos brasileiros do tempo serviu esta instituição de traço de união e confraternidade literária e de estímulo.
Além de patriótica, ostensivamente patriótica, a primeira geração romântica é religiosa e moralizante. Estas feições fazem que seja triste, como aliás será a segunda. Somente a tristeza desta é a do ceticismo, do desalento e fastio da vida, segundo Byron, Musset, Espronceda e quejandos mestres seus. A melancolia de Magalhães e seus parceiros é a tristeza de que penetrou a alma humana o sombrio catolicismo medieval. Na alma portuguesa, donde deriva a nossa, aumentou-a a forçada beataria popular, sob o terror da Inquisição e o jugo, acaso pior, do jesuitismo. Rematava-a o descontentamento criado nesses brasileiros pela desconformidade entre as suas ambições intelectuais e o meio. Já em prosa, já em verso, todos eles lastimam-se da pouca estima e mesquinha recompensa do gênio que, parece, acreditavam ter e do desapreço do seu trabalho literário. Não tinha aliás razão. Era inconsiderado pretender que um povo em suma inculto, e de mais a mais ocupado com a questão política, a organização da Monarquia, a manutenção da ordem, de 1817 a 1848 alterada por todo o país, cuidasse de seus poetas e literatos. Não é, todavia, exato que, apesar disso, os descurasse por completo. O povo amava esses seus patrícios talentosos e sabidos, revia-se gostosamente neles, acatava desvanecido os louvores que mereciam aos que acreditava mais capazes de os apreciar. Supria-lhe esta capacidade, o sentimento patriótico restante dos tempos ainda próximos da Independência, e a ingênua vaidade nacional com ela nascida. O imperador começou então o seu mecenato, nem sempre esclarecido, mas sempre cordial, em favor dessa geração que lhe vinha ilustrar o reinado. D. Pedro II, que por tantos anos devia ser a única opinião pública que jamais houve no Brasil, iniciou por esse tempo a sua ação, ao cabo utilíssima, na vida intelectual da nação. Prezando-se de literato e douto, apreciou pelo seu povo incapaz de fazê-lo, e acoroçoou e premiou esses seus representantes intelectuais. Se não todos, a maioria da primeira geração romântica, com muitos outros depois dela, em todo o reinado, mereceram-lhe decidido patrocínio. Revestia este não só a forma de sua amizade pessoal, que aliás nunca chegava ao valimento, porém a mais concreta e prestadia de empregos, comissões, honrarias. E, louvados sejam, não lhe foram ingratos. As principais obras em todos os gêneros dessa época são-lhe dedicadas, em termos que revêem o reconhecimento da munificência imperial. Todos eles foram fervorosos e sinceros monarquistas, menos aliás por amor do princípio que do monarca. E se não pode malsinar-lhes ou sequer suspeitar-lhes a dedicação, sabendo-se quão escrupuloso era o imperante nos seus favores e quão parco era deles. Mas a vaidade, infalível estigma profissional, destes literatos, se não contentava desta alta estima; quisera mais, quisera o impossível, que, como nas principais nações literárias da Europa, dessem às letras aqui consideração, glória e fortuna. Foi esse, aliás, um dos rasgos do Romantismo, o exagero da vaidade nos homens de letras e artistas, revendo a intensidade do descomedido individualismo da escola. Os dessa geração, porém, ainda tiveram pudor de não aludir sequer à feição material das suas ambições, pudor que, passado o Romantismo, desapareceria de todo, principalmente depois da emigração de literatos estrangeiros, industriais das letras, e da invasão do jornalismo pela literatura ou da literatura pelo jornalismo. A desconformidade entre aqueles nossos primeiros homens de letras e o meio, essa, porém, era real, continuou e acaso tem aumentado com o tempo. E basta para, com a mofineza sentimental que, sobre ser muito nossa, era também da época, explicar o matiz de tristeza da primeira geração romântica, no tom geral do seu entusiasmo político literário. Aumentando na segunda geração romântica, nunca mais desapareceria esse matiz das nossas letras, sob este aspecto expressão exata do nosso humor nacional.
Ao contrário do que até então se passava, a educação literária da maioria dos escritores dessa geração se fizera aqui mesmo. Por desgosto da metrópole, entraram a abandonar-lhe a escola, até aí assídua e submissamente freqüentada. Falavam, pois, a língua que aqui se falava, e naturalmente a escreviam como a falavam, sem mais arremedo do casticismo reinol. A que escreveram, e não é por ventura este um dos seus somenos méritos do ponto de vista da nossa evolução geral, mérito que avultará quando de todo nos emanciparmos literariamente de Portugal, não é mais a que aqui antes deles se escrevia. É outro o boleio da frase, a construção mais direta, a inversão menos freqüente. Usam mais comumente dos tempos compostos dos verbos, à francesa ou à italiana. Refogem ao hábito clássico português de nas suas orações de gerúndio começá-las por ele. Colocam os pronomes oblíquos segundo lhes pede o falar do país e não conforme a prosódia portuguesa, que entra então a ser aqui motivo de chufa e troça. Usam de extrema e até abusiva liberdade no colocá-los. Dão maior extensão a certas preposições. A forma do modo finito seguido de um infinitivo com preposição à maneira portuguesa, preferem a do infinito seguido de gerúndio. E propositadamente, ou propositalmente, como escrevem segundo aqui soa, empregam vocábulos de origem americana ou africana, já perfilhados pelo povo. Aceitam as deturpações ou modificações de sentido das formas castiças aqui popularmente operadas, e começam a dar foros de literários a todos esses vocábulos ou dizeres, de fato lidimamente brasileiros e para nós vernáculos, por serem de cunho do povo que aqui se constituía em nação distinta e independente. São, entretanto, parcos de estrangeirismos, quer de vocabulário, quer de sintaxe. O fundo da língua conserva-se neles mais puro, embora sem afetação de casticismo. Sua linguagem e estilo são por via de regra nativos, infelizmente até sem as qualidades essenciais à boa composição literária. Sempre crescendo e avultando segue esta maneira, que começou com eles, até depois da segunda geração romântica. Só na segunda fase do que chamamos modernismo, com a introdução dos estudos filológicos segundo o seu novo conceito, e da sua reação sobre o da língua nacional, consoante os mesmos programas do ensino oficial entraram a chamar à nossa, inicia-se aqui um movimento em contrário àquela indiferença pelo apuro desta. Começa-se então a fazer timbre de escrever bem segundo os ditames gramaticais e os modelos chamados clássicos. A mesma crítica, que até aí descarava este relevante aspecto da obra literária, principia a prestar-lhe atenção e a notá-lo, ainda quando ela própria o desatende. Não sei quem ao cabo tem razão. Foi mais firme já o meu parecer da necessidade de conservarmos o português castiço estreme quanto possível nas modificações que o seu novo habitáculo americano lhe impõe. Começo a convencer-me da impossibilidade de tal propósito. Não o poderíamos realizar senão artificialmente como uma reação erudita, sem apoio nas razões íntimas da mentalidade nacional e com sacrifício da nossa espontaneidade e originalidade. Nem teria tal reação probabilidade de definitivamente vingar numa população que será amanhã de muitos milhões, originariamente de várias e diversas línguas. Não se pode admitir que a gente brasileira se submeta a uma disciplina lingüística de todo oposta aos instintos profundos das suas necessidades de expressão determinadas pela variedade de seus falares ancestrais e pelas exigências imediatas da sua situação social e moral.
Apenas a literatura não deve esquecer que ela é, sobre o aspecto da expressão, uma força conservadora. Sem oferecer resistência caprichosa e desarrazoada à natural evolução da língua que lhe serve de instrumento, cumpre-lhe não se lhe submeter enquanto os seus resultados não tiverem a generalidade de fatos lingüísticos indisputáveis. A intromissão inoportuna da literatura nessa evolução, sobretudo para lhe aceitar indiscretamente todas as novidades inventadas com pretexto dela, não pode senão prejudicá-la naquilo que justamente é importante da sua existência, a sua faculdade de expressão. Se ela, porém, por outro lado, se ativesse rigorosamente ao casticismo português, no genuíno sentido deste vocábulo, o brasileiro acabaria por ficar alheio aos seus escritores e estes aos seus patrícios, por motivo da descorrelação entre a língua falada por uns e a escrita por outros.
E é talvez esta a mais íntima causa da falta de simpatia — agora talvez maior do que dantes — entre os nossos escritores e o nosso povo. Nesta sociedade descomedidamente igualitária, como talvez outra não exista, o escritor e o público vivem inteiramente alheados um do outro pelo pensamento e pela expressão. A reação vernaculista dos maranhenses durante justamente esta primeira fase romântica, não obstante os preclaros modelos de Sotero dos Reis, João Lisboa, Odorico Mendes e Gonçalves Dias, ficou estéril. Destes nomes, o único que sobrevive na memória do povo é o de Gonçalves Dias, o poeta dos versos simples e populares da Canção do Exílio.
Também o segredo da popularidade persistente dos poetas da segunda geração romântica não está somente em que eles foram os de mais rico e sincero sentimento que jamais tivemos, mas em que o exprimiram numa língua e forma poética ao alcance de todos, sem artifício de métrica nem arrebiques de estilo. O mesmo acontece com os principais romancistas dessa fase. Macedo e Alencar, como o documentam os registros da Biblioteca Nacional e vos informarão os livreiros e mais que tudo o provam as suas constantes reimpressões, continuam a ter mais leitores do que os romancistas de hoje, apesar de não terem por si os reclamos do noticiário camaradeiro e das parcerias de elogio mútuo.
Os nossos escritores da primeira geração romântica, se não menos artistas, são também em suma menos artificiosos que os do mesmo período em Portugal. A sua arte literária, quando a têm, é ingênua e canhestra, o que lhes dá ao estilo algo, não de todo desagradável, dos primitivos. Com exceção do pomposo Porto Alegre e de certos poetas menores, como Norberto em algumas das sua infelizes tentativas épicas e dramáticas, os melhores deles escrevem se não singelamente, o que parece incompatível com o nosso gênio literário, todavia em estilo menos torcido e enfático que o geral da ex-metrópole, e do qual não escaparam no mesmo período os melhores dali, porventura com a única exceção relevante de Garrett. Esta relativa simplicidade é uma das virtudes mais estimáveis dos bons poetas da segunda geração romântica. Pecam, entretanto, os de ambas estas gerações pelo excesso de sentimentalismo e de romanesco que, principalmente na ficção em prosa, roça neles pela pieguice e pelo amaneirado do pensamento e da expressão. Não tem ainda as preocupações de forma que chamamos de artísticas. E não eram desses artistas natos da palavra escrita que, sem intenção nem rebusca, acham a forma excelente. Apenas Gonçalves Dias na maior parte da sua obra, e Porto Alegre no seu tão mal julgado quanto desconhecido Colombo, e alguma vez na sua prosa característica, a encontraram. Porto Alegre, cujo bom gosto era menos apurado que o de Gonçalves Dias, prejudicou-se no entanto pela sua inclinação bárbara, mas muito da índole literária nacional, ao pomposo e reluzente do estilo e ao rebuscado do pensamento e da forma.
Capítulo IX
MAGALHÃES E O ROMANTISMO
FAVORECIDO PELA AUTONOMIA de fato resultante da mudança da Corte portuguesa para cá, pelo apartamento intelectual da metrópole começado a operar com a criação de faculdades, escolas, institutos de instrução e da imprensa, e, sobretudo, pela total independência política proclamada em 1822, e efervescência cívica por ela produzida, manifestou-se no Brasil, por volta de 1840, o movimento de reforma literária chamado o Romantismo.
É aos Suspiros poéticos e saudades, coleção de poesias publicada em Paris, em 1836, por Domingos José Gonçalves de Magalhães, que ele próprio, os críticos e leitores contemporâneos atribuíram o início do Romantismo aqui. Razoavelmente se não pode discordar deste conceito. O leitor de hoje, entretanto, só com esforço e aplicação encontrará nesse livro o que plenamente o justifique. E somente da comparação com o que era aqui a poesia antes dele, lhe virá a certeza de que não é errado.
Tem um duplo caráter a inspiração desses poemas, patriótico e religoso. O patriotismo, significando com esta palavra não só o amor e devoção da terra, mas o sentimento da sua distinção de Portugal, já era, desde os mineiros, e aumentada pelos poetas difíceis de dominar que lhes sucederam, a feição particularmente notável da poesia brasileira. Era aliás apenas o desenvolvimento do nativismo nela manifestado desde o século XVII, que se acentuava na proporção do progresso do país. A religião, ou melhor a religiosidade poética de Magalhães, era o produto direto da revivescência religiosa operada na Alemanha pelo idealismo filosófico de Kant e Hegel, em França pelo sentimentalismo católico de Chateaubriand. E mais o resultado imediato da influência de Monte Alverne, o facundo professor dessa filosofia, mestre muito querido e admirado do poeta.
Em nenhum destes dois rasgos da poética de Magalhães há mais que traços, como se diria em química, do movimento de emancipação estética desde o fim do século anterior iniciado na Europa. Traços iguais encontram-se em José Bonifácio e, apenas mais apagados, em Sousa Caldas. O impressionismo poético dos Suspiros e saudades, revelado no livro por poemas inspirados das ruínas romanas, da meditação sobre a sorte dos impérios, dos grandes espetáculos da natureza ou das magníficas fábricas humanas, gerando o assombro da grandeza de Deus e dos prodígios do Cristianismo, a nostalgia curtida entre túmulos e ciprestes, a cisma dos destinos da pátria, nas paixões humanas e no nada da vida, todos temas aqui novos, já é certamente, por mais de um aspecto da inspiração e da expressão, romântico, como romântico é o subjetivismo de que procede essa impressão poética. Mas o é sem clara consciência ou intuição profunda. Se do prefácio que sob o vocábulo de "Lede" lhe pôs o poeta, páginas de pouco valor filosófico ou estético, algo pode tirar-se é que o poeta não concebia a poesia senão como um "aroma d’alma", que "deve de contínuo subir ao Senhor"; "som acorde da inteligência" "deve santificar as virtudes e amaldiçoar o vício". "O poeta, resume ele em um vazio anfiguri, empunhando a lira da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Santo, do Justo e do Belo." E logo abaixo exprobra "à maior parte dos nossos poetas" e "ao mesmo Caldas, o primeiro dos nossos líricos" "não se terem apoderado desta idéia". Essas páginas anódinas, mal pensadas e mal escritas, nada têm do ardor dos iniciadores ou neófitos da nova escola fora daqui. Delas se não deduz nenhuma idéia clara da estética do poeta e do seu conceito dessa escola. Procurou dá-la desde o aparecimento do livro, Sales Tôrres Homem, o futuro Visconde de Inhomirim, que então ainda fazia literatura, num artigo da Niterói, Revista Brasiliense, ao tempo publicada em Paris. Apenas, porém, com um pouco mais de clareza que o mesmo poeta. Sales Tôrres Homem via o Romantismo como uma reação contra o paganismo e a literatura deste derivada, assim como via que da mesma fonte cristã bebiam inspirações "não só a poesia, como as artes e a filosofia, irmã da teologia". E põe de manifesto a inspiração religiosa e patriótica do poeta, que é também a da sua crítica. Como a patriótica, a inspiração religiosa não era uma novidade na poesia brasileira. Estavam frescos os exemplos de Sousa Caldas e de Elói Otôni, além de mostras acidentais de outros poetas contemporâneos destes ou seus antecessores. Deus, sob vários vocábulos (até o de Tupá: "Tupá, ó Númen dos meus pais", de Firmino Rodrigues Silva) e perífrases, bem como a religião e seus mistérios entravam freqüentemente em tropos, imagens, figuras e em toda a poética daquela fase intermédia. Erraria quem destas manifestações inferisse um íntimo e forte sentimento religioso nesses poetas e no povo cujos órgãos eram. É um simples vezo, um cacoete literário, oriundo da sua educação, inteiramente eclesiástica. Desde que se iniciou, com o primeiro estabelecimento dos portugueses, até o começo da segunda metade do século XIX, a instrução aqui foi toda e exclusivamente dada por padres nas escolas, colégios e seminários, e ainda nas famílias. Os homens mais instruídos, os letrados que encheram as listas de sócios das academias literárias coloniais, eram em sua maioria padres ou frades, doutores em cânones, homens de igreja em suma. A forma oral e popular da literatura tinha a sua mais alta, mais freqüente e mais autorizada expressão no sermão. Desta educação recebida, na escola e fora dela, de eclesiásticos, mais do que um real sentimento religioso resultou o hábito de expressões de caráter religioso não só em a nossa conversação corrente, mas em nossos escritos, discursos, poesias. São antes tropos, frases feitas, locuções proverbiais que a expressão de verdadeiro sentimento religioso. Justamente nesta fase, os dois sentimentos, patriótico e religioso, misturavam-se aqui. Nas crises nacionais graves, como nos transes individuais, o espírito humano apavorado, revendo a origem deste sentimento, faz-se religioso. Aqui, demais, eram em grande número eclesiásticos os principais adeptos e fatores da revolução que se operava. Do púlpito, as vozes mais ou menos eloqüentes de Januário Barbosa, de S. Carlos, de Sampaio e de Monte Alverne pregavam ao mesmo tempo pela religião e pela pátria. Nas aulas, mestres, em maioria clérigos regulares ou seculares, juntavam às suas lições fundamentalmente religiosas as suas excitações patrióticas. No Rio de Janeiro, o principal centro de cultura e de vida literária do país, como o principal foco do movimento da independência nacional, Fr. Francisco de Monte Alverne fazia do púlpito ou da cátedra estrado de tribuno político, misturando constantemente, com eloqüência retumbante, havida então por sublime, a religião e a pátria. De resto, o Romantismo europeu, mesmo na Alemanha, foi em seus princípios, não só uma reação religiosa, mas até católica. Esta sua feição bastava para o tornar simpático aqui, onde o elemento eclesiástico era mentalmente preponderante.