- Pisei?!
- Quase...
- Meu Deus!
Contemplaram-se as duas entre lágrimas.
- Foi uma grande desgraça, Noca!
- Se foi! Ainda me parece mentira...
- A mim também. As vezes julgo mesmo que ele vem da cidade e que vou vê-lo abrir o portão... Pobre tio Francisco!
Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquela mobília impassível lhes estendia os braços numa súplica.
Na secretária, ao lado do código de Orlando, o tinteiro de prata já vazio e em que a caneta sem pena pesava num abandono de corpo morto, havia cintilações frias.
Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéu emplumado na mão, em um aceno arrogante de adeus.
Disseram-lhe o último, e fecharam a porta.
Na limpeza da casa, Nina encontra em um caixote, no porão, entre um sem número de objetos mutilados e antiquíssimos, o chicotinho com que Mário a zurzia nos dias de cólera, quando, pequena e magra, ela fazia reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que ele abafava gritando-lhe:
- Cala a boca! cala a boca!
Calar a boca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste sorriso desbotado, Nina separou de todos os objetos destinados para a fogueira, aquele chicotinho revelador e profético, e guardou-o como relíquia.
Para que nascera ela, senão para ser batida?
Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camila e as duas gêmeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atrás delas, muito magrinha e pálida, Ruth mal sustentava a caixa do seu violino, pasmando para as árvores amadas um olhar dolorido e longo.
Um minuto depois acomodavam-se no carro. Noca fechava o portão do jardim, entregava as chaves ao criado do dr. Gervásio, que esperava ali, na rua, para ir levá-las ao patrão. Subiu por último para a caleça. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos saiu um suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa.
Ruth chorou; parecia-lhe que deixava ali o pai, o seu querido papai... Só Lia e Rachel gorgearam uma risadinha. - Enfim, iam para a casa nova!
Durante a viagem ninguém mais falou.
Para quê? Diriam todos a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfarçavam lágrimas, e iam assim, de negro, começar nova vida.
Eram dez horas quando o carro parou em frente à casa de Nina.
Na vizinhança, tocavam exercícios num piano desafinado. O sol irradiava com força no cascalho branco do chão.
A casa era pequena, em um trecho sossegado da rua de d. Luiza, disfarçada por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos opressos; habituados à largueza de um palácio, parecia-lhes que aqueles tetos e que aquelas paredes se apertariam de repente esmagando-os a todos.
O melhor quarto fora arranjado para Mila e as gêmeas; Ruth e Nina dormiriam na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo.
A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japoneses no papel, abria para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a desafogava. Tinham-na alegrado com um par de cortinas de cretone claro e uns vasos de flores na janela.
Nina explicava à tia como determinara as coisas, sujeitando-se a mudá-las, se lhe não agradasse a posição delas.
Supusera melhor suprimir a sala de visitas e fazer dela, que era ampla e clara, a sala de trabalho. Em vez do sofá, do dunkerke inútil, de uma ou outra cadeira preguiçosa, estavam ali a máquina de costura, cadeiras fortes, uma estante para músicas, um armário, uma mesa e uma tábua de engomar.
- Aquela tábua faz mau efeito aqui... murmurou Mila numa censura leve, sentando-se, muito abatida.
A sobrinha explicou:
- A saleta lá dentro é muito pequenina, ficou vazia, para as crianças brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, põe-se lá a tábua.
- Depois...
Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o resto.
Onde estava a sala do piano? e o escritório? Onde guardariam as suas bicicletas? A cozinha então era aquele cochicholo?
A mãe anediava-lhes os cabelos, sem responder, com os olhos parados.
Tinham arranjado para cozinheira uma preta velha, de trinta mil réis mensais. Mila achou-a repugnante e disse a Nina que lhe pusesse ao menos um avental. E à hora do almoço não comeu; olhava para as gêmeas que iam devorando os bifes e o arroz da cozinheira nova.
Nina ofereceu Collares à tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos indagar a proveniência daquele vinho, também, soube-lhe mal, bebido por um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de cristal lapidado que atiravam sobre a toalha bouquets iriados e tremeluzentes. Eram como violetas e botões de ouro que nascessem da luz e se espalhassem sobre o adamascado do linho.
O vinho viera da adega do dr. Gervásio; ninguém mais o bebeu. Lia pediu repetição do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina, diminuindo a sua ração, encheu os pratos das primas.
O sol entrava pela janela numa larga toalha de ouro, rebrilhando no verniz novo dos móveis e nas roupas vermelhas dos japoneses retorcidos do papel.
A preta velha trouxe o café numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou brutalmente em um canto da mesa.
Camila fechou os olhos para não ver; quando os abriu, a sobrinha estendia-lhe uma canequinha delicada, do último aparelho do palacete.
Mexendo o café, vagarosamente, a tia perguntou-lhe:
- Só veio esta canequinha?
- E uma xícara de chá; nós bebemos bem nas outras. Veio também um copo de cristal. Esqueci-me de o pôr na mesa...Quer mais açúcar?
- Não quero diferenças para mim. Depois: - Realmente, custa muito a beber num vidro grosso!...
- Eu não acho...
- Ah, você!
Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do dr. Gervásio, que entrou trazendo a correspondência, jornais e uma carta para Francisco Teodoro, que o carteiro levara ainda à rua dos Voluntários da Pátria.
- Você esteve lá em casa outra vez?! perguntou Mila admirada.
- Sim, senhora. Fui lá com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e mais o leiloeiro.
- Já! Andaram depressa!... Olhe, é bom avisar o carteiro.
- Seu doutor já avisou.
- Bem; pode ir...
A carta era de Sergipe. O pai de Camila queixava-se de doenças e de atrasos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Emília andava ameaçada de congestão; o Joca internara-se com a família para o interior, por míngua de empregos, a Sofia fora pedir-lhe agasalho por ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo.
Desde a primeira até a última palavra arrastava-se um suspiro lamentoso de pobreza e de inércia.
Quando Camila acabou de ler a carta, deixou-a cair aberta sobre os joelhos e calou-se muito pálida. Ruth soluçava com a cabeça deitada na mesa. Ouvira as súplicas, mas o que a alterava não eram os cuidados do avô, era o destino daquele sobrescrito que ela tinha diante dos olhos, com o nome do pai, que, na ilusão da vida viera de longe, impelido por várias mãos desconhecidas e que, chegando ao final, não encontrava ninguém!
Releram a carta; vinha atrasada. Já por lá, deviam estar fartos de saber a verdade. Como teriam recebido a notícia? Camila cerrou as pálpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Teodoro ao Castelo: faladora, animada, com aqueles grandes olhos trêfegos sempre reluzindo de esperança... deveriam estar bem amortecidos agora aqueles olhos, bem cansados de chorar... E, como nunca, Mila sentiu saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, inocente e adormecer no colo da mãe! Seria tão doce... tão doce...
Os rigores do luto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois não bastava a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida.
Conheceram-se, pela primeira vez na família, as agruras do cálculo, o dever das restrições.
Mário escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris; retido por uma doença de Paquita, cujo nome repetia em todos os períodos. A verdade é que na família ninguém contava com ele, e que todos dissimulavam ressentimentos, fugindo de agravar tristezas.
Noca, pronta em expedientes, arranjou depressa freguesia para engomados.
Aquilo aborrecia Camila, que não gostava de ver trouxas de roupa atravancando a casa. O ferro, a fumaça, os peitilhos das camisas alvejando ao sol aumentavam-lhe o tédio e o mal estar. A vida pesava-lhe.
Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma discípula de violino para Ruth, a filha de um empregado público da vizinhança.
Camila opôs-se. Ver a sua pobre filha andar na rua angariando dinheiro alheio? nunca. Não tinham ainda chegado a tal extremo...
- Mas, tia Mila, a não ser que Mário lhe dê uma mesada, com que devemos contar? perguntou Nina, estupefata daquela afirmativa e acrescentou: o que nós trouxemos, mesmo com economia, não dará para mais de dois meses...
Camila arregalou os olhos, como se só então tivesse a percepção da sua desgraça...
Aproveitando a perplexidade da mãe, Ruth convenceu-a de que as lições seriam um meio de a distrair; já não agüentava aqueles dias sem fim.
Só à Nina não sobravam horas para trabalhos de interesse; precisava dividir-se em todos os misteres domésticos; as cozinheiras não paravam, umas porque bebiam, outras porque achavam o ordenado mesquinho...Era um vai-vem cansativo, e ela sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua paciência nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua missão de mulher, adoçando sofrimentos, serenando tempestades e conservando-se na meia sombra de um papel secundário.
Corriam assim os meses. Os amigos escasseavam, mais pelo retraimento da família que pela sua mudança de fortuna. Os infelizes julgam os homens piores do que eles são, e nunca vêm em si a causa justificada de certos abandonos. Camila queixava-se às vezes das relações antigas, sem cogitar que quem mais fugia era ela, envergonhada da sua nova situação.
Levado talvez mais pelo hábito que por outra cousa, dr. Gervásio continuava na assiduidade antiga; as suas visitas eram mais curtas, feitas de passagem; evitava, com escrupulosa discrição, os almoços naquele lar pobre e simples. Demais a mais, não podia falar nunca a sós com Mila, naquela casa estreita; encontrava-a rodeada sempre da família, fechada no seu rigoroso vestido de viúva, muito arredia. Aquelas esquivanças não o atormentavam, ele sentia que a ia amando com menos amor e mais amizade; era como uma irmã, necessitada do seu amparo e do seu conselho, que ele não podia deixar de ver todos os dias; o calor da sua mão e o som da sua voz já não lhe alvoroçavam os sentidos adormecidos; e bem percebia que no coração dela a paixão estava também apaziguada, e que para Camila ele ia já sendo apenas o amigo.
E assim se passaram poucos meses, até que chegou um dia em que o olhar de Camila, irradiando, se trocou com o dele num fulgor de desejo. O fogo abafado pelas cinzas da tristeza irrompia subitamente, como uma labareda de fragoa. Ele espantou-se, ela conteve-se envergonhada, e separaram-se ambos inquietos e torturados.
Adeus, mamãe! nós vamos levar estas sobras do jantar às crianças da Jacinta, ouviu? Nina disse que não vale a pena guardar para amanhã; é pouco e pode azedar.
- Mas que crianças são essas? perguntou Camila às duas gêmeas, que lhe falavam do quintal com a trouxinha da comida num guardanapo.
- São as netas da Jacinta...
Ruth apareceu atrás das irmãs.
- Mamãe não conhece... Jacinta é uma velha paralítica que mora na vizinhança da minha discípula. Sempre que passamos por lá nos pede esmola... E tão velhinha que faz pena. Combinamos com a Nina que sempre que sobrasse alguma coisa do jantar fôssemos levar a ela. Quando me lembro do que se desperdiçava lá em casa! Por um lado, mais vale a gente ser pobre... Os ricos, não é por mal, mas como não conhecem a necessidade dos outros não consolam ninguém...
- Fala baixo! Bem, meus amores, vão antes que seja noite.
- Anda depressa, Noca.
- Mamãe, como nós vamos acompanhadas, podemos depois fazer um passeiozinho?
- Sim...
As crianças saíram com a mulata. Camila sorriu. A Providência não a desamparava. Ainda na sua casa havia sobras para dar...
A tarde caía com lentidão; a viúva, derreada na cadeira de balanço da sala de jantar, olhava pela janela aberta para a grande amendoeira do quintal, cujas folhas cor de ferrugem caíam espaçadamente, com um rumor tímido.
Invadia-a uma grande tristeza, um desejo vago de fugir, de sumir-se na transformação de uma essência diversa. A sua alma amorosa crescia-lhe dentro do peito na ânsia do calor do abraço e o sabor do beijo. Não podia mais, as roupas negras sufocavam-na, lembravam-lhe a todos os instantes aquele minuto inolvidável, que se lhe fixara na vida, que se repetia sessenta vezes em todas as horas e de que ela não se libertaria nunca!
Nunca? Quem sabe? a sua carne forte acordava de um longo letargo com frêmitos de mocidade, capaz de todos os prodígios. Se a paixão que ela via arrefecer nos olhos de Gervásio se reacendesse! Se ele voltasse a amá-la com aquele amor antigo, todo de extremos... Se ele voltasse!
Na palidez da tarde moribunda, a grande amendoeira desnudava tranqüilamente. Camila olhava para ela, invejando-lhe a serenidade, quando sentiu passos.
Voltou-se.
Gervásio sorria-lhe da porta.
- Vem! murmurou ela então, num triunfo, estendendo-lhe os braços... Ele precipitou-se.
- Enfim, voltas a ser minha! a ser minha!
- Espera... sossega... a Nina está em casa...
- Que importa a Nina?
- Cala-te! Oh, eu já não posso mais!
Muito juntos, com as bocas quase unidas, eles repetiam as mesmas palavras de outrora, que soavam agora aos ouvidos de Mila como novas.
O céu ia mudando de cor; as folhas da amendoeira desprendiam-se céleres e com freqüência; dir-se-ia uma tarde de outono, e era apenas começo de verão.
Camila, reentrada no seu sonho maravilhoso, parecia iluminada. O médico puxou-a para si, ia beijá-la, quando a Nina apareceu na sala, com modo disfarçado.
- Querem luz? Como as meninas estão tardando!
Gervásio não respondeu; achou-a importuna. Camila disse com meiguice:
- É cedo, minha filha...
Ficou depois por muito tempo calada, recolhida na sua alegria. Era como se a tivessem encerrado em uma redoma luminosa e cheia de perfumes, em que houvesse outra atmosfera que lhe alterasse a natureza, isolando-a de tudo o mais. As roupas do luto não lhe pesavam, semelhavam rendas levíssimas; pela primeira vez a imagem do marido no último momento se lhe apagou na memória... Era já noite quando ela acompanhou Gervásio ao jardinzinho da entrada. Ele sentia-a trêmula, numa comoção de virgem, como se aquele velho amor pecaminoso fosse um amor nascente.
A sua voz, lenta e grave, tinha inflexões tímidas, e a brancura da sua carne tantas vezes beijada por dois homens, parecia-lhe, na sombra, de uma imaterialidade puríssima.
- Agora és só minha, só minha! dizia Gervásio, apertando-lhe as mãos com força, quando um homem se aproximou do portão e o empurrou. Olharam, com espanto, mas logo Camila deu um grito: reconhecera o filho e correu para ele.
Mário olhou para o médico com aborrecimento não disfarçado e recuou, dando lugar a que ele passasse para a rua, como a despedi-lo.
Trocaram um cumprimento rápido e cruzaram-se.
Foi só depois do portão fechado sobre as costas do outro que o Mário se voltou para a mãe com uma expressão que significava - ainda?!
Camila rompeu em soluços e então o filho abraçou-a docemente, e a foi levando para dentro. Nina acendeu o gás, batendo os dentes, num acesso nervoso; depois contemplaram-se todos, em silêncio. Foi ainda soluçante, que Mila perguntou afinal:
- A Paquita?
- Está muito pesada, por isso não veio.
Camila sentiu o sangue sumir-lhe. Que! um neto! o seu Mário ia ter um filho!
- Demorei-me mais na Europa por esse motivo: os médicos acharam imprudente que a Paquita se metesse em viagens...
- Fizeram bem. Por aqui sofreu-se tanto! Quando chegaram?
- Esta madrugada. Desembarcamos às nove horas...
Outra decepção: todo o dia. no Rio, e só à noite o filho a procurava!
Ele explicou: tivera muito trabalho, idas à alfândega, uma trapalhada! E as irmãs? onde estavam as irmãs?
- Já vêm, andam aí pela calçada. Vai avisá-las, Nina.
A moça saiu. Mário continuou:
- Porque não as entregou à minha cunhada? Ela escreveu-nos falando nisso...
- Tive pena... não me quero separar delas.
- Sim, concordo que é penoso; mas é para o bem delas, e esta situação não pode continuar. Paquita é uma mulher sensata, mesmo a bordo determinou tudo da melhor maneira: Lia e Rachei vão para a casa de minha cunhada; Ruth irá morar conosco, isto até lhe facilitará um casamento, coisa sempre difícil para uma moça pobre, e Nina tem o recurso de ir para a casa do pai...
- E...eu?!
- A senhora, visto que agora é livre... porque não se há de casar?
Camila tornou-se rubra e escondeu o rosto nas mãos.
Mário não soubera reprimir-se, e já agora prosseguia:
- Acho preferível o casamento à continuação desta vida. Perdoe-me que lhe diga, mas suas filhas merecem outros exemplos...
As mãos de Mila, geladas, apertaram com mais força o rosto em fogo.
Mário falou ainda.
Ele premeditara o seu discurso, ao lado da previdente Paquita, mas a língua recusava-se a repeti-lo inteirinho, no seu rigor de forma decisiva.
Vinha como uma espada, cortando todos os nós. Prevalecia-se da sua autoridade de homem.
A mãe teve nojo, e num só grito explodiram-lhe todas as queixas. As faces, de vermelhas tornaram-se lívidas, as mãos e os beiços tremiam-lhe; avançou:
- Vá dizer à Paquita, à sua prática e sensata Paquita, que eu não preciso do dinheiro dela ouviu? Não se demore, que ela é capaz de bater em você'
-- Mamãe!
- Perversos! vir de tão longe, o meu filho, para me dizer isto. O meu filho! e eu que tinha tantas saudades!
- Mamãe, a senhora é injusta...
- Injusta é ela, que me quer separar de todos os filhos e te ensina a faltar-me ao respeito. Acham que tenho sofrido pouco?!
- Acalme-se e reconhecerá que temos razão. Paquita é um anjo.
- Um diabo do inferno!
- A senhora está me ofendendo.
- E ninguém me ofendeu? Diga! ninguém me ofendeu?!
- Sossegue: tudo se há de arranjar; bem sabe que eu não tenho nada; a fortuna é de minha mulher, mas nós lhe daremos uma mesada, visto que...
- Recuso; não quero nada dessas mãos. O meu filho morreu no dia em que se casou. Se o envergonho, é melhor fingir que não me conhece. Vá-se embora.
- Mamãe...
- Vá-se embora! Eu não preciso de nada. Suas irmãs saíram para dar uma esmola. Temos sobras em casa. Que castigo, meu Deus!
- Não tive a intenção de a ofender. Se eu não tivesse encontrado aqui aquele maldito homem, as coisas teriam caminhado de outra maneira. Compete agora a mim o dever de zelar pela sua honra. A senhora é viúva, o Dr. Gervásio é solteiro, amam-se, casem-se. E lógico.
- Pelo amor de Deus! Mário!
- A senhora não é criança, deve perceber que desse modo compromete o futuro das meninas. O tempo lhe dirá se tenho razão...
- Que insistência! uma vez por todas: basta, basta, basta!
- Bem. mamãe, calo-me.
- Enfim!
Era oportuno o ponto. As meninas entravam em tropel pelo jardim, gritando:
- Mário, Mário!
Ele chegou à porta, agitadíssimo e estendeu os braços a Ruth, que lhe pareceu muito magrinha, já de vestido comprido, como uma senhora. O abraço evocou em ambos a lembrança do pai. Mário semeou beijos e lágrimas nos cabelos da irmã, na sua primeira efusão de ternura.
Foi só depois de tudo acabado, que à Noca, contemplando o moço de frente, murmurou:
- Gentes! reparem como o bigode de Mário cresceu, e como ele está bonito!
Domingo de verão; as cigarras chiavam estridulamente no flamboyant da rua. Grande sossego em tudo.
Fechada no seu quarto, Camila tentava ler, mas os olhos fugiam-lhe da leitura para as caminhas vazias das gêmeas, entregues desde a véspera à baronesa da Lage. Cumpriam-se as ordens de Mário.
A família espalhava-se ao bruto ponta-pé da pobreza: uns para aqui, outros para acolá... Que imprevistas soluções tem a vida!
Numa persistência cruel, o conselho do filho fincava-se-lhe no cérebro. Exangue e dolorida, ela não lutava; a fatalidade faria dela o que quisesse... O que a atormentava sobretudo era a saudade das gêmeas, que tinham levado consigo toda a sua alegria e que, ausentes dela, iriam dispensando à outra os afagos que deveriam ser só seus! Pobres inocentes, lá viria um dia em que o preconceito da honra se levantasse no seu caminho, como um rochedo em cujas arestas lhes ficassem o sangue e a carne.
Via já a outra como uma inimiga. Fora ela quem lhe tirara o filho para a irmã; era ela quem lhe tirava as filhas para si. O pretexto humilhava-a, achava-se indigna por não ter tido forças de defender as crianças, arrancadas de casa pela pressão da necessidade. Olhou para as mãos: eram bonitas, mas não sabiam fazer nada. Camila escondeu-as depressa, arrepiada, nas dobras do casaco.
E o conselho do filho não a deixava, numa fixidez alucinadora. Sim, só Gervásio poderia salvá-la, se quisesse dizer primeiro a palavra que ela não tinha coragem de pronunciar.
Camila fechava os olhos, tapava os ouvidos e sempre, continuamente, entre o seu orgulho de mulher e os seus extremos de mãe, badalavam as palavras do filho:
- Case-se, case-se, case-se!
E ele tinha razão; só assim ela tornaria a ter um lar onde aninhasse as filhas; cessariam os sacrifícios de Nina e de Ruth, a Noca trabalharia só para si, e o Mário...
O ressentimento que lhe ficara daquele filho, que viera de longe para lhe amargurar, avolumou-lhe as lágrimas que chorava. Tinha-se humilhado, havia de humilhar-se até ao fim. Falaria a Gervásio.
Devia fazer-se isso depressa, a tempo de salvar toda a gente e reunir as crianças antes do desapego completo.
Francisco Teodoro assim quisera, furtando-se à responsabilidade da família. fugindo da vida desde que a vida, em vez de presenteá-lo, lhe pedia favores. Era o abandono; pois bem, ela reconstituiria o lar que ele desmanchara; o seu velho amor, purificado por tantos sobressaltos, por tantas agonias, ressurgiria, como um dia de luz após outros de negrume, para a felicidade de todos!
O oração faz pagar caro às mulheres a sua glória, bem o sabia. Dei-a tudo, certa de que não era a honra do marido que sacrificava: era a sua própria. Ele não era autor nem cúmplice, não podia ser argüido pela sociedade hipócrita.
Por fortuna. tinha-se empenhado com um homem de bem: Gervásio salvá-la-ia. Mário dissera um dia:
- Escolha entre mim e o dr. Gervásio - Aí estava ela agora radiante, escolhendo a ambos, porque adorava um, porque era mãe do outro.
As horas passavam devagar. Num piano vizinho rompeu uma polca faceira; ressoavam gargalhadas na rua.
Que dia lindo e como havia gente alegre na vida! Camila foi à janela; vacilava ainda. Nem uma nuvem no céu; voltou para dentro e esbarrou com as caminhas vazias. Numa imposição de vontade, despiu-se a pressa e enfiou o vestido de sair; os dedos mal atinavam com os colchetes; nem olhou para o espelho, na ansiedade de partir. de correr para o futuro...
Eram quatro horas quando entrou no bonde que a levaria à casa do dr. Gervásio. Colheu a cauda do vestido, dobrou sobre o rosto o seu véu de viúva, ciosa de que lhe não lessem os pensamentos na alteração do rosto. Dobrava-se, enfim, á vontade da nora, aquela criatura implacável, que nunca a procurava, conservando-se a distância, com medo do contato. Camila sorria daqueles grandes escrúpulos, tão tardiamente acordados...
Para melhor evitar a sogra, Paquita mudara-se para Petrópolis; e o Mário, sempre com medo de perder a barca, mal visitava a família, carregado de encomendas para a mulher e o filho, um rapagão nascido longe da avó.
Camila esquecia-se de tudo isso, abrindo os olhos para as imagens exteriores. Era como se tivesse saído de um cárcere: tudo lhe parecia diferente e mais bonito. Começavam já a aparecer as chácaras de Botafogo, grandes relvados, altas palmeiras, frescuras de água e de sombras macias.
Em quantas daquelas casas, ela fizera brilhar as suas jóias, rugir as suas sedas, vagar o perfume do seu lenço de rendas e dos seus vestidos! Bons tempos... ah! mas eles voltariam, quando a fortuna e a lealdade de Gervásio a repusessem no lugar de que a ambição do marido a tinha arrancado.
Ia leve. Como é bonito e curto o caminho da felicidade!
O bonde dobrou a rua dos Voluntários; e uma súbita angústia caiu no coração de Camila. Ia passar pelo palacete Teodoro como uma estranha. Por um grande trecho da rua, ela esperava esse momento com curiosidade e terror; e quando o momento chegou, quis abranger tudo com a vista, adivinhar até o que se passava dentro daquelas grossas paredes. Na fugacidade do instante só pode perceber que a janela do seu quarto estava aberta e que tinham substituído por areia preta a antiga areia branca do jardim. Teve ímpetos de mandar parar o bonde, de entrar pela casa, ir até à sua saleta, continuar o bordado ou a leitura interrompida e beijar as duas filhinhas, coradas, ofegantes pelas últimas corridas da bicicleta, que lá deviam estar dentro, ao pé da Noca, na sala de engomar, sobraçando as suas grandes bonecas de olhos azuis...
O bonde passou, e Mila, toda voltada no banco, olhava para a sua casa, depois para o seu jardim, e ainda, enquanto a viu, para a alta copa ramalhuda da sua mangueira...
Sentiu então como que um desdobramento de personalidade. Ela que passava, sozinha, vestida da lã negra, com um véu de crepe pela cara, mal arranjada, abotoada à pressa, não era a Camila dos vestidos claros e das mãos luminosas; essa estaria lá dentro do palacete no seu eterno sonho de mocidade, de amor e de beleza...
Quando entrou em casa de Gervásio, teve um ímpeto de voltar para trás. Todos os seus escrúpulos se levantaram em revoada. Feriu-a então a idéia de que já era avó, e que esse título devia ser um ridículo algemando-a ao silêncio. O filho de seu filho seria também um inimigo? Tão pequenino, apenas nascido, e já teria força para se interpor entre ela e a felicidade?
Um criado abriu o guarda-vento; ela entrou indecisa para o vestíbulo. Nunca se encontrara ali sozinha: Gervásio não quisera expô-la aos comentários dos seus criados; preferia ter um canto obscuro, todo destinado a ela e que nenhuma outra mulher maculasse com a sua presença ou a sua indagação curiosa.
O mesmo criado conduziu-a por um corredor atapetado, ornado de plantas, até uma sala do mesmo pavimento térreo, abrindo sobre um jardinzinho interior, onde as dracenas se empenachavam de flores.
Pediu-lhe que esperasse ali. O senhor doutor conferenciava com um indivíduo no escritório, mas ia avisá-lo.
Ela respondeu-lhe que não, não tinha pressa; ficaria até que o outro saísse...
Quando se viu só, Mila levantou o véu com um suspiro de alívio. Olhou amorosamente para tudo: nas paredes alguns quadros; uma certa sobriedade nos arranjos e nos móveis. Reconheceu numa cadeira uma almofada bordada por ela, e, a um canto, um jarrão chinês com que Francisco Teodoro presenteara o médico, após uma doença grave do Mário.
O marido! o Mário! como eles lhe fugiam para o horizonte da vida... Aquele jarrão evocava uma época feliz. O filho era então já um rapazinho atrevido, mas tão meigo, tão lindo! o marido era forte, falador, arrebatado, ameaçando fazer cair a casa ao furor das suas rebentinas. E ela? Ela bem diferente: caseira, mal vestida, egoísta e muito severa para as faltas alheias... Prodigalizava-se pouco, o próprio marido não obtinha dela mais do que o carinho frio, de condescendência; não por mal, não por propósito, nem sabia porque...
Fora Gervásio que lhe ensinara a enternecer-se, a reprimir as suas cóleras, a perdoar as fraquezas dos outros, a embelezar a sua casa, a sua pessoa, a sua vida, a querer bem a todos, com inteligência e com consciência. Antes não o houvera conhecido; ela talvez não tivesse sido boa para ninguém, mas teria sido honesta e não conheceria o sofrimento.
Com os olhos parados nas figuras policromas do jarrão, Camila relembrava todo o martírio do seu amor, nascido pouco a pouco da intimidade...
O tal indivíduo demorava-se no escritório. Ela levantou-se, foi à janela olhar para o jardim. As plantas eram finas; como no interior da casa, havia também ali uma tranqüilidade distinta. Sentia-se que os gostos e os instintos do dono sabiam subordinar-se a uma vontade forte.
Camila olhava abstratamente para as flores, quando ouviu passos no corredor. Voltou-se; Gervásio apareceu no limiar da porta.
- Que é isso, Mila?!
- Nada... eu...
- Por que vieste?!
Camila avançou timidamente. Ele continuou:
- Por que não me mandaste chamar logo que entraste? Estás tão pálida!... tão fria... Foi uma imprudência vir aqui, a esta hora!... Mas por que?!
- Lá eu não poderia falar...
- Tens razão, aquela casa é tão pequena! está-se tão perto de todos! Senta-te, meu amor.
- Contrario-te?
- Nunca! estamos juntos! Fala.
- Eu...
Mal pronunciou a primeira palavra, Camila arrependeu-se da sua resolução. Era quase velha, já era avó! Aquele pensamento toda se enrubesceu; calou-se de novo, com os olhos rasos de água.
- Não te compreendo... assustas-me! Tens segredos para mim? Olha que me zango! Vamos, que aconteceu?
- Amas-me sempre?
- Sempre!
- Como... no princípio?
- Mais.
Então baixinho, num sussuro, com o rosto unido ao rosto dele, Camila disse tudo. Levada pelo seu sonho, ela não percebia quanto as mãos dele tremiam nas mãos e que sombras lhe passavam pelo rosto transtornado.
Quando ela acabou, ele não respondeu; ficou por largo tempo imóvel, como se ainda esperasse a última palavra.
A viração da tarde encheu a sala com o aroma das dracenas; Camila sorveu-o com deleite, como se fora um afago do céu. Enfim, falara, tinha-se dissipado a nuvem e já sorridente, instou pela resposta:
- Queres?
O médico ergueu-se de chofre, e com voz metálica e dura disse rapidamente:
- Não pode ser.
Camila moveu os lábios, numa agonia de morte. O que ela temia ali estava. Ele tinha razão, era bem feito, casar, para quê? Fora a nora que a obrigara a tamanha humilhação! Atrás daquela máscara de seriedade, Gervásio havia de se estar rindo dela, da pretensão daquele miserável corpo de avó a um noivado de amor! Teve a impressão dolorosíssima de estar coberta de rugas e de cabelos brancos; olhou para as mãos com medo; não compreendeu bem o motivo por que continuava ali e levantou-se com esforço, para se ir embora. O seu destino estava escrito: via todo o futuro tapado pelo corpo pequenino do neto.
Gervásio, pondo-lhe as mãos nos ombros, fe-la sentar-se outra vez, com brandura.
- Para quê? perguntou-lhe ela, quase chorando.
- Para te dizer tudo: eu sou casado.
Camila abafou um grito, tapando a boca com a mão.
Ele dissera aquilo num desabafo, na ânsia do golpe inevitável, com uma voz cortante como a de um machado lanhando um tronco verde. Roto o segredo, apiedou-se logo e falou com humildade, muito chegado a ela. Também pensara nisso, ela, também a quereria fazer sua aos olhos de toda a gente, mas estava preso a outra mulher, até que a morte...
- A morte! suspirou Camila.
E ele continuou, muito comovido:
- Viste-a uma vez. lembras-te? era aquela mulher de luto que encontramos na volta do Netuno. Achaste-a bonita... percebeste a nossa impressão e tiveste ciúmes... Eu não queria que soubesse... mas agora a explicação deve ser completa, dir-te-ei toda a verdade. Meu pobre amor, perdoa-me...
Gervásio segurou nas mãos de Camila; ela retirou-as devagar e fixou-o com um olhar de tão clara interrogação, que ele continuou mais baixo, mastigando as palavras:
- Sim. amei-a muito! casei-me por amor; mas no dia em que percebi que ela me enganava, deixei-a... Morávamos no Rio Grande, ela ficou lá com a mãe, eu voltei para aqui. Quis divorciar-me... ela opôs-se; opõe-se ainda; quer ter-me acorrentado como um cão: consegue-o. É tudo.
Era tudo. Camila percebeu o melindre do segredo, mantido para evitar-lhe uma ofensa. A razão iluminava-se-lhe; ela não podia ser aos olhos daquele homem nem melhor nem mais digna do que a outra que ele desprezara; a mesma culpa as nivelava, e se ele não encontrara perdão para a esposa. como encontraria respeito para ela?
Sempre calada, puxou o seu véu de viúva para o rosto e levantou-se.
O aroma das dracenas invadia tudo, numa exalação sufocante.
Gervásio beijava-lhe as mãos, suplicando-lhe que lhe perdoasse; fora por amor de ambos... Por que não continuariam a viver como até então?
Camila não respondia, e como ele instasse, ela pediu:
- Deixa-me ir embora!
- Tens razão; precisas descansar. Mas não podes ir assim, deixa-me ao menos mandar buscar-te um carro!
Camila desprendeu-se, já muito impaciente; queria ir sozinha, andar a pé ao ar livre. Ele consentiu, adivinhando que a perdia para sempre. Talvez fosse melhor assim...
Ela colheu a cauda da saia e saiu tiritando de frio, por aquela luminosa tarde de verão. Encontrara fechada a porta do futuro; voltara para trás, aturdida, como se sentisse dentro da cabeça um sino doido, badalando furiosamente. Ele era casado! Ele mentira-lhe! Tantos anos de mentira, tantos anos de mentira!
Era já noite quando Camila entrou no seu jardinzinho da rua de d. Luiza. A casa estava ainda às escuras, mas Ruth tocava lá dentro um adágio de Mendelssohn. Extenuada, Camila sentou-se nos degraus de pedra, como uma mendiga à espera da esmola. As luzes dispersas dos lampiões semeavam de pontos de ouro a curva negra do morro; a última cigarra adormecia nas flores abertas do flamboyant, e a alma dos seres invisíveis erguia-se na noite, enchendo-a de impenetrável e sagrado mistério...
Camila, com o olhar aberto para o veludo macio da sombra, percebia que estava tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma carta a Gervásio, com a sua última palavra. O adeus definitivo. As lágrimas rolavam-lhe em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que aquele era o dia da sua segunda viuvez.
Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um amigo calmo, que não a repudiaria nunca... Na segunda, perdia a ilusão no amor, a fé divina na felicidade duradoura, o melhor bem da terra!
Chegara ao fim de tudo, à hora tremenda da expiação. Mas fora ela, por ventura, uma criminosa?
Maldizia-se, fora uma confiante, dera-se toda com os seus devaneios, os seus desesperos; dera-se completamente, absolutamente, e aquele a quem tudo sacrificara tinha-a deixado do lado de fora da sua vida, como a uma estranha.
Ele mentira-lhe, ele mentira-lhe!
Era casado, e desprezara a mulher pela mesma culpa! Que seria ela também aos olhos dele?
Oh! ser honesta, viver honesta, morrer honesta, que felicidade! Se pudesse voltar atrás, desfazer todos aqueles dias de sonho e de ebriedade, recomeçar os labores antigos na insossa domesticidade de esposa obediente, sem imaginação, sem vontade, feliz em ser sujeita, em bem servir a um só homem, com que pressa voltaria para evitar esta humilhação, pior que todas as mortes, porque vinha dele, que ela amava tanto! Amava ainda. Ainda!
Olhou com desprezo para o seu belo corpo de mulher ardente. Era um despojo, de que valia? Lembrou-se com terror das filhas, aquelas crianças nascidas dela, predestinadas para o Sofrimento. Caminhariam alegremente para o Amor, e o Amor só lhes daria decepção e miséria.
Numa angústia, Camila interrogou com olhar ansioso a treva muda: Senhor, que haveria no mundo para salvação das almas doloridas?!
Alguma coisa falou-lhe no ar, em um rasgo de poesia, que subia as estrelas: a música de Ruth. A essência da lágrima purificava-se no som, com um poder de infinita pacificação.
Então a viúva teve inveja da filha, daquele ideal puríssimo, que não lhe traria nunca o travo de um desengano. A arte a consolaria do homem, pensou, quando chegasse o dia de o amar e de o servir...
Maldita a natureza, que a fizera, a ela, só para o amor!
As onze horas da manhã seguinte, Camila sentou-se a um canto da sala de trabalho. O sol entrava pela janela, estendendo no chão uma toalha de ouro. Debruçada sobre a mesa, Ruth escrevia em papel de pauta, preparando lições para duas discípulas novas. Toda a sua indolência antiga se transformara em atividade. Nina cosia à máquina e, no meio da casa, Noca borrifava a roupa para o engomado. Ela olhou para todos. Ruth estava feiosa, muito magrinha; mas a sua coragem iluminava-lhe a fronte, uma fronte de homem, vasta e pensadora; as outras pareciam até mais bonitas naquele afã. Estavam na sua atmosfera.
Com voz pausada e clara, Camila pediu que lhe dessem trabalho. Olharam-na com espanto.
- Mamãe, quer mesmo fazer alguma coisa?!
- Sim, minha filha... Tudo acabou, devo começar vida nova!
- Então mande buscar as meninas e ensine-as a ler! exclamou Ruth.
Um grito irrompeu de todos os peitos. Noca saltou:
- Vou já me vestir! Credo! não sei o que parece isto da gente dar os filhos. Deixe Mário falar, afinal aqui ninguém há de morrer de fome... Vou buscar as crianças?! Vou, ou não vou?
- Vai, respondeu Camila muito excitada; mas olha, não ofendas a baronesa. Basta dizer... que eu não tenho nada no mundo senão as minhas filhas!
- Bem que eu ouvi a senhora chorar toda a santa noite... Até estive quase...
- Basta de palavreado, Noca! interrompeu Nina; e acrescentou:
- Vá descansada, eu acabarei de borrifar a roupa. E depois, para a tia:
- Faz bem, tia Mila. O trabalho distrai.
Depois de dois anos de viagens pelos Estados Unidos, o capitão Rino desembarcou no Rio de Janeiro. Vinha outro, remoçado, lépido, despido do seu ar de ingênua rudeza. Havia agora no seu sorriso a mesclazinha de ironia que a perversidade do mundo ensina aos homens.
Catarina notou-lhe logo a diferença, ao conduzi-lo alegremente por entre os girassóis do seu jardim. Compreendeu a serenidade do irmão. Vinha salvo.
Na manhã seguinte ele lia alto um jornal, quando esbarrou com um anúncio para um concerto de Ruth.
Parou; ele soubera de tudo pelas cartas de Catarina, e, voltando-se, fixou nela os seus olhos claros. Houve uma troca de confidências entre os dois rostos mudos; depois, curvando-se um pouco para o irmão, a moça perguntou em voz baixa:
- Vai visitá-la agora?
Rino hesitou, e depois, com o tom mais natural do mundo, respondeu com outra pergunta:
- Para quê?...
Fonte: www.biblio.com.br