Perto da cama, D. Candinha e Josefa cochichavam, curvando-se para a doente. Transparecia a dor no perfil de ambas.
Ernestina deu mais dois passes para diante.
D. Candina percebendo-a exclamou assustada:
- Olhem quem está ali!
Rodearam Ernestina; Josefa enrolou-a no seu xale, enquanto a viúva perguntava baixinho à Georgina, apontando o leito:
- Morreu?!...
- Não... mas...
Como se aquelas palavras lhe tivessem insuflado nova vida, Ernestina desembaraçou-se de todos, que procuravam retê-la, e correu para a cama.
Pararam os outros a vê-la silenciosos e opressos. D. Candinha cobriu-lhe de novo os ombros com o xale, mas o xale resvalava para o chão. A viúva curvada para a filha não dizia nada nem se movia tão pouco. Olhava... olhava... olhava!
Sara tinha emagrecido muito e a sua cabeça, redonda e forte, parecia desproporcionada agora emergindo de uns ombros estreitos, de criança. Os olhos não tinham brilho, olhavam sem ver e a boca entreaberta enchia-se de baba, que Georgina limpava de vez em quando, pacientemente.
A mãe parecia não compreender...
D. Candinha murmurou-lhe ao ouvido:
- Que é isso, Ernestina? Vá vestir-se! Luciano está aqui...
- Que me importa! Sara? oh minha filha?
Sara voltou-se para a mãe e arrastou algumas sílabas embrulhadamente que ninguém pôde entender!
Pouco a pouco a viúva foi percebendo a verdade; a filha não morreria... mas estava idiota! Ao redor dela, todos calados esperavam uma cena em que a dor explodisse em gritos, ou a abatesse num desmaio. Nada! A viúva achava, apesar de tudo, uma consolação - a filha vivia e, idiota embora, respirava, deixava-se beijar! Estava nisso o seu resto de ventura materna!
De joelhos, perto da cama, esteve longo tempo a olhar, a olhar... Ergueu-se com um suspiro e deixou que D. Candinha lhe vestisse um peignoir de lã; atou ela mesma maquinalmente os cordões da cinta sem desviar os olhos da filha.
Só depois de algum tempo foi que ela chorou, muito baixinho, embebendo as lágrimas no lenço.
Luciano tinha-se afastado do quarto e passeava no jardim, fugindo aos olhos de todos e à bulha atormentadora das vozes. Subia e descia pelas ruas vagarosamente, parando às vezes para afastar com o pé uma folha seca do caminho, ou para esmagar entre as unhas as pétalas leitosas das flores das laranjeiras. Os galhos carregados das árvores desciam muito e as formiguinhas passeavam pelos troncos apressadamente, carregando folhinhas e salpicando de preto a brancura das folhas.
Luciano contemplava aquilo tudo sem pensar no que via, mas vendo, sem pensar também em outra coisa. Cansado, subiu pelo pomar dando volta pela horta, meio inculta agora e abandonada.
Por entre as largas folhas ásperas das abóboras que se alastravam comendo vencedoramente a maior parte do terreno, erguiam-se os cálices altos das flores na sua triunfante cor de ouro vivo. E ele notou com preguiça o desleixo em que o João tinha agora a verdura, toda abafada pelo aboboral. Afinal de contas, é sempre a força bruta que predomina em toda a natureza. As flores delicadas e franzinas que nascem para o perfume, como o coração da mulher para o amor, caem e morrem se não lhes dão amparo doce e cuidadoso. Luciano continuou até acima, à touceira de bambus, onde vira pela primeira vez Sara e Georgina com outras amigas jogando o croquet. Parou aí um momento com a lembrança daquele dia na memória. Teve saudades... Entrou depois no jardim e viu logo ali perto duas saracuras brigando sobre a grama de um canteiro largo. Ele chegou a sorrir, reparando para os meneios aqueles corpos delicados; uma delas fez-lhe lembrar Georgina, na graça e na ligeireza. Subiu por fim ao terraço e, exausto como se viesse de longas caminhadas, sentou-se num banco, encostou a cabeça à parede e olhou para a frente.
A luz forte do sol envolvia tudo no seu manto glorioso e quente. O mar estendia-se sereno, muito azul, limpo de barcos, beijando as fitas brancas das praias longínquas e fronteiras. As montanhas recortavam no céu límpido os seus enormes perfis bizarros num esbatimento de sombras e de luz. Embaixo, no pitoresco outeiro da Glória tremulavam bandeiras de festa. Entre a casaria da cidade, lá uma outra janela, batida de sol, despedia dos vidros chamas de incêndio e repicavam os sinos e havia em tudo um ar de alegria e de infinita doçura! Só ao longe, temível no seu grandioso mistério, a Esfinge silenciosa mergulhava parte do seu corpo de montanhas na água profunda, erguendo para o alto espaço a sua fronte rochosa e altiva!
Luciano quedou-se ali longo tempo, ora com os olhos fitos nos galhardetes da igreja, ora nas fortalezas silenciosas, ou nos despenhadeiros do morro, onde as paineiras abriam, em sorrisos cor de rosa, as suas grandes flores.
Concluindo uma série de reflexões quaisquer, Luciano murmurou a meia-voz, levantando-se:
- Decididamente hei de morrer solteiro...
- Está falando sozinho? perguntou-lhe D. Candinha, que havia chegado sem ser pressentida.
- Falei alto? Não admira, estou meio maluco.... respondeu ele sorrindo.
- É preciso cuidado... as paredes têm ouvidos... e....
- Está tudo acabado...
- Para Ernestina e para Sara, com certeza.
- E para mim.
- Isso... duvido! Conheço os homens, as impressões neles não duram como em nós... Mas, enfim, não é disso que se trata agora. Vim procurá-lo para dizer-lhe adeus...
- Já?!
- De que se admira?
- Acho muito cedo...
- O senhor não se lembra de que sou casada e que de mais a mais hoje é dia santo?
- Ser dia santo não é razão!...
-É. Imagine: devo ter a casa cheia de gente! Acostumei-me a fazer dançar os sobrinhos nos dias feriados e tanto eles como os empregados do Nunes contam com isso... Já que acudi as aflições de uns, é justo que divirta os outros... Contudo, sr. egoísta, repare bem: se vou embora é porque Ernestina tem uma coragem única. Exigiu a minha retirada, bem como a de Georgina!
- Deveras! Está assim calma?
- Perfeitamente... Diz que o que temia era encontrar a filha morta... A pequena conhece-a. Coitadas!
- Que futuro triste!
- Ora... a tudo a gente se acostuma! Adeus, vá ver-me de vez em quando.
- Consente que eu a acompanhe?
- Não. O senhor pode ser preciso aqui.
D. Candinha ajeitou o veuzinho preto sobre o seu rosto largo e desceu o jardim calçando as luvas.
Luciano entrou. A Josefa esperava-o e disse-lhe logo que o viu, com um jeito embaraçado:
- Não vá lá dentro...
- Por quê?
- Iaiá não quer...
- Ah... ela disse-lhe isso?...
- Disse...
Luciano parou indeciso, magoado, sem saber como falar a Ernestina, mas desejando ardentemente vê-la e beijar-lhe a mão antes de sair. Respeitava-a agora como a uma santa, amava-a com a ternura de um filho. A Josefa observava-o com dó e com espanto, ele continuava perplexo diante dela.
- O senhor quer mesmo falar com Iaiá? rompeu ela.
- Sim, quero....
- Espere um pouco... Ela está sozinha. Georgina já foi para casa... que moça boa! Eu fico morando aqui. Iaiá quer que eu tome conta da casa... que hei de fazer? Olhe, eu ainda não disse nada; mas a Simplícia fugiu com o Augusto esta madrugada e o pior é que levou roupas finas e talheres de prata!... Que mulatinha levada! Aquilo há de acabar rolando bêbada pelas ruas. A Ana já veio me dizer que exige mais ordenado!... Ui!... agora esta história de criadas é um inferno!
Luciano interrompeu-a com um gesto.
- Eu já volto, disse ela, e saiu. Ele ficou só, sentado no sofá, embaixo do retrato do comendador Simões.
Passado algum tempo, a Josefa tornou pressurosa.
- Então?! Inquiriu Luciano.
- Iaiá não quer vê-lo e pede-lhe para não voltar a esta casa.
Dias depois, a viúva Simões acompanhava com a vista, do seu terraço de ladrilhos cor de rosa, um paquete transatlântico, que demandava a barra, levando Luciano para a Europa.
O tempo estava esplêndido, de um azul glorioso, o mar desenrolava o seu manto, sem rugas, com uma serenidade de sonho, e as flores desabrochavam numa alegre ansiedade de luz e de vida, perfumando tudo...
Ao lado da mãe, numa cadeira de rodas, Sara, com o seu eterno e doloroso sorriso, fazia e desmanchava a única coisa bela que lhe ficara: a sua trança loura.
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