Chegamos a baixo com os joelhos trêmulos, mas com os pulmões revigorados por um grande hausto de ar puro e livre, e trazendo para sempre refletida nos olhos a visão maravilhosa dessas terras e rochedos, desse imenso mar, e desse imenso céu todo azul e ouro.

Escola de Aprendizes Marinheiros
Depois de algumas horas de repouso numa hospedagem fidalga, de uma visita ao governo municipal de Vila Velha e outras visitas aos colégios públicos do lugar, cujas aulas estavam repletas de crianças robustas e alegres, seguimos por uma linda estrada para a Fortaleza de Piratininga, Escola de Aprendizes Marinheiros.
Tinha de notável essa estrada, perfeitamente construída, ter sido feita pelos aprendizes da Escola, sob a direção de um dos seus oficiais. E eis aí uma iniciativa, que deve ter lisonjeado a municipalidade de Vila Velha, por facilitar a comunicação do povo da terra com a pitoresca e velha fortaleza. Aí, ao transpor o portão da entrada, não tive a impressão de penetrar numa praça militar, mas num belo e vasto parque de castelo europeu, com as suas largas alfombras veludosas e as suas aléias de belas perspectivas.
O local é amplo, todo numa curva de terra beijada pelo mar. No pátio do edifício, de forma convexa, tocava a banda dos aprendizes com muito garbo e afinação, embora constituída havia poucos meses.
O diretor da Escola, comandante Maurício Pirajá, oficial distinto e que alia às suas qualidades de militar severo as de um perfeito gentleman, teve a delicadeza de percorrer conosco todo o estabelecimento: enfermaria, farmácia, alojamentos, aulas, refeitório, cozinha, lavanderia e paiol, fazendo notar em tudo o maior asseio e a ordem mais absoluta.
Sobre uma das portas da fortaleza, hoje remoçada e até florida, vê-se ainda, como documento histórico, uma pedra gravada com dizeres no português do tempo relativos à sua fundação.
Depois de ter percorrido todo o interior do edifício saí, a ver no parque os exercícios de ginástica sueca executados com precisão admirável pelos menores.
De cima de um terraço eu dominava o grande tapete relvado onde os aprendizes, dirigidos por um companheiro, faziam ao mesmo tempo que ele todos os movimentos disciplinares, do mais suave ao mais torturado, como se os músculos de todos eles obedecessem a um só maquinismo e a uma só vontade.
A tarde estava de um encanto inesquecível. Numa parte do jardim lateral do edifício, uma grande quantidade de pequeninas mesas brancas e floridas para o five o'clock, e dispostas com arte de modo a poderem os que estavam em uma delas ver os que estavam em outras, traziam à lembrança naquele cenário de macias relvas, de praias claras, em que o murmúrio das ondas se casava ao ramalhar das árvores e ao som dá música ao ar livre, cenas de outros lugares distantes, talvez Nice, talvez Cannes...
E até sol-posto foi um rumor alegre de vozes naquele jardim, e um correr de meninos pelos gramados, tachonando-os com as cores alegres dos seus vestidos e dos seus chapéus floridos.
E se o mar não prometesse mau embarque, ali ficaríamos até o romper do luar, para navegarmos depois em mar de prata e gozarmos por mais tempo as doçuras daquele ambiente delicioso...
Ora, pois, abro um parêntese na série destes artigos descritivos, para me referir a um fato, que nos impressionou a todos no Rio de Janeiro, porque teve na imprensa carioca uma horrível repercussão. Não é preciso uma extraordinária perspicácia para se adivinhar qual ele seja; já o leitor percebeu que aludo ao contrato feito pelo Governo do Estado do Espírito Santo com a firma Lichtenfels & Cª para exploração de matas do Estado e desenvolvimento da sua imigração.
Quando parti para a cidade da Vitória levava o espírito apoquentado por esse assunto e vou dizer por quê, para que não pareça exagerada a minha sensibilidade. É o caso que desde que peguei na pena, resolvida a escrever para o público, me arvorei, por minha conta própria, em advogada das nossas árvores urbanas e florestais.
Corajosamente, sem medo de criar com a minha insistência fama de monótona a propósito de tudo, e manda a boa verdade dizer que muitas vezes fora de propósito, procurei sempre fazer entre nós a propaganda da árvore e da flor, e, se a minha vaidade, ou veleidade, já se tem consolado com alguns triunfos nesse sentido, confesso que ainda estou bem longe de ver confirmados todos os meus propósitos. Tendo em artigos de jornais, em conferências, em livros, clamado sempre contra a devastação inútil das nossas matas e a favor do plantio e replantio do arvoredo benéfico, é fácil de imaginar qual seria a minha opinião em face desse famoso contrato, destinado, segundo diziam, a desnudar por uma miséria a linda terra espírito-santense!
E, por isso mesmo, porque esse assunto me interessasse vivamente, ardia em curiosidade de indagar de alguém bem informado todos os seus detalhes e circunstâncias, não ousando fazê-lo, com receio de ferir susceptibilidades e melindres, tanto o caso me parecia monstruoso.
Em face, porém, dos progressos que via realizados na Vitória e que me atestavam a boa orientação do Governo do Espírito Santo, comecei a duvidar do meu critério anterior, e, sem poder sopitar curiosidades, pedi a alguém, cujo espírito me pareceu Imparcial e justo, que me demonstrasse o verdadeiro espírito da questão. A nossa palestra, no pacato recanto do velho salão do hotel, foi rápida e concisa. O meu ilustre informante afirmou, com espanto para mim, considerar o contrato, em volta do qual se levantou tanta celeuma, de magníficos resultados para o Estado, acrescentando:
"Minha senhora, não se podem abrir estradas em matarias; fazer vilas em pontos disseminados dos sertões para colônias agrárias; cultivar terras até hoje inexploradas, sem que muitas árvores das florestas gemam sob os golpes do machado derrubador. O progresso também faz as suas vítimas, e parece-me de boa política aproveitar-lhes os corpos inermes, não para aquecer locomotivas das estradas de ferro, como se faz em alguns Iugares, mas para convertê-Ias em dinheiro para os magros cofres do Estado. Já que se interessa pelo assunto, eu lhe arranjarei algumas notas positivas a seu respeito. Os meus vagares de aposentado permitem-me esse trabalho."
A palavra foi cumprida. As notas vieram, e é sobre elas que ou escrevo estas linhas.
Entre os problemas nacionais, que mais nos preocupam, existe um que no conceito geral merece a primazia:
"Atrair imigrantes o localizá-los definitivamente no país."
Não há sacrifícios a que não nos tenhamos submetido para conseguir semelhante resultado, e ainda a esta hora até humilhações recebemos mesmo das nações de 2a ordem em troca deste triste papel de mendigos de colonos que representarmos, batendo às portas de quem abertamente nos repele e injuria.
Espalhar agentes pelo mundo civilizado, subvencionar a imprensa, banquetear autoridades, derramar folhetos e mapas em todas as línguas, pagar passagens em linhas terrestres e marítimas, fazer gastos com alojamentos, alimentação, assistência de toda ordem, despender com transportes, salários, adiantamentos, ferramentas, sementes, casas e até com caprichos, eis o que nos custa o agenciamento de meia dúzia de colonos, que, não raro, meses depois nos abandonam em busca da Argentina, ou se transformam em mascates drenadores de nossas economias para o Oriente.
Mas não é tudo: — Os núcleos exigem direção, fiscais, intérpretes, instrutores, escolas, boas estradas, cercados seguros, mercados garantidos, centros industriais e outros complementos, representando no conjunto avultado dispêndio, arriscado e aleatório. Tomemos no Brasil os últimos quatro anos; somemos as quantias todas empregadas com a introdução e manutenção de imigrantes, computadas as despesas acima enumeradas, o dividamo-las pelo número de famílias realmente localizadas.
— Qual o resultado? Nem com dois contos de réis conseguiremos representar a quota de cada uma!
A colônia Afonso Pena custara ao Estado do Espírito Santo mais de 120 contos de réis ao ser transferida à União e, no entanto, não recebera ainda um só colono. Rios de dinheiro tem custado ao Governo o núcleo Itatiaia; e quais as suas atuais condições? Que produz? Que importância representa para atrair imigrantes?
De agora em diante a imigração vai-se tornar cada vez mais difícil e dispendiosa, porque pouco a pouco nos estão fechando os portos as nações, onde nos habituáramos a abastecer-nos. Mas não levemos em conta essa circunstância e digamos que cada família introduzida e localizada em nosso país, de bons imigrantes, vale somente por dois contos de réis. É essa quantia que em plena consciência e acertadamente está buscando aplicar a União para povoar alguns dos nossos Estados, entre outros o Paraná, Minas e mesmo (em escala reduzida) o Espírito Santo.
Este Estado que, todo ele com uma superfície superior várias vezes à da Bélgica, não conta senão duzentos mil habitantes, isto é a quinta parte, tão somente, da população do Rio de Janeiro, precisa antes de tudo cuidar de povoar o seu território, coberto em grande parte de matas e montanhas.
Preocupação constante de alguns dos seus governos, não tardou que se lhes apresentasse como insolúvel o problema, em face da renda exígua do Tesouro, dificilmente mantida, ainda assim, por uma população pobre e desaparelhada.
Foi em uma situação de tal ordem que, ao atual presidente do Estado, se apresentou a casa Lichtenfels & Cª pretendendo extrair madeiras do Estado, alegando dispor de facilidades excepcionais para lhe colonizar o território. Era a solução que se oferecia, afinal, tão ansiosamente buscada, por isso, após acurado estudo, tendente a harmonizar os recíprocos interesses, o acordo se estabeleceu, traduzido em um contrato que é uma glória para o Governo, a despeito dos repetidos mais infundados ataques, de que tem sido alvo até por quem confessa nunca ter lido as cláusulas que firmaram na transação.
A casa contratante viu diante de si terras abundantes, cobertas de cerradas matas virgens, e muito naturalmente acreditou que mediante um bem estudado plano de exploração, apoiado em um conjunto de medidas que mutuamente se auxiliassem, poderia gerar para os capitais, com que contava, uma razoável fonte de renda. Sabia onde encontrar colonos, que acudissem ao seu chamado e viessem ocupar as terras oferecidas, não somente sem lhe exigir as despesas, a que jamais se podem furtar os governos no pagamento e colocação de imigrantes, como dos mesmos colonos recebendo até, e muito justamente, uma certa soma pelo patrimônio recém-adquirido.
Para tornar acessíveis os núcleos projetados seria necessário construir centenas de quilômetros de estradas de rodagem, mediante uma despesa inevitável e sem duvida no valor de muitas centenas de contos de réis, mas era possível atenuá-la utilizando essas novas vias de comunicação com o transporte de madeiras até os rios navegáveis ou as linhas férreas em tráfego.
Esse plano inteligente, governo algum poderia utilizá-lo, porque se existe trabalho fora do alcance dos meios oficiais, esse trabalho é sem dúvida o de explorar madeiras. Assim, aquilo que seria ruinoso e inexeqüível para o Governo, tornava-se nas mãos de um particular arguto uma medida complementar de alto valor econômico.
Cumpre acentuar que a exploração de madeiras, no Brasil, somente pode ser lucrativa se aquele que as quiser extrair dispuser de abundantes capitais e estiver seguro dê lhe não faltarem avultadas reservas de matas que assegurem compensações pelas despesas a fazer com a abertura de estradas e com a indispensável e dispendiosa organização comercial, que o abrigue contra o ruinoso monopólio exercido por meia dúzia de casas da praça do Rio. Não fora a necessidade de tais reservas e certamente a casa contratante preferiria comprar madeiras em matas particulares à razão de um ou dois mil réis o metro cúbico — como é corrente no interior do Estado — a pagá-las a 5$000 em regiões desprovidas de meios de transporte e de população. Só os que não conhecem o assunto acreditarão que 800.000 metros cúbicos de madeiras nas brenhas de um Estado despovoado podem fornecer 20 a 30 mil contos de lucros aos que se abalançaram a extraí-las. Basta refletir que é 9$000 a diferença apontada entre os ônus fiscais que gravam os atuais possuidores de matas e os que vão pesar sobre o novo contratante, para, feitos os cálculos, verificar-se que o lucro, se o houvesse, seria no máximo de 9$000 vezes 800.000, isto é, 7.200 contos, tão-somente.
Esse lucro, conforme deixamos dito, só se verificaria se o contratante não fosse onerado de outros encargos e se obtivesse as suas madeiras ao longo das estradas ou dos rios navegáveis, como acontece com os terrenos particulares. No entanto, nada disso acontece; muito ao contrário. Assim, pois, o contratante só poderá ter lucros (e é muito justo que os tenha), nas seguintes condições:
1º, se dispuser de grandes capitais;
2º, se puder, sem despesas, atrair colonos para o Estado, colonos que tenham recursos e sejam realmente agricultores;
3º, se tiver tino comercial para bem colocar as madeiras que extrair;
4º, se desenvolver qualidades administrativas para, de modo econômico, extrair e transportar as madeiras contidas nas matas devolutas, que lhe forem concedidas.
Aceitando ele o contrato, é de presumir que possua esses requisitos: será para o Espírito Santo uma felicidade, que assim seja!
E o Governo sob que móveis agiu?
O seu pensamento fundamental foi colonizar o Estado. Como consegui-lo? Sendo dispendioso e difícil realizar tão legítima aspiração, um caminho somente se oferecia a quem não dispunha de dinheiro: ceder terras e o que nelas se contivesse, em troca dos braços que deverão cultivá-las, para enriquecimento do Estado. Ceder gratuitamente terras devolutas a colonos. Que é que fazem os Estados, às claras, doando-as ou, veladamente, vendendo-as a preços irrisórios, sem juros, a prazos que sempre se prorrogam e mediante pagamento proveniente do salários elevados, pagos por compromissos formais o expressos pelos cofres oficiais? Milhares de hectares recebeu do Estado a União a título gratuito, quando lhe foi transferido a Colônia Afonso Pena, mediante menos ainda da quantia, que em benfeitorias despendera o Governo que a fundara. Por que motivo não investiram contra ambos? O complemento da paga ao contratante forneceu-o o Governo dispensando de impostos a madeira das terras cedidas. Examinemos, para fulminá-lo, o ato perdulário. A madeira em causa é das terras devolutas. Esta, se não fosse dispensada do imposto, não seria evidentemente exportada, porque outras, ao longo das linhas de transporte, existem que se vendem por menos de cinco mil réis, preço cobrado pelo Governo no contrato. E nesse caso, que sorte teriam tais madeiras?
Seriam queimadas sem proveito para ninguém.
Com efeito, sendo impossível colonizar terras sem lhes derrubar as matas e transformá-las em culturas, claro é que em breve estariam reduzidas a cinzas as suas madeiras. E é Isso mesmo que se tem feito em toda a parte, a despeito de estéreis clamores da imprensa e das vãs promessas interventoras das administrações. Assim, o Governo dispensou de impostos aquilo que jamais poderia ser taxado, porque estava condenado a ser devorado nas queimadas.
Vendendo árvores por 4 mil contos, o Governo salvou para o Estado essa grande soma. Foi hábil e tornou-se um benemérito.
Cem contos, que as matas produzissem, já seria uma bela conquista ao incêndio. Quando, porém, não militassem tão justos motivos para a transação, é fácil demonstrar que o preço de 5$000 por metro cúbico de madeira em pé, nos sertões do Espírito Santo, não é um preço baixo. Informem-se dos preços vigentes em regiões mais acessíveis, e verão que ninguém vende por mais, nem por tanto. Próximo à linha da Leopoldina, na Serra do Frade, em Macaé, as madeiras escolhidas podem ser e são compradas a 2 e 3 mil réis o metro, se não menos. E ainda mais perto, à margem da Central, a 3 léguas apenas de distância, paga-se 3 a 4 mil réis, somente, pela mesma unidade de madeira de 1a classe em árvore. Se levantam os preços, afastam-se os compradores o não tarda então que o fogo realize a sua obra...
Eis aí os fatos esmagadores, que não receiam contestação.
Mas, na realidade, por quanto foram vendidos os 80.000 metros cúbicos de madeira que figuram no contrato? Vejamos:
| Contos de réis | |
| 1º Em dinheiro | 4.000 |
| 2º Como renda dessa quantia, por ter sido fornecia adiantada. Sendo de 10 anos o prazo concedido, tomemos metade desse prazo para média do tempo, em que devem ser contados os juros, que suporemos de 7,5% ao ano, teremos: 4.000 contos, a 7,5% ao ano, em 5 anos | 1.500 |
| 3º Custo de introdução e localização de 3.500 famílias a 1 conto de réis somente (em lugar de 2 contos) | 3.500 |
| Total de | 9.000 |
Eis o que diretamente vai receber o Estado pelos 800.000 metros cúbicos de madeira, em árvore, nos sertões do Espírito Santo.
Em árvores disputadas ao fogo! Mas de modo menos expresso, mas não menos categórico, são bem maiores os serviços e vantagens auferidos pelo Estado no contrato. Em primeiro lugar há a obrigação de introduzir mais 300 famílias para a lavoura, e isso não vale menos de 200 a 300 contos de réis. Em segundo lugar, em virtude da cláusula 35a combinada com a cláusula 3a, obrigou-se o contratante a introduzir mais 1400 famílias, sob pena de reverterem ao domínio do Governo os lotes a elas destinados. Eis aí mais uma verba de mil contos, pelo menos. Em resumo: as vantagens do Governo, traduzidas em dinheiro, não somam menos de 10 a 11 mil contos de réis.
As conseqüências de outra ordem são extraordinárias para o Estado:
1º – O número de imigrantes, que nele se deverão localizar, será de cerca de 20.000. Ora, sendo de 200.000 apenas o número total de habitantes do Estado, conclui-se que a sua população vai ser de pronto aumentada em 10%.
E esse colossal resultado se fará sem ônus ou incômodos de qualquer natureza para o Governo Federal.
2º – Sendo, no presente momento, de cerca de 40.000 contos de réis o valor da produção do Estado, é lícito admitir que essa produção será em breve elevada de 10%, isto é, a 44.000 contos, só por influência do contrato.
3º – A renda fiscal do Estado, avaliada no corrente ano em cinco mil contos, poderá em breve, sob aquela mesma influência, elevar-se a 5.500 contos.
Se se quisesse aprofundar o estudo dos resultados da introdução e localização de 3.500 famílias nas terras devolutas do Estado do Espírito Santo, a abertura de estradas, daí decorrentes, a movimentação do interior atualmente despovoado, a repercussão no país de origem dos colonos, e inúmeros outros efeitos evidentes, não haveria louvores bastantes para galardoar o ato de quem assinou o novo contrato. Se este se realizar, como tudo faz prever, acontecerá com este caso o mesmo que se passou com outros na apreciação dos atos administrativos do atual Governo: as mais acerbas criticas e os mais sombrios vaticínios seguidos dos mais retumbantes sucessos. Argüiu-se de ruinosa loucura a execução das obras que deram água, luz e esgotos à Capital. — "Despender 3.000 contos era empobrecer o Estado, porque, se a obra se fizesse, não daria senão prejuízos" — eis o que de todos os lados se ouvia.
Pois bem! Fizeram-se as obras. Não são passados senão meses, e aquilo que custou 2.500 contos está vendido por mais de 5.000. O Governo fez construir casas na Capital, e não faltou quem condenasse a resolução. Resultado: as casas estão sendo disputadas e não bastam para as necessidades da população acrescida. O mesmo acontecerá ao contrato das madeiras e a quantos atos administrativos praticar o Governo, inspirado pela confiança nas condições naturais daquele solo privilegiado, na energia de seus filhos e no futuro brilhante, que aguarda o Estado do Espírito Santo.
***
A estas informações, que aqui ficam expostas, vieram juntar-se ainda, a meu pedido: um esquema representativo da superfície do Estado do Espírito Santo, contendo os terrenos ocupados, os devolutos e a área suficiente para a extração de 800.000 metros cúbicos de madeiras, e mais as seguintes ponderações sobre o mesmo assunto:
Se considerarmos um hectare de terras cobertas por mata virgem, podemos representar esta área por um quadrado que tem 100 metros de lado.
Se supusermos que haja apenas uma árvore de 20 em 20 metros, teremos, que em um hectare existirão 5x5, ou 25 árvores. Tendo cada uma dessas árvores, em média, três metros cúbicos, teremos 75 metros cúbicos de madeira em um hectare, e, portanto, em 10.667 hectares encontraremos 800.025 metros cúbicos de madeira.
A área 10.667 hectares é equivalente à de um retângulo cujos lados são: 10.667 e 10.000 metros. Neste retângulo não há lado que atinja sequer a duas léguas, pois o maior lado tem uma légua, três quartos e uma pequena fração, e o menor tem exatamente uma légua e três quartos.
O Estado tem cerca de 6.000.000 de hectares de terras devolutas, e há proprietários no Espírito Santo de duas e meia sesmarias cobertas de matas virgens ou de 2.222,5 alqueires, área esta que representa 1/282 aproximados dos 3.000.000 de hectares. Esses proprietários poderiam, pois, extrair e exportar os 800.000 metros cúbicos de madeiras.
O contrato para extração dos 800.000 metros cúbicos de madeira estabelece a obrigação da fundação de sete núcleos coloniais por parte da firma concessionária. Será feita para cada uma das "500 famílias" de colonos, que compõem cada núcleo, uma derribada de 5 hectares.
Já vimos acima que cada hectare contém 75 metros cúbicos de madeira e, portanto, cada lote colonial fornecerá na derribada dos 5 hectares 375 metros, e cada núcleo 187.500 metros cúbicos. Fundados os 7 núcleos coloniais, a firma concessionária terá feito a derribada de árvores, cujo volume é de 1.312.500 metros.
representativo da superfície do Estado do Espírito Santo, contendo os terrenos ocupados, os devolutos e nestes a área suficiente para a extração de 800.000 metros cúbicos de madeiras, representada pelo quadrado que tem o sinal A.
| km² | |
| Superfície do Estado | 44.800 |
| Superfície das terras devolutas | 30.000 |
| Área para a extração dos 800.000 metros cúbicos de madeira | 106.67 |

Escala: 0ms,01=20k².
E depois deste eloqüente quadro, que mostra de modo prático e evidente quão exígua é a área, não já do Estado, mas das "terras devolutas", bárbaras e incultas do Estado, comprometidas no malsinado contrato, o que deu azo à acusação fantasiosa e mirabolante, de que o presidente do Espírito Santo vendera o seu Estado ao concessionário, só me resta esperar a publicação deste artigo para entregar ao Jornal o 5º e último das "Cenas e paisagens do Espírito Santo".
Comparação de aspectos — Partida pela Diamantina — O que será dentro em pouco tempo essa via férrea — Fazenda Modelo da Sapucaia — Terras do Sul e terras do Norte — Pastor e arado — Primeira condição de agrado da Fazenda Modelo; exemplos admiráveis que devem ser seguidos pelos governos de intenções sinceras — A segunda condição de agrado; simplicidade, rusticidade; como se deve ensinar os pobres; a casa; a hospedagem; passes gratuitos — Prêmios; seu estímulo — Máquinas — Ceifadeira de arroz ; quadro de José Malhôa; as moças no arrozal; os discípulos; o mestre; cereais; produções; diversas instalações; substituição de jacarés por feijão; capitães que hão de correr por seus pés — Vias de comunicação; construções de estradas; colônias; fábricas e ainda mais núcleos coloniais e ainda fábricas — O maior benefício prestado pelo senhor Jerônymo Monteiro — O ensino público — A alma da Vitória — O entusiasmo do estudo — Instituto de Pintura — As crianças do Espírito Santo — A freqüência dos colégios — Asilo do Coração de Jesus — Nem uma batina nas ruas nem hábitos de frade — A impressão da viagem — Saudade e agradecimento.
Só os fatos louvam sem mentira
Ruy Barbosa.
Porque o aspecto da capital do Espírito Santo me tivesse impressionado, não só pela sua feição original e pitoresca, como pelo seu frêmito de progresso, desejei conhecer também o de seus campos de lavoura.
Para isso, partimos por uma lindíssima manhã pelo trem da Diamantina, estrada que será muito breve a grande artéria propulsora de progresso e de fortuna desse esperançoso Estado, para a Fazenda Modelo da Sapucaia, a poucos quilômetros da Vitória.
As terras cortadas pela Diamantina fazem já promessas diferentes das outras atravessadas pela Leopoldina. Deram-me estas a impressão de terem nascido para a fartura dos rebanhos e as lidas do pastor; e aquelas, mais coloridas, mais exuberantes, para os sulcos do arado e a glória das sementeiras.
A primeira condição de agrado que me proporcionou a "Fazenda Modelo Sapucaia", criada pelo doutor Jerônymo Monteiro, e inaugurada em 4 de dezembro do ano passado, foi a de ser organizada mesmo às margens da estrada de ferro, que a corta pelo meio. Assim, e há nisso uma tática muito inteligente, quem passar no trem, verá forçosamente por qualquer dos lados do comboio por que olhe, os talhões das diferentes culturas da fazenda estendendo-se, como mostradores em exposição permanente, pelos campos e alegrando a paisagem aqui com um tapete dourado de trigo maduro ou de arroz seco, ali com um azul, de linho em flor; acolá com um outro verde de um feijoal novo ou de um canavial. O exemplo oferecido assim a prevenidos e desprevenidos é de conseqüências admiráveis e deve ser seguido, sempre que for possível, pelos organizadores de escolas dessa natureza; porque enterrar tais estabelecimentos em lugares de condução difícil e longe da vista das populações, quase sempre preguiçosas e indiferentes, é gastar dinheiro sem pena e perder grande parte de trabalhos e de exemplos, que ficam desaproveitados.
Há coisas que parecem insignificantes e que têm, entretanto, um grande alcance administrativo. Esta pareceu-me uma delas. Na realidade, a um povo sem educação é preciso meter-lhe pelos olhos dentro tudo que possa cooperar para a sua felicidade e que a sua inércia não descobrirá de outro modo. Um apeadeiro na própria fazenda facilita a visita dos curiosos.
A segunda condição de agrado, que me proporcionou aquela propriedade agrícola, criada para educar agricultores pobres, foi a sua simplicidade, mais do que simplicidade: a sua rusticidade.
Ali, tudo o que pôde ser feito com materiais fornecidos pela própria fazenda: madeira, barro ou pedra bruta, é — o de preferência a ser executado em metais mais ou menos caros, madeiras envernizadas ou pedras britadas a capricho. Em face daquele exemplo o lavrador pobre não levantará os ombros desdenhosamente com a convicção de que objetos de preço só podem servir nas propriedades dos ricos, ou do Governo, e nunca nas suas propriedades modestíssimas. Ao contrário, observando os processos postos ali em prática, aprenderá a fazer obras de utilidade agrícola aproveitando com acerto em seu beneficio os elementos naturais oferecidos pela terra em que trabalha.
O muxoxo, com que o caipira olha sempre para tudo que está fora da sua compreensão ou das suas posses, é assim substituído por um olhar de curiosidade, de surpresa e de estudo. Porque o que ele vê diante de si é iam modelo que não lhe será impossível imitar. Certamente que aquela fazenda não foi feita para ser mostrada à gente pomposa das cidades, mas só para servir de escola a populações pobres e sem engenho.
Quantos infelizes desesperam por não saber tirar partido de recursos que tem muitas vezes mesmo embaixo das mãos! É essa facilidade e essa independência, que a "Fazenda Modelo Sapucaia" estimula e sugere com o seu exemplo, visando facilitar assim a aplicação das teorias que difunde.
A casa, no mesmo estilo singelo, verdadeiramente roceiro, tem acomodações para hospedagem gratuita, até o prazo de trinta dias, para os agricultores que desejarem demorar-se nela, estudando os processos agronômicos modernos. Para facilitar tanto quanto possível a freqüência dessas visitas, o Estado fornece, também gratuitamente, passes da Estrada de Ferro a todos os agricultores que os solicitarem. Procura desse modo animar a lavoura, que vinha de longe arrastando uma crise pesada, de desesperança.
Foi também com o intuito de fazer vibrar os ânimos dos lavradores que o mesmo Governo estabeleceu uma lei, em 1908, criando 241 prêmios em dinheiro para os agricultores, que mais se distinguissem em produção, qualidade e exportação de culturas agrícolas, além de outros prêmios, representados por um reprodutor de raça, já aclimado no país, para o criador que no Estado criasse mais de duzentas cabeças de gado lanigero, vacum, muar ou cavalar.
Essa lei, traduzida em alemão e em italiano, que são os idiomas da maioria dos colonos do Espírito Santo, foi publicada, assim como em português, em folhetos, largamente distribuídos pelos principais centros agrícolas do Estado.
O fruto dessa sementeira não tardou a aparecer. Tanto o nosso povo rural carece de estímulo! Já no ano seguinte foram distribuídos vários prêmios e, desde então, a roda nunca mais parou, fazendo, na sua rotação, salpicar prêmios para um lado ou para outro, sob vários pretextos: a este industrial, porque mantém uma usina; àquele criador, porque exportou tantos mil quilos de toucinho, de truta em conserva, ou uma quantidade considerável de sacos de arroz beneficiado, etc.
Não é nada? É como um punhado de milho louro, espalhado para o alvoroço e alegria de pintos, que, já na contenda de apanharem os grãos mais gordos, encontram meio de satisfação e de atividade. Eu aprecio essas coisas, achando nelas assunto de interesse especial, porque representam gestos independentes, livres de peias, com que a política costuma embaraçar os Governos dos Estados, e, muito, principalmente os Estados de poucos recursos.
Assim, ora acoroçoando lavradores e industriais agrícolas com certas somas de dinheiro, ora criadores com exemplares de reprodutores de raça, o Governo do Espírito Santo tratou pari-passu de combater os processos rotineiros, ainda empregados na lavoura do Estado, estabelecendo um campo de demonstração (fazenda-modelo da Sapucaia), onde o lavrador pode fazer praticamente a sua aprendizagem, manejando instrumentos agrários que o estabelecimento lhe fornece pelo preço do custo, mediante pagamento em prestações, previamente combinadas.
Quando o lavrador não se quiser sujeitar a isso, o Governo mandará, a seu requerimento, montar as máquinas e ensinar a manejá-las, gratuitamente, à sua propriedade. Tudo isso me pareceu muito bem determinado e muito digno de divulgação.
Na manhã em que visitei a "Fazenda" fazia-se nela a experiência de uma nova máquina de ceifar e de enfeixar arroz. E a essa experiência cabiam perfeitamente as palavras da chapa: estava sendo coroada de magnifico êxito. O arrozal maduro lourejava ao sol. Lembrava um quadro pintado por José Malhôa, e várias vezes as alegres tonalidades desse artista exuberante e rural me acudiram à memória naquela transparente a luminosa manhã de maio.
A Ceifadeira mergulhava na onda loura o seu pesado corpo de ferro, atirando o arroz, já em feixes atados rapidamente por ela mesma com um solido nó, de embira para o campo devastado, onde ficavam apenas pequenas touceiras do arrozal, rentes ao chão. Aos lavradores que dirigiam a máquina e a outros lavradores que acompanhavam para observá-la de perto, reuniu-se um grupo de senhoras, curiosas, cujas toilettes claras e sombrinhas de cor juntaram ao bucolismo do quadro uma nota risonha, que o completava. Dentro de poucos minutos não havia ali chapéu nem cinto que não estivesse enfeitado com um penacho de arroz.
Do lado oposto da estrada, em outros campos da mesma propriedade, empregavam-se alguns discípulos na aprendizagem dos processos aratórios, preparando o terreno para novas plantações. Surpreendi assim, a fazenda numa hora de atividade, e de aplicação dos modernos processos de trabalho. O mestre de culturas, senhor Agostinho de Oliveira, que se me afigurou sinceramente apaixonado pela sua profissão, informou-me, mostrando-me uma vitrina, em que estavam vários punhados de cereais, que já se têm feito ali experiência de 57 variedades de plantas forraginosas, alimentícias, têxteis, oleaginosas, etc. Dando a aveia na razão de 46 hectolitros por hectare; alfafa, 10 cortes por ano; trigo, 12 hectolitros por hectare; linho, 80 centímetros de altura; algodão, 0,m60 de extensão de fibra; sorgo, 700 alqueires por alqueire de semente, etc.
Embora as terras em que está organizada a fazenda, não sejam das melhores do Estado, tendo sido escolhidas pela sua situação, a cujas vantagens aludi, e pela sua facilidade de comunicação, ainda assim o quadro comparativo da sua produção de trigo, por exemplo, com a de outros países, é-lhes extremamente lisonjeiro.
Enquanto Portugal colheu 9 hectolitros por hectare, a Argentina 11, a Austrália 40, os Estados Unidos 7, — o Espírito Santo colheu 12, o que já constitui uma diferença razoável, guardando as mesmas proporções nas diferentes qualidades de trigo que cultivou como experiência e demonstração, tendo igualmente obtido magníficos resultados de plantas estrangeiras, ainda não conhecidas no Brasil, ao mesmo tempo que, provado as vantagens das plantas conhecidas quando tratadas pelos processos mecânicos que aumentam, melhoram e barateiam a sua produção.
As instalações da fazenda para os seus animais estão ainda de acordo com o seu tipo modesto. São modelos de fácil imitação e em que, na sua rudeza, estão previstas todas as condições de higiene.
Entretanto, falava-se na construção de novas baias, de um posto zootécnico e não me lembra mais o quê. Em todo caso, os carneiros Lincoln, os touros Gersey, ou as galinhas Plymouth encontram condições de vida farta nos campos da fazenda da Sapucaia, para onde têm sido remetidos alguns exemplares deles, e que sempre serão mais proveitosos que os terríveis jacarés que ali habitavam um charco, hoje transformado, pelo aterro, num vistoso e fértil feijoal!
Ainda com o sentido de animar a lavoura, tendo sido fundado o Banco de Crédito Agrícola e Hipotecário, o jornal oficial da Vitória começou a imprimir uma seção diária, de tipo gordo e entrelinhado, com explicações e conselhos sobre agricultura. Este ardil facilita a leitura, pelo menos desse trecho do jornal, às pessoas de vista cansada, ou que saibam apenas soletrar.
É alguma coisa: é o interesse levado a toda gente, em doses de fácil assimilação, pelo mais portentoso assunto do país.
Observando esses pequenos nadas, penso com alegria que o nosso vício de politicagem começa a transformar-se em séria atividade administrativa... Mas quem me dirá se nos outros Estados se faz o mesmo?
Nós os brasileiros gostamos pouco de viajar em nosso país; desde que se não possa ir para o estrangeiro proferimos a tudo ficar em casa; daí a ignorância de muitos aspectos curiosos e de muitos fatos interessantes de nossa terra e da nossa gente. Quando porém, por qualquer circunstância inesperada, visitamos um ou outro dos nossos Estados, dizemos não trazer deles impressões que valham a pena de ser comunicadas a ninguém! É um mal e um erro, porque da nossa crítica ou do nosso louvor podem resultar benefícios imprevistos para o país.
Por minha parte confesso que tive intenso prazer surpreendendo no Estado do Espírito Santo, tão acoimado de pobre e de rotineiro, um tão grande movimento de progresso e de transformação, e que julgo cumprir um dever de patriotismo afirmando a convicção que nutro de que essas terras, dentro em pouco tempo, atrairão só por si capitais importantes que para elas irão espontaneamente, na certeza de ótimas recompensas. Já não é um Estado rotineiro; é um Estado progressista. Ao mesmo tempo que o Governo dava à cidade principal água, luz, esgotos, serviço de higiene publica e domiciliaria, escolas, habitações populares e um novo e moderno hospital; ao mesmo tempo transformava os seus lodaçais em parques secos e drenados, contratava diversas vias de comunicação: linhas de bondes elétricos, construções de estradas para carros e automóveis; navegação a vapor pelos rios Doce e Itapemirim, construções de estradas de ferro que atravessam regiões feracíssimas; e tudo em vários pontos do Estado, simultaneamente. Não contente com isso, o Governo põe outros serviços em execução, contratando com particulares construções de outras estradas e a fundação de colônias, de fábricas, de serrarias, de usinas, do plantio do cacau, de exploração de matas e desenvolvimento da imigração com a fundação de 7 núcleos coloniais de 500 famílias cada um; e ainda de mais estradas e ainda de mais imigrantes, e ainda de mais fábricas e de mais usinas elétricas!
Mas sobrepujando a todos, o grande beneficio prestado pelo doutor Jerônymo Monteiro ao seu Estado natal está na reforma do seu ensino publico. Hoje a alma da Vitória é a colegial. Ela dá à cidade, provinciana e sossegada, uma nota de alegria vibrante pelo seu ar decidido e entusiasmado e pelo seu traje encarnado ou azul, segundo o grupo escolar a que pertence. A certas horas, quem chegar às janelas ou andar pelas ruas, verá surgir em vários pontos essas manchas luminosas, e inconfundíveis, que fazem pensar que também as hortênsias e as papoulas andam!
Não são só as pequenas, também as mocinhas vestem com orgulho os seus uniformes de normalistas. Toda a mocidade da Vitória estuda e fá-lo com um entusiasmo como jamais observei em parte alguma; o seu Instituto de pintura é freqüentado com imenso interesse por muitos moços e moças da sua melhor sociedade.
Mas o seu maior encanto está sobretudo nas escolas publicas refundidas pelo modelo das de São Paulo, que são as mais afamadas do país. Em geral as crianças no Espírito Santo são fortes e desembaraçadas, o que duplica o encanto das salas escolares, que estão bem organizadas, com aparelhos e mobílias modernas. A prova do grande interesse que há na Vitória pelo estudo está bem expressa pelas suas estatísticas escolares.
No mês de maio, em que visitei essa cidade, foram as suas escolas públicas freqüentadas por mil e oitenta e sete crianças, o que representa uma soma respeitável numa cidade de pequena população, tanto mais quanto nela não há só escolas publicas, mas também particulares de grande freqüência. Eu mesmo visitei uma, o "Asilo Coração de Jesus", em que era muito grande o numero de discípulas, aparte as órfãs pobres do Estado, ali recolhidas, se me não engano, em número de 200, e por cuja manutenção o Governo subvenciona esse estabelecimento com uma determinada quantia.
E o engraçado é que foi preciso entrar num edifício religioso para eu ver a primeira touca de religiosa no católico Estado do Espírito Santo! Foi só então que ma ocorreu à lembrança o que me tinham afirmado no Rio, isto é, que eu iria esbarrar com batinas de padres e hábitos de monges por todos os ângulos e curvas da Vitória, quando a verdade é que, em cinco dias, eu ainda não vira nem uma só batina, nem um só habito de freira ou de frade, nas ruas da Vitória nem nas estações do caminho de ferro do Estado do Espírito Santo!
Isso não acontece em São Paulo nem em Minas, nem aqui, verdadeiro refúgio de religiosos exilados da Europa.
Ora pois, até nisso aquela terra era diferente do que me tinham afirmado antes da minha partida.
De fato, em vez de uma sociedade fanática, tristonha, desconfiada, achei-me no centro de uma sociedade carinhosa, risonha, desembaraçada e vivaz, de que guardarei sempre saudades.
E porque de tudo trouxe uma impressão de agrado, de esperança, ou de surpresa, quis fixá-la nestas linhas, em que escondi quanto pude a gratidão pelo excepcional acolhimento que devo a esse Estado, para só deixar transparecer a verdade nua dos fatos que nele observei, sem véus de fantasia, nem parcialidade de sentimento.
E, também, para isso, não escrevi precipitadamente. Esperei; dei tempo a que as minhas idéias amadurecessem antes de rever as notas feitas no tropel das horas movimentadas, que passei na Vitória e que tão imperfeitamente descrevi. Sinto-me, porém, satisfeita de poder afirmar a todos os brasileiros, mesmo aos mais indiferentes, que esse pedaço da Pátria achou quem o despertasse do sono letárgico que ha tanto tempo o entorpecia e que, agora, despertado e fortalecido, caminhará ativamente, alegremente, para um futuro nobre e feliz.
Fonte: www.estacaocapixaba.com.br
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