Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Livro Das Donas E Donzelas Júlia Lopes De Almeida - Página 4  Voltar

Livro das Donas e Donzelas

Júlia Lopes de Almeida

Flores

Escrevo estas linhas
pensando em minhas
filhas. Elas me
compreenderão quando
forem mulheres e plantarem
rosas para dar mel às abelhas
e perfume a sua casa.


Em maio de 1901 resolvi organizar para setembro desse mesmo ano uma exposição de flores no Rio de Janeiro, a primeira que se faria nesta cidade. Se faltava originalidade à lembrança, visto que exposições de flores fazem-se todos os anos em terras civilizadas, sobrava-lhe o interesse; a curiosidade amiga que sempre tive pelas flores e o desejo de as ver muito amadas na minha terra. Referir-me a essa exposição é para mim um sacrifício; mas não quero omitir tal capítulo neste livro de mulheres, presidido pelo olhar das minhas filhinhas, a quem pretendo insinuar o amor das plantas, como um dos mais suaves e melhores da vida.

Dizem que as palavras voam e que as obras ficam; mas há obras que o vento leva e que só na palavra fugitiva deixam a sua lembrança... Não falarei da exposição malograda, por ela nem por mim, mas pelos seus intuitos, que eram múltiplos e que continuo a achar excelentes. O que foi acabou. Deite-se-lhe em cima a terra do esquecimento; agora o que ela seria poderá ainda ser, e é nessa hipótese que tem cabimento esta insistência. O que eu esperava dessa exposição era isto só:

Que fosse o início de outras mais belas, que iriam aperfeiçoando as espécies estimadas dos nossos jardins e descobrindo os tesouros dos nossos campos e das nossas florestas. Quantas flores vicejam por esses sertões, dignas de figurarem nos salões mais exigentes! Eu mesma, que nada posso, guiada por uma rápida visão da meninice, não mandara vir do interior de S. Paulo uma flor que, se tivesse a desgraça de pensar, não imaginaria nunca ver o seu nome em um catálogo? Com o prestígio da exposição, quantas pessoas trariam a concurso lindas flores ignoradas, e ignoradas porque são brasileiras?

Não sou dos que pensam que não devemos aceitar nem pedir árvores estrangeiras, desde que temos flores e árvores com tamanha abundância em nosso país.

As coisas boas e belas nunca são de mais, e há ainda a acrescentar a essas duas qualidades a utilidade especial de cada planta.

Todavia, devemos indagar bem do que temos em casa, antes de pedir o que só julgamos haver na alheia.

Uma das principais preocupações da exposição seriam as orquídeas, de tão melindroso cultivo e demorada floração. O catálogo mencionaria com o maior cuidado todas as variedades apresentadas no certame, raras ou não. Ah, no artigo das orquídeas havia parágrafos que valiam capítulos pelas suas intenções.

Imagine que se aventava a idéia de fundarmos no Rio um pavilhão para exposições permanentes, em que a orquídea seria protegida e defendida como um tesouro.

Faz rir a idéia, não é verdade? Nesse pavilhão, organizado por competentes, todas as orquídeas vindas dos Estados próximos, para exportação, seriam sujeitas a um exame para o competente passaporte... Esta prática, que a maioria parecerá absurda, seria considerada naturalíssima, se o respeito pelas orquídeas, que são as jóias das nossas florestas, já tivesse sido implantado no povo. Há orquídeas e parasitas que tendem a desaparecer, pela devastação arrebatadora com que naturais inconscientes e estrangeiros especuladores as arrancam das árvores para as meterem nos caixotes em que as mandam para os portos europeus. Pode dizer-se que e nas estufas da Inglaterra, da França, da Holanda e da Alemanha e até da República Argentina, que se vêem as mais belas flores do Brasil! Não seria justo que, exportando as variedades mais raras das nossas orquídeas, guardássemos delas, na capital, exemplares que garantissem a sua reprodução no país e abrilhantassem a exposição permanente, visitada ao menos por todos os estrangeiros em trânsito?

Mas a nossa atenção não estava voltada só para as orquídeas.

Cada dia da exposição de flores seria dedicado a uma das espécies mais estimadas entre nós.

Teríamos um dia só para rosas. Em roseiras ou cortadas, nessas flores se concentraria a atenção do júri, constituído pelos nossos mestres de botânica e pelos donos dos principais estabelecimentos de floricultura do Rio de Janeiro. Nesse dia apurar-se-ia, aproximadamente, a quantidade de variedades que temos dessa flor, para estabelecer depois a comparação com as que se apresentassem em exposições consecutivas. Tudo isso ficaria consignado em um livro, documentado por nomes conhecidos e insuspeitos.

Assim como as rosas, os cravos não teriam razão de queixa.

Tem reparado como a cultura de cravos se tem desenvolvido e embelezado no Rio de Janeiro? Acreditava-se antigamente que essa flor, uma das mais originais, senão a mais original, só desabrochava bem em Petrópolis, em São Paulo e não sei em que outras terras. Pois estávamos enganados. Nem mesmo do alto da Tijuca são esses formosos cravos que aí estão de tantas cores variadas e tão opulentos de forma; são do vale do Andaraí; são do Engenho Velho; são dos subúrbios; são de Santa Teresa, etc. Quem tiver um canto de jardim, um peitoril largo para vasos de barro, um pouco de terra, pode com segurança semear os seus craveiros; as flores virão.

Como incentivo, a exposição distribuiria mudas de crisântemos a um certo numero de moças, emprazando-as a apresentarem na estação dessa flor a planta florida para uma exposição, em que seriam distribuídos os prêmios do primeiro certame.

Inoculando o gosto pela jardinagem, ela desenvolveria a cultura de uma flor brilhante e a que o nosso clima é favorável.

Nessa primeira exposição, teríamos, além de conferencias estimulando o amor das plantas, mostrando-as em todos os seus múltiplos aspectos sedutores, lições de jardinagem prática.

Essas lições, dadas com a maior simplicidade, sem termos enfáticos, por um homem ilustrado e amigo das flores, nos ensinariam como deve ser preparada a terra para o jardim, como se devem fazer as sementeiras e as podas e os enxertos e matar os pulgões, e criar rosas novas e transformar as variedades mais conhecidas, e pulverizar de água fresca os altos troncos das orquídeas, etc.

Com essas coisas pensava eu prestar simultaneamente dois serviços, à cidade, demonstrando a possibilidade de se fundar aqui uma escola para jardineiros, e às moças a quem o tempo sobre para essas brilhantes fantasias. A jardinagem fornece ensejo para distrações e estudos próprios para mulheres.

E, depois, que encanto o de ver-se o nome de uma senhora ligado ao de uma rosa!

Em todas as capitais do mundo civilizado há o culto da flor. Elas simbolizam as nossas grandes alegrias, como as nossas grandes tristezas, imagens materializadas das maiores comoções da vida. Nas alegres visitas de boas festas e de aniversários, ou nas romarias para os cemitérios, as flores exprimem o júbilo ou a saudade, tão bem como a lágrima ou como o sorriso.

Na Alemanha, disse-me uma amiga que por lá andou viajando, há nas portas dos hospitais, em dias de visita, floristas com ramos para todos os preços; abundam os baratinhos, de flores agrestes ou mais vulgares. Naturalmente, quem vai ver um doente de quarto particular, escolhe as camélias mais puras ou os narcisos mais raros; para os pobres e os indigentes das enfermarias publicas vão bouquets modestos e pequeninos, conquanto vistosos e alegres

Que é aquilo? Um pouco de poesia e de primavera, que vão errar com o seu aroma e as suas cores vistosas e alegres naquele ambiente triste e aborrecido. O olhar desconsolado do doente encontra naquilo um pouco de distração e de consolo.

E assim que nós precisamos gostar de flores. Gostar tanto, que elas sejam para nós uma necessidade; tanto, que até o povo das enfermarias gratuitas não ache mal empregado o tostãozinho com que as adquira! E aqui é tão fácil cultivá-las, Senhor!

A arte do ramilhete, tão adorada no Japão, segundo afirmam as cronistas de lá, e que é com certeza uma das mais delicadas que uma mulher pode exercer, era chamada a concurso em um dos dias da exposição. A moça que fizesse o ramo com mais harmônica combinação no colorido e de forma mais elegante, seria premiada.

Uma das mais curiosas veleidades dessa exposição era o interessar-se pelo tipo das floristas da rua, procurando induzir a transformação das do Rio de Janeiro, que não é positivamente encantador. Para isso obteria também um concurso, em que os nossos pintores e desenhistas apresentassem figurinos de acordo com o nosso clima para floristas ambulantes. Isso naturalmente constituiria uma galeria de problemático aproveitamento; em todo caso, muito interessante. Lembrava mesmo o alvitre de oferecer a exposição os primeiros trajes aos que se sujeitassem à experiência. A exposição seria gratuita para as crianças, tendo mesmo um dia destinado às escolas.

Nunca imaginei que fosse preciso ensinar a amar as flores, que as crianças saúdam desde o berço, articulando, ao vê-las, sílabas incompreensíveis, e agitando para elas com entusiasmo as mãozinhas! No entanto parece-me que o culto da planta deve entrar na educação do povo. As exposições de belas-artes ensinam a amar os quadros e as estátuas; é bem possível que o amor dos europeus pelas flores tenha sido despertado e aperfeiçoado pelas exposições de flores, que se fazem na Europa duas vezes no ano, uma no outono, outra na primavera.

Deixei de reproduzir muitos pontos do programa da primeira exposição, tais como a batalha de flores, com que ela se encerraria, a indicação das flores mais aproveitáveis para a destilaria, etc. Bastam estes que aí ficam para demonstrar que a beleza e a utilidade andam às vezes de mãos dadas!

Se eu fui infeliz, outras serão felizes na mesma batalha e pelo mesmo ideal. Das minhas esperanças decepadas brotem novas esperanças em almas mais novas e capazes de empreendimentos de mais forte envergadura. E para atiçar essa chama que escrevo estas linhas trêmulas, porque agindo adquiri a certeza de que nesta terra bastam para executar grandes obras só duas coisas: energia e vontade.

Harmonias

Tudo é música na natureza, até as ostras cantam!

Cada dia que passa nos traz uma surpresa magnifica. Esta, que talvez não tivesse comovido ninguém mais, fez-me cair das mãos estupefatas o Jornal do Comércio, em que ela veio fixada, como afirmação de um sábio professor, cuja palavra não pode ser posta em dúvida.

Mal haja quem fizer ouvidos surdos a uma tão bela revelação da poesia universal. Esse será de um materialismo indigno deste século, que há de ser todo cheio de sublimes divulgações. Digam embora que tudo é velho e revelho no mundo inteiro. Mentira; ali está a prova: as ostras têm voz, em que expandem as queixas da sua alma com "gritinhos agudos, seguidos de murmúrio suave mas expressivo".

É assim que diz a noticia. Ora, onde há expressão há sentimento, logo esses gelatinosos moluscos, feios e informes, tão repugnantes e tão saborosos, dão para a divina harmonia dos dias e das noites o seu contingente ignorado de soluço ou de riso!

Não bastava à ostra ser mãe da pérola. Tal glória não a elevou nunca no pasmado conceito das multidões. Essa preciosa concreção calcária que as mulheres adoram e os ourives exploram, é, bem como o aljôfar, o nácar e a madrepérola, de tamanha impassibilidade, que nunca suspeitamos, por via dela, que na concavidade das conchas em que a ostra se espapa, mole e gomosa, ressoasse a voz do gozo ou do sofrimento

Foi preciso que a orelha, naturalmente cabeluda, de um grave e sábio professor se inclinasse para as anfractuosidades de um rochedo, para que o divino mistério da alma ignorada do molusco se revelasse ao mundo.

Se as palavras que esse fato denunciaram, em vez de terem sido pronunciadas solenemente em um - congresso de pesca - por um homem cogitador e insuspeito, tivessem saltado da língua da Sirineta, que foi feita per contare solamente as belezas do mar, de que é o espírito, a gente levantaria os ombros com o sorriso com que acolhe as mais lindas fantasias e iria continuando a comer ao almoço, sem remorso e com apetite, as famosas ostras cruas.

Mas daqui em diante já virá uma pontinha de desgosto amargar esse prazer maldoso. A gota de limão que contrair o molusco ainda vivo, nos dará a sensação de que estamos a espremer torturas sobre um ser digno da nossa veneração, porque sabe conhecer o sacrifício!

Antes de a meter na boca é preciso aproximar do ouvido a ostra que temos de deglutir.

Foi esta a nova preocupação que inventou o tal senhor sábio, como se já não tivéssemos tantas! mas, não faz mal! ficamos assim sabendo que não há na criação nada que seja absolutamente mudo.

Quantas e quantas vezes a literatura alude ao decantado rumor do silêncio, que nos traz da solidão dos campos ou da vastidão das águas murmúrios frauduleiros de ignota magia? Foi talvez num desses instantes em que a orquestra universal toca em surdina, que o sábio investigador, deitando-se sobre a areia fofa de uma praia, junto a uma velha rocha ostreira, percebeu a tênue voz dos moluscos através as camadas das conchas sotopostas.

Vamos, que a surpresa não devia ter sido pequena, nem tampouco desagradável. Não tardará muito que alguém nos venha dizer o diapasão em que cantam essas pobres enclausuradas, cujo estilo trará à mente, já presumo! a forma de um hino sacro... O passo rude está dado; ciência e acaso, de mãos dadas, descobriram o segredo das ostras; elas cantam, e um homem, naturalmente barbado e muito sério, como convém a um sábio e grande professor, cuja palavra não pode ser posta em dúvida, teve a coragem de o declarar em uma sessão de congresso. O principal está feito; o resto virá depois.

Virá depois, mas levará seu tempo. A interpretação da música e a sua definição estou vendo que não é coisa fácil!

Ainda há pouco, uma pessoa que estimo e cuja opinião em música acato como a melhor, me disse que a opera Saldunes tem muita beleza e larga inspiração. Alegrei-me; mas a par desta, quantas me disseram que não a tinham entendido?

Não entender! Mas a música não é uma língua estranha, que se precise traduzir com dicionários! Ai dela, se assim fosse; deixaria então de ser arte divina para ser fria ciência; deixaria de ser a grande pacificadora, tão necessária ao atribulado coração humano, para ser uma coisa impenetrável e rígida, a que só com esforço as multidões chegariam.

A maioria do público que vai ao teatro ouvir uma opera, não trata, por incompetente, de averiguar se ela é feita desta ou daquela maneira, se a sua instrumentação obedece a todos os primores de uma orquestração opulenta, se a sua tessitura é perfeita, e as suas harmonias bem combinadas.

O que ele vai buscar lá é a emoção, o sentimento que transbordara e se evolará da música com a espontaneidade perturbadora com que o perfume sai de uma flor!

Parece-me que a arte, a não ser para os artistas, não é coisa que se entenda, mas que se sinta. Que importa à maioria que os processos por que tal partitura é feita, sejam complicados e ela dolorosamente trabalhada, se do seu conjunto espinhento e bravio não voou nem uma frase que lhe fizesse vibrar os nervos impassíveis?

Em verdade é muito freqüente ouvir-se dizer: eu não gostei desta ou daquela opera, porque não a entendi.

Essa modesta confissão de incompetência, que, aliás, só é feita em relação à música, visto que para as outras artes toda a gente se julga habilitada e com direito a uma crítica definitiva, deve, até certo ponto, consolar os maestros...

Ah, diante das harmonias da natureza é que não há tanto embaraço: elas entram-nos pela alma a dentro sem que para isso tenham de forçar o entendimento. Quem compreenderá jamais a contextura dessa grande opera em que tomam parte desde o asqueroso sapo dos brejos, até à sentimental patativa dos laranjais?

Ninguém; e todavia todos a sentem e a adoram. É por isso que, por sobre as areias movediças ou as asperezas agrestes dos rochedos mudos, roçam na avidez de uma curiosidade insaciável as cabeludas orelhas dos sábios naturalistas.

Certos de que neste velho mundo tudo é novo, os seus ouvidos esperam ainda, esperarão sempre, surpreender no próprio seio das coisas mudas, vozes ignoradas e perfeitas.

Esta, que o grave professor do Congresso de Pescaria descobriu nas ostras, é deveras extraordinária! Como os cisnes, o viscoso molusco desprende na hora extrema, após um grito agudo, um canto suavíssimo...

Haverá quem, depois disto saber, ingira sem comoção e sem remorsos as saborosas ostras cruas, cruas e vivas?! Não!

Um Testamento

É o nome de Rotschild que aos olhos do mundo se incarna a idéia da riqueza. A lâmpada de Alam, de que cada um de nós tem na imaginação uma cópia, arranca-lhe de cada sílaba uma chispa de pedra preciosa. Ele é o dístico de um tesouro acumulado com avidez judaica através dos tempos e de que só desabam catadupas de ouro quando solicitadas pela volúpia do negócio. Ele é a glória da raça, a ventosa terrível sugando energias de hebreus e submissões de cristãos, e é o senhor do ouro que, como o mar, recebe de todas as nascentes, e de água turva com água límpida faz a mesma onda que estrondeia em espumaradas de prata.

Rotschild não é uma entidade, é um símbolo - o dinheiro. Ele faz tremer as nações, vê a seus pés os mais nobres governos e finca no mundo as suas garras formidáveis, enterrando-lhas até ao âmago, bem como o abutre enterra as suas na carne tenra de um cordeiro.

Como o frágil animal, o mundo sangra, - na agonia do proletário, do faminto, do sem vintém, para cujos olhos o capital é o roubo, e que aí estão rugindo mais alto que o balir trêmulo do cordeirinho na aflição da morte...

Rotschild! Pode ser amado este nome luminoso e que retine com uma tão ampla sonoridade de ouro? Diria não, se a leitura de um testamento me não viesse provar que ele não quer dizer unicamente: metal, negócio, lucro. É pois certo que Rotschild é nome de homem!


Tenho observado, talvez mal, que o egoísmo humano em nenhuma formula tão bem se evidencia, como na testamentária. Pessoas riquíssimas e cuja fortuna ao serviço de um coração generoso se podia expandir num largo círculo, fazem testamentos em que concentram todos os haveres nos seus herdeiros da lei ou em pouquíssimos mais. Assim, ninguém que as não tivesse conhecido em vida as diria capazes de matar com um bocado de pão duro, a fome de qualquer mendigo que lhes batesse à porta.

Toda aquela fortuna parece ter sido passada a outrem a contragosto, de olhos fechados, num mergulho inevitável.

É bem difícil fazer-se um testamento, visto que é tão raro aparecer algum em que a justiça, a ternura e a humanidade transpareçam.

Entretanto, nenhum ato pode ser mais consolador nem mais belo para um homem de grande fortuna e largo espírito, do que esse de espalhar, após o seu completo desaparecimento da Terra, o bem estar e a alegria por um punhado de gente que sofre e que trabalha.

É ainda a maneira que os ricos têm de se fazerem perdoados de bens, adquiridos muitas vezes pelo seu próprio esforço, mas que nem por isso deixam de ser mal vistos pelos que nada alcançam...

Rotschild! é de Adolfo Rotschild o testamento glorioso, que li em um jornal e onde há legados comovedores.

Se houve culpas nos seus antepassados, este homem de bem redime-as todas nestas páginas de clemência. Sem apagar um único beneficio que o coração decretara no primeiro impulso, ele quarenta e quatro vezes alterou o seu testamento, para desenvolver, acrescentar os socorros que a observação da vida lhe ia sugerindo.

Sem falar nos asilos, hospitais, escolas e museus, para os quais deixou montões e montões de dinheiro, milhares e milhares de contos; sem comentar a abundância das verbas destinadas à manutenção dos institutos, onde a raiva e o croup encontram lenitivo e remédio, destacarei os legados, que me pareceram mais reveladores de um coração raro. Este, por exemplo: determinou uma quantia para auxílio de moças pobres que vivam do seu trabalho. Isto não tem o valor banal da caridade, atirando dinheiro aos pobres como migalhas aos peixes; encerra uma idéia de acoroçoamento, de estímulo, de aplauso, é como um carinho fraternal, que não será recebido sem lágrimas.

O grande argentário pensou na operária sacrificada, na laboriosa filha do povo, para quem só têm olhos a concupiscência e a perdição, e atirou-lhe um adeus de amigo, que tão raramente o homem dá à mulher, e que seria sempre o mais suave esteio para as suas fraquezas...

Não é menos encantador, na sua simplicidade, o benefício aos animais em geral, cuja sorte triste procurou minorar. Assim, os cavalos que tenham trabalhado, chegado o instante inevitável da decadência ou da ruma, não serão aproveitados em misteres brutais, em que o seu pobre corpo esfalfado vergue ainda no interesse do dono egoísta.

Chegamos ao último legado, que eu não classificarei, porque toda a sua filosofia adorável fala por si. É simples:

Adolfo Rotschild, deixou a uns tantos sacerdotes velhos, de qualquer religião, soma que lhes permita exercerem tranqüilamente em França o seu ministério.

Esta lembrança abre-se aos meus olhos como uma flor até hoje desconhecida. Nem a cor, nem a forma, nem o aroma denunciam a semente que lhe deu origem; tão sabido é que a tolerância absoluta raro germina na Terra.

Cada um de nós pensa que da nossa religião é que há de vir a felicidade ao mundo, porque só ela é perfeita e é verdadeira. Bálsamos que outras derramem, que nos importam, se nem elas são justas, nem os seus filhos nossos irmãos?

Guerreêmo-nos, matemo-nos em nome da nossa Fé, que será um dia a de todos que nós tivermos vencido ou que vierem ao nosso chamamento. A esta idéia turbulenta, desorientadora e triste, responde a voz serena daquele parágrafo, em que um judeu oferece amparo a velhos sacerdotes pobres, católicos, israelitas ou protestantes, para a sua manutenção, aconselhando ao mesmo tempo aos seus descendentes, que lhe sigam o exemplo de tolerância e de liberdade religiosa.

Fonte: pt.wikisource.org

voltar 1234avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal