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A Falência

Julia Lopes de Almeida

Vinham-lhe à mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua defunta, tio ativa, tão pagodista e festeira.

Quem diria que de tal mãe...

À hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da cozinha, ao pé de uma janela com vista para telhados.

De enfastiado, ele às vezes não se continha e suspirava:

- Que jantarzinho cangueiro...

Emília não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne seca, que ele engolia com esforço.

Nesse dia a tarde estava quente.

O papagaio da vizinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras de baixo, reunidas no quintal.

Mota sentiu vontade de palrar um pouco também; mas a companheira voltou-lhe as costas para ir lavar as panelas e o cheiro das banhas frias tornou-se insuportável.

Ele voltou resignado para o canapé da saleta, martelando com a bengala o chão roído pelo caruncho e pelos ratos.

O seu sonho era sair, voltar ao escritório, tatear as folhas dos livros, pensar em negócios, deixar de ver o rosto comprido da filha e de sentir a morrinha da casa suja.

Quem de vez em quando cortava aquela pasmaceira com um pouco de alegria, era a baiana Bertolina que lhes levava um resto de quitanda recambiada, fatias de Mané-taiado, ou cocadas com abóbora, sujeitas ao azedume. E então era só:

- Ioiô! Iaiá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciência, atrás dos dias maus vêm os dias bons, não é meu Ioiô? Tenham fé em Deus... E adeus, minha Iaiá, e adeus meu Ioiô!

Seu Mota sorria lambiscando as cocadas, feliz por ver alguém rir.

Nessa tarde a Bertolina iria a propósito; mas quem apareceu foi o Ribas.

Seu Mota contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao rapaz, mas abria os ouvidos.

Ele estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia dúzia de palavras:

- Ontem houve um baile em casa de seu Teodoro. Diz que a rua estava cheia de carros. Só o vestido da D. Camila custou dez contos...

- Quem acredita nisso...

- O Mário vai casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos. Foi ao baile coberta de jóias. Seu Guimarães, seu Castro, todos estes turunas do café foram lá.

- Como sabe você de tanta coisa?

- Foi o Isidoro quem me contou.

O Ribas, com os ombros descaídos e um sorriso nos lábios moles, falava em suntuosidades, com a voz empapada em saliva.

O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz, sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:

- Você não tem que fazer?

- Eu ainda não achei emprego...

- Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha casa.

- Meu cunhado não me governa.

Seu Mota despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada sentiu-lhe a falta. Ao menos aquilo era alguém, sempre trazia um eco de vida, um zum-zum de fora.

O Ribas desceu, enfarado daquele velho cainha, que não escorrera nem um tostãozinho para o café; se pensava que ele ia levar as novidades só pelo amor dos seus olhos! Burro! Ele ainda haveria de ensinar toda aquela canalha a temê-lo e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só falar com o Pirueta da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a capoeiragem...

Na rua da Saúde parou à porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de três anos, recostado sobre o seu ventre enorme.

Ribas fez-lhe sinal da porta, perguntando se podia entrar e observando ao mesmo tempo se o cunhado estaria ali; ela disse-lhe que não entrasse e, sacudindo-se a custo, foi à porta e falou-lhe em segredo.

Você não tem vergonha! Vá-se embora! Ubaldino tal...

- Queria que você me emprestasse quinhentos réis...

- Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!

- Na gaveta do balcão.

- Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu o que aconteceu; vá-se embora!

- Não seja má, Deolinda.

- E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negócio nenhum... Minha criança está para nascer e eu não tenho nem uma camisinha arranjada. Mal dá pra comer, sabe Deus como.

- não seja sovina; depois eu pago.

- Ubaldino ai vem... vá-se embora.

- Ora...

E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até as Docas; à porta encheu-se de batata roxa, cozida; que a Bertolina baiana vendia, tagarelando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.

Aí chegado, quis desafiar a paciência de seu Joaquim, postando-se como um basbaque à porta do armazém, vendo os trabalhadores na sua faina entrarem e saírem sem interrupção.

Em cima, no escritório, Francisco Teodoro, amolecido pela sua noitada de festa, narrava lealmente ao Meireles, pai da Paquita, a inaptidão do filho para o trabalho.

O Meireles sorria; que descansasse, ele encaminharia tudo, - e acrescentava:

- Paquita, com aquele ar de songa-monga, é de uma energia de homem, não é de brinquedos. Tem um juízo notável. Eu agora levo-os para a Europa, faço o Mário observar o movimento das principais praças e na volta você verá, Teodoro, como o seu filho há de trabalhar! Será então tempo de você ceder-lhe o campo...

- E eu estou morto por isso...

- Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do Equateur.

Francisco Teodoro começava a compreender que a Paquita, se era assim, seria a única mulher capaz de modificar o caráter do filho. Mário seria um instrumento nas suas mios enérgicas. Não a supusera nem a cria ainda tal, tão frágil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre na moldura dos seus cabelos louros.

Estava bem; Mário precisava de uma vontade firme, que o dominasse e dirigisse; nem com uma lanterna acesa encontraria coisa tão boa.

Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa comercial, que já não acabaria com ele.

Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquele filho perdido, que tamanhas desilusões lhe semeara na vida. Começava a sentir que lhe não perdera o amor.

Ele continuaria aquela casa, com tanto trabalho nascida, que teria com ele a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Teodoro, feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendência...

XVII

Nina tinha voltado do casamento de Mário e despia-se devagar no seu quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho.

Era o fim, e nem por estar tudo consumado se resignava. Para bem dela, os noivos iam nesse mesmo dia para Petrópolis, e de lá só voltariam para bordo de um transatlântico. Como seria doce à Paquita cruzar os mares nos braços do seu amor...

Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera para casar depressa, e contemplou-as com ironia... ia atirá-las ao chão, quando alguém bateu à porta. Abriu.

Era a Noca, que vinha toda alterada.

- Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do salão!

- Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa.

- Ninguém sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho quebrado: morte ou ruína.

- Morte! se fosse a minha...

- Cala a boca, menina, não diga asneiras. Quem é que ama uma vez só na vida?

- Muita gente... eu.

- Não acredite, deixe falar. A senhora é moça, verá. Mas venha ver o espelho; não presta a gente ficar calada quando está aflita. Parece arte do diabo, cruzes! Logo hoje!

- Vá andando, eu já vou.

Nina mudou de vestido à pressa e desceu.

Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo desgraças, sugestionados pela influência da Noca.

- Que pena! um espelho tão rico... murmurou Nina maquinalmente, pensando na Paquita.

- O caso não é o dinheiro. Eu cá não tenho pena, tenho medo.

- Agora que se há de fazer? ter paciência e esperar, disse Nina com um sorriso pálido.

- Esperar! Diz você muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez aquilo, temos que esperar grandes coisas. Noca não fala à toa. Vocês verão. É melhor não dizer nada a nhá Mila.

- É melhor...

No dia seguinte, quando o dr. Gervásio entrou no jardim de Camila, encontrou-a no terraço, rescendente e fresca no seu peignoir marfim pontilhado de ouro.

- Como estás linda! murmurou ele pegando-lhe na mão, que ela deixou beijar à grande luz, como se a ausência de Mário cegasse todos de casa.

E o casamento de Mário fora um alívio para ambos. Estavam livres daquela testemunha importuna, que tinham de respeitar. Mila bendizia aquele casamento, que a libertava de uma humilhação constante, levando-lhe o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se, ele ia ser feliz. Que mais poderia desejar um coração de mãe?

Foi nesse mesmo dia, à tarde, que Francisco Teodoro chegou sombrio a casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escritório, em baixo. Camila entrou da rua mais tarde, sacudindo-se à pressa pela escada acima.

Durante o jantar só ela falava, muito risonha, rescendendo à essência com que Gervásio a pulverizara pouco antes no chalezinho da Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquele perfume era como que a alma dele que ela trouxesse consigo.

- Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ela, apontando para fora com a mio fulgurante de anéis.

Era um por-de-sol maravilhoso.

- Tudo cor de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores. Como isto é bonito! E há quem fale mal da vida; e há idiotas que se matam!

Francisco Teodoro cruzou o talher sem ter comido.

- O senhor está doente? perguntou-lhe Nina.

- Não tenho vontade de comer, mandem-me o café ao jardim.

Camila contemplou-o com mágoa e explicou aos outros:

- Ele está impressionando com o casamento de Mário. Meninas, vocês procurem entreter e distrair seu pai. Mande guardar um copo de leite para ele, Nina; seu tio não pode ficar assim. Deus queira que ele não me fique doente...

E um véu de tristeza passou pelos olhos, há pouco risonhos, de Mila.

Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Teodoro; ele repelia a companhia de toda a gente para ir passear sozinho lá para o fundo da chácara. Ruth tocou em vão as suas melhores músicas: o pai nem parecia ouvi-las...

Na sala de engomar, a Noca comentava a tristeza do patrão, como um fato anunciado pelo desastre do espelho... "A coisa está começando... Eu não dizia"?

Á noite, enquanto Francisco Teodoro folheava embaixo a papelada do Inocêncio Braga, Mila despia-se em frente do seu psyché, namorando a própria imagem, milagre da juventude, sentindo em um frêmito a delícia de bem merecer um grande amor.

Como a Sulamita, toda ela era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e pestanudos, de onde jorrava uma luz veludosa e doce que toda a vestia de graça.

Ao prender o cabelo, lembrou-se de uma comparação de Gervásio; ele dissera uma vez, ao vê-la pentear-se, que as suas mãos eram como duas aves luminosas esvoaçando na treva. Mila sorriu.

Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo despedir-se do filho.

Tudo era como um sonho. O Mário já casado! Parecia-lhe que ainda o estava a ver pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquele sobrado da rua da Candelária, onde a sua vida fora tão diferente. E foi com a visão daquele filho em criança, daquela carne de rosas, daquela boca inocente que a babava de beijos, que ela adormeceu, sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos.

Quando soou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco Teodoro, que folheava ainda no escritório a papelada do Inocêncio Braga.

Nessa manhã ele tivera o primeiro toque de alarma, num telegrama do Havre para o Jornal, que afirmava ter descido o preço do café nos principais mercados.

Aflito, com a percepção de um desastre iminente e enorme, abalou logo do armazém para o escritório do Braga. que o recebeu entre duas risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro.

- Que é isso! o senhor é assustadiço... pois não percebe que isto tudo é jogo?

- Não compreendo... balbuciou Francisco Teodoro com um enleio, em que entrava com um amargo desapontamento a doçura de uma vaga esperança.

- Não compreende, porque é um nervoso; não tem a calma dos grandes espíritos empreendedores. Eu desejaria convencê-lo da certeza dos seus lucros; mas na disposição de espírito em que está, vejo que isso é coisa difícil. Verá que amanhã não teremos notícia alguma.

- Aquilo é feito aqui, homem, garanto-lhe que é feito aqui!...

- É impossível!

- Acredite.

- Não pode ser. O Jornal, tio sério...

- Ora, não pode ser!... que ingenuidade! Se eu lhe afirmo, é porque sei. E se não fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria possível que eu estivesse calmo?

- Penso de outro modo: tenho lá grande parte do meu capital.

- Ninguém diz o contrário... sei... é natural o seu cuidado; somente, afirmo-lhe que é infundado. Amanhã, ou haverá silêncio, ou há desmentido. Tudo isto é jeito. Olhe, o Gama Torres está satisfeitíssimo; saiu há pouco daqui. Está contente; aquele é um homem do tempo. há de ir longe...

- Pois eu, confesso-me arrependido.

- Ora, não diga tal! que barbaridade! O nosso triunfo é certo. E já que se mostra assim apreensivo, façamos uma coisa; telegrafemos ao Lacerda. Eu por mim não telegrafaria, conheço a alma destas maquinações. Tudo é química. Digo-lhe mais: eu estou contente.. Olhe, amanhã poderei provar-lhe com documentos irrefutáveis a veracidade das minhas afirmações. Venha cá ás duas horas.

Francisco Teodoro saiu menos torturado: mas, á proporção que as horas avançavam, voltava-lhe a inquíetação, a ponto de não poder trabalhar. Fugiu para casa e ali encontrou o mesmo desassossego.

Atirou-se aos papéis: leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia maior confusão naquele embrulho de problemas, em que todo o seu bom senso naufragava.

Inquietava-se com pressentimentos. Era muito disso. Afinal, um telegrama isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia não ser verdadeiro. Afligiam-no certos zum-zuns da cidade. Os boatos são como os corvos, aparecem no ar atraídos pela podridão oculta.

Todavia. forcejava por acreditar nas boas previsões do Braga. O homem era honesto e tinha nas mãos hábeis o fio da trama: logo, melhor seria esperar pelas tais provas irrefutáveis...

Eram seis horas da manhã quando Camila o chamou para irem ao Equateur.

Foi um alvoroço em casa.

Noca era a mais curiosa; queria ir também despedir-se do Mário e ver por dentro uma daquelas casas flutuantes. onde não viajaria nem à mão de Deus Padre!

Apressou-se em vestir as gêmeas, que se faziam de tolas, exigindo os vestidos novos e os chapéus cor de rosa.

- Não: ponderava ela, deixem os chapéus cor de rosa para passear na cidade... levem os brancos.

- Eu quero levar o chapéu cor de rosa, gritou Lia; e logo Rachel:

- Eu também quero levar o chapéu cor de rosa.

- Que tolice, gente! um chapéu daqueles para o mar!

As meninas berraram, e Mila interveio:

- Pois que levem os chapéus cor de rosa; também vocês gostam de aborrecer as crianças.

As dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao Netuno, e voltando-se para a mãe, perguntou:

- É verdade! nunca mais a gente soube do capitão Rino.

Camila levantou os ombros.

- Quando ele voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio pela baía.

- Por uma noite de luar... disse Camila.

Ruth acrescentou, para bulir com a Noca, que se agarrava às bordas da lancha:

- Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos relâmpagos e trovões. Ainda há de ser mais bonito.

- Ué, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com este sol todo estou com medo, quanto mais...

- É pena que Nina não tivesse vindo...

- Para quê! para ver a outra?

Francisco Teodoro não ouvia nada; percorria com a vista ansiosa todos os telegramas dos jornais. Nada; não vinha nada; e com isso ele não sabia se havia de achar motivo de alívio ou de maiores apreensões.

Quando subiram ao tombadilho, já lá encontraram o Meireles, mais o Mário e a Paquita. Ela, sempre com o seu arzinho enjoado, contando as palavras que dizia, tratando a família do marido com cerimônias afastadoras. Mário ia e vinha, solícito, obedecendo com sorrisos ás ordens que ela lhe dava em frases curtas:

- Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das jóias... Que lhe fosse buscar a capa... Que verificasse quais as malas que iam para o porão e que mandasse a vermelha para o beliche.

Mal ele se lhe aproximava, logo ela o incumbia de qualquer coisa que o afastava: - Que contasse os volumes,.. Que entregasse a cesta das frutas ao maitre d'hotel, recomendando-lhe que as metesse na geleira... Que pusesse os seus cartões de visita nas costas das cadeiras, para evitar confusões... Mário girava sobre as solas de borracha dos sapatos claros e lá ia lépido cumprir as ordens. Camila pasmava. Quem lhe diria que aquele era o mesmo Mário indomável, seco, tão imprestável sempre aos favores pedidos pela mãe e as irmãs? Vendo aquilo, subia-lhe do coração aos olhos uma tristeza ciumenta, mágoa de alma ferida a que nenhuma razão abafa a queixa.

Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo às perguntas da sogra.

Entretanto, Teodoro e o Meireles passeavam a largas passadas da proa a ré.

O velho Meireles era de opinião que o telegrama do Jornal inserido na véspera era coisa séria, de alarme. Francisco Teodoro engoliu em seco: não teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital fora atirado à voragem de uma especulação. Relatou porém, as palavras do Braga e as suas afirmações.

- Não me fale nesse homem, interrompeu o outro com violência; é um especulador sem escrúpulos... quer mais claro? - é um ladrão!

Veio de Portugal, há coisa de seis anos, sem vintém, e sabe quanto já passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos!

Vi a prova. O patife!

Aquilo é lá da minha freguezia... conheci-lhe o pai, era outro marreco que tal! Homem - não se deixe levar pelas cantigas novas, nós antigos. verdadeiros pés de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo terreno. Essas basófias e esses atrevimentos são bons para quem não tem nada a perder... Olhe, lá toca a retirada; avise sua senhora, para descerem sem precipitação...

Ao abraçarem Mário, Francisco Teodoro, com a voz estrangulada. recomendou-lhe:

- Juízo, meu rapaz.

Camila, branca como mármore, apertou o filho com força ao coração; depois, sentindo-o frio no seu abraço, beijou-o no pescoço e na face e fixou nele em uma queixa muda os seus grandes olhos magoados. Foi só na lancha, escondendo-se dos olhares da Paquita, que ela desatou em soluços que ninguém tentou reprimir.

Havia em todos igual ressentimento. Noca chamava mentalmente a Paquita de lambisgóia, percebendo que ela roubava o Mário a toda a família, absolutamente. Ruth reconhecia que as separações são as reveladoras do amor. Cuidara ela nunca por ventura que um abraço de despedida custasse tanta pena? Lia e Rachel abriam olhares curiosos para tantos rostos preocupados, e só Francisco Teodoro acenou para o filho com um lenço, pondo naquele adeus toda a sua ternura.

Quem lhe diria? Agora, na possibilidade de um desastre, a única pessoa da família que ele via salva era o Mário!

Chegando à terra, Camila e as filhas foram de carro para casa, e Francisco Teodoro, depois de almoçar à pressa num restaurante, seguiu impaciente para o armazém.

A porta dele a pretinha Terência guinchava contra um italianinho que se lhe associara sem licença ao negócio, atirando-se a pilhagem do café da calçada.

- Há alguma novidade? perguntou Teodoro ao gerente.

- Não, senhor. Ah! ê verdade, o Mota parece que está moribundo.

- Pobre homem...

- A filha veio hoje procurar o senhor; vinha chorando.

- Há de ser preciso mandar recursos a essa gente... Arreda dali aquele saco, João!

- Coitado do Mota...

O gerente já não o ouvia: determinava serviços.

Chegando ao escritório, Francisco Teodoro tratou de remeter dinheiro ao Mota e informar-se do seu estado. O portador voltou depressa. O velho tivera uma síncope mas estava melhor.

- Coitado do Mota, murmurou Teodoro, consultando o relógio, morto pelas duas horas. E às duas horas correu ao escritório do Inocêncio.

Em cima um empregado informou-o de que o Sr. Inocêncio partira nessa manhã para Petrópolis, a negócio urgente. Deixara dito que na volta iria procurá-lo.

Francisco Teodoro não conteve um movimento de raiva, e saiu tonto, sem cumprimentar ninguém.

O ruído, o trabalho, o movimento alegre da rua fizeram-no sentir mais o seu cansaço moral. Ia cabisbaixo, quando encontrou o Negreiros; deteve-lhe os passos e, quase sem explicação, perguntou-lhe:

- Diga-me cá: que opinião faz você do Inocêncio Braga?

O Negreiros sorriu, coçou o nariz enorme, e sibilou:

- Aquilo é um espertalhão; não é bom fiar, não é bom fiar.

- E que me diz você daquele telegrama do Jornal de ontem, sobre a baixa do café?

- Que hei de dizer? que anuncia catástrofe para muita gente boa. Sabe o que me consola? É que os Estados Unidos ainda levarão um rombo maior do que nós. Não lhe parece?

Que importavam a Francisco Teodoro as falências dos americanos! ele só tremia pela dele, era na sua fortuna que estavam condensados todos os bens do universo.

Negreiros sentiu-lhe a mão fria, ao apertar-lha, e voltou-se de repente, fixando-o nos olhos:

- Homem, querem ver que você...

O negociante não lhe respondeu; simulando pressa passou adiante.

Nessa tarde ele encontrou a casa cheia. D. Inácia espalhava receitas de doces por todos os cantos onde encontrasse dois ouvidos pacientes. A Carlotinha, com o seu ar picante de morena desembaraçada, debicava as Bragas, que riam muito, aludindo aos namorados da Judith e da irmã, piscando para um estudante de medicina, o Oscar Pereira, que elas apresentavam nesse dia à família Teodoro, como um excelente recitador de monólogos.

Mas na casa pouco se apreciavam os versos e ninguém lhos pediu.

O Dr. Gervásio jogava com o Gomes e o Lélio, Camila girava pela casa, esquecendo-se no meio do ruído, da impressão de abandono dessa manhã no Equateur.

Lá dentro, Nina mandava acrescentar mais uma tábua à mesa e descia à adega para determinar ao copeiro os vinhos a servir.

Assim, aquele dia de semana parecia de festa.

Francisco Teodoro sentou-se ao pé do piano e olhou para todos como se olhasse para fantasmas. Que quereria dizer tanta alegria? Então toda aquela gente não teria mais que fazer, nem outras coisas em que pensar?

Não esteve muito tempo sossegado. Lia e Rachel saltaram-lhe para os joelhos, e ele, cansado, deixou-as trepar, e fez de cavalinho durante alguns minutos...

XVIII

Todos os dias era aquilo: logo pela manhã Francisco Teodoro saltava da cama com sentido nos telegramas do Jornal. Desta vez, como das outras, sofreu o mesmo desapontamento. Lá vinha a notícia de que o café baixava de preço, pouco a pouco, invariavelmente.

Vestiu-se à pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pesadelos da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam pelos tamarineiros.

Eram seis horas, e já Lia e Rachei andavam aos saltos, ainda de calções de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os enxugadores no braço e a saboneteira na mão.

- Então, crianças; que cacetes!

As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pai, tomando-lhe o passo.

- Bons dias, papai!

- Bons dias, papai!

O pai nem sorriu, afastou-as com brandura e disse:

- Vão tomar o seu banho.

- Eu quero passear com o senhor.

- Eu também quero...

- Não façam esperar a Noca. Vão tomar o seu banho. Logo...

As crianças começaram então a desafiar a paciência da mulata, em correrias e negaças. Francisco Teodoro seguiu sozinho para o fundo da chácara. E por ali andou calado, sem atender aos cumprimentos dos empregados que passavam por ele.

Sentia-se opresso, como se carregasse nos ombros um fardo muito pesado. Era a primeira vez que atentava na pequena duração da mocidade: a falta da energia dos outros tempos doía-lhe na alma.

E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que só têm vida para isso...

A Nina foi ter com ele.

- O senhor anda muito madrugador... Quer almoçar? Está tudo pronto.

Ele puxou pelo relógio.

- Sim, posso ir, são quase nove horas...

Entraram. As pequenas puseram-se aos lados do pai, que lhes metia na boca bocadinhos de pão com ovo.

- O senhor dá tudo às meninas e não come nada! observou Nina.

- Não tenho fome.

- Depois fica doente... por que não fala com o médico?

- Eu? para quê?

- Aqui está o café.

Engolindo o café, de um trago, Francisco Teodoro saiu apressado.

Noca foi espiá-lo à janela e veio dizer à Nina que seu Teodoro parecia outro homem; até mudara de andar. Contemplaram-se as duas, e foi ainda a mulata quem murmurou:

- Quem sabe se alguém disse de nhá Mila, hein?

As onze horas, quando se sentaram à mesa do almoço, já a visão de Teodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro.

A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas, através do toldo riscado das janelas; sobre a toalha havia os mesmos excelentes vinhos e o mesmo excelente aroma de manacá. Nas jardineiras, os tufos rendados das avencas davam, como em todos os dias, igual aspecto de frescura à sala; as crianças rebentavam de saúde... Que mais seria preciso para que as horas voassem na vida como num sonho?

Entretanto, o dr. Gervásio perguntou a Mila:

- Seu marido está melhor?

- Não sei; anda amofinado... Sentiu muito o casamento de Mário. Ele não quer que se diga que está doente. E efetivamente não está. Não sei o que é aquilo.

Gervásio calou-se, pensativo. As gêmeas começaram a rir, uma da outra.

- Viu que bonito cróton está no vaso da entrada, doutor? perguntou Ruth ao médico.

- Vi. O cróton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquele vaso de alabastro dali, ou eu não volto cá.

- Acha feio?

- Horrível.

Nesse dia, Francisco Teodoro não achou um instante de alivio no trabalho.

Foi ao escritório do Inocêncio e maçou-o com interrogações, percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfarçadamente.

Já havia perto de três meses que os telegramas anunciavam regularmente numa proporção de acinte, a baixa do café no Havre.

E ainda o Inocêncio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido esgarçado, fugitivo.

Francisco Teodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros, teve ímpetos de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir; todavia, conteve-se, certo de que nada lucraria, e desceu a escada do outro com o protesto de ser a última vez.

Quando entrou no seu escritório, o guarda-livros estendeu-lhe um telegrama: A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava falência, arrastando na queda grandes capitais de Teodoro.

O negociante leu a comunicação em silêncio e em silêncio se conservou por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas, de olhar parado e o papel aberto nas mãos trêmulas.

Os empregados do escritório assistiam mudos e contrafeitos àquela cena. O Mota já lá estava, muito amarelo, de olhos encovados, mal escovado, com a gravata torta num colarinho amarrotado, com o triste ar de pobreza relaxada; também ele percebeu que pairava ali uma grande desgraça, e sacudiu piedosamente a cabeça, fixando o rosto transtornado do patrão.

Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força.

Quinze dias mais tarde anunciava-se o fim de tudo, - a grande casa Teodoro teve de declarar falência.

Na família nada se sabia; o negociante readquirira nos últimos tempos uma relativa serenidade. Tinha de se render à praça numa segunda-feira, e exatamente no domingo a sua mesa encheu-se.

A família Gomes chegou cedo.

D. Inácia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda cor de pinhão; que seda aquela! parecia nova, com as rendas pretas do adorno.

- Então, como se passa por aqui? disse ela alegremente, repimpando-se na melhor cadeira da sala de jantar.

- Assim, assim,... tio Francisco não anda nada bom, está muito abatido, respondeu Nina.

- Isso é que é mau. E sua tia?

- Está lá em cima, já vem.

- Gostaram dos biscoitos que eu mandei?

- Muito, são muito bons.

- Eu trouxe a receita para Mila. Amanhã, se Deus quiser, hei de experimentar outros. Como a Ruth cresce! Aqueles são de polvilho. Perceberam?

- Percebemos.

- Com muitos ovos. Nas confeitarias não se fazem assim...

- Não...

Carlotinha tirava o chapéu em frente ao espelho da etagêre, cantarolando:

"No Brasil é doce dovos,
Chiquita
Um beijo dado em você."
"Um beijo..."

e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ela.

Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala, sacudiu os braços numa tilintação de pulseiras e roubou Nina à mãe, puxando-a para o terraço:

- Você sabe duma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como é bom! como eu estou contente!

- Foi o Samuel?

- Então, quem havia de ser?

- Seu pai não queria...

- Que remédio teve ele... Custou, hein? Ele há de passar por aqui... Você vem comigo para o jardim?

Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos monólogos. O dr. Gervásio mesmo, que não costumava aparecer aos domingos, lá foi para o joguinho com o Lélio e o Gomes.

Francisco Teodoro mandou abrir cerveja. A criançada da vizinhança tagarelava pelos corredores. Fazia um sol!

- Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, sr. Teodoro?

- Muito bons... a sra. d. Inácia é emérita. Sabemos.

- São de polvilho... Eu trouxe...

Camila apareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. Inácia remexeu-se nas sedas e levantou-se interrompendo a frase. Disse outra:

- Como ela vem! É um céu!

De vez em quando Noca aparecia na porta do corredor, percorria com a vista toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros criados, em arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Terezinha Braga com o estudante dos monólogos, pelos vãos das janelas.

- Credo, um mocinho tão aquele...

Às dez horas da noite começou a debandada. As primeiras a sair foram as Bragas com muitos adeuzinhos e risadas. O dr. Gervásio carregou com o Lélio, dando-lhe hospedagem com a condição de lhe ouvir Chopin. As Gomes foram as últimas. As moças saíram carregadas de flores e mudas de plantas, e d. Inácia com o braço vergado ao peso da bolsa cheia de pêssegos inchados, bons para doce.

- Com o pretexto da doçaria, ela passava sempre revista ao pomar de Camila. O marido dava-lhe o braço, com a cabeça erguida, para que não lhe caíssem do nariz o pesado pince-nez de tartaruga.

- Foi um dia bem passado! disse depois Mila à sua gente.

Os outros concordaram.

Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco Teodoro entrou no quarto das crianças.

Do gás em lamparina descia uma luz doce, atenuada por um globo de porcelana.

Em duas caminhas iguais, de ferro branco com varais dourados, e separadas apenas por um intervalo de um metro, as duas meninas dormiam profundamente, com os lençóis revoltos, as pernas nuas, os cabelos espalhados sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o ar e lábios entreabertos.

Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz, parecia mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama; a outra velava-se em uma meia sombra, com as mãos espalmadas no peitinho gordo.

Que dormir tão bonito. Quase que lhes lia os sonhos, através das pálpebras mimosas...

Francisco Teodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora para outra. Como eram bons aqueles leitos, como era espaçoso aquele quarto, como eram finos aqueles sapatinhos que descansavam vazios sobre o tapete, e como cheiravam bem aquelas sainhas bordadas e aqueles vestidos brancos que estavam ali atirados para as costas de uma cadeira! E não poderiam crescer assim as suas filhas, com aquele conforto de luxo! Dias depois sairiam do seu palacete, e iriam... para onde? que os esperaria a todos?

Francisco Teodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos; voltou-se assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A mulata, que vinha deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou:

- Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era.

- Tão sonhando... às vezes basta mudar de posição e ficam logo quietas...

- Sim, estarão sonhando... queira Deus que os sonhos sejam bons...

- Elas não têm nada! Tão frescas... apalpe só, pra vê...

- Sim, deixe-as dormir... olhe por elas... olhe por elas!

Francisco Teodoro saiu do quarto com um nó na garganta. Como seriam educadas aquelas crianças? As pobres ainda não sabiam nada, nem uma letra... nem uma! Em vez de subir para seu quarto, onde Camila adormecia, ele acendeu uma vela, apagou o gás da saleta e desceu para o seu escritório, no rés do chão.

À uma hora da madrugada, Teodoro escrevia ainda. Do lampião de bronze descia uma luz calma, fixa, propicia à escrita. A mobília de canela e de couro lavrado, nua, bem arrumada, tomava uma feição de espanto naquela claridade muda.

Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede cor de avelã a sombra da sua atitude arrogante e viva...

Na mesa, ao lado do código de Orlando, o tinteiro de prata tinha reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros saltavam lampejos luminosos que animavam a sala.

Francisco Teodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra. Dir-se-ia que as palavras eram em todas iguais. A pena corria dando as mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos de ferro. Terminada a última, colocou-as em um maço sobre a pasta e encostou-se na larga cadeira, ofegante, com os olhos no vácuo. Esteve largo tempo assim, imóvel. Depois, sem que um único músculo do rosto se lhe contraísse, abriu uma gaveta da secretária, tirou dela um revólver e examinou-o com atenção. Era uma arma nova, reluzindo ainda às últimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardá-la na mesma gaveta, que fechou à chave.

Estava ali dentro o descanso, a eterna paz.

Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo...

No dia seguinte, depois de uma terrível noite de insônia, Teodoro desceu à hora do costume para a sala de jantar, reluzente de cristais e prataria, e sentou-se à mesa, em frente ao terraço que todo se via pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degraus amplos desciam para o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaústres irrompiam, de entre tufos de avenca, dois esplêndidos pés de manacá em flor. Francisco Teodoro olhava para eles sem os ver, absorvido no seu desgosto, quando a afilhada o interrompeu:

- Bons dias, titio!

- Adeus, Nina.

- Estava gostando de ver os manacás?

- Sim...estão bonitos...

- Lindos! Sabe? tia Mila vai ter hoje um desgosto!

- Hein?! perguntou Francisco Teodoro sobressaltado.

- Amanheceu hoje morto o cacatuá, e ninguém sabe porque. Noca já está dizendo que é sinal de desastre em uma casa...

- Ah! ela disse isso?

- Disse. Nós não nos importamos; mas o senhor sabe como tia Mila é impressionável!

- Não lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatuá?

- O capitão Rino.. Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre?

- Não... Dê-me uma xícara de chá...

- Mas o bife e os ovos aí vêm...

- Não quero nada. Só chá.

- Coma então destas bolachinhas. Estão muito bem feitas.

Nina foi ao armário, de onde retirou a biscoiteira de cristal. Enquanto o tio comia, ela sentou-se a seu lado e pediu-lhe lápis para escrever uma nota, nas costas de um cartão de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo:

- Deus queira que eu não me esqueça de nada do que tia Mila recomendou...

Depois leu alto:

- Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimarães que mande trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de veludo turquesa.

Dizer ao Bastos que faça, pela medida que tem lá, mais um par de sapatos de cetim preto... Há mais: um quilo de bombons e...

- Não diga mais; hoje não posso fazer nada disso.

- Então tia Mila irá a cidade... É melhor.

- Não! que não vá, atalhou ele nervosamente. Dize-lhe que voltarei cedo. Eu farei tudo... mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos de cetim, os doces...Ah! a Noca tinha razão! Sabes tu, Nina?

- Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ela, com assombro, eu não sei nada!

- Tens razão... cala-te e espera. Expliquem à minha mulher o significado da morte do cacatuá, não faz mal. Adeus, tenho pressa...

Nina ficou pensando:

- Tio Francisco estará doido?

Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as cigarras cantavam estridulamente. Os bondes vinham cheios, e bandos de crianças passavam nas calçadas a caminho do colégio.

Francisco Teodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso derrubando-lhe os ombros, e sentia as pernas amolecidas. Tomou o bonde já na praia. Adiante dele, no banco da frente, ia um portuguezinho recém-chegado, de jaqueta, chapéu de feltro de abas ensebadas e grossos sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado, entreabrindo os lábios secos e gretados numa expressão admirativa. Francisco Teodoro não podia desprender a vista daquela criança rústica. Veio-lhe à memória o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta da terra pátria que trazia presa às solas brutas dos seus sapatos, e o espanto com que ele, também, nos seus primeiros dias, olhava para este céu, e estas árvores, e estas montanhas, em uma interrogação de esperança e de medo; e da saudade que tivera da broa, da aldeia, das águas claras daquele rio em que se banhava nas tardes de verão, daquelas charnecas onde ia à caça dos grilos, daqueles campos de trigos dourados ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atrás dos burricos do moleiro...

E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: "Volta para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e a água do bom Deus!

"Onde há uma árvore há sombra onde um homem se deite. Não queiras a riqueza, que ela engana e mente. Mas vale ser pobre toda a vida! Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nus pela terra que um dia os há de comer... Se bem os vestires a todos... verás: pesarão ouro e valerão pó..."

Eram dez horas quando o negociante entrou no armazém. Seu Joaquim andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo rebarbativo e seco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum caminhão à porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de sacos e para as aranhas do teto.

Francisco Teodoro chegou-se à mesa que estava à esquerda da porta de entrada, apanhou ai a sua correspondência e girando sobre os calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escritório.

Em cima estavam só o guarda-livros, que escrevia de pé, e o velho Mota, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias.

- O Leite Mendes mandou cá?

- Não senhor...

- Está tudo direito, não?

- Tudo.

- Escrevi eu mesmo as cartas... veja se estão em ordem...

O guarda-livros fez um gesto de recusa.

- Não; já estou desacostumado dessas coisas... veja. Depois será bom mandá-las entregar, insistiu Teodoro.

- Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos.

- Para quê?

- Adiaremos ao menos a... a catástrofe.

- Ora! o Sidney! há de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui justamente uma carta dele, que ainda não abri. Vou lê-la agora.

Francisco Teodoro sentou-se muito pálido, e rasgou o sobrescrito com mão trêmula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da leitura uma grande pausa, em que o silêncio pesava; ao fim de alguns minutos o negociante ergueu-se e começou a passear nervosamente de um lado para o outro. De vez em quando lançava uma pergunta pueril ou distraída:

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