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A Morgadinha dos Canaviais: Crônicas da Aldeia

Júlio Dinis

.— Não vejo a necessidade da aliança que propõe, nem as razões para a luta.

— Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presença aqui foi um desagradável contratempo. uma certa altivez e consciência de invulnerabilidade, de que tinha o incômodo de se revestir, sempre que tratava comigo, depois desta importuna ocorrência terá de se modificar.

— Não havia dado por essa... revestidura que diz; mas, se ela existiu, far-me-á o favor de dizer: porque não pode continuar? — Essa é boa ! porque eu faço a justiça à prima de supor que não vai tão longe a sua hipocrisia.

— Hipocrisia ! — disse Madalena, com acento mais severo.

— Perdão; não tive tempo para inventar outro termo mais...

brando. Dissimulação talvez lhe agrade mais. Seja dissimulação. Mas depois do ocorrido...

— Agora exijo eu que se explique, senhor.

— Ora vamos. Seja razoável. Poder-me-á dar uma explicação...

edificante... desta sua excursão nocturna? — Obsta apenas a que eu lha dê, Sr. Henrique de Souselas, a falta de uma pequena formalidade : a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.

— Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha idéia. A prima é uma mulher admirável, uma mulher superior, educada na alta escola de uma sociedade distinta, sobranceira por isso a pieguices provincianas.

Tanto mais me encanta ! E creia que me envergonho só ao lembrar- me do que terá pensado de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões de fé, tão cheias de franqueza e de candura. Devo ter-lhe parecido bem ridículo, não é verdade? — Agora é que me está parecendo bem enigmático, — Sim ? Nesse caso eu me decifro. A prima não ignora que eu a amo.

— Pois ignorava ! — atalhou Madalena, com ironia.

— E sabe decerto, por experiência do mundo, que para homens como eu, a indiferença, a frieza e os desdéns redobram o ardor da paixão.

— Sim ; já li isso num romance.

— A prima tem sido para comigo de uma crueldade rovoltante, mas pouco sincera. Eu resignava-me a sofrer, porque um resto de ingenuidade que me ficou dos quinze anos, iludia-me na interpretação de tais resistências. Tive a puerilidade de a supor uma mulher de excepção; pouco me faltou para a divinizar. Estava reservado para esta memorável noite de Natal o desengano.

— Ah! então parece-lhe...

— Que a prima representa admiràvelmente o seu papel. Pode gabar-se de ter iludido um homem habituado às cenas da comédia social.

Madalena respondeu, com um tom de voz cheio de severidade e de nobreza: — Tenho-o estado a escutar, Sr. Henrique de Souselas, sem que eu própria bem saiba o que me retém aqui : se é compaixão que me inspira a profunda doença moral em que o vejo tomado, se a curiosidade de saber a que tendem todos esses arrazoados. Vejo-o inclinado a imaginar que por um facto, que a sua pouca delicada indiscrição preparou, eu ficarei de hoje em diante à mercê da sua generosidade.

Conhece-me muito pouco, Sr. Henrique ! Ainda quando esse facto não pudesse ter uma explicação natural, e que me não repugnará declarar quando quiser, saiba que tenho orgulho de mais para arrostar com tudo, até com a calúnia, de preferência a resignar-me ao menor predomínio que me seja odioso.

— Bravo ! — Saiba mais, Sr. Henrique de Souselas, que se eu não lhe fizesse a justiça de acreditar que desses seus actos e palavras não é absolutamente irresponsável talvez a má influência da ceia desta noite, bastariam eles para me inspirarem por si e pelo seu carácter o mais completo desprezo; e então seria, como nunca, manifesta a minha independência, porque eu nunca temi os seres que desprezo.

Henrique principiava a ser de novo subjugado pelo tom de severidade e de energia, com que a morgadinha lhe falava ; ainda assim um resto de cepticismo obrigou-o a replicar: — Santo Deus ! prima Madalena ; não dê um colorido tão pavoroso às minhas suposições. Despojá-la de uma crueza desumana, para a dotar de uma sensibilidade, verdadeiramente feminil, é uma justiça feita ao seu coração. E o facto que o acaso me revelou a nada mais me autoriza. O pequeno e natural despeito por me haver deixado iludir desvaneceu-se já, creia ; e agora só me resta invejar a sorte de quem tem a felicidade...

— Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem mais um instante o escutarei ; poupar-lhe-ei assim os remorsos que amanhã teria da sua infâmia...

E animada por uma resolução mais enérgica, Madalena caminhou soberanamente para a porta.

Henrique colocou-se-lhe outra vez diante.

— Um momento mais.

— Deixe-me passar, senhor.

— Não, sem que me oiça antes.

— É uma violência ? — É uma súplica.

Neste momento saiu da obscuridade da rua fronteira um vulto que avançou para eles.

— Sr.* D. Madalena, se for preciso reter o insolente, que se lhe atravessa no caminho, ponho um braço à sua disposição.

E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio colocar-se entre Henrique e Madalena.

Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu de cólera.

O olhar que fixou no recém-chegado traiu a veemência da impressão recebida. Depois sucedeu-se-lhe no espirito outra ordem de idéias.

Olhou para Madalena, em quem não era menor a surpresa causada pela inesperada presença de Augusto, olhou outra vez para este e soltou uma risada cheia de malignidade e de_ ironia, que a ambos fez estremecer.

— Aí está uma aparição tanto a tempo, prima Madalena, que aos mais incrédulos infundiria fé na intervenção da Providência. Que foi sem dúvida providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas horas mortas, um tão generoso e intrépido salvador. Não é verdade, prima? O que vale estar de bem com Deus.

Estas palavras mostraram a Augusto que a sua intervenção, ainda que generosa e devida a um espontâneo impulso da alma, não fora porventura das mais convenientes.

— Senhor! — exclamou ele, indignado, dando um passo para Henrique.

— Sossegue — tornou este, com dobrado sarcasmo. — O senhor é um perfeito herói de romance ; entusiasta, cavalheiresco, mas, em certas ocasiões, incômodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse o transtorno que veio causar a um belo diálogo que eu sustentava aqui com a Sr.* D. Madalena! Não vê como a deixou embaraçada? Perdeu com a sua vinda o fio da comédia, que desempenhava com perfeita ciência de actriz. As almas ingênuas e generosas, como a sua, Sr. Augusto, são às vezes de uma impertinencia! Vamos, Sr." D. Madalena; não descoroçoe. Assim esgotou todos os recursos da sua imaginação? Vamos, introduza mais este elemento de aparição de um herói no enredo, e organize a comédia com o superior talento que tem! Eu por mim aceito todos os papéis que me distribuir.

Augusto ia responder, quando Madalena o atalhou dizendo com voz firme : — Perdão ; vejo nesta noite em todos uma notável disposição para usurparem direitos que não possuem! O Sr. Henrique o de me interrogar; o Sr. Augusto, o de me defender. A um repetirei o que já há pouco lhe disse ; se algum dia tiver necessidade de explicar as minhas acções, fá-lo-ei diante de outros juízes, em quem reconheço o direito de o serem. Ao outro peço licença para lhe lembrar que, se o titulo de hóspede e de parente não fosse bastante para me assegurar da parte do Sr. Henrique de Souselas os respeitos que me são devidos, tinha ainda na minha família defensores legítimos e não seria por isso obrigada a recorrer à protecção de um estranho. Meus senhores...

E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha passou por entre eles e entrou para a quinta, sem que nenhum a procurasse reter.

— Se esta senhora aceitasse a sua protecção e eu teimasse naquilo que chamou a minha insolencia, qual seria, pouco mais ou menos, o seu procedimento? Poder-se-á saber? — perguntou Henrique, logo que a morgadinha desapareceu.

Augusto, em quem a fria altivez da resposta dela deixara o desespero no coração, respondeu acerbamente : — Procuraria ensiná-lo a ser cortês. Bem ve que não me esqueço facilmente do meu programa de mestre-escola.

— Vejo ; é a segunda tentativa de lição que lhe mereço. Permite- me que amanhã o procure para dar princípio a um curso de educação mais regular? Augusto respondeu, sorrindo : — É um cartel em forma ? Não sei se estarei ensaiado para essa comédia.

— Se o género trágico lhe agrada mais, dar-se-lhe-á esse sabor.

— Bem ouviu que se me negou o direito de tomar partido por esta causa. Qualquer cena dessas entre nós seria pouco delicada...

amanhã.

— Pois bem, contemporizemos ; e até lá é de esperar que algum motivo ocorra que a explique melhor... aos olhos dos outros.

— como queira ; a minha porta não se fecha a quem me procura.

E separaram-se depois de se cortejarem.

— Se me não engano — dizia consigo Henrique, em caminho do quarto — é um verdadeiro desafio o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me parecer que estou sendo bem ridículo, desafiando um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela férula. Tem graça! Veremos o que amanhã, à luz do dia, eu penso disto tudo. Eu já não fico por mim esta noite. Estou a querer convencer- me de que tenho andado estouvadamente e com não demasiado cavalheirismo. Que diabo ! É que esta mulher e este criancelho são irritantes. Ela com a sua altivez, ele com os seus brios. Mas, na verdade, será este o Endimíão desta esquiva Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingènuo e tímido .. A ociosidade da aldeia para alguma coisa há-de dar. Mas da maneira por que ela lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... O que é certo é que estou em luta com uma mulher superior... Pois lutemos, priminha, mas com armas leais.

Não me prevalecerei do segredo que o acaso me revelou, se segredo existe... Veremos como ela amanhã me trata...

Esta cena deixou em Augusto uma perturbação de espírito mais profunda.

As operações mentais, que o preocuparam toda a noite, eram daquelas a que repugna chamar pensar. É mais uma febre intelectual, um suceder de imagens sem ordem nem filiação, que não conduz a nenhum resultado, que não aconselha nenhum partido, que não esclarece, ofusca.

como se explica esta diferença entre os dois? Por um aparente paradoxo; porque Augusto tinha mais hábitos de refletir. Quando numa vida de episódios uniformes e aparentemente vulgares, o espírito exerce demasiado a análise, habitua-se a estudar factos que para outros passam por insignificantes, e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.

Costumado assim a ligar valor a tudo, quando sucede que no decurso da vida se lhe depara um facto de maior vulto, a confusão do primeiro momento é inevitável. Assim como a balança de precisão, apropriada para oscilar com pesos tenuissimos, não é a que pode servir para os grandes pesos, também a inteligência costumada a pesar subtis acidentes, de que se compõe o drama habitual da vida, não é a que de súbito pode avaliar algum mais complexo e importante.

A resolução nestes espíritos, depois de formada, é mais tenaz; mas, enquanto se não forma, vai neles um tumulto de idéias que se não podem analisar.

Não analisemos, pois, as de Augusto.

Madalena não sossegou enquanto não viu Henrique voltar ao quarto, pelo mesmo caminho por onde saíra.

— Que resultará disto? — pensava ela. — Que fará ele amanhã?....

E preciso não me acobardar, ou estou vencida... Mas que se passaria depois que os deixei?... Veremos amanhã.

No meio desta série de pensamentos, Madalena sorriu.

É que lhe ocorrera então este pensamento : — Dizem que nós, as mulheres, temos filtros subtis para nos tornar amadas. Pois será mais difícil fazer-se aborrecida? como o conseguirei? XVII N A O havia mentido a grande cintilação das estrelas na noite de Natal.

A manhã do dia seguinte correspondeu ao augùrio meteorológico, rompendo pura, desnevoada, com um céu azul sem manchas, e um sol de fundir os gelos dos montes e os gelos da velhice.

O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos, saltavam sebes e cancelos, desembocavam das azinhagas e quelhas na direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da Natividade.

Era dia santo entre os que mais o são ; e os dias santos na aldeia têm uma feição solene e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a vida nos apertados horizontes das cidades, fantasiando o campo por meia dúzia de pardais, que chilram ruidosamente nas copas das enfezadas árvores das nossas praças e jardins.

Desde que a moda estabeleceu a lei de não solenizar o domingo nem o dia santo, com um vestuário mais asseado, com um prato mais esquisito na lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar nesses dias, exactamente como em todos os da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feição típica e interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quiser apreciar tem de ir num sábado pernoitar ao campo, para amanhecer no domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal.

Dirá então se não parece que até o Sol tem outra luz e que as árvores e as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os dias de festa.

Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manhã sentindo Henrique de Souselas, encostado à varanda do quarto em que pernoitara, e enquanto esperava que o chamassem para o almoço.

De vez em quando a recordação das cenas nocturnas da véspera desviava-lhe para outra ordem de reflexões o pensamento ; acudiam- -lhe todos aqueles incidentes à memória, mas vagos e confusos, como se tivessem sido sonhados ; chegava quase a duvidar da realidade deles.

Agora estava experimentando certa curiosidade e também receio de saber como seria recebido pela morgadinha, e que posição deveria tomar na presença dela.

Formava a este respeito várias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.

Destas cogitações veio por fim arrancá-lo o toque da campainha anunciando o almoço.

— Vamos — disse Henrique — preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos a vista para num relance julgar do estado das coisas, e por ele regular o meu plano de táctica.

E depois de uma rápida consulta ao toucador, desceu para a sala do almoço.

Já ali encontrou reunida tôda a família do Mosteiro, e a morgadinha presidindo à mesa e preparando o chá.

Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que ele tinha passado a noite.

Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente ; e, falando, desviava o olhar para Madalena, que a encontrou do modo mais natural, sem timidez nem audácia.

Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de cumprimentar Madalena.

— Bons dias, prima Madalena — disse Henrique, estendendo a e fixando-a com olhar investigador.

Madalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada de afectado nem de constrangido: — Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos.

nossos hábitos matinais. Foi uma indiscrição mandar tocar a cama.

Esqueci-me de prevenir que respeitassem a índole cidadã.

— Eu é que não consentia : — disse o conselheiro — na aldeia na aldeia. Em Lisboa também as minhas alvoradas são mais — Tem razão, sr. conselheiro. Eu próprio não esperei que me asse o toque da sineta. Há muito que eu namorava a manhã da janela do meu quarto.

— Eu não pude dormir tôda a santa noite — disse D. Doroteia.

— Estranhei a cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!...

— Ó prima, não vá sem resposta — disse D. Vitória — que também eu não pus olho, e mais sou de casa. E por sinal que sempre hei-de querer saber quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade ; o primo Henrique não ouviu ? Era mesmo junto do seu quarto.

— Não, minha senhora; eu não senti rumor.

E, dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que justamente naquela ocasião lhe servia uma chávena de chá, e que de novo o fixou sem perturbação nem afectada indiferença.

Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava um pouco à sua vaidade este nenhum vestígio de ressentimento ou de receio que encontrava em Madalena.

No entretanto D. Vitória continuava a comentar com D. Doroteia o facto das passadas que ouvira de noite.

— Deixe-se disso, prima. É porque não sabe o que vai. São coisas destes criados. Não faz idéia ! É uma pouca-vergonha ! É preciso paciência de santa para os aturar.

— Ângelo — disse a morgadinha ao irmão — entretido como estás a conversar com as crianças, esqueces-te de servir a Criste, que também se esquece de se fazer lembrar. Que distracções por aqui vão ! Ângelo reparou para a prima, que em todo aquele tempo estiverà calada e caída em uma daquelas abstracções, a que ultimamente era sujeita.

— Eu não sei que tem hoje esta Criste — disse Angelo. — Julgo que lhe fez mal o frio da noite de ontem.

— É verdade, até está falta de cor ! Ora queira Deus que não seja coisa de cuidado. Dói-te alguma coisa, menina ? — perguntou D. Vitória, — Não, mama — respondeu Cristina.

— Ó meninas, vocês também são umas desacauteladas. Eu bem te dizia ontem, Criste, que levasses mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é não tem dúvida, e depois é que vem o queixarem-se.

Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais neste sentido. Estas reflexões fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era objecto delas.

Cristina estava efectivamente pálida e pensativa ; e desta cor e desta expressão recebia uns ares de poesia melancólica, que a tornavam mais graciosa.

Henrique notou pela primeira vez a beleza desta criança, em que mal fixara a atenção até ali, e pela primeira vez se demorou a observá-la com alguma insistência.

— Ê interessante esta pequenita — pensava ele consigo.

Cristina ia a levantar os olhos para responder a D. Doroteia, quando encontrou os de Henrique a fitá-la. Assomou-lhe então às faces um mal pronunciado rubor, a palavra resolveu-se num sorriso e os olhos baixaram-se de novo.

— Há-de ser adorável esta mulher — pensou desta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.

O conselheiro disse, sorrindo : — Ora, que estão a dizer ? A Criste até está com umas cores muito bonitas. Triste? Melancolías dos dezoito anos nunca me deram cuidados.

Provavelmente está agora nalgum episódio sentimental no romance da sua imaginação. Nao sondemos aqueles mistérios, mana. Já não é para nós compreendê-los, prima Doroteia.

Todos riram do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Cristina.

A morgadinha, a quem nao passara despercebida a impressão que a prima desta vez parecia ter causado a Henrique, quis aproveitar o ensejo que havia tanto procurava, e para isso propôs que se desse uma volta pela aldeia antes da missa do dia. Esperava ela que as atenções de Henrique, durante o passeio, seriam para Cristina se não decorresse o tempo preciso para que se dissipasse no espírito do volúvel rapaz a impressão que o dominava.

A manhã convidava à excursão campestre. A proposta da morgadinha foi acolhida com aplauso. O conselheiro prometeu acompanhá- los até à casa do ervanário, a quem tinha de visitar aquela manhã.

Levantaram-se todos da mesa, e à excepção de D. Vitória e D. Doroteia, todos saíram.

A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atrás para dar tempo a Henrique de oferecer o braço a Cristina, o que efectivamente aconteceu.

— Bem — disse Madalena consigo ao vê-los — agora que os anjos bons de um e de outro se convençam da obra meritoria que fazem entendendo-se.

E, aproximándose do pai, Madalena apoiou-se-lhe no braço.

Ângelo ia com as crianças adiante.

Aproximemo-nos nós de Henrique e de Cristina, para ver se os anjos bons deles ambos acederam ao convite de Madalena.

— Não há prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos, numa manhã como a de hoje, e em companhia tão amável — dizia Henrique, procurando aquilatar o espírito da sua partner, num certame de galantaria, fora do qual não concebia que se pudesse temperar uma paixão.

Pobre rapariga! Que eloqüentes e apaixonadas respostas lhe estava porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava- -lhe os lábios, não lhe deixando formulá-las; apenas pôde responder: — Está muito agradável a manhã, está ; nem parece de Inverno ! — Pelo que vejo, não gosta do Inverno ? É natural em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as aves, suas irmãs. Eu prefiro o Inverno, porque prepara a vida íntima, as cenas ao canto do fogão, as leituras em comum, e traz-me à idéia as imagens de um viver a que a fantasia de todos sorri ; de todos os que têm um resto de coração ; refiro-me as imagens de uma família.

Não há quem sustente mais tremendas lutas do que os tímidos.

A alma revolta-se neles, com toda a violência dos seus instintos, contra não sei que mistério de temperamento, que lhes reprime as expansões.

Na aparência é fraqueza e serenidade, mas no íntimo há esforços realizados, que os fortes nem concebem sequer.

Cristina encobria no seu enleio uma destas lutas. Os lábios só puderam responder: — Na cidade o Inverno é mais fácil de passar, julgo eu ; porém na aldeia...

— Na aldeia e em tôda a parte se pode gozar a felicidade que eu imagino. Não é fora das portas de casa que devemos procurar os elementos para instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima há-de estar admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e sete anos sem família. Não é verdade? Cristina só pôde sorrir: — Mas que quer? Quem muito idealiza arrisca-se a morrer apaixonado do ideal e abraçado à pior das realidades. É a conseqüência legítima e triste do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado na vida mulheres formosas, amáveis, interessantes ; porém nenhuma que satisfizesse às necessidades do meu coração, de quem me afirmasse a consciência poder esperar a realização do meu sonho. Perdoe-me falar-lhe nisto, priminha ; é uma ousadia que tomei, porque um instinto me disse que possui no coração bastante bondade para ma perdoar.

— Está a gracejar ? — disse Cristina, em quem redobrava a turbação, e que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava ver interrompida a sua felicidade : contradições próprias dos tímidos.

— A prima é muito moça — continuou Henrique, que não desesperava aínda de animar esta Galateia — e talvez por isso lhe causará estranheza este meu modo de falar. Um dia virá, porém, em que o compreenderá melhor. Se então encontrar um desconfortado como eu, peço-lhe que tenha misericórdia dele e o salve do desalento, em atenção a quem a conheceu numa época, em que só podia ver em si, priminha, a aurora de uma esperança que já não tinha de luzir para ele.

— Mas... salvá-lo!... como salvá-lo?!...

— como as mulheres salvam ; amando.

— Bem digo eu que está a gracejar — balbuciou Cristina, com voz trémula.

— Tem o defeito da inocência — disse Henrique para si. — Não se lhe tira uma resposta de jeito.

Nisto chegaram defronte da porta, por onde Madalena tinha saído da quinta na noite passada.

— Agora deixo-os por aqui — disse o conselheiro — irei encontrá- los à igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao próprio covil.

— Meu pai, lembre-se do que lhe recomendei — disse Madalena.

— Sossega, filha ; serei de cera. Até logo.

— Até logo.

E o conselheiro tomou a direcção da casa do ervanário.

— Era tempo ! — disse Henrique consigo. — A minha eloqüência arrefecia na proximidade deste gelo.

A morgadinha havia quase adivinhado tudo ; estudando as fisionomias de Cristina e de Henrique, conheceu que se não haviam entendido.

— Ainda não ! — murmurou ela. — Pobre Criste ! como se deve estar odiando a si mesma! como há-de esta criança vencer este obstinado? Mas não perco ainda as esperanças.

Henrique, na presença destes sítios, recordou-se da cena da véspera e tentou outra vez experimentar Madalena.

— Esta porta é da quinta do Mosteiro, não é, prima? — É — respondeu Madalena, imperturbável ; e voltando-se para Angelo : — O que te faz lembrar esta porta, Ângelo? — perguntou ela.

— Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós ambas, já de noite, e sem a tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caça das borboletas.

— Fica perto a casa dele ? — perguntou Henrique.

— É ali, logo ao dobrar daquela esquina — respondeu Angelo.

Henrique pensava: — Seria para provocar uma explicação que ela fez a pergunta ? Esta mulher é admirável! Não lhe sei resistir.

E já lhe não restavam vestígios da impressão causada por Cristina.

— Este ervanário — continuou ele em voz alta — deve, pelos seus hábitos excêntricos e até pelo solitário do sítio em que vive, ter aqui na terra certa famazinha de feiticeiro.

— E tem — afirmou Madalena — mas de feiticeiro bem intencionado.

— Devem correr muitas fábulas a respeito dele, do seu viver.

— É certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o bem que ele faz de dia.

— Ah ! Então temem-se de passar aqui de noite !... Pobre homem !...

O que lhe valerá é algum espírito forte que ainda por aí haja na aldeia.

Que diz, prima Madalena? haverá? Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse : — À excepção de Augusto, que ali vem quase todas as noites, ninguém mais o visita.

— Ah!... O Sr. Augusto vem ali quase todas as noites?! Madalena lutava para reprimir a impaciência.

— Lá me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto não chegava o seu animo, não, prima? — Tanto chega, que já muita vez ali tenho ido só, e a altas horas — respondeu Madalena com a maior firmeza.

— Sim ? ! E não tem medo ? — De quê? De almas do outro mundo? não tenho crença para tanto. De malfeitores? não os há aqui. Nesta terra todos me respeitam, nem com uma suspeita me ofendem — disse a morgadinha, acentuando com expressão as últimas palavras.

Henrique acudiu imediatamente : — Longe de mim duvidá-lo.

E calaram-se por muito tempo.

Pela sua parte prosseguia o conselheiro no caminho para casa do ervanário. Cruzou-se com vários homens, mulheres e crianças de aspecto doentio e sofredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos seus males ; eram mancos, ictéricos, escrofulosos, crianças de aspecto raquítico e enfezado, os mais melancólicos exemplares do infortúnio humano.

— São os peregrinos que vêm de Meça — disse consigo o conselheiro.

- Pelo que vejo, a clientela do meu velho amigo ervanário mantém- se fiel como dantes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor não trata com muito respeito o código.

Entrou enfim a porta do quintal.

Poucos passos andados encontrou-se com o Zé-Pereira, que vinha virando e revirando nas mãos um papel e monologando, segundo o costume : — Oral ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta mexerufada. Isto até era um pecado. Nessa não caio eu! O conselheiro interrogou-o sobre as causas daquele aranzer.

O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe dera o ervanário no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho, causa dos seus males. A receita era extraída da Polianteia, e tinha por ingredientes uma cabeça e sangue de carneiro, cabelos de homem e fígado de enguia ; mas o doente ia pouco disposto a experimentar- lhe a eficácia.

Depois de se separar do Zé-Pereira, o conselheiro seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem a quem era familiar a topografia do quintal. Cedo chegou à vista do ervanário, que dera audiência sub tegmine fagi.

Estava sentado à borda de um tanque, a que uma dessas árvores dava sombra.

O conselheiro saiu enfim de trás dos limoeiros e veio ter com ele.

Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira posição e ficou silencioso.

— Bons dias, Vicente — disse o conselheiro com familiaridade e parando defronte dele.

— Bons dias, Manuel — respondeu o ervanário, deixando-se ficar sentado.

— Saía agora daqui um homem, que julgo será rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que se não cura.

— Os vícios são enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo, são.

— Já que tu não apareces no Mosteiro, como dantes, para solenizar connosco as festas do Natal, vim eu ver-te.

— Obrigado.

— A tua misantropia vai-se azedando, Vicente — continuou o conselheiro, sentando-se à beira do tanque. — Cada vez te estás a sequestrar mais dos homens, cada vez mais os aborreces.

— Eu não aborreço os homens, enganas-te. Não os aborrece quem passa a vida a procurar os meios de aliviar os padecimentos dos seus semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro já no mundo pouca gente com quem me entenda. As idéias do meu tempo passaram. Por isso deixo-me ficar em casa a pensar nele.

— És um homem singular ; um verdadeiro filósofo. Ora diz-me : e em que cogitas tu, quando assim passas uma manhã inteira, sentado nesse banco, com os joelhos ao sol, os braços cruzados, e os olhos no chão? — No passado. Pois não to disse já? O domingo reservo-o eu para me recordar. Aí está que há pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques na igreja, lembrei-me de que era dia de Natal, e o meu pensamento voltou quarenta anos atrás a um dia igual ao de hoje. Lembras-te dele," Manuel? — Do dia de Natal de há quarenta anos ? Não.

— Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois anos que, mais cedo do que estas horas, vieste ter comigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou menos a idade que hoje tem teu filho Ângelo. Meu pai saíra ; julgámos nós ambos boa a ocasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo trazíamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, à beira do poço, uma pequena faia que ali não podia durar muito tempo ; meu pai todos os dias a ameaçava com a enxada e a custo a tínhamos defendido. Resolvemos transplantá-la. Deitámos mãos à obra essa manhã, e, no fim de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemo-la para onde a deixassem em paz os hortelões, e para junto da água que ela já tinha procurado. Conheces a árvore hoje? — Não — disse o conselheiro, olhando em roda, como à procura de algum pequeno arbusto.

— Olha que há quarenta anos; a planta é hoje árvore. É esta a que me encosto.

O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da árvore, como se lhe parecesse impossível ter sido removida para ali por suas mãos.

— É singular como os anos correm, e as árvores crescem depressa — disse ele, distraídamente.

— Depois da nossa tarefa, sentámo-nos — prosseguiu o ervanário.

— Tu ficaste, exactamente como estás agora, à beira deste tanque.

Então, lembra-me bem; olhando para os ramos tenros deste arbusto, que ainda não sabíamos se viveria, tu disseste : « Fizemos uma obra que durará mais do que nós ». E eu respondi : « Quem sabe ? O machado vem quando menos se espera ».

— como te lembras bem dessas coisas ! — disse o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque não agourava bem do exordio que abrira a entrevista.

— Ai, eu tenho boa memória! Houve um momento de silêncio, que Vicente interrompeu sùbitamente, dizendo : — Mas afinal o que te trouxe hoje aqui? O conselheiro respondeu com resolução: — Ver-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.

— Sim? E comigo é que vens tratar os objectos graves? — Porque não ? sempre foste homem de bom conselho.

— Nem sempre, Manuel, ou nem sempre pensaste assim.

— Não poderás dizer que deixasse alguma vez de te respeitar.

Os nossos gênios diferem, os nossos diversos hábitos da vida ensinaram- nos a pensar diversamente a respeito de muitas coisas. Daí procedem divergências naturais, que contudo nos não obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu.

— Bem, então dizias tu que vinhas?...

— Trata-se de um negócio de muita importância, Vicente.

— Diz.

— Responde-me primeiro : tens ainda ânimo para sacrifícios ? — Pouco tenho que sacrificar.

— Tens, e é um sacrifício doloroso.

— Acaba.

— Trata-se de te desapossar desta casa e deste quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto.

O ervanário, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpresa estas palavras, e respondeu, com certa ironia: — E para que me vens consultar? Posso eu opor-me a isso? Avisas-me para eu me arredar a tempo da sombra destas árvores, mais velhas do que eu, a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? Ês generoso, Manuel, em teres ainda em conta a vida de um homem inútil.

— Aí estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu...

— Não mintas, Manuel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte neste projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e diz tudo.

Entre mortificares o coração de um velho e pobre amigo e ofenderes os interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro partido ; e, como os diferentes hábitos de vida te ensinaram em muitas coisas, como dizes, a pensar diferente de mim, não deste a isso o nome de ingratidão.

— Ouve.

— Sê franco, que eu te ouvirei.

— Pois bem, serei franco. Sim, confesso-to; era indispensável que esta estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava nisso empenhada a minha palavra e a minha honra. Há muito que os meus adversários me fazem guerra por causa dela. Trabalhei e consegui, apesar desta situação política me ser contrária. Três traçados se ofereciam. Um sacrificava uma grande parte dos bens de meus filhos, de Ângelo que não é muito rico, que está no princípio da existência, e que só Deus sabe se no decurso dela não teria ocasião de maldizer a improvidencia de quem devera olhar por os seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo, convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querías que o fizesse? ou não me desculpas por o não ter feito? — Fizeste bem — respondeu o ervanário.

— O outro traçado cortava os bens do brasileiro Seabra. Conheces este homem? Um elemento que, nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra ; mas também uma cabeça que, entregue a si, não faz coisa de jeito. O homem opunha-se formalmente a esse traçado ; se o não atendesse, declarava- se, por despeito, no campo contrário ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para lutar), imagina a calamidade que seria para este círculo o confiar àquelas mãos os seus destinos ; vencido, era perder a esperança de tirar dos bens fornecidos cofres, que o homem possui, alguma coisa mais útil do que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos altares. Eu ando a catequizar o homem, para ver se consigo dele uma casa para escolas, melhor do que esse albergue que aí temos, e um estabelecimento sericícola; se o desatendesse, lá iam as esperanças destes melhoramentos tão úteis, e que o mais que nos poderão custar é um diploma de visconde ou uma comenda. Sei que te não agradam estes meios, porém olha que em política são dos mais inocentes que podem empregar-se. Já vês pois que o segundo traçado tinha desvantagens para o círculo, por cujo interesse me empenho deveras ; podes crê-lo. Resta pois o terceiro traçado que, lealmente o confesso, não era o melhor, nem científica nem economicamente considerado ; eu sabia de mais o que valia para o teu coração o sacrifício que se te vinha exigir ; eu mesmo possuo memórias ligadas a estas árvores, e não há homem que, aos cinqüenta anos, veja sem repugnância desaparecerem os vestígios dos seus tempos de infância e de juventude ; mas sabia também que tu eras uma alma generosa e heróica, e que não duvidarias comprar, a custa das tuas dores e saudades, um melhoramento para esta terra que tanto amas. Esta estrada, prometida há tanto, e concedida ainda agora de má vontade, corre risco de se não fazer, se, quanto antes, não principiarem os trabalhos; a menor oposição dos proprietários, o menor embargo dilatòrio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido. Por isso também me animei, porque contava contigo, Vicente. Enganei-me ? O ervanário estava cada vez mais pensativo.

— Pensaste bem. A velhice é assim ; e eu queria dar mais importância a dois anos de vida que me restam, do que à vida nova que vai haver para esta terra. Fizeste bem.

— Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, dissipa as apreensões com que estás; em toda a parte terás árvores...

O ervanário interrompeu-o: — Se não entendes o amor que tenho a estas, não faças por consolar- me, Manuel, porque me afliges mais.

— Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das nossas propriedades, tens sempre um lugar vago à tua espera, tanto à mesa, como ao canto do fogão, e amigos que te receberão com prazer.

— Não receio ficar sem abrigo, Manuel. Em cada choupana de pobre teria tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem que semeei.

— Eu farei com que o contrato da expropriação seja o mais favorável possível. Vejamos, em quanto avalias...

— Não falemos nisso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguém mo pagaria ; a não atender a isso, tudo será pagá-lo bem.

— Mas...

— Não falemos nisso, homem. Tenho medo de que estas árvores me oiçam propor o preço por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, então...

— Tudo. Diz em que te posso servir.

— Peço-te que decidas a pretensão daquele pobre rapaz, de Augusto ; que te lembres um dia de que aqui na aldeia há um homem, que tem vinte anos, um coração e uma cabeça como tu sabes, e que de ti e dos teus, da gente que dá e vende graças, honras e empregos, só quer um favor... mais uma justiça; lembra-te disso.

— Falas do despacho efectivo para professor? É uma coisa facílima; mais que ele queira... E antes ele quisesse mais; esse rapaz perde por modesto. Acredita, às vezes é mais fácil servir os ambiciosos.

Nem eu sei o que tem empatado esse negócio. É certo que há um competidor, por quem alguém trabalha ; mas não importa ; conta com isso, como negócio concluído.

— Enquanto não vir...

— Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que pedes ? Vè lá.

— E que me deixes agora só.

— E não me ficas querendo mal, Vicente ? — Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou pelo menos que supões que a tens. Basta-me isso para te perdoar.

— Ver-te-ei no Mosteiro antes de partir ? Depois do dia de Reis volto a Lisboa, e só tornarei para a campanha eleitoral.

— Não prometo.

— Adeus.

O conselheiro estendeu a mão ao ervanário, que não retirou a sua, e partiu.

— Está feito ! — ia pensando o conselheiro à saída — não foi tão difícil como julgava. Está razoável o homem. Quem o viu e quem o vê ! O que faz a idade ! Bem ! Agora é apressar os trabalhos para antes das eleições, a ver se acalmam algum fermentozito de oposição, que por aí possa haver, que pequeno será.

Nestas cogitações chegou à igreja. Madalena esperava-o no adro, — Então? — perguntou ela, com ansiedade.

— Tudo está remediado ; entendemo-nos perfeitamente — respondeu o conselheiro com manifesta satisfação.

— Deveras ! Eu logo vi que o pai havia de ceder ! — exclamou Madalena, com alegria.

— como ceder? — tornou o pai.—Ele é que foi mais condescendente do que eu esperava. Não opôs a menor resistência, nem se queixou muito amargamente.

— Pois consentiu ? ! — Sem grande custo, ao que parecia.

— Oh meu Deus ! meu Deus ! agora é que eu temo deveras. Pobre tio Vicente ! assusta-me isso que diz, meu pai ! — Ora vamos ; a tua imaginação é que te ilude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o brasileiro, que julgo que têm que me dizer. Vai para a igreja, que eu vou já ter convosco.

E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, era que estavam aquelas duas notabilidades.

— Dou-lhes uma boa nova, meus senhores — disse o conselheiro, depois de cumprimentá-los — dentro em pouco temos os alviões a trabalhar cá na terra. Estive agora com o Vicente ; receei resistências a parte do homem, que nos obrigassem a expropriações judiciais, sempre demoradas. Mas não, achei-o nas melhores disposições ; e sim, dentro em poucos dias...

— Mas, para diante da casa dele, talvez os outros proprietários o sejam tão dóceis — lembrou o brasileiro.

— Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores m pouco se contentam.

— Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco — disse o brasileiro, sorrindo velhacamente — mas os modernos...

— Pois mudaram de senhorio ? — Por contrato de venda assinado e legalizado ontem mesmo.

— E quem os comprou ? — Este seu criado.

O conselheiro teve vontade de o esganar ; conteve-se, porém, dizendo : — Tanto melhor ; quero-me antes com proprietários ilustrados independentes, que compreendam a importância dos melhoramentos públicos, do que...

— Isso são histórias, meu caro amigo; em primeiro lugar estão os melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.

— Decerto que não há-de querer pôr estorvos a uma empresa como esta.

— Estorvos, nao, mas enfim... Amigos, amigos, negócios à parte.

O conselheiro sorriu, enquanto que interiormente mandava ao Diabo o espírito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscípulo.

— Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro ? — requereu do ado o Sr. Joãozinho das Perdizes.

— Mil que pretenda — acudiu o conselheiro ; e tomando o braço o morgado afastou-se do grupo.

— Eu tenho a pedir-lhe um favor — principiou o morgado. — Eu, como sabe, interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, que quer vir ensinar para aqui. Este negócio está empatado, como sabe ; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.

— Pois sim, mas... — fez-lhe notar o conselheiro — não sabe que é Augusto o outro concorrente? — Então que tem isso ? — Não lhe parece que seria uma injustiça ? Um rapaz de merecimento, como ele é, aqui da terra, que já exerce o emprego há três anos e com tanta inteligência? e havíamos de...

— É verdade — atalhou o outro — pois isso é verdade, mas...

Enfim, ele que passe para outra parte.

— Mas se o rapaz quer isto ? — Quer ! quer !... também o outro quer. Ora essa é fresca. E vamos, sr, conselheiro, a gente também não há-de estar só a fazer favores sem os receber quando os pede. com este já sao três. Pedi-lhe para o meu tio abade ser cónego ; foi tanto cónego como eu. Pedi umas caudelarias lá para a freguesia... estou à espera delas.,. Ora isto não se faz. O senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições com a gente da minha freguesia, que vai para onde eu a levo. Pois agora não sei o que será. A não se decidir este negócio depressa...

— Ora não será isso motivo para tanto.

— com certeza que é — insistiu o Sr. Joãozinho. — Então digo- -lhe mais : a mim já me falaram. Há aí alguém que não desgostaria dos votos de que eu disponho, e votar pelos que já estão no poleiro não sei se lhe diga que não é pior.

O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo : — Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relação ao que me diz, eu verei.

— Mau! Não é «eu verei». Então falo-lhe claro. Se daqui até às eleições não estiver feito o despacho, não conte comigo.

— Mas quem lhe diz que não há-de estar ? — Pois lá isso...

— Sossegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.

— Bem.

O sino tocava a chamar para a festa.

Terminou o diálogo.

— O pior — ia pensando o conselheiro — o pior é que prometi ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. Não tem dúvida; é tão magra a posta, que não vale a pena disputá-la. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. É preciso ter ambição por ele. Se ele quisesse ir para Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se maquina no campo contrário ! Hei-de sondar o Tapadas a ver o que sabe.

Estas conferências com o brasileiro e com o morgado tinham mortificado o pai de Madalena a ponto de não conter um movimento de impaciência, assim que viu que o Pertunhas se aproximava dele, e, à força de cortesias e cumprimentos, lhe pedia um momento de atenção, Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o latinista com tanto ardor namorava.

O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente: — Ora adeus ! O senhor é uma sanguessuga que se não farta de chupar. Contente-se com o que tem ; vá conjugando o laudo, laudas, que outros, com mais merecimentos, nem isso conseguem ; e deixe-me, O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestação, e curvou-se para deixar passar o conselheiro.

Mas lá consigo dizia: — Sim? Ele é isso.?! Pois veremos se a sanguessuga te não pica.

E entrou também para a igreja, com não muito cristãs disposições de espírito.

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