Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  História Da Literatura Brasileira José Veríssimo - Página 9  Voltar

História da Literatura Brasileira

José Veríssimo

Se Teixeira e Sousa foi o criador do romance que nos habituamos a chamar de brasileiro, isto é, o que representa a nossa vida comum e descreve os nossos costumes, paisagens, tipos, foi entretanto Pereira da Silva quem, precedendo-o, criou o romance de ficção histórica, então em voga com Walter Scott e seus primeiros discípulos. Ufanava-se com motivo no prefácio da primeira edição do seu Jerônimo Corte Real, "crônica do século XVI", de que este era um dos primeiros da literatura portuguesa moderna, pois que viu a luz do dia nos anos de 1839. Realmente só o precedeu em Portugal o Arco de Sant’Ana, de Garrett, que é de 1833. Em 1839 publicou Pereira da Silva o romance histórico O aniversário de D. Miguel em 1825, mas é apenas uma novela de trinta e três páginas, como é apenas uma novela de poucas mais páginas Religião, amor e pátria, saída no mesmo ano. Jerônimo Corte Real também teve a sua primeira publicação no Jornal do Comércio em forma de curta novela, que o autor ampliou em romance, alongando-o aliás com desenvolvimento impertinente, quando a deu em livro de 240 páginas, em 1865. Do mesmo gênero de Jerônimo Corte Real é Manoel de Morais, "crônica do século XVII". Sabendo-se como ele fazia história, avalia-se como faz o romance histórico. Os seus realmente não têm valia alguma como quadro das épocas que presumem pintar, nem qualidades de imaginação ou expressão que lhes atenuem esse defeito. Esta aliás é talvez melhor nestes seus dous romances que no resto dos seus livros, e, em todo caso, é superior à dos de Teixeira e Sousa.

É Pereira da Silva um dos criadores da nossa história literária. Precedeu mesmo Varnhagen nesses estudos, mas de pouco lhe vale essa precedência meramente cronológica, porque o que fez nesse gênero, quer no Parnaso Brasileiro (1843) quer no Plutarco Brasileiro (1847), não tem a originalidade nem a segurança dos trabalhos de Varnhagen. São a repetição sem crítica do já sabido, com muitas novidades de pura invenção ou de falha ou viciosa informação. Acham-se-lhe porém na obra crítica, desde 1842, alguns conceitos que deviam mais tarde ser espalhafatosamente apresentados como originais e inéditos. Tal é o de literatura que aquela data já Pereira da Silva declarava ser "o desenvolvimento das forças intelectuais todas de um povo; o complexo de suas luzes e civilização; a expressão do grau de ciência que ele possui; a reunião de tudo quanto exprimem a imaginação e o raciocínio pela linguagem e pelos escritos".104 Sem menosprezar-lhe inteiramente as constantes provas do seu gosto das letras e da sua longa persistência em documentá-lo com obras de toda a espécie, os seus contemporâneos, não obstante as sinceras louvaminhas de parceiros, não se enganaram sobre o valor da sua obra, e apenas mediocremente o estimaram como escritor. A história da literatura lhes ratificará este sentimento.

IV — VARNHAGEN

Cronologicamente pertence também a esta geração um escritor que, sem ter como tal grandes recomendações, foi todavia um dos mais prestimosos da literatura e da cultura brasileira: Francisco Adolfo de Varnhagen. Nasceu em Sorocaba (S. Paulo) em 17 de fevereiro de 1816 de pai alemão, criou-se e educou-se em Portugal, onde passou a infância e juventude. Conquanto houvesse percorrido uma grande extensão do litoral e ainda do sertão brasileiro, em viagens de observação e estudo, nunca propriamente habitou o Brasil, quero dizer, nunca nele se demorou com ânimo de se domiciliar. O fato de sua origem germânica e formação portuguesa e européia, da sua constante ausência e pouca convivência do seu país natal e mais tarde de ter constituído família fora dele, dão a Varnhagen uma fisionomia particular, um todo nada exótico. Da estirpe germânica tirava seu instinto de veneração e respeito dos magnates, dos poderosos, das instituições consagradas e das cousas estabelecidas. É talvez o único brasileiro sem falha neste particular, justamente porque é em suma pouco brasileiro de temperamento, de índole e ainda de sentimento. Levou-o à pia batismal o próprio capitão general da província em que nasceu, o Conde de Palma. Desde aí é com tais próceres que anda. Como historiador, raro acha a censurar nos que têm o mando, ao contrário esforça-se por lhes encontrar sempre razões e desculpas. Do mesmo modo justifica sempre todas as instituições, descobre-lhes ou inventa-lhes virtudes e benefícios. Mal pode esconder o júbilo e a vaidade pela troca feita pelo imperador, seu amigo e protetor, do seu nome já glorioso de Varnhagen pelo de visconde de Porto Seguro. Consagrou toda a sua laboriosa existência a estudar a história do Brasil, e a servi-lo com dedicação e zelo em cargos e missões diplomáticas. Sente-se-lhe, entretanto, não sei que ausência de simpatia, no rigor etimológico da palavra, pelo país que melhor que ninguém estudou e conhecia, e era o do seu nascimento. Não é patriotismo, entenda-se, que lhe desconhecemos, esse o tinha ele, como qualquer outro e do melhor. Faltava-lhe, porém, não lho sentimos ao menos, aquele não sei que íntimo e ingênuo, mais instintivo que raciocinado, sentimento da terra e da gente. Ele não tem as idiossincrasias do país. Por isso Varnhagen não é de fato romântico, senão pela época literária em que viveu e colaborou; de todos os brasileiros seus contemporâneos no período inicial do Romantismo, é talvez o único que além de não ser indianista, isto é, de não ter nenhuma simpatia pelo índio como fator da nossa gente, ao contrário o menospreza, o deprime e até lhe aplaude a destruição. É também o único que altamente estima o português, lhe proclama a superioridade, oculta ou disfarça os defeitos do regime colonial e, propositadamente, lhe adota o pensamento e a língua. Só ele dos seus companheiros a escreveria vernaculamente, sem sequer o incoercível brasileirismo da posição dos pronomes, todos neles indefectivelmente postos à portuguesa. Mas a escreve apenas corretamente, de estudo e propósito, com esforço manifesto, sem espontaneidade, fluência ou elegância, nem os idiotismos por que o verdadeiro escritor revela a sua nacionalidade. Por tudo isto se não achou Varnhagen em simpatia com os seus confrades de geração, nem estes com ele. Enquanto por espírito de camaradagem e muito também de solidariedade na obra que juntos amorosamente faziam, eles se não regateavam mútuos encômios e acoroçoamentos freqüentemente desmerecidos e indiscretos, olvidavam a Varnhagen ou o tratavam como colaborador somenos. Raramente se lhe acha o nome, e ainda assim parcamente elogiado, nos muitos escritos com que reciprocamente se sustentavam e à sua causa. Será porque não compreendessem a importância para esta da obra de erudição que ele fazia? Será porque a esses poetas, que todos sobretudo o eram, essa obra parecesse de pouco alcance literário e pouco gloriosa? No entanto quase todos eles faziam também história, mesmo literária. É verdade que a faziam de palpite, como poetas, sem investigação própria, sem acurado estudo, retórica e declamatoriamente, com a sua imaginação ou repetição do já feito pelos portugueses. Apenas Norberto, mas somente em parte da sua obra, escapa a este reproche.

O primeiro escrito considerável de Varnhagen, já da sólida erudição de que ele seria um dos raros exemplos nas nossas letras, foram as suas Reflexões críticas sobre a obra de Gabriel Soares, publicadas no tomo V da "Coleção de notícias para a história e geografia das nações ultramarinas" pela Academia Real das Ciências de Lisboa (1836). Começando a sua fecunda iniciativa da rebusca e publicação de monumentos interessantes para a nossa história geral, dá, em 1839, à luz, também em Lisboa, o Diário da navegação, de Pêro Lopes.

Em 1840 escreve no Panorama, o célebre órgão da renovação literária portuguesa, uma Crônica do descobrimento do Brasil, que seria o primeiro romance brasileiro se não fosse apenas uma dessaborida crônica romanceada sobre a carta de Caminha, cujo descobridor na Torre do Tombo foi Varnhagen. Sem falar em outros seus escritos de maior interesse português que brasileiro, dos anos imediatamente subseqüentes, enceta em 1845, com os Épicos brasileiros, nova edição prefaciada e anotada dos poemas de Santa Rita Durão e Basílio da Gama, as suas publicações diretamente relativas à nossa história literária, pouco depois prosseguidas com a do Florilégio da poesia brasileira ou coleção das mais notáveis composições dos poetas brasileiros falecidos, contendo as biografias de muitos deles, tudo precedido de um "Ensaio Histórico sobre as Letras do Brasil".105

Pelo rigoroso e acurado da sua investigação e estudo e dos seus resultados, pela novidade das suas notícias, pelo inédito e seguro da sua informação, pelo número e justeza de algumas de suas idéias gerais, pela largueza de sua vista, esta obra de Varnhagen lançava os fundamentos, e o futuro provou que definitivos, da história da nossa literatura. Não valem contra este conceito a precedência meramente cronológica de alguns tímidos e deficientíssimos ensaios de Cunha Barbosa, de Pereira da Silva, de Norberto, de Magalhães e outros, que apenas repetiram as conhecidas notícias dos bibliógrafos e memorialistas portugueses, sem lhe acrescentar nada de novo, e ainda errando o que já andava sabido. Neste investigar dos nossos primórdios literários, continuado na sua História geral do Brasil, onde em vários passos se ocupa da nossa evolução literária, e em papéis e memórias diversas publicadas em periódicos e revistas, descobriu, noticiou, editou e fez editar Varnhagem alguns preciosos escritos. Tais foram os Diálogos das grandezas do Brasil, de Gabriel Soares, a Narrativa epistolar, de Cardim, a Prosopopéia, de Bento Teixeira, a História do Brasil, de Fr. Vicente do Salvador, sem contar quantidade de espécies novas para a vida e obra de outros escritores do período colonial.

A obra capital de Varnhagen é, porém, a sua História do Brasil, que ele chamou de Geral por abranger nela todas as manifestações da nossa vida e atividade, ainda a literária e a artística. Publicada primeiro em 1857 e reeditada em 1872, é um livro de primeira ordem, se não pela sua estrutura, ainda assim não de todo defeituosa, pelo bem apurado dos fatos, riqueza e variedade das informações, harmonia do conjunto e exposição geralmente bem feita. Sem imaginação, sem qualidades estéticas de escritor, sem relevo ou elegância de estilo, Varnhagen escreve, todavia, decorosamente. Merece igual apreciação outra considerável obra sua, a História das lutas com os holandeses, publicada já fora do período romântico. Na nossa literatura histórica, as obras de Varnhagen são certamente o que temos de mais notável.

Tentou ele, como vimos, pela sua Crônica romanceada do Descobrimento do Brasil, as obras de imaginação ou de ficção. Carecendo de qualidades de imaginação e fantasia e de estilo, não lhe podia suceder bem. O seu Amador Bueno, "drama épico-histórico-americano" (Lisboa, 1847, Madri, 1858), com o seu Sumé, "lenda mito-religiosa-americana", e o seu Caramuru, romance histórico brasileiro, em redondilhas de seis sílabas, saído primeiro no Florilégio e depois em separado, apenas lhe documentam a incapacidade para essa espécie de literatura. É pela sua obra de historiador e de erudito que Varnhagen merece, e tem, um distinto lugar na história da nossa literatura, da qual foi o criador e permanece o alicerce ainda inabalado.

Varnhagen veio a falecer longe do Brasil, como sempre tinha vivido, em Viena d’Áustria, a 20 de junho de 1878.

A filosofia da História de Varnhagen é a comum filosofia espiritualista cristã do seu tempo, com o pensamento moral e político da sua educação portuguesa. É em história um providencialista, em política um homem de razão de Estado, da ordem, da autoridade e do fato consumado. Depois de narrar as depredações do corsário inglês Cavendish nas costas do Brasil, diz que veio a "falecer no mar, dentro de pouco tempo, provavelmente ralado pelos remorsos" (Hist. geral, I, 391). Os remorsos matarem um corsário do século XVI! Duguay-Trouin, regressando do seu assalto feliz ao Rio de Janeiro, "sofreu temporais que lhe derrotaram a esquadra, como se a Providência quisesse castigar os que os nossos haviam deixado impunes" (ibid. II, 816). Malogrou-se a revolução pernambucana de 1817. "Ainda assim desta vez (e não foi a última) o braço da Providência, afirma seriamente Varnhagen, bem que à custa de lamentáveis vítimas e sacrifícios, amparou o Brasil, provendo em favor da sua integridade" (ibid. 1150, II). Esta filosofia tem ao menos a vantagem de não ser presunçosa e de dispensar qualquer outra. Era aliás a do tempo, e dela se serviram aqui todos os historiadores sem exceção de João Lisboa, o mais alumiado de todos. Varnhagen, porém, com abuso, piorando o seu caso com o carrancismo da sua educação portuguesa se não de seu próprio temperamento literário.

V — NORBERTO

Joaquim Norberto de Souza Silva nasceu no Rio de Janeiro a 6 de junho de 1820 e faleceu em Niterói a 14 de maio de 1891. Nesta geração de laboriosos homens de letras, foi um dos mais laboriosos, e a alguns respeitos, um dos melhores e mais úteis deles. Ou porque a existência fosse então mais fácil ou porque o amor desinteressado das letras fosse então maior, é certo que nenhuma geração literária brasileira antes ou depois desta trabalhou e produziu tanto como esta. As bibliografias de Norberto enumeram-lhe cerca de 80 obras diversas, grandes e pequenas, desde 1841 publicadas em volume ou em jornais e revistas, afora prefácios, introduções crítico-literárias a obras que editou e outras. No acervo literário encontra-se-lhe de tudo, poesia de vários gêneros, teatro, romance, biografia, ensaios e estudos literários, administração pública, história política e literária e crítica. Como Norberto não tinha nem o talento, nem a cultura, pois era um fraco autodidata, que presume tamanha e tão variada produção, é ela na máxima parte medíocre ou insignificante. Deste enorme lavor apenas se salvam, para bem da sua reputação, os seus vários trabalhos sobre as nossas origens literárias, os seus excelentes estudos sobre os poetas mineiros, a sua grande e boa monografia da Conjuração Mineira e algumas memórias históricas publicadas na Revista do Instituto. Por aqueles trabalhos é Norberto, depois de Varnhagen, o mais prestimoso e capaz dos indagadores da história da nossa literatura, um dos instituidores desta. Como crítico, porém, sacrifica demais ao preconceito nacionalista de achar bom quanto era nosso, de encarecer o mérito de poetas e escritores somenos, no ingênuo pressuposto de servir à causa das nossas letras. Ele as serviu otimamente aliás, menos pelo que de original produziu, que é tudo secundário, ou por esse zelo indiscreto delas que fê-las suas conscienciosas investigações de alguns tipos e momentos da nossa história literária, e publicações escorreitas de algumas obras que andavam inéditas ou dispersas e desencontradiças dos nossos melhores poetas coloniais.

Concorreu mais para avultar grandemente a produção literária do seu tempo e geração. Na esteira de Magalhães fez também poesia americana, cantou os índios, pôs em verso cenas e episódios da nossa história ou das nossas tradições, e, até, com pouco engenho e nenhum sucesso, tentou a naturalização da balada, forma poética por sua singeleza absolutamente antipática à gente, como a portuguesa e a nossa, de alma pouco ingênua e que de raiz ama a eloqüência da poesia. Em Norberto se exagera o espiritualismo sentimental de Magalhães, e o seu maneirismo poético. Além dos portugueses e brasileiros lê o pseudo-Ossian, Lamartine, George Sand (ainda então M.me Du Devant, como a cita), A. de Vigny, Delavingne e Chateaubriand, Lope de Rueda, Victor Hugo, Parny, Ducis, Shakespeare. O alimento romântico não lhe tira toda a substância clássica, e, cedendo-lhe, escreve também uma tragédia em verso, em cinco atos, respeitando deliberadamente as regras aristotélicas: Clitemnestra. Das peças que escreveu Norberto, parece que a única representada, em 1846, e por João Caetano, foi Amador Bueno ou a fidelidade paulistana, em 5 atos. Também se representaram traduções suas do Tartufo, de Molière, e do Carlos VII, de Dumas pai, segundo a informação pouco segura de Sacramento Blake.

Noberto foi mais o criador, se não do romance brasileiro da ficção novelística em prosa aqui. A sua novela, aliás por ele mesmo chamada de romance, As duas órfãs, foi publicada em 1841 (8.º, 35 págs.), dois anos portanto antes do Filho do pescador, de Teixeira e Sousa, que é de fato pelo desenvolvimento e volume o primeiro romance brasileiro. Em 1852 reuniu Norberto essa e mais três novelas sob o título, impróprio quanto ao primeiro termo, de Romances e novelas, num volume em oitavo de 224 páginas. São todas de assunto e inspiração nacional. A intuição que Norberto tinha do romance acha-se expressa na sua notícia sobre Teixeira e Sousa: "expandir-se pelas minuciosidades das descrições dos quadros da natureza, perder-se em reflexões filosóficas e demorar-se nas trivialidades de um enredo cheio de incidentes para retardar o desenlace da ação principal".106

Certamente Teixeira e Sousa nos seus longos romances cumpriu mais à risca este programa, aliás da sua índole e gosto; Norberto, porém, ainda nas suas novelas o seguiu.

Norberto publicou várias coleções de poesias, quatro ou cinco pelo menos, além de numerosos poemas que em tempos diversos saíram em períodicos e não foram jamais reunidos. Embora muito apreciados no seu tempo, nenhum só desses poemas viveu na nossa memória ou sobreviveu ao poeta. A história literária é uma impertinente e implacável desconsoladora da vaidade literária, patenteando a do próprio trabalho das letras e o efêmero e precário da glória contemporânea. Mas no seu tempo, ao menos, não foi de todo vão esse ímprobo labor dos Norbertos, dos Teixeiras e Sousas e de outros companheiros seus na criação da nossa literatura. Eles trouxeram a pedra que por oculta e desconhecida nem por isso deixa de ter servido para levantar o edifício.

Não obstante haver compilado um volume de estudos alheios da língua portuguesa,107 o que faria supor-lhe particular estudo dela, Norberto não escreveu bem. Como os escritores seus confrades de escola e companheiros de geração, não teve mesmo a nossa preocupação de bem escrever, com acerto e elegância. É geralmente natural desataviado, mas não raro também incorreto. Quando se quer elevar a um estilo mais castigado, guinda-se e cai no empolado e no difuso. Perpetra menos galicismos do que hoje e do que o vulgo dos escritores portugueses seus contemporâneos. Aliás os da sua geração incorriam menos nesse defeito que os posteriores.

A sua obra capital em prosa é a História da Conjuração Mineira, nada obstante a opinião que dela possa fazer o nosso sentimentalismo político, uma das boas monografias da nossa literatura histórica. E mais bem ordenada e composta do que é comum em livros tais aqui escritos. Além disso, o que também não é aqui vulgar, uma obra original, feita principalmente com pesquisas próprias e de estudo pessoal.

VI — MACEDO

Joaquim Manuel de Macedo nasceu em Itaboraí, na província do Rio de Janeiro, em 24 de junho de 1820, e morreu na cidade do Rio de Janeiro em 11 de abril de 1882. Foi historiador, poeta, romancista, corógrafo, dramaturgo e comedista, além de jornalista político e literário. Nem pelo vigor do pensamento, nem por qualidades de expressão literária, se abaliza como escritor. É como criador, com Magalhães e Teixeira e Sousa, e mais eficaz do que estes, do romance brasileiro, como um dos principais fomentadores do nosso teatro, e porventura o seu melhor engenho, como autor de um poema romântico, no gênero um dos melhores produtos literários dessa época, e enfim pela influência que, principalmente como romancista, exerceu, que Macedo é um dos tipos mais vivos da nossa literatura. Foi um dos escritores mais fecundos que temos tido, talvez o mais fecundo. Deixou mais de vinte romances, quase outras tantas peças de teatro, poesia e aquele poema romântico em seis cantos, livros de história e corografia do Brasil, quatro grossos volumes de biografia, obras didáticas, discursos acadêmicos e políticos, além de estudos históricos, e folhetins e artigos diversos de sua colaboração em jornais e revistas. Afora os romances, o teatro e aquele poema, o resto é de somenos valor. Macedo fazia história como fazia romance, descuidadamente, ao correr da pena, sem nenhum escrúpulo de investigação e de estudo. Os seus grossos tomos de biografia são totalmente sem préstimo.

A sua primeira obra em livro é o romance A moreninha,108 de 1844. Seguem-se-lhe, no ano seguinte, O moço loiro (2 vols. In-8.º), em 1848, Os dois amôres (2 vols. In-8.º), em 49 Rosa e, a breves trechos, Vicentina, O forasteiro (aliás escrito antes de todos estes), O culto do dever, A luneta mágica, O Rio do Quarto, Nina, As mulheres de mantilha, Um noivo e duas noivas, e outros, sem contar as novelas colecionadas sob vários títulos. A maior parte tem mais de um tomo.

A moreninha foi um acontecimento literário e popularizou-se rapidamente. A crítica exultou com o seu aparecimento. Dutra e Melo, na Minerva Brasiliense, do mesmo passo que o celebra com grandes gabos, expõe a teoria do romance como devia ser e era aqui praticado. Preconiza o romance histórico e o romance filosófico, que ainda ninguém aqui fizera, contanto que neste se não sigam "os delírios da escola francesa, um Louis Lambert por exemplo". Se bem cair no preceito do Omne tulit punctum qui miscuit utile dulci, deve esse romance tornar-se moralizador e poético. Reconhece que "autores de merecimento, poetas distintos (aludiria certamente a Magalhães, Teixeira e Sousa e Noberto) se tinham já ocupado do romance sentimental produzindo belas páginas". De todo esse artigo de escritor então muito conceituado, deduz-se que o romance devia ser poético, sentimental, moralizador. Foi assim realmente que mais ou menos o fizeram os romancistas dessa geração e ainda da seguinte.

A moreninha consagrou definitivamente o autor que até a sua morte foi conhecido como "o Macedo d’A moreninha" ou também pelo apelido familiar de "o Macedinho". Esse romance, ainda hoje muito lido, é talvez o que maior número de edições e republicações tem tido no Brasil.

Os romances de Macedo são todos talhados por um só molde. São ingênuas histórias de amor, ou antes de namoro, com a reprodução igualmente ingênua de uma sociedade qual era a do seu tempo, chã e matuta. Cuidando aumentar-lhes o interesse, e acaso também fazê-los mais literários, carrega o autor no romanesco, exagera a sentimentalidade até à pieguice, filosofa banalidades a fartar e moraliza impertinentemente. São romances morais, de família; leitura para senhoras e senhoritas de uma sociedade que deles próprios se verifica inocente, pelo menos sem malícia, e que, salvo os retoques do romanesco, essas novelas parece retratam fielmente. A sua filosofia é trivial, otimista e satisfeita, conforme o espírito da época romanceada. A sua moral, a tradicional nos povos cristãos, sem dúvidas, nem conflitos de consciência, a moral de catecismo para uso vulgar. Nem a prejudica o abuso de namoro, ou alguns casos de amor romanesco, pois tudo não aponta senão ao casamento e acaba invariavelmente nele, para completa satisfação dos bons costumes. Pouco variam as situações e tipos dos romances de Macedo. Ou eram de fato uma e outros constantes na sociedade de que Macedo escreveu o romance, ou ao romancista faltou a arte de lhes descobrir as forçosas variações. São infalíveis neles certas categorias de personagens, a moça apaixonada, amorosa ou namoradeira, a intrigante ou invejosa que contra esta conspira, o galã, ora fatal e irresistível, ora apenas simpático e galanteador, a velha namoradeira e ridícula, o velho azevieiro e grotesco, o estudante engraçado, divertido e trêfego, o traidor que maquina contra o galã e a sua amada, o ancião (o ancião de Macedo é um homem de 50 anos, como as suas jovens amorosas não têm nunca mais de dezesseis) experiente, amigo certo e conselheiro avisado e mais o gracioso ou jocoso da comédia. Vem a pêlo a terminologia teatral, porque Macedo é em muito autor dramático, e os seus romances deixam por mais de uma feição rever este conspícuo feitio do seu engenho. Ao invés dos escritores nossos patrícios dessa fase e ainda dos das subseqüentes, Macedo é um escritor alegre e satisfeito, porventura o único da nossa literatura. A sua arte lhe é um divertimento, e o seu objeto, praticando-a, divertir os seus contemporâneos, sem talvez se lhe dar dos vindouros. Diverti-los moralizando-os, risonhamente, despreocupadamente, sem outro propósito mais alto, tal parece ter sido o seu intuito literário.

A atividade dramática de Macedo vai de 1849 aos últimos anos de 60 ou aos primeiros de 70. É justamente o período de maior florescimento do nosso teatro, que então realmente existiu com autores e atores nacionais, queridos e estimados do público. Entre os últimos havia-os, é certo, portugueses, mas esses, quase todos domiciliados aqui, achavam-se de fato nacionalizados. Macedo concorreu para esse teatro com mais de uma dúzia de peças, dramas em prosa e verso, comédias, óperas, que são o moderno vaudeville, e farsas, mostrando em tudo vocação decidida para o gênero fácil e boa veia cômica. Como esta lhe vinha mais do natural que a dramática, valem as suas comédias mais do que os seus dramas. Na comédia acha-se ele melhor, em um mundo mais natural, mais espontâneo e que lhe é mais familiar e conhecido que o dos seus dramas. Na inspiração e feitura destes, sente-se a influência da dramaturgia francesa contemporânea, como em Lusbela, por exemplo, a da Dame aux Camélias, ou de quejandos modelos. Demasiado românticos de assunto, excessivamente romanescos de composição e estilo, falham mais os seus dramas do que as suas comédias na representação que presumem ser da nossa vida. Não logram também atingir por qualidades superiores de invenção e expressão a generalidade da representação humana que supra ou exceda aquela. Há, porém, neles condições de teatralidade e arte de desenvolvimento e exposição. O principal defeito do nosso teatro, o que mais nos afronta com a sua desnaturalidade, é o diálogo geralmente falso ou em desacordo com o que ouvimos na rua ou na sala. A nossa sociedade, de fato ainda não de todo perfeitamente policiada, se não criou já uma sociabilidade, com fórmulas dialogais e de tratamento mútuo entre os interlocutores, que o escritor de outras línguas quase não faz senão reproduzir. Esse tratamento no nosso teatro mostra afrontosa incoerência, que é aliás a mesma dos nossos hábitos de conversação. Querendo evitá-la, Macedo e muitos dos nossos escritores de teatro ainda hoje recorrem ao tratamento da segunda pessoa do plural, que fora do estilo oficial ou do verso, de todo não usamos. E como o ridículo é um pouco o insólito, essas formas ridiculizam as peças que as empregam. O teatro romântico na comédia popular de Pena, de Macedo, de Alencar e de autores de menor nome, deu da sociedade do tempo uma cópia em suma exata. Desmerece, porém, essa representação no drama ou na comédia da nossa alta vida. Esta a viram sempre através de suas impressões de romântica francesa. Daí a pouca fidelidade na pintura dela e nos sentimentos que lhe atribuem. Nunca houve de fato na nossa sociedade preconceitos de raça ou de casta bastante generalizados e profundos, capazes de determinar as situações como a de Lusbela, de Macedo.

Num momento de feliz inspiração escreveu Macedo A nebulosa, poema não só romântico de intenção e de escola, mas nimiamente romanesco. Não obstante a sua sensibilidade lamurienta, e o aparelho ultra-romântico da ação, cheia de maravilhas de mágica, há neste único poema de Macedo grandes belezas de poesia e expressão. Mais de um trecho seu ainda nos impressiona pela força de emoção que lhe pôs o poeta. Mas ainda para o tempo desmasiava-se o poema em indiscretos apelos ao patético e sentimentalidade que fazem que hoje não o leiamos sem enfado.

Concomitantemente com estes principais representantes da nossa primeira fase romântica, poetaram aqui outros muitos sujeitos, como os fluminenses Joaquim José Teixeira (1822-1884), José Maria Velho da Silva (1811-1901), Antônio Félix Martins (1812-?), José Maria do Amaral (1812-1885), Firmino Rodrigues Silva (de Niterói, 1816-1879); os mineiros Cândido José de Araújo Viana (marquês de Sapucaí — 1893-1875) e Antônio Augusto de Queiroga (1812-1855); o baiano Francisco Moniz Barreto (1804-1868), e o pernambucano Antônio Peregrino Maciel Monteiro (1804-1868).

Publicistas, políticos, diplomatas, advogados, médicos, funcionários públicos, poetas o são apenas ocasionalmente, inconseqüentemente, mais de recreio que de vocação, e a sua obra de amadores sobre escassa, o que lhes revê a inópia do estro, é em suma insignificante. Vale somente como indício de uma inspiração poética que se não limitava aos próceres do movimento romântico.

Havia no entanto entre eles um bom, um verdadeiro poeta, José Maria do Amaral, antes um árcade retardatário do que um puro romântico, mas um árcade todo impregnado do lirismo garretiano. Os seus sonetos, nunca reunidos em volume, são talvez como tais, e como poesia subjetiva, o que melhor deixou essa geração. A fama de que gozou Moniz Barreto, devida ao seu singular talento de improvisador, qualidade então apreciadíssima, não a confirma agora a leitura da sua obra, reflexo demasiado apagado do dessorado elmanismo.


Capítulo XI

GONÇALVES DIAS E O GRUPO MARANHENSE

OS IMPULSOS DE renovação literária dos nossos românticos da primeira hora, Magalhães, Porto Alegre, Norberto, Macedo e outros, os veio perfazer o poderoso talento de Gonçalves Dias. Da poesia genuinamente brasileira, não por exterioridade de inspiração ou de forma ou pela intenção dos temas e motivos, mas pelo íntimo sentimento do nosso gênio com as suas idiossincrasias e peculiaridades, em suma da psique nacional, foi ele o nosso primeiro e jamais excedido poeta.

Gonçalves Dias é nas nossas letras um dos raros exemplos comprobatórios da falaz teoria da raça. Parece que nele se reuniam as três de que se formou o nosso povo. Seu pai era português de nascimento, a mãe aquilo que chamamos no Norte, donde era, cafuza, isto é, o resultado do cruzamento do índio com o negro. Nasceu em Caxias, no Maranhão, em 1823, da união natural de seu pai com aquela boa mestiça, que lhe foi mãe carinhosa. Da terra natal, onde iniciou os estudos de latim com o mestre público local, passou com o pai à capital da Província, seguindo logo ambos daí para Portugal, o pai em busca de saúde, ele de instrução. Pouco depois de ali chegado, morreu-lhe o pai, que já ia muito doente. Com quatorze anos, achou-se Gonçalves Dias só, em terra estranha. Esta circunstância, agravando a nostalgia que sem dúvida lhe produzia o apartamento da pátria e da mãe, aumentar-lhe-ia a natural dor da perda do pai. No belíssimo poema autobiográfico Saudades, que dedicou à irmã, transpira ainda, não obstante os anos passados, a sua grande mágoa, "essa dor que não tem nome":

De quando sobre as bordas de um sepulcro

Anseia um filho, e nas feições queridas

Dum pai, dum conselheiro, dum amigo

O selo eterno vai gravando a morte!

Escutei suas últimas palavras,

Repassado de dor! — Junto ao seu leito,

De joelhos, em lágrimas banhado

Recebi os seus últimos suspiros.

E a luz funérea e triste que lançaram

Seus olhos turvos, ao partir da vida

De pálido clarão cobriu meu rosto

No meu amargo pranto refletindo

O cansado porvir que me aguardava!

Tornou ao Maranhão, mas já em 1840 estava de volta a Portugal matriculado na Universidade de Coimbra. Ou assim nascesse, e é talvez o mais certo, ou as circunstâncias do seu nascimento, aquele golpe precocemente sofrido, a orfandade, o prematuro afastamento da terra natal e das suas mais caras afeições de infância, assim o houvessem feito, foi Gonçalves Dias, não obstante alguns lampejos de bom humor e de jovialidade, uma alma profundamente melancólica e profundamente sensível. Ela se lhe formou ainda em meio das agitações conseqüentes à Independência. Deu-o a mãe à luz quando o pai, por esquivar perseguições que a sua qualidade de português lhe poderia atrair, achava-se foragido nos matos vizinhos de Caxias, habitando uma palhoça, onde Gonçalves Dias nasceu, na carência de qualquer conforto, entre aflições e medos. Deixaram-lhe forte e viva impressão estes primeiros incidentes de sua vida. Di-lo ele à sua irmã naquele poema, uma das suas melhores páginas:

Parti, dizendo adeus à minha infância,

Aos sítios que eu amei, aos rostos caros

Que já no berço conheci, àqueles

De quem, mau grado a ausência, o tempo, a morte

E a incerteza cruel do meu destino,

Não me posso lembrar sem ter saudades,

Sem que aos meus olhos lágrimas despontem.

......................................................................

Ave educada nas floridas selvas

Vim da praia beijar a fina areia;

Subitâneo tufão arrebatou-me,

Perdi a verde relva, o brando ninho.

Nem jamais casarei doces gorjeios

Ao saudoso rugir dos meus palmares;

Porém a branca angélica mimosa

Com seu candor enamorando as águas,

Floresce às margens do meu pátrio rio.

E a mesma imagem se repete mais adiante, mostrando a obsessão daquela impressão dolorosa:

Ave educada nas floridas selvas,

Um tufão me expeliu do pátrio ninho;

As tardes dos meus dias vorrascosos

Não terei de passar sentado à porta

Do abrigo de meus pais, nem longe dele,

Verei tranqüilo aproximar-se o inverno

E pôr do sol dos meus cansados anos!

O tufão que o expeliu do pátrio ninho foi o casamento do pai com outra mulher que não aquela de quem ele nascera. A dor que lhe envolveu a infância afeiçoou-lhe a índole pessoal e poética e pôs-lhe n’alma a tristeza forte que será a sua marca e o seu encanto. A ela juntaram-se-lhe despertadas ou alvoroçadas pelos gabos desde menino ouvidos ao seu talento, ambições de sobrelevar-se à sua mesquinha condição:

Um dia apareceu um recém-nado,

Como a concha que o mar à praia arroja;

Cresceu qual cresce a planta em terra inculta,

Que ninguém educou, a chuva apenas,

Infante viu da roda sepulturas,

Em que não atentou;

................................................................

Então sentiu brotarem na sua alma

Sonhos de puro amor, sonhos de glória

Sentiu no peito um mundo de esperanças,

Sentiu a força em si — patente o mundo.

Em 1845 formado em Direito, regressou à sua província. Foi à terra natal que deixou logo "ralado de desgostos, por motivos que se não declara", informa discretamente um seu grande amigo e amoroso biógrafo. Esses motivos seriam de ordem doméstica e provenientes da coexistência da mãe e da madrasta, que aliás parece-lhe fora caroável. A entristecer-lhe o ânimo já de raiz e das circunstâncias de sua vida melancólico, a amargurar-lhe a alma e travar-lha de dissabores, que a sua sensibilidade de poeta e de valetudinário exagerariam, concorreram mais as condições de penúria e dependência em que, graças à bondade e comiseração de patrícios, amigos raríssimos, lograra completar a formatura em Coimbra. Pouco se demorando na capital de sua Província, veio para o Rio de Janeiro em meados de 1846 e aqui publicou os seus Primeiros cantos.109 Antes publicara apenas um pequeno poema Inocência no trovador de Coimbra e três ou quatro de igual extensão no Arquivo, jornal do Maranhão.

A crítica, tanto a do Rio de Janeiro como a das províncias, acolheu este primeiro livro de Gonçalves Dias com calorosos e merecidos encômios e, o que mais vale e é menos comum, com atilada compreensão do seu valor. O balbucio de Magalhães e Porto Alegre era já em Gonçalves Dias a fala clara, perfeita e melodiosa. Com muito mais harmonia, mais íntimo e mais vivo sentimento, mais espontânea e original inspiração, maior sensibilidade emotiva, havia relevantemente nele dons de expressão muito superiores. Pode dizer-se que aqueles poemas revelam — e os posteriores o confirmariam — o primeiro grande poeta do Brasil.

Esta preeminência de que os contemporâneos tiveram a intuição, a vieram confirmar os Segundos cantos e sextilhas de Frei Antão, publicados também no Rio dois anos depois. Valem menos as Sextilhas como prova do seu saber da língua e um feliz postiço arcaico desta, que por testemunharem a delicadeza e vigor da sua imaginação e pensamento poético e riqueza de sua inspiração lírica. Corroboraram-no ainda os Últimos cantos, de 1851, tudo reunido mais tarde sob o título de Cantos, na primeira edição de Leipzig (F. A. Brackhaus, 1857, 16.º, XXVIII, 654 págs.). Sucederam-se novas edições em número de quatro, contadas da primeira dos Cantos quando acabava o poeta de morrer. Alguns dos poemas dos Primeiros Cantos, porventura os melhores, repunham em a nossa poesia o índio nela primeiro introduzido por Basílio da Gama e Durão. Era essa a sua grande e formosa novidade. Nos poemas daqueles poetas não entrava o índio senão como elemento da ação ou de episódios, sem lhes interessar mais do que o pediam o assunto ou as condições do gênero. Nos cantos de Gonçalves Dias, ao contrário, é ele de fato a personagem principal, o herói, a ele vão claramente as simpatias do poeta, por ele é a sua predileção manifesta.

Entre a publicação dos Primeiros e dos Últimos cantos compôs Gonçalves Dias os primeiros seis de um poema americano Os Timbiras, dos quais publicou em Leipzig, em 1857, os quatro primeiros. Continuava a mesma inspiração simpática ao índio e a mesma idealização afetuosa dos seus feitos e gestos, que distinguirá o segundo indianismo, cujo iniciador foi exatamente Gonçalves Dias, do primeiro criado por Basílio da Gama. Os Timbiras, como as Americanas, não só ficariam, a todas as luzes, os mais belos poemas de inspiração indianista aqui produzidos, mas os únicos que sobrevivem aos motivos ocasionais dessa inspiração e ao gosto do momento. Um deles, I-Juca-Pirama, é sob todos os aspectos, essenciais ou formais, uma das raras obras-primas da nossa poesia e ainda de nossa língua. O próprio Portugal, geralmente pouco simpático às nossas tentativas de emancipação literária, pelo mais autorizado então dos seus órgãos intelectuais, Alexandre Herculano, não só reconhecia nos Primeiros cantos "as inspirações de um grande poeta", mas lastimava não houvesse o poeta dado neles maior espaço às poesias americanas. Os Timbiras cediam ao preconceito do poema épico da tradição portuguesa, continuada aqui desde os começos da nossa poesia. Acostando-se-lhe, fazia-o entretanto Gonçalves Dias com manifesta superioridade de inspiração e de expressão. Aquela é mais sincera, vem-lhe mais do íntimo. Porventura impulsado por um recôndito sentimento de sua alma de caboclo, avivado pela nostalgia do "filho do bosque", traz muito maior vigor de idealização. A expressão é muito mais rica, muito mais variada e melodiosa — sobre tudo muito mais melodiosa — que a de qualquer outro dos nossos poemas. Do maior dos nossos épicos até então, Basílio da Gama terá, com mais opulenta imaginação, a harmonia do verso branco, no qual já rivalizava com Garrett. A influência do Uraguai é visível no poema. Mas não o deslustra essa influência, que apenas revê a continuidade da nossa tradição poética. Indicia esse influxo, e quase reproduz o verso do Uraguai

No espaço azul não chega o raio

estoutro dos Timbiras, aludindo ao surto do condor após a presa feita,

E sobe audaz onde não chega o raio.

Também a apóstrofe — América infeliz! do formosíssimo canto terceiro recorda o — Gentes da Europa nunca vos trouxera — do segundo canto do Uraguai.

Nenhum poeta moderno teve como Camões o sentimento do paganismo e do seu maravilhoso. Assim também nenhum poeta brasileiro, em prosa ou verso, teve em grau igual ao de Gonçalves Dias o sentimento do nosso índio e do que lhe constituía a feição própria. Todos os nossos indianistas, maiores e menores, sem excetuar o próprio Alencar, que é quem em tal sentimento mais se aproxima de Gonçalves Dias, o foram antes de estudo e propósito que de vocação. Daí a sua inferioridade relativamente ao poeta dos Timbiras e os despropósitos em que caíram. E o conceito pode ser generalizado a toda a obra lírica de Gonçalves Dias.

É que ele é um dos raros, se não foi o único, dos nossos que, com os dons naturais para o ser, a vida fez poeta. Não a moda, a retórica, a camaradagem, a presunção ou algum estímulo vaidoso ou interesseiro, ou sequer patriótico, o fizeram poeta senão a dor e o sofrimento. É primeiro o afastamento do torrão natal e do carinho materno em anos verdes, a perda do pai e o isolamento em terra estranha, a amargura do seu nascimento mais que humilde, o sentimento da sua inferioridade social — contrastando com a sua fidalguia moral e mental, é a humilhação de viver de amigos, é a sua penúria de recursos e mesquinhez de vida, é o desencontro de suas ambições com as suas possibilidades, é o convívio do meio mesquinho seu conterrâneo e por fim e acaso mais que tudo, quando já lhe sorrira a glória e ele assim mesmo se enobrecera pelo gênio e trabalho, a recusa da mulher muito amada, por motivo do seu nascimento. Não há, ou apenas haverá um destes passos da sua vida dolorosa, aos quais outros fora possível acrescentar, que não tenha deixado impressões, ecos, vislumbres nos seus poemas. A nostalgia inspira-lhe a Canção do exílio, no seu gênero e ingenuidade acaso o mais sublime trecho lírico da nossa poesia, a expressão mais intensa e mais exata do nosso íntimo sentimento pátrio. As agruras da sua juventude as Saudades, de tão fina sensação dolorosa, de tão bela e comovedora expressão. Os seus amores infelizes esses dois soberbíssimos trechos sem iguais no nosso lirismo: Se se morre de amor e Ainda uma vez, adeus, e mais aquele encantador No jardim, amostra peregrina em a nossa poesia de emoção profunda casada à profunda singeleza. Nem desmerecem destes os poemas da mesma inspiração, que lhe brotam, cheios de lágrimas do fundo d’alma: Ó que acordar e Se muito sofri já, não mo perguntes.110

110Os dois primeiros citados foram publicados pelo poeta nos seus Cantos, edição de Leipzig, de 1857; os três últimos saíram nas suas Obras póstumas, dadas a lume com inteligente e carinhoso desvêlo pelo seu amigo Dr. Antônio Henriques Leal (S. Luís do Maranhão, 1868-1869, 4 vols.). Na biografia do poeta que o mesmo consciencioso editor publicou no 3.º vol. Do seu Panteon Maranhense (Lisboa, 1873-1875, in-8.º gr., 4 vols.) reproduziu correta e aumentada a excelente notícia da vida e obras do poeta de que lhe precedera as Obras Póstumas. Foi-nos ela de grande préstimo neste estudo. Sem embargo de veniais senões de composição (divagações e alongamentos escusados, por exemplo) são estas duas obras de Henriques Leal, um dos epígonos dessa bela geração maranhense, modelo único em a nossa crítica bibliográfica e biográfica, e credores de muita estima.

Antes e depois de Gonzaga jamais se ouvira em a nossa poesia cantos de amor tão repassados de íntimo sentimento e de uma tão formosa expressão. Os poetas contemporâneos dos últimos anos de Gonçalves Dias, os seus sucessores imediatos, os poetas da segunda geração romântica, os repetirão com emoção às vezes igual, nenhum porém com a alta e essencial beleza dos seus. Com ele achava enfim o lirismo brasileiro a sua expressão mais eminente, a sua feição modelar, nunca mais, se não atingida, excedida.

O poeta a mais de um respeito genial desdobra-se em Gonçalves Dias num dos prosadores mais seletos das nossas letras. Às obras líricas junta simultaneamente com inspiração muito mais romântica que a de Magalhães e seus colaboradores, a dramática. Em 1847 publica D. Leonor de Mendonça, drama original de assunto português, em três atos e cinco quadros. Antes, em 1843, compusera o Patkul, no ano seguinte Beatriz Cenci e mais tarde (1860) Boabdil, todos só postumamente publicados. Não sabemos por que não foi nenhum destes dramas representado tendo aparecido o primeiro e sendo escritos os outros justamente na época em que nascia o teatro brasileiro, que eles teriam concorrido para enriquecer e ilustrar. Ainda do ponto de vista teatral, não é nenhum deles inferior aos de Magalhães e companheiros, e ao menos Leonor de Mendonça lhes é, como criação artística e mérito literário, superior. Está este longe da intensa emoção e da alta e serena beleza do Frei Luís de Souza, de Garrett, mas não lhe está tanto da sobriedade e formosa singeleza de estilo. Publicando-o, precedeu-o o autor de um prefácio em que, de parte os inevitáveis sacrifícios à poética do tempo, há conceitos originais e inteligentes da literatura dramática e de seus meios de expressão. Mais que tudo, é interessante neste drama a interpretação do duvidoso caso histórico que lhe forneceu o tema. Além de original e psicologicamente verdadeira, é humana e dramática. Segundo o poeta, determinaram-no somente as condições do meio, "a fatalidade filha das circunstâncias e que dimana dos nossos hábitos e da nossa civilização", como ele chãmente explica, sem parecer dar maior importância ao seu achado, que não era vulgar para a época. É pelo menos reparável que fazendo teatro Gonçalves Dias só o fizesse de assuntos estrangeiros. Podia-se acaso ver neste fato a clara consciência que teria de que a nossa sociedade, a histórica e a atual, dificilmente depararia ao poeta assuntos propícios à criação dramática. Embora assim fosse, não é menos de notar-lhe a abstenção de assuntos nacionais, pois a grandeza do poeta consiste por muito em sobrepujar tais dificuldades. Quanto a trazer o índio para o teatro, como o trouxe para a poesia, parece andou acertadíssimo, sem embargo do muito que há de dramaticamente belo no I-Juca-Pirama. Mas a estética particular do governo desaconselha a invasão, ainda acompanhada de música, do selvagem no teatro.

A obra puramente poética de Gonçalves Dias sobrepujou em acabamento e mérito a tudo o mais que escreveu, de modo a o velar e esconder mesmo à maioria dos seus admiradores. O seu brasileirismo, que não era apenas manifestação do seu indianismo, mas lhe estava, para falar com o nosso povo, na massa do sangue, e lhe vinha do nascimento e criação em um meio genuinamente brasileiro e de influições da raça indígena na formação da sua psique, o fortificaram estudos da história e etnografia nacional, nos quais revelou outras faces do seu talento e capacidade literária: qualificações para tais estudos, aptidão crítica, facilidade e pertinência de exposição. As suas memórias sobre a existência de amazonas no Brasil, sobre o descobrimento casual ou não deste e sobre as civilizações indígenas do país e da Oceânia, como antes desde as suas Reflexões acerca dos Anais de Berredo, do mesmo passo que lhe comprovam não comum erudição destes assuntos, documentam no poeta não vulgar versatilidade de talento.111

A estes diversos escritos, e até alguns de caráter administrativo e oficial, colaboração em revistas e jornais, ensaios apenas encetados, folhetins, cumpre juntar como prova da atividade mental do poeta e gosto e vocação dos estudos brasileiros, o Dicionário da língua tupi (Leipzig, 1858) e o Vocabulário da língua geral... usada no Alto Amazonas (Rev. do Inst., XVII). Todas estas obras em prosa de Gonçalves Dias, ainda as que não são de natureza literária, distinguem-se pela linguagem e estilo mais cuidados do que era aqui comum, salvo nos seus comprovincianos. São por isso das que ainda podemos ler com facilidade e prazer. Não só por qualidades de pensamento, de imaginação e de sentimento, senão pelas de expressão, é Gonçalves Dias um dos nossos clássicos, ou por outra um daqueles pouco numerosos escritores brasileiros que o sendo pelas íntimas qualidades de que procede um estilo, escrevem certa, fluente e elegantemente. Ainda como escritor português, um ou outro deslize112 não o desabona de vernáculo. E o é com mais naturalidade, menos intencionalmente e de estudo do que os seus camaradas do grupo Odorico Mendes, Sotero dos Reis e João Lisboa.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal