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História da Literatura Brasileira

José Veríssimo

Foi este meio e momento que produziu Magalhães. Nascido em 1811 no Rio de Janeiro, a sua infância, adolescência e juventude passaram-se na quadra mais ativa e efervescente da nossa vida política, que justamente então em verdade começava. Era menino de onze anos pela Independência, e pelo 7 de abril entrava em plena juventude. Coincidiu-lhe a idade viril com a da pátria. Se houvesse em Magalhães maior personalidade, mais caráter, quero dizer qualidades morais salientes e ativas que lhe estimulassem o engenho, o momento e o meio teriam podido fazer dele um grande poeta. Não logrou ser senão um distinto poeta, cujo sentimento se ressente das circunstâncias em que se criou, cujo estro e inspiração revêem aquele meio e momento, mas sem o relevo e a distinção que foi de moda atribuir-lhe. Não se veja, aliás, nessa atribuição apenas a mesquinhez do gosto e do senso crítico do tempo ou um efeito das camaradagens literárias do autor, senão a conseqüência dos mesmos exaltados sentimentos nacionais do momento. Nem foi ele o único a quem esta circunstância aproveitou. Ao contrário, ela influiu preponderantemente na admiração ingênua e desavisado apreço que os nossos avós da primeira geração após a Independência tiveram por todos os seus poetas e literatos. A sua vaidade patriótica, então exagerada, desvanecia-se deles, como prova da nossa capacidade mental a opor às presunções e preconceitos portugueses da nossa inferioridade. E, ou fosse porque candidamente estivessem persuadidos do mérito dos escritores patrícios, ou por despique da opinião da metrópole, lho encareciam descomedidamente. Que, por Magalhães, não era a manifestação de uma parceria ou conventículo de literatos, mas o sentimento geral e sincero mostra-o o terem dele aproveitado ainda os mais medíocres. Tal sentimento é o inspirador da crítica nimiamente laudatória e até louvaminheira da época, e que se continuaria até nós em virtude de um hábito adquirido. É também esse sentimento, ininteligente certamente, mas ao cabo respeitável, que levaria os primeiros historiadores das nossas letras, que justamente então começam a aparecer, à enumeração fastidiosa e inútil de nomes e nomes, e a juntar-lhes os mais descabidos encômios.

Antes dos Suspiros poéticos e saudades, publicara Magalhães, em 1832, um volume de Poesias, reproduzido mais tarde nas Poesias avulsas (Rio de Janeiro, Garnier, 1864). Superabunda de provas de que àquela data estava ainda Magalhães no subarcadismo reinante em Portugal e aqui em todo o primeiro quartel do XIX século e continuado até o pleno advento do Romantismo. Sob a influência desse subarcadismo ou pseudoclassicismo, como se lhe tem chamado, conservou-se Magalhães ainda nas duas décadas seguintes. E acaso se pudesse dizer que, salvo a exceção da Confederação dos Tamoios e de parte a intenção do seu teatro, nunca se lhe emancipou de todo. Como o seu amigo e êmulo Porto Alegre, era Magalhães de temperamento mais um árcade que um romântico, e mais do que àquele acontecia, lhe iam contra a índole as audácias do Romantismo, naturais e necessárias nos movimentos revolucionários como foi esse. Há poemas seus dos anos de 40, e até de 60, de todo em todo arcádicos, odes pindáricas, com os obsoletos cortes clássicos de estrofes, épodos e antiestrofes, a terminologia mitológica, os tropos e figuras da velha retórica quintilianesca, com que os pseudoclássicos de todos os países desde a Renascença ingenuamente presumiram emular com os latinos e gregos e reproduzi-los. Nessas poesias avulsas bem pouco há que, ao menos pela inspiração e estilo, eleve Magalhães acima dos poetas seus imediatos predecessores, nem que o separe deles. Apenas na composição e forma desses poemas é possível notar alguma diferença na maior objetividade dos assuntos e ainda nos títulos de diversas composições. Ao amor da pátria, à liberdade, à guerra, ao dia 25 de março, ao dia 7 de abril e quejandos, não são comuns na poesia anterior. Talvez se pudesse dizer que pronunciam o individualismo romântico assuntos e títulos como À saudade, A volta do exílio e outras inspiradas de motivos pessoais, assim como as Noites melancólicas, se o seu íntimo sentimento e estilo não fossem ainda os da poética dominantes antes do Romantismo. Compõe elogios dramáticos em verso, como o da Independência do Brasil, tal qual Tenreiro Aranha, e cartas amistosas em prosa e verso, tal qual Sousa Caldas. Escreve epicédios, liras, epístolas, copiosamente, perluxamente mas sem engenho que revigore e alente essas formas de todo gastas. Aliás o vinco dessas categorias poéticas era profundo na poesia da nossa língua, e o próprio Golçalves Dias ainda capitulou com ele quando já era de todo anacrônico e impertinente o seu emprego.

No mesmo ano em que, com 21 de idade, estreara com as Poesias (1832), partiu Magalhães para a Europa, em viagem de instrução e recreio. Para ser doutor, título aqui indispensável de recomendação, formara-se antes em medicina no Rio de Janeiro. Quatro anos depois apareciam em Paris os Suspiros poéticos e saudades.95

Nesse período percorrera a França, a Bélgica, a Itália, a Suíça. Não foi grande a modificação que o contato de cousas novas e sugestivas operou na sua índole poética. Em suma os Suspiros poéticos, acolhidos e saudados como uma renovação literária, não se distinguem com tal relevo das Poesias do ano de 32, que sem mais exames possamos atribuir-lhe aquele efeito. Teve-o entretanto.

As formas poéticas eram outras, já a dos poemas soltos não sujeitos a uma nomenclatura preestabelecida. Bania o poeta, ou ao menos olvidava, as odes com as suas repartições clássicas, e o resto daquelas categorias, e quando se endereçava aos amigos não mais lhes trocava os nomes por apelidos arcádicos, como nas Poesias avulsas. O soneto, forma estrófica de que os árcades usaram e abusaram, e numerosos na primeira coleção, desaparece totalmente desta, onde não se nos depara nenhum. O Romantismo foi parco em sonetos. Há mais variedade, mais liberdade nas formas métricas e quase nenhum socorro aos recursos mitológicos ou clássicos. O próprio título da coleção indica uma subjetividade, um sentimentalismo maior, e da leitura verifica-se que é de fato maior e influi na emoção dos próprios poemas objetivos. O poeta refere e reporta a si, o que é bem romântico, todas as comoções que lhe vêm dos aspectos da natureza, da contemplação dos sucessos humanos, das meditações sobre temas e ficções abstratas. Mistura-lhes constantemente a sua nostalgia, o seu pesar, os sofrimentos que experimenta ou cisma. Da biografia conhecida de Magalhães não parece tenha sido desventurado ou tido grandes penas na vida. Ao invés, quanto dele sabemos, foi um mimoso da fortuna. Dos seus poemas, entretanto, resultaria a presunção contrária. É talvez ele quem inaugura na poesia brasileira o estilo lamuriento dos que já algures chamei de nostálgicos da desgraça, moda poética que tanto floresceu aqui. Não achou, no entanto, a sua dor, talvez por não ser verdadeiramente sentida, nenhuma expressão bastante forte para nos comover também a nós. O abstrato do seu estilo, porventura a sua característica, sob o aspecto do estilo, concorreu ainda mais para diminuir-lhe a intensidade da emoção já de si, parece, pouco profunda e o calor da expressão, apenas altieloqüente. Daí, e da prolixidade, outra feição do seu poetar, o desmaio e o banal da sua poesia, apesar dos seus propósitos filosóficos. É que ele lhe pôs não os seus íntimos sentimentos atuados pela sua filosofia, as suas emoções apenas influídas por ela, senão os próprios ditames da escola e do livro, e levou para a sua arte intenções pedagógicas. Os passos de inspiração filosófica dos seus poemas são puramente didáticos e não a expressão de uma simples emoção poética:

Não, o medo não foi quem sobre a terra

Os joelhos dobrou ao homem primeiro,

E as mãos aos céus ergueu-lhe. Não, o medo

Não foi o criador da Divindade!

Foi o espanto, o amor, a consciência,

E a sublime efusão d’alma e sentidos,

Viu o homem seu Deus por toda a parte,

E a sua alma exaltou-se de alegria.

Todo esse poema O Cristianismo, cujos são estes desenxabidos versos, é didático, sem que um sentimento poético, inspirado embora do religioso, se nele manifeste de maneira a tocar-nos. Noutro seu poema, muito celebrado, todo ele justificativo deste conceito, se nos deparam trechos como o seguinte, antes versos de professor de filosofia que de poeta filósofo:

Assaz, oh Deus, o homem sobre a terra

Revela teu poder, tua grandeza,

A Razão, és tu mesmo; a liberdade,

Com que prendaste o homem, não, não pode

Dominar a Razão, que te proclama!

Se muda para mim fosse a Natura,

Na Razão que me aclara, e não é minha,

Senhor, tua existência eu descobrira.

Em arte não basta não imitar para ser original. Não se descobre em Magalhães imitações, nem predileção por algum dos mestres do Romantismo. Mas também se lhe não lobriga originalidade. Se alguma tinha, prejudicou-a a sua filosofia de escola, o seu demasiado respeito das tradições literárias, e obliterou-lha o abstrato e o fluido do seu estilo poético. A diplomacia, carreira em que apenas estreado em letras entrou, com a sua gravidade protocolar, a sua artificialidade, a sua futilidade, a sua compostura de mostra, não devia ter pouco contribuído para sufocar em Magalhães, ou amesquinhá-los, os dons poéticos mais vivazes que porventura recebera na natureza. Influências de filosofia escolástica e livresca e do decoro da situação social fazem-no versejar os mais triviais lugares-comuns:

Um Deus existe, a Natureza o atesta:

A voz do tempo a sua glória entoa,

De seus prodígios se acumula o espaço;

E esse Deus, que criou milhões de mundos,

Mal queira, num minuto

Pode ainda criar mil mundos novos.

Se a sua emoção poética, a sua inspiração, carece de profundeza, pobre é também a sua expressão. Raro se faz nalguma forma sintética, conceituosa ou intuitiva. Por via de regra se derrama em um longo fraseado, com exclamações e apóstrofes. Roma lhe não inspira senão banalidades da sua história corriqueira e dos seus mais triviais aspectos:

Roma é bela, é sublime, é um tesouro

De milhões de riquezas; toda a Itália

É um vasto museu de maravilhas.

Eis o qu’eu dizer possa; esta é a Pátria

Do pintor, do filósofo, do vate.

O prosaico escandaloso destes versos não é uma exceção ou uma raridade. De todo este grosso volume dos Suspiros poéticos (mais de 350 páginas) apenas vive hoje, e merece viver, o Napoleão em Waterloo, que sem ter a profundeza, a intensa emoção humana e poética do Cinque magio, de Manzoni, salva-se por um alevantado sopro épico e sem embargo de alguns desfalecimentos, uma bela forma eloqüente e comovida.

O que os contemporâneos acharam de novo no livro, e o pelo que ele os impressionou, foi, com a ausência dos fastidiosos e safados assuntos antes preferidos, mitológicos e clássicos, dos rançosos tropos da caduca retórica, a personalidade do autor. Não se revelava esta no vigor do sentimento ou no ressalto da expressão, como com Victor Hugo em França ou Garrett em Portugal, mas se apresentava nas numerosas referências a si mesmo, nas suas declarações de fé e de princípios, nas suas confissões e lástimas. Por pouco que tudo isso fosse realmente, ou por pouco que nos pareça a nós, foi então, com ajuda do sentimento nacionalista predominante, achado muito. A despeito das restrições que podemos fazer hoje, havia ainda nos Suspiros poéticos, e se não enganaram os contemporâneos, a exalação de uma alma, tocada da nova graça romântica, influída, por pouco que fosse, pelo sopro da liberdade estética que agitava a atmosfera européia e tão bem se casava com o de liberdade política que soprava em sua pátria. E às vezes exalava-se linda e sentidamente:

Castas Virgens da Grécia,

Que os sacros bosques habitais do Pindo!

Oh Numes tão fagueiros,

Que o berço me embalastes

Com risos lisonjeiros

Assaz a infância minha fascinastes.

Guardai os louros vossos,

Guardai-os, sim, qu’eu hoje os renuncio.

Adeus ficções de Homero!

Deixai, deixai minha alma

Em seus novos delírios engolfar-se,

Sonhar com as terras do seu pátrio Rio;

Só de suspiros coroar-me quero,

De saudades, de ramos de cipreste;

Só quero suspirar, gemer só quero.

E um cântico formar co’os meus suspiros.

Assim pela aura matinal vibrado

O Anemocórdio, o ramo pendurado,

Em cada corda geme,

E a selva peja de harmonia estreme.

Renunciando às musas clássicas, é, entretanto, na sua língua que lhes refoge. Distingue o Magalhães dos Suspiros poéticos da geração poética precedente e do mesmo Magalhães dos versos de 32, outra feição muito do Romantismo, a soberba do poeta, o senso da nobreza da sua missão, a alevantada ambição que se lhe gera deste pressuposto. São manifestações do individualismo romântico, embora nele contidas, mais discretas do que acaso cumpria, sem os entusiasmos, transbordantes até à descompostura, de muitos dos corifeus da escola. Leiam-se o Vate, A Poesia, A Mocidade. Este poema sobretudo revê, e não sem intensidade, aquela "tragédia da ambição" que, segundo Brandes, se apresentava na alma da juventude romântica francesa. Como quer que seja, esse grosso volume de poesias teve, de 1836 a 1865, três edições, fato aqui extraordinário.

Que no fundo de Magalhães, porém, havia permanecido o árcade retardatário das Poesias de 1832, provam-no os poemas posteriores a 1836, publicados sob o título de Poesias várias, como segunda parte das Poesias avulsas, em 1864. Neles volta à poética apenas esquecida nos Suspiros. Prova-o mais, de desde o título, a sua posterior coleção de versos, Urânia, em que tudo lembra mais a poética obsoleta que a em voga.

A inspiração poética, como a forma que a realiza, ou o estilo, é função do temperamento do poeta que a condiciona. O de Magalhães era evidentemente mais consoante ao pensamento geral e à poética dos últimos cinqüenta anos, do que com as idéias e a poética do seu tempo. Pode ser que, como ele próprio insinua através de Wolf, fosse o Romantismo alemão, simplesmente como expressão do sentimento nacional, como revolta contra a servidão de todo o mundo ao classicismo francês, que lhe atuasse o estro. Em todo caso, sob uma forma comedida e reportada, revendo o seu medíocre entusiasmo pelo movimento, cujo promotor e chefe, mais por força das cousas quer por íntima persuação, foi aqui.

Se Magalhães houvera ficado nos Suspiros poéticos, talvez fosse apenas um nome a mais no comprido rol dos nossos poetas. Quaisquer que fossem os méritos dessa coleção, não eram tais que só por ela pudesse o autor tomar na literatura brasileira a importância que alcançou. Deu-lha mui justamente o volume e a variedade da sua obra, provando nele capacidades que, sem serem sublimes, eram menos comuns, aptidões literárias diversas e vocação literária incontestável.

Magalhães, e o seu exemplo influiria os seus companheiros e discípulos da primeira geração romântica, sentiu que o renovamento literário de que as circunstâncias o faziam o principal promotor, carecia de apoiar-se em um labor mental mais copioso, mais variado e mais intenso, do que até então aqui feito, e que uma literatura não pode constar somente de poesia, e menos de pequenos poemas soltos. Com esta intuição, senão inteligência clara do problema, que para ele e os jovens intelectuais seus patrícios se estabelecia, Magalhães colaborou em revistas com ensaios diretamente interessantes ao movimento literário e ao pensamento brasileiro, criou, com Martins Pena, o teatro nacional, iniciou, com Teixeira e Sousa, o romance, reatou com os Tamoios a tradição da poesia épica do Caramuru e do Uraguai, fez etnografia e história brasileiras, deu à filosofia do Brasil o seu primeiro livro que não fosse um mero compêndio, e ainda fez jornalismo político e literário, e crítica. Pela sua constância, assiduidade, dedicação às letras, que a situação social alcançada no segundo reinado, ao contrário do que foi aqui comum, nunca lhe fez abandonar, é Magalhães o primeiro em data dos nossos homens de letras, e um dos maiores pela inspiração fundamental, volume, variedade e ainda mérito da sua obra. Pode dizer-se que ele inicia, quanto é ela possível aqui, a carreira literária no Brasil, e ainda por isso é um fundador.

Os preconceitos pseudoclássicos de Magalhães e a sua índole literária, sempre mais arcádica que romântica, levaram-no no teatro à tragédia, na poesia ao poema épico. Em ambos os casos inspirou-o o espírito nacionalista da época, o propósito de fazer literatura nacional, de assunto e sentimento. Declara ele próprio o seu desejo de encetar a carreira dramática com um assunto nacional. A sua estética confessada no prefácio da tragédia de Antônio José lhe oscila entre "o rigor dos clássicos e o desalinho dos românticos". Como eclético de temperamento e de filosofia, admirador fervoroso de Cousin, Magalhães toma a posição soberba de um artista alheio e superior a escolas, emancipado. "O poeta independente, diz ele no seu magro Discurso sobre a história da literatura do Brasil, citando Schiller,96 não reconhece por lei senão as inspirações de sua alma, e por soberano o seu gênio." Gênio é uma palavra de que Magalhães abusava, metendo-a até um passo onde forçosamente se referia a si próprio. Infelizmente, gênio não tinha nenhuma, e a postura de poeta independente que alardeava não lhe calhava ao modesto engenho. Era a formação pseudoclássica do seu espírito, consoante com a sua índole literária, e o seu ecletismo filosófico que lhe impunham essa atitude. O próprio título de tragédia que deu às suas peças de teatro contrastava o parecer do Romantismo, que em nome da liberdade da arte, e da verdade humana, refugava a velha fórmula clássica.

96Opúsculos históricos e literários, 2.ª edição. Rio de Janeiro, Garnier, 1865,270.

O renovador do teatro, e simultaneamente principal fautor do Romantismo português, Garrett, não por simples imitação, mas com razões excelentes, chamou ao seu admirável Frei Luís de Sousa de "drama", não obedeceu à regra dos cinco atos e escreveu-o em prosa, porventura a mais bela que jamais se fez em nossa língua. Magalhães, que tem sobre Garrett o mérito da prioridade na introdução do teatro moderno em português,97 ao invés deliberadamente chamava à sua de tragédia, punha-lhe os cinco atos clássicos, embora para isso tivesse de derramar a composição, e fazia-a em verso, segundo a fórmula consagrada. Distinguem-na, porém, do mesmo passo revendo a influência do Romantismo, o assunto moderno e nacional, a familiaridade da expressão apesar do verso clássico, e o pensamento liberal que a inspira, não obstante o catolicismo do autor. Não será o Antônio José, sob o puro aspecto literário e estético, uma perfeita ou sequer notável obra d’arte, mas é sem dúvida um documento muito apreciável da capacidade do poeta, e não de todo sem força dramática ou beleza de expressão. E, o que muito importa, no conjunto da nossa literatura dramática, sobre a iniciar, não é despecienda. Sente-se ainda que é uma obra feita de inspiração. Põe-no de manifesto o contraste com o Olgíato, obra prolixa, difusa e declamatória. O Otelo é apenas a tradução em verso da incolor tragédia do pseudoclássico francês Ducis, a qual nesta dinamização já nada conserva da fortíssima emoção shakespeariana.

Como quer que seja, o impulso da literatura dramática estava dado. Em outubro do mesmo ano de 1838, Martins Pena, engenho teatral mais nativo que Magalhães, fazia representar a sua primeira comédia, O juiz de paz na roça, lidimamente brasileira, por figurar com toda a verdade um aspecto cômico da nossa vida. Seguindo o exemplo de Magalhães, todos os românticos escreverão teatro. Nenhum, porém, antes da segunda geração, com o talento, a arte e o sucesso dele.

Da impressão feita na mente portuguesa pela epopéia de Camões, resultou não só em Portugal mas no Brasil a criação épica, que é um dos mais curiosos aspectos da literatura da nossa língua. Desvaneceram-se dela por tal forma os portugueses, que é de ver o filaucioso entono com que presumiram amesquinhar a literatura francesa, reprochando-lhe a carência de uma epopéia. Ao contrário, eles as tinham em demasia. Desta opinião resultou mais o parvoinho pressuposto de que um poeta, para merecer inteira estimação, cumpria-lhe escrever um poema épico. Aos brasileiros herdaram o seu preconceito. Os nossos românticos encontravam-no sancionado pelos exemplos de Bento Teixeira, de Santa Rita Durão, de Basílio da Gama, de Cláudio da Costa e de outros poetas autores de poemas épicos mais ou menos consideráveis. No propósito deliberado de fomentar a literatura da nação estreante, Magalhães fizera poesia, fizera teatro, fizera novela, escrevera ensaios filosóficos, históricos e literários. Em 1856 coroou, segundo seria a sua mesma persuasão, a sua obra de renascença com um poema épico, em dez cantos, em endecassílabos soltos, de assunto e de inspiração nacional, a Confederação dos Tamoios.

O aparecimento desta obra foi um acontecimento literário. Contra ela escreveu José de Alencar, então estreante, uma crítica acerba, e o que é pior, freqüentemente desarrazoada. Saíram-lhe em defesa ninguém menos que Monte Alverne e o próprio Imperador D. Pedro II, que fora, às ocultas, o editor do poema. Tinha razão Magalhães quando do seu citado estudo sobre a história da nossa literatura notava que no começo daquele século "uma só idéia absorve todos os pensamentos, uma idéia até então quase desconhecida; é a idéia da pátria; ela domina tudo, e tudo se faz por ela e em seu nome. Independência, liberdade, instituições sociais, reformas políticas, todas as criações necessárias em uma nova nação, tais são os objetos que ocupam as inteligências, que atraem a atenção de todos, e os únicos que ao povo interessam". Continuava verdadeira a sua observação, e desse sentimento menos de são patriotismo que de vaidade patriótica aproveitou ele largamente, e aproveitava agora no sucesso da Confederação dos Tamoios. O que principalmente disseram do poema os seus defensores é que era uma obra de inspiração patriótica. Este errado critério de juízo de uma obra literária ou artística permaneceria nos nossos costumes, como um vício de crítica irradicável, e ainda não desapareceu de todo. O próprio Alencar, três lustros depois, defendendo obras suas dos ataques da crítica ou da opinião pública, apelava para o sentimento patriótico que lhas inspirava. Este indiscreto sentimento, principalmente, ajudou a nomeada que no seu tempo teve a Confederação dos Tamoios, como em geral favoreceu a obra dos nossos primeiros românticos, dele inspirada.

O poema de Magalhães apareceu um ano antes dos quatro cantos dos Timbiras, de Gonçalves Dias. Parece, entretanto, que os contemporâneos não repararam que a Confederação dos Tamoios, voltando ao índio estreado na poesia brasileira por Basílio da Gama e Durão, nada criava, mas apenas seguia a sua retauração nela, desde 1846 feita por Gonçalves dias nos seus Primeiros cantos. Apenas à feição que se chamou indianismo, e que foi de princípio a mais singular do nosso Romantismo, trouxe o poema de Magalhães o concurso precioso de uma obra considerável e de um homem socialmente mais considerado que Gonçalves Dias, com altas e prestigiosas amizades e relações, poeta então muito mais estimado que o seu jovem êmulo. Era ainda o momento em que um falso critério sociológico e um desvairado sentimentalismo queriam fazer do índio um elemento demasiado interessante da nossa nacionalidade. Portanto, lisonjeava o sentimento público, e lhe aproveitava da simpatia. A Confederação dos Tamoios não criou na nossa literatura o que se viria chamar "indianismo", e que se não foi todo o nosso Romantismo, foi a sua feição mais peculiar. Mas, com a autoridade literária de que então gozava o seu autor, trouxe à iniciativa de Gonçalves Dias uma cooperação apenas inferior à ação deste, se é que no momento não foi havida por superior. Em 1859, três anos depois da Confederação, apresentava Magalhães ao Instituto histórico uma extensa memória sobre Os indígenas do Brasil perante a história, que poderia ser como o comentário perpétuo de seu poema. O fim declarado desse trabalho é reabilitar o elemento indígena. Não era outro o íntimo pensamento do indianismo.98

Magalhães foi principalmente e sobretudo poeta. Por sua obra de poeta influiu poderosamente na implantação do Romantismo aqui, e, portanto, na fundação da literatura que desde então se começa a distinguir da portuguesa. Mas escreveu também prosa, ensaios diversos e tratados filosóficos. Como prosador é seguramente, não obstante alguns defeitos nativos (como o já ridiculamente famoso da colocação dos pronomes), um dos mais vernáculos, pela propriedade do vocabulário, sempre nele castiço, e de parte os legítimos sacrifícios ao seu falar brasileiro, pela correção sintática do fraseado. É mais simples, mais natural, menos rebuscado ou trabalhado o seu estilo do que era o dos escritores que aqui o precederam, e ainda da maior parte dos que se lhe seguiram. Sob o aspecto da linguagem e estilo são escritos estimáveis, e que se deixam ainda ler sem dificuldade, antes com aprazimento, os seus opúsculos citados. A sua Biografia do padre Mestre Fr. Francisco de Monte Alverne, e páginas suas de literatura amena como O pavão, podem passar por exemplos de boa prosa, como não era vulgar na época.


Capítulo X

OS PRÓCERES DO ROMANTISMO

I — PORTO ALEGRE

MANUEL DE ARAÚJO PORTO ALEGRE nasceu no Rio Grande do Sul em 29 de novembro de 1806 e faleceu, feito Barão de Santo Ângelo, em Lisboa, em 29 de dezembro de 1879. Como crescidíssimo número de literatos brasileiros, era um autodidata. Após os primeiros e forçosamente mofinos estudos preparatórios feitos na sua província natal, veio para o Rio de Janeiro em 1827.99 Destinava-se à Academia Militar. Não indicava este propósito nenhuma vocação pela carreira das armas. Porto Alegre cedia à necessidade que levou tantíssimos moços brasileiros pobres a procurarem aquela escola para adquirirem economicamente uma instrução que de outro modo não poderiam fazer. Como lhe falhasse a matrícula na Academia Militar, voltou-se para a de Belas-Artes, onde ao cabo do primeiro ano alcançou o prêmio de pintura e arquitetura. O pintor Debret, daquele grupo de artistas franceses que no tempo de D. João VI vieram aqui fundar o ensino artístico, foi um dos seus mestres e por tal maneira se lhe afeiçoou, que regressando à França, em 1831, levou-o consigo. Até o ano de 1837 viajou Porto Alegre pela Bélgica, Itália, Suíça, Inglaterra e Portugal, e nessas viagens completou a sua instrução geral e educação artística. Voltando ao Brasil nesse ano, fundou com outros o Conservatório Dramático e a Academia de Ópera Lírica, e tomou parte ativa e conspícua no movimento literário do Romantismo, colaborando em várias revistas, dirigindo outras, trabalhando no Instituto Histórico e publicando obras diversas. Posteriormente entrou para o Corpo Consular, tornando à Europa, que desde 1859 quase sempre habitou e onde morreu. Em Paris pertenceu ao grupo da Niterói, revista brasileira de ciências, letras e artes ali publicada em 1836, e que serviu de órgão à iniciação da literatura brasileira no Romantismo. Do mesmo grupo eram Magalhães e Sales Tôrres Homem, que a política devia em breve tomar às letras. Nesse período estreou com o poema A voz da natureza, composto em Nápoles, em 1835. Este "Canto sobre as ruínas de Cumas" é naquela época um poema estranho, inteiramente fora dos moldes da poesia contemporânea, alguma coisa que, não obstante fraquezas de inspiração e forma, se aproxima da poesia bem mais moderna da Lenda dos séculos e que tais interpretações poéticas da história. Em 1843, noutra revista que foi parte importante no movimento do nosso Romantismo, a Minerva Brasiliense, deu Porto Alegre à luz as suas primeiras Brasilianas. Muito mais tarde as reuniu em volume com outras composições e este mesmo título, que era de si um programa literário.100 A sua intenção declara-o ele no prefácio, não lhe pareceu ficasse baldada, "porque foi logo compreendida por alguns engenhos mais fecundos e superiores que trilharam a mesma vereda". E em seguida confessa ter desejado "seguir e acompanhar o Sr. Magalhães na reforma da arte, feita por ele em 1836 com a publicação dos Suspiros poéticos e completada em 1856 com o seu poema da Confederação dos Tamoios". O testemunho precioso de Porto Alegre ratifica plenamente o consenso geral dos contemporâneos do papel principal de Magalhães no advento do nosso Romantismo. Porto Alegre é, entretanto, um engenho mais vasto, mais profundo, mais completo que o seu amigo e êmulo. E mais pessoal também, e mais intenso. Não obstante não é, como não era Magalhães, um romântico de vocação ou de índole. Pelo menos nenhum deles o foi como serão os da geração seguinte à sua. Ao Romantismo dos dous preclaros amigos faltam algumas feições, e acaso das mais características, desse importante fato literário, como o extremo subjetivismo e o individualismo insólito. Quase lhes ficou estranho, principalmente a Porto Alegre, o amor, que em Magalhães é apenas o amor comedido, burguês, doméstico, ao invés justamente do que cantavam e faziam os corifeus do Romantismo europeu. Esta falta lhes amesquinhou o estro e a expressão, em ambos sempre mais retórica, mais eloqüente mesmo que sentida. As Brasilianas são uma obra de escola e de propósito, em que a intenção, louvabilíssima embora e às vezes realizada com talento, é mais visível que a inspiração. Estão muito longe da emoção sincera e tocante das Americanas, de Gonçalves Dias, que viriam dar ao íntimo sentimento brasileiro, qual era naquele momento histórico, a sua exata expressão.

A obra capital de Porto Alegre é, porém, o grande poema Colombo, publicado em 1866, em pleno Romantismo, quando a poesia brasileira havia já rompido com a tradição poética portuguesa antiga, e florescia aqui a segunda geração romântica. Entrementes, de 1844 a 1859, escrevera, fizera representar ou publicar várias peças de teatro, libretos de ópera, dramas, comédias e outras obras, que se nenhuma lhe assegura renome como autor dramático, demonstram-lhe todas a versatilidade do engenho e a atividade literária, e serviram para impedir não secasse a corrente iniciada com Magalhães e Martins Pena e para, materialmente ao menos, avolumarem-na. No mesmo período da sua estadia no Brasil antes do Consulado, escreveu em periódicos cujo fundador, diretor ou simples colaborador, foi, viagem, crítica literária e de arte, biografias, pronunciando como orador do Instituto Histórico vários discursos, que são talvez a sua obra mais notável em prosa. Na Revista dessa associação publicou a sua conhecida Memória sobre a antiga escola de pintura fluminense e artigos de iconografia brasileira. Como a quantos do mesmo gênero escreveu, os inspirava mais a intenção patriótica de exalçar além do legítimo cousas da pátria que discreto senso crítico. Mas era moda louvar descomedidamente, engrandecer sobre posse, tudo o que era nosso, na ingênua esperança de nos valorizarmos. A índole de si mesma entusiasta e pomposa de Porto Alegre cedeu gostosamente à moda.

A obra de prosador de Porto Alegre é menos considerável que a de Magalhães, e não foi, como a deste, jamais reunida em livro. Menos vernáculo como prosador que o seu êmulo, o é muito mais como poeta, no Colombo. Mas sobretudo lhe é superior pela abundância e vigor das idéias, movimento e colorido do estilo, e brilho da forma. Neste, como é muito nosso, freqüentemente excede-se e cai no empolado e no retórico. Magalhães escreve mais natural e simplesmente, sem aliás evitar sempre os extremos, o banal e o inchado. Esta marca do verdadeiro escritor, ter idéias gerais, Porto Alegre é um dos primeiros dos nossos em que se nos depara.

É extraordinariamente raro que ainda um homem de grande engenho, como sem dúvida era Porto Alegre, resista às influências e se forre aos preconceitos do seu ambiente espiritual. Em plena pujança das suas faculdades literárias, aos cinqüenta anos e em mais de metade do século que rompera com a tradição clássica das grandes epopéias, compôs e publicou um poema de um prólogo e quarenta cantos com mais de vinte e quatro mil versos, Colombo.101

Por mais difícil que se nos antolhe a leitura deste extensíssimo poema, merece ele que vençamos a nossa hodierna repugnância de ler grandes epopéias e o leiamos. Há nele uma realmente assombrosa imaginação e fecundidade de invenção, insignes dons de expressão verbal, como raro se achará outro exemplo na poesia da nossa língua, magnificências de descrições verdadeiramente primorosas, revelando no poeta o artista plástico, um nobre intuito quase sempre felizmente realizado de pensamento, correção quase impecável de versificação, vernaculidade estreme, engenhosas audácias de criação e de expressão, e outras qualidades que o fazem uma das mais excelentes tentativas para reviver na nossa língua, se não nas literaturas contemporâneas, essa espécie de poemas. Mas os gêneros ou formas literárias valem também por sua conformidade com o tempo que os produziu. O poema de Porto Alegre vinha já de todo obsoleto e inoportunamente, com um maquinismo poético apenas suportável na pura lenda e não em uma epopéia de fundo histórico. Representa um em todo caso nobre esforço de vontade de uma inspiração que não podia ser natural e espontânea, por desconforme com tudo quanto constitui a mentalidade e estimula o estro do poeta. O leitor pode admirar o meio sucesso desse ingente esforço. Mas não lhe sente emoção capaz de comovê-lo até lhe fazer aceitar essa nova criação épica. O Colombo é uma obra mais de razão e de inteligência que de instinto e sentimento, como foram os monumentos poéticos que ele anacronicamente procurava continuar.

II — TEIXEIRA E SOUSA

Fluminense, como a maior parte dos primeiros românticos, Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa nasceu em Cabo Frio aos 28 de março de 1812 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1.º de dezembro de 1861. Teve algo de romântica a vida do criador do romance brasileiro. Filho legítimo de um português com uma preta, apenas fazia os seus primeiros estudos quando se viu obrigado, pela precária situação econômica da família, a abandoná-los e adotar uma profissão mecânica, a de carpinteiro. Por alguns anos exerceu este ofício no Rio de Janeiro, para onde viera de Itaboraí com o fim de nele aperfeiçoar-se. Cinco anos depois regressou à terra natal. Tinham-lhe morrido os quatro irmãos mais velhos. Aos vinte anos achou-se só no mundo, com escassíssimos bens que lhe herdara o pai. Senhor de si, voltou aos estudos com o mesmo antigo ardor e o mesmo mestre, o cirurgião Inácio Cardoso da Silva, professor régio em Cabo Frio, e também poeta, cujos versos Teixeira e Sousa mais tarde piedosamente reuniu e publicou. Em 1840 voltou ao Rio de Janeiro, onde a simpatia de cor, de engenho poético e de amor às letras facilmente o ligou a Paula Brito.

Francisco Paula Brito (1809-1861) é, na sua situação secundária, uma das figuras mais curiosas e mais simpáticas dessa época literária. Nascido no Rio de Janeiro, de gente de cor e humilde, chegou-lhe a puberdade e juventude em pleno movimento da Independência e estabelecimento da monarquia, e dessa época conservou o ardor patriótico e o desvanecido nacionalismo que a assinalou. De quase nenhumas letras, mas inteligente e curioso, despertou-se-lhe o gosto por aquelas e pelos seus cultores no trato de umas e outros, no exercício do seu ofício de tipógrafo. Mais tarde montou uma imprensa de conta própria, à qual anexou uma loja de livros. Como fosse muito caroável de literatos, a quem com periódicos que fundou, como a Marmota (1849-1861), oferecia a satisfação de se verem publicados e louvados, a sua loja, no antigo Largo do Rossio, tornou-se o prazo dado da mocidade literária do tempo, e, como era igualmente patriota ardente e chefe político de bairro, freqüentavam-no também homens públicos notáveis, doutores e outros letrados. Por ser a sua loja um centro de notícias, palestras e novidades da vida urbana que não seriam sempre de extrema veracidade e antes facilmente mentirosas, deu-lhe o povo a alcunha de "A Petalógica". Foram seus habituados todos os nossos primeiros e ainda muitos dos segundos românticos, de todas as graduações. Desse comércio com letrados, a inteligência aberta e pronta de mestiço de Paula Brito tirou o melhor proveito. Ele também se fez escritor e poeta. Aliás o foi em tudo mediocremente, revelando apenas um generoso esforço e excelentes intenções de servir as letras nacionais, e a mesma sociedade, com publicações de caráter educativo, moralizador e patriótico, edições de obras brasileiras e também com as suas produções em prosa e verso. Mais rico de boa vontade que de bens de fortuna, não só acolheu, apresentou, protegeu os jovens de vocação literária que o procuravam, como festejou, celebrou, preconizou os literados já feitos, mecenas quase tão pobre e desvalido como os seus protegidos, e sequer sem idoneidade para mentor literário, teve entretanto o amável Paula Brito ação apreciável e frutuosa no momento em que a sua loja, se não ele, era o centro da vida literária no Rio de Janeiro.

Teixeira e Sousa foi simultaneamente empregado e colaborador literário de Paula Brito, em cuja célebre loja conheceu, imagina-se com que cândida admiração, os sujeitos mais afamados em letras, a roda literária, habituada da Petalógica. Aí repartia o tempo que lhe deixava a freguesia entre ouvir aqueles personagens e escrever os seus primeiros versos. Começou por composições dramáticas, mas como se lhe não abrissem as portas do teatro, e na doce ilusão de ganhar mais alguma cousa do que lhe podia dar o patrão e amigo, fez romances. Escusa dizer que nem versos nem romances lhe deram fortuna. Era, porém, uma real vocação literária, desajudada embora de gênio e de cultura. Não só não desanimou, mas na constância do engano que lhe acalentava a ambição, e vendo a proteção que recebiam alguns letrados, imaginou compor um poema que lha atraísse. E o compôs numa improvisação rápida, em doze cantos de oitava rima, à moda de Camões. Escritos os seis primeiros, foi com eles, como carta de recomendação, ao ministro da Fazenda solicitar-lhe um emprego. Deu-lhe o prócere o de guarda da Alfândega com 400 mil-réis anuais, o que para o tempo e situação do poeta não seria tão mau como figurou Norberto na biografia de Teixeira e Sousa. O poema é A independência do Brasil, mais um dos muitos pecos rebentos da árvore camoniana, e este de todo mofino.102 A crítica, com Gonçalves Dias à frente, foi-lhe impiedosa. À vista, porém, da sua condescendência habitual com não melhores frutos da musa indígena contemporânea, é lícito supor que a humildade de condição do poeta fosse parte na justiça que lhe faziam. Desse péssimo poema salvou-se o autor com um verso que, como aquele também único verso da tragédia troçada por Pailleron, é bom, e ficaria proverbial:

Em nobre empresa a mesma queda é nobre.

Magalhães o citaria, sem nomear o autor, no seu prefácio dos Fatos do espírito humano, deturpando-o. Um escritor português, com a incoercível antipatia com que quase sempre olharam os escritores seus patrícios para os nossos, chamou-lhe de Camões africano. Esquecia que Camões como Teixeira e Sousa os tem havido em barda na sua terra, como lhe não lembrava que desde o século XV havia uma numerosíssima escravaria negra em Portugal... Auxiliado por amigos e associado a Paula Brito, abandonando o mesquinho emprego, abriu uma oficina tipográfica conjuntamente loja de objetos de escritório. Casou, fez família e maus negócios, fechou a loja e aceitou para viver o lugar de mestre-escola do Engenho Velho com casa e 800 mil-réis anuais, nomeado pelo marquês de Monte Alegre. Sem jeito nem gosto pela ingrata profissão de mestre de meninos, pediu ao Ministro Nabuco lhe desse a escrivania vaga de Macaé. Nabuco fez melhor, nomeou-o para uma escrivania da Corte, o que era para ele quase a abastança: escrivão da Primeira Vara do Juízo do Comércio do Rio de Janeiro. Foi isto em 1855. Mal passados seis anos morria Teixeira e Sousa com 49 anos de idade. Fora carpinteiro, tipógrafo, caixeiro, revisor de provas, guarda da Alfândega, editor, mestre-escola e por fim escrivão do Foro. Mas sobretudo foi, com mal empregada e malograda vocação, homem de letras. E não as tinha de todo más, pois compunha versos latinos103 e era lido nas literaturas modernas.

Antes do mal sorteado poema da Independência do Brasil, publicara Teixeira e Sousa dous volumes de poesias com o título de Cânticos líricos (1841-1842) e o poema romântico, em cinco cantos, de versos endecassílabos soltos, Os três dias de um noivado (1844), inspirado de uma lenda indígena. Mais de uma daquelas poesias e um ou outro passo deste poema dizem que havia um poeta, que porventura apenas carecia de cultura e polimento, neste desventurado amador das letras. Um soneto seu ao menos, embora o prejudique o amaneirado do estilo, é um dos melhores do tempo e já prenuncia o lirismo da segunda geração romântica, muito mais subjetivo do que o era o da primeira. É este:

Vi o semblante teu, morri de gosto,

Amei-te e tu regeste a minha sorte;

Tu foste a minha estrela, e tu meu norte;

Que mágico poder tem o teu rosto!

Foste ingrata, mudou-se o teu composto,

Sofri da ingratidão o cruel corte,

Anelei no meu mal a torva morte;

Que mágico poder tem o desgosto!

Choras arrependida?... Ó! não, serena,

Serena o rosto teu meu doce encanto;

Que mágico poder tem tua pena!

Resistir aos teus ais... quem pode tanto?!

Que te adore outra vez amor ordena;

Que mágico poder não tem teu pranto!

Não é, porém, como poeta que Teixeira e Sousa tem um lugar nesta geração e nesta História, mas como o primeiro escritor brasileiro de romance, portanto o criador do gênero aqui. O Período Colonial que com Nuno Marques Pereira tivera no Peregrino da América a primeira ficção, essa, porém, de moral e edificação religiosa, nada produziu que se possa chamar de novela ou romance. A renovação literária indicada por Magalhães produzira algumas novelas e contos, publicados geralmente nos periódicos dessa época e muito poucos dados à luz em volume. Daquelas, a mais antiga são As duas órfãs, de Noberto, aparecida em 1841. Romance propriamente, o primeiro é o Filho do pescador, de Teixeira e Sousa, de 1843. Sucessivamente publicou Teixeira e Sousa mais cinco romances, As fatalidades de dous jovens (1846), Maria ou a menina roubada (1859), Tardes de um pintor ou as intrigas de um jesuíta (1847), A providência (1854), Gonzaga ou a conspiração de Tiradentes (1848-1851). Destes, alguns saíram primeiramente em jornais e periódicos, como a Marmota de Paula Brito. Por esta constância de produção num gênero que, antes que Macedo o seguisse em 1844 com A moreninha, era ele o único a cultivar, ganhou Teixeira e Sousa direito inconcusso ao título de criador do romance brasileiro. Os seus infelizmente tornaram-se para nós ilegíveis, tanta é a insuficiência da sua invenção e composição, e também da sua linguagem.

Se houvéramos de aceitar a precedência cronológica como única ou principal indicação de prioridade literária — que antes deve ser julgada pela valia e influxo da obra, a Teixeira e Sousa caberia também a primazia na introdução do nosso segundo indianismo. Com efeito, de parte algumas passageiras referências a assuntos indígenas, ou episódicas apresentações de índios em alguns poemas da fase imediatamente anterior ao Romantismo, é ele o primeiro a fazer do nosso selvagem tema de uma ficção em verso e a tomar índios para suas personagens principais nos Três dias de um noivado, "poema romântico" de que a Minerva Brasiliense publicou fragmentos em 1843 e que veio a lume em 1844. Que o inspirara ou estimulara a invenção de Chateaubriand do indianismo na literatura francesa com a sua Atala, fornece ele próprio um documento na seguinte estrofe do seu poema:

Tu que de ermos ásperos, inóspitos

Do Grão Meschacebeu viste os arcanos;

Que debuxaste dos agrestes íncolas

A par de usos seus, beleza egrégia

Na melindrosa virgem das palmeiras,

Com sublime pincel, bardo sicambro,

Tua Atala tão gentil, tão pura e meiga,

Perdoa, inda era menos que Mirília.

É que, sob a influência do Romantismo europeu, em revolta contra o classicismo, o indianismo se apresentava à nossa mente revoltada contra a hegemonia literária portuguesa, que era o nosso classicismo, como o nosso natural recurso de reação espiritual nacionalista. Foi antes o estímulo político da Independência que a ação de nossos escritores uns sobre os outros que originou aqui o indianismo romântico e o generalizou. Ao mesmo tempo que Teixeira e Sousa escrevia, talvez ainda em Itaboraí, esse poema já indianista de inspiração, assunto e sentimento (1842-43), Gonçalves Dias, segundo informe fidedigno no seu biógrafo A. H. Leal, compunha as poesias americanas que deviam vir à luz em volume no Rio em 1846, e criar pela força de beleza que trazia o indianismo.

III — PEREIRA DA SILVA

João Manuel Pereira da Silva nasceu no Rio de Janeiro a 30 de agosto de 1817 e faleceu em Paris a 14 de junho de 1898. Era formado em Direito pela Faculdade de Paris, foi deputado geral, presidente de província e exerceu outras funções públicas igualmente importantes. Escritor abundante, como todos os do grupo de que fez parte, foi historiador político e literário, biógrafo, crítico, romancista e poeta. É o tipo do amador, do diletante, em letras, escrevendo pelo gosto, acaso pela vaidade de escrever, sem no íntimo se lhe dar muito do que escreve e menos de como escreve. Tinha sem dúvida vocação literária, mas sem dons correspondentes que a fecundassem. Escrever era para ele um hábito, como que um vício elegante, qual jogar as armas ou montar a cavalo, um desporto agradável e distinto. Não lhe importava nem a têmpera das armas nem a qualidade do animal, o essencial para ele era jogá-las ou montá-lo. Assim a sua obra copiosa e volumosa, importante pelos assuntos, pouco vale pelo fundo e pela forma. Historiador, escreveu história com pouco estudo, com quase nenhuma pesquisa, sem crítica nem escrúpulos de investigação demorada e paciente; crítico, não passa de um elogiador retórico, com vasta mas superficial leitura das literaturas modernas e mal assimilada conquanto extensa informação literária, sem idéias próprias nem alguma originalidade; poeta, é menos que medíocre, e romancista, carece absolutamente de imaginação. Mas como veio sempre escrevendo desde a inauguração do Romantismo até o pleno modernismo, por mais de cinqüenta anos, dando um exemplo raro de constância no labor literário, o seu nome ganhou em suma certa aura e a sua figura literária ficou até a sua morte em evidência, e, ao menos por aquela virtude, estimada. O exemplo seria demais belíssimo se outro fosse o valor da sua volumosa obra. Desta apenas lhe sobrevive ainda, antes por ser a única no gênero que pelo merecimento que possa ter, a História da fundação do império brasileiro (Paris, 1864-1868), aliás cheia de inexatidões e falhas, como todas as suas obras históricas.

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