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A Morgadinha dos Canaviais: Crônicas da Aldeia

Júlio Dinis

AO cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do Sul e sem contrafeitos sorrisos de Primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.

Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.

O sítio, naquele ponto, tinha o aspecto solitário, melancólico, e, nessa tarde, quase sinistro. Dali a qualquer povoação importante, e com nome em carta corogràfica, estendiam-se milhas de pouco transitáveis caminhos. Vestígios de existência humana raro se encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a absoluta solidão.

Nao se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que dissemos, Um, o mais moço e pela aparência o de mais grada posição social, era transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas orelhas, músculos de mármore e articulações fiéis ; o outro seguia a pé, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimária, cujos brios, além disso, excitava por estímulos menos brandos do que os da simples e nobre emulação.

Contra o que seria plausível esperar deste desigual processo de transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e fadigas da jornada não se pode dizer que fosse o cavaleiro.

A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de quando em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques, e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbático companheiro.

Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão.

O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias.

As pequenas impertinencias, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue dourar até e poetizar a seu modo; esses microscópicos martírios, que de longe não avultam, actuam-nos, na ocasião, a ponto de nos inabilitar para o gozo do que é realmente belo. A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclita cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos incrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.

Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisséias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos ; mas ai, quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo.

Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo ; analisa-se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos.

O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.

Mas Henrique de Souselas — que era este o nome do cavaleiro — fora educado e passado da infância à plena juventude, em Lisboa, levan- A MORGADINHA DOS CANAVIAIS tando-se por avançada manhã, frequentando o teatro, o Grêmio, as câmaras, parolando no Chiado ou no Rossio, e indo alguns dias no ano a Sintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da capital.

Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, fora esta ornada, em que o encontrámos, a primeira levada a efeito, e logo sob ão maus ausoícios, que era para sufocar-lhe à nascença os instintos de turista, se porventura quisessem despertar nele.

Havia dois dias que cavalgava aquele rocinante, único veículo acomodado aos caminhos por que passara. E então que dois dias ! Daqueles, durante os quais o céu, uniformemente pardo, parece desfazer- se em água, e a chuva cai sem interrupção e com uma teimosia e constância impacientadoras ; daqueles em que a terra saciada rejeita já a água que recebe, a qual escorre nos declives, trasborda dos algares, e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezírias ; em que as lufadas do sui vergam e torcem os ramos, melancólicamente despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam aos pinheirais a voz dos mares ; em que os campos se mostram desertos, a noite se antecipa, e tão densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuasão de que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul.

Vejam se, nestas circunstâncias, o pobre rapaz podia deixar de ir cabisbaixo, triste e dando ao Diabo a viagem que cometera.

E para quê e porquê a cometera ele assim? Em poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interrogação, que é de supor nos dirigissem os leitores, se pudessem fazê-lo.

Este Henrique de Souselas atingira a idade dos vinte e sete anos, vivendo, como dissemos, aquela enlanguescedora vida da capital, e dividindo as atenções do espírito pela política, pela literatura e pelos destinos do teatro de São Carlos, do qual estava habilitado a fazer circunstanciada crónica, que abrangesse os últimos dez anos.

Não concebia vida fora daquilo.

O mundo para ele era Lisboa. Não sentia desejos, nem imaginava possibilidade de visitar a Europa, quanto mais a província ; o que seria maior façanha.

Não que lhe faltassem recursos para realizar qualquer projecto desta natureza.

Henrique herdara dos pais rendimentos bastantes, dos quais vivia folgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia.

Mas a indolência lisbonense manietava-o ali. A poucos ia tão direita a apostrofe de Garrett aos seus «queridos alfacinhas», a qual se pode 1er no livro sétimo das «Viagens».

De certo tempo em diante começou, porém, a incomodá-lo uma espécie de vácuo interior, um mal-estar, doença infalível nos celibatários sem família, quando chegam à idade a que chegou Henrique, s passam a vida como ele.

Tudo lhe causava fastio. Bocejava em São Carlos, bocejava nas câmaras, bocejava no Grêmio, bocejava no Suíço, no Chiado e nos círculos dos seus amigos, os quais principiaram também a achá-lo insuportável de insipidez; porque poucas coisas há que mais perturbem o espírito, do que o espectáculo de um homem que boceja ou dorme, onde e quando os outros forcejam por divertir-se.

O demônio da hipocondría, esse demônio negro e lùgubre, implacável verdugo dos ociosos e egoístas, o qual havia muito o espiava, apoderou-se dele em corpo e alma.

Aí temos, desde esse instante, Henrique muito preocupado com a sua pessoa, imaginando-se vítima de mil e uma moléstias, as mais disparatadas e incompatíveis, suspeitando-se conjuntamente predestinado para a apoplexia e para a tísica, para o cancro e para a alienação, para a cegueira e para os aneurismas, tremendo à leitura do obituàrio da semana, folheando livros de medicina, construindo teorias fisiológicas, consultando todos os médicos da capital, experimentando todo o arsenal farmacêutico e todos os anúncios, em parangona, da quarta página dos periódicos, e elevando as crenças do seu espírito amedrontado até às misteriosas e nevoentas alturas do credo homeopático ! Ao mesmo tempo manifestou-se nele uma progressiva degeneração de gosto ; não podia 1er uma página dos livros que lhe eram predilectos ; desfazia-se sem desgosto de quadros, móveis, estátuas e objectos curiosos que coleccionara com paixão ; detestava a música, o teatro, numa palavra, tornara-se um dos maiores flagelos que podem pesar sobre a humanidade e que muito em especial causam o suplício dos médicos que os aturam.

Foram estes os que, em parte de boa fé, em parte com o desculpável intuito de sacudirem de si tal pesadelo, lhe deram um dia de conselho que fosse viajar.

Henrique de Souselas julgou ouvir uma heresia nesta palavra : viajar.

Viajar? E os seus aneurismas? E as suas iminências apoplécticas? E as suas disposições para tantas outras enfermidades ? Pois um homem pode lá viajar com esta bagagem patológica? E se lhe desse alguma coisa pelo caminho? Recusou com mau humor a receita, e ficou na capital.

Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as consultas, e os médicos, como se para isso apostados, a insistirem em que saísse de Lisboa.

— O senhor não tem nada — diziam alguns.

Henrique perdia a cabeça, ao ouvir isto.

Prolongou-se este estado de coisas, até que um dia o hipocondríaco rapaz persuadiu-se muito sèriamente de que estava chegada a sua hora extrema..

Um médico velho e grave, que por essa ocasião o escutou, em vez de se rir dele, disse-lhe, muito sisudo: — Homem ! O senhor está realmente mal. Esse estado de imaginação não pode prolongar-se mais tempo, sem romper por aí em alguma doença que o sacrifique. Se quiser salvar-se, saia-me daqui, enquanto é tempo. Quebre por todos os hábitos, e escolha entre as fortes impressões de uma grande capital, como Paris ou Londres, ou as mornas sensações de um completo viver de aldeia. Os revulsivos e os emolientes curam por meios opostos às vezes as mesmas moléstias.

Ora sucedeu que nesse mesmo dia recebesse Henrique um presente de fruta de uma sua tia, santa criatura que ele, desde criança, não ornara a ver.

Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho onde na idade de cinco anos Henrique passara alguns meses na companhia de sua mãe.

Aquela presente frugal recordara-lhe esse tempo, já meio apagado na memória, e conseguira fazer-lhe saudades. Daí uns vagos desejos de voltar a ver aqueles sítios.

Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique nomeou-lhe a aldeia, em que esta sua parents vivia.

O velho facultativo aplaudiu a idéia e instou para que fosse abraçada.

O sobrinho escreveu então à tia, e, passados dias, punha-se a caminho.

Mil vezes se arrependeu, depois da resolução tomada ; mil vezes mandou ao Diabo o conselho do médico e fantasiou horríveis exacerbases em todos os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita ainda segundo os velhos processos, com malas, coldres e pistolas, cotas de montar e almocreve, ampliava-lhos a proporções estupendas, o prisma da hipocondría.

No momento em que nos associamos ao cavaleiro, caíra ele num desalento profundo, num quase convencimento de próxima aniquilação, do qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas eloqüentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguiu arrancar.

Havia mais de uma hora que estavam lutando com as dificuldades da ascensão do íngreme e escabroso caminho, que torneava o monte como as voltas de uma hélice.

Era este monte uma como irregular pirâmide, levantada no meio da amplíssima bacia, onde tinha assento a aldeia que Henrique demandava ; por isso o estafado rapaz não podia atinar a razão de conveniência pela qual, tendo de procurar o vale, assim porfiavam em descrever as fastidiosas curvas da quase interminável espiral, que os aproximava do vértice.

Não se concebe uma estrada menos lógica do que aquela.

No nosso país são porém freqüentes estas faltas de lógica nas estradas.

O almocreve havia-se separado por momentos de Henrique com o fim de encurtar distâncias, seguindo por um atalho só franqueável a gente de pé.

Henrique nem desviara os olhos ptra o fundo vale, que se abria à esquerda, velado pela densa névoa daquela atmosfera saturada de humidade, nem prestava atenção à agreste e selvática paisagem, do lado direito, toda encrespada de pinheirais nascentes e de espinhosas tojeiras.

Os olhos procuravam, em ansiosa interrogação, o mais alto da flexuosa ladeira que subia, no sítio em que ela, formando um cotovelo, furtava à vista o seguimento ulterior.

Nestas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante, cansado e aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma prometedora esperança.

— Dali verei talvez o termo do caminho — pensava ele.

Mas quantas vezes, ao aproximar-se, esta esperança lhe foge ! Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar à almejada inflexão e quando esperava principiar enfim a descer para o vale e aproximar- se da aldeia, viu que o macho, prático no caminho, e à disposição de cujo instinto ele colocara a razão, dobrava ainda para a direita e continuava a contornar e a subir o monte. A espiral não terminara ainda. Henrique olhou em torno de si, profundou a vista nas sombras do vale, nada pôde descobrir, que lhe prometesse a aldeia procurada.

Muita árvore, povoação nenhuma. Teve um paroxismo de impaciência.

— Isto não é estrada ! — exclamou ele, exasperado. — São os nove círculos do Inferno de Dante virados para fora.

E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva a aumentar, a calar através do grosso gabão de jornada que Henrique vestia ! O desgraçado vergava sob o peso da sua consternação.

Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando com fleuma desesperadora.

— com um milhão de demônios ! — bradou-lhe Henrique, não podendo conter-se. — Essa maldita terra foge diante de nós, homem ! — Estamos quase lá, meu patrão. É ali logo adiante — respondeu o almocreve, sem se alterar. Vê aquela capelinha branca em cima daquele monte? pois fica já para além da povoação. E a ermida da Senhora da Saúde. É um instante.

— Desde as duas horas da tarde que me dizes que é um instante, e eu estou acreditando que cada vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica ali em baixo, para que diabo subimos nós? Ãs voltas que temos dado, estou persuadido de que vamos tão adiantados como quando principiamos a subir.

— Pois olha que dúvida ! Se se fosse a direito lá por baixo, era mais perto, mas...

— Mas foi então pelo prazer de trepar, que me trouxests por aqui? — Não é isso, patrão ; mas bem vê V. S." que o caminho lá por baixo é todo cortado por quintas e campos, e é preciso dar tais voltas, que afinal fica mais longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá idéia de como estão os riachos por lá! Só o esteiro do almargeal e para uma pessoa se afogar. Mas tenha o patrão paciência, que pouco ;alta agora. Vê V. S.' aquele tronco de sobreiro que parece, visto daqui, um frade de "capuz? — É ali? — Não, senhor — disse o homem rindo ; — mas vêem-se daquele sítio as primeiras casas da aldeia.

— As primeiras ! — murmurou Henrique em tom lastimoso ; e penderam- lhe os braços com mais desalento e aumentou-se-lhe a flexão da coluna vertebral.

O almocreve prosseguiu, para o distrair : — Tenho passado por estes sítios muita vez com neve de se cortar à faca e de noite. E olhe que nunca tive medo. Qual história ! Medo ! Isso sim ! E vamos lá ! o sítio não é dos mais seguros. Vê o senhor essa cruz preta, aí à sua mão direita, pregada no tronco desse pinheiro? Pois aí mesmo mataram um homem, que vinha com uns centos de mil- -réis da Feira Franca de Viseu, fez pelo S. Miguel um ano. E ainda hoje se está para saber quem foi. Num ermo destes só os santos podem valer a uma criatura.

Henrique sentiu-se pouco à vontade com as elucidações do cicerone ; olhou para ele com desconfiança e quase julgou ver moverem-se sombras suspeitas por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou nos coldres os cabos das pistolas, e aproximou as esporas dos ilhais da cavalgadura.

Dentro em pouco atingiam o indicado tronco de sobreiro, de junto do qual deviam avistar a aldeia.

Henrique olhou ; viu lá no fundo do vale muitas árvores, mas continuou a não enxergar vestígios de casas.

— Onde está a aldeia que dizias, homem? — Daí já se vê — disse o almocreve, correndo para alcançar o cavaleiro.—Não vê V. S.*. além. além, aqueles pinheirais mansos? — Vejo, sim.

— Pois já são da freguesia. Se fosse mais claro havia de avistar a casa do guarda. É a tapada dos Bajuncos, que pertence à morgadinha dos Canaviais.

Henrique não respondeu. A distância a que ficava ainda a tal tapada fê-lo suspirar.

Enfim, passados minutos, principiaram a descer para o vale, costeando sempre obliquamente o monte.

Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo, mas já indistintamente, em virtude do adiantado da hora e da intensidade da neblina.

— Lá está a capela da freguesia — dizia o homem.

— Ali ? E um século para lá chegar ! — Qual ! Estamos aqui, estamos lá. Eh, ruço ! E aplicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que acelerou o passo.

O homem continuou : — Até se fosse mais dia podia-se ver daqui a pedra, que está no cemitério, e que é da família da morgadinha dos Canaviais. Foi a mãe dela a primeira pessoa que lá se enterrou, e até hoje mais ninguém.

O povo, como o outro que diz, tem sua aquela em se enterrar fora da igreja. Ele, a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vai do costume...

mas enfim a gente foi criada nisto... Mas a pedra é coisa asseada.

É como as que estão na cidade.

Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, já nem atendia ao que o homem ia dizendo.

Cerrara-se a noite de todo, quando atingiram enfim o vale. O terreno mudava agora de aspecto. Apareciam já, aqui e ali, alguns indicios de cultura, anunciando a proximidade de um povoado. Os caminhos estreitavam, internando-se no vale, e seguiam tortuosamente por entre muros toscos de pedra ensossa, silvados e sebes naturais. A chuva, que não cessara de cair, transformara estes caminhos, onde o declive não dava escoamento às águas, em charcos e tremedais.

Novos indícios da vizinhança da aldeia iam sucessivamente aparecendo.

Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção do curral, guiados por uma criança de palhoça e pernas nuas, os quais paravam a olhar com aquela expressão de composta curiosidade, que lhes é peculiar, para o recém-chegado visitante da aldeia. Não faltou receio a Henrique, que supôs a estes bonacheirões quadrúpedes a índole travessa e bravia dos touros, a cuja chegada tantas vêzes fora assistir em Lisboa.

Mais adiante passava por eles uma fileira de carros a vergarem sob o peso do mato e atroando os ares com o chiar incômodo das rodas sob o eixo, incomodo para os ouvidos cidadãos de Henrique, cujos nervos se irritavam com ele, mas aparentemente agradabilíssimo para os condutores aldeãos, que ou dormiam ou cantavam com aquele acompanhamento.

Num e noutro ponto deparavam-se-lhe já algumas casas de tectos de colmo, de cujas inúmeras fendas saía um fumo espesso, que a atmosfera húmida mal deixava elevar nos ares. No olfacto desabituado de Henrique de Souselas o cheiro resinoso e activo das pinhas e das agulhas secas dos pinheiros, queimadas no lar, produziam sensações muito longe de serem agradáveis.

Aumentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia que já lhe tomara o ânimo.

— Tantas fadigas para este resultado ! — pensava ele. — Sair de Lisboa para me enterrar nesta aldeia escura e suja! Enganou-se o parvo do doutor. Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro por certo aqui. Deus lhe perdoe o homicídio.

Os caminhos sucediam-se aos caminhos, qual mais tortuoso e incómodo de trilhar ; as curvas complicavam-se como as ruas de um labirinto. Aqui subiam ; desciam mais além, para subir outra vez. umas vezes caminhavam em terreno descoberto, outras penetravam em tão estreitas quelhas, apertadas entre paredes argilosas e húmidas e toldadas de ramos entrelaçados, que só o instinto do animal podia evitar-lhes cs perigos. Ora soavam as patas do macho como em chão lajeado, ora amortecia-lhes o som um terreno, que a chuva encharcava, e a água amacenta vinha salpicar o rosto do cavaleiro.

As casas eram já freqüentes, e algumas de menos humilde apaência.

Os cães, que, pelo timbre de voz, mostravam ser gigantes, ladravam raivosos por dentro dos portões ou de sobre os muros das quintas, ao ouvirem os passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que falava ou cantava sempre.

Outras vezes era um inarmónico grunhir suíno que acusava a vizinhança das cortes ou, partindo de um casebre rústico, o chorar de crianças, entremeado com os ralhos das mães e com as pragas dos chefes de família.

O almocreve não desistira das suas funções de cicerone, que somente interrompia para saudar alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.

— Estes campos e lameiros — ia dizendo — são da morgadinha dos Canaviais ; andam arrendados a um compadre meu.

E exclamava para dentro de uma casa térrea, escassamente alumiada por uma candeia: — Boas noites, tia Escolástica. como vai a pequenada? — Ai, é vossemecê, Sr. José? Então não entra? — respondia-lhe uma voz feminina.

— Agora, não, amanhã.

E prosseguiu para Henrique : — É uma santa criatura. A moraadinha...

Henrique interrompeu-o : — Onde fica, afinal, a quinta de Alvapenha? Onde mora minha ia? Não me dirás? — É logo aí adiante, meu patrão. Em nós passando umas casas amarelas que há aí... é logo ao pé. Essas casas que digo são também da morgadinha, mas há uma demanda pelos modos.

O almocreve falava pela décima ou undécima vez na morgadinha.

Até esta periódica referência a uma personagem que ele não conhecia, impacientava Henrique de Souselas.

E continuavam a suceder-se em enredado dédalo as quelhas e azinhagas, a ponto de fazer perder tôda a orientação. umas vezes ouviam o ruído das levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado ; adiante, transpunham uma ponte rústica, escutando das profundezas do despenhadeiro, que ela atravessava, o fragor das cascatas nos açudes ou o ranger das rodas dos moinhos.

Henrique a cada momento imaginava cair num abismo.

— São os açudes do Casal — dizia o almocreve, berrando para se fazer ouvir através do estrondo da torrente. — Pertencem à morgadinha dos Canaviais.

Henrique nem alento já tinha para falar.

Ao triste e quase sinistro aspecto daquela aldeia, tão cerrada lhe envolveu o coração a nuvem de melancolia, que cedeu sem resistência ao crescente torpor gue o invadia, como o que desespera da vida e da salvação.

Mais adiante, excitou-lhe ainda as atenções uma toada piangente, melancólica, monótona, que exacerbou estes efeitos.

— É uma fiada em casa do Tapadas — disse o almocreve. — E um dos maiores amigos do pai da morgadinha. Vê aquele muro acolá ? — Eu não vejo nada. Deixa-me ! — Pois pertence já à quinta dos Canaviais, que a morgadinha...

— Outra vez ! Cala-te para aí com essa morgadinha ! — exclamou Henrique.

Era evidente enfim que estavam em pleno coração do povoado.

As casas apareciam mais juntas. De algumas saía um surdo rumor de vozes que tinha o que quer que era de lugubre. Era a coroa rezada em família a Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com a voz quebrada e trémula do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e a juvenil das raparigas e crianças naquele piedoso coro, produzindo um efeito que acabou por levar ao auge a impaciência do nosso esplenético viajante.

— Sumiu-se essa endiabrada cruinta de Alvapenha, que não a acabamos de atingir? O almocreve desta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada sibilante junto às orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira orlada de árvores, volveu à direita e, à voz do almocreve, estacou em frente de um Dortão de ouinta resguardado por um telheiro rústico.

— É aqui — disse o guia.

— Até que enfim ! — exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de conforto e de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem cansado da vida, quando antevê o repouso do túmulo. Em Henrique era íntima a convicção de que a quinta de Alvapenha lhe havia de servir de cemitério.

II almocreve assentou duas vigorosas pancadas no sólido portão de castanho, diante do qual tinham parado.

As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as de dois cães, que acudiram de longe ao sinal e vieram ladrar à porta com furia, que fez agourar mal a Henrique da cordialidade da recepção que o esperava. De facto as intenções dos quadrúpedes não pareciam demasiado hospitaleiras. O almocreve divertia-se excitando-os de fora com uma vara de vime, apesar de quantas recomendações de prudência lhe fazia Henrique, não em demasia sossegado.

Afinal ouviu-se uma voz áspera e rouca, chamando os cães à ordem, se é lícito, sem irreverência, empregar neste caso a frase consagrada para outro género de algazarra.

Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos, levantar a aldraba, gemerem os gonzos, e enfim um homem de lavoura alto e magro, trazendo em punho um lampião de frouxíssima luz, apareceu- -lhes à porta e saudou-os com a fórmula do estilo : — Ora Nosso Senhor lhes dê muito boas noites.

E, levantando a luz à altura do rosto de Henrique, pôs-se a mirá-lo com a menos cerimoniosa curiosidade.

— É o sobrinho cá da senhora, não é verdade ? — Sou eu mesmo.

— Está um tempo muito azedo. Eu já julgava que não vinham.

Entre.

Henrique não se resolvia a aceitar o convite, porque lhe continuavam a impor respeito os olhares ferinos e os rugidos surdos dos dois façanhosos quadrúpedes, cuja má vontade era a custo refreada.

— Entre, entre — insistia o homem.

— Mas esses animalejos?...

— Ah ! isto não faz mal. Sai-te para lá, Lobo ; passa, Tirano ! Lobo ! Tirano ! Que nomes ! E dizia o homem que não faziam mal ! — Com os diabos! ti'Manel — disse o almocreve — em ocasião de e esperarem hóspedes, nã~ se soltam assim os cães. Os diabos não são nenhuns cordeiros. Olhe no outro dia o Sr. Joãozinho das Perdizes, que por pouco lhes deixava nos dentes as barrigas das pernas.

— Forte perca ! — resmoneou o outro. — Não trouxesse cá os ele. Não tem dúvida; entre o senhor, que eles não lhe fazem mal.

— Não entro; assim é que não entro — teimou Henrique, aquém as palavras do almocreve acabaram de fortificar na sua resolução.

O homem em vista disto encolheu os ombros e bradou : — O Luis ! Uma criança de cinco anos, e quase nua, correu ao chamamento.

— Enxota para lá esses cães, que aqui o senhor tem medo.

A criança, à palavra medo, fitou Henrique com uns olhos espan tados, e tomando do chão um tronco de tojo, deu-se a zurzir desapig, dadamente nas feras, que, com todos os sinais de respeito, de orelha baixa e cauda abatida, fugiram diante dela.

O orgulho de Henrique de Souselas ficou um tanto maltratado com o desfecho da cena; mas a prudência consolava-o, dizendo-lhe que andara ajuizadamente.

— Agora vossemecê — disse o camponês para o almocreve arranje-se como puder e mais a besta aí pelas lojas, enquanto eu ensino o caminho ao senhor.

— Vão, vão com Nossa Senhora, que eu cá me arranjarei. Muito boas noites, Sr. Henriquinho.

— Adeus, José — disse Henrique, passando para a mão do guia a espórtula da gorjeta, e após seguiu, com as pernas trôpegas de cavalgar, o homem do lampião.

Nao era para dissipar a impressão penosa, que subjugava o espirito de Henrique, o aspecto que lhe oferecia, àquela hora da noite, a parte da quinta, por onde era conduzido para a casa de Alvapenha, Primeiro, trilhou o pavimento mole de um quinteiro ou eido, estradado de altas camadas de mato e embebido de chuva, de onde se exalava um cheiro de curtumes, pouco de lisonjear a olfacto mal habituado a estes aromas campesinos. A luz do lampião a custo conseguiu evitar a Henrique o tropeçar num carro desaparelhado, numa dorna, numa pia para galinhas, e em outros objectos que atrancavam o quinteiro. Transpondo a cancela que terminava este, seguiram por uma rua de folhas ; atravessaram diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia ; ladearam a eira e a casa do cabañal, e, efectuados mais alguns rodeios, acharam- se finalmente junto da escadaria de pedra, por onde se subia para uma espécie de patamar ou varanda alpendrada, que servia de um modesto pórtico à casa de Alvapenha.

A propriedade da tia de Henrique era um genuíno tipo de casa rústica, à moda do Minho.

Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar os objectos à escassa luz que os alumiava, recebeu Henrique a primeira impressão agradável de tôda aquela mal estreada excursão.

Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre avivaram nele memórias, quase apagadas. Lembrava-se agora vagamente de ter brincado ali, a cavalo nesse mesmo parapeito, então, como agora, enfeitado de uma formidável coorte de abóboras meninas, vítimas votadas às festas do próximo Natai.

A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um grande vaso de louça, que ele, havia vinte e tantos anos, conhecera, e ao qual tinha a idéia vaga de haver quebrado uma asa ; abaixou-se no intento de se certificar, e viu que de facto ainda lhe faltava a asa, sendo este o único estrago que após tanto tempo o velho utensílio sofrerá.

— É admirável ! — não pôde deixar de exclamar Henrique ao fazer a descoberta, vendo que em oito dias operava maior reforma nos seus aposentos em Lisboa, do que num quarto de século se realizava em Alvapenha.

O hortelão bateu à porta e disse para dentro que era o sobrinho ja senhora que chegava.

Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de vozes, um arrastar de passos ; moveu-se a chave na fechadura ; abriram-se as portas e no limiar apareceu de braços abertos a tia Doroteia, e por trás dela, elevando a luz acima do ombro da ama, a criada Maria de Jesus, a que, havia trinta anos, lhe era companheira e interessada em lágrimas e pesajes.

Já Henrique lhe andara ao colo no tempo em que estiverà criança na quinta.

Diante da figura esbelta, do tipo varonil e do comprido bigode de Henrique, a Sr.a Doroteia reprimiu as suas expansões e quase recuou.

Nunca mais vira Henrique desde que este, aos cinco anos, deixara Alvapenha, e dir-se-ia que esperava ainda encontrar os mesmos cabelos louros e anelados e o mesmo rosto menineiro da travessa criança de outros tempos, em vez do homem feito, em que os vinte e tantos anos volvidos o tinham transformado.

Há destas ilusões na gente.

A mais segura razão não está precavida contra elas ; a infundada surpresa invade-nos de súbito, e os lábios não podem prender a exclamação que a denuncia.

— Pois na verdade tu és o Henriquinho ? ! — disse espantada a boa senhora.

— Eu julgo que sim, tia Doroteia.

— Tu ! Ai como estás um homem ! Ó Maria de Jesus, você não quer ver isto ! ? •— Parece mesmo um soldado ! — disse a criada, igualmente estupefacta.

— Credo, mulher ! Santíssima Trindade ! Você que está a dizer ? Nossa Senhora nos livre de tal ! — exclamou a ama, em cujo conceito o soldado estabelecia a transição do homem para o Diabo.

No entretanto Henrique de Souselas abraçava a tia, que havia tanto tempo que não vira, e ela correspondia-lhe, beijando-o com todo o carinho e chorando.

Chorando porquê ? Porquê ? Pela muita bondade que tinha naquela alma. A bondade é um rico manancial, que brota lágrimas ao toque da menor comoção ! Henrique não tinha ainda bem conseguido libertar-se dos roxeados amplexos e mais provas de afecto de sua tia, quando se sentiu preso em novos laços. Era Maria de Jesus, que o abraçava também e lhe pespegava nas faces dois beijos muito chiados, como aqueles que vêm a ferver do coração, e isto acompanhado de um — Ai o meu rico filho ! — tão eloquente comò os beijos.

Henrique, habituado às etiquetas da civilização urbana, que esta.

belece entre amos e criados distâncias desconhecidas na aldeia, estra, nhou um pouco a familiaridade, mas sujeitou-se a ela sem reflexões.

Maria de Jesus dizia, ainda admirada : — Ó senhora ! Não que uma coisa assim ! Pois é este o menino que vinha à cozinha limpar o tacho, em que se fazia a marmelada ! — É verdade ! E que boa marmelada cá se fazia ! — Lambareiro ! — disse a tia, sorrindo. — Se eu soubesse que eras assim, não tinha mandado lavar o tacho do doce, que ainda hoje serviu.

— Sim ? Então ainda se faz doce cá em casa, como dantes ? — perguntou Henrique.

— Pois então? todos os anos. Mas valha-me Deus! E nao querem ver nós aqui postas à palestra ! Entra, menino, entra cá para dentro, que está frio e tu deves vir cansado.

— Um pouco, um pouco, tia Doroteia.

E Henrique entrou para a sala.

Demoremo-nos no limiar para informar o leitor sobre as pessoas em cuja casa se vai alojar Henrique de Souselas.

Não se imagina a santa paz de espírito, a placidez de paraíso que estas duas mulheres — D. Doroteia e Maria de Jesus, ama e criada —• gozavam na quinta de Alvapenha, onde Henrique de Souselas i procurar alívio aos seus muitos e variados males.

Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas aos seus hábitos ambas muito tementes a Deus e amigas do próximo, as duas celibatárias passavam ali uma vida, rescendente a um suave perfume de santi dade, como o da alfazema e do rosmaninho, que lhes aromatizava as gavetas e de que se repassava tôda a roupa branca, objecto muito dos seus cuidados.

A inalterável harmonia, mantida havia tantos anos entre as duas poderia ser exemplo à maior parte das famílias deste mundo. Entre velhas, que nunca tiveram filhos, circunstância que em geral faz o humo mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso.

Tinham elas porém a precisa tolerância para fazerem mútuas con cessões ; cada uma fechava os olhos aos pequenos caprichos da outra e tudo corria bem. Nunca adentro daquelas paredes se ouviu uma so palavra, que, por mais alto pronunciada ou por menos expressiva de paciência, destoasse da invariável monotonia dos seus habituais diálogos.

Eram um exemplo edificante para os vizinhos, que, pela maio parte, devorados por demandas entre primos e irmãos, pais e filhos marido e mulher, mostravam infelizmente ser esta abençoada sèment caída em improdutivo terreno.

As discórdias intestinas nas famílias do seu conhecimento afligiam as duas sexagenárias e aumentavam o número de padre-nossos com que todas as noites se faziam lembrar dos santos, de quem eram vali das pedindo-lhes a felicidade dos outros tanto ou mais do que a sua própria Ouvir rezar as duas santas velhas — e era essa a ocupação dos seus curtos serões — eqüivalia a escutar uma resenha das diferentes calamidades, que perseguem e apoquentam o género humano, e que elas, desta maneira, pretendiam evitar.

— Um padre-nosso e uma ave-maria a S. Marcal, para que nos ivre do fogo — dizia D. Doroteia, e seguia-se o Padre-Nosso. — Outro a Santa Luzia milagrosa, para que nos dê vista e claridade na alma e no corpo; outro a S. Brás, para que nos proteja da garganta: outro a g, Vicente, por causa das bexigas, etc. Seguia-se um padre-nosso por todos os que andam sobre as águas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento ; outro por os órfãos ; outro pelos doentes ; um pelos vivos ; outro pelos mortos ; um pelos justos ; outro pelas almas do purgatório, não hesitando até a sua caridade em transpor as portas do Inferno e pedir também a remissão dos condenados. E ainda depois desta minuciosa e longa enumeração, um último padre-nosso fechava aprimeira série, compreendendo todos os não contemplados por esquedos, ou por não terem lugar na classificação.

Compunha a segunda série a menção especial de cada uma das pessoas falecidas das suas relações : parentes, amigos e conhecidos, por cujo «eterno descanso entre os resplendores da luz perpétua» oravam com verdadeira compunção. Nesta falange ia também D. João VI, por quem, havia quarenta anos, se costumara a rezar D. Doroteia, e não era ela mulher que rompesse com hábitos semi-seculares. Era esse talvez o único padre-nosso que a alma do monarca recebia no Céu, com procedência do seu antigo reino.

Quanto às qualidades físicas, a imaginação dos leitores pintar-lhas-á melhor do que a minha descrição. Forçosamente conheceram uma destas boas velhas, para quem nos sentimos atraídos ; a quem se estima e com quem se brinca ao mesmo tempo ; que nos podem inspirar sacrifícios e simultaneamente nos tentam a travessura ; a quem mistificamos agora e logo beijamos respeitosamente a mão ; contra quem não reprimimos impaciencias, escutando depois submissos os seus nunca terminados sermões.

Ora estas velhas assim têm quase sempre um tipo uniforme, que é o reflexo exterior da bondade do coração; esse era o tipo da tia Doroteia com o seu vestido roxo, o seu lenço castamente cruzado no peito, a sua touca de folhos alvíssimos e de fitas escuras, o molho de chaves à cinta, o livro de orações na algibeira e os óculos a marcarem no livro a reza habitual.

Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma edição popular da mesma alma. Sucedera de mais com elas o que é sempre de esperar de uma longa e íntima convivência ; haviam reciprocamente adoptado maneiras e modos de pensar e de ver e de dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer delas ser como que uma premissa de onde a modo de conclusão, se deduzia a outra facilmente.

Tudo isto percebeu logo Henrique de Souselas ao primeiro exame que fez das duas santas mulheres.

Entremos agora com ele para dentro da sala.

Quem, vinte anos antes, tivesse visitado a casa de Alvapenha e ai voltasse de novo com Henrique julgaria, à vista da uniforme disposição de coisas mantida ali dentro em tão distantes épocas, que todo esse tempo não fora mais do que um sonho de momentos.

Encontraria os mesmos móveis, na mesma colocação ; as mesmas cobertas nos leitos, apenas mais desbotadas ; as mesmas ou iguais cortinas nas janelas ; o mesmo cheiro de feno e alfazema na atmosfera dos quartos, os mesmos quadros na parede, as mesmas jarras nas cómodas.

A memória de Henrique, aquela inconstante e leviana memória de rapaz estouvado, sentia-se acordar, à vista daquilo tudo.

A sala tinha uma fisionomia característica.

Suponha-se uma não muito ampla quadra de pouca altura, tôda pintada a oca, e alumiada por duas mal rasgadas janelas de peitoril, com os seus competentes assentos de pedra, um defronte do outro, com meias cortinas de cambraia sempre corridas — pleonasmo de discrição que se não justificava, visto que as janelas, abrindo para a quinta, não tinham vizinhança de cujos olhares precisassem de recatar- se. O tecto era de almofadas de castanho, em tempos pintado de azul, agora de uma cor duvidosa. Havia quinze anos que D. Doroteia falava em o mandar retocar, mas o projecto, momentoso como era, ia sendo adiado de Primavera para Primavera. Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija saliente, onde coroadas maçãs de Inverno aguardavam, em vistosa fileira, a completa maturação, e derramavam no aposento o mais agradável aroma. O pavimento, apesar de muito picado de caruncho, andava limpo e escafunado — termo do vocabulário de casa — que metia gosto vê-lo. Cada parede era um museu de estampas de devoção. Poucos santos e santas da corte celestial não estavam ali representados e com um colorido, que era o maior pecado, a que estes bem-aventurados haviam dado lugar cá no mundo.

Cá se via Santa Quitéria e as suas sete companheiras ; Santa Ana ensinando Nossa Senhora a 1er ; o Senhor dos Passos, venerado em S. João Novo, no Porto ; o Bom Jesus de Bouças, representação da imagem, que, segundo reza a respectiva crônica, é obra das mãos de José de Nicodemo ; os Santos Mártires de Marrocos, da igreja de S. Francisco, etc, etc. Sobre a comoda de pau-preto era devotamente venerado o mais rubicundo, menineiro e bem disposto Santo Antônio, que ainda modelaram as mãos de santeiro afamado. E seja dito de passagem que não sei por que a tradição popular dá a este austero franciscano o aspecto chorudo de um moderno reitor de farta abadia de aldeia.

No interior da redoma onde se abrigava o santo estava estabelecido o museu de raridades da tia Doroteia. Eram flores artificiais, conchazinhas e caramujos, um rosário de caroços de azeitonas, uns poucos de vinténs de prata, enfiados e pendentes do braço do menino Jesus, que o santo sustentava ao colo, verónicas, escapulários, uma campainha benta, uma medida do braço do Senhor de Matosinhos, um pão do saco de Santa Isabel, que vai na procissão de Cinza, no Porto, e outros objectos curiosos.

A mobília da sala consistia em cadeiras de palhinha, que gemiam quando entravam em serviço, como militar, cujas articulações o reumatismo invadiu ; mesas cobertas com colchas de chita ; baús cravados de pregaria amarela, disposta em letras e arabescos ; uma papeleira de pau-santo, e uma gaiola com um canário decrépito, objecto, havia muitos anos, das tentações de um gato, mais decrépito do que ele e pertencente as classes inactivas.

Henrique, adivinhando por todo aquele cheiro de beatitude e de antigüidade que ali se respirava, os hábitos da casa, sentia já certo desconforto, corno de quem é arrancado de súbito ao ambiente, em que se educou e vive, e engolfado num ambiente estranho ; espécie de asfixia moral, nao menos angustiosa do que a do peixe fora da água.

A saudade que ao princípio sentira, dissipara-se já. O perfume da saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o recebemos. Se, iludidos, as tentamos aspirar de perto, dissipa-se.

Acontecera isto com Henrique.

Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a crença de que não seria por muito tempo que se demoraria ali.

— Os emolientes do doutor — pensava ele, enquanto sua tia falava — serão eficazes para quem os puder sofrer sem enjôo, mas para mim...

No entretanto sentou-se.

— Ora o Henriquinho ! — dizia ainda D. Doroteia, pondo-se de braços cruzados em contemplação defronte dele. — Ó menino, onde foste tu arranjar esses bigodes tamanhos? Então isso agora usa-se? Pergunta que sobremaneira embaraçou Henrique.

— Quem quer usar, usa, tia. Não é obrigação — respondeu ele, com leve mau humor.

— Em nome do Padre e do Filho ! — dizia Maria de Jesus, benzendo- se e tomando lugar ao lado da ama. — Até nem sei que parece, lembrar-se a gente que trouxe este marmanjão ao colo! O termo «marmanjão» não soou bem a Henrique. Principiava também a impacientá-lo o ver as duas embasbacadas diante dele; um homem sujeito a uma exposição destas, por mais que faça, -não atina com o modo de arrostar com ela, que não seja ridículo. Ora Henrique, como todo o homem da sociedade, o que mais que tudo temia neste mundo era o ridículo.

Felizmente acudiu-lhe a caridosa intervenção da tia Doroteia, que fez perceber à criada a conveniência de ir preparando a ceia de Henrique, que havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de não costumar cear, aceitou a idéia, porque o frio, as fadigas e a má alimentação dos últimos dias, haviam-lhe desafiado o apetite. Demais, o espanto de D. Doroteia, quando lhe ouviu dizer que as ceias não entravam nos seus hábitos, foi tal que lhe tirou o ânimo de rejeitar.

— Não ceias! O menino, que me dizes? então vais-te deitar sem ceia? Ora essa! Por isso vocês são uns pelens. Vejam lá que arranjo este ! ficar tôda a santa noite sem alguma coisa que dê sustento ao estômago, que aconchegue. Nada, nada ; a ceiinha em todo o caso. E tu hás-de também querer mudar de fato? — Eu venho bastante molhado.

— Ai, então depressa, menino, que nao há nada pior do que a roupa molhada no corpo. Maria... ou deixe estar, eu vou... Anda, Henriquinho, anda lá, que eu guio-te ao teu quarto para te arranjares.

Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado e comodamente vestido, saboreava uma gorda galinha de canja, sobre uma mesa coberta de toalha lavada, e na melhor louça da copeira.

Ele que tinha sempre severidades de crítica contra os mais afamados cozinheiros de Lisboa, estava achando deliciosa aquela comida primitiva, com que o regalava a tia.

Esta sentou-se a vê-lo comer, e com a mema familiaridade, que Henrique já anteriormente estranhara, Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama.

Ambas tinham ceado já; pois que o faziam ao cerrar da noite.

Enquanto Henrique comia, elas, sem deixarem de o observar com a natural curiosidade de quem havia tanto tempo não tivera um hóspede, faziam-lhe perguntas, às quais ele ia respondendo conforme lhe era possível.

— Tu dizias-me na tua carta que estavas doente ; pois olha que na cara não o parece.

— Não — concordou a criada — tem boas cores, e, vamos, a magreza ainda não é lá essas coisas.

Era este o ponto fraco de Henrique ; respondeu logo ao reclamo.

— Não me digam isso ! Então não vêem como estou ? Pois isto é lá cor de saúde? de febre, será. Gordo? pois acham-me gordo?! — Gordo, não digo, mas assim, assim... E depois como Vieste de jornada... Mas afinal que moléstia é a tua, menino? — Eu sei lá, tia Doroteia? Nem os médicos a conhecem bem.

É, entre outras coisas, uma tristeza, uma melancolia, que me não deixa, que me persegue por tôda a parte. Às vezes parece-me que sinto apertar-se-me dolorosamente o coração ; outras, são palpitações, ânsias...

Tenho quase vontade de chorar, irrito-me, impaciento-me, não quero que me falem, nada quero ver, nada quero ouvir ; não leio, não durmo, não como. Finalmente todo eu sou doença e tristeza.

A boa tia Doroteia olhava com sisudez e atenção para o sobrinho, enquanto ele falava, e na fisionomia iam-se-lhe desenhando, ao ouvi-lo, os mais expressivos sinais de espanto e consternação.

Assim que Henrique terminou a exposição, ela disse-lhe com uma adorável candura: — Então é assim uma espécie de mania ! À palavra «mania» Henrique sobressaltou-se. Seria a consciência que se sentiu ferida? — Mania ? Ó tia Doroteia ! Mania ! Veja bem, olhe que o termo é forte ! Mania ? — Sim, menino — insistiu ingènuamente a boa senhora — pois olha que não é outra coisa. Pois isto de estar triste sem ter de quê... sim...

porque não te morrendo ninguém, nem te doendo nada...

Ó poetas devaneadores, ó almas melancólicas, que percebeis no sussurrar das brisas, no ciciar das folhas, no murmurar dos arroios, queixas ocultas de dríades e de náiades, sentidas vibrações das harpas de fadas aéreas, que vivem em palácios de nuvens ; ó corações inoculados de poesia, quo vos confrangeis e gotejais lágrimas sinceras ao desmaiar do dia, ao desfolhar das árvores no Outono; ooetas, que escutais, com Vítor Hugo, as vozes interiores, os cantos do crepúsculo, e com ele adivinhais os mistérios dos raios e das sombras, perdoai a involuntária blasfêmia da tia Doroteia, que não contém o menor fermento de malícia ; perdoai-lhe a dura expressão de que ela se serviu para caracterizar os vossos arroubamentos, as vossas tristezas vagas, os vossos devaneios, e crede que, apesar da frase, teríeis nela uma alma mais afinada para simpatizar convosco, do que tantas que por aí fazem gala de vos compreender melhor.

Henrique não podia porém digerir a expressão, de que se servira a tia, para diagnosticar o seu mal.

— Mania ! — repetia ele — essa agora ! Sempre é forte de mais.

Mania, não, tia Doroteia, lá isso não. Mania! — Eu lhe digo — acudiu a criada. — Nao vá sem resposta ; que está quase como o cunhado da Rosa do Bacelo. A senhora nao se lembra? Andou aquela alminha por aí sempre triste, sempre a falar só, até que afinal lá foi parar...

— Aonde ? — perguntou Henrique, erguendo os olhos mterregadoramente para a criada.

— Lá foi parar a Rilhafoles — concluiu esta, espevitando a vela o mais naturalmente deste mundo.

Henrique de Souselas pulou com a sinceridade.

Nem acabou de sorver a última colher de caldo de arroz, que lhe estava sabendo como nunca manjar lhe soubera.

— Então não comes mais ? — perguntou a tia.

— Muito gradecido ; eu o mais que tenho é sono.

— Pois sim, mas é preciso fazer por comer — insistiu ela.

— Ora va mais este coxão — disse a criada.

— Não é possível — teimou Henrique, e insistiu para e recolher ao quarto.

— Tens razão, tens — concordou a tia Doroteia — deves estar fatigado.

Vai com Nossa Senhora, menino. E deixa-te lá de pensar e estar triste, que isso não é bom. É fazer por espairecer. Come, bebe, passeia, que é o que dá saúde. Nada de malucar.

— Sim — acrescentou a criada — e não queira estar doente, que não tem graça nenhuma.

— E olha, Henriquinho, tu tens por aí com quem te podes distrair.

O brasileiro Seabra, que tem uma casa como um palácio ; o Augustito do doutor, que é um bom mocinho. E depois vai dar um passeio por aí, um dia até aos moinhos, outro dia até à ermida da Senhora da Saúde, Agora me lembra: a Lenita já mandou aí outra vez saber se tinha chegado o hóspede — disse D. Doroteia.

— Não foi só a morgadinha...

— Aí está você a chamar-lhe também a morgadinha.

— Então, senhora? isto é o costume. Mas todas as outras senhoras mandaram também o Torcato saber do Sr. Henrique. A Sr.* D. Vitória e a Cristininha.

— Ai, pois cuidadosas são elas ! Tu hás-de-te entender com aquela gente. É uma gente muito dada e sem cerimônia. É preciso lá ir. Olha, amanhã podes ir visitá-las. É um passeio bonito.

Henrique, que tinha estado distraído durante a conversa das duas, nem se dava ao trabalho de intervir no diálogo em que elas dispunham já do seu tempo e traçavam-lhe planos de vida.

— Mas vai descansar, menino, vai e faz por dormir. Olha lá, tu costumas dormir com luz? — Não, tia, não costumo.

— É porque nesse caso... Maria, onde está aquela lamparina, que me serviu quando eu estive doente, há seis anos? — Está lá dentro, senhora; se a senhora quer eu...

— Vê lá, menino...

— Não, tia, não quero.

— Há pessoas que não podem dormir às escuras — dizia a criada.

— Eu, graças a Deus, durmo bem de qualquer forma.

— Pois sim, mas nem todos são como você. Olha, ó Henriquinho, hás-de ver se queres o travesseiro mais alto ou...

— Muito agradecido, tia Doroteia, tudo deve estar bom— disse Henrique, procurando fugir às muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que as duas o iam perseguindo até ao quarto.

— Olha, ó menino, tu bebes água de noite ? — Às vezes.

— Você pôs-lhe água no quarto, Maria? — Pus, sim, minha senhora; pois então? Já minha mãezinha dizia, que antes sem luz do que sem água.

— Bem, então está bom. Então muito boa noite, menino.

— Boa noite, tia.

— Ai, é verdade. Hás-de ver se queres mais roupa na cama.

— Não hei-de querer, não, tia.

— Olha que está muito frio. Você quantos cobertores lhe deitou, ó Maria? — Cinco, senhora.

— Cinco ! — exclamou Henrique, quase horrorizado. — Cinco cobertores.

— É pouco ? — Pouco ? É de morrer esmagado debaixo deles.

— Ai, quer não ! Olha que está muito frio.

— Bem, bem ; eu cá me arranjarei.

— Então, muito boa noite.

— Muito boa noite, tia.

E Henrique ia a fechar a porta.

— Olha... — disse ainda a tia.

Henrique parou.

— Não sei o que é que me esquece...

— Não há-de ser nada, tia ; boa noite.

— Não esquecerá ?... Eu sei ?... Enfim... boa noite. Ai, é verdade...

Sempre é bom ficar com lumes prontos — Ai, sim; lá isso sempre é bom.

— Vês ? não que bem me parecia.

— Já lá estão, senhora — disse a criada de longe.

— Melhor ; então muito boa noite nos dê Nosso Senhor, menino.

— Muito boa noite, tia.

E Henrique conseguiu fechar a porta.

Estava finalmente só.

— Que desastrada lembrança a minha ! — disse o pobre rapaz, ao fechar a porta sobre si. — como posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro de impertinências me espera ! Ai, Lisboa, Lisboa, e pensar eu que só posso voltar para ti à custa de outra jornada ! O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de almofadas na cabeceira e rodapé de chita, tão alto que se não dispensava o auxílio de cadeira para trepar acima dele, uma cômoda com um pequeno espelho, um baú, um lavatorio e duas cadeiras mais, constituíam a mobília tôda.

Henrique de Souselas sentiu a falta de mil pequenos objectos de toucador, a que estava habituado. Aquele estritamente necessário não lhe prometia grandes confortos.

Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvíssimo e respirava um asseio e frescura convidativos : os travesseiros, de largos folhos engomados, possuíam uma moleza agradável às faces ; o colchão de penas abatia-se suavemente sob o peso do corpo fatigado.

Henrique conchegou a roupa a si; à falta de velador, pousou o castiçal no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, pôs-se a 1er, para obedecer a um hábito adquirido.

Não teria ainda lido um quarto de página, quando ouviu a voz da tia Doroteia, que lhe dizia de fora da porta: — Ó menino, tu já te deitaste? — Já, sim, tia Doroteia.

— Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um medo de fogos ! — Esteja descansada, tia. Eu apago já.

— Então será melhor. S. Marcai nos acuda.

E afastou-se, rezando ao santo.

Henrique continuou a 1er.

Daí a pouco a mesma voz: — Tu já dormes, Henriquinho? — Não, tia, ainda não durmo.

— Olha que não vás adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um medo de fogos ! Não descanso, enquanto não vejo tudo apagado em casa.

Henrique perdeu a paciência.

— Pois pode sossegar, olhe.

E apagou a vela, meio zangado.

— Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e é melhor fazer por dormir. Então, muito boas noites.

— Muito boas noites — respondeu Henrique quase amuado ; e ajeitando-se na cama, dizia consigo:—E esta! Já vejo que nem 1er me é permitido aqui. Olhem que vida me espera ! É isto o que me devia curar ? Que fatalidade ! Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, únicos que conservava dos cinco primitivos, começaram a fazer o seu efeito, insinuando nos membros cansados da jornada um agradável calor. Convidavam ao sono o som da água num tanque que ficava por debaixo das janelas do quarto e as gotas da chuva, que dos beirais do telhado caíam compassadas na tábua do peitoril.

A noite sossegara. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento, já menos impetuosas, faziam bater as vidraças.

Eram como estes estados, que sucedem a um choro aberto. Correm ainda algumas lágrimas nas faces, mas já não brotam novas dos olhos : saem ainda do peito os soluços, porém mais espaçados ; dentro em pouco será completa a serenidade.

Henrique começou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar naquele confortável leito e no meio daquele sossego ; fecharam- se-lhe enfraquecidos os olhos, e deslizou suave, insensivelmente, no mais profundo, tranquilo e restaurador sono, que, havia muito tempo, tinha dormido.

III

Ao romper da manhã, quando a consciência principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpor de um sono profundo, Henrique de Souselas sonhava-se comodamente sentado em uma cadeira de São Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma ópera favorita.

Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncelos e contrabaixos ; sopravam, a plena boca, os tocadores dos instrumentos de vento ; agitavam descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros ; dedos amestrados faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os ares, e contudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de tôda esta riqueza de instrumentação, mais do que uma nota única, arrastada, contínua, piangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formar uma só frase musical.

Era de desesperar um diletante como ele; torcia-se na cadeira, inclinava convenientemente a cabeça, fazia das mãos cometas acústicas, e sempre o mesmo resultado ! Este violento estado de atenção, este esforço do sensório, principiou nele a obra de despertar ; principiou pois pelos ouvidos, mas cedo se transmitiu a todos os outros órgãos.

Antes de dar a si próprio conta do que era aquele som, e quase esquecido ainda do lugar em que estava, Henrique abriu os olhos.

A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janelas e espalhava no aposento uma ténue claridade.

Veio então a Henrique a consciência do lugar em que estava, e uma alegria profunda lhe dilatou o coração.

O leitor se ainda não padeceu de insónias, de pesadelos, ou de sonos febris, não avalia por certo o contentamento íntimo, que se apossa das desgraçadas vítimas desses demonios nocturnos, quando por excepção eles as deixam em paz, e lhes respeitam o sono de uma noite completa. Acordar só aos raios da aurora é um dos mais inefáveis prazeres, a que eles aspiram na vida.

Penetra-lhes então nos membros um insólito vigor ; a arca do peito expande-se-lhes mais livre e as sombras do espírito dissipam- -se-lhes com aquele clarão matinal.

Foi o que sucedeu a Henrique. Pela primeira vez depois de muitos meses, dormira de um sono a noite inteira.

Sentia-se com isto tão bom, tão vigoroso, tão contente que teve vontade de cantar.

Mas o som, que o acordara, aquela nota única, em que se confundiam todas as notas da sonhada orquestra, ainda lhe soava aos ouvidos.

Prestando-lhe a atenção de acordado, conheceu que era o chiar 9 dos carros — o mesmo som, que na véspera o irritara, agora assim a distância, estava-lhe agradando, como nota extraída por mão hábil das cordas de um violino.

Não resistiu mais tempo ão impulso que naquela manhã o incitava ao exercício, rara disposição no indolente filho da capital, que tinha por hábito ouvir o meio-dia na cama.

Ergueu-se e abriu as janelas.

Não é lícita a comparação entre a mais surpreendente transmuta ção de uma dessas aparatosas mágicas, que tanto extasiam as multidões embasbacadas nas platéias e camarotes de um teatro, e as que de instante para instante, realiza a natureza. Descerrando o véu de nuvens que encobre o fulgor do Sol, elevando, acima do horizonte, esse majestoso lampadàrio do mundo, ou o brilhante reflectídor que ilumina as noites desanuviadas, a natureza opera, a cada momento, as mais admiráveis e completas metamorfoses.

Durante o sonho de Henrique realizara-se um desses efeitos mágicos.

Abrandara gradualmente a violência do sul ; o vento, mudando, voltou em sentido oposto a grimpa do campanário ; dispersaram-se as nuvens ; luziram trémulas por momentos as estrelas, empalideceram perante o alvor do dia, e quando o Sol assomou por sobre a crista das serras, estendia-se-lhe diante um vasto manto azul, tapetando a estrada, que tinha a percorrer. Só, muito para o ocidente, ainda algumas nuvens amontoadas formavam uma como franja, que o astro nascente em breve tingiu de carmim e de ouro.

Foi pois a luz de um dia esplêndido e a brisa, cheia de aromas, que vem dos campos nas alvoradas serenas que penetraram no quarto de Henrique, quando ele abriu as janelas.

A inesperada surpresa quase lhe soltava do peito uma exclamação de prazer! A aldeia, aquela mesma aldeia, escura e triste que, com o coração apertado, atravessara na véspera, parecia outra.

O sol da manhã baixara sobre ela, dissipara-lhe as sombras, colorira- lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersara-se em íris cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturais, perfumara-a de aromas, animara-a de cantos, transformara-a enfim na mais risonha paisagem, em que os olhos de Henrique, pouco habituados às esplêndidas galas do Minho, tinham nunca repousado.

O Inverno despojara parte dessas galas ; embora ! Até da própria nudez de algumas árvores resultavam encantos. As folhas crestadas, os ramos despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas não tem a tristeza poesia também? Pode haver completa paisagem onde não haja uns tons escuros de melancolia? Henrique de Souselas, debruçado na varanda de pedra do quarto, não se cansava de admirar aquela cena.

Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, num momento, elevam, nos ermos, jardins e paços, como os de Armida e Alcina.

Pois era esta a mesma aldeia, através da qual ele cavalgara de noite? Os acidentes do terreno, aqueles acidentes, que tão do fundo da alma amaldiçoara na véspera, produziam, vistos então dali, os mais pitorescos efeitos. Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo vale, opulento em vegetação, e que a certa distância se continuava insensível e gradualmente com uma ameníssima colina.

Além, um belo bosque de carvalhos seculares, que o Inverno, privando-os de folhas, tingira quase da cor da violeta, contrastava com a fronde sempre verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a qual se divisavam abundantes os dourados frutos, poupados pela mão do lavrador. As copas, como umbeladas dos pinheiros mansos, desenhavam nas encostas e eminências fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos aqui e ali, e entremeados com a verdura, grupos de casas campestres, alvejantes à luz do Sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas cónicas, eiras, pontes rústicas, as mesmas talvez que com mau humor trilhara na véspera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas e virentes campinas e larneiros, onde pastavam numerosas manadas de gado. Mais longe a igreja com a sua alameda à entrada e o cemitério, onde um só mausoléu avultava ainda ; uma ou outra casa apalaçada, enegrecida pelo tempo ; algumas ruínas, consolidadas pelas heras, revestidas de musgos, douradas de liqúenes ; finalmente, tudo o que tenta os paisagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe a aparência de uma das mimosas composições a pastel da mão de Pillement.

A mudança de aspecto da cena operou não menor mudança nos sentimentos e disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava observando.

— É preciso sair ! é preciso sair ! — disse Henrique consigo. — Quero ver isto de perto ; quero entranhar-me nestes bosques, quero trepar por aqueles montes, debruçar-me daquelas ribanceiras.

E vestindo-se à pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa toilette, saiu do quarto.

Encontrou nos corredores a tia Doroteia, que o saudou amavelmente.

— Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite ? — Deliciosamente, minha querida tia — respondeu ele, abraçando- a com maior afecto e bom humor do que na véspera.

O que é sentir-se a gente bem ! — Então não estranhaste? — Estranhei imenso ! — Sim?! — disse a tia, mortificada.

— Dormi a noite de um sono, e acordei bem disposto ; o que para mim é a mais estranha das ocorrências.

A tia sorriu satisfeita.

— Pois antes assim. E agora...

— E agora quero sair, quero ver esta terra, que me está parecendo um paraíso terreal.

— Espera, menino. Não vás sem almoçar.

— Almoçar ! Pois que horas são ? — Não é cedo ; são iá sete horas ! — Já sete horas.

E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janela, para ver como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.

— E então acha que se pode almoçar às sete horas ? — Porque não? Se está já pronto.

— Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os hábitos da aldeia. Principiemos por este.

Entrando para a sala de jantar, Henrique viu diante de si uma taça de leite espumante, tepido, odorifero, extraído de pouco tempo.

Foi por ele que principiou o almoço.

Pela primeira vez na sua vida disse ele ter bebido o leite verdadeiro, o leite que não faz mentir a análise dos químicos, de que os fisiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das geórgicas cantam as delícias e virtudes ; só agora os compreendeu ele, que bem diferente daquilo era o aguado e quantas vezes derrancado soro, a que estava habituado na cidade.

D. Doroteia, almoçando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o costume, continuadamente.

Henrique, desta vez, falou tanto como elas.

Ouvia-as já com mais atenção e respondia-lhes com mais vontade e paciência.

Falaram em muitas coisas.

A tia deu parte ao sobrinho de que várias pessoas da vizinhança, sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de galinhas, oferecendo- se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro também tinham já mandado saber dele, Henrique, e lembrou que seria delicado ir visitá- las aquela manhã.

Henrique concordou em tudo, quase sem reparar em quê, e terminando o almoço apressou-se a sair para o campo.

— E se te perdes, menino ? —• lembrou a tia.

— Se me perder, farei por achar-me.

Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-no ir.

Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que também então lhe parecia graciosa, de uma graça bucólica, a que não estava habituado. O aspecto melancólico da véspera desvanecera-se. Até para ser completa a mudança, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tirano, cujas boas graças contudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoitos.

Foi um passeio delicioso o que ele deu. Tudo quanto via lhe era novidade, tudo lhe cativava a atenção e o distraía dos seus lúgubres pensamentos.

Depois de muito andar, de subir colinas, de descer vales e costear ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa térrea, caiada de branco, com portas verdes e janelas envidraçadas, sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituídos por papel. À porta desta casa estava muita gente parada ; mulheres, velhos, moços, crianças, uns sentados, outros deitados, outros de pé e encostados à ombreira, e todos aparentemente aguardando alguma coisa ou alguém do lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se dirigiam todos os olhares.

Henrique aproximou-se desta casa com alguma curiosidade, que cede satisfez, vendo em uma tabuleta, suspensa no alto da janela, a seguinte pomposa inscrição: «Repartição do correio», e, como a confirmar o dístico, um corte feito na porta para a recepção das cartas.

Lembrando-se da conveniência de avisar o empregado do correio para lhe serem remetidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa, Henrique entrou na repartição.

Consistia esta numa loja apenas, mobilada com um banco de pinho e dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal do serviço, isto é, um homem por junto ; e era este o Sr. Bento Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja inteligência e solicitude estavam confiadas mais do que uma função. Além de servir, em interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades do nosso país, este cargo, dito por ele, de «director do correio», estava de posse S. S." de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se procura em Portugal fomentar nos concelhos rurais o gosto pelas letras antigas ; era ainda regente e director da filarmònica da terra, armador de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares, e, quando Deus queria, autor de alguns também.

Vendo entrar Henrique nos seus domínios, o ilustre funcionário tirou cortêsmente o seu boné de pele de lontra e ergueu-se da banca para cumprimentar tão honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o nome de Henrique.

Admirado por ser conhecido já, Henrique interrogou o latinista e, achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito, convenceu- se de que estava na presença dum esmerilhador de vidas alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.

com o ifim de cortar a divagação, em que o homem entrara a respeito de certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio não chegara ainda.

— Saiba V. S.' que ainda não-—respondeu o Sr. Bento Pertunhas — mas não deve tardar ; o homem que daqui vai buscar as malas à vila, se bem andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro de gente que V. S.ª aí vê à porta, está à espera dele, Hoje então, que chegam as cartas do Brasil, ninguém pára com este povo. Dão-me cabo da paciência.

Isto é um Inferno ! Eu sirvo este lugar interinamente, enquanto o empregado está paralítico ; porque eu tenho outro cargo público ; sou professor de latinidade.

— Ah! — É verdade, mas a minha vocação era para as artes. Meu pai queria que eu fosse padre e mandou-me ensinar latim ; mas já então a minha paixão era a música. Eu ainda queria que V. S.* me ouvisse tocar trompa, que é o instrumento que mais tenho estudado... Se V. S.a se demorar há-de fazer-me o favor...

— com muito gosto.

— Não poder um homem seguir no mundo a sua vocação ! — Ainda assim não se pode queixar muito. O cultivo das letras latinas deve-lhe proporcionar gozos ; porque enfim para quem possui instintos de arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo contra as agruras da vida.

O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.

— Os poetas ? Os poetas latinos ! Ora essa ! Então parece-lhe que pode achar-se gosto em lê-los ? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho- -lhe uma vontade!... O latim!... a mais destemperada e desesperadora língua que se tem falado no mundo ! Se é que se falou — acrescentou em voz baixa.

— Então duvida que se falasse latim? — perguntou Henrique, sorrindo.

— Eu duvido. Não sei como os homens se pudessem entender com aquela endiabrada contradança de palavras, com aquela desafinação que faz dar volta ao juízo de uma pessoa. Sabe o senhor o que é uma casa desarranjada, onde ninguém se lembra onde tem as suas coisas quando precisa delas e passa o tempo todo a procurá-las? Pois é o que é o latim. Abre a gente um livro e põe-se a traduzir e vai dizendo : «As armas, o homem e eu, canto, de Tróia, e primeiro, das praias».

Quem percebe isto ! Ora agora peguem nestas palavras e em outras, que eles punham às vezes em casa do Diabo, e façam uma coisa que se entenda ! É quase uma adivinha. Ora adeus ! E depois — continuou ele, entusiasmado com o riso de Henrique, supondo-o de aprovação — e depois as diferentes maneiras de chamar a um objecto? Isso também tem graça. Nós cá dizemos por exemplo : « reino e reinos » e está acabado; lá não senhor; diz-se «regnum» e «regna» e «regni» e «regno» e «regnis» e até «regnorum». Ora venham-me cá elogiar a tal lingua! Henrique estava achando delicioso o ódio entranhado de mestre Benlo Pertunhas à latinidade que ensinava com a proficiência, que o leitor pode imaginar, depois do que ouviu.

— Ai, meu caro senhor — continuou o atribulado magister — eu se me vejo um dia livre deste amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei-de regalar de ver arder o Tito Livio e os Virgilios todos très.

É de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir- se a Virgílio.

Quer-me parecer que para este intérprete da literatura latina tinham de facto existido três Virgilios, provavelmente irmãos, e cada um autor de cada um dos três volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia Virgílio 1.°, 2.° e 3.°, como quem se refere aos monarcas homónimos, que sucederam num mesmo reino.

— Não me salvo se morro mestre de latim — prosseguia ele. •— afunda-me no Inferno o trambolho da sintaxe.

Ia continuar, quando tôda a gente, que Henrique viu fora da porta, principiou em desordenada azáfama a entrar para a loja, que em breve não comportava mais ninguém.

— Aí vem o homem, Sr. Pertunhas ; aí vem. Graças a Deus, que aí vem ! — diziam todos à uma.

O funcionário principiou a impacientar-se.

— Então ! então ! Por onde há-de ele entrar, fazem favor de me dizer? Saiam, saiam. Não ouvem? Então não fazem caso das minhas ordens ? Dêem lugar. Não vêem que estão molestando este senhor ? Cada um dos repreendidos nestes termos indignava-se, ao ver que os outros não obedeciam às ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo, como se lhe valesse algum especial privilégio.

— Saia você, mulher — dizia um.

— E você porque não sai ? Olha agora ! — A todos há-de chegar a vez. Descanse. Se tiver carta lha darão.

Lá por estar aqui não é que...

— Pois então saia também. Ora essa! — Ó santinha, não empurre.

— Ó filho, quem é que lhe faz mal? — Por onde é que se quer meter, homem de Deus ? — Eu não sou menos que os outros.

— Que queréis vós daqui, canalhada? — Não bata, que ninguém lhe tocou, seu velhote.

— Espera que eu te falo.

Estas e análogas vozes abafavam num rumor tumultuoso as agudas declamações do «director do correio», o qual obrigou Henrique a passar para dentro da teia, para se salvar das ondas populares.

Henrique estava achando igualmente curiosa a indignação do homem e a alvoroçada ansiedade do povo.

Há de facto poucas cenas tão animadas, como a da chegada do correio e da distribuição das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos sobrescritos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um observador, que estude atento as impressões que essa leitura opera nos semblantes dos que ávidos a escutam, como que vê levantar-se uma ponta de cortina, corrida a ocultar-nos as cenas da comédia ou da tragédia da vida de cada um.

Que hora de comoções aquela, em que se abrem as malas, onda vêm encerrados porventura os destinos de tantas famílias ! Quantas vezes verdadeira boceta de Pandora, de onde se espalham as desgraças e os pesares ! Nas grandes cidades dispersam-se estas comoções ; passam-se no recato dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porém das vêzes, em que têm segurado com mão trémula na correspondência, que o correio lhes traz; no ansiar do coração com que lhe rasgam o selo; nas lágrimas ou sorrisos com que lhe interrompem a leitura; no irresistível movimento de desespero com que a amarrotam depois, ou nas expansões apaixonadas com que beijaram c nome que a subscreve; lembrem-se disso, multipliquem depois esses afectos todos, despojem- -nos das reservas que a etiqueta impõe às classes mais civilizadas, façam-nos manifestarem-se num mesmo momento e num mesmo lugar, e digam se concebem muitas outras cenas, em que mais sentimentos e paixões se agitem em luta travada.

Chegou enfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao mostrador, onde pousou a maia. O «director», depois de tossir, de assoar-se, de suspirar e de limpar os óculos com umas delongas, que formavam com a ansiedade do povo um contraste desesperador, abriu neumáticamente o saco, extraiu um não muito volumoso maço de cartas, que despejou num cesto de vime, e tomou apontamentos.

Era digno do pincel de um artista aquele grupo de fisionomias, que seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bocas abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para receber o menor som, tudo caracterizava profundamente a ansiedade que lhes dominava os ânimos.

Mestre Bento Pertunhas achou a ocasião apropriada para dizer a Henrique : — Pois, senhor, eu nasci para artista, quase sem mestre aprendi a tocar trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e expressão.

Henrique volveu o olhar para o auditório ; apiedou-o a consternação daquelas fisionomias. Resolveu valer-lhe.

— Tem a bondade de ver se há alguma carta para mim ? — Ah ! pois já as espera hoje ? — Não é provável; porém...

Mestre Bento Pertunhas, em vista disto, começou em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescritos.

Seguiu-se novo e não menos interessante espectáculo.

A cada nome proferido, erguia-se quase sempre uma voz, às vezes um grito ; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos acrescentar, ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.

Outros, os não nomeados ainda, olhavam com ansiedade para o maço. que diminuía, e cada vêz mais se lhes assombrava o semblante.

— Luisa Escolástica, do lugar dos Cojos — lia o mestre Pertunhas.

— Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem! — exclamou uma mulher jovem, apoderando-se avidamente da carta.

— Joana Pedrosa, de Serzedo — continuava — Aqui estou ; será do meu Antônio, senhor ? — disse uma velha, pobremente vestida.

— Será do seu Antônio, será — respondeu o insensível funcionário ; — o que lhe posso dizer é que traz obreia preta.

A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo aquelas sinistras palavras. Apanharam-lha; e ela, tomando-a, saiu da loja, a chorar lastimosamente.

— Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que há-de ser dela — dis;e um dos circunstantes.

— Coisas do mundo ! — respondeu outro.

Estes comentários foram interrompidos pela continuação da leitura.

— João Carrasqueiro.

— Pronto, senhor — bradou um velho.

— A mesada, hem ? — disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos óculos. — O rapaz não se esquece.

— Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saído.

— D. Madalena Adelaide de...

— É a morgadinha, é a morgadinha — disseram a um tempo muitas vozes.

— Agradecido pela novidade ; era cá muito precisa a explicação — disse o Pertunhas : e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de fazer a distribuição a quem a podia gratificar, acrescentou : — Leve-lha a casa.

E prosseguiu: — Augusto Gabriel...

— É o mestre-escola...

— Ora fazem o favor de estar calados ! Esta .. como ele vem por aqui... pode ficar... ainda que... será melhor levar-lha a casa, leve, leve também...

— João Cancela.

— É o João Herodes.

— Esse foi a Lisboa.

— Então, quando vier, que apareça.

— O tio Zé-Pereira ficou de receber as cartas. É compadre dele.

Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé-Pereira que se ocupe com o seu zabumba e deixe lá os outros.

A leitura mais ou menos acompanhada destes diálogos prosseguiu, redobrando de momento para momento a ansiedade dos que iam ficando.

Um fundo suspiro, uníssono, melancólico, expressivo de desalento, seguiu-se à leitura do último nome e às poucas palavras, com que o funcionário fechou a tarefa.

— E acabou-se.

Os que ainda estavam na loja saíram cabisbaixos, morosos e com tão má vontade, como se ainda tivessem esperança de comover a inexorável sorte.

Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por muito tempo, a narração dos seus passados triunfos artísticos, das suas amarguras presentes no magistério, e das suas esperanças em melhoramentos futuros. Entre as ambições mais inquietas do mestre, a de obter o lugar de recebedor de comarca, próximo a vagar por a morte iminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.

Depois de várias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu interlocutor, e continuou o passeio, que este episódio interrompera, tão satisfeito e distraído, que nem apreensões lhe causava a idéia de trazer as botas humedecidas pelas ervas do caminho, idéia que, em outra ocasião, bastaria para o fazer doente.

Ladeava ele um campo, cingido de altas silvas, a procurar saída para a devesa, da qual um fundo vaiado o separava, quando lhe pareceu ouvir um rumor de vozes, como de alguém, que conversasse perto dali.

Parou a certificar-se.

Não se enganara. Era do outro lado da sebe, e na devesa, para onde tentava passar, que se estava falando.

Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma cena, que lhe moveu a curiosidade.

Um grupo de crianças e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com religiosa atenção, a leitura que uma senhora jovem e elegante lhes fazia das cartas, que elas para esse fim lhe davam. A senhora estava montada, não como romântica amazona, em hacaneia fogosa, mas modesta e simplesmente num digno exemplar daqueles pacíficos animais, a que Sterne não duvidou dedicar algumas palavras de simpatia nas suas páginas mais humorísticas, e que Pelletan incluiu entre os colaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a perífrase, em uma possante e bem aparelhada jumenta.

À roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade às ancas e ao pescoço do imóvel quadrúpede.

A leitora segurava no colo a mais pequena e a mais nua das crianças do rancho.

Lia com voz agradável e sonora ; e, graças à serenidade da manhã e ao sossego do lugar, ouviam-se distintas, à distância que ficava Henrique, as palavras que ela pronunciava lentamente, como para as deixar penetrar bem na inteligência do auditório.

Henrique reconheceu muita desta pobre gente, por a mesma que, momentos antes, vira na casa do correio.

Mas as suas atenções voltaram-se com especialidade para a leitora.

Era uma mulher muito nova ainda. uma graciosa figura de mulher, suave, elegante, distinta, um desses tipos que insensivelmente desenha uma mão de artista, quando movida ao grado da livre fantasia ; a cor, essa cor inimitável, onde nunca dominam as rosas, mas que não é bem o desmaiado das pálidas, encarnação surpreendente, a que ainda não ouvi dar nome apropriado.

Os cabelos em fartas trancas, em ondas naturais, não de todo pretos, porém, mais distintos ainda dos louros ; a estatura esbelta, sem ser alta ; o corpo flexível, sem ser lànguido ; um vulto de fada, enfim, com a majestade, com a graça que deviam ter estas criações da poesia popular, se fosse certo tomarem a forma de virgens, para matar de amores.

Não se concebe atenção tão distraída, que esta mulher não fixasse ; olhos, que se não voltassem para segui-la, depois de a ver passar ; coração, que não se perturbasse na sua presença.

Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no colo e punhos apenas por colarinhos lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente dos ombros um xale de casimira escura, sem lhe ocultar as belezas da airosa conformação ; o chapéu de palha de largas abas, cobrindo-lhe a cabeça, espalhava pelo rosto as meias-tintas, tão favoráveis às belezas delicadas.

Henrique compreendeu logo a significação da cena, a que, tão inesperadamente, viera assistir. Aquela mulher parara ali, para 1er a essa gente, pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.

Também era caridade a acção, muito mais cumprida com o bom modo e com o carinho com que ela o fazia.

Henrique aplicou a atenção.

— ...«E por isso, minha mãe» — lia ela — «se Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa terra e darei remédio a tudo. E não me fale vossemecê mais em vender o cordão e as arrecadas. Diga ao senhorio que tenha paciência, que eu satisfarei a tudo».

Aqui a leitora parou para perguntar: — Então que história é esta das arrecadas, Ana? — É, senhora, que o aluguer estava vencido...

— E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho ? — Ora, senhora, bem basta o que...

— Fez mal. Estar a afligi-lo com estas coisas ! Ele que precisa de toda a coragem! E continuou a 1er a carta, no meio das lágrimas e das expansões de alegria da ouvinte, mais interessada nela.

Acabando, deu um beijo na criança, que tinha ao colo, e estendeu a mão a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos de consolar. Não se falava ali senão de contratempos, de reveses e desesperanças. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para mitigar a dor e enxugar as lágrimas, que ela estava produzindo na pobre mulher, a quem era dirigida.

Após esta, ainda outra e outra ; uma do marido para mulher ; outra de filho para mãe ; outra de noivo para noiva.

Foi com o riso nos lábios e inofensiva malícia nas inflexões da voz e no olhar, que ela decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados conceitos amorosos, que ainda ditou uma paixão.

A noiva corava, sorria ; mas, no meio da sua modesta turbação, era evidente que estava exultando de júbilo.

com esta terminou a leitura.

Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o gracioso grupo na carteira, que trazia consigo. Não pôde, porém, deixar de dar-lhe urti sabor de Idade Média, substituindo a jumenta por um palafrém de pura raça e dando à donzela, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma castelã rodeada dos seus vassalos.

Não lhe bastou o natural do quadro, quis revesti-lo de um figurino de convenção. Perdoe-lhe a arte, que julgou servir.

Depois de distribuir mais alguns beijos pelas crianças, a gentil rapariga passou a que tinha no colo para os braços da mãe e partiu rodeada de agradecimentos e bênçãos, perdendo-a Henrique de vista, por entre as árvores do caminho.

Aquele tipo delicado de mulher, aquela singeleza do apurado gosto, em que não podiam enganar-se olhos conhecedores, como os dele, aquela preciosa pérola ali na aldeia ! em uma terra para chegar à qual era necessário fazer uma comprida e laboriosa jornada ! De onde viera ela e como? que nuvem a trouxera? que viração a transportara ? Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia, para esclarecer-se, interrogar alguém do grupo, já não ia a tempo ; tinham dispersado.

Conseguiu finalmente passar para a devesa, e foi sentar-se no lugar, em que lhe aparecera a visão, e aí se demorou algum tempo; mas lembrando-se de que eram quase onze horas, levantou-se para não faltar às promessas feitas à tia Doroteia, e que eram: a de visitar as senhoras do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio-dia, para não transtornar a regularidade dos hábitos domésticos em Alvapenha.

Pediu pois a uma criancinha que passava, que o guiasse à quinta do Mosteiro, e ai chegou depois de um quarto de hora de caminho.

IV casa do Mosteiro, com a quinta anexa à casa, como o dava a entender o nome, pelo qual o povo a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem monástica.

Era um destes conventos campestres, que hoje ou se encontram em ruínas ou transformados em solar de alguma «notabilidade» provinciana.

Ao de que falamos coubera o último destino.

Incluído, depois do acto ditatorial de 1834, na lista dos bens nacionais, fora, por insignificante preço, vendido a um modesto proprietário das imediações, mais arrojado do que os vizinhos, ou mais convencido da estabilidade da nova ordem de coisas politicas, que se inaugurava no País.

E em tão auspiciosa hora lhe acudirá aquela inspiração, que, em pouco tempo, lho restituía a quinta o capital empregado, regalando-o todos os anos com não calculados juros, e ele, sem intermitencias, cresceu daí por diante em prosperidade a ponto de deixar, ao morrer, a família no número das mais abastadas daquela terra.

A propriedade do Mosteiro, apesar de vários melhoramentos e reformas efectuadas nela, oferecia, ainda claros, muitos vestígios de seus primitivos usos. Não era raro encontrar-se, aqui e ali, em pé uma cruz de pedra marcando antigos lugares de devoção ; no alto de algumas portas conservava-se visível o emblema e divisa da ordem, ou restos de inscrições latinas ; nas paredes de arcaria, em que se apoiava a face posterior do edifício, mantinha-se ainda um azulejo contemporâneo dos frades ; finalmente resistira a sucessivas reformações certo colorido monástico, que só após muitos anos se dissiparia de todo.

Entrava-se para a propriedade por uma larga, comprida e majestosa álea de sobreiros seculares, alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados, por pouco trilhada, crescia espessa e verdejante. Abria-se, ao fim desta rua, o alto portão do pátio.

Henrique, deixado só pelo guia ao chegar ali, foi caminhando vagarosamente por esta avenida, dominado por a íntima comoção e sentimento quase de temor, que se apodera de nós, em todos os lugares a que se ligam memórias do passado.

A fantasia estava-o transportando a tempos, a que não chegavam já as suas recordações, às épocas, em que, por entre estas árvores gigantes, se via passar, como um fantasma, o hábito escuro do monge, cuja sombra o Sol, ao declinar no horizonte, tantas vezes projectou, esguia e estirada, ao longo daquela mesma avenida.

Impressionado por esta ordem de pensamentos, chegou Henrique ao portão, transpondo o qual se introduziu no pátio. Era um largo terreiro de perfeita forma rectangular, limitado ao fundo pela fachada da casa, e lateralmente por elevadas paredes, armadas à maneira de panos de Arras, com tapeçarias de vigorosas heras. A cada uma das paredes encostavam-se dois tanques de vasta capacidade.

No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as feias e enormes carrancas de todos estes quatro tanques grossos jorros de fresca e puríssima água ; porém as medidas económicas do último proprietário e as exigências dos seus projectos agrícolas haviam derivado para outros fins, parte desta abundante veia, de maneira que três daquelas bacias estavam agora completamente a seco.

Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietárias, os funchos odoríferos, havia muito que tinham invadido a boca dos encanamentos inúteis onde encontravam asilo lagartos, aranhas e miriápodes, e se estabeleciam pacíficas colônias de caracóis.

A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notável pelo lado arquitectónico.

A arte não tivera fadigas ao concebê-la ; o cinzel pouco se embotara a executá-la; nem uma coluna singela, nem um florão, nem um tímpano lhe davam a menos pretensiosa aparência monumental.

Imagine-se uma vasta casaria de um andar além do térreo, com muitas janelas do peitoril e uma só varanda de pedra sobranceira à porta principal ; acima do telhado uma espécie de água-furtada de construção evidentemente posterior e aconselhada aos proprietários modernos por conveniências de acomodação doméstica; e ter-se-á concebido o edifício.

Enquanto Henrique se ocupava a examinar estas particularidades, um velhito que sentado em um banco de pedra, que havia à porta de casa, se estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro do recém-chegado, tossindo e arrastando os passos.

Junto de Henrique, o velho, de aparência meia rústica, meia urbana, depois de o saudar com grave cortesia, que deixou a descoberto o «solidéu» fradesco com que resguardava a fronte calva, perguntou se havia alguma coisa em que o pudesse servir.

Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, que disse procurar as senhoras, com nova cortesia lhe fez sinal para que o acompanhasse, e ambos atravessaram o pátio em direcção da casa.

No portal o velho afastou-se de lado com toda a deferência para deixar passar Henrique ; em seguida abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e, voltando-se, pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de anunciar. Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete de visita, cuja significação teve de explicar, porque o velho não a compreendia bem.

Afinal, porém, retirou-se por outra porta, levando o bilhete.

A sala, em que Henrique ficou esperando, era tôda mobilada com pesadas cadeiras de couro lavrado e alto espaldar, mesas de pés em espiral, e pelas paredes alguns enegrecidos retratos de frades, pertencentes provavelmente aos antigos proprietários do mosteiro.

No momento em que o velho servo, que era uma espécie de feitor honorário da casa, abriu outra porta da sala, para ir anunciar à família a visita de Henrique, chegaram aos ouvidos deste, de mistura com um tinir de louças e de cristais, as vozes e risos de crianças, que falavam ao mesmo tempo. com a entrada do velho produziu-se um certo silêncio, e após uma voz de mulher, de timbre fresco e agradável, disse audivelmente e como em resposta às palavras do criado: — Ora as etiquetas com que esteve, Torcato! Mande entrar para aqui.

O feitor parece que resmoneou não sei o quê, a que ainda a mesma voz redarguiu: — O que não é bonito é fazê-lo esperar. Ande, vá.

Torcato — chamemos-lhe assim, visto que assim lhe chamaram — apareceu outra vez e fez sinal a Henrique, de que o esperavam na sala imediata.

Henrique que pressentiu ir achar-se na presença de uma mulher nova e porventura bonita, correu, com instinto de perfeito homem de corte, os dedos pelos cabelos, afagou o bigode, ajeitou ràpidamente o laço da gravata e entrou.

Era completo o contraste deste aposento com o primeiro ; transpondo aquela porta dissipava-se todo o perfume antigo, todo o carácter de vetustez, que até ali reinava em tudo. Era moderno o estuque do tecto, modernissimo o papel que forrava as paredes, e a mobília tôda de um cunho de actualidade, visível aos olhos menos pesquisadores.

como para tornar mais frisante o contraste, a presença do velho feitor estava aqui substituída por a de duas crianças, a mais velha das quais mal passaria dos seis anos.

O reposteiro, que caiu atrás de Henrique, foi como que uma cortina corrida sobre o passado. A porta, que ele transpusera, a barreira que separava dois séculos.

Sentadas no topo de uma longa mesa de jantar, coberta de louça fina inglesa, estavam as duas crianças qué dissemos, com os seus babeiros brancos e tendo cada qual defronte de si um prato de odorifera sopa. Em pé, à cabeceira, presidia ao lunch infantil uma mulher, de quem Henrique só pôde notar vagamente os contornos gerais do corpo e não as particularidades das feições, porque, ficando voltada de costas à luz das janelas, velavam-lhe o rosto umas meias sombras que não favoreciam o exame.

Ao ver entrar Henrique, ela disse-lhe jovialmente : — Na aldeia a sala de recepções é aquela em que a gente se acha, quando lhe anunciam uma visita. É assim pelo menos que eu compreendo o viver do campo.

— E é assim que eu o aprecio, minha senhora — respondeu Henrique, aproximando-se da mesa.

As crianças, interrompendo a refeição, fitavam o recém-chegado com aqueles olhos espantados e penetrantes, com que elas, prontamente, e quase sempre com a certeza de um verdadeiro instinto, decidem para si das simpatias ou antipatias de que lhes é merecedor um estranho, a quem vêem pela primeira vez.

A mulher, que presidia ao banquete não suspendeu com a entrada de Henrique, a ocupação doméstica, na. qual estava empenhada. Mostrava receber-lhe a visita com um perfeito «à-vontade», que nada tinha porém de afectado.

— Não sei se V. Ex.ª sabe... —ia dizendo Henrique, quando, ao chegar perto dela, parou sùbitamente em meio da frase.

Na mulher, que estava diante de si, reconheceu a leitora da devesa, a interessante rapariga que tanto o preocupara.

Era ela, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabeça, agora melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um primoroso modelo, e os cabelos penteados com tanta graça como singeleza. Em vez do longo xale de casimira, trazia agora uma espécie de jaqueta, curta e larga, apertada por alamares, de forma pouco mais ou menos semelhante à que, na nomenclatuia das modistas, nomenclatura quase sempre absurda, e de mau gosto, teve depois a imprópria e desastrada denominação de zuavo! A surpresa de Henrique não passou despercebida a quem era causa dela e que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interrogação.

— Perdão, minha senhora — disse Henrique, compreendendo aquele gesto — mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que já me não era estranha.

— E sou eu essa pessoa ? — É V. Ex.» efectivamente.

— Pois já nos vimos? — Já... quero dizer, eu já vi V. Ex.ª.

— Pode ser ; pela minha parte confesso-lhe que me não lembra de o ter visto nunca. Apesar disso sei que é o Sr. Henrique de Souselas, sobrinho daquela boa senhora de Alvapenha, a tia Doroteia; não é verdade ? — Eu próprio. O conhecimento que tenho de V. Ex.' não é antigo também ; data de algumas horas apenas.

A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contraiu levemente as sobrancelhas bem desenhadas, fez um movimento de lábios e deu à cabeça uma ligeira inclinação sobre o ombro, de onde resultou para aquela gentil fisionomia a mais adorável expressão de estranheza, que pode animar um semblante de mulher.

— Esta manhã — prosseguiu Henrique, a quem os encantos daquele gesto não tinham passado despercebidos — assisti a uma cena comovente.

O lugar era uma devesa ; uma jovem senhora... jovem e... e com outras qualidades, além desta, para excitar atenções, lia, em voz alta, as cartas que algumas pobres mulheres do povo acabavam de receber pelo correio...

Ela não o deixou continuar.

— Ah ! entendo agora. Viu-me ?já andava por fora? Não o supunha assim madrugador. Mas onde estava tão escondido? Vejo que é indiscreto.-- Não admira, hábitos da cidade. É verdade, é. Aquela gente encontrou-me no caminho quando eu voltava de uma visita a uns parentes pobres, e não me deixou sem que eu lhe abrandasse a ânsia de coração que a afligia. Coitados ! Que havia eu de fazer ? Diga-me, já pensou no suplício que deve ser olhar a gente para uma folha de papel escrita, na qual sabemos que se fala de uma pessoa querida, e não ter poder para decifrar aquele enigma ? Que martírio ! Eu por mim, confesso que me falta o ânimo para recusar pedidos daqueles, como me faltaria para negar uma gota de água ao desgraçado que visse a morrer de sede. A crueldade seria quase igual. Não lhe parece? Henrique formulou um galanteio, que ela porém não ouviu, entreuda já a escutar o que uma das crianças lhe dizia.

— Lena, olha a Anica, que está a deitar a sopa dela no meu prato.

— Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ela que primeiro a deitou no meu. Não tem vergonha de mentir ! — Então ! — disse Madalena, que a este nome correspondia a contracção familiar, de que se serviam as crianças. — Olhem agora se têm juízo. Vejam se querem que eu vá dizer à mama que venha para aqui.

— Não é ela a mãe, visto isso — pensou Henrique, como quem modificava uma opinião que concebera antes e folgava com a modificação.

— Será irmã? Talvez... Ou mestra... É mais provável que seja mestra. Esta mulher foi decerto educada na cidade. Tem uns ares distintos...

E elevando a voz : — V. Ex.ª está-me recordando uma cena de um precioso livro, que nunca me canso de 1er.

— Qual é ? — Werther.

— Ah! — Conhece ? — Conheço... quero dizer, li-o, por acaso, há pouco tempo. Compara- me a Carlota? É por estar a distribuir as rações destas crianças? Que mulher há que não seja Carlota, nessa parte? Em todas as casas se passa uma cena assim. Bem se vê que não tem família.

— Porquê ? — Por lhe fazer tanta sensação o espectáculo desta.

— É certo — respondeu Henrique com melancolia. — Deve ser essa uma das causas ; mas nao a única — acrescentou galanteadoramente.

E, de si para si, estava encantado de saber que a sua interlocutora tinha lido Werther.

Madalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe : — Então que lhe parece esta nossa aldeia ? — Um jardim. Ontem, ao chegar, confesso que me foi desagradável a impressão recebida. Nem admira; a noite, o frio, a chuva, o cansaço. Esta manhã, porém, a transformação foi completa. Estou encantado, fascinado ! Numa palavra, minha senhora, eu, cidadão em corpo e alma, reconciliei-me em poucas horas com a vida do campo.

— Desconfie da mudança rápida. Hábitos radicados, qualidades ou defeitos de educação não se perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirará por Lisboa outra vez.

— Talvez não. Hoje estou até em acreditar que tinha razão o doutor, que me prometeu a cura das minhas doenças, se me costumasse deveras a estes hábitos campestres.

— Ai, prometeram-lhe isso? E espera costumar-se? — Porque não? Hoje já almocei às sete horas, já andei mais do que uma semana inteira ando em Lisboa. E ainda tenho por ver as raridades da terra.

!— As raridades ? ! E que raridades sao essas que ainda tem para ver? A nossa pobre aldeia não lhe merece essa ironia.

— Então acha tão pouco curiosa esta terra ? Do quase nada que dela observei esta manhã, parece-me até...

— Ai, se fala da natureza, e outra coisa. A cada passo se encontra um ponto de vista que nos obriga a uma exclamação. Mas há por aí certos cicerones, que insistem em mostrar aos hóspedes as belezas da arte. Peça a Deus que o livre desse flagelo.

— V. Ex.* assusta-me. Embora ; se lhes cair nas mãos, farei por achar curioso o que eles acharem. Vai ser esse o meu sistema de cura.

Interessar-me por tudo o que a um homem da aldeia interessa. Foi o regimen que me prescreveu o médico, quando me receitou o campo, a título de emoliente ; se o seguir, salvo-me.

— E nao o diga a rir. Se quiser prender-se à aldeia, abjurar os atractivos da cidade, deve rustificar-se em tudo ; principiar por cultivar o interesse por as questõezinhas da terra; deve, por exemplo, declarar-se pelo abade contra a junta de paróquia ou pela junta de paróquia contra o abade ; ralhar do regedor na questão com os taberneiros ou defendê-lo. Enquanto não chegar a isto, desconfie da sua aclimação.

— Farei por consegui-lo o mais depressa possível. Outra coisa necessária é deixar-me convencer ingènuamente dos inexcedíveis dotes de espirito das notabilidades da terra, o que é de rigor; estar em perpétua admiração diante de uns certos nomes famosos que há sempre em todas as terras pequenas, e que nos atiram à cabeça a cada momento.

Por exemplo, aqui já sei de um, com que encherei a boca a propósito de tudo ; é o de uma célebre morgadinha dos Canaviais, pessoa em quem oiço falar, desde que pus os pés, ou por mim a alimária que me trouxe, neste produtivo torrão.

Madalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo isto.

— Então com que, tem ouvido falar muito nessa morgadinha? — Oh ! mas não faz idéia ; de uma maneira desesperadora. Não há pinhal, quinta, azenha, choça ou lameiro que não pertença a essa entidade, para mim desconhecida. Este nome anda-me já nos ouvidos, como um estribilho de cantiga popular; na estrada, nos campos, em casa de minha tia, na loja do correio, em tôda a parte o oiço pronunciar.

Parece que voga nos ares.

— Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer a pessoa.

— Qual ! tem-me impacientado a ponto de nem perguntar por ela.

E demais parece-me que a estou a ver.

— Ora diga. Então como a imagina ? Anica, não tens aí um guardanapo ? — como a imagino? Imagino-a uma morgada, e está dito tudo; uma senhora nutrida, a rever saúde por todos os poros, encarnada como uma romã, sobre quem os vestidos à moda assentam como pendurados de um cabide, as mãos cheias de anéis, meias luvas de retrós, um chapéu com uma cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabeça... V. Ex.a ri-se? Acertei? — Parece-me. que sim ; mas julgue-o por si já que tem à vista o oriqinal.

— como ? ! — A morgadinha dos Canaviais, sou eu.

— Vossa excelência !...

Henrique de Souselas, apesar do seu uso do mundo, esteve por muito tempo sem saber como sair da situação em que se pusera.

Madalena ria com tôda a vontade ; os pequenos riam, por contágio, sem saberem de quê. Tudo aumentava pois a confusão de Henrique.

— Ora confesse — insistia cruelmente Madalena — confesse que o está lisonjeando a exactidão das suas conjecturas.

Henrique teve enfim uma lembrança. Tirou do bolso a carteira, em que, horas antes, esboçara rapidamente a figura ei beltà da morgadinha, rodeada das mulheres do povo, e mostrando-lha, disse : — Veja V. Ex.a se esse esboço, apesar da sua imperfeição, está de acordo com a estúpida concepção que eu formara.

Madalena lançou a vista para a carteira e sorriu.

— Ah ! desenha ? — Quando os modelos tentam, tenho dessas ousadias. Os resultados são lastimosos, como estes. Perdoe-me o original, que julguei possível copiar, o desacato, mas...

Madalena fitou em Henrique um olhar penetrante.

— Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo adverti-lo de uma coisa, Sr. Henrique de Souselas. Não há nada tão mal empregado como uma fineza no campo. Tudo quer o seu lugar. Em Lisboa talvez o achasse pouco delicado.,, ou pelo menos pouco amável, se me não dirigisse dessas frases conceituosas e bonitas. Vive-se disso lá. Aqui acho-as afectadas e inúteis... Que quer? Influências da cena. Há tanta sem-cerimónia no campo ! Aqui todos nos tratamos como parentes : há-de ver.

Não repara como eu o recebo numa sala de jantar, sem nem sequer tirar os babeiros a estas crianças? Olhe lá que fizesse o mesmo em Lisboa...

— Então V. Ex.' já lá esteve ? — Eu nasci lá e lá me eduquei.

— Ah ! bem se vê.

— Ah? Aí está um ah, que eu desejaria muito que me explicasse.

— Não me será dificil fazê-lo. É que antes já de ouvir falar V. Ex.', só ao ver certa distinção, certa elegância de maneiras, conjecturei...

— Basta. É um ah, portanto, que tem umas poucas de más qualidades.

— Deveras ? uma interjeição tão inocente ! — Pelo contrário, é a voz mais pérfida e inconstante da nossa língua; tudo exprime, a hipócrita. O seu ah é vaidoso, adulador e iníquo pelo menos. Pela vaidade castigue-o algum resto de modéstia que ainda se abrigue no seu coração lisbonense ; a adulação competia- me castigá-la, mas perdoo-lha porque quero ainda supor que é um sintoma da doença das cidades, a meu ver, a principal doença, que o obrigou a procurar a aldeia ; da iniqüidade, da injustiça, que faz à educação que se pode dar na província, há-de convencer-se dentro em pouco, quando eu lhe apresentar minha prima Cristina, uma rapariga, que tem vivido aqui sempre e que protesta contra essa sua opinião; possui tudo quanto pode dar de bom a educação das cidades, e, o que mais vale, aquilo que lá é tão fácil perder-se depressa, uma candura adorável. É a irmã mais velha destas crianças — acrescentou, pousando a mão na cabeça dos pequenos, que comiam e conversavam um com o outro.

— Mas V. Ex.'...

— Perdão. Outra coisa. Já agora que entrei no caminho dasadmoestações, permita-me mais uma, antes de perder o ar grave, que hei-de por força ter. Não me soa bem o impertinente tratamento de excelência que me dá. Essa excelência está a pedir-me uma senhoria, pelo menos, e confesso-lhe ingènuamente que me custaria a voltar na língua uma palavra tão comprida.

— como quer então que a trate ? — Eu sei?... Olhe, uma idéia! Há pouco não me comparou à Carlota de Goethe ? Deixe-me pois adoptar urna lembrança dela. Está certo de que tratou o Werther por primo, a primeira vez que lhe falou? É um tratamento como outro qualquer; e entre nós mais justificado, porque sendo o Sr. Henrique sobrinho direito de D. Doroteia, e teimando minha tia Vitória, a mãe destes pequenos e de Cristina, que D. Doroteia é ainda uma espécie de nossa tia arredada, e como tal a tratamos, nós afinal de contas vimos a ser uma espécie de primos também.

Pelo menos assim o sustentou e decidiu ontem minha tia Vitória; e há-de ver como por primo o tratará! É um tratamento menos incómodo ; eu chamar-lhe-ei primo Henrique ; chamar-me-á, se quiser, prima Madalena, e desterraremos para sempre a antipática senhoria e excelência ; concorda ? — Aceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos o principio falso, admitido pela fidalguia em Portugal, de que « os primos dos nossos primos, nossos primos são».

— Fica pois ajustado.

— Fica ajustado.

— Bem. Mas que ia dizer há pouco ? — Nem eu já sei... Ah!... Perguntava se tinha estado muito tempo em Lisboa e o que a obrigou a vir viver para aqui.

— Isso é nem mais nem menos do que pedir-me a história da minha vida. Seja ; é um sacrifício inevitável a quem se vê pela primeira vez. Deixe-me primeiro atender a estes pequenos, que eu principio.

E, depois de partir a cada criança uma fatia de queijo, a morgadinha principiou : — A história é curta e sem peripécias, tranquilize-se. Eu sou filha de Manuel Bernardo de Mesquita e...

Este nome era o de um dos principais vultos políticos da época, e que então militava no campo oposicionista, sendo indigitado para ministro na primeira reforma ministerial, homem influente, de grande capacidade política, tendo sempre advogado no parlamento as idéias mais liberais, e militado no partido progressista.

Henrique de Souselas, que conhecia todas as personagens de importância no País, fitou Madalena com olhar estupefacto : tão longe estava de encontrar ali a filha de um futuro ministro.

— Filha do conselheiro Manuel Bernardo' V. Ex."? — Excelência ! Esquece-se da nossa convenção ? Repare ! E verdade.

Não sabia que meu pai era daqui? Eu e meu irmão Angelo, que estuda actualmente num colégio em Lisboa, somos os únicos filhos de meu pai. Nasci, como disse, em Lisboa, mas as contínuas enfermidades de minha mãe fizeram-nos vir para aqui viver na companhia dela ; aqui mesmo morreu, e aqui está sepultada. O Ângelo nasceu já nesta casa.

A morte de minha mãe deixou-me órfã aos doze anos, e incompleta a educação que ela principiara a dar-me e para a qual, se vivesse, ela só bastaria. Fui pois obrigada a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha educação. Mas, ao chegar à idade dos quinze anos, receando meu pai que os ares da cidade desenvolvessem em mim gérmenes de moléstia, que porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez para aqui, onde sempre passava alguns meses no ano, e para onde me chamavam também hábitos adquiridos em criança. Eu sou muito aldeã. Para aqui vim pois. A morte de meu tio, passado pouco tempo, impressionou profundamente a minha tia Vitória, que ficou desde então um pouco... um pouco... com pouca paciência para olhar por as coisas domésticas. Isto criou-me novos deveres ; havia aqui muitas crianças, estas duas, outras que estão lá dentro, e Cristina, que era então criança também ; ocupei-me a ajudar minha tia.

— E tão admiràvelmente, que a mais carinhosa mãe o não faria melhor.

— Dou-me bem com as crianças, dou. E a meu pai devo, em parte, o ter aprendido cedo esta ciência. Porque é uma ciência também.

— Então como procedeu o conselheiro para a ensinar? — Eu lhe digo. Meu pai tem em certas coisas umas idéias muito singulares. Excelentes as acho eu. Oh! não imagina que boa e excelente alma é a de meu pai! Era eu uma criança, tinha onze anos, talvez, quando ele, um dia, vindo de Lisboa passar aqui algum tempo connosco, me trouxe uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de Nuremberga.

Nos primeiros dias não me fartava de a ver, de a beijar, até comigo a deitava. Oito dias depois sucedia o que era de esperar, já nem dela sabia. Meu pai notou-o. — Então, Lena — aqui todos me chamam assim — já não gostas da tua boneca? — Disse-lhe eu: Gosto, mas... — Bem sei, já fizeste tudo o que tinhas a fazer por ela, e como, pela sua parte ela nada faz por ti, enfastias-te, cansas-te de conceber, a cada momento, brinquedos novos. Tens razão ; onze anos já não é idade em que o interesse se sustente com tão pouco, é necessário mais.

Ora diz-me, Lena — continuou ele — se eu te mandasse vir uma boneca que movesse os braços e os olhos, que te sorrisse, que chorasse também, que te beijasse até... —Pois há bonecas assim?—-perguntei eu, admirada.— E desejáva-la? — Oh! se a houvesse!...—Trago-ta amanhã.

Não dormi aquela noite a pensar na boneca. No dia seguinte apresentou- me meu pai uma criança de um ano, órfã de uma pobre família, que uma epidemia extinguira, e disse-me : — Aí tens a boneca que te prometi, Lena; vou confiá-la aos teus onze anos. Veremos se tens juízo para brincares com ela. É assim que eu quero que aprendas os deveres de mãe, que é a verdadeira ciência apropriada a mulheres. E o que é certo é que eu, dissipado o desgosto dos primeiros momentos, porque o tive, confesso, costumei-me a querer àquela pobre criança, fui avara nas suas caricias, troquei por ela todos os meus brinquedos, e senti-lhe do coração a morte, quando, um ano depois, ela me expirou nos braços.

Quando fui para Lisboa, já ia educada para amar crianças, Madalena contara tudo isto naturalmente, sem a menor afectação, sem deixar até de atender aos primos, o que aumentava o interessa com que a escutava Henrique.

— E assim fica sabendo quem é a morgadinha dos Canaviais — concluiu ela, desnatando o babeiro das crianças, que tinham terminado o lynch.

— É verdade, mas de onde lhe vem este título singular, prima Madalena? —perguntou Henrique, tomando ao colo uma das crianças, que a morgadinha pousou no chão.

— É que eu sou realmente a morgadinha dos Canaviais. Quero dizer, minha madrinha vivia na quinta dos Canaviais, uma quinta que fica daqui perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa ; chamavam-lhe todos a morgada dos Canaviais. Tomou-me ela afeição, e, sempre que passeasse, me havia de levar consigo ; daí começaram a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando ela morreu deixou-me tudo quanto possuía ; nesse legado entrava a quinta dos Canaviais, de que sou proprietária ainda. Foi uma como confirmação do título, que já desde criança me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, título na verdade pouco elegante e que tão mau conceito fez conceber ao primo Henrique da possuidora dele.

— Retracto-me, prima Madalena; agora que sei a pessoa aquém ele pertence, parece-me outro. Acho-o bonito, gracioso...

— Vamos, vamos. Confesse que o título não é dos mais românticos e que, de boa vontade, escreveria outro nome debaixo do desenho de fantasia que ai fez, da mesma maneira que deu à humilde e fiel jumenta, que eu montava há pouco, a conformação e orelhas elegantes de um palafrém, e quase me transformou em uma amazona inglesa.

Henrique respondeu, sorrindo: — Na impossibilidade de reproduzir as graças naturais, socorri-me ao expediente das belezas de convenção. Confesso o meu deplorável erro.

— Olhe que não estamos em Lisboa, primo Henrique. Repare para essas árvores e refreie o sestro galanteador com que está.

— Por quem é ! Nao leve o rigor a tal extremo. Tão injusta é consigo, que se recuse a aceitar, como naturais e sinceras, as frases que a sua presença inspira? — Ai, meu Deus, como refina ! Veja como essa criança, que tem no colo, o está encarando com os olhos espantados. Se ela nunca ouviu falar assim aqui ! Henrique beijou as faces da criança, movimento em que não ia uma intenção menos lisonjeira do que nas frases que dissera, porque ele percebia que Madalena era extremosa pelos seus pequenos primos.

Abriu-se, neste meio tempo, a porta da sala, e entrou, saltando, outra criança mais crescida, mas ainda de vestidos curtos, trazendo na mão uma folha de papel.

— Lena — dizia ela em voz alta. — Olha ; queres ver o que o Sr. Augusto só me emendou hoje no tema de francês? Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza para Henrique.

— Ê o Sr. Henrique de Souselas — disse Madalena. — O hóspede da tia Doroteia. Esta é Mariana, outra de minhas primas — acrescentou, vcltando-se para Henrique. — Já vê que não faltam crianças nesta casa ; e ainda há mais. É o que lhe dá o ar alegre que tem.

Mariana cumprimentou Henrique e não se constrangeu por mais tempo ; mostrando à prima a composição que o mestre lhe emendara, disse : — Ora vê que nao tive muitos erros.

Madalena sorria, examinando o tema.

Henrique ia a fazer não sei que pergunta a Mariana, quando à mesma porta, por onde ela entrara, apareceu o mestre, de quem se falava.

Augusto, que assim se chamava o recém-chegado, era um rapaz de pouco mais de vinte anos de idade: de rosto pálido e fisionomia inteligente.

Ninguém adivinharia naquele tipo um mestre-escola de aldeia.

Trajava com simplicidade, porém com asseio e gosto, e havia em tôda a sua figura certo ar de distinção, que feria quem pela primeira vez o visse.

Num leve pendor de cabeça, no olhar penetrante e fixo, e nos lábios, como habituados a fecharem-se à saída dos pensamentos íntimos, lia-se o carácter pouco expansivo daquele adolescente.

Madalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta deferência.

— como vão os seus discípulos, Sr. Augusto ? — Óptimamente, minha senhora — respondeu o interrogado.

— O Sr. Augusto — disse Madalena, apresentando-o a Henrique — o primeiro mestre de meu irmão Ângelo e hoje mestre de Mariana e Eduardo.

— Esquece-se, minha senhora — acrescentou Augusto — que de Angelo sou discípulo também, e mais discípulo do que fui mestre.

— Do que me esqueci, e, a falar a verdade, não devia, foi de que de Ângelo é efectivamente mais do que mestre, é amigo ; assim como de todos nós. Este senhor — continuou ela, concluindo a apresentação — é o senhor Henrique de Souselas, eme se esperava em Alvapenha; é ainda nosso primo.

Os dois cortejaram-se com afável delicadeza.

— Teve carta de Ângelo ? — perguntou em seguida a morgadinha.

— Não recebi ainda o correio de hoje.

— Nem nós; e é de estranhar que meu pai pelo menos não me escrevesse ! Ângelo não virá passar a festa connosco ? Pobre rapaz ! Parece que renasce quando se vê aqui. É uma perfeita criança então.

Eduardo, outro primo de Madalena, que Henrique ainda não vira, entrou neste momento na sala, trazendo um maço de cartas na mão.

Depois de cumprimentar Henrique, a quem Madalena o apresentou, disse para Augusto : — A mama deu-me essas cartas para o Sr. Augusto escolher daí aquelas que eu pudesse 1er.

— Eu verei devagar — disse Augusto, guardando-as numa pasta que trazia.

— Ah ! já temos o Eduardo a 1er cartas ! — disse a morgadinha, afagando o primo.

— Pelo que vejo — disse Henrique de Souselas, vendo Augusto em disposições de partir — tem uma vida muito ocupada ? — E tanto que sou obrigado a pedir licença para me retirar.

Tenho de ir esta tarde a casa do Seabra...

— Ai, lecciona ainda as pequenas do brasileiro ? — perguntou Madalena.

— Ainda, sim, minha senhora.

— E como vão essas mulatinhas ? Augusto encolheu os ombros, sorrindo ; gesto que não devia lisonjear a vaidade do sobredito brasileiro, se tomasse a peito os dotes intelectuais das referidas mulatinhas.

Passados segundos, Augusto retirou-se apertando a mão a Madalena que familiarmente lha estendeu, e a Henrique, que a imitou.

— Ia apostar que vai ali uma inteligência — disse Henrique ao vê-lo sair — algum desses grandes espíritos que vivem e morrem ignorados e improdutivos, porque os não aquece o sol do favor público, nem os bafeja a aura da moda caprichosa. É terra de maravilhas esta, ao que estou vendo.

— É um rapaz inteligente, é — disse a morgadinha — e uma alma generosa. Desde tenra idade costumou-se a trabalhar. Não tem família.

O pai foi um pobre e honrado advogado de um lugar perto daqui, que morreu quase na miséria, deixando-o por educar. A mãe, que era destes sítios, para aí veio, depois que viuvou. Ele tem sido, pode dizer-se, mestre de si mesmo. Dirigiu os primeiros estudos de Ângelo e hoje é o seu melhor amigo. A morgada, minha madrinha, legou-lhe um patrimônio para ele se ordenar: não quis, e preferiu ser mestre- escola. Meu pai, que lhe reconhecia inteligência para mais, tentou dissuadi-lo disso, mas nada conseguiu. Não há quem o arranque destes sítios.

— Prende-o talvez alguma paixão? — Não sei. É certo que é um professor modelo. O seu primeiro despacho foi temporário ; agora, porém, espera meu pai fazê-lo efectivo ; para o que já ele fez novo concurso. Já vê que ambições são as deste rapaz.

— Na verdade ! com muito menos fundamentos há quem aspire a ser ministro. Mas com certeza o coração entra como elemento no problema desse carácter.

— Mas ainda agora reparo ! — exclamou a morgadinha — eu esquecida a conversar, e sem avisar a minha tia e Cristina da sua chegada ! Não o fiz logo, porque as sabia ocupadas em umas longas novenas, em que andam ; mas agora é tempo. Vai Mariana, e tu, Eduardo ; ide ambos dizer-lhes que está aqui o... o primo Henrique de Souselas.

Mariana e o irmão saíram a correr.

— Vai conhecer duas boas almas — disse Madalena, voltando-se para Henrique — minha tia é uma santa senhora, cujo pior defeito é supor-se vítima dos criados; e Cristina... Cristina é um anjo.

r V HENRIQUE DE SOUSELAS sentia-se cada vez mais penetrado da simpatia que, logo à primeira vista, aquela mulher lhe despertara.

Havia na morgadinha um misto de candura e de ironia, certa delicada reserva flutuando, como uma sombra diáfana, na conversa familiar, a que tão espontaneamente se dava ; um visível conhecimento dos usos e etiquetas sociais, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por eles, como quem se sentia sobranceira a toda a ousadia, inacessível às suspeitas dos mais atrevidos : havia tantos enigmas naquela simpática índole feminina, que poucos seriam impassíveis diante dela.

A pensar nisto se ficou Henrique de Souselas, calado, imóvel, absorto, seguindo com os olhos os movimentos de Madalena, que, sem o menor constrangimento, prosseguia nas suas ocupações domésticas.

Ouviram-se finalmente passos e vozes de diferentes timbres na sala imediata.

— Elas aí vêm — disse a morgadinha.

De feito, precedidas por Mariana e Eduardo, entraram na sala D. Vitória e Cristina.

A mãe vinha dizendo : — É o que eu digo... Não que vocês não querem crer ! Ora vejam se isto se atura... se isto não é para meter uma pessoa no Inferno!...

Não tem que ver !... Não há ninguém que mais dinheiro gaste com criados e que seja tão mal servida como eu!... Eu só queria saber o que fazem os criados desta casa? Sim, só queria que me dissessem o que eles fazem, esse bando de mandriões !... Ele é o Torcato, ele é o Luis, ele é o Damião, ele é a Ermelinda, ele é a Rosa, ele é a Violante... e nao havia um só que me viesse dizer que tinha chegado o primo ! É forte coisa !... Comprometem uma pessoa ! Então como está ? — acrescentou ela, mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem estendeu a mão.

Madalena, ao ouvi-la, tinha já trocado com este um olhar malicioso.

Henrique correspondeu delicadamente à saudação das senhoras e procurou justificar os criados.

— Não mos desculpe — atalhou D. Vitória, elevando outra vez o tom de voz — aquilo é de propósito para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguém me tira isto da cabeça... Aquilo é de propósito! — Mas a marnã não vê que as criadas estavam connosco à novena ? — lembrou timidamente Cristina.

— Pois que não estivessem. Quem tem serviço a fazer não pode ouvir novenas.

— Mas se a mama é que as mandou ! — Pois sim... pois sim... mas... mas elas é que me deviam dizer nue tinharn que fazer. Então eu é que lhes hei-de estar a lembrar as suas obrigações? Não me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas então vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada? Henrique principiou a falar para desvanecer a irritação de P. Vitória.

como nós já sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos a ocasião para dizer duas palavras a respeito das novas personagens, que estão em cena.

D. Vitória, havendo atingido já a idade respeitável dos quarenta e tantos anos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descrição.

Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo, e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez. Impertinente com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente sempre que tentava forçar o espírito a abraçar alguma idéia mais complexa ; mãos rotas com a pobreza; intolerante, em teoria, com os ladrões e malfeitores, porém felizes deles se daquelas mãos lhes dependesse a condenação ; eis o que era D. Vitória. Cristina, porém, tinha dezanove anos ; e esta idade goza de privilégios, que eu não posso infringir. O leitor não me perdoaria se me visse passar estouvadamente por diante da prima de Madalena, sem um olhar de homenagem à sua juventude e ao seu tipo feminino. Reparemos pois.

Cristina era mais bonita do que bela. Não havia naquele rosto uma só feição, que não fosse correda e delicada. Tez alva e finíssima ; olhos meigos e quebrando-se com suavidade infantil ; boca, de onde parecia sempre prestes a sair um afago ou uma consolação ; voz, que da muita piedade daquele bom coração, tirava às vezes modulações comoventes ; numa palavra, uma figura de querubim, como as sonharam os mais inspirados artistas, cuja mão representou na tela os augustos mistérios do cristianismo, tal era a primogénita de D. Vitória. Mas não procurassem nela alguns daqueles atractivos, que fixam de repente e como por magnífico influxo, a atenção dos olhos, uma dessas particularidades fisionômicas, pelas quais a natureza destruindo com arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue torná-lo mais fascinador ; temperavam-se ali tão completamente todas as feições, que a atenção não se sentia obrigada a passar do conjunto delas, o que lhes diminuía muito a intensidade. É o grande senão dos rostos harmonicamente perfeitos.

Concordava-se em que Cristina era galante, ninguém lhe negaria simpatias ; mas o pensamento na ausência dela, não se sentia dominado por a sua imagem: perdia-a até num vago, quando pretendia fixá-la: eram suaves de mais as inflexões daqueles contornos, brandas as tintas que lhes davam relevo, para que a memória conseguisse reproduzir fácilmente o tipo angélico, de que lhe ficara uma agradável mas vaga impressão.

Por um homem, em que predominasse a razão, Cristina poderia vir a ser adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflamáveis, difícil lhe seria produzir alguma impressão duradoura.

Para bem se compreender a beleza de Cristina, era preciso sondar- lhe primeiro o coração, apreciar todo o tesouro de sentimentos que ali se continha ; então descobrir-se-lhe-ia nas feições certa beleza ideal, reflexo de bondade e candura, uma dessas claridades que as almas puras e generosas vertem nas fisionomias. Se nao fosse recear-me da Iinguagem que saiba a filosofia, diria que a beleza, que possuem umas mulheres assim, é uma beleza subjectiva.

De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souselas podia simpatizar com a cândida figura de Cristina, a qual baixava timidamente os olhos diante dele, corando cheia de enleio e confusão, mas que qualquer sentimento que ela lhe inspirasse não conseguiria por muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais atraentes da morgadinha — que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava contraste completo com sua prima.

Travara-se animada conversação entre as pessoas presentes, e principalmente entre Henrique, D. Vitória e Madalena.

D. Vitória quis ser informada da doença de Henrique. Este passou a fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, à que fizera à tia.

Mencionou, como a ela, aqueles vagos sintomas, aquelas tristezas, impaciencias e desalentos, que tão ingènuamente a boa senhora classificara como mania.

Enquanto Henrique falava, Madalena pôs-se a rir.

Henrique tornou para ela os olhos.

— Ó menina, de que ris tu ? — perguntou D. Vitória, com certo tom de severidade.

— Rio-me daquela doença, tia. Pois já viu alguém padecer daquilo? Ora diga? — Eu?... mas...

— Pode dizer que nao. E contudo o primo Henrique não mente.

Há daquelas doenças na cidade, há; mas na aldeia são tão raras, que eu mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo...

— Então não crê na realidade delas.

— Não lhes estou a dizer que sim ? Oiço até que já têm levado ao suicídio. Acredito-o. Os hábitos da civilização afeiçoam a seu modo a natureza humana e criam moléstias novas, que nem por isso são menos naturais. Mas que quer, primo ? A minha estranheza, ao ver um desses doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações.

É como um homem de casaca e gravata branca ; não há nada mais sério e mais grave numa sala de baile, mas coloque-mo num monte, e diga se o pode olhar a sério.

— Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.

— Tanto nao digo ; mas não o entenderão ; isso não.

— Porém a minha doença não é só dessas, que se não dão na deia, prima Madalena ; eu creio que verdadeiras desordens orgânicas...

— Ah ! também ? com esse aspecto de robustez ? !...

— Se eu sei o que tu estás aí a dizer, Lena! — disse D. Vitória, que não tinha percebido bem o diálogo.

— É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique dos os maus hábitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso o pode curar-se.

— Sujeitar-me-ei da melhor vontade a tão agradável domínio.

— Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei há pouco...

— Será necessário tornar-me grosseiro, para me salvar ? Nesse caso renuncio à cura.

— Grosseiro, não; basta que seja razoável e sobretudo...

— Acabe.

— .Acabo? eu sei? Eu às vezes sou sincera de mais.

— Eu adoro as sinceridades.

— Já que o quer... É preciso que seja razoável e sobretudo...

esafectado.

Henrique de Souselas mordeu ligeiramente os lábios, corando.

— Então acha?...

— Acho que está sempre a imaginar-se num salão ; faz uns gestos e galantaria, desnecessários e perdidos.

— Ó meninos, eu não vos entendo — repetia D. Vitória, Madalena sorriu.

— Digo eu que...

Um criado entrando com as cartas do correio, não a deixou continuar.

— Sempre chegou o correio ! — exclamou Madalena com vivaciade, recebendo as cartas. —Porque veio tão tarde? — A mulher contou-me lá umas histórias de uma queda, e...

— Coitada ! Aconteceu-lhe algum mal ? — Esteja descansada, minha senhora. Ela partiu já e era um gosto -la a correr.

Madalena abriu com presad a carta recebida.

— É de meu pai — disse ela, olhando-lhe para a letra e, depois e pedir licença, começou a 1er para si.

— Pois agora — dizia, neste meio tempo, D. Vitória a Henrique— que deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios.

As pequenas acompanham-no. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir, Cristina? — Eu ! — disse Cristma, corando.

— Tu, sim, menina. Ainda ontem me falaste nisso. Ora onde era?...

— A Senhora da Saúde, mama.

— Ai, é verdade, à Senhora da Saúde. Aí está já um passeio bonito.

e? Saem daqui uma manhã cedo, levam alguma coisa para lá comer, porque o ar do monte abre o apetite, e a cavalo estão lá num instante...

— A cavalo, mamã ! daqui à Senhora da Saúde ? Ora ! Vai-se muito bem a pé — notou Cristina do lado.

— Isso é por os açudes.

— Pois por onde havíamos de ir ? — Por a Granja, que é melhor.

— Por a Granja ! É uma légua ! — Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que até é perigoso ; e depois para que hão-de ir a pé, se para aí estão os cavalos sem fazerem nada? É vontade de se cansarem.

— Mas apetece ainda mais neste tempo. Só se... só se ali o Sr. Henriaue...

— disse Cristina, embaraçada ao continuar.

— Eu o quê, minha senhora? — Perdão — interrompeu D. Vitória. — Porque não hás-de tu chamar primo ao primo Henrique? pois não chamamos tia à tia Doroteia? — Por isso mesmo, mama — respondeu Cristina — os sobrinhos da tia Doroteia não são...

— Não averigüemos desses parentescos, priminha — acudiu Henrique — eu aceito a proposta da mama, peço para ser considerado do número de seus primos.

Cristina baixou os olhos, sorrindo.

Henrique prosseguiu: — Mas parece que receava por mim, quando falou em ir a pé à Senhora da Saúde. Não sei onde é o lugar, mas desde já me comprometo a não cansar.

— Não tem que saber — disse D. Vitória, caminhando para ume janela. — Ela lá está. Olhe que ainda é necessário saber trepar.

— Tendo duas tão galantes companheiras de viagem — tornou Henrique, depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distância dali, o mesmo que o almocreve lhe mostrou — parece-me que daria a pé uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.

— O que eu lhe digo, primo — acrescentou D. Vitória — é que se acautele, porque se lhes vai a fazer todas as vontades, tem que ver.

— Ainda que morresse em tão agradável serviço, teria de agradecer a Deus a morte.

— Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento — disse Madalena, que continuava a 1er. — Logo ajustaremos contas.

— É implacável esta nossa prima, não acha? — perguntou Henrique, sorrindo, a Cristina, que por única resposta só soube sorrir também.

— Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não há que fiar no tempo. Eu se pudesse também ia, mas já não são passeios para mim, e depois estes criados...

Henrique de Souselas receou nova divagação sobre o assunto predilecto de D. Vitória ; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando a leitura da carta: — Escreve-me o pai que tenciona vir passar connosco as férias do Natal e trazer Ângelo consigo. Promete demorar-se até ao dia dos Reis.

As crianças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem inveja a um clown de circo.

D. Vitória zangou-se.

— Então que pouca - vergonha é essa ? Parecem-me um bando de patetas ! Ora vamos ! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca há-de fazer a sua obrigação ! As crianças reprimiram um pouco mais as expansões de seus júbilos, mas ainda ficaram cantando a meia voz, em música de composição delas, o seguinte: — Vem o primo Ângelo ! Vem o primo Ângelo ! Ora viva, viva ! Ora viva, olé ! — Psiu ! Calai-vos ! — bradou ainda D. Vitória ; e voltando-se para Madalena: — Mas então como se entende isso, Lena? Então o pai diz que vem...

— Nas vésperas do Natal.

— Sim, nas vésperas do Natal, e vai...

— Depois dos Reis.

— Sim; está bem; e... sim... e então o Ângelo?...

— O Ângelo vem com ele. Quer ver a carta? — Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão... Então...

— Não há nada menos confuso... É só isto.

— Sim ; pois agora, sim ; agora está bem claro. Calai-vos, diabretes ! Oh meu Deus, quo consumição ! Mas então porque não entregou o criado há mais tempo essa carta ? Eh ! não que vocês dizem que eles...

— Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou, porque...

— Histórias ! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre prontos para desculpá-los. São eles...

— 0 Lena, Lena — diziam as crianças — o primo Ângelo não torna para Lisboa? — Há-de tornar.

— Ora! — Olha lá, ó Lena — disse D. Vitória — sabes tu o que me lembra?...

Mas eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma vez que teu pai vem com o pequeno... e... está agora cá o primo Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para consoar... A prima Doroteia também, e aqui o primo; mas era se...

uma perfeita ovação acolheu o projecto; as crianças levaram as suas demonstrações de entusiasmo até ao delírio, penduraram-se ao pescoço, à cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo: — Ai, sim, mama, sim ; mande convidar a tia Doroteia, mande ! E há-de ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presépio... e... e...

e havemos de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por as alminhas ; ora mande.

D. Vitória fingia arrenegar-se com aquela pequenada, e erguia o braço, como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe o riso dos lábios.

— Saiam daqui ! — exclamava ela, quando conseguiu estar séria.

— Saiam!... Não ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, não fazem caso ? Ora esperem... Mariana, já dévias ter mais juizo... Então, Eduardo ! Tu também ? Não tem vergonha ! Um homem quase ! Saiam daqui, estafermos !

A idéia das consoadas em familia fora uma idéia, que a ninguém deixara impassível. Cristina, a tímida Cristina, não disfarçou um movimento de júbilo ; as mãos juntaram-se-lhe instintivamente, e raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.

A própria Madalena não se mostrou superior àquela tocante puerilidade.

Aproximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe afectuosamente : — Ora aí está o que é muito bem-pensado.

— Pois sim, sim, mas o pior é... os criados — disse D. Vitória.

— Quem fala nisso ? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós. Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia Doroteia.

— Isso é que é a pérola das criadas ! Oh ! aquela prima Doroteia, aquela sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu...

Bem se importam os de cá com a Maria.

— Não tem dúvida. Naquela noite quanto mais barulho e desordem, melhor — aventurou-se a dizer Cristina, com ímpeto revolucionário.

— Aí temos outra ! Não, filha ; isso é que não. Para barulhos é que eu já não estou. Então, não.

— Está resolvido — disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da tia. — Aqui o Sr. de Souselas — acrescentou, com maliciosa inflexão — fica desde já encarregado de transmitir à tia Doroteia o nosso plano e, desde já, oficialmente convidado.

— Aceito da melhor vontade.

— Não sei se o deva dizer. É preciso que o avise de que naquela noite todos têm de trabalhar na cozinha ; a ninguém se dispensa, um minuto, pelo menos, de colaboração nos guisados. Por isso veja lá...

— Ó menina, tens coisas ! — disse D. Vitória. Deixe-a falar, primo.

— Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguém.

Júlio Dinis Júlio Dinis

Um grupo de crianças e de mulheres do povo escutavam...

— E eu prometo não me recusar. Prontifico-me a tornar detestáveis os pratos em que puser a mão. Que mais querem? Foi alegremente acolhida a promessa.

As crianças, familiarizadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado um humor jovial, o que é sempre para elas um motivo de atracção, trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas, dificultando-lhe as respostas.

— Havemos de jogar o rapa, não havemos ? — Havemos de jogar, havemos — respondeu Henrique.

— E o par ou pernão ? — Também ; também havemos de jogar o par ou pernão.

— E?...

— Tudo, tudo ; havemos de jogar tudo.

— Olhe : e sabe contar histórias ? — Sei também contar histórias.

— Então há-de contar-nos, que nós também lhe contamos a da Gata Borralheira, a da Maria de Pau e a da Menina com as três estrelinhas na testa.

— Ora, o Sr. Henrique já as sabe — disse, fazendo-se sisuda, Mariana.

— Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia Y hei-de querer ouvir isso tudo.

— Ó meninos ! — exclamou D. Vitória, que até ali estiverà distraída a discutir com Madalena. — Então isso que é ? Já para baixo.

Ai, se lhes dá confiança, está arranjado, primo.

— Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar ; pegam-se.

— E não o diga a brincar — disse Madalena — que também confio nessas crianças para o curarem dos seus males.

— Então deveras empreendeu curar-me ? — com toda a certeza.

— Nesse caso havemos de discutir devagar esse ponto de patologia.

— Não havemos, não, senhor. É mau médico o que sofre que o doente o interrogue sobre a moléstia e o tratamento. O médico deve ser obedecido com fé, e cega.

Cristina que, havia muito, defronte de Madalena,, fazia esforços por lhe chamar a atenção, resolveu-se a falar-lhe.

— Lena — disse ela — que te parece a lembrança que teve há pouco a mama? — A das consoadas ? Excelente.

— Não, menina, a do passeio à ermida.

— Ah! Excelente também. Marquemos já o dia.

— Quando queres ? — Depois de amanhã, que é quinta-feira- — Seja, — Que diz, primo Henrique ? — Quando quiserem, primas; agora mesmo...

— Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada ? — Pois não viu hoje ? — Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada.

É preciso que se levante às horas, a que se deitava na cidade.

— Que estás a dizer, Lena? — acudiu Cristina.—Deixe-a falar.

Basta que saiamos daqui às cinco horas.

— Esta inocente Cristina ! Pois não é o mesmo que eu digo ? Pergunta ao primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cedo em Lisboa.

— Engana-se, prima Madalena; lembre-se de que, há perto de um ano, sou valetudinario.

— Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que há por aqui muita indolência.

— Quem a ouvir falar, há-de julgar que será ela a mais madrugadora ; ora havemos de ver — disse Cristina.

Madalena põs-se a rir.

E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse Augusto, por ser conhecedor do sítio e poder mostrar os mais belos pontos de vista.

Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa hora ao que prometera à tia Doroteia.

Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.

Henrique de Souselas, ao findar aquela manhã, era inteiramente outro do que viera para a aldeia. Todas aquelas horas se haviam passado, sem que o afligissem os males habituais, sem que nem sequer pensasse neles. O viver íntimo a que assistira, a troca recíproca de afectos entre os membros de tão numerosa família, a franqueza cordial com que fora recebido, produziram nele uma impressão profunda.

Costumado ao viver desconsolador e de gelo de rapaz solteiro e só ; não passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco artificioso e reservado, onde as famílias ante as famílias representavam a comédia social, Henrique estranhara, mas agradavelmente, o espectáculo, quase novo, daquele interior, daqueles modestos costumes, daquelas alegrias, que não se envergonham de aparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu- -lhe a idéia de ter um dia uma família assim ; de viver entre crianças que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de afectos, que ali via manifestarem-se, e até com alguém que ramasse com os criados, à maneira de D. Vitória.

Escusado é dizer que a imagem da morgadinha aparecia sempre nestes quadros que lhe traçava a fantasia : assim como, nos quadros dos grandes mestres, aparecem quase sempre reproduzidas as feições queridas da mulher que eles traziam no pensamento e a quem deram assim a imortalidade.

De manhã parecera-lhe a aldeia um paraíso terreal ; completara-o a figura de uma mulher ; sem o sorriso dela nem o primeiro homem seria feliz no éden, onde a mão de Deus o colocara.

— Anda, vagaroso, anda — disse D. Doroteia a Henrique, assim que o viu chegar. — Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.

— Perdoe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...

— Ah ! foste lá ? E então gostaste daquela gente ": — É uma família para o coração. Passa-se o tempo ali tão depressa ! A morgadinha, sobretudo, é adorável ! — Ai, ai; como ele nos vem! Olha lá no que te metes, menino! A mina boa é, mas... filho, anda ali encanto, que ainda ninguém descobriu.

Henrique fitou os olhos na tia Doroteia, que dissera isto com certa malícia.

— Que quer dizer, tia? — Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande coisa seria ; mas sempre te digo que não tomes a coisa a peito, que podes agravar o teu mal.

Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais preocupado e distraído no resto da tarde.

VI 0 leitor, se alguma vez realizou uma viagem na companhia de qualquer amigo, há-de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam juntos numa terra para ambos desconhecida, tão alheios às coisas como às pessoas, no meio das quais se vêem, nem por momentos se sofrem separados ; um segue sempre o outro em todos os passos que dá, precisa dele para comunicar-lhe as primeiras impressões recebidas, e pedir-lhe em troca as suas ; à medida porém que, pouco a pouco, se vão familiarizando mais com os lugares e com as personagens daquele mundo novo, afrouxa a constrição desses laços, e cada um principia a readquirir a independência individual que de moto próprio havia abdicado.

Um facto semelhante nos sucede com Henrique de Souselas. Encontrámo- lo na estrada ; na companhia dele entrámos em uma terra, onde tudo nos era estranho ; nada mais natural do que dar o braço um ao outro, passar juntos a manhã, e fazer, em comum, as nossas visitas.

Agora, porém, que temos já algum conhecimento da terra e da gente, é tempo de nos declararmos independentes, e sacudirmos o jugo de uma companhia forçada, a qual, embora seja de um amigo estimável, se é forçada, é sempre jugo, em certas ocasiões.

Os próprios Castor e Pólux, ou Pílades e Orestes, penso eu, haviam de ter momentos em que se desejassem sós ; se é que não deviam aos deuses a felicidade de possuírem curtos espíritos, o que nao creio.

Deixemos, pois, Henrique de Souselas entretendo com a tia Doroteia a mais pacífica das conversas que podem auxiliar a digestão de um jantar; deixemo-lo no tranquilo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um dos nossos recentes conhecimentos, que é Augusto, o mestre de Mariana e de Eduardo, aquele pálido rapaz que entrevimos na sala da casa do Mosteiro.

Ao sair dali, Augusto seguiu através de campos e à beira de vaiados, com aquele ar pensativo que lhe era peculiar.

O pouco que da história dele soubemos, pelas palavras da morgadinha, é já bastante para que nos não admire a quase incessante melancolia de Augusto.

Aos vinte anos e sem família ! com inteligência e mal podendo, à custa de sacrifícios, cultivá-la à altura das suas aspirações ! Alma generosa e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a chorar os infortúnios que via, porque a pobreza lhe negava meios de remediá-los !... não serão estas ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma existência, embora a juventude as ilumine? Havia alguns anos que esta disposição para a tristeza se exacerbara em Augusto. Coincidiu o facto com algumas circunstâncias, que convém referir.

A morgada dos Canaviais, madrinha de Madalena e de quem viera a esta o nome de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao morrer instituído um legado a favor de Augusto, então criança, com a condição de ele abraçar a vida eclesiástica. O conselheiro, pai de Madalena, devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro exame até ao da primeira missa, porque nesse lhe entregaria o capital por inteiro.

Isto sucedeu no tempo em que a mãe de Augusto, que havia dois anos viuvara, lutava com a miséria, e o rapaz, pela sua penetração e pelo entusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre règio da localidade.

Foi por todos abençoada a memória da morgada, por tão bem cabido legado, que era ao mesmo tempo que remédio às privações de uma família, prèmio e estímulo à inteligência e à aplicação de uma criança, que prometia vir a ser... Deus sabe o quê.

Ninguém se lembrou de perguntar a si próprio se a cláusula, posta pela legatária como condição à concessão do benefício, não podia ser uma crueldade que o anulasse ; se comprar um futuro por dinheiro, sem querer saber a quantidade de aspirações, de esperanças, de fantasias que sejam, a que se tem de renunciar pelo contrato, não é uma iniqüidade ; se não era uma quase simonia ir a casa do pobre, e fazendo luzir os reflexos do ouro nas sombras da miséria, propor-lhe trocar por estes tesouros, que o fascinam, os valiosos tesouros da alma. Eu por mim abomino estes legados condicionais, que um espírito malévolo, egoísta e desejoso de dominar ainda depois da morte, tantas vezes dita; essas meigas generosidades sao às vezes a causa do infortúnio de uma vida inteira; aceites ou recusadas, é raro que depois, a cada provação que nos experimenta, uma voz interior nos não exprobre o partido que abraçamos. — « Louco ! para que hesitaste em trocar meia dúzia de fantasmas por um bem real ? Quem te mandou sacrificar a vaporosos ídolos de poetas o benefício que te ofereciam ?» — dirá ela aos que rejeitaram o pacto. — «Ambicioso ! — clamará aos outros — aí tens a felicidade que julgaste comprar à custa do que há de mais nobre na alma humana ; embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de ouro, consumindo aí as tuas mais santas e generosas aspirações». Augusto não adivinhou porém logo a crueldade da disposição testamentaria. Era muito criança ainda; e depois uma ideia nobre o preocupou ; compreendeu que ia ser o amparo daquela pobre mãe, que só podia abrigá-lo com os extremos do seu muito amor.

Seu pai, morrendo, apenas conseguira deixar uma herança: foi à viúva o dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquele legado, velando ele pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria decerto a vida.

Redobrou por isso a solicitude no aprender ; desenvolveu-se mais e mais a inteligência, quase espontaneamente, pois justo é confessar que bem rudes eram os cuidados de cultura que o velho magister lhe sabia dar. Mas quem ignora os surpreendentes efeitos que da inteligência e do estudo, da aptidão e da vontade, podem resultar? Dotem um homem dessas duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os rneios de progresso, ele caminhará, inventando-os primeiro, se tanto lhe for preciso.

E depois, é um grande alento aos espíritos superiores a consciência de uma nobre missão a cumprir. Não há fadigas que tal estímulo nao vença; abnegação, que não inspire.

A Augusto era-lhe incitamento a idéia de que sua mãe precisava dele.

Quando ainda aos seus treze anos fosse já bem conhecida a grandeza dos sacrifícios que lhe exigiam, não hesitaria talvez, instigado por aquela aspiração ; quanto mais que ainda mais lhe tinham animado os sonhos, as doces imagens, tão gratas ao coração do adolescente, e a que teria de renunciar.

Suspirava pelo dia do seu próximo exame, o qual, graças aos esforços empregados, não se fez esperar muito.

Quando se aproximava a ocasião, o pai de Madalena mandou ir Augusto para Lisboa e hospedou-o em sua casa até que chegou o dia.

Não confiando demasiadamente no ensino público da aldeia, o conselheiro quis que o "seu pequeno hóspede recebesse algumas lições de um professor da cidade, e deste obteve as melhores informações da inteligência do rapaz, que só por milagre dela conseguira sair muito pouco eivado dos vícios do ensino de campo.

Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro, Afinal fez o exame, no qual foi felicíssimo, obtendo nele as mais distintas qualificações.

Imagine-se o efeito que a notícia produziu na aldeia. Exagerando-se, dizia-se por lá que em tôda Lisboa corria a fama do rapaz, e houve até quem nao hesitasse em afirmar que a criança confundira os mestres, que fora uma maravilha.

O mestre-escola reclamou para si a glória do acontecimento, fundando-se em que, através do discípulo, resplandecia a ciência do mestre.

Os invejosos disputavam-lhe porém tão inquestionável glória e riam-se dele.

A pobre mãe, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render graças à Virgem, a quem tanto encomendara o filho.

Voltou Augusto à terra.

Era o rapaz o assunto de todas as conversas : olhavam-no como um prodígio. Todos o queriam ver, como se até ali o nao tivessem visto bem, e de feito todos o foram ver; nem o abade, nem o administrador, nem o presidente da Câmara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o viram, não houve um só que não notasse que o pequeno vinha triste.

Ninguém contestava o facto : que ele como que saltava aos olhos ; as interpretações é que variavam.

— Aquilo é dos ares de Lisboa; a quem não está costumado... — dizia um.

— São canseiras de estudos — aventava outro. — Há lá coisa que puxe mais por uma pessoa do que o estudo ! — Não que vocês cuidam ! Um exame sempre abala a gente cá por dentro — dizia um doutor, que levara dez anos a vencer um curso de cinco.

Fosse pelo que fosse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os ares da sua terra não dissiparam e que aumentava sempre que lhe falavam no futuro e no legado da morgada.

Quem mais a estudou, e sentiu aquela súbita melancolia, foi, como era de supor, a receosa mãe. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos e que íntimos terrores ela lhe causou! Perguntas, súplicas, argüiçoes, lágrimas, promessas, nada tiravam de Augusto, que teimava em responder que nada tinha que o afligisse, que era a ilusão de quem o via a tristeza que lhe supunham, e, para confirmar o que dizia, ria; mas era mais triste aquele riso, do que o pranto, em que se desafogasse.

Para breve estava a entrada de Augusto no colégio de Lisboa, onde, à custa do legado da defunta proprietária dos Canaviais, devia continuar nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na aldeia. Não se pôde atinar com os motivos deste pedido. Indolência não era ; pois no entretanto começou a estudar os rudimentos do latim com o ilustre professor, que o leitor conhece já, mestre Bento pertunhas.

A saúde vacilante da mãe de Augusto declinou nesse Inverno ; o que veio dar outro motivo à demora do filho.

Dias e dias passou o pobre rapaz sentado à cabeceira do leito dividindo os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois anos se passaram desta vida, e quando, ao fim deles, Augusto abandonou aquele leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um cadáver.

Era órfão.

A vaga sombra de melancolia, que já lhe toldava o rosto, condensou- se-lhe mais então. Era quase um negrume de tristeza.

Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Madalena para a aldeia, pois receava pela saúde dela se persistisse em Lisboa.

O conselheiro propunha-se levar consigo Augusto, quando vollasse a Lisboa. uma manhã, porém, este, de pouco mais de quinze anos, procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma tenção meditada e irrevogável: — Venho prevenir V. Ex.ª de que desisto do legado da sr.ª morgada.

Não quero ordenar-me.

O conselheiro fitou-o, estupefacto.

— Não queres ordenar-te! Porquê?...

— Já não tenho mãe a quem amparar. Por ela forçaria a minha vocação sem remorsos ; por interesse próprio não o posso fazer ; parece- me um sacrilégio.

O conselheiro era um homem muito do século. O seu trato social, a freqüência dos círculos políticos e elegantes, haviam-lhe dado todas as boas e más qualidades, que caracterizam aquela classe de homens, e sabe-se que a candura de sentimentos não entra no número das mais habituais dessas qualidades. Tinha uma razão clara, mas fria; se abraçava uma boa causa, não o fazia cedendo ao entusiasmo, mas somente depois de ponderar neumáticamente os fundamentos em que ela se baseava; assim era que, em política, se costumara a contemporizar, espaçando a adopção de qualquer medida, inquestionavelmente boa, para tempos em que fosse mais conveniente ; não se apaixonava por utopias, desconfiava delas ; havia muito tempo que desviara dos olhos o prisma encantado, através do qual olham o mundo os poetas e todos os mais sonhadores ; costumara-se a marcar por modelo, nas diferentes carreiras da vida, não um tipo ideal, dotado de todas as virtudes, limpo de todos os defeitos e vícios ; assentara a menor altura o alvo ; parecia- -lhe que bom fito eram já os indivíduos que tinham conseguido maior consideração na sua classe ; as máculas que eles tivessem eram, por esse facto, máculas autorizadas. O pensar de outro modo era pensar de romance ; agradável para entreter, porém mau nas aplicações às coisas da vida. Numa palavra, o conselheiro era um homem de bem, mas na esfera mundana ; não um daqueles tipos de pureza cristalina, através da qual parece passarem sem desvio os raios da luz celeste; mas já um tanto embaciado do bafo social, que não o fazia ainda totalmente opaco.

Por isso sorriu à declaração de Augusto. A carreira eclesiástica não lhe parecia tão escabrosa, como o futuro sacerdote a fazia ; nem tão dura a lei, como em teoria se mostrava. O conselheiro não pensava necessário tomar ao pé da letra certos deveres impostos ; o mundo seria, como ele, tolerante em naturais infracções ; por tudo isso se riu.

Fez a Augusto uma longa dissertação sobre as vantagens da vida eclesiástica, sobre os muitos interesses que lhe prometia, e a leviandade com que ele queria renunciar a uma carreira segura, movido pelas instigações de um espírito timorato ou de uma visão fantástica.

Augusto insistiu. Sem corar perante o sorriso céptico do conselheiro, declarou que não abraçaria a vida eclesiástica sem que se sentisse com a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ela lhe impunha ; que era preciso uma grande abnegação, e que ele, depois da morte de sua mãe, não tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses não pensava, e se pensasse, seria isso a primeira prova de não estar preparado para a missão de que se queria encarregar.

Quando alguém abraça com lealdade e franqueza uma boa causa, dificilmente é vencido. O conselheiro, costumado a não recuar nas mais acerbas lutas do parlamento, calou-se dentro em pouco às objecções daquela criança. como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer as ilusões a que o via abraçado — ilusões pelo menos as supunha ele ; parecia-lhe uma obra satânica envenenar com um sorriso aquele ideal em que vivia. — Respeitou-o e calou-se.

— Alguma criancice amorosa dos quinze anos — pensou para si.

Deixemos ao tempo convencê-lo. Não me encarregarei eu desse papel, que é pouco simpático. Quem me restituirà aquelas canduras ! Teria alcançado menos no mundo, mas talvez tivesse gozado mais... ou melhor...

O conselheiro cedeu aparentemente, esperando que a reflexão modificaria, mais tarde, as idéias do rapaz.

Exigiu dele que a ninguém anunciasse as tenções em que estava de não se ordenar, pelo menos enquanto não passasse mais tempo sobre aquela resolução.

E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se encarregasse da primeira educação de Ângelo, então de nove anos; pois mais confiava para isso em Augusto, do que no professor oficial.

Augusto aceitou com prazer a incumbência, que, sobreadequada aos seus gostos, lhe abria uma carreira, que ele já imaginara adoptar.

De então nasceu uma íntima amizade entre Ângelo e Augusto.

Foram rápidos os progressos do discípulo, e não menos reais as vantagens que ao mestre resultaram do ensino, que lhe desenvolvia cada vez mais a inteligência. — O conselheiro tinha motivos para estar satisfeito da escolha.

Ao fim de um ano as repugnancias de Augusto em aceitar o legado eram as mesmas ; o egoísmo paternal do conselheiro não o deixou ser muito ardente a combatê-las. — Espaçou-se mais uma vez a decisão.

Outras lições apareceram a Augusto, as quais ele acolheu com gosto ; o mestre-escola reclamava também muitas vezes o seu auxílio ; compadecido da sua velhice, Augusto nunca lho recusou.

O velho acabou por declinar nele o serviço todo, sem que Augusto consentisse em receber por isso o menor estipendio.

O público não se cansava de perguntar quando sena que o rapaz principiaria os seus estudos em Lisboa e porque o não fazia já. como não obtivesse resposta, comentava o facto, corno costuma comentar todos os que não entende.

No entretanto, a educação de Augusto não ficara estacionaria.

com grandes sacrifícios a continuara ele ; e num ermo, como era aquela aldeia, tinha muito de milagre o que fazia.

O latim de mestre Bento já mal satisfazia às impaciencias do espírito deste discípulo entusiasta ; e não era raro que a inteligência de Augusto visse mais fundo nos textos, do que a experiência do mestre.

O acaso favoreceu os desejos do estudante.

Numa freguesia próxima estava, como abade, um doutor em teologia, homem de sólido saber e de reputação extensa.

Um dia em que, por convite do seu colega, viera assistir e pregar na festa do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacristía e, conversando-o, admirou-lhe a penetração, cativou-se da sua modéstia e lamentou não estar mais perto dele, porque o auxiliaria, como pudesse, nos estudos.

Augusto perguntou-lhe se era sincera aquela vontade ; afirmando- lhe o padre que sim, respondeu que não seria então estoivo a distância, porque ele a venceria.

E daí em diante, duas vezes por semana, às quintas-feiras e domingos, franqueava légua e meia dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as lições do erudito abade. Assim se aperfeiçoou na latinidade, cultivou a filosofia e adquiriu o gosto pelos nossos velhos prosadores e poetas. Vinha de lá carregado de livros para 1er durante a semana.

Tôda a biblioteca do padre lhe passou pelas mãos.

Era porém o teólogo clássico exclusivo e nada visto em línguas e literaturas modernas.

A sorte não recusou ainda a Augusto um novo mestre.

Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal fazem preceder, vinte anos antes, a construção definitiva de uma só, que de ordinário sai sempre como se não fosse tão estudada, um houve que levou à aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro que aí fez quartel e centro de operações, durante três meses inteiros, A casa em que ele se alojou ficava próxima da de Augusto. Cedo travaram conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possuía' eram livros de matemática; mas, enquanto a literatura moderna, trazia nas malas e baús uma excelente provisão.

Não tendo que fazer às noites, entreteve-se a ensinar o francês a Augusto e a ler-lhe os livros da sua biblioteca portátil. Voavam as horas a Augusto naqueles serões ; neles aprendeu todos os nomes da nossa literatura moderna, bem como os principais da de França e Inglaterra. .

Quando o engenheiro partiu da aldeia já Augusto sabia o francês bastante para se aperfeiçoar por si ; este amigo deixou-lhe em lembrança grande parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.

Atingiu finalmente Ângelo a idade de precisar do colégio. O conselheiro, ao levá-lo consigo, insistiu mais uma vez com Augusto para que viesse também e aceitasse o legado da morgada. Foi em vão, encontrou- o ainda inabalável.

E desta vez fez pública a sua desistência, e o ambicionado patrimônio foi concedido a outro.

Meses depois morria o velho mestre-escola da aldeia.

Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquele lugar, que já havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se interessasse por que ele o obtivesse. O conselheiro quis tirar-lhe da idéia tal projecto ; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o não ter ambições era indício de uma profunda doença moral; que a posição, a que ele aspirava, eqüivalia a uma sepultura estreita a que se acolhesse vivo. Augusto persistiu porém no intento; o conselheiro empenhou-se por ele em Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo qual se faz em Portugal tudo que é contra lei expressa, o dispensasse da idade que ainda não tinha, pois mal completara dezanove anos, e Augusto foi por conseguinte admitido a concurso para tão pouco disputado lugar e provido nele por três anos. O conselheiro, a quem não fora impossível obter-lhe despacho vitalício, quis ver assim se, no fim de três anos, o obrigava a abandonar tão laboriosa e mal recompensada carreira, e de propósito o fez despachar temporariamente, Conquanto o legado da morgada tivesse tido já outra aplicação, o conselheiro não hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o mestre de seu filho.

Mas ao fim de três anos, Augusto, apesar de por experiência conhecer já os espinhos da profissão, apresentou-se novamente ao concurso para ob'ter novo despacho. Na época em que abrimos esta narração, voltara Augusto de pouco de ultimar a nova prova; e estava pendente ainda a decisão do ministério competente. Desta vez tivera um competidor, homem muito protegido por influências da localidade, as quais ainda não tinham podido vencer a do conselheiro, que pugnava por Augusto.

Desde que fora para Lisboa, Ângelo não se esquecera de escrever amiudadas vêzes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e descrevendo- lhe a sua vida na capital ; e quando vinha a férias, procurava transtir ão que fora seu mestre a ciência que durante o ano adquirira.

Foi assim que Augusto principiou a estudar a língua inglesa, geografia e a história.

Recebido o primeiro impulso, a sua inteligência e aplicação faziam resto.

Um homem que havia na aldeia e com quem cedo teremos de travar conhecimento, um velho ervanário, para alguns um sábio, para tros um louco, para todos um homem honrado, concorreu também, m o seu contingente, para a educação de Augusto.

De tempos a tempos, este velho misterioso apresentava-se em casa ele com um pacote de livros debaixo do braço e, sorrindo, pousavaíos em cima da mesa.

Eram quase sempre aqueles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos de possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o ervanário com espanto. Ninguém o supunha rico ; como podia ele pois obter aqueles livros, alguns dos quais eram de preço? O velho porém disse- -lhe, ao perceber-lhe a surpresa: — Não queiras saber da minha vida, rapaz. Supõe que eu tenho a servir-me uma vara de condão ou uma fada qualquer, e deixa correr.

Augusto acabou por persuadir-se de que o ervanário tinha acumulado riquezas, à força de economias: porque de economias vivera sempre.

De pequeno merecera àquele velho uma singular simpatia, e com afecto de pai fora sempre tratado por ele.

Resignou-se a aceitar sem reflexões ; até porque sabia ser fácil o escandalizar o velho com elas. O que fazia era evitar, na presença dele, qualquer palavra que pudesse denunciar desejos de possuir um livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder oculto a informá-lo, às vezes parecia adivinhar ; e trazia-lhe livros que Augusto deveras desejava, mas a respeito dos quais tinha a certeza de lhe não ter falado, nem eram daqueles que o velho conhecia.

A seu pesar via-se quase inclinado a adoptar a crença supersticiosa do povo a respeito daquele seu velho amigo.

Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Ângelo as informações, pelas quais o velho se guiava na escolha. Não lhe atribuía porém o presente, porque as economias de Ângelo não chegavam para tanto.

Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poderá ainda o leitor estranhar os ares pensativos com que o vemos? Poucos passos andados, depois que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a distribuidora das cartas, que lhe entregou uma sobrescritada para ele. Era de Ângelo.

Augusto abriu-a imediatamente e leu-a ainda pelo caminho.

Era uma extensa carta, em que se sucediam os períodos em um desses longos, incoerentes e difusos arrazoados, que constituem a essência de uma carta de amigo para amigo.

Ângelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperanças e de projectos, projectos que, naquelas idades, nascem e morrem a todo o instante. Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda à aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo: «Peço-lhe que diga à Lindita que se não esqueça de mim. Dentro de poucos dias conto ir ver os coelhos do quintal dela, e ajudá-la a tirar' a água do poço. O pai dela chega aí ao mesmo tempo que esta carta ; leva um livro para si. » Augusto sorriu, ao 1er o pós-escrito.

— Pobre Ângelo ! — murmurou ele. — Deus não permita que sobreviva à tua última criancice essa simpatia por Ermelinda. Estas generosas afeições de criança muitas vezes, ao crescer, envenenam o coração.

Havia tanta amargura nestas reflexões de Augusto ! E, como absorvido nelas, caminhou para casa do recoveiro Cancela, que era o pai da pequena, a quem na carta se aludia.

VII

Acasa do recoveiro Cancela ficava numa das mais estreitas ruas da aldeia e ao lado de um pequeno quintal, objecto dos cuidados e das diversões do proprietário, que ali gastava algumas horas disponíveis da sua ocupada e laboriosa vida.

Cancela era um verdadeiro judeu errante da aldeia. A maior parte do tempo ia-se-lhe nas estradas ; pernoitava hoje numa estalagem ; viam-no amanhã já a mais de seis léguas de distância ; acotovelava um dia a multidão nas ruas e feiras da cidade ; no outro entretinha os curiosos da sua terra, deixando-lhes entrever os tesouros da experiência adquirida à custa de muitos anos de fadigas.

As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que conjuntamente vieram, não destruíram totalmente esse tipo dos antigos tempos, anterior a elas. Além da época, que parecia dever marcar-lhes limite à existência, passaram, sustentados pela força dos hábitos e justificados pelas irregularidades dos serviços das postas ; e Deus sabe quando de vez acabarão. Mas Cancela era além disso um recoveiro de uma espécie rara e superior. Em todas as profissões há sempre, no meio do vulgo, que as exerce sem entusiasmo nem consciência dos gozos, superiores aos interesses, que elas podem oferecer, certo grupo de escolhidos, que as idealizam, e enxergam um raio de poesia através das sombras, uma flor entre os espinhos. Cancela era destes ; era o poeta da sua profissão. Tinha em si o que quer que era de um turista, e assim aproveitava todos os ensejos que se lhe oferecessem de explorar algum ponto do País, ainda por ele desconhecido.

Este instinto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas relações do conselheiro, pai de Madalena, com as famílias da aldeia, e a barateza relativa das recovagens operadas por este meio primitivo, proporcionavam-lhe algumas ocasiões disso, as quais o Cancela de boamente aproveitava. Era de uma dessas expedições que ele devia voltar aquela manhã, como o dava a entender a carta de Ângelo.

Quando porém Augusto lhe bateu à porta, achou-a ainda fechada; escutou à fechadura, mas não pôde verificar o menor sinal de que alguém estivesse dentro.

— É cedo ainda — pensou consigo. — Vejamos se estará em casa do compadre.

Seguiu mais para diante pela rua por onde viera. — A poucos passos mais, e do lado oposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto não menos rústico do que a primeira, uma pequena casa térrea, de uma só porta e uma só janela, e com o respectivo quintal ao fundo.

Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada ; julgando que seria o Cancela, de quem o proprietário era, além de vizinho, confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava apenas cerrada e entrou.

A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado à volta de cruzes de pau, para as devoções da via-sacra, e de imagens de santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos.

Mais do que os outros enramelhetado e enfeitado, via-se ali o bento registo de uma confraria, havia pouco tempo instituida na terra pelos missionários, o qual ocupava o lugar de honra naquela devota exposição.

Era recente na aldeia o estabelecimento desta confraria, sociedade um tanto misteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores só visavam a dar o reino do Céu aos filiados, contentando-se «apenas», em paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, têm saudades já. Os missionários, certos evangelizadores em terras onde a palavra do Evangelho não é chave que abra a porta, pela qual entraram os mártires no Céu, lá andavam por aquele tempo, na aldeia onde se passa a acção desta história, plantando a vinha, que eles chamavam do Senhor; as mulheres, abandonando os lares, seguiam-nos como rebanhos ; o culto católico era por eles cada vez mais arrebicado com orações absurdas e cerimônias ridículas, e o eterno anatema da ignorância contra o progresso da sociedade servia de tema predilecto aos seus bárbaros discursos.

Ardente prosólita destes apóstolos de fé duvidosa, a Sr.* Catarina do Nascimento de S. João Baptista, a metade feminina do casal em questão, tomara por modo de vida as devoções da igreja, onda ia chorar as desgraças da humanidade, que tão fora via andar da estrada direita.

Augusto pouco se demorou nesta sala ; respeitando a alcova conjugal, que era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia à cozinha de onde lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o atraíra.

Ao contrário do que esperava, porém, só uma pessoa encontrou na cozinha, conquanto falasse com a vivacidade que em poucos diálogos se mantém.

Esta pessoa era o dono da casa, o Sr. José do Enxerto, ou vulgarmente chamado ti'Zé-Pereira — nome que lhe vinha do popular e ruidoso instrumento, o clássico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje aquele nome. — Era muito para ver e admirar a mestria, com que o nosso homem o sabia tocar nas festas e arraiais, à frente das procissões e cercos, e finalmente em todas as solenidades públicas.

O ti'Zé-Pereira era homem dos seus quarenta e tantos anos ; tinha no rosto, principalmente no nariz, vestígios evidentes das suas simpatias pela divindade celebrada nos antigos ditirambos. Esposo da Sr.' Catarina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perene sabatina com a sua cara-metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas salvando sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no ofício de hortelão e, aos domingos e dias de festa, à força de rufos e pancadaria na retesada pele do seu companheiro inseparável — o zabumba. Era aos cuidados e vigilância deste par conjugal que o recoveiro Cancela confiava o seu mais precioso tesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa criança, que lhe ficara à sua viuvez tão cheia de saudades, e a quem ele mais queria do que à menina dos olhos.

Ermelinda era afilhada da família Zé-Pereira, e a mesma a quem ouvimos referir-se Angelo no fim da carta.

Zé-Pereira estava, como dissemos, só na cozinha, quando Augusto ali chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e rouca da sua escala de barítono, até ao mais agudo e desafinado falsete. A língua pegava-se-lhe ao céu da boca, dificultando-lhe suspeitosamente a articulação de algumas sílabas ; era evidente que se apossara do hortelão o espírito familiar, o qual, neste caso, era um verdadeiro espírito, na acepção química do termo.

Zé-Pereira era um homem baixo, já grisalho, suficientemente nutrido, de olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o entusiasmo, o rapto artístico se apoderava dele ; usava de umas suíças que pareciam tentar sumir-se-lhe pela boca dentro ; tinha longos braços, acomodados as dificuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para baixo, lhe divergiam em ângulo de mais de trinta graus.

Quando Augusto deu com ele, o homem monologava, gesticulando : — Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... É forte desraça!...

Aqui estou eu!... Um homem casado... casado à face da Igreja... que me casou em dia de Sant'Iago o abade que foi... e que Deus tenha em descanso. Não faltou nada... correram-se banhos diante de quem os quis ouvir, e não houve quem pusesse impedimento... porque u não devia nada a ninguém... sempre fui liso de contas... Sou casado com a Catarina do Nascimento de S. João Baptista, filha do Antônio Canhestro, do lugar dos Fojos... E casado para quê? Faz favor de me izer? Para que casei eu?... Forte desgraça a minha! Casei-me para isso!... Para vir para casa e achá-la vazia, o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher a papar missas e novenas lá por essas igrejas...

Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! É forte desgraça!... Bem morria eu de frio e de fraqueza, se não fosse aquele quartilhito... o timo, que sempre me deu sua aquela... sim... sempre me conchegou estômago. Não que dizem que o vinho que faz, que o vinho que aconece...

Pois casem-se com uma mulher que vá de madrugada para a reja e venha de lá quando muito bem lhe pareça, e verão depois se o vinho não serve de cobrir muita lazeira que se sofre... verão depois...

Ora, senhores, que é forte desgraça a minha !... Diz que Deus que disse, que a mulher que era a carne da nossa carne e o osso do nosso osso...

Deus devia de vez em quando tornar a dizer estas coisas... para não esquecerem... como se faz na escola com a tabuada. A minha Catarina já o não sabe, aposto... e pelos modos os padres não lhe dizem isto na Igreja... pois deviam dizer!... A carne da minha carne e o osso do meu osso!... mas é carne e osso que me não fazem caldo... Ora, senhoes, que é forte desgraça a minha !... como há-de um homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela ou fazer qualquer sachada?... E também quero ver como hei-de no arraial procissão de Santo Amaro, que não tarda aí, dar sequer um rufo assim mais tal... assim mais científico? Eu se fosse bispo...

A caudalosa corrente deste soliloquio foi interrompida pela apação de nova personagem à porta do quintal.

— Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho e paciência. É um instante enquanto acendo o lume e lhe faço o caldo. Verá.

A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de doze anos, alva e franzina, como a mais delicada criança a cidade, com os olhos negros e expressivos de inteligência e de doçura, e com os mais formosos cabelos louros que ainda enfeitaram uma cabeça infantil. Não havia neles sombra que desvaecesse aquela cor deslumbrante ; reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em tenuíssimos fios de metal ; usava-os oitos e caídos, sem vislumbre de artifício, de um e de outro lado o colo.

Condizia com a expressão angélica do semblante o suave e afecoso timbre de voz com que falara.

O leitor prevê decerto que é Ermelinda, a filha do Cancela, ou Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a criança que tem na sua presença.

Ermelinda sobraçava um molho de hortaliça, que fora colher ao quintal, e dirigia-se com ela para o lar, que o descuido e a indiferença conjugal deixavam ainda apagado àquela hora do dia.

Dando, porém, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe.

— Ai, pois estava aí, Sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez sem reparar.

A estas palavras o desditoso marido voltou a cabeça è fitou em Augusto um dos seus desemparelhados olhos.

— Olá, Sr. Augusto ! Viva ! Passe muito bem ! Entre ; esta casa é sua... De jantar não lhe ofereço... porque... porque... Forte desgraça a minha... Olhe! repare para este desaforo!... Venho para casa, morto de trabalho... e vejo o lar apagado ! A minha mulher está a ouvir missa, a confessar-se, a comungar... a tomar todos os sacramentos... acho que os está a tomar todos... Louvado seja Deus ! Vem aí tão limpa de consciência, como eu estou do estômago... Ora, senhores...

— Deixe estar, padrinho... Verá como isto se arranja depressa...

Olhe ; o lume já está aceso — dizia Ermelinda, acendendo efectivamente o lume no lar.

— Já o dévias ter feito antes, Lindita — disse Augusto, sentando-se junto dela.

— Mas se ainda agora vim das presas, onde fui lavar a roupa? — Pobre pequena — disse o Zé-Pereira — também não te há-de faltar lazeira, também ! — A mim? Agora. Não que eu não sai de casa com as algibeiras vazias.

— Pois sim... mas é sempre preciso coisa que conforte... Ainda se tu bebesses... já não digo um quartilho...

— Credo, meu padrinho! Que está a dizer? — Que espanto!... Ora, senhores, que parece que o vinho é bebida amaldiçoada, que todos lhe têm medo ! É ver se o padre na missa...

— Padrinho ! padrinho ! que vai dizer ? — interrompeu Ermelinda, quase aterrada.

— Eu digo o que é verdade, rapariga!... Tenho minha presunção de nunca dizer senão a verdade... Lá o pespeguei na cara do sr. juiz de direito e mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando fui a um juramento, por causa daquelas pancadas no recebedor... É que nenhum desses santalhões, desses missionários, me têm que ensinar nesse ponto... Os missionários!... Eu, um dia, tiro-me dos meus cuidados e vou-me ao trabalho de lhes ir perguntar, quando eles estiverem no púlpito, se Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para que os maridos não tenham que comer, quando voltarem do trabalho...

Um dia ainda lhes vou perguntar... isso vou...

— Olhe; a água não tarda a ferver; verá que dentro em pouco...

continuou Ermelinda.

— Bem, Lindita, bem — disse Augusto — em paga da boa vontade, com que trabalhas, vou dar-te uma alegre nova.

— A mim? Diga, — Trago-te visitas de alguém, que em poucos dias te dará em vez de visitas, um abraço.

— De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe? — como adivinhaste depressa ! — Pois de quem mais havia de ser ? Mas diz que... em poucos dias... Então ? — Tê-lo-emos cá pelo Natal.

— Fala verdade ? — Assim mo diz nesta carta. Queres 1er? — Para quê? — respondeu a rapariga, fitando porém o papel com os olhos cheios de curiosidade.

— Ora lê, lê... Até para ver se ainda te recordas das lições que eu te dei.

— Ai, lá isso... mas, o caldo do meu padrinho...

— Deixa que o lume é que o há-de aquecer e não a tua presença.

Ermelinda aproximou-se ; tomando a carta das mãos de Augusto, começou a lê-la com intensa curiosidade.

Zé-Pereira prosseguiu no seu monólogo : — A religião, senhores — dissertava ele—não manda tal... Isso é que não manda... A religião é a palavra de Deus... e Deus disse...

sim... Deus disse... Deus disse muita coisa... Disse que por este deixarás pai e mãe. Ora a santa madre igreja é mãe, é, sim, senhores ; que tem lá isso? mas não é mais mãe do que a outra mãe... e então... senhores, uma mulher não deve deixar por ela o seu marido ; porque o marido, senhores, é o tudo de uma casa, e o ganha-pão da família. Ora, senhores, que é forte desgraça.

O monólogo do desconsolado cônjuge e a leitura de Ermelinda foram interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua: O dinheiro paga tudo, Nao se fica a dever nada; Toma, toma o limão verde, Ó da íresca limonada.

E logo em seguida estalaram as tábuas do soalho no corredor sob uns passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura agigantada e hercúlea do recoveiro Cancela, pai da Ermelinda. Cancela, ou o João Herodes, que assim também lhe chamavam por ter criado, nos autos em que era actor aplaudido e popular, o tipo do sanguinário e infanticida rei da Judeia, fora pela natureza dotado de uma estatura e robustez, dignas de Adamastor.

Encontrava-se nele uma dessas felicíssimas realizações dos temperamentos sanguíneos que, sem ameaçarem de insultos apoplécticos, dão riqueza ao sangue, vigor aos músculos e à fisionomia o aberto.e colorido da saúde e os reflexos da satisfação interior.

A barba negra e espessa cercava-lhe as faces coradas, e o natural fulgor dos olhos parecia aumentado sob o duplo arco de vastas sobrancelhas, que, quando contraídas os rodeavam de sombras ameaçadoras, de onde fuzilavam relâmpagos. Era formidável então ! O riso pairava-lhe, porém nos lábios, quando na presença de amigos, descobrindo-lhe duas fileiras de alvíssimos e bem dispostos dentes, desses que os excessos e absurdos culinários ainda não deterioraram.

Parando à porta da cozinha, o Herodes (às vezes lhe chamaremos assim, cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista alguém, que mais que tudo trazia na memória — a filha. — Esta, pela sua parte, mal o reconheceu, correu a lançar-se-lhe nos braços.

O pai pegou nela, como se fosse uma pena, levantou-a à altura dos lábios e pousou-lhe nas faces dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda palpitantes de todo aquele intenso amor paternal.

— Ah ! — exclamou, pousando-a no chão e respirando como quem acabava de satisfazer uma intensa necessidade do coração. — Isto consola que nem o copo de água que a gente, em dias de calma, pede à borda da estrada, quando se leva a boca seca e queimada de poeira! Mais do que isso me sabem estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?... Ó Sr. Augusto! também por cá? — Esperava-o, Cancela.

— A mim? — continuou o homem, pousando no chão uma maia que trazia. — Pois aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda lá fora, e pensa no que lhe irá por casa, sente às vezes uns sustos, que parece que lhe fazem tudo escuro... As desgraças, para sucederem, não põem muito... De um momento para outro... E depois a gente ouve por lá conversas, vê coisas que parece que são agouros... e que nos fazem a noite no coração... umas vezes é um enterro... outras, um desastre...

um fogo... um... E as crianças sós, e os pais fora de casa!... Ai! Isto é de ralar o coração de uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante lá a sua aquela pelo sumo da uva... Quantos foram já hoje, compadre, hem?... mas, tirante isso, é homem de bem; a comadre é uma santa, que só tem o defeito de querer ser santa deveras... mas enfim... tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber o que lhe vai por casa, outra... Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma de Cristo, que encontro, estou sempre a ver quando me vem dar alguma nova má.

Salta-me cá por dentro o coração, que ninguém faz uma idéia; eu bem canto a ver se disfarço, mas... Ai, filha da minha alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar doente!... Assim me sucedeu com tua mãe... Deixei-a uma vez tão satisfeita e alegre, e vai, quando voltei, a primeira pessoa que encontro, diz-me à queima-roupa: «Venha, Sr. João, venha, que já não vem sem tempo. Corra a casa, se ainda quer ver sua mulher...». Foi corno se recebesse uma descarga em cheio no peito... corri, e...

A comoção impediu-o de continuar ; disfarçou como envergonhado daquela fraqueza, beijando a filha outra vez.

Ermelinda percebeu a perturbação do pai e disse-lhe carinhosamente : — Para que está agora a pensar nessas coisas que o afligem, meu pai? — Deixa-me cá, rapariga. Isto às vezes também faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo com boas cores e alegre... nem eu sei o que tem mão em mim, que não me ponho a dançar. Ah!... ah!... Ninguém tem uma filha como eu! Olhe que não, Sr. Augusto; mal fica a mim dizê-lo, mas... Lá por Lisboa e por o Porto há muita menina galante, isso há; muita inglesinha loura, bonitas como anjos, mas cabelos assim dourados? — e passava com orgulho os dedos pelos vastos cabelos de Ermelinda — mas uma pele assim delicada — e afagava-lhe com as mãos a face, quase a medo — mas olhos assim a meterem-se mesmo pelo coração à gente? — e beijava-lhos com paixão — isso é que eu ainda não vi, nem tenho de ver. como o Senhor concedeu um anjo destes a um selvagem como eu, é que não sei... É a imagem da mãe!... Ela também era poucochinho de si... miudinha e...

Mas não pensemos nestas coisas. Sim, senhores ; eis-me aqui outra vez, e por sinal com a minha vida por arranjar e eu posto à taramela. Trago- -lhe uma encomenda, Sr. Augusto, e muitos recados, muitos.

— Já sei ; Ângelo escreveu-me.

— Escreveu? Ah, Sr. Augusto, que rapaz aquele! Aquilo é uma pérola ! com três milheiros de demônios do Inferno ! dali há-de sair coisa grande. Eu não queria morrer sem ver o que saía dali. Brinca como uma criança, mas, quando quer, põe-se sério, e fala como homem.

E nada de soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aqueles senhores da cidade, quando conversam com uma pessoa rústica... Qual história! Ele tudo quer saber, tudo pergunta... isso é um nunca acabar, quando lá me pilha... Então como vai Fulano? e Sicrano? e se já se fez aquela casa, e se já acabou aquela obra, e se já casou este, e se ainda vive aquele, e mais para aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado... Ah! ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois cá a respeito da rapariga?... Isso é uma comédia!... Não se farta de me ouvir falar dela... Ah, Sr. Augusto, quantas vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.

Ermelinda fitou o pai com os olhos espantados.

— Sim, filha — prosseguiu ele. — Deus não te devia dar a um homem como eu, que enfim... com os diabos! lá alma e coração...

nao quero que haja aí quem me leve a barra adiante. Eu por um amigo...

e com mil demônios, até por um inimigo, se não for soberbo, vamos lá, dou a camisa do corpo... Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo.

Vamos à minha tarefa. Mas que tem você estado para aí a pregar, compadre, desde que eu entrei? Hum! hum! parece-me que já se cantou a glória, hoje, visto que já se está ao sermão.

Efectivamente Zé-Pereira tinha apenas concedido ao seu compadre um olhar de distracção e um aceno de mão, e voltara de novo às suas queixas amargas contra a sorte e contra a esposa.

Interrogado pelo Herodes, Zé-Pereira reproduziu uma das suas lamentações; o compadre, enquanto desenfardelava a maia, ia cortando com reflexões próprias essa longa jeremiada.

— Então com que a ti'Zefa deixou-o sem caldo, hem? É malfeito, a falar a verdade. Lume apagado em casa de família é coisa triste... Aqui está um livro para si, Sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre, que a minha pequena arranja-lhe num ai algumas berças... Também eu estou em jejum desde as cinco horas da manhã... mas estes missionários ! Ah ! com seiscentas mil dúzias de demônios, eu ainda queria um dia...

— Deus Nosso Senhor seja nesta casa — disse uma voz gemida à porta da cozinha.

— E o demo na do abade — resmungou Herodes.

Era a Sr.' Catarina do Nascimento de S. João Baptista, tipo de beata, que dispensa descrição, que regressava a casa depois de completar o ciclo das suas devoções.

— Viva a comadre ! — disse o João Cancela, continuando a mexer na maia.

Ermelinda foi beijar a mão à madrinha.

Augusto saudou-a afàvelmente.

O marido obrigou o corpo a uma meia rotação sobre o alqueire, e, voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os braços e as mãos, espalmadamente abertas : — Mulher dos meus pecados, mulher de não sei que diga, olha que a paciência um dia acaba-se, mulher ! Isto não pode continuar assim, mulher ! Eu nao me casei para que tu me andes a ganhar indulgências na igreja, mulher!... Isto são preparos, mulher?... Um homem chega a casa e acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir nove missas por dia e uma dúzia de novenas ! — Cala-te, cala-te — retorquiu azedamente a devota metade do Zé-Pereira — cala-te para aí, desalmado. Excomungado seja o mafarrico, que assim me quer atentar logo que entro em casa ! Olha lá que não morresses de fome ! Estás mal acostumado. Louvado seja Deus ! Já não há quem queira sofrer neste mundo mortificações ! cuidas que não tens de sofrer as do Purgatório? E Deus nos queira dar só o Purgatório e livrar-nos das penas do Inferno. Que muito mal fazemos por lhe merecer misericórdia! Ora que não há-de uma pessoa poder ter as suas devoções, que não venha encontrar lamúrias em casa ! Ó minha rica Mãe do Céu, seja para desconto dos meus pecados ! Sume-te, inimigo mau ! E eu que deixei de rezar oito estações, que prometi à Senhora da Rocha, e vai... Ora digam como há-de esta gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas horas de espera, já se choram todos ! Bendito e louvado seja o sacratíssimo coração de Maria ! Ó homem de Deus, e então aqueles santos eremitas, que viviam no deserto de raízes e de água das fontes...

— Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os ver com uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois raízes para roer, a ver se gostavam. Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Mulher, a religião manda que olhemos pelo nosso cadáver. É má cristã a mulher que deixa o seu marido na penúria.

Isto é que os padres deviam ensinar. Vai-lhes lá perguntar se, quando chegam a casa, não têm a sopa e o toucinho à espera deles? — Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha nessa cara. Olha agora ! Eu queria ver-te com o trabalho do sr. padre Domingos. Coitadinho ! desde as cinco horas da manhã até agora a confessar ! — Confessar é parolar ; ora adeus ! — Tu estás doido, alma perdida?! — E cuidas que ele não leva marmelada nos bolsos? — Ó chagas do seráfico S. Francisco, ainda mais terei de ouvir?! — Mulher, deixemo-nos de histórias ; com jejuns ninguém engorda.

Só os santos... de pau.

— Vamos, vamos — disse o Herodes, intervindo. — Não vale zangarem- se por causa disso. A minha pequena deve ter o caldo quase feito. Comam-no em santa paz e deixem-se de testilhas, que não é bonito ; e muito menos entre marido e mulher. Você, compadre, também tem culpas em cartório ; vamos lá. Há por aí umas certas capelas, onde passa também bastante tempo em devoção ; enquanto à comadre, acredite o que lhe digo : a palavra de Deus não é tão difícil, que uma pessoa precise de estar tanto tempo a ouvi-la explicar. Eu cá penso que, fazendo a gente aquilo que lhe diz o coração, e que não sente nenhuma aquela em fazer, vai por caminho direito. E mais vale fazer o que Deus manda, do que levar a vida a pedir perdão por o não ter feito. E também não é bonito estarem agora as mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionário, como lapas nos rochedos, nem...

— Compadre ! — atalhou escandalizada a Sr.a Catarina — compadre ! É essa a educação que dá à sua filha ? São coisas que se digam diante de uma criança de doze anos? Ande lá, ande lá... Ora Deus queira que lhe não encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o pouco que sabe dela.

— Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda não deixa passar pobre à porta, a quem não dê esmola ; criança que não afague ; velho ou velha, que não corteje ; reza todas as manhãs a oração, que a mãe lhe ensinou, o padre-nosso e a ave-maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus ; de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher de casa que há-de ser... O Senhor me perdoe, se mais é preciso ainda, que mais nao sei eu ensinar-lhe.

— Não tenha soberbas, compadre, não tenha soberbas ! E cautela com o mimo que dá à pequena que é o que perde muitas almas.

— Que mimo,. que mimo ? Logo eu com este gênio de repentes é que hei-de dar mimo a esta pobre criança, que nem o da mãe conheceu ! — Ora diga, compadre, acha que é muito bem feito, da sua parte, deixar andar a rapariga com esses cabelos soltos? Não sabe que o Demônio... cruzes! arma com eles laços às almas das criaturas? — Fracas prisões são as do Diabo, se as forja só de cabelos!.., Então por causa das tentações é que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas! É teima velha! Eu já lhe disse, comadre: Deus, que deu à pequena esses cabelos tão bonitos, é porque lhos quis dar. Se quiser, que lhos tire, eu é que não.

— Deus cerca-nos de tentações, para que nós as vençamos.

— Forte tentação venceu a comadre! aposto que os não cortaria assim, se os tivesse como os da minha Ermelinda, hem ! Cortar os cabelos à minha filha, eu ? ! fazer daquela cabeça de querubim uma dessas cabeças tosquiadas, que por aí andam ! — Talvez ainda se arrependa ! — Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha pequena, e não figuras... respeitáveis, como a da comadre; ora então...

A beata, apesar de trazer sempre na memória o Vanitas vanitatum do « Ecclesiastes », não foi inteiramente insensível ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como para descarregar sobre ela a má vontade com que estava ao pai: — Sai-te para lá. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar ! Deixar assim uma criança fazer uma fogueira destas ! Nem para assar um boi ! É preciso não ter consciência.

E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dito.

Zé-Pereira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro recebido.

Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No ânimo daquela criança, que era de uma organização nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata uma espécie de fascinação, um misto de respeito e de terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus lábios infantis. Era outra na presença da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os belos olhos negros ; seguia-lhe, quase assustada, o movimento dos lábios austeramente contraídos ; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando nas penas do Inferno ; chorava à menor repreensão que dela recebia, e contudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda, na sua candura de criança, supunha a madrinha uma santa ; avultavam- -lhe, como virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha ; a inocente julgava-se uma grande pecadora quando, depois de ter na mente aquele Efeito tipo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciência ; que negros e hediondos pecados lá encontrava ! Uma pequena menque dissera ; um domingo em que faltou à missa ; um juramento , sem o sentir, lhe saíra da boca ; um jejum que nao guardara, e outros crimes da mesma força. A amedrontada criança chegava a recear pela salvação da alma.

É sempre funesta a influência que exercem sobre a infância os caracteres como os da beata.

O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava a filha e acudiu- lhe.

— Toma lá, Ermelinda — disse ele, tirando da maia uma pequena medalha com um retrato. — É um presente do nosso amigo Ângelo para nós, ou antes, para ti...

Ermelinda pegou no retrato com não reprimido alvoroço. Era outra vez a criança.

A madrinha lançou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o retrato.

— Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo ! — rompeu ela, com um espanto exagerado. — Este homem não tem a cabeça no seu lugar, por mais que me digam ! Ele quer perder a filha decerto ! A fazer a cabeça doida a uma criança ! O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com ímpeto a maia no chão, e com os olhos chamejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o campo à cólera, que se lhe acumulou no seio : — Com seiscentos milhões de diabos ! Você que está aí a dizer, mulher? São os sermões dos missionários que lhe têm assim afiado a língua e deitado peçonha na baba ? Com efeito ! Saiba que dou mais pela criança, de quem é aquele retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus pecados todas as semanas e por quantas beatas andam consigo a dar marradas no lajedo da igreja. Fazer a cabeça doida à minha filha ! Tenha mão na língua, comadre, que lhe não sofro tanto. Doida lha trazem a vossemecê os missionários e os sermões.

Seu marido fora eu, que a mania lhe tirava.

O Zé-Pereira, apesar dos seus desgostos domésticos, zelava a dignidade do casal ; e não levava à paciência que outro, além dele, dissesse daquelas verdades à mulher; por isso, ouvindo-as, através dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas vacilantes, e bracejando sempre, bradou : — Compadre ! Eu sei quais são os meus deveres ! Compadre, prudência !... Compadre, eu não consinto... Ora, senhores, que é forte coisa ! Compadre !... veja que eu é que sou aqui o chefe da família e esta é minha mulher! Psiu... Basta... Compadre... basta. Então? Ora, senhores.

Mas o Herodes já nada atendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhidão nas faces ; a irritação rompera os diques da cordura e ameaçava engrossar cada vez mais. Às exclamações de Zé-Pereira respondia já azedamente.

— Ora adeus, temos conversado... Seja homem, que bem pre.

cisa... Não basta dar à língua... Na taberna não é que se governa a casa...

A Sr.* Catarina abstinha-se agora prudentemente.

Ermelinda, pálida, a tremer, abraçou o pai, quase chorando.

Augusto, que fora alheio ao princípio da contenda, conheceu enfim que precisava de intervir. Saiu-lhe difícil a empresa.

Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.

Depois de muito custo, conseguiu enfim apaziguá-los. Deram-se mútuas satisfações, e separaram-se apertando as mãos.

Augusto retirou-se com João Cancela e Ermelinda.

O par conjugai ficou, renovando-se cedo entre eles a interminável contenda em que viviam.

VIII SAINDO de casa do Zé-Pereira, Augusto teve de escutar, ainda por muito tempo, as vociferações e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza do compadre, que assim deixara a mulher tomar sobre si um ascendente ofensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado silêncio e atenção um pouco distraída, conseguindo enfim a custo soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, no fogo da exposição de tão justos agravos, lhe segurava os braços com pouco afável vivacidade ; afinal, porém, pôde deixá-lo e voltou a casa.

Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobi lado com uma banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.

Era ali o seu lugar de descanso ; a escola era em outra casa vizinha.

Nesta não havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestígios que lhe. recordassem as do suplício.

Leitor filantropo, que, abrasado em santo amor da humanidade, só entrevés delícias na tarefa do ensino, e fazes deste vigiar e encaminhar o espírito infantil, que desabrocha e respira pela primeira vez no fecundo ambiente da ciência, um sedutor quadro de fantasia, perdoa- me a palavra, suplício, de que me servi, e perdoa ainda mais ao carácter de Augusto o ter saído exacta a expressão, que te feriu os humanitários instintos.

Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre ; e que é uma graciosa e amorável idade a da infância, e poucos melhor do que Augusto possuíam presente o ideal de uma e amenizavam à outra com branduras os amargones do penoso tirocínio ; mas que importa ? nem por isso é menos real o suplício. A cultura dos espíritos é como a cultura das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pulular do solo, arado e semeado de pouco, os rebentos do grão que o calor fez germinar, e volverem-se as folhas, estendetrem-se e enflorarem- se os ramos, penderem os frutos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, enquanto vergado, coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe falece o alento, e se olha de quando em quando para o Céu, não é para lhe agradecer com risos os gozos que ele lhe dá ; mas para lhe pedir, com lágrimas, a força que lhe mingua.

De igual modo, se é grato ao cultor das inteligências o vê-las desenvolver, florir, frutificar; árdua, ímproba, desesperadora é muita vez a tarefa da sua primeira educação. É mister possuir um grande tesouro de ideal, para que o suave e risonho tipo, que da infância concebemos, não se transtorne, na fantasia destas vitimas dela, em não sei que figura diabólica e maligna, que lhes envenena todos os momentos de alegria.

Além disso, o pobre professor de instrução primária, sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos da instrução, não pode ser comparado absolutamente ao agricultor do nosso simile ; é antes o jornaleiro contratado por magro salário, para, à força de braço, lavrar o solo, de onde, mais tarde, romperá a vegetação, que ele não terá de ver e que a outros concederá os gozos e o benefício. Venceu também o humilde professor, e por o mesmo preço que o jornaleiro, que não vão mais longe com ele as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas do magistério ; mas não verá também o resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as inteligências, que educou, justamente quando com mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer dessas inteligências um futuro de glórias, raro é que volvam um olhar agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não tinham asas para voar.

Quase todos os grandes homens cometem esta ingratidão. Falam nos seus mestres de filosofia, de matemática, de literatura, e não salvam do esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os ensinou a 1er.

Considerações da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, não são as que mais preocupam o pensamento da maioria desses pobres diabos, que, por noventa mil-réis anuais, se deixaram ligar à atafona do ensino primário da aldeia ; porém devem ser, além das misérias de tão mesquinha sorte, causas de grandes torturas morais para alguma alma de instintos e aspirações mais elevadas, que o destino amarrasse, como por escárnio, a este poste de expiação. Nesse caso estava por certo a alma de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem às imaginações, que na vida real não encontram deleite, refugiava- se ele nas horas em que as suas obrigações lhe permitiam respirar, Desta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.

Soaram nos vidros da janela pancadas repetidas e chamou-o de fora uma voz bem conhecida dele.

Era a do mestre de latim, o Sr. Bento Pertunhas.

— Sr. Augusto, ó meu querido Sr. Augusto. Amice ! Pode falar a um amigo e colega ? — dizia ele.

Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um gesto de enfado, O latinista entrou esfregando as mãos.

— A 1er, hem ! sempre a 1er ! sempre amarrado aos livros ! -jZ dizia ele, batendo no ombro a Augusto. — Invejo-lhe mais a pachorra do que o proveito. Olhe que não medra com isso ; nem ninguém lhe agradece as canseiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa cá neste mundo, tolo é o que se mata. E então neste país !.. Faça como eu.

E, imitando com a boca os sons da trompa, seu instrumento predilecto, pós-se a examinar os livros que via sobre a mesa.

— Então que estava lendo? que estava lendo?... Poh! poh! poh!...

Versos... Ora que nunca pude gostar de versos!... Poh! poh!... E nao e agora porque se diga que não tinha queda ; não senhores ; em tempos fiz até algumas quadras... Poh! poh!... já se sabe, até certa idade, mas nunca fui muito para aí... Poh!... A minha vocação é para a música,..

Poh! poh!... Lá para a música, sim... Poh! poh! poh!... Hermano e Doroteia—continuava ele, examinando os livros.—Novelas... Poh!...

E isto que é ? Confessions de Rousseau — neste nome deixou aos ditongos o valor português. — Poh ! poh ! As Metamorfoses... Latim ! Oh que maçada! Poh! poh! poh! poh!...—E o Ovidio, que lhe chegara às mãos, foi arremessado como se estivesse em brasa.

Augusto não pôde conservar-se sério, ante o instintivo movimento de repulsão do mestre.

— Então que boa fortuna o traz por aqui, Sr. Pertunhas ? — perguntou ele.

— Ai, é verdade ; eu lhe digo ao que venho. É para lhe pedir um favor, meu caro Sr. Augusto. Eu bem sei que é abusar da sua bondade...

Quousque tandem, Catilina... Mas, é por esta vez...

— Já sei ; ,quer que lhe vá dar lição aos rapazes.

— Ah ! grande maganão, que adivinhou — exclamou o mestre, abraçando Augusto com efusão. —> É isso mesmo, se lhe não custasse...

— Irei.

— É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da filarmônica...

Percebe o senhor? Os Reis estão aí à porta e as outras festas do Natal, e não há tempo a perder... Percebe? E eu tenho ainda umas peças do Trovador para ensinar à minha gente. São muito bonitas...

Poh! poh! poh! E então este ano, que pelos modos temos cá o conselheiro e mais o pequeno... Não contando com esse sujeito que aí chegou a Alvapenha. Chama-se Henrique de Souselas, é sobrinho da velha, da D. Doroteia, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro. Lá chamam- -Ihe primo. Esteve lá esta manhã um par de horas, logo que saiu da minha repartição. Dizem-me que é filhote de Lisboa, solteiro, rico e se modo de vida. Rico e sem modo de vida! Que lhe parece, hem? Olhe que sempre há gente muito feliz ! Aqui para nós, sabe ao que me cheira a visita deste senhor? Aquilo é mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hem? Ninguém me tira disto. Pois não lhe parece, hem? — Não sei bem o que quer dizer com a imagem — respondeu Augusto, levemente enfadado. — Além de que não posso adivinhar as intenções de um homem que pela primeira vez encontrei esta manhã.

— Pois está claro que não ; nem eu ; mas enfim uma pessoa logo tira pelo que vê... Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a boa música, etcetera, andar léguas e léguas para se meter neste desterro... Porque isto é um desterro. Sim, deve concordar que não é natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, etcetera... O senhor bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao dinheiro, meu amigo.

A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incomodando Augusto, que não redarguia.

— Nada, nada ; ali anda plano, com certeza. Pelos modos, já depois de amanhã vai o rapaz acompanhar as pequenas à ermida da Saúde.

Ah !.. • mas agora me lembro ! o senhor é também da súcia.

— Eu? — com certeza. Disse-mo o Damião, que tem ordem das pequenas para o convidar. Se ainda não recebeu o recado, há-de recebê-lo.

Em todo o caso, observe-o e verá se eu tenho razão.

— Vou jantar, Sr. Pertunhas, que já há muito para isso me chamou a criada — disse Augusto, erguendo-se como para fugir àquela conversa.

— Em seguida irei aos seus rapazes.

— Então vá, vá. Deus lhe pague o favor que me faz e permita que eu lhe não peça muitos destes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com idéias de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o outro, a encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o conselheiro promete muito e falta melhor, sobretudo a um homem que não tenha influência em eleições. O Sr. Joãozinho das Perdizes interessa-se por mim, é verdade ; mas, por outro lado, o Seabra brasileiro faz-me guerra. Eu ando a ver se consigo pôr o Seabra a meu favor, porque enfim... Mas vá, vá jantar, que eu espero.

— Se quiser fazer-me companhia...

— Muito obrigado. Eu já jantei. O meio-dia é a minha hora. ¡ante à sua vontade.

Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, deu algumas voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto, pôs-se a examinar os papéis que ela continha.

Ao mesmo tempo simulava umas variações de trompa, à força de contracções e esgares dos lábios.

A pasta, vítima da indiscrição do mestre, era a mesma que Augusto trazia, quando o vimos no Mosteiro.

Entre os documentos contidos nela algum achou o mestre Pertunhas mais curioso do que as escritas e temas dos discípulos, pois ao lê-lo, desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo a exibição acústica, que com tanto ardor encetara.

Leu-o até ao fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si, para verificar que não era observado, dobrou-o e sorrateiramente o escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sítio de onde a tirara, continuou a 1er ou a fingir que lia com toda a atenção um livro e encetou novas variações de trompa.

— Então já ! Apre ! Isso é jantar a vapor — disse o latinista, pondo- se a pé, logo que Augusto voltou.

E momentos depois saíram juntos.

Querendo poupar os leitores à sensaboria de assistir a uma lição de latim e a um ensaio da filarmônica, deixá-los-emos ambos, para voltarmos ao Mosteiro.

Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao parapeito do.muro da quinta, de onde, por sobre almargens e pomares vizinhos, a vista se espraiava em amplíssimo horizonte até umas nuvens, que pareciam limitá-lo.

D. Vitória saboreava, no seu quarto, as delícias da sesta habitual.

As crianças brincavam a alguma distância, e os risos e os clamores delas vinham como um chilrear de pássaros aos ouvidos das duas raparigas, que, a cada momento, se surpreendiam em meditativo silêncio.

A natureza estava sereníssima. No ocidente desenhavam-se estreitos e longos traços nebulosos, a que o sol dava um colorido tão ardente, que se o pintor paisagista o produzisse na paleta, hesitaria, ao passá-lo à tela, com receio de que o acoimassem de exagerado. O verde dos campos apresentava a gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de Inverno costuma dar-lhe.

Cristina interrompeu o silêncio por fim.

— O que eu não sei — principiou ela — é como o primo Henrique de Souselas...

— Onze ! — atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da perspectiva que fitava.

— Onze quê? — perguntou Cristina, erguendo os dela.

— com esta são onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo silêncio, abres a boca para me falares no primo Henrique de Souselas, uma vez que está decidido que seja primo.

Cristina fez um gesto de despeito e corou levemente.

— E então que queres dizer com isso? — Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta.

— Não sabia que era proibido falar-te no primo Henrique. Bem, nesse caso falaremos em outra coisa. Está um tempo muito bonito; nem parece Dezembro.

— Não ; vai magnífico para os nabais — replicou Madalena zombeteiramente — Se nao mudar com a nova Lua — continuou Cristina, ainda formalizada.

— É excelente para secar os milhos, que bem precisavam ainda disso, principalmente os das terras baixas.

E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.

— Não sei de que te ris ! — acudiu Cristina, cada vez mais séria.

pois não é esta a conversa de que tu gostas? — Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura, bem sabes.

E, mudando repentinamente de tom, acrescentou: — Ora vamos, Criste, não te zangues comigo.

— Não, mas é que às vezes não te entendo, a falar verdade. Vens com umas coisas que metem raiva — respondeu-lhe Cristina, sempre agastada.

— Já estou arrependida ; peço perdão. Fala lá à tua vontade no primo Henrique, fala; que eu não contarei as vezes que o fizeres.

Cristina reproduziu o gesto de impaciência: — Agradeço a tua generosidade, mas já não tenho mais que dizer dele agora; por isso...

— Pelo menos completa a dúzia.

— Lena ! Então ! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair daqui.

— Sempre queria que te vissem agora, Criste, esses que andam por aí a gabar a docilidade do teu gênio, as branduras da tua índole ; queria que te vissem essa cara arrenegada, para saberem que também há um àcidozinho na tal doçura... Mas fazes-me a graça de só para mim teres dessas franquezas.

Cristina sorriu, ainda que não de todo aplacada, ao ouvir esta reflexão da prima.

— E não sabes a razão disso ? — respondeu-lhe ela — a razão é o gênio que tens, Lena. O teu gosto é mortificares uma pessoa. Não há santo que não perdesse a paciência contigo.

— Que injustiça ! que ingratidão ! Eu, que sou a vítima das tempestades que o teu gênio pouco expansivo te junta no coração a todo o instante ! Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lágrimas para o meu quarto ; se te irritam, vens desafogar as tuas còlerazinhas sobre a minha cabeça. E pagas-me assim! — És muito infeliz comigo. Pobre Lena ! — Vamos, vamos, Criste ! esquece o que eu disse há pouco. Não te posso ver assim. — E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda certa malícia, Madalena continuou : — Pois é verdade, dizias tu que não sabias por que o primo Henrique de Souselas...

Cristina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.

— Então que é isso? Não me aceitas a expiação? — perguntou Madalena, sorrindo.

— Não ; não quero que se fale mais no Sr. Henrique de Souselas.

Vejo que te não é agradável que as outras se ocupem dele. Sejam quais forem as razões que tens para isso...

— Bravo ! Foi admirável de maldade o entono com que disseste esse : «Sejam quais forem as razões». E venham-me falar na candura desta criança! — Eu não quero dizer...

— O que queres dizer, não sei ; mas vejo que não és senhora tua quando se fala neste assunto.

— Que lembrança ! — tornou Cristina, cada vez mais embaraçada — pois imaginas deveras que eu?...

— E porque não ? — Lena ! — Nao há nada mais natural.

— Se queres, juro-te...

— Ah ! — atalhou a morgadinha. pondo-lhe a mão nos lábios. — Isso não, que é mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrúpulos da tua consciência, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro»! E com que ousadia ias pronunciar um juramento falso ! — Falso ! — Falso, sim ; falso como os que o são. Olha, minha pobre Criste, queres então que te fale com tôda a franqueza ? Esta conversa trouxe-a eu de propósito para confirmar umas suspeitas que se me formaram e que vejo agora que eram fundadas.

— Suspeitas! que suspeitas?...

— O primo Henrique de Souselas deixou em ti uma tal ou qual impressão.

— Lena ! — Conheci isso ainda quando ele cá estava ; verifiquei-o depois e agora. Então tem juízo. Comigo sê sempre o que tens sido. Eu gozo há muito do privilégio de conversar à vontade contigo e de te ver sem aquela timidez que tens diante dos outros. com o teu gênio, precisas de uma pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até descarregar algumas maldadezitas ; e acredita que me lisonjeio com me dares a preferência.

— Mas como imaginaste?.., — Continuas ? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que porventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souselas é elegante, é espirituoso, afável, possui uma inteligência cultivada e muito trato do mundo...

— Mas...

— Faça favor de me ouvir — atalhou Madalena, pondo um dedo nos lábios. Reconhecendo todas essas qualidades naquele nosso primo, não quero por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço o gênio tímido e porque... porque te conheço o gênio tímido e mais nada.

Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa que se dissesse, Madalena sabia demais que Henrique não saíra daquela primeira visita demasiado impressionado por a imagem de Cristina ; sabia talvez, suspeitava decerto, não me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto, que no coração do hóspede de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ela o poderia formular? O remédio pois era completar a frase como a completou.

Cristina já não tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para confessar. Encostando a face à mão, calou-se e deixou falar Madalena.

A morgadinha prosseguiu : —-É preciso que saibas, Criste, que é mais fácil conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos são imprudentes e linguareiros, denunciam-se, dão sinal de si, basta meia hora para se descobrirem em qualquer lugar que habitem. As boas qualidades, não; essas sao modestas, humildes, discretas; sabem esconder-se. São precisos anos para as descobrir todas. Mas com que olhos de espanto me estás fitando ! Parece que te causa estranheza o meu sermão ? Eu te digo a que ele vem. Logo que falei com este nosso primo... e quem sabe se o futuro virá confirmar, em relação a mim, esse título, que por fantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto, Criste...; mas, dizia eu, logo que falei com ele, saltaram-me aos olhos muitos dos seus defeitos.

— Quais são? — perguntou Cristina com viveza.

— Sossega ; são ligeiros, felizmente, e parece-me que os poderá ainda perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quis-me também logo parecer que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu logo em mim a vontade de c sondar, a ver se conseguia purificá-lo do que nele houvesse de menos heróico. Então que queres? para a aldeia era um passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e revestiu em mim mais sério carácter, desde que vi a impressão que este sobrinho da tia Doroteia te causara.

— Lena ! como te deu para supor que eu me apaixonei assim em poucas horas? Julgo que me imaginas apaixonada? — Não, ainda não; inclinada, agradada, atraída,., ou outro qualquer termo desta força, que deixarei à tua escolha, isso sim. Para isso não é preciso muito tempo. As razões, pelas quais julguei isto, dispensa- me de tas dizer, que pouco valem. Supõe que foi por um tacto especial, por uma qualidade oculta, como a do tino que dizem que têm certos médicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.

— Pois o tino enganou-te.

— Enganaria ; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso for realmente o que eu imagino que é, resta-me prepará-lo para o tornar mais digno do amor desta boa Criste, que em tal caso favorecerei ; se não for, declaro-lhe já guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa fé e da tua experiência. Olha, estou certa que o que mais te atraiu em Henrique foi exactamente o que nele há de pior. Certo verniz mentiroso, certo colorido, que é precise ter visto muita vez, e em muitos indivíduos diferentes, para se ter na conta devida.

Ilude, agrada a quem não está costumado, e pode causar graves enganos e desenganos mais graves ainda. Por enquanto o que ele nos mostra é mais da sociedade em que vive, do que dele próprio. É necessário deixar cair a primeira capa, para que o natural apareça.

— Não sabia que era assim fácil enganar-se uma pessoa a respeito de outra — notou Cristina, sorrindo.

— Se é ! Lembras-te do que tantas vezes conta tua mãe ? Que, quando há anos foi a Lisboa, comprou lá por bom preço um cofrezinho que ela supunha preciosíssimo, e que chora hoje a sua tentação, desde que o verniz brilhante, que ele tinha, caiu e ficou à vista a realidade? pois o mesmo acontece muitas vezes em contratos de outra ordem e bem mais sérios do eme este. Há vernizes maravilhosos, que iludem os inexperientes.

Houve um instante de silêncio, no fim do qual Cristina perguntou, olhando pela primeira vez fita para Madalena: — Ora diz-me, Lena, qual será a razão pela qual eu não devo acreditar que esses pensamentos te ocorreram, porque era o teu destino, e não o meu, que vias dependente do estudo que fazias? A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas recriminações.

— Por uma razão muito poderosa, Criste, porque ias abrir o coração a um sentimento mau, que macularia o teu carácter generoso e cândido — a desconfiança. Porque me ofenderias, duvidando da lealdade, com que te falo, quando te falo séria ; e porque me farias mal sem necessidade e imerecidamente, pois que a consciência me diz que to não merecia. Satisfaz-te esta razão? A voz de Madalena perdera o tom de ironia, que às vezes tinha, e tomara quase o da comoção.

Cristina arrependeu-se logo do que dissera, e, também comovida, apertou as mãos da amiga.

— Não faças caso do que eu disse, Lena ; perdoa-me. Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para sempre, envenenado o coração.

A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.

— Estamos quase a cair no sentimentalismo. Cautela. Saldemos antes as nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensação da pequena ofensa que me fizeste, vais-me fazer uma confissão formal, a que até agora tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu coração ? Diz.

Cristina hesitou, — Vamos — insistiu a morgadinha — acredita que preciso de uma declaração para me guiar... E crê que é para bem teu.

— Que queres que te diga ? Eu não me sinto apaixonada.

— Mas já te disse que me bastava um termo menos violento...

um «agradada», por exemplo.

— Confesso que...

—-Olha, se queres, podes até parar aí. Esse «confesso que...» já diz muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não corro o perigo ae me apaixonar por ele ; creio que há ali um excelente coração, mas que queres? Não é o tipo que me agrada...

0 meu ideal, como se costuma dizer.

— E então qual é o teu ideal ? — Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma espécie de arcanjo S. Miguel, ânimo de querreiro em figura de querubim ; e não sei onde o procure.

Neste sentido se prolongou o diálogo entre as duas primas, até que D. Vitória, findando a sua sesta, veio ter com elas à quinta. Segundo o costume, ralhava contra os criados, a quem, não sei por que processo, atribula umas dores de cabeça com que acordara.

No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao Mosteiro ; redobrou de galanteio com Madalena, a qual redobrou de ironia. Cristina já mal podia disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era atendida, mas a sua timidez não a deixava lutar.

De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de Alvapenha, que se prontificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar a nova visita às senhoras do Mosteiro, para gastar as expressões da sua admiração diante das alfaias da sacristía paroquial ; da tosca escultura de não sei que imagem de santo, a qual passava por um primor ; de uma sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras à volta, que era a sala das sessões do corpo municipal ; e de umas pirâmides de ripa, que tinham servido, havia oito anos, em festejos oficiais.

como e de supor, Henrique passou uma tarde deliciosa.

DOIS dias depois da Chegada de Henrique, e naquele que se destinara para o passeio à ermida, Cristina foi mais madrugadora do que as aves. A hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, já a prima de Madalena abandonava o leito, receosa de se fazer esperar pelos companheiros da projectada excursão matinal. Quase não dormira tôda a noite aquela rapariga, com tal preocupação.

As estrelas viram-na erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem dela, antes de se esconderem discretas ante o aparecimento do dia.

Cristina vestiu-se à pressa e dirigiu-se ao quarto de Madalena, Esta dormia ainda. O projecto de passeio à ermida não a alvoroçara tanto. Cristina foi acordá-la ao leito.

A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.

— Que queres tu, Cristina? Que lembrança foi essa hoje de andares estremunhando a casa esta noite? — Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia eu ontem? Então são estas as madrugadas em que falavas? — Decerto que não são madrugadas ; isto é noite é o que é.

— Dentro em pouco é dia. Queres ver? E, dizendo isto, Cristina abriu para trás as portas das janelas e correu as cortinas.

A estrela da manhã, Vénus, aquela brilhante e ao mesmo tempo suave estrela, que umas vezes assiste no crepúsculo às melancolías da natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus júbilos, cintilava mesmo defronte do leito de Madalena.

— Vês ? — disse Cristina.

— Muito pouco. É esse o teu sol? como vai alto! É pena que não alumie melhor do que esta lamparina.

Cristina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciência, quase de criança. • — Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a ver do alto da ermida o romper do Sol.

— Pois queres ver isso de lá ? ! Que crueldade ! Em uma manhã de Dezembro ! — Está tão bonita, que parece de Primavera, — Triste lembrança a nossa ontem de combinarmos este passeio.

Isto é lá coisa que se faça? Vale por uma viagem aos pólos.

Cristina não fazia senão ir do leito de Madalena para a janela e voltar da janela para o leito, em virtude daquela irresistível necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos quando nos deixamos apossar da impaciência.

— Não fazes idéia como está bonito cá fora ; nalguns pontos ainda se vê neve.

— Oh, que agradável e tentadora beleza! Ainda se vê neve!...

Parece-me que já estou gelada... com essa palavra tiraste-me o alento que ia ganhando. Vês? — Mas nao está frio ; até parece que aqueceu o tempo. Então, Lena!... Eles... não tardam por ai. Cuidas que te vai custar muito, e é um engano; aqui estou eu, que não sinto frio nenhum.

— Ora, mas tu estás em condições muito particulares. Quem tera uma fogueira no coração, não precisa...

— Aí principias com as tuas coisas l — Eu nao' sei ; o que é certo é que esse teu entusiasmo pelos passeios matutinos não é natural. Quantas vezes recusaste acompanhar- me quando eu tos propunha? Ora, se me dás licença, eu explico isso.

— Não quero saber de explicações ; veste-te, anda.

— Seja ! Infeliz lembrança a deste passeio. E foi daquela tia Vitória, que nem por isso nos quis acompanhar. Não, que já tem juizo ; dorme a estas horas o sono da madrugada, que é uma consolação. Que sorte de invejar! E a morgadinha, continuando assim a exagerar o sacrificio daquela madrugada e a aludir aos motivos secretos a que atribuía o ardor e heroicidade da prima ante os rigores de Dezembro, tudo isto de propósito para a ver impaciente, principiou a vestir-se.

Cristina ficara à janela, espiando os progressos do amanhecer e transmitindo à prima as observações que fazia.

— Olha, eu que digo?... já o Manuel vai abrir o portão... Não ouves os pardais?... É dia claro já... Havemos de chegar com sol à ermida, o que não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Hás-de ser a última a estar pronta... Aí vai ja o Luis com o almoço. É que não chegamos lá senão ao meio-dia. Ele aí vem ! Eu bem digo.

— Ele ! Quem é esse ele que aí vem ? — Pois quem há-de ser ? Então não é o primo Henrique que nos acompanha ? — Ë o primo Henrique, é o Sr. Augusto e é o Luis, que tua mãe teimou em mandar com o almoço. Não sabia qual dos três te merecia as honras de um «ele».

— Eu dizia o primo Henrique, que já aí está no pátio — disse Cristina, que nesta ocasião correspondia ao cumprimento que o recém- -chegado lhe fazia de baixo.

— Então, com efeito já chegou? — perguntou a morgadinha, admirada.

— Bravo ! Nunca o esperei. Ai, Criste, que me parece que ele também tem alguma coisa no coração ! — Tamcém o julgo — respondeu Cristina, despeitada ; — é ver como ontem te falou.

— Sossega. Quando o coração tem alguma coisa, não se fala assim com a pessoa que causou esse mal.

— Não sei o que ele me está a dizer — disse Cristina, olhando para o pátio. — Posso abrir a janela, Lena? — Eu já estou preparada para sofrer todas as crueldades esta manhã. Abre lá a janela, abre. Fala-lhe.

Cristina correu a vidraça.

A voz de Henrique chegou distintamente aos ouvidos de Madalena.

I — Então aquela grande madrugadora da nossa prima, onde está ? — perguntou ele a Cristina.

Cristina respondeu, sorrindo: — Está a fazer a diligência que pode para ficar 'pronta antes do meio-dia.

— Oh, que vingança a minha ! Ela que tanto falou da minha indo lência ! — disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de Madalena, e elevando a voz às vezes para se dirigir directamente a ela, mas sempre sem receber resposta.

Esta insistência impacientou Cristina, para quem ele nem urn galanteio tivera ainda.

— De maneira que nós, priminha — continuou Henrique — damos uma lição de mestre àquela arrogante de ontem. Estou ansioso porque ela nos apareça; quero ver a coragem com que ousa apresentar- se.

— Eu vou chamá-la — disse secamente Cristina, e veio dizer a Madalena, com certo modo, que não podia escapar a esta : — Olha se apareces ali ao Sr. Henrique de Souselas, que não descansa enquanto te não vê.

A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as trancas, dando ao penteado a mais singela e graciosa disposição, voltou-se para a priminha e disse-lhe sorrindo : — Isso são já ciúmes ? Mal sabes quanto gosto de te ver assim I Ao menos há já vida nesse teu coração, minha pobre pequena. O que te peço é que não me odeies, só por que esse rapaz se lembrou de perguntar por quem não via.

— Estás a imaginar ciúmes, como ontem imagina vas...

— Amores ? justo ; e com a mesma felicidade em acertar ; podes ir acrescentando. Mas, parece-me que aí está mais alguém no pátio.

Oiço falar. Vai ver. Será Augusto? Nesse caso, espera-se só por mim para completar a caravana. E eu estou pronta. Marchemos.

Augusto havia efectivamente chegado ao pátio.

Henrique trocara com ele alguns cumprimentos, e principiaram depois ambos a passear, um ao lado do outro, à espera das que deviam ser-lhes companheiras na romagem.

A conversa manteve-se pouco animada. Augusto não era expansivo com as pessoas, a quem o não prendiam hábitos de longa intimidade ; Henrique, talvez por não conhecer a extensão e natureza dos conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos assuntos em que entraria de mais vontade. Falaram pois de coisas indiferentes a ambos, e quase frivolas; no frio, na chuva, no Inverno e no Verão, nos prós e contras da vida do campo e de vários outros assuntos secos de si e já além disso muito esgotados, e tudo cortado por aquelas pausas e silêncios constrangidos e insuportáveis, que o leitor há-de conhecer por experiência.

Digamos nós a verdade ; estes dois homens não sentiam um pelo outro aquela súbita e inexplicável simpatia, que abre os corações e dá margens a confidencias.

Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestara-se entre eles certa frieza mais que cerimoniática, uma quase desconfiança instintiva.

Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos.

Ainda quando não fossem senhoras o seriam; a chegada de Um terceiro, quando dois indiferentes estão na presença um do outro, em entrevista forçada e fatigadora, é sempre saudada interiormente como uma redenção.

Madalena e Cristina vinham ambas formosas, com a espécie de manti lhas ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manhã de Dezembro.

Apareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando próximo do quarto de D. Vitória, pé ante pé, para não a acordarem, esta pressentiu- as, e mesmo do leito perguntou-lhes: — Então já vão, meninas? — Vamos, tia ; vamos, mama — respondsram as duas a um tempo — O Luis já partiu com o almoço? — Já partiu, já, minha senhora.

— E ides agasalhadas ? — como se fôssemos para a Sibéria — respondeu Madalena.

— Olhai, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa Senhora.

— Cá os levamos. Adeus, tia ; adeus, mama.

— Adeus, filhas ; até logo, se Deus quiser. Olhai lá não vos estaféis.

Ora os tais guarda-chuvas é que não iam. Para quê? com uma manhã daquelas, que nem de Inverno parecia, pois que até o frio abrandara com o vento ! Por isso é que vinham ainda a rir.

Chegando ao pátio, cumprimentaram os seus dois companheiros.

Henrique, depois de formular um galanteio a Madalena, ofereceu-lhe atenciosamente o braço, que Madalena recusou com alguma impaciência, porque se lembrou de Cristina.

— Muito obrigada, primo — disse ela com vivacidade. — Mas é preciso que o advirta de que não vamos passear pelas avenidas de um parque. Vamos trepar montes, atravessar ribeiras, costear precipícios, e para tudo isso é necessária a completa liberdade de movimentos.

Há ocasiões, em que melhor nos servem os nossos dois braços, do que o braço de outro, embora seja o de um herói.

— Mas decerto que não é à borda dos precipicios que esse auxílio se escusa — replicou Henrique.

— É, muitas vezes é. Há bordas tão estreitas, que mal cabe nelas uma pessoa só; felizmente que a natureza nos dá um braço então...

um braço de giestas, por exemplo.

— Vê lá, Lena — disse Cristina ao ouvido da prima. — Talvez seja melhor que aceites. Resta-me, a mim, o braço de Augusto.

— Se continuas com essas loucuras, Cristina, obrigas-me a odiar-te.

Sr, Augusto — continuou voltando-se para este — espero que tome a direcção do nosso passeio; ninguém melhor conhece os mais belos pontos de vista ; leve-nos por lá, embora tenhamos de comprar as belezas à custa de perigos e de fadigas. Partamos ! O monte onde se erigira a capela da Senhora da Saúde, afamada pelos seus milagres e pela sua romaria num círculo de muitas léguas de raio, era uma elevada rocha vulcânica, que dominava as freguesia rurais de mais de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos pés as alcatifas da mais rica vegetação ; banhava-lhos a água dos ribeiros, das levadas e torrentes, artérias fertilizadoras de extensas veigas e pomares; mas ele, o gigante orgulhoso e selvagem, recebia aqueles preitos, olhava sobranceiro aquela opulência, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em vez de cobrir os ombros com o manto real, que lhe estendiam aos pés, permanecia áspero, severo e nu, como nas épocas primitivas, em que uma convulsão tremenda o evocara do seio da terra, para o consolidar em colosso.

Apenas, como símbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda, que, havia perto de um século, a piedade cristã plantara em volta da ermida, para refrigèrio e conforto dos devotos cristãos que ali iam. Era custosa a ascensão por o lado, por onde os nossos romeiros, contra os conselhos de D. Vitória, a empreendiam. Quando, ao sair de uma longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de súbito diante de si a mole imensa e talhada quase a pique, que lhe disseram tinha de subir; ele, que raro em Lisboa estendia além do Rossio os seus passeios, com medo das íngremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um absurdo.

Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que dele o separava.

O riacho, engrossado pelas águas da chuva dos dias anteriores, levantava um bramido atordoador ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rápido pela cal da azenha, que lhe obstruía o leito e cuja enorme roda movia.

Àquela hora, ainda pouco clara da madrugada, este sítio da raiz do monte tinha não sei que aspecto selvagem e melancólico, que quase infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes negras, os troncos flexuosos e despidos das vides ; mais longe, o canavial, ondulando ligeiramente ao perpassar através dele a brisa da madrugada, e, aqui e além, um desses degenerados aloés dos nossos climas, débeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira pátria, eram acessórios que concorriam para o efeito geral do quadro.

A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, deu-lhe alento com lançar-lhe em rosto a sua pusilanimidade. Henrique encheu- -se de brios e atravessou, com não menor denodo do que os outros, o riacho, por o passadiço de altas pedras, colocadas a pequena distância umas das outras, e que as águas a cada momento ameaçavam cobrir.

Atiavessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se indispensável caminhar em continuados ziguezagues, aproveitando os cortes que a fouce do tempo conseguira abrir naquela massa granitica e os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurara facilitar, por aquele lado, o acesso da ermida à piedade dos devotos.

As dificuldades para Henrique eram continuas.

A cada momento os embaraços deste forneciam motivo para risos da parte de Madalena. Cristina não lhe podia levar a bem que se risse daquilo.

Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia, porém, a paisagem, que, a cada passo andado, a cada ângulo que se dobrava, aparecia mais surpreendente e maravilhosa.

Poucos peitos teriam força para reprimir um brado de admiração.

As névoas daquela manhã de Dezembro não eram bastantes para velarem a beleza do quadro.

À medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava- -se-lhes mais e mais o horizonte ; aveludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a aparência dos canteiros de um jardim.

Henrique não retinha o entusiasmo que aquele espectáculo lhe causava.

— É magnífico ! é admirável ! é soberbo ! — dizia ele, a cada momento e quando não era inquietadoramente preocupado com os perigos do caminho.

O entusiasmo de Augusto não era menos vivo ! Dir-se-ia que eram os montes a sua pátria, e que a melancolia nostálgica, que o oprimia na planície, se ia dissipando à medida que subia a encosta.

Madalena e Cristina também não estavam menos impressionadas por o que viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer, que as belezas naturais lhe pudessem ocasionar.

Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã.

Henrique continuava a ser todo atenções e galanteios com Madalena; parava a cada momento naqueles pontos do caminho, que lhe pareciam mais difíceis de vencer, para lhe oferecer a mão a ela, sempre a ela, a quem dirigia também todas as reflexões que o aspecto da paisagem lhe suscitava e nunca à esquecida Cristina que, nesses momentos, quase achava a manhã desagradável e o sítio feio e sombrio.

A morgadinha respondia sempre em curtas frases a Henrique e recusava insistentemente o auxílio que ele lhe oferecia.

— Estou a suspeitar que esses oferecimentos do primo são mais devidos à necessidade que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos auxiliar — disse ela sorrindo. — A falar verdade, para quem tem passado a vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira ? Eu fui criada nisto. Tenho um pouco de alpestre. Adiante.

E de uma ocasião, em que estava perto dele, disse-lhe a meia voz: — Pode ser que Cristina careça mais do seu braço, primo. Ainda não teve a lembrança de lho oferecer.

Henrique só então deu por esse esquecimento ; apressou-se a remediá-lo, oferecendo a Cristina também o braço, que esta recusou corando.

— Então porque recusas? — perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa.

— Porque não quero abusar da delicadeza dele, nem da tua.

A morgadinha abanou a cabeça em ar de repreensão, fitando-a, mas não lhe disse nada.

Pouco a pouco ia sendo mais completo o silêncio em torno deles.

Já tinham passado acima dos rumores do vale, que não subiam a mais de meia encosta. Chegaram enfim ao cimo do monte ; tudo anunciava o próximo aparecimento do Sol.

— Chegamos a tempo ! — exclamou Madalena que, deitando a correr, fora a primeira que atingira a pianura. Sua Majestade ainda se não levantou.

Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao pé dela.

Houve um longo espaço de silêncio, concedido espontaneamente à contemplação daquela perspectiva solene.

As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa, naquele tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presença de um espectáculo grandioso e belo. Fala-se baixo e pouco ; não se formulam longos períodos de aprimorado estilo, nivela-se a eloqüência de todos em simples frases, como estas: — É belo! — É magnífico ! — É sublime ! E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na ocasião de que falámos. E eu, por análogas razões, os imitarei, desistindo de descre- .ver o que só bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjunto de todo o panorama. O leitor, que nunca visse alguma cena semelhante, não a imaginaria pela descrição, forçosamente pálida, que aí lhe deixasse dela ; e para o que a viu, a memória lhe preencherá bem a lacuna.

Desvanecida a primeira impressão, que não deixa ao espírito a serenidade precisa para os processos da análise, principiaram, como é costume, a fazerem notar uns aos outros os sítios mais conhecidos.

Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre os quatro.

Cristina descuidou-se da sua timidez e despeites ; Madalena dos seus projectos e desconfianças ; Henriaue e Auqusto deixaram também a sua mútua frieza.

— Lá está o Mosteiro — disse Madalena, apontando para o lugar indicado. — como parece pequeno, visto daqui ! — E verdade — respondia Cristina — e olha, Lena, como se vêem bem as janelas do teu quarto.

— Lá está aquela que tu abriste esta manhã para cumprimentares...

Sentindo a mão de Cristina comprimir-lhe o braço, concluiu: — Para cumprimentares a estrela de alva.

— As janelas do quarto da mama julgo que ainda estão fechadas.

— Tanto não posso eu distinguir ; contudo afianço-te que sim.

A tia Vitória não é muito matinal.

— Aquela casa acolá não é a de Alvapenha ? — perguntou Henrique, apontando noutra direcção.

— É — respondeu Augusto — e, mais adiante, ali tem a devesa, em que passou anteontem. Não é verdade? — É justamente. Com efeito ! Foi um soberbo passeio o que eu dei ! Daqui é que se vê. Lá vejo umas presas, por onde me lembro de ter passado também.

— Vê, acolá, aquela casa que tem uma capela ao lado? — perguntou Madalena, apontando para um ponto distante.

— Perfeitamente.

— É a minha quinta dos Canaviais.

— Ah! É verdade, lá estão uns canaviais, se me não engana a vista.

— Justamente. Não sei se sabe que há naquela capela uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa.

— Sim ? hei-de visitá-la.

— Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da meia-noite, é concedido — disse Cristina, fitando desta vez Henrique, com a expressão da mais insinuante sinceridade.

— Que quer dizer o voto da meia-noite ? — Tem uma pessoa de rezar à meia-noite, e sozinha, sete estações no altar da Senhora — continuou Cristina.

— Só isso ? Boa é de cumprir a promessa. Já vejo que não ha aqui na terra desejo que se não satisfaça.

— Mais devagar — acudiu Madalena, sorrindo — pouca gente se atreve até a ir lá à meia-noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas mortas por a sua antiga casa, dizem.

— Cada vez sinto mais desejos de lá ir — acrescentou Henrique, depois de ouvi-la.

— Além, entre aquelas árvores, Sr.* D. Madalena, vive um filósofo disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.

— É verdade ; o bom do tio Vicente.

— Tio Vicente ? Quem é o tio Vicente ? Temos mais algum tio com que eu possa aumentar o meu parentesco na aldeia? — O tio Vicente é um santo velho, que se ocupa a colher ervas pelos montes e vales para fazer remédios, que dizem milagrosos. Ainda é nosso parente, mas em grau muito arredado ; contudo chamamos-lhe tio, assim como quase toda a gente por aqui.

— Que sombras negras sao aquelas que se vêem no adro da igreja ? — perguntou Cristina.

— Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um cordão de formigas — disse Henrique de Souselas.

— São as mulheres que vão ouvir o missionário — respondeu a morgadinha. — Escutem, lá está a tocar o sino.

Efectivamente chegavam ao alto do monte as débeis mas sonoras badaladas do campanário da aldeia.

— A estas horas principiam as lamentações daquele pobre Zé- -Pereira, que tão mal olhado anda por a mulher, desde que ela deu nessas devoções — notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da cena doméstica a que na véspera assistira.

— Degenerou aquela mulher ! — disse Madalena — e, se quer que lhe fale a verdade, Sr. Augusto, custa-me ver o Cancela deixar a Lindita entregue assim a essa gente quando sai da terra. A pequena é tão apreensiva! — Visto isso, já chegou aqui à aldeia a influência dos missionários ? — perguntou Henrique.

— E não tem lavrado pouco ! — tornou Madalena.

Cristina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as palavras da morgadinha.

— Primo Henrique — disse ela — julgo que ainda será preciso o seu auxílio para livrar do contágio esta inocente Cristina.

— Pronto, prima Madalena; para as boas causas tenho sempre armada a minha vontade.

— Olha, Lena, não vês ? — exclamou Cristina — são os pequenos que nos estão a dizer adeus das janelas do mirante.

De facto nas mais altas janelas do Mosteiro agitavam-se uns lenços brancos.

Mariana e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a prima. Estas tiraram também os lenços e corresponderam- -lhes aos sinais.

Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo: — Anuncio a V. Ex.ª, que chega o rei da criação.

Efectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da alameda já se tingiam de luz.

Todas as vistas se voltaram para o Oriente. Assinalava-o uma esplêndida faixa de púrpura, que, em insensível graduação, desmaiava para as extremidades até se perder de todo no azul-celeste.

Rompia já, do meio dela, um pequeno segmento do Sol, depois, o astro inteiro aparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal candente, e logo se desprendeu da terra, de onde parecia surgir, e subiu nos ares, como um brilhante aeróstato, ao qual se rompessem as prisões que o retinham.

O monte inundou-se de luz. O vale, em baixo, estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.

Nisto apareceu do outro lado da capela um dos criados de Alvapenha, que veio anunciar que o almoço estava pronto.

— Pois deveras temos um almoço? — exclamou Henrique, sinceramente surpreendido.

— Graças à previdência de minha tía, previdência de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o apetite — respondeu Madalena. E logo após continuou para Henrique : — Agora é ocasião mais acomodada de pôr em prática os recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Cristina? Henrique, em quem a morgadinha suspeitara a intenção de lhe render a ela a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender, limitando-se a exprimir num olhar as suas queixas, olhar que Madalena fingiu não -perceber.

E, conversando e rindo, dirigiram-se para o lugar onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço.

D. Vitória não era senhora que se saísse mal de empresas destas.

A alvura da toalha, a excelência da louça e o bem disposto e apurado das iguarias convidavam.

Não se concebe apetite refractario a um tal conjunto de circunstâncias.

O fastio, neste caso, seria um fastio mórbido, correspondente a lesão orgânica e como tal sem poesia.

Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça à cozinha do Mosteiro.

Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças, conversou animada e espirituosamente.

Contaram-se anedotas ; Augusto aplaudiu as de Henrique ; este riu com vontade das que ouviu a Augusto.

A morgadinha, por sua própria mão, preparou o chá.

Nestas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir.

Dir-se-ia ser este o sinal para se perturbar a santa harmonia do congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.

Henrique ficara sentado junto da parede da capela. Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas letras escritas na parede, exactamente por cima da cabeça.

— Bravo ! — exclamou, depois de as 1er para si — não imaginava que havia poetas na aldeia! Querem ouvir? E leu: Se estás mais perto do Céu Nestas alturas da serra, Ai, porque tens, peito meu Inda saudades da Terra? Em vez de erguer os olhares À luz deste firmamento, Desço-os à sombra dos lares, Onde tenho o pensamento.

— É pena que a chuva apagasse o resto. Quem é o bardo, prima? — Não sei ; da aldeia decerto que não é — respondeu Madalena, com indiferença.

Augusto ergueu-se da mesa e foi passear para a alameda.

— Da aldeia, não, diz a prima ; e porque não ? com esta natureza é fácil criarem-se os poetas. Eu estou vendo nesta quadra a folha de um romance. Aqui a serra de algum Bernardim inédito, tão capaz de escrever saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quais o olhar do poeta trocava os esplendores do Céu..., algumas dessas casas, que aí se vêem em baixo. Quem sabe se não será até o Mosteiro? Eu, por mim, confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra companhia — acrescentou, olhando significativamente para a morgadinha — não teria dúvida em subscrever esta quadra, como a exacta expressão do meu sentir, porque...

Em vez de erguer os olhares À luz deste firmamento, Eu também...

Os abaixaria aos lares Onde tenho o pensamento.

Cristina levantou-se também da mesa e foi ter com Augusto à alameda.

Madalena, que a seguiu com a vista, não disfarçou um gesto de despeito ao ficar só com Henrique.

— Prima Madalena — disse em tom mais afectuoso Henrique, passado tempo, e depois de mais algumas palavras — deixe-me falar- -lhe com franqueza, agora que estamos sós. Conhecemo-nos há dois dias ; eu, porém, sinto-me tão seguro já do que lhe vou dizer, que não hesito. Não pode imaginar a indelével recordação que me ficará desta manhã.

— Perdão — atalhou Madalena — diga-me primeiro o que e isso que me vai dizer. Prepara-se para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis ; gosto de estar prevenida do sentido das felicitações que me dirigem, para ir preparando uma resposta adequada.

— Que prazer tem em ser cruel ! — Deixemo-nos de loucuras — continuou Madalena séria já. — Quem ouvisse o Sr. Henrique de Souselas havia de supor que se preparava para me fazer uma declaração.

— uma declaração do mais puro afecto, do mais sincere sentimento, porque não?

— Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenções, peço-lhe desista delas.

— Porquê ? — Porque não posso escutá-lo.

— Ou não quer.

— Ou não quero ; seja.

— Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu coração já...

— Que impertinente pergunta? Se já, não tenho ainda no Sr. Henrique a necessária confiança para o tomar por confidente. Conhecemo- -nos apenas de ontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.

— E acrescentou logo depois : — Cristina, anda ser arbitra numa disputa entre mim e o primo Henrique.

— Que vai fazer? — perguntou-lhe Henrique, admirado.

Cristina aproximou-se ; Augusto seguiu-a. Henrique não desviava os olhos da morgadinha que, sem lhe dar atenção, prosseguiu para Cristina : — O primo Henrique falava com certa exaltação da doçura do teu carácter ; o meu amor-próprio disse-me que — era pouco delicado estar assim a lisonjear uma mulher na presença de outra — e redarguì por isso, pondo em dúvida a asserção e afirmando que havia um fermentozinho de maldade na tua doçura. Ele nega por impossível, eu insisto e estamos nisto. Agora diz tu.

— Cristina corou intensamente e não teve que responder.

Henrique, que nas palavras de Madalena julgou ouvir algumas que, pelo sentido e inflexão, com que foram ditas, lhe eram dirigidas, aceitou desafrontadamente a posição, em que Madalena o colocara, e respondeu: — Venci eu ! O facto de querer a priminha poupar uma réplica amarga à acusação que lhe fazem, é a mais eloquente prova, já não digo só da doçura, mas da natureza angélica do seu carácter. Já vê, prima Madalena, que «quando uma das mulheres que diz, for como a nossa boa Cristina, não se podem admitir essas revoltas de amor- -próprio a que aludiu».

A morgadinha percebeu também o duplo sentido destas últimas palavras ; mas fingiu não compreender.

Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos nele, enquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos lábios a grave expressão que lhe era habitual, temperando-a com não sei que de irónico, que não escapou também a Henrique.

Os olhares destes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum parecesse disposto a baixar-se diante do outro.

Desviou-os porém uma dupla exclamação de Madalena e de Cristina, dizendo : — Olhem o tio Vicente por aqui ! Dobrava efectivamente naquele momento a esquina da ermida, e aproximava-se da mesa do almoço, o velho ervanário, em que já temos falado no decurso dos passados capítulos.

X ERA uma expressiva figura de ancião o ervanário.

A fronte larga e desafrontada de cãs, os olhos ainda vivos e penetrantes e, em tôda a fisionomia, permanentes indicios de habituais meditações e porventura de passados infortúnios, elevavam aquele semblante muito acima da vulgaridade. Os anos ou, mais ainda do que os anos, os pesares haviam subjugado nele a robustez de outros tempos ; os hábitos de solidão, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o carácter até fazerem do velho um desses tipos excepcionais, que atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguém permitindo sondar os mistérios que guardam consigo e para si, e criando para uso próprio regras de viver, sem atenção as convenções sociais.

Era um enigma vivo.

Nas aldeias acompanhava-o uma fama quase de nigromante; atribuíam-lhe curas milagrosas, obtidas com os símplices, a cuja cultura e colheita consagrava as maiores atenções e canseiras.

Ninguém lhe queria mal, que a ninguém o fizera nunca. Poucos porém ousariam, depois do esconder do Sol, ir procurá-lo à isolada casa em que vivia, escondida num quintal, que era cultivado com todo o amor pelo velho.

Em todos os casos intrincados vinham consultar o ervanário, e ele, como seguro da sua proficiência, em caso algum recusava o alvitre.

Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem método, de uns alfarrábios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal digeridas noções de ciência, de que se mostrava orgulhoso.

Livros de medicina antigos, alguns de jurisprudência, outros de lógica e de astronomia, constituíam a sua mesclada biblioteca. Entre os livros mais predilectos e consultados contava um exemplar da Polianteia, de Curvo Semedo.

O ervanário principiara em criança uma educação tal ou qual, que reveses de família haviam interrompido.

Os meios conhecimentos, que das suas habituais leituras extraíra, e os erros, que de tais livros assimilara, eram os elementos com que chegou a arquitectar uma ciência informe, que na aldeia passava por maravilhosa.

E o caso era que a fama do homem voara de freguesia em freguesia, de concelho em concelho, e de muito lonae o vinham ouvir como a oráculo.

Os costumes do velho, que errava por vales e montes à procura dos símplices, cujas ocultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade da fisionomia, a franqueza, sem contemplações, com que dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginação popular aquêle tipo, para ela quase lendário.

Depois de se sentar à mesa, o ervanário estendeu familiarmente a mão a Augusto, que lha apertou com afecto, — Bons dias, rapaz — disse o velho ; e, dirigindo-se a Madalena e Cristina, acrescentou com maneiras paternais — Adeus, pequenas, grandes madrugadas hoje ! Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quase desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente : — Guarde-o Deus ! Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.

Sem mais o atender, Vicente voltou-se para Madalena e perguntou- lhe com voz audível para Henrique, e referindo-se a ele : — Quem é ? Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa: — O homem que, melhor que ninguém, está habilitado a responder a essa pergunta.

O velho nem sequer o olhou.

— Este senhor — respondeu Madalena — é sobrinho de D. Doroteia ; está hóspede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saúde.

Vicente tornou a examinar Henrique.

— Então é doente?... Não parece... Olhar vivo... Cores boas...

voz sã... Hum!...

Madalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam desagradando a Henrique ; por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente : — A doença deste senhor é um pouco de imaginação.

— E grandes efeitos nascem daí — acudiu sentenciosamente o velho. — Lá vêm na Polianteia muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido umas amoras, foi atacado de dores de cabeça, de que morreu. Pois tanto cismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no crânio uma pedra do feitio de uma amora.

— Com efeito ! — disse Henrique, com irónica expressão de pasmo — aí estava um cérebro de concepções rijas ! — É divertido ! — disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para Madalena.

— Pelo contrário — acudiu a morgadinha — o seu mal é a melancolia.

Não é verdade? — Eu já não sei qual é o meu mal. Estou quase a dar razão à tia Doroteia, que lhe chamou mania.

— Mania e melancolia não são a mesma coisa — emendou o velho.

.— Também lá na Polianteia se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem fúria, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou cólera requeimada.

— De colera requeimada ? Deve ser uma coisa terrível ! — continuou Henrique, no mesmo tom.

Madalena, receando que a ironia dos comentários de Hennque acabasse por irritar o velho, perguntou a este : — Parece-lhe que terá cura a doença ? — Pode ter ; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido afinal. Hum!... Mas contra tristezas e manias não há como as folhas de ouro em caldo de frangão com ñores de borragem e de erva-cidreira, — Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer o cabelo ; é um argumento vivo contra a eficácia da beberagem que receita para as manias — disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe ficava próximo.

O velho, que não tinha ainda dado mostras de ofensa pelas maneiras impertinentes de Henrique, corou desta vez e faiscou-lhe nos olhos um relâmpago de irritação.

Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.

— Está bom, menino — replicou ele amargamente. — Não diga mais, para se não envergonhar depois. Eu calo-me ; e desculpe-me se falei. Estou costumado a ver pobres e ricos virem a minha casa pedir- -me o favor de os atender. Ainda assim aí vai mais um conselho, apesar de mos não pedir. Seja atencioso com a velhice que não é baixeza nenhuma. Mas que é isto ? — exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas secas que o vento trouxera até perto dele. — As folhas vêm deste lado ! Então virou o vento ? É verdade.

Ah! sim?... Percebo.

E, depois de olhar para o ar, continuou: — Mudanças tão repentinas !... Hum !... Já me não agrada aquêle azul e aquelas nuvens.

E levantou-se.

— Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto e quem sabá o mais que virá! Aconselho-os a que vão descendo o monte, que não é seguro descê-lo quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me não demoro, que não tenho confiança na firmeza das minhas pernas. Oh ! noutros tempos !... Enfim, tudo tem de acabar. Adeus ! E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata em que arquivava as' ervas medicinais e outras substâncias, que andava colhendo, e partiu, depois de dizer adeus a Augusto, a Madalena e a Cristina.

Logo que o ervanário desapareceu, Henrique soltou uma risada, em que parecia haver o que quer que era de forçado.

— É realmente curiosa esta antigualha — disse ele, que interiormente sentia já remorsos pela maneira por que tratara o velho.

— Ai, primo Henrique ; que ainda está muito pouco preparado para viver na aldeia ! — disse a morgadinha. — Tem uns melindres e uma maneira de ver as coisas ! Tudo lhe parecem faltas de atenções, propósitos de ofender ! depois há um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espíritos não estão aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso nao e bom! Se vai assim, ou terá de nos deixar cedo, ou grandes desavenças suscitara por aí. Não repara que estes modos são próprios do campo'? — Perdoe-me, prima Madalena; mas confesso que nunca tive demasiado jeito para iidar com doidos. Deve confessar que este homem...

— É um homem de bem — atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade de expressão, que até ali não mostrara ainda.

Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silêncio. Augusto arrostou firmemente aquele olhar.

— Não o nego — respondeu Henrique, pouco depois — mas infelizmente os homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a imbecilidade.

— Engana-se ; esse homem, apesar de algumas fantasias, tem ainda um juízo são e uma razão clara.

— Acha? — tornou Henrique, já algum tanto azedado. — Há-de dar-me licença de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permitido.

— Procede mal — redarguiu Augusto. — Porque eu conheço aquele homem há muito e o senhor acaba apenas de o ver pela primeira vez. Foi o senhor quem primeiro deu às suas palavras um tom irritante, que desafiou uma digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A consciência lho está dizendo neste momento melhor do que eu.

— Lê fundo nas consciências dos outros ! — Não é difícil. Em todos os homens a consciência tem uma só maneira de ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.

— Estou admirando a súbita loquacidade que se lhe manifestou I Até aqui supunha-o taciturno. Vejo que lhe mereço a fineza de abrir uma excepção aos seus hábitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que dizia eram máximas ou pensamentos morais? Não reparei.

Augusto corou, mas respondeu com firmeza: — Nem uma nem outra coisa ; é um género muito mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade.

Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada ironia: — É verdade, é verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu programa... de mestre-escola.

— Justamente ; tenho alguns discípulos que lisonjeiam o mestre ; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descalços, mas nesse ponto podem dar lições a elegantes filhos das cidades.

— Pois estimarei, nas minhas longas horas de ócio, aqui na aldeia, dever-lhe algumas lições também. Contudo, como, felizmente, as circunstâncias em que estou me permitem prescindir do benefício do I Estado, que o subsidia, há-de conceder-me que pague as lições que receber.

— Nunca me envergonhei de aceitar a recompensa do meu trabalho, se o discípulo pode dar-ma... sem sacrifício.

— E aceita-a em tôda a espécie de moeda, não é verdade? perguntou Henrique, cada vez mais petulantemente.

Augusto respondeu com a mesma serenidade : — Não faço também escrúpulo nisso, contanto que me fique o direito salvo de pagar na mesma espécie de trocos, quando julgar que os devo.

O diálogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais acerbo carácter.

Cristina, que já tremia de assustada, cingiu o braço de Madalena, como para convidá-la a intervir rapidamente.

Esta não o tinha ainda feito por uma simples razão. Desconhecia Augusto. A audácia com que o via repelir as ironias do seu adversário, a firmeza inalterável com que lhe sustentava o olhar, o sorriso que, em desdéns, rivalizava com o dele, eram tão novos para a morgadinha, que a surpresa, que dai lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade de uma intervenção. O aviso de Cristina chamou-a, porém, à realidade.

— Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre os senhores é uma altercação — disse ela por fim. — Vejam que só têm por testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a contenda tomar outra feição. Por isso não é muito para louvar a escolha que fizeram da ocasião, para uma justa tão pouco... amável.

— Perdão, prima Madalena; reconheço a minha culpa, e a grosseria do meu proceder, Mas aqui o Sr. Augusto, costumado a impor aos discípulos o seu pensamento, quis estender até mim este despotismo de... magister... Ora o meu pensamento pugnou pela sua independência...

— Desculpe ; supondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opinião desfavorável, que levianamente formou de quem lha não merecia.

Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que quiser. Mas o que eu não sofro é que se diga diante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem sou amigo, sem que erga a voz a defendê-lo.

Se não costuma fazer o mesmo por os seus, nem sente viva e irresistível a necessidade de o fazer, lastimo-o ; é porque não os tem.

— com mais paz de espírito se discutirá tudo isso depois — disse Madalena. — É de crer que, como sempre, haja de parte a parte razão e agravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui traz. E tal é o prestígio que a defende, que não consta de um só roubo sacrilego que se fizesse nela.

Entraram na ermida. Era um pequeno santuário, todo forrado de azulejo antigo, com enegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando episódios da Paixão; os altares, adornados de colunas e florões de talha dourada, atestavam nos muitos ex-votos que deles pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos desenhos chineses e que representavam milagres de todo o género, a fé ardente com que era adorada a imperfeita escultura da Virgem.

E apesar de tudo tinha este templo um ar de solenidade manifesto.

De onde lhe vinha ele ? Da sua mesma pobreza e nudez, do silêncio que reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que estava.

Ali dentro demoraram-se os quatro visitantes, Madalena e Henrique examinando alguns dos quadros dos milagres ; Cristina, que prolongara mais do que a prima a oração que fizera, contemplando a imagem da Senhora ; Augusto com os olhos fitos nas colunas do altar, porém, não sei se pensando nelas.

Esperava-os uma surpresa à saída.

Realizara-se o prognóstico do ervanário.

O vento sui que,' segundo ele notara, soprava já havia algum tempo, viera condensar os vapores, que arrasta de ordinário na sua corrente, e empanar com eles a limpidez do firmamento. O azul do céu semeara-se, pouco a pouco, de pequenos ñocos brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados veios que lhe davam uma aparência quase marmórea. Cedo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando por tingir uniformemente tôda a extensão do firmamento. Ao mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, começaram a erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espaço, como montanhas móveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro às serras, que as aguardavam firmes.

Um denso véu de nevoeiro escondia já a paisagem, quando saíram da ermida.

— Depressa ! — exclamou Augusto — já não há tempo a perder ! Desçamos antes que a tormenta nos colha.

— Tem medo ? — disse Henrique em tom de mofa. — Um montanhês ! — Talvez tenha ; em todo o caso há-de ver que não é de inimigo pouco digno de o inspirar. Por agora peço-lhe tréguas às zombarias e, por amor destas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida. Felizmente que o criado já partiu. Ë um embaraço de menos.

Vamos. — Detendo-se, porém, disse para Madalena : — Se descêssemos por o outro lado, minha senhora? — Para quê? — respondeu esta.—É um momento enquanto chegamos abaixo.

A tempestade caracterizava-se cada vez mais ; crescia a cerração do ar ; os álamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul ; a chuva principiou por grossas gotas, e cedo aumentou assustadoramente ; havia na atmosfera surdos rumores de tempestades longínquas ; algumas nuvens tomavam uma cor térrea, outras um carregado de chumbo, ambas igualmente sinistras Cristina, pálida de susto, murmurava em voz baixa orações fervorosas ; Madalena sorria para a animar, mas ela própria estava inquieta.

Não era de facto uma empresa de todo fácil o descer o monte por um tempo daqueles. O caminho, já de si íngreme e precipitoso, era quase impraticável quando as correntes se despenhavam por ele, como em catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se furiosos de encontro às arestas salientes da rocha. — Era necessário estar muito amestrado para o descer sem perigo.

Augusto era de todos o que melhor o conseguiria ; assim não tivesse de repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumara àquelas aventuras ; e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos despenhadeiros do monte.

A tudo, porém, atendia agora, desenvolvendo uma actividade e perícia, que inspirava alento e confiança aos mais. Ágil como um animal montes, girava em volta da pequena caravana, de que tàcitamente fora reconhecido chefe. Ora adiante a dirigir os passos pelos lugares de mais fácil trânsito, ora à retaguarda a dar a mão a Madalena, que vira em embaraço, ou a amparar Cristina, a quem muita vez chegou a levantar nos braços, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ela parara, sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na humidade do chão. O próprio Henrique, que não era o menos embaraçado do rancho, e nem isso admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, do auxílio de Augusto.

O amor-próprio e orgulho do hóspede de Alvapenha iam um tanto mortificados nesta retirada inglória. Nenhum dos seus muitos talentos e aptidões, de tanto valor no terreno, também escorregadio, das salas de baile, lhe valiam para ali. Era evidente a sua inferioridade neste momento ; ora Henrique não era homem que, tendo consciência disto, ficasse indiferente; mas que remédio? Procuraria mais tarde uma compensação.

Não descrevemos todos os episódios desta laboriosa descida, alguns dos quais somente a preocupação, em que iam os ânimos, impedia achar risíveis ; porém que mais tarde deviam, como é costume, vir a ser alimento de animadas e joviais recordações.

Assim foi que, a meio da encosta e em sítio em que se lhes cortava ao lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quase a pique e eriçada de fragas salientes e ângulos de rocha, em cujas fendas e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a mantilha de Madalena, depois de a revolutear no espaço, arremessou-a ao abismo.

Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém em lugar, onde seria difícil o acesso, de qualquer lado que se tentasse.

Madalena, no momento, não pôde reter um grito, que fez parar com terror Henrique e Augusto que caminhavam adiante. Voltaram-se assustados.

A morgadinha, com a cabeça descoberta, trancas ligeiramente desordenadas, as faces um pouco pálidas, sorria já do seu exagerado susto.

A rir, explicou o sucedido, pedindo perdão pelo sobressalto que involuntariamente causara.

— Descansa em paz ! — disse ela, olhando para a mantilha ; e acrescentou : — Sigamos.

— Mas não será possível tirá-la dali ? — perguntou Augusto, examinando o sítio.

— Para quê ? Não podemos demorar-nos agora com isso — respondeu Madalena.

— Eu desço a cortar uma cana lá abaixo aos moinhos e volto num momento — insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.

Henrique notou, sorrindo : — O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os montanheses não eram de tão bom aviso.

E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia humilhado, e ao mesmo tempo cedendo à influência que sobre ele exercia a fascinadora figura de Madalena, Henrique arrojou-se a uma desnecessária imprudência.

Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflexão, deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as mãos à borda do caminho ; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades da rocha, até conseguir firmá-los ; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um ramo mais tenaz ; à força de vontade dominou a sua impericia em exercícios desta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o braço, segurar a mantilha, que o vento arrojara ao precipício.

Depois, com dobradas dificuldades e porventura redobrados perigos, pôde, roçando-se como réptil, e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os pés em terra, sem aceitar a mão que Augusto lhe oferecia, e com gesto radiante entregou a mantilha a Madalena, fixando em Augusto um olhar de triunfo.

Os espectadores desta cena haviam-na presenciado sem soltar uma palavra, sem fazer um movimento, quase gelados de susto e de espanto.

Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabeça, murmurando : — Que imprudência ! — Na verdade ! — disse Madalena, ainda nervosa com a impressão que este incidente lhe causara — foi uma loucura ; uma loucura imperdoável.

E a perturbação era tal, que nem acertou com uma frase de agradecimento, com que pagasse a imprudente galantaria, que mais desejava repreender, do que recompensar.

Esta reserva ofendeu Henrique ; serviços a seu ver de menor importância, tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.

Revoltou-o esta ingratidão.

Mal sabia ele que estava sendo ainda mais ingrato, não concedendo sequer um olhar às faces desmaiadas pelo terror, aos lábios trémulos e aos olhos arrasados de lágrimas, com que o fitava Cristina.

Ela, que o tinha seguido muda de susto e de ansiedade em tôda aquela louca aventura, ela que, ao terror do perigo, ajuntava a afligi-lo o desespero de ver que fora outra a que inspirava aquelas loucuras! Aguardavam-nos em baixo novos trabalhos a vencer. com a força das enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares, era provável que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado mais e acabasse de cobrir a ponte rústica, que à vinda já tinham encontrado quase submersa.

Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo: — Eu vou adiante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar já coberta, como é provável, ver se o moleiro nos abre a porta do moinho, a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar, que eu volto.

— Então deixa-nos sós? — exclamou Cristina, assustada.

— É um instante.

— Não sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indicação — disse Madalena.

— O pior está passado. Além daquela pedra já vêem o ribeiro e a ponte ; o caminho indica-se por si.

E, dizendo isto, desceu àgilmente por uma espécie de escadaria aberta na rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao lugar que demandava.

Henrique ia agora na frente ; após, seguia-se Madalena. Cristina fechava o cortejo.

O mau humor de Henrique aumentara de ponto, em conseqüência dos receios com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos, a direcção do rancho.

Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confiança que lhes estava merecendo o auxílio de Henrique, representando ele assim naquela contingência, em vez do papel de protector, o de protegido, que o humilhava.

Obrigado a digerir, como pudesse, o seu fundo descontentamento, Henrique perdera com isso aquela volubilidade de conversação que mantivera todo o dia.

Nunca, na presença de Madalena, deixara passar tanto tempo sem formular um desses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta, nem sempre demasiado afável.

Madalena, por seu lado, não se sentia com disposição para falar.

Cristina menos.

Este silêncio acabou por exasperar Henrique.

Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do riacho. Avistavam-se as águas turvas e impetuosas, que, com mais fragor do que nunca, se contorciam naquele apertado leito.

Foi então que Henrique desafogou o seu ressentimento.

— Estou deveras arrependido, prima Madalena — disse ele com leve ironia — do meu espontâneo movimento de há pouco. Devia lembrar- me de que ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triunfos e tôda a glória desta jornada ; mas como daquela vez se me afigurou que era demasiado cauteloso para herói...

uma simultânea exclamação de Madalena e de Cristina não o deixou prosseguir.

Voltando-se para saber a causa, que a motivara, viu-as paradas, pálidas, olhando com ansiedade para a base do monte.

Seguindo a direcção do olhar delas, Henrique reconheceu a causa daquele duplo grito.

Refiramo-lo em poucas palavras.

Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou não transitável, surpreendeu-o um espectáculo inesperado.

O ervanário que, prevendo tempestade e receoso dos perigos de que em tais condições a descida era acompanhada, se apressara a partir, não conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O andar vagaroso e precavido do velho e as freqüentes pausas que fazia, ou para descansar ou para colher a rara planta montesinha, o insecto, o verme, o molusco ou o mineral de ocultas virtudes, elementos da sua farmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio caminho, e mais difícil de descer lhe tornou a metade que lhe faltava. Assim, não obstante haver partido antes dos outros, não lhes levava muitos passos de avanço.

Ao chegar à levada, encontrou já as pedras do tosco passadiço, a que se dava o nome de ponte, cobertas pela água. O velho deu-se pressa em descer para a passar ainda a pé enxuto ; mas a levada, agora torrente caudalosa, ganhava corpo de momento para momento ; cedo já não se viam sinais de ponte. O ervanário parou, embaraçado. Acima ficavam-lhe os açudes, transformados em impetuosas cataratas ; abaixo, o moinho, em cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.

O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via.

As águas, sem transparência, ocultavam de todo a vista das pedras.

Tenteou com o bordão o sitio em que as supôs. Encontrou a primeira, pousou um pé nesse ponto ; firmou-se como pôde, para resistir à força da corrente ; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro, até que de repente, ou por esvaimento de sentidos ou por se firmar em falso, vacilou e, perdendo o equilíbrio, caiu na levada para o lado dos moinhos.

Foi neste momento que Augusto chegou ; viu-o pois cair, viu-o estrebuchar, lutando com a impetuosidade das águas ; reconheceu a urgente necessidade, para evitar uma horrível desgraça, de acudir, sem perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados do moinho.

Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quase de um salto, o espaço, que o separava ainda do ribeiro, e lançou-se à água.

Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique também a pos.

suía, mas abusava dela ou, por vaidade, malbarata va-a em ninharias, Ainda nisto se revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se sempre num palco, diante de espectadores que o viam e aplaudiriam, se desempenhasse bem o papel de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginárias, arriscaria, para evitar o ridículo, a própria vida, assim como sufocaria, porventura, um impulso generoso, que não pudesse harmonizar-se com a convenção, que se chama elegância.

Eram estes os defeitos que Madalena adivinhara nele.

Augusto era diferente.

As suas grandes qualidades guardava-as com modéstia dos olhos estranhos, para somente as revelar, quando pudessem ser úteis.

Ao ver cair a mantilha de Madalena, não arriscou temeràriamente a vida para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais segurança, embora com menos romantismo ; mas, para salvar uma vida, para obedecer a um instinto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o fazia recuar.

Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o ervanário a subir para a margem, Madalena, respirando enfim com desafogo, respondeu às anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura : — Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso guia, primo Henrique.

Sabe também arriscar a vida, quando uma razão de humanidade Iho pede. A sua imprudência de há pouco... agradeço-lha, mas... não posso aprová-la. Confesse que não foi tão justificada como esta.

Henrique tinha a razão clara bastante e a consciência justa para ver que, apesar da sua façanha cavalheiresca, ficara, desta vez ainda, inferior ao seu companheiro.

Qualquer que fosse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, é certo que teve sobre a rebelião dos maus instintos poder suficiente para se obrigar a ir apertar a mão a Augusto.

O velho Vicente estava pálido e extenuado pelo esforço da luta com a corrente ; ainda assim abraçou também Augusto, dizendo : — Agradeço a Deus o haver-me dado esta ocasião de te dever a vida, rapaz. Era um prazer que desejava levar da Terra, quando a deixasse.

Madalena e Cristina rodeavam o velho de cuidados.

Apareceram, enfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D. Vitória com guarda-chuvas e roupas de agasalho. com eles vinha também o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto estar obstruída a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudessem aí dentro mudar de fato.

Augusto seguiu o ervanário a casa.

Passada meia hora saíam também do moinho os outros todos, depois de haverem renovado a roupa que a chuva repassara.

No Mosteiro, D. Vitória recebeu a filha e a sobrinha com muitas exclamações e ralhos por não terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ela lhes recomendara ; estas iras cedo se derivaram sobre os criados, a quem, entre outros delitos, atribuía o de a não haverem avisado de que na véspera passara por ali o caldeireiro ambulante, repemcando nos seus arames, o que, sendo prognóstico infalível de chuva, faria com que ela, sabendo-o, se opusesse a tal passeio.

Em Alvapenha, D. Doroteia e Maria de Jesus não levantaram menor celeuma, ao verem chegar Henrique. Fizeram-no meter na cama, cobriram-no de cobertores, emborcaram-no de punch e tais medos lhe insinuaram, que as apreensões patológicas de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se da sua antiga vítima.

XI CENSURÁVEL descuido tem sido o nosso em não conduzir o leitor a um dos lugares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos episódios desta narração.

Que se diria de um cicerone que, por esquecimento ou propósito, deixasse de apresentar um viajante, recém-chegado a uma cidade, na assembléia, clube, grêmio, ou o que quer que seja, onde se reúnem as principais personagens dela, onde se compendiam as grandes questões e interesses locais, as pequenas vaidades e intrigas, as modas efémeras, os volúveis caprichos que agitam os espíritos, onde se comenta o boato de ontem, se dão ao de hoje mil versões diversas e se adivinha já o de amanhã? Pois no mesmo delito incorremos nós, chegando a este undérimo capítulo, sem ter guiado os leitores à venda de Damião Canada, a qual podia dizer-se o verdadeiro coração daquele organismo social.

Tudo quanto na terra havia de certa representação ali ia falar da coisa pública e também da particular ; — da particular dos outros mais do que da própria, entenda-se.

Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza após horas continuadas de chuva e de temporal, como que procurou respirar e permitiu que o Sol, já no ocaso, levantasse uma ponta do manto de nuvens que o envolvia, e mandasse os raios amortecidos às cristadas serras fronteiras ; aproveitemos este intervalo de sossego para entrarmos na taberna.

Tinham passado dois dias depois do passeio ao monte, que descrevemos.

Henrique de Souselas teve de condescender com uma leve angina que lhe legaram os rigores daquela excursão, e ficou em Alvapenha entretendo-se a escrever cartas aos amigos e a cismar numa iminente desorganização da laringe, a que imaginava conduzirem-no os seus incómodos actuáis.

No Mosteiro nada também ocorreu, que mereça narrar-se ao leitor.

Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, e vejamos n que dizem os freqüentadores do estabelecimento de Damião Canada.

Brilhante é a assembléia ali reunida. Além do proprietário, barriguda e rubicunda figura, que, assim posta ao pé das pipas, podia servir de tipo para a representação de um Sileno, havia várias individualidades de peso nos destinos de toda a comarca.

Dê-se primeiro menção ao nosso já conhecido Bento Pertunhas a quem as humanidades não faziam soberbo a ponto de recusar-se a entrar em comunicação social com os seus conterrâneos.

Observada esta deferência, mencionemos os mais.

Um era nem mais nem menos do que o Sr. Joãozinho das Perdizes, em quem já temos ouvido falar por mais do que uma vez.

Era o dito Sr. Joãozinho morgado e proprietário em uma das freguesias próximas, chamada de Pinchões ; mas propriedades e morgadia andavam-lhe tão embaraçadas em redes de demandas e de hipotecas, que Deus nos acuda.

Os autos, que diziam respeito à casa das Perdizes, enchiam um cartório. Graças, porém, ao seu gênio despreocupado e folgazão, o Sr. Joãozinho deixava aos procuradores os cuidados judiciais ; os cuidados agrícolas aos rendeiros e feitores ; os do futuro, a Deus ou ao Diabo ; e para si não reservava nenhuns.

Prosseguia naquela vida airada, que já lhe era necessidade. Frequentava as feiras, onde ia para jogar e fazer trocas de cavalos com os ciganos, e às vezes para dar e levar sovas monumentais. — Nos meses de caça, a vida do morgado era perfeitamente nómada: estendia por léguas e léguas as suas excursões venatorias, contentando-se com qualquer cama e comida, de que, de ordinário, participavam os cães que o acompanhavam ; distraía-se também a conquistar os corações femininos da freguesia, calando com dinheiro algumas queixas mais acerbas e insofridas de um ou outro pai, marido ou irmão. Em todas as tabernas das freguesias vizinhas tinha contas em aberto, o que não obstava a que entrasse em todas com ares de conquistador e expendesse ali as suas opiniões absolutas, com grande exibição de berros e de punhadas.

com tôdas estas qualidades, era o Sr. Joãozinho dao Perdizes um homem verdadeiramente popular entre os da sua freguesia ; movia-os no sentido que quisesse.

Tudo por lá era o Sr. Joãozinho ; não havia função, rixa, solenidade oficial, para que ele não fosse consultado. É que a superioridade do morgado das Perdizes não era daquelas que intimidam e acanham o povo ; ninguém hesitava em falar-lhe e em procurá-lo em casa, porque, falando e vivendo com eles, o Sr. Joãozinho não constrangia ninguém.

Os seus defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas eram outras tantas causas a popularizá-lo ; justo é porém que se diga que algumas boas qualidades também para isso concorriam. O Sr. Joãozinho não era avarento, nem soberbo. Sentado a beber, e com dinheiro no bolso.

não consentia que pessoa alguma, desde o mais rico proprietário até ao jornaleiro mais miserável, recusasse tomar assento a seu lado. Não eram poucos os filhos-famílias que resgatara de soldado, sem a menor caução ou interesse, chegando a ficar empenhado para os livrar; e se algum desgraçado se via perseguido pela justiça, encontrava, fosse qual fosse a enormidade do crime, asilo seguro na herdade das Perdizes, que em certas épocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.

Graças, pois, a estas análogas qualidades, era o Sr. Joãozinho uma verdadeira potência eleitoral.

Eis aí o homem moralmente.

Pelo lado físico, suponham um sujeito de trinta e cinco anos, gordo, vermelho, de longas e encaracoladas melenas em desordem, bigode aparado e a barba quase sempre malfeita ou por fazer. Na maneira de vestir inculcava os hábitos da vida e um certo desleixo com sua pessoa, que lhe era peculiar. Trazia o colete quase sempre desapertado e com alguns botões de menos, de modo que os peitos da camisa formavam hérnia pela abertura; entre as calças descaídas e o colete avistava-se o cós das ceroulas, no qual era jeito muito seu o enfiar a mão; ao pescoço trazia um lenço de seda escaríate, negligentemente atado e com longas pontas flutuantes; uma jaqueta de peles com alamares, calças de fazenda chamada pele do Diabo, botas de montar e esporas constituíam o resto do vestuário. O cigarro, que quase sempre fumava até às últimas, crestara-lhe profundamente as pontas dos dedos 'é o canto dos lábios. O palito andava-lhe sempre atrás da orelha; a navalha de ponta na algibeira, e, para qualquer parte que ia, acompanhava- o uma tumultuosa matilha de galgos, podengos e perdigueiros.

Segunda e não menos importante personalidade era a do Sr. Eusebio Seabra, chamado por antonomàsia — o Brasileiro.

Era um homem de cinqüenta anos ; bem figurado e sisudo, de falar compassado e com seus quês de oráculo, frases sentenciosas e ares de protecção a todo o mundo.

Saíra criança da aldeia e fora tentar fortuna ao Brasil. Por lá esteve quarenta anos, e voltou o homem grave que vemos e rico. como enriqueceu não sei, e ninguém na terra o sabia. Veio edificar uma casa no sítio em que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo, com três andares e varandas, jardim com estátuas de louça e alegretes pintados de verde e amarelo, o qual jardim tinha mais fama naquela aldeias vizinhas do que os jardins suspensos da Babilônia. Trouxera um papagaio e uma arara, igualmente famosos, e uma botica homeopá.

tica, que ele próprio manipulava.

As ambições de Eusebio Seabra limitavam-se a vir a ser a pri-.

meira personagem de influência na aldeia. Para isso principiou por fazer alguns reparos na igreja paroquial, presenteou com vestidos novos todos os santos dos altares, e mandou renovar um sino, que havia doze anos tocava a rachado. Fez à sua custa a festa do orago chegando a mandar vir fogo preso da cidade e um aerostato, que ardeu a pouca altura do chão. Apesar, porém, de todos estes benefícios à localidade, o conselheiro Manuel Bernardo, pai da morgadinha, conquanto vivesse quase sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe sombra e a contestar-lhe as ambiciosas vistas. Por isso, apesar da aparente amizade com que Seabra o acolhia e lisonjeava até, conservava pójele no fundo uma má vontade, um ciúme, de que eram de recear, tarde ou cedo, explosões.

Seabra era tão asseado, quanto o Sr. Joãozinho das Perdizes descurado no seu vestir. Usava sempre de suíça irrepreensivelmente talhada em volta do queixo ; camisa muito lavada ; peito aberto e três grandes botões de brilhantes; no trajo combinavam-se as variegadas cores de uma ave da América ; e o ouro, distribuído com profusão por todos os acessórios da sua pessoa, atestava os bons resultados dos seus quarenta anos de Brasil. Passeava pela aldeia de chinelos de marroquitn verde ou sapatos de tapete, e era tal nele a delicadeza do andar, que voltava a casa sem que uma mancha enodoasse a alvura das suas meias de algodão fino. Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos caminhos, calcando-a com bota de polimento.

Além destes dois e do nosso conhecido Zé-Pereira, que bebia, em silêncio, ao pé do taberneiro, havia um padre, coadjutor da freguesia, dois lavradores abastados e já de avançada idade, e outros que deixaremos confundidos na massa indistinta dos comparsas.

No momento em que entramos, usava da palavra o brasileiro, que estava sentado à porta da taberna, na mais limpa cadeira do estabelecimento.

— Pois é verdade — disse ele — fomos todos da mesma criação.

O conselheiro Manuel Bernardo saiu daqui para Lisboa um ano depois de eu ir para o Brasil. Andámos ambos na mesma escola, que era a do padre Joaquim, ali pelo sítio da Corredoura. Vossemecê há-de estar lembrado, Sr. Luis — acrescentou, dirigindo-se com a afabilidade protectora, que o caracterizava, a um dos lavradores.

— Ora se estou! muito bem. Era na casa em que hoje mora o Chico da Luciana.

— É verdade que sim. Pois ali andei eu e o conselheiro e aquela ratão do Vicente, ervanário, que era já rapaz taludo. Lembra-me, como se fosse hoje, de quando jogávamos todos três a pedra no terreiro a Corredoura.

— Olha lá, hem ! —• diziam dois lavradores com um sorriso corsão nos lábios — então com que o Sr. Seabra também jogava a pedra ! Eh! eh! eh!...

— Ora, como um homem. Eu fui levadinho da breca. Boa sova levei de minha mãe, por causa de umas calças novas que rompi.

— Ora vedes ? — diziam os outros.

— Ai tempos, tempos ! — disse, suspirando, o brasileiro.

— Quem havia de dizer então ao que V. S.* e o conselheiro tinham e chegar ! — notou lisonjeiramente o Sr. Bento Pertunhas.

— Eu sim — respondeu com tôda a sua modéstia o brasileiro. — que cheguei eu? Comi candeias acesas pelo Brasil, para arranjar m bocado de pão para o resto da vida ; com isso me contento. O mais, ou um pobre diabo que ninguém conhece, um homem ignorante, sem princípios. Ele é outra coisa.

— Não é tanto assim — insistiu Pertunhas — todos sabem que . S.* se quisesse...

— Olhe, meu caro amigo, eu conheço-me ; se tivesse o juízo de muitos, que por aí vejo figurando, então havia de me ver na brecha; porque, não é por me gabar, mas não me tenho por menos do que muitos deles.

— Ora pois, não, não — disseram os lavradores, Pertunhas e o adre.

— Alguns que até ministros têm sido...

— Por essa estou eu...

XIII

AO outro dia a impaciência de Ângelo não lhe permitiu longa demora no leito. Tardava-lhe o ver todos aqueles sítios, tão seus conhecidos ; árvores que uma por uma distinguía, sebes, atalhos de campos, e quebradas de montes. A custo o puderam reter para o almoço; resignou-se porém a não ultrapassar, até então, os muros da quinta. Logo porém que sorveu à pressa o último golo de chá, partiu, veloz como uma lebre, sem sequer dar ouvidos à enfiada de recomendações de sua tia D. Vitória, que teimava em o querer prevenir, com socos, gabão e guarda-chuva, de uma hipotética mudança de tempo.

Ângelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava ligada uma recordação e uma saudade ; mas seguia sempre, como quem não errava ao acaso pelos campos, antes era guiado naquele passeio por um intento, que tinha pressa de realizar.

Atravessou grande parte da aldeia, cortejando, cumprimentado e festejado por quantos encontrava pelos caminhos, ou às portas e janelas das casas, nos campos e nos ribeiros.

Chegou enfim à casa, onde já dissemos morar o recoveiro Cancela e a sua filha Ermelinda.

Era evidentemente aquele o termo proposto por Ângelo ao passeio matinal, porque retardou o passo à medida que se aproximava, e parou à porta da casa.

Achou-a fechada, mas não lhe causou isso embaraço.

como quem estava habituado a vencer estes estorvos, sondou resolutamente o muro do quintal, construído de pedras soltas, e dispôs- se à escalada.

Com a agilidade e destreza próprias de quem passou na aldeia os primeiros anos da vida, o irmão de Madalena trepou sem vacilar até ao alto do muro, e num momento pousou os pés no chão do quintal.

Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor com precaução e, com mais precaução ainda, se dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era o lugar de recreio do pequeno horto.

Foi motivo destas precauções o ter já avistado, por entre os troncos e a rama baixa das laranjeiras, um vulto que se lhe figurou conhecido.

Assim se foi aproximando sem que o pressentissem e, oculto por detrás de uma sebe de roseiras silvestres, pôs-se à espreita.

Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal.

Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira velha, que meses antes havia sido derrubada, a filha do Cancela e afilhada da família Zé-Pereira, tinha todas as faculdades aplicadas à decifração dos hieroglíficos caracteres de um pequeno papel manuscrito, que segurava nas mãos e lia a meia voz. De quando em quando interrompia a leitura e, erguendo a cabeça para o céu, parecia repetir o que lera, como se pretendesse decorá-lo.

Angelo aplicou mais o ouvido, a ver se alguma das palavras, gue ela declamava, lhe revelava a natureza do manuscrito.

De facto, de uma vez a pequena leu em voz mais audível e ele escutou a seguinte quadra: — Que lamentável tragédia, Que os meus olhos tristes viram I E publicam minhas vozes Aqueles que não ouviram ! E principalmente o rei, Que se chama o rei tirano, Nesta região remota Do Egipto dilatado.

Depois de 1er isto, a rapariguita levantou a cabeça e repetiu : — Que lamentável tragédia Que os meus olhos tristes viram . ..

Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente, e com precaução, veio colocar-se por detrás dela, sem que fosse pressentido ainda.

Tão perto chegou, que, por cima do ombro de Ermelinda, podia já 1er as quadras que ela estava decorando: •— Tenho mil línguas, mil bocas ...

ia Ermelinda continuar a 1er, quando uma respiração mais profunda Se Angelo a fez desviar a cabeça.

Dando com os olhos nele, soltou um grito de sobressalto ; depois sorriu e instintivamente procurou esconder no bolso do avental o papel que lia.

Angelo segurou-lhe a mão.

— Que estavas a 1er, Linda ? — Não é nada...

— Deixa ver.

— Não deixo.

— Porque não deixas ? — Para não ser curioso. Que modos são esses de andar a escutar a gente? — Pois sim, sim ; mas deixa-me ver os versos.

— Não são versos. Quem lhe disse que eram versos? — Pois não ouvi? Que era isso de tirano e de Egipto, que dizias? — Que há-de ser ? — disse afinal Ermelinda, dando-lhe o papel.

— São os versos do auto dos Reis. Sabe agora ? — Do auto dos Reis ? Ai, sim ; está a chegar o dia ! Mas que tens tu com o auto dos Reis? — É que este ano meu pai quer que eu seja a Fama.

— Viva ! E que bonita Fama que vais ser ! E já sabes os versos ? — Estava a decorá-los.

— Tenho mil línguas, mil bocas...

dizia Ângelo, lendo no princípio. — O que é pena è pôr uma chochice destas na boca de uma Fama como tu.

— Que está a dizer ? Então os versos não são bonitos ? — Oh ! pois não são ! — exclamou Ângelo, gracejando. — São uma perfeição ! E tendo-os corrido com a vista, principiou a lê-los com acentuação e ênfase cómicamente exageradas.

— Ora ouve lá : Sabei que aquele Herodes, Lobo cruel carniceiro.

Tremendo de inveja pura Lhe venham tirar o reino.., — Então que há que dizer a isto ? E prosseguiu : Feria raios de fogo De seus olhos com mudança: E só pretende fazer Alvo da sua vingança.

— Isto é claro e sublime ! — Lendo assim, pudera ! — disse Ermelinda, rindo.

É preciso que advirta o leitor que estas quadras e auto, a que nos estamos referindo, nao são obra da nossa imaginação. Por aí corre manuscrito o auto, mais ou menos extravagantemente ortografado, segundo o sistema ou o capricho do copista. Em quase todas as aldeias ¿os arredores do Porto podem ver em cada ano representado este ou outro análogo, com aplauso e glòria da arte. Às mãos nos veio uma dessas cópias, à qual, menos na ortografia, escrupulosamente nos cingimos.

Ângelo era talvez em demasia severo na apreciação critica sobre o merecimento literário da obra, ao chamar-lhe uma chochice É raro que a musa popular não tenha, apesar da sua rudeza, alguma inspiração.

Neste mesmo auto, se encontram vestigios dela. Mas não é nossa missão apreciar as opiniões dos actores que pomos em cena; tão somente as registamos, sem nos responsabilizarmos por nenhuma.

Ângelo redarguiu à reflexão de Ermelinda : — Pois bem; para que não digas que é da maneira de 1er, que eles parecem chochos, repara ; vou lê-los agora com toda a seriedade.

Ora escuta: Que quantos até dois anos Em Belém fossem nascidos, E toda a sua comarca Matassem a ferro frio.

Sem excepção a pessoa Que nos distritos se achasse.

Entendendo desta sorte Que nós lhe não escapássemos.

— Olhem que sensaboria ! Esta divisão administrativa e judicial, em distritos e comarcas, que o autor fez na Judeia e que tanto parecia revoltar Ângelo, era uma destas liberdades shakespearianas, que se devem perdoar aos gênios.

— E não foi assim? — perguntou Ermelinda, que não percebia ainda o motivo dos reparos de Ângelo. — Pois Herodes mandou matar todas as crianças da Judeia ; então não mandou ? — Mandou, mandou ; mas a Fama é que devia contar isso melhor.

— Melhor ? ! Então não é bonito esse verso ? E Ermelinda, tirando o manuscrito das mãos de Ângelo, leu a seguinte quadra : Para livrarem seus filhos Da morte dos inocentes Dos braços faziam cruzes Aquelas mães impacientes.

Os instintos populares da filha do Cancela perceberam a beleza, talvez um pouco rude, do tocante quadro, que estes versos exprimem.

Esta pequena contenda literária entre duas crianças podia dar margem a profundas reflexões a quem para elas estivesse disposto.

Ângelo estava no princípio de uma educação esmerada Principiara já a desenvolver-se nele a inteligência, e a acordar os instintos artísticos que estremeciam já sob as primeiras seduções da forma.

Nestas épocas críticas, em que esses segredos se revelam, é tal o encanto em que eles nos trazem que exclusivamente nos votamos ao novo culto com a fanática intolerância. Onde as louçamas do estilo os primores e a sonora harmonía do metro, e o brilhantismo das imagens nos nao afagam os sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos assim na sombra muita beleza real, às vezes oculta sob a grosseira revestidura da poesia ou narrativa popular.

É necessário que passe o entusiasmo, a violência da paixão nascente, que venha a frieza de ânimo necessária à imparcialidade do juízo, para que nos não cause repulsão a aspereza e grosseria até da forma e consigamos apreciar o belo que porventura nela se envolva.

Dá-se com a beleza da idéia e da forma de qualquer obra literária, o que se dá com a beleza moral e a beleza física de uma mulher.

Ambas sao feitas para nos comoverem e dominarem. Mas, quando o assomar de um sentir novo começa a alvoroçar o sangue do adolescente, quando formas vagas e formosíssimas principiam a encantar- -lhe os sonhos de suas noites febris, a paizão da forma domina-o ; por ela sacrifica tudo; uma modelação perfeita, um delineamento gracioso poderá decidir da sua vida inteira, e na fascinação que o cega, nunca verá a formosura da alma, que se abriga numa pouco feliz encarnação.

É que para apreciar a beleza moral, para a ver transparecer, através do invólucro exterior, é preciso deixar passar a vertigem dos primeiros momentos, ou não a ter ainda experimentado.

Por isso na infância e nas idades viris é que melhor se apreciam essas fealdades, que escondem um coração angélico. A adolescência é impíamente cruel para com elas.

Por uma lei análoga é o povo, o simile da criança, porque não tem os sentidos educados para as mais subtis belezas da forma, e é o homem a quem ela já não fascina, embora ainda e sempre o deleite, como poderosíssimo elemento de beleza literária — são estes os leitores que mais aptos estão para avaliarem uma ou outra inspiração que, entre muitos desvarios, tem a humilde musa que visita a cabana do lavrador ou a oficina do artista.

Apesar da defesa de Ermelinda, Angelo não perdoou ao auto.

— Sabes que mais? Não decores isso — disse-lhe ele resolutamente.

— Meu pai quer.

— O que é que quer teu pai ? — Quer que eu entre no auto.

— E hás-de entrar. Quem te diz que não ? — E quer que seja a Fama.

— E hás-de ser a Fama — E não hei-de falar ? — Hás-de falar. Tinha que ver uma Fama que não falasse. Para que lhe serviriam as cem bocas? — Então ? — Então ; é que não é forçoso que digas o que aí está.

— E que hei-de eu dizer ? — Outra coisa.

Ermelinda olhava Ângelo admirada, sem conseguir compreendê-lo.

— Outra coisa ! — repetiu ela, instintivamente.

— Olha — prosseguiu Ângelo. — Daqui até chegar o dia do auto muito tempo. Eu te darei outros versos para estudares, em lugar !ses.

— E onde os tem? — Eu os procurarei. Não digas tu nada. Basta que no dia recites, vez desses, os que eu te der!.

— Mas que dirá meu pai e o Sr. Pertunhas ? — O mestre de latim ? Pois que tem ele com o auto ? — É quem ensina como a gente há-de dizer.

— Ah ! sim ? Pois para que ele nada diga, guarda para a ocasião versos que eu te arranjar. Até há-de ter graça ver a cara com que eles ficarão todos, quando lhes sair uma coisa bem diferente do que esperam.

— Mas... diga: onde é que vai buscar esses versos? — Não sairei da aldeia para isso. Numa visita que daqui vou fazer, conto obtê-los. Agora falemos de outra coisa. Que é de teu pai? — Saiu a levar umas encomendas. Minha madrinha dali defronte, está para a igreja e meu padrinho nas hortas. E eu vou tratar do jantar de meu pai.

— Pois vai, que eu faço-te companhia.

E Angelo seguiu-a à cozinha, e aí, ela sentada na soleira da porta a escolher hortaliça, ele a dar de comer aos coelhos e às galinhas, se entretiveram a conversar.

Ângelo falou-lhe de Lisboa, dos teatros, contou-lhe enredos de dramas que o tinham comovido; tipos e situações de romances, que se lhe haviam gravado na memória ; invenções da arte moderna, versos, anedotas, contos.

Ermelinda era tôda ouvidos a escutá-lo.

Passadas horas, Ângelo levantou-se e despediu-se, para sair.

— Onde é que vai ? — Vou visitar Augusto, que deve estar agora em casa.

— E ainda o não viu ? — Ainda não. A minha primeira visita foi esta.

— Então vá, que ele deve estar morto por o ver. Ah!... Já sei a pessoa a quem vai pedir os versos ! — Quem te disse que Augusto os fazia? — Eu vi-o estar a escrever na parede da capela da Senhora da Saúde de uma vez que eu ia levar o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar para aqueles sítios.

— E leste-os? — Não, que não quis que ele me visse. Mas que havia ele de escrever na capela? Então não adivinhei? — Não sei. Adeus.

— Diga.

— E chamavas-me curioso ! E Ângelo saiu apressadamente.

Momentos depois estava com Augusto.

A conversa entre ambos teve tôda a intimidade da de dois afeo.

tuosos amigos.

Angelo fez a narração dos episódios da sua vida de colégio ; das dificuldades e das belezas dos seus estudos naquele ano. Augusto que da aldeia com ele os seguia, passo a passo, interrogava-o sobra algumas dúvidas que tinha, e esclarecia às vezes também, graças à sua poderosa penetração e natural lucidez, as que o ensino do colégio havia deixado no espírito do seu antigo discípulo.

A geografia e a história, que eram as disciplinas estudadas naquele ano por Ângelo, deram assunto a grande parte deste diálogo, Augusto inclinara-se aos estudos históricos, inclinação em que o ervanário o entretinha com freqüentes presentes de livros daquele género.

Em exame de livros novos, referências a outros lidos, e leituras de alguns mais apreciados, passaram os dois grande parte da manhã, até que por fim Ângelo disse a Augusto : — Ah ! é verdade ! Tenho um favor a pedir-lhe.

— Qual é? — Sabe que está para breve o dia de Reis ? — Sim.

— E portanto o auto com que o povo daqui o festeja ; aquele auto em que o Herodes faz tremer meio mundo? — Bem sei — respondeu Augusto, sorrindo.

— Este ano teremos a Linda a fazer de Fama. Fama bonita, por certo ; mas se soubesse os versos que lhe deram para recitar ! E Ângelo reproduziu, como pôde, as quadras do monólogo da Fama no auto dos Reis.

De quando em quando passava um sorriso pelos lábios de Augusto.

— Eu iá conhecia isso. É o costume — disse ele no fim.

— Mas não lhe parece que de uma Fama como aquela, se devia esperar melhor do que isto? — E então que quer que eu lhe faça? — Outros versos para o lugar destes.

— Outros!... Eu?...—perguntou Augusto.

— Porque não ? — Oue lembrança ! — Não me venha negar que os faz.

— Versos? — Sim.

— Quer dizer que os leio.

— E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em recusar, diga-me então quem é que os escreveu na parede da capela da Senhora da Saúde, para eu me dirigir a ele.

— Então houve quem escrevesse versos na parede da capeia? -perguntou Augusto, sorrindo.

— Não que eu visse; mas já duas pessoas-mo afirmaram, e as peitas de ambas recaíram no mesmo homem.

— Quem foram essas pessoas? —De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda.

— Ah! — A outra foi Lena.

—Le... A Sr.' D. Madalena? — É verdade, minha irmã. E estranhou, com razão, que eu o não soubesse.

— E como o soube ela ? — Leu-os, e pela leitura conjecturou o autor.

Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, que todo o preocupava.

Ângelo continuou falando, sem que fosse escutado; afinal concluiu, disendo : — Então quer falar ao poeta da Ermida para que me dê o que peço? —Poesia não lhe pode ele dar, agora se... alguns versos o satisfazem...

— Sim, sim, venham os versos ; que a poesia eu a procurarei neles, até a achar. Desde já lhos agradeço.

— A ele? — A ambos — respondeu Angelo, rindo. — E agora diga-me, Augusto : Ainda está resolvido a viver aqui sempre enterrado ? Não fensa em mudar de vida? — Nenhuma outra me namora mais ; o destino que a bondade da morgada me oferecia... não tenho coragem para aceitá-lo. Assusla- me o peso do crepe.

— Nem eu lhe digo que deva aceitar esse. Mas o Augusto não Brá amigos que o ajudem a seguir outros destinos menos obscuros do que este e menos pesados do que o que o legado lhe impunha? Meu pai já...

— Que quer ?( Não me posso vencer até pedir ou aceitar de outrem auxílios, quando Deus mos não tem recusado ainda; nem sei até se esses destinos, que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso.

Há índoles que nasceram afeiçoadas para a obscuridade. Incomoda-as a demasiada luz. umas plantas querem ar e sol e luz ; outras vivem ai em qualquer canto escuso e obscuro, e lá mesmo dão flor. Porque é isto não sei, mas...

— Sei eu — disse uma voz da parte de fora da janela, junto da qual se passara o diálogo ..

Voltaram-se os dois ao ouvi-la. A figura do ervanário desenhava-» no vão da janela, como um retrato de velho num caixilho de galeri — Ah ! o tio Vicente ! — exclamou Ângelo, correndo-lhe , encontro.

O ervanário encostou-se, ainda de fora, ao' peitoril da janela ficando assim com meio corpo para dentro da sala.

— Viva o nosso doutor — disse ele, sorrindo, a Ângelo. — Por enquanto ainda esse coraçãozito está como era. Não esqueceu os seus amigos da aldeia.

— Está como sempre estará — respondeu Ângelo.

— Sempre ! — repetiu o velho. — Sempre e nunca são duas palavras de terrivel significação... Mas enfim... de bom metal é o coração assim o não enferrugem os ares da cidade, como ao de... como ao de tantos...

E mudando subitamente de tom, disse para Augusto : — com que dizias tu que não sabes porque algumas plantas vivem de pouca luz e de pouco ar, aí em qualquer buraco do muro? É por que vivem muito pelas raízes essas. As plantas vivem do ar pelas folha.

e vivem da terra pelas raízes. Lá diz aquele livro da História Natural que eu tenho. umas prendem-se pouco ao chão ; precisam, pois, de se abrirem muito ao ar para poderem viver ; outras, porém, profun.

dam tanto a terra, com tantas raízes se seguram, que delas lhe vem todo o sustento e não desdobram muitas folhas, nem crescem em gran.

des ramos para o ar, como umas e como outras há homens no mundo, Tu és dos que deixam ganhar raízes ao coração e delas vivem. Que te importa o mais? essas grandezas que os outros procuram? Mas é preciso cautela, rapaz! Há corações como a hera, que onde quer que se encosta, prende-se com raízes. Quem é assim deve dirigir com prudência as suas inclinações. Se para mau lado dobra, se se encosta a árvore de preço... mal dele! que o separarão com força, fazendo- lhe estalar todas as raízes que o prendiam.

As palavras de uma obscuridade sibilina, ditas pelo ervanário, parecia terem um sentido para Augusto, que visivelmente se perturbou ao ouvi-las.

— Que está aí a dizer, tio Vicente ! — disse Augusto, sem ousar fitar o velho.

— Nada. Tontarias de velhice. A prudência, que os anos dão, vê longe e fundo, rapaz... É verdade que... às vezes... o arrojo dos moços é também guia feliz... Anda lá com a tua estrela, anda. Ao que já vejo, não sei se te possa chamar louco... como ao princípio não duvidei fazê-lo. É certo que é pouco seguro o terreno em que sustentas os teus castelos.

— Os meus castelos ! Que castelos faço eu ? — Não hei-de ser eu que tos mostre... Só te quero avisar que não ponhas grande fé em sonhos... Lembras-te do que se passou no monte da ermida? — No monte da ermida? — Nao viste por lá no outro dia uns sinais de trovoada ? A inconstancia é sempre de recear. O que naquela manhã se passou, o que então vi...

—Que viu?... Que se passou? O ervanário demorou por algum tempo o olhar em Augusto e com tal expressão, que o obrigou a desviar o seu ; depois acrescentou : — Nada ; o que todos os dias acontece. O céu azul tez-se pardo, a luz clara cobriu-se de sombras, os raios do Sol tornaram-se torrentes de chuva. Pois não te lembras?... E tudo devido a uma mudança...

de vento... a uns ares que vinham do sul...

Augusto não entendia ou fingia não entender estes misteriosos dizeres do ervanário Ângelo estava distraído deveras.

O velho voltou-se, de súbito, para este, perguntando-lhe : — Tem ido ao Mosteiro o hóspede de Alvapenha? — Esteve lá ontem.

— É amigo das crianças ? — Parece-o.

— Conta muitas histórias às senhoras? — Entretém-nas bastante.

— E ao .. e a teu pai ? Ouve-o com atenção ? — Conversaram muito toda a noite.

O ervanário parecia ligar grande valor a estas perguntas, porque a cada resposta obtida, abanava pausadamente a cabeça com certo ar meditativo.

Augusto relanceava também para a fronte, meio contraída, do velho um olhar entre curioso e timido.

O ervanário prosseguiu : — Enfim .. A desconfiança é um achaque da velhice e nem sempre os mais felizes são os mais acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem ainda a graça da sua protecção.

— O tio Vicente desconfia do primo Henrique ? — perguntou Ângelo rindo.

— Primo ? ! — repetiu o velho, admirado.

— Primo lhe chamamos nós, porque a tia Vitória teima que, sendo ele sobrinho da tia Doroteia, é nosso primo também.

— Ah? Já aí vamos? E Lena?...

— Lena, Criste, todos lhe chamam por lá assim.

O ervanário pôs-se a murmurar algumas palavras ininteligíveis, terminando por estas: — E, como no Egipto, é o vento sui que traz a praga dos gafanhotos.

Mas Deus que vele, Deus que vele. E eu não me demoro mais, que vou ainda daqui aos pardieiros de Cernuche.

— A caça dos sapos, tio Vicente ? — perguntou Ângelo, gracejando.

— Não, que não é agora o tempo — respondeu, sisudo, o velho — Dos sapos ! Galante caça, na verdade ! — continuou Angelo no mesmo tom.

— Galante não será ela pequeno — respondeu o velho ; — mas abençoada a chamarías se te torcesses no leito com as dores do carbúnculo, que não há remédio mais eficaz para o curar, do que a pele destes animais seca ao ar livre.

— E a das toupeiras? O tio Vicente também caça toupeiras? — Em seu tempo. Oh ! a toupeira é animal de abençoadas vir.

tudes ! Basta que um dente que se lhe arranque, estando ela viva, trazido ao pescoço, cura a mais desesperada dor de dentes.

— Não deve ser fácil operação a de tirar os dentes às toupeiras — tornou Ângelo.

O ervanário continuou : — A quinta-essência das toupeiras é milagrosa contra cancros e herpes.

— A quinta-essência das toupeiras ! — repetiu Angelo, rindo.

— Não rias, criança — acudiu severamente o ervanário. — Qug não é bonito rir do que os homens doutos asseguram. Eu já o experimentei, logo que o li naquele grande livro da Polianteia, livro corno se não faz hoje outro.

— E como ó que se tira a quinta-essência a uma toupeira, tio Vicente ? — Tomam-se as toupeiras e queimam-se até as fazer em cinzas.

Mistura-se a estas cinzas o sumo de celidónia maior, até haver quatro dedos de sumo acima das cinzas. Mete-se tudo num vidro bem fechado, que se enterra por dez dias e .. e... Bem, bem. Ele ri!... Tolo sou eu em gastar tempo e paciência com crianças.

— Espere, espere, tio Vicente... Não vá embora... Então depois de enterrar tudo isso, que se faz? — Até logo... Pede a Deus que nunca te seja preciso fazer a pergunta com menos vontade de rir.

— E assim vai sem me dar um remédio ! Olhe, tio Vicente, eu padeço às vezes de um sono tão pesado que me não deixa estudar.

O ervanário voltou-se e, com toda a seriedade, respondeu : — E julgas que não sei de remédio para isso ? Experimenta e verás, Mete um ou dois morcegos debaixo dos travesseiros e eu te afirmo que... Mas adeus, que se me faz tarde e daqui a Cernuche é uma légua, E o ervanário retirou-se, meio agastado com o cepticismo de Ângelo e sobraçando a caixa de lata e o saco dos seus tesouros medicinais.

Ângelo e Augusto ficaram rindo da ciência e das singularidades do velho, riso em que não entrava, porém, o menor laivo de malignidade; porque ambos tinham pelo velho uma verdadeira estima, que ele bem lhes merecia, pois sempre do coração o achavam votado a seu favor.

O diálogo de Ângelo e de Augusto prolongou-se ainda até as horas do jantar.

XIV EU não sei se esta história terá leitor tão mal-aventurado, que não possua recordações e saudades associadas à noite de Natal, àquela festiva-e abençoada noite, em que as ruas e os lugares públicos se despovoam, e nos lares domésticos parece crepitar e cinlilar o fogo mais acalentador do que nunca. Se algum deserdado da fortuna há aí que não saiba o que é a festa das consoadas em família, esse que não leia este capítulo, que nele não encontrará prazer. Se alguns as gozaram já noutros tempos, porém hoje erram a essas horas peias ruas solitárias, olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas janelas discretamente fechadas, ouvindo comovidos o ruído das alegrias que vão no seio das famílias, e pela fantasia criando em cada morada um mundo íntimo de afectos e de venturas, como o de que a sorte os privou, que esses me perdoem as amargas saudades que porventura lhes avive assim.

É certo que não há noite mais alegre; alegre desta alegria que vai direita ao coração, sem perturbar os sentidos com fumos de embriaguez; alegre desta alegria cândida a que o homem é sujeito do berço à velhice, a qual respeitam os estos das paixões, na idade delas, e o gelo do egoísmo, no declinar da vida.

Bem escura, bem ventosa, bem fria e húmida surjas tu sempre, noite de vinte e quatro de Dezembro, que melhor então se avaliará pelo contraste a luz, o calor, o conchego dos lares, e mais íntimos se estreitarão os círculos da família em roda da ceia patriarcal.

E vós todos, a quem uma moda tola não constrangeu ainda a abandonar os hábitos que de pequenos contraístes, e festejais ainda o Natal de Cristo, segundo o estilo velho, continuai a manter genuínos esses costumes nacionais, que não resultará daí desdouro para o vosso nome ou brasão. A roda da civilização, a que aplicáis ombros com tanto denodo, não se cravará por isso. — Podeis, elegantes meninas, cantar loas sem escrúpulo diante do presépio armado na sala mais intima da casa, que nem por isso cantareis pior na das visitas as árias italianas, que aprendestes no colégio ; não coreis de colaborar, por excepção, esta noite nos mesteres da cozinha, que sobra de água-de-co'ónia e perfumes tendes no toucador para as abluções purificatorias. Homens graves, a república perdoar-vos-á uma pequena infidelidade, a política do Pais e da Europa não periclitará desnorteada se, por um pouco, lhe negardes a vossa atenção; humanizai-vos pois uma vez por ano, e baixai ao seio da família os olhares, que ponderosos empenhos vos trazem sublimados. — Entrai com as crianças em jogos pueris e fáceis, que não destemperareis a inteligência para as filosóficas cogitações «D bastón e do whist.

A família do Mosteiro era fiel às clássicas usanças desta noite tradicional. E naquele ano sobretudo as festas das consoadas deviam ser coisa falada graças ao plano de D. Vitória de reunir no Mosteiro a resumida família de Alvapenha ; plano que vimos aprovado por aclamacào por tôda a assembléia presente.

D. Doroteia veio efectivamente na companhia de Henrique de Souselas e de Maria de Jesus.

Foram recebidos no Mosteiro por uma completa ovação das crianças.

D. Doroteia viu-se literalmente enlaçada em braços intantis, que lhe tolhiam os movimentos e que, dizia ela, quase ameaçavam asfixiá-la Tudo isto dava motivo a exclamações e risos, que inauguraram um estado de coisas, o qual nunca mais devia cessar aquela noite A balbúrdia, a azáfama festiva que ia no Mosteiro é indescritível Na cozinha, nas salas, nos corredores tudo era movimento e ruído Aqui eram as crianças jogando, a pinhões, o «par ou pernão» e o «rapa», jogos popularissimos e de ocasião que, de tão conhecidos dispensam o trabalho de descrevê-los. Estes jogos, como é de prever' não se executavam sem um concurso de vozearia e de algazarra, que desafiava a impaciência de D. Vitória, a qual, segundo o costume, ia pelo que se passava na sala, ralhar com os criados à cozinha.

No aposento imediato ao quarto cie D. Vitória, armara-se o presépio, diante do qual ardiam seis velas de cera em castiçais de prata maciça.

As duas velhas senhoras, D. Doroteia e D. Vitória, encetaram logo no princípio da noite uma longa e devota .reza, meio recitada, meio cantada, a qual se continuava com uma interminável enfiada da padre-nossos e ave-manas, a que respondia, em coro, a parte feminina da família, as enancas e as criadas Corifeu era a senhora de Alvapenha, que em voz trémula e quebrada pela idade, entoava em singela cantilena copias como esta: Ó infante suavíssimo, Vinde, vinde já ao mundo Livrar-nos do cativeiro Deste jazigo profundo.

E seguia-se um padre-nosso e uma ave-maria.

Angelo havia ao princípio, com as suas travessuras desordenado um pouco o andamento regular das rezas, mas D. Vitória tomou o heróico expediente de o expulsar do congresso, e tudo serenou.

À sala, onde Henrique de Souselas conversava com o conselheiro em assuntos, todos desta vez longe da política, chegaram as surdas harmonias daquelas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade de saber o que era aquilo. O conselheiro, sorrindo, convidou-o a segui-lo para por si próprio se poder informar.

E, tomando por aposentos interiores, conseguiram ambos introdução na sala da novena justamente ao lado de D. Vitória e de D. Doról a , que, de embebidas que estavam nas suas orações nem por eles deram.

O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente ao lado daquelas boas senhoras, e quando após um dos padre-nossos, ditos por n, Doroteia, se devia seguir a resposta do coro feminino, este emude, com a chegada dos dois, a qual desafiara risos a custo sufocados, foi substituído por um dueto de vozes masculinas, que sobressaltaram primeiro, e escandalizaram depois ambas as sisudas senhoras.

O tumulto que o episódio produziu fez atrair as crianças ; D. Vitóla teve muito que fazer, muito que repreender o cunhado, muito que falhar com os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com D. Doróla, muito que recriminar os criados, rindo-se, bem a seu pesar, no meio de todas estas tarefas.

Terminou confusamente a novena com tal ocorrência. Os desordeiros somente capitularam, consentindo em retirar-se, quando lhes prometeram que se encurtaria a lista dos padre-nossos. Henrique voltou com o conselheiro a admirar o primor que a paciência de um artista imaginoso realizara na confecção do presépio, onde estavam representados todos os episódios da natividade de Jesus, e muitos outros.

Era efectivamente uma complicada máquina aquele presépio, e seria prova de profunda indiferença artística passer por ele sem um exame, embora fugaz.

Este traste antiquíssimo na família gozava de nomeada num círculo de léguas em redor. Havia empenhos para o ver no tempo do Natal, e se algum viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe recomendasse o visitar o presépio, como coisa digna de ver-se.

Consistia ele numa espécie de santuário de pau-preto, no meio do qual havia uma pequena gruta tôda cravejada de caramujos e rosas de papel, com estâmes de fio de prata. Dentro dessa gruta estava deitado o menino Deus, não sobre umas palhas, como a tradição refere, mas graças aos impulsos do compadecido coração de D. Vitória, que, ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama de lençóis de renda com cercadura dourada ; colcha de cetim bordado, e colchão e travesseiro da mais macia penugem de aves americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. José,.

de proporções quase iguais às do menino ; mais longe a vaca e a mula tradicionais. Os episódios porém eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Vários grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e vestuários, ornavam a cena. Ali um cego tocador de sanfona; um grupo de galegos dançando, ao som da gaita de fole ; uma pastora com ovos mais adiante ; ao lado, um grupo celebrando um piquenique, perfeita actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata e botas de cano; — outros fumando e bebendo cerveja. uma amazona inglesa, com o seu jóquei, galopava pelas cercanias de Belém; um vareiro e uma vareira caminhavam a par com ofertas para o menino. Ao longe, nos visos da serra, apareciam os três Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar a baixo Não esqueceu ao inspirado autor daquele monumento escultural os muros de Jerusalém. Eles lá estavam coroados de ameias e de milicíanos fardados à inglesa e armados de lanças e arcabuz. Eram gigantes aqueles guerreiros, pois, não obstante estar a muralha no plano do fundo do quadro, qualquer deles era duas vezes maior do que as figuras do plano da frente. No alto da muralha arvorava-se a bandeira portuguesa. Havia vários santos espalhados pelas agruras daquelas montanhas, e, entre os aditamentos feitos pela devoção de D. Vitória ao presépio, contava-se o de um Santo Antônio de Lisboa, que apesar de taumaturgo, parecia muito admirado de se ver naquele tempo e lugar. Um galo colossal soltava do telhado do presépio o grito anunciador, anjos e querubins espreitavam do Céu por entre nuvens de algodão e estrelas de ouropel. Era um prodígio.

Descrevendo ràpidamente esta maravilhosa fábrica, sentia eu vivo orgulho de ter revelado ao mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unânime admiração faria cedo ou tarde justiça ; tive porém de abandonar esta lisonjeira idéia, ao achar-me precedido por um dos romancistas mais justificadamente populares da nação vizinha. Das páginas de um delicioso quadro de costumes de Fernán Caballero, a eminente escritora de que a Andaluzia se ufana, conheci eu serem não somente nacionais, mas peninsulares pelo menos, estes modelos de presépios, com os seus ingenuos anacronismos, cunho irrecusável que o povo imprime a todas as suas obras de arte. Onde falta o anacronismo, falta a assinatura do povo.

Em todo o caso era digno da menção que dele fizemos o presépio do Mosteiro.

Enquanto Henrique e o conselheiro o estudavam por miúdo, D. Vitória fizera desfilar o cortejo das criadas para a cozinha, onde urgia o serviço, e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram as piores criadas do mundo, por isso que, tendo tanto que fazer, perdiam tempo a cantar loas diante do presépio. D. Doroteia cedo tomou com Madalena e Cristina o mesmo caminho.

O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com os pequenos, e com eles entraram em jogos, como se fossem crianças também.

O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o homem grave e sério das salas de Lisboa perdera todo o ar diplomático: agora era somente o homem da família; pueril, travesso, alegre, folgazão.

— Meu caro — dissera ele a Henrique no princípio da noite — vou fazer-lhe um pedido. Hoje deve ser banido o menor assunto político, a menor discussão séria. Deixe-se correr frivola a conversa da noite, o contrário sena urna profanação, que atrairia sobre nossas cabeças as justas iras dos anjos domésticos que nestas noites andam invisíveis misturados com a família.

— Apoiado — respondeu Henrique ; — aceito e comprometo-me a cumprir a proposta.

Henrique possuía em alto grau o talento de se tornar agradável.

Compreendendo que eram sinceros os desejos do conselheiro, tão frio e pueril conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como membro da família, e ao próprio conselheiro parecia já impossível que ainda fossem tão recentes as suas relações mais íntimas com aquele rapaz.

— Animo, sr. conselheiro — dizia-lhe Henrique, no momento em que eles ambos estavam empenhados a jogar a cabra-cega com os pequenos. — Coragem, que temos gloriosos exemplos a animar- -nos; até, entre outros, o do meu homónimo Henrique IV. É sabido o episódio recordado por uma gravura célebre.

O conselheiro secundava-o, rindo ; graças a estes jogos, a sala estava dentro em pouco em desordem ; os móveis fora da sua posição, o chão alastrado de cascas de pinhões, que estalavam sob os passos, os tapetes desviados, as cortinas soltas.

Já por noite avançada, disse o conselheiro para Henrique : — Falta-nos ainda um artigo importante do ritual destas festas, o principal. É dirigir uma visita à cozinha. Porque a obra principal desta noite é fazer uma ceia e não comê-la. Por isso convido-o a acompanhar- me lá.

— com tanta mais vontade, que estou há muitos dias comprometido a isso com as senhoras.

— Nesse caso é tempo.

E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia à cozinha.

Escusado parece dizer que a turba infantil os seguiu tumultuàriamente, anunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegria.

A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Ocupava um vasto recinto rectangular, rasgado em amplas janelas e fornecido de bancas monumentais, condizendo com a estupenda chaminé, que parecia ainda saudosa dos odoríferos vapores que outróra espalhavam os tachos e as grelhas monásticas.

Ia indizivel animação na cozinha, quando Henrique aí entrou com o pai de Madalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certas, um borbulhar de caçarolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar de cristais no meio de uma babel de ordens, de perguntas, de reclamações, de conselhos, todos atinentes a negócios culinários. E D. Vitória ralhava, e a Sr.ª de Alvapenha promulgava preceitos, e Maria de Jesus desdenhava do serviço das colegas, e Madalena e Cristina riam de todos e de tudo, e Ângelo a todos impacientava.

Não se imagina! A chegada do conselheiro e do seu hóspede veio exacerbar a desordem. Ergueram-se risos e exclamações, as quais ainda assim eram subjugadas pelos reparos e censuras de D. Vitória, a qual dizia para o conselheiro: — Sempre o mano tem coisas ! Olhem agora para o que lhe havia de dar ! Vão lá para dentro, vão. Não venham atrapalhar-nos mais ainda do que estamos. E o primo Henrique também! Ora esta!...

— Não se aflija, mana. Nós não podíamos resignar-nos a ficar alheios à tarefa principal do dia. E até porque é necessário dar andamento a isto para chegarmos a tempo da missa do galo.

— Pois querem ir à missa do galo ? — Está de ver que sim.

— Eu também vou — disse Cristina.

— E eu — acudiu Madalena.

— Mais um, que irá também — disse Henrique.

— E eu, e eu — acrescentaram diferentes vozes.

— Ai, minhas encomendas ! — suspirou D. Vitória. — Então porque não disseram isso logo? Agora como há-de ser? E saiu em direcção à sala da ceia a dispor as coisas.

É preciso que se diga que D. Vitória vivia na cândida ilusão de que era e'a quem faz'a tudo em casa, enquanto que manda a verdade declarar que nunca mais regularmente corriam as coisas domésticas do que quando dormia esta aliás excelente senhora.

— Mãos à obra, Sr. Henrique ! — bradou o conselheiro, insistindo na resolução com que viera.

— Pronto — respondeu Henrique.

— Então ? então ? ... Que vão fazer ? — perguntava D. Vitória, aflita, voltando à cozinha.

— Querem ver que preparos ? ! — dizia D. Doroteia, sorrindo e olhando com curiosidade para o que faziam os dois.

— Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, minha tia — dizia Henrique, aproximando-se da banca, perto da qual trabalhavam Madalena e Cristina.

— É verdade que sim — acudiu Madalena — e eu exijo o cumprimento da promessa.

— Vamos lá, Sr. Henrique — tornou o conselheiro — aceite-me alguns preceitos da prática. A regra é fazer tudo o mais indigesto possivel ; porque essa qualidade é o característico dos manjares desta noite.

— Nesse caso, vejo que nasci para cozinhar a ceia do Natal, pois desafio o melhor estômago do mundo a que subjugue os meus guisados com os seus sucos digestivos.

— Eu já escolhi tarefa — disse o conselheiro, tirando das mãos de Cristina a colher com que ela mexia o vaso onde se preparava o vinho quente, esse punch nacional, que nesta noite seria uma falta imperdoável se esquecesse no programa daquele banquete.

Cristina quis resistir ; mas o conselheiro venceu, e cedo principiou a desempenhar-se deste trabalho, no meio de hilaridade geral.

Angelo dispensou a tia Doroteia do trabalho da preparação dos mexidos.

Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e no seguimento do seu constante propòsito, aproximou-se da morgadinha, que naquele momento se ocupava a regar de calda de mel umas recentes rabanadas, — Peço trabalho, prima Madalena.

— Não há falta de braços nesta repartição, primo Henrique. Vá a outra porta.

— Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance das minhas forças.

— Esta ? Como se engana ! Não sabe que as rabanadas são a essência da ceia de Natal? E logo havia de confiar-lhas? — Ah ! não ligava tanta importância a estas representações da pastelaria primitiva, notáveis porque recordam a infância da arte ! Enquanto a mim, já no tempo da peregrinação dos hebreus, Moisés lhes ensinava a cozinhar disto.

Madalena abanou a cabeça em sinal de repreensão.

— Perdoe às pobres rabanadas o pouco ar de moda que têm. A sua elegância é implacável, primo Henrique. Um indigesto manjar francês seria de melhor tom, bem sei. Até nisso ! — Para provar que estou arrependido da minha irreverência, consinta-me que a coadjuve, prima.

— Não pode ser ; pesa sobre mim uma tremenda responsabilidade.

— Isso equivale a recusar-me o foro de família, que tão humildemente reclamo.

— Justamente — respondeu Madalena. — Eu sou muito escrupulosa nisso. Faz mal em não reclamar esse foro de Cristina, que talvez encontrasse mais disposta a conceder-lho.

— Mas, se me não engano, foi a prima Madalena que primeiro me conferiu o apreciável titulo de parentesco com que nos tratamos.

— O de primos? Esse sim; mas não tem os privilégios que lhe quer dar.

— Que privilégios são ? — Ah!... o de colaborar numa ceia de consoadas, por exemplo.

— Parece-lhe, priminha, que será muito exigir o que eu peço? — perguntou Henrique a Cristina, que principiara a escutá-los.

— Não ouvi — respondeu esta, corando e sorrindo, como sempre que lhe falava Henrique.

— Escusado é consultar Cristina — acudiu a morgadinha—por que em muitas coisas pensa ela em oposição comigo. E nisto...

— E nisto...

— Nisto de atender a requerimentos, é talvez mais condescendente.

— Ao que estou vendo — disse o conselheiro jovialmente — grandes coisas se tinham passado aqui antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade entre Lena e o Sr. de Souselas, que me dá sérias inquietações.

— E eu julgo que não. Ao que ouvi ao Henriquinho, a primeira vez que viu a nossa Lena no Mosteiro!...—disse D. Doroteia, com tôda a indiscrição da sua ingenuidade.

Madalena procurou acudir a tempo à corrente das revelações, a que viu disposta a boa senhora.

Veio oportunamente em seu auxílio Angelo, que tendo feito uma digressão pela sala do refeitório, voltou com a alegre nova de que a ceia estava na mesa.

O anúncio foi recebido com aparente entusiasmo. Suspenderam-se trabalhos, quase completos, u'timaram-se à pressa outros, e a companhia dirigiu-se para o corredor.

Pouco depois de Ângelo, chegou D. Vitória, desmentindo-o e pretendendo suster a corrente, que ameaçava invadir a sala, que ela ainda não dera por pronta. Já não era tempo. O conselheiro, tomando duas crianças ao colo, rompia a marcha, e atrás dele até a pacifica D. Doroteia clamava insubordinada que não recuaria um passo.

E falando e rindo, assim entraram na sala.

Estava ofuscante de luzes, esplêndida de louças e baixelas, enfeitada de flores e de cristais e enevoada dos vapores das iguarias.

Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, uma confusão e incoerência de ordens de D. Vitória para marcar lugares, infracções destas ordens, que a impacientavam, como se com isso pudesse perigar a ordem natural e social do mundo, e, como justa conseqüência, caía sobre a cabeça dos criados uma enfiada de recriminações, que eles por hábito já sofriam com exemplar paciência.

Restabelecida enfim a ordem, procedeu-se à ceia.

Ceia de Natal ! abençoado banquete, ao qual todos se devem sentar nas mesmas disposições de ânimo em que ordenava Cristo estivessem os que fossem orar ao templo ; ceia com tanto afã cozinhada, e com tão pouca vontade comida, falem embora contra ti os médicos e os gastrónomos eméritos, condenando uns a indigesiibilidade dos teus cozinhados, outros o pouco delicado deles ; reage contra as idéias novas, que vêm da França e da Alemanha; cerra as fornalhas às iguarias exóticas e furta-te às mãos da estranha geração de vatéis, que aspiram a dominar pelos paladares o espírito nacional.

Modifiquem embora o caracter vernáculo de todas as outras refeições, mas respeitem esta, consagrada pelas memórias da família, justificada pelo facto de que quase não é feita para ser comida.

Assim sucedia com a do Mosteiro. Apesar das instigações do conselheiro, das instâncias de D. Vitória, das garantias de D. Doroteia sobre a inocuidade dos guisados, os pratos corriam à roda da mesa quase intactos e intactos voltavam à cozinha de onde saíram.

Mas se se comia pouco — e de facto, à excepção de Henrique, do conselheiro e das crianças, quase ninguém parecia haver-se sentado ali para cear — mas, dizíamos nós, se se comia pouco, em compensação íalava-se muito.

O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando urna iniciativa eficaz para baralhar e generalizar as conversas e assim conservar constante a animação. Tudo desafiava risos, o dito de uma criança, a anedota contada por Henrique, as distracções de D. Vitória, as canduras de D. Doroteia, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as alusões da morgadinha a Cristina, a confusão desta, as maliciosas insinuações de Ângelo.

Assim procedeu o repasto nocturno até à altura das saudações e dos toasts. Nesta parte, justo é confessar que Henrique e o conselheiro foram menos abstinentes. Era difícil resistir à preciosidade dos vinhos.

Passados os recíprocos brindes entre os parentes, o conselheiro, voltando-se para Ângelo, autorizou-o a propor também um brinde.

Ângelo levantou-se então para brindar Augusto.

O conselheiro secundou-o, levando o copo aos lábios.

— Ah ! o Sr. Augusto — disse Henrique, antes de beber e com certo tom de ironia. — Conheço; é uma ave rara destas imediações, que tem obras de cavaleiro errante sob umas aparências de filósofo.

— Brios de cavaleiro ? — disse Ângelo, com vivacidade. — Ainda isso não é tudo, Sr. Henrique ; pode acrescentar, e alma de herói também.

— Pois dê-se-lhe também alma de herói, e se for preciso até consciência de santo. Vá à saúde da fénix.

E bebeu.

Depois de pousar o copo, prosseguiu com o mesmo tom anterior: — O que vejo é que é perigoso falar com a mais ligeira irreverência desta personagem; corre-se o risco de ver voltar contra o ímpio, que tanto ousa, os poderes conspirados do Céu e da Terra. Bem; prometo acatar essa preciosidade.

— E creia — disse-lhe o conselheiro — que lhe é merecedor de tôda a consideração. Augusto é um destes caracteres excepcionais que vivem à sombra de uma modéstia impenetrável e à sombra dela muitas vezes morrem. É necessário ter a vista muito exercitada nestas explorações de almas modestas, para descobrir uma assim.

— Felizmente para os miopes como eu — prosseguiu Henrique — elas fazem às vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se mostrarem à luz. Não é verdade, prima Madalena? — Que admira ; — respondeu Madalena — bem oculto está o fogo na pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a faísca.

— Pobre rapaz — notou a Sr.* de Alvapenha — aquilo nem parece deste tempo. O que eu não sei, primo Manuel, é porque ele se não resolveu a tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa! — Não seja isso a dúvida. Ele sabe que, adoptando essa ou outra qualquer carreira, não lhe faltarão recursos para segui-la até ao fim.

Devo-lhe esse auxilio, assim ele o aceitasse; mas tem um gênio singular aquele rapaz! — É uma fénix — insistiu Henrique, irònicamente. — Vejo que não é susceptível de discussão, impõe-se à gente como um axioma.

Eu tenho hábitos de livre-pensador, mas... forçar-me-ei a incluir no meu credo esse dogma.

— Perdão — replicou Angelo. — Um axioma não se demonstra, e a boa alma de Augusto está todos os dias a demonstrar-se por acções generosas.

— Por favor ! ! Dêem como não ditas as minhas palavras ! Arrependo- me da minha irreverência, e se ele aqui estivesse, principiaria a penitenciar-me na sua presença.

— E é certo que nos falta aqui Augusto. como te não lembraste dele, Ângelo? — Não viria. Nesta noite nao deixaria o tio Vicente.

— Ah, sim. Esquecia-me daquele pobre Vicente.

— É do ervanário que falam ? — perguntou Henrique.

— Justamente.

— Outra fénix ; e quer-me parecer que também pertence ao número dos invioláveis; não é verdade, prima? — Pertence ao número dos infelizes, primo, o que é justo considerar- se uma espécie de inviolabilidade.

A resposta colocou Henrique em mau terreno e por isso apressou- se a desviar do ponto principal a questão, dizendo : — Infeliz ? Porque lhe chama infeliz ? Os visionários como ele têm em si os elementos da própria felicidade, e ninguém possui poder de perturbar-lha. Além de que o ervanário goza aqui na terra de uma certa soberania, que deve lisonjeá-lo.

— E olha que nem em Lisboa há talvez quem saiba tanto como ele em coisas de doenças e de remédios, menino — disse D. Doroteia, que era uma das fervorosas apologistas da ciência do ervanário.

— É na verdade um homem singular ! — disse o conselheiro. — Dantes, na noite de Natal, e em todas as solenidades de família, tínhamo- lo também por comensal, que ainda é parente arredado da casa.

Há anos, porém, deu em tomar a peito o meu procedimento político e em pregar-me sermões e dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possível resignação. Mas um dia foi mais amargo nas suas recriminações e eu achava-me com maior Susceptibilidade ; julgo que lhe respondi com bastante acrimònia, e o homem saiu de minha casa ofendido e protestando não voltar mais a ela. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovê-lo do seu propósito. Não houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, e é intolerante nestas condições.

— Sei-o já por experiência ; — disse Henrique — que numa única entrevista que tive com ele, e que durou minutos, deu-me ocasião de lhe conhecer a irritabilidade.

— Vamos, primo Henrique ; talvez possa haver quem suponha que nessa entrevista não demonstrou o primo pior do que ele possuir as qualidades de que o acusa.

— Agora — continuou o conselheiro — vão consideravelmente exacerbar-se os despeitos do ervanário contra mim.

— Porquê ? —perguntou Madalena.

— Porquê?... por causa do traçado que se adoptou para a estrada.

— Então ? — disseram simultaneamente Ângelo e Madalena.

— A casa e o quintal do ervanário são os primeiros cortados.

— Não pode ser ! — exclamou Madalena, com evidente expresão de susto.

Ângelo dirigiu ao pai um olhar também inquieto.

Cristina não exprimiu menos apreensiva tristeza.

— Ë inevitável. Os dois primeiros traçados tinham certas durezas.

O primeiro era uma luva lançada a uma influência eleitoral, poderosíssima; o brasileiro Seabra.

— Ah! — disse Madalena, com certa amargura na expressão e no olhar.

O conselheiro reparou nela e em Ângelo, em cuja fisionomia se não lia menos intenso desgosto.

— Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse com os despeitos desse influente. A lógica do sentimentalismo tem dessas exigências absolutas.

Madalena respondeu : — Julguei que era a da consciência, meu pai.

— A consciência diz-me que há interesses superiores às contemplações com as singularidades de um velho honrado, mas .. meio tonto.

Na carreira política ceder ao coração é morrer ou ser vencido. O sentimentalismo exagerado, Lena, tem o inconveniente de dar tanto vulto as vezes a um sacrifício individual, que, para o evitar, não duvida prejudicar maiores e mais gerais interesses e operar sacrifícios mais custosos. É muito tocante na verdade o amor de um velho pelas suas árvores e pela sua casa; porém, mais respeitável é o bem-estar e a conveniência de uma localidade.

— E é tão necessário para a felicidade desta terra o sacrifício a que se quer obrigar o ervanário? — perguntou Ângelo, e Madalena secundou com o olhar a pergunta do irmão.

— Eu te digo, Ângelo — respondeu o conselheiro, levemente despeitado. — Eu tinha a vaidade de me supor ainda prestável para esta gente, que me tem elegido tantas vezes. Dos nossos patrícios, deixem-me dizê-lo aqui em família, não vejo ainda quem dê garantias de desempenhar o mandato muito melhor do que eu. Chamasse eu contra mim a animadversão deste povo, e eles, à falta de outros, aceitariam amanhã qualquer nome inscrito na carteira do ministro; um homem que nunca tivessem visto, e que nem soubesse em que ponto da carta estava o círculo de que se propunha ser representante. Mas perdoa-me, Lena, talvez isto te esteja parecendo um censurável excesso de vaidade.

— Não, meu pai, ninguém acredita mais do que eu no muito valor da sua influência, mas... Oh meu Deus!... isso vai sêr a morte do pobre tío Vicente ! Imagine bem o que é naquelas idades e com aquele gènio a grandeza do sacrifício que vão exigir dele? — Custa-me ser obrigado a isso; porém...

— Valia mais esperar algum tempo. A vida dele não pode ser muito longa. Deixem-no morrer em paz, à sombra daquelas árvores a que ele quer tanto. Que importa passar mais alguns anos sem uma estrada ? — Poesia! — disse o conselheiro, sorrindo para Henrique, que lhe correspondeu.

— Perdão ! — acudiu Madalena, corando — é caridade.

— Ora vamos, Lena. Sê razoável. Todos sofrem no mundo sacrifícios maiores do que esse ; eu mesmo, que me não tenho ainda assim por vítima da sorte...

— E não haveria outro meio ? — perguntou Ângelo. — Acaso há só esses dois lugares para dirigir a estrada? — Que antes nunca se fizesse ! — exclamou Madalena, apaixonadamente.

— Aí temos como o sentimento me torna retrógada a minha Lena.

Já clama contra as estradas como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro traçado, mas esse ia destruir completamente os campos do Brejo.

— Ah ! então esse, esse ! São bens nossos ! — exclamou Madalena com vivacidade.

— São bens de Ângelo, filha, e porventura aqueles que um dia mais valiosos se tornarão para teu irmão.

— Os charcos? — disse Ângelo, encolhendo os ombros — oral Só para viveiro de rãs.

— Hoje pouco mais são do que isso, e como tal no-los pagariam agora. Dentro, porém, de alguns anos, operados ali os trabalhos de esgoto, que eu projecto, verão em que se transforma aquilo. É exigir a um homem muita abnegação pretender dele que sacrifique assim os elementos da riqueza futura de seus filhos ; quanto mais que as vantagens não seriam tais que...

— Não pediríamos esmola, meu pai — notou timidamente Ângelo.

— Nem o Vicente a pedirá. Visto que estais tão desprendidos de interesse, que não hesitais em fazer-lhe sacrifício dos vossos bens, podeis ceder-lhe o suficiente para o compensar da perda.

— Mas quem o compensará dos golpes nos seus afectos? — perguntou Madalena.

— Também tu ! São segredos do coração feminino essas compensações.

Deixo-as à tua disposição.

— Meu pai ! meu pai ! se é ainda possível atalhar-se I — É impossível.

— Meu tio ! — secundou Cristina.

— Mano ! Primo ! — disseram a um tempo as senhoras mais idosas.

— O que posso fazer é ir eu pròprio falar com o Vicente, para o mover a consentir na expropriação amigável, que farei que lhe seja 0 mais vantajosa possivel.

— E tem coração para lhe ir propor isso ? — Diz antes se tenho coragem para arrostar com as i ras do velho, e com as maldições que já sei vai sacudir sobre mim.

Lena calou-se, suspirando.

— Mas vejam a inevitável fatalidade que me persegue ! — continuou o conselheiro. — Eu, que tinha feito voto de não me entreter de negócios públicos esta noite ! Ai, Lena, Lena, a culpada és tu ! — Eu?! Eu, que abomino a política! que só ela podia fazer entrar a crueldade no coração de meu pai ! — Ó tio, veja se faz com que a estrada vá por outro sitio ! — implorou meigamente Cristina.

— Também tu, Criste ! também tu ! — Pudera, mano ! Não, que uma coisa assim ! Isso é até uma ingratidão para com um homem a quem esta aldeia tanto deve — disse D. Vitória.

— Pois não é ! E logo um quintal onde cresciam tantas plantas de virtudes ! — acrescentou D. Doroteia.

— Vá vendo, Sr. Henrique, como se conspiram todos contra mim.

Veja como um sentimento insignificante organiza uma oposição.

— É uma lição que estou recebendo, sr. conselheiro.

— Meu pai — insistiu Madalena — eu espero ainda que, ouvindo o tio Vicente, se comoverá e trabalhará por alterar esse fatal plano que principia por arrancar árvores, mas que, pode estar certo, com elas arrancará uma vida.

— Romances ! Lena, romances ! Os romances, lidos em plena aldeia, são perigosos. Falta aqui nos ares um certo cepticismo que, não sendo em doses exageradas, tem a vantagem de não deixar ver as coisas da vida através do prisma dos livros de imaginação. Mas basta de falar em política. Amanhã procurarei o ervanário. Espero uma recepção de gelo, e vou preparado para uma ladai ha de recriminações, mas irei. Nada esperes, porém, da entrevista Lena; nem o mal, se ma! é, se poderia já atalhar; nem o orgulho de Vicente lhe permitiria expansões à sensibilidade, que cheguem a comover-me, Conheço-o.

Madalena não instou. Ficou, porém, pensativa e sem o menor vestígio da alegria com que principiara o serão.

Nisto ouviu-se um toque de sino longínquo.

— Já toca para a missa do galo ! Ouvem ? — disse D. Vitória.

— Vamos ! Não há tempo para demoras — exclamou o conselheiro, levantando-se.

Todos o imitaram, menos Madalena. _ — Não vens, Lena? — perguntou Cristina.

— Não.

— São amuos, ñlha — disse-lhe o conselheiro, indo por trás dela e, tomando-lhe a cabeça entre as mãos, beijou-a na fronte.

— Não, meu pai, é uma dor de cabeça tão violenta ! — A maldita política é o que faz ! Pois fica ; fica, porque está fria a noite.

— Far-te-ei companhia, Lena — disse Cristina.

— Não, não. Se insistes, obrigas-me a sair.

— Aviem-se ! — dizia D. Doroteia. — Henriquinho, vens ? Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia-noite esfriou desde que viu Madalena ficar, respondeu: — O tia... a falar verdade!... se me dispensassem!...

— Vem daí, preguiçoso ! anda ! — É que .. para um homem doente...

— Ai, não ; se te há-de às vezes fazer mal, então não — apressou- se a dizer a precavida senhora.

E foi deferido por unanimidade o requerimento de Henrique, a quem cedo depois Torcato foi ensinar o caminho para o quarto onde devia pernoitar.

O conselheiro, D. Doroteia, Cristina e Angelo foram para a missa do galo.

D. Vitória, Madalena e Henrique ficaram no Mosteiro,

XV FECHANDO-SE no quarto, que lhe deram para pernoitar, Henrique de Souselas sentiu poucas disposições de dormir. uma profunda excitação impedia-lhe o repouso; em parte era devida às ocorrências daquela noite, tão fora dos seus hábitos de vida; em parte, digamo-lo em verdade, à influência dos vinhos, com que secundara os brindes do conselheiro, e com que ele próprio iniciara outros.

A imaginação, excitada como estava, cada vez, entre outras imagens, lhe representava mais bela a de Madalena. A espécie de hostilidade permanente com que a morgadinha o tratava, ainda mais parecia seduzi-lo.

Nos poucos dias que passara na aldeia, havia Henrique, com novos hábitos, adquirido uma maneira de ver e de julgar as coisas e as pessoas, diferente da que lhe era habitual na cidade, no círculo de amigos com quem convivia; assim foi que abjurou tàcitamente, e sem dar por isso, certo cepticismo convencional, que uma antipática escola conseguiu pôr muito na moda.

Graças a estas melhoras morais, tão verdadeiras nele como as físicas, as quais até o constante pensamento das doenças lhe haviam dissipado, pudera ele considerar Madalena como uma mulher superior ao tipo, pelo qual a mencionada escola costuma modelar o sexo; e aceitou sem má prevenção a aberta sinceridade daquele carácter simpático, que descrevia com entusiasmo nas suas cartas a um dos seus mais íntimos amigos de Lisboa.

Tais estados de convalescença são, porém, sujeitos a recaídas.

Neste dia, véspera de Natal, recebera ele a resposta àquelas cartas, e sob as impressões, com que ficou da leitura, tinha vindo para o Mosteiro.

O amigo ria-se, com todo o elegante cepticismo de um homem da moda, da candura e da ingenuidade de Henrique. Dizia-se sinceramente penalizado à vista dos profundos estragos que alguns dias de província tinham operado nele. Via-o disposto a idealizar a mulher, a mais perigosa e mofina monomania que, dizia o tal, pode transtornarei cérebro de qualquer homem.

Com aquela ausência de escrúpulos, com que todos os dias caracteres.

aliás não pervertidos, levianamente caluniam ou ferem de suspeitas reputações de todo o género, ele fazia irreverentes alusões à morgadinha e zombava de Henrique, que ainda tomava a sério as isenções de uma rapariga de vinte e três anos. Acabava por o aconselhar a que indagasse de algum primo tímido e modesto, ainda que menos ingênuo decerto do que ele Henrique se estava mostrando.

Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a doença, que estava em via de cura. Um espírito mefistofèlico parecia havê-la ditado. Henrique transportou-se pela imaginação, depois de lê-la, a um dos círculos que habitualmente frequentava em Lisboa ; supôs-se a fazer ali a narração da sua vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos com que o escutariam, e ele próprio construía os epigramas, com que lhe seria por certo comentada a narração. E então uma vergonha de má índole, vergonha do homem que põe um preceito de elegância acima de um ditame de moral, fazia-o corar, apesar de a sós consigo mesmo. Voltava a 1er a carta, que lhe parecia ditada pela experiência e pelo bom senso, enquanto que a ingenuidade das suas crenças se lhe figurava ridicula e desarrazoada.

Quem há que não tenha tido momentos destes? Quem se pode gabar de não ter perguntado um dia aos seus escrúpulos mais nobres se não são meros preconceitos que ficaram de uma educação acanhada? Quem não pôs um momento em dúvida as sublimes verdades que a mãe lhe ensinou em criança? Henrique estava passando por um desses acessos de cepticismo. Madalena era já para ele uma astuciosa, que muito se deveria ter rido da sua simplicidade ; e tanto o incomodava essa idéia, que prometia a si próprio ser dai por diante mais arrojado. Esta ordem de reflexões estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam da excitação, que se apoderara dele aquela noite, uma tenacidade maior. Sentindo a cabeça em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz, e abrindo a janela do quarto, saiu à varanda que deitava para a quinta, a respirar o ar livre.

A noite era sem luar e sem névoas. Descobriam-se muitas estrelas no céu, que com forte cintilação parecia iluminarem a terra de um ténue crepúsculo, que mal deixava distinguir os objectos.

O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer que ele procurava prolongar.

Não havia passado muito tempo, depois que assim se encostara à varanda do quarto, quando lhe atraiu a atenção certo vulto alvacento, que furtivamente se movia numa das ruas da quinta.

Pareceu-lhe uma figura de mulher.

Justamente naquela ocasião tinha Henrique na memória o periodo final da carta do seu amigo.

Por isso ocorreu-lhe uma idéia satânica.

— Ah!... Querem ver que... A dor de cabeça súbita... A insistência em ficar só... Percebo... Um primo timido e modesto ..

E murmurando estas palavras, um sorriso maligno encrespava os lábios de Henrique.

— Se eu pudesse averiguar isto... Mas ela corre com uma ligeireza que, antes que eu ache meio de sair para a quinta... já a levará bem longe.

O meio porém não era difícil de encontrar. Da varanda em que estava Henrique passava-se com grande facilidade para outra imediata, na qual havia uma escada de comunicação para a quinta.

Reconhecendo esta disposição do terreno, Henrique operou num momento a descida, e pouco depois procurava através da quinta os vestigios da mulher que tinha perdido de vista.

Nesta operação esforçava-se por combinar com a máxima ligeireza a possivel precaução, para não ser por causa alguma frustrada a sua pesquisa.

A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada tôda em volta por um sólido muro de alvenaria. Aqui e ali abriam-se nele diferentes portas que deitavam para os diversos lugares da aldeia. Neste vasto recinto havia pomares, lameiros, vinhedos e hortas, por onde Henrique errava à toa, já desanimado de ser bem sucedido no empenho.

De repente julgou ouvir, a pouca distância, o rodar de uma chave na fechadura. Parou por precaução e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o bater de uma porta e mais nada.

Então adiantou-se rapidamente ; num momento deu com a porta, que ainda se conservava aberta. Saiu por ela para a rua, mas achou-a deserta.

Dirigiu-se à esquina que dali avistava; dobrou-a, mas nada viu; as ruas eram solitárias, e uma só casa térrea que havia ao lado de um quintal estava discretamente fechada e silenciosa.

Desistindo de prosseguir na infrutuosa pesquisa, Henrique voltou para a porta.

— Esperemos aqui por esta donzela destemida que assim anda de noite a correr aventuras. Há-de ser curioso observar como ela fica quando me encontrar por guarda-portao. Veremos se ainda depois disto durarão aqueles ares de soberania com que me trata. Um primo timido e modesto!...

E, sorrindo à lembrança da cena que se preparava, Henrique fechou a porta por dentro, e acendendo um charuto, pôs-se a passear, aguardando o regresso da morgadinha.

Para não perdermos muito tempo à espera também, aproveitá- -lo-emos a inquirir de coisas e de pessoas, cujo conhecimento é útil à continuação da nossa história.

A pouca distância do extremo da quinta do Mosteiro e num sítio a que a abundância de vegetação e a suavidade de perspectiva davam o mais pitoresco aspecto, estava a casa e o quintal do ervanáno, casa e quintal já conderados pelos lapis e tira-linhas dos engenheiros e oferecidos em se orificio aos melhoramentos municipais e concelhios.

Acharia justificado o quase terror, com que Madalena e Ângelo escutaram a nova desta expropriação, quem conhecesse a vivenda rústica do ervanário e soubesse do amor que ele votava a cada objecto dela, assim como da vida que, havia tantos anos, ali vivia escondido e obscuro.

Para o quintal, que a abundância das árvores de espinho fazia sempre verde, abriam-se as janelas da pequena e humilde saleta, onde o ervanário se entregava às suas leituras e lucubrações científicas.

Logo ao pé da porta se estendiam o jardm em parte de recreio, pelas flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas símplices medicinais, de virtudes mais ou menos problemáticas, que o velho nele cultivava.

Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me assim chamar- lhe. Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus frutos e pelos poderes curativos que lhes atribuía. E como se elas possuíssem a responsabilidade dos efeitos produzidos, assim lhes queria e as amimava, quando salutares ; assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas.

A vida isolada e o gênio do velho, que sempre fora dado a singularidades, aumentavam estas disposições, que unham o que quer que era de panteístico ; e não era raro surpreenderem-no conversando com elas, como se convencido de que o estavam compreendendo.

A borragem, a salva, a fumaria, a erva-terrestre, a erva-moura, os trevos, os geranios, as papoulas, as violetas, tão boa camaradagem lhe faziam, que nem lhe deixavam sentir a solidão.

O ervanário não tinha pessoa alguma ao seu serviço. Ele próprio cozinhava e por suas mãos fazia todos os mesteres domésticos.

É pois de imaginar que não seria muito complicado o banquete das consoadas naquela casa, e que devia formar em tudo contraste com o que à mesma hora se celebrava no Mosteiro.

De feito, quando ali eram mais ruidosas as conversas e mais espontâneos os risos, dois homens apenas, sentados um defronte do outro, a uma pequena mesa circular, solenizavam naquela modesta sala o sanio aniversario. Um era o proprietário da casa, o outro Augusto, um dos poucos que se atrevia a frequentar àquelas horas mortas a habitação do velho.

Além da mesa, sobre a qual estava uma ceia composta de queijo, maçãs, nozes, castanhas, duas sopeiras com escabeche, especialidade na confecção da qual o ervanário era eminente, e uma garrafa de vinho do Porto de prometedora cor de topàzio, consistia o resto da mobília numa estante de pinho, vergada sob o peso de in-fólios de grossas encadernações e folhas vermelhas nos aparos, em algumas cadeiras e bancos também ocupados com livros e com vários utensílios empregados nas explorações científicas do velho, tais como caixas de lata, frascos, martelos, foicinhas, limas, os quais ainda sobravam para alastrarem o chão.

Todo o recinto era apenas alumiado por um candeeiro de azeite, e a escassa luz, que dos três lumes que, em atenção à solenidade da noite, o velho acendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um Cristo de marfim pendente de um crucifixo negro, que sobressaía naquelas paredes nuas e caiadas.

Havia bastante tempo que aqueles dois homens, sentados defronte um do outro, guardavam silêncio ; um desses silêncios, durante os quais os espíritos, como se impacientes com as longuras da palavra, tendo-se desembaraçado dela, voam a par, para adiantarem caminho e voltarem mais longe a associarem-se à sua mais lenta companheira.

Augusto, com os olhos fixos na luz que iluminava a cena, parecia alheio a quanto o rodeava.

O ervanário, sem desviar os olhos dele, com o braço estendido para o cálice que tinha defronte de si, e a cabeça inclinada, parecia espiar, um por um, todos os gestos de Augusto, e estudar neles os pensamentos que o preocupavam. Enfim rompeu o primeiro silêncio: — Pobre rapaz ! Diz-me para aí tudo o que tens. Para que te metes a esconder de mim aquilo que eu há tanto te leio nos olhos, criança? — O quê, tio Vicente ? — perguntou Augusto inquieto.

— O quê? ! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, sem te esfriar o coração: são dons do Céu, que se pagam caro e com lágrimas, rapaz.

Bondade de coração, com a cabeça... assim, assim... a dar esmolas aos pobres se satisfaz: cabeça de fogo, mas coração de gelo... todos os meios de levar ao fim ambições, tanto os bons como os maus, todos lhe servem ; mas coração como o teu, com o espirito que tens !... ai, pobre Augusto, se se escapa ao infortúnio, é por milagroso poder do Senhor.

— Não o entendo, tio Vicente — disse Augusto, com manifesta confusão.

— Não ! Olha para mim. E vê se te atreves a repeti-lo.

Augusto baixou a cabeça.

O velho sorriu com ar de comiseração e simpatia.

— Tu ainda não sabes fingir. Vamos lá ; e cuidas que me não havia de custar, se não tivesse acertado? — E, depois de breve pausa, continuou : — Mas ainda quando penso em como tu, uma cabeça forte, assim te deixaste enfeitiçar !...—E tomando o cálice, que tinha defronte se si, disse com resolução: — Quero beber à tua saúde, Augusto, e para que em breve se te desfaça essa loucura.

Quando ia a levantar o cálice aos lábios, a mão de Augusto susteve- lhe o braço.

— Não beba. Loucura embora, deixe-me viver e morrer com ela.. Sou feliz assim.

— Ah ! — disse o velho ervanário, tomando um ar mais grave ; e pousou o copo, sem desviar de Augusto o olhar penetrante e fixo.

Augusto, depois de um curto silêncio, prosseguiu com maior veemência e colorindo-lhe as faces um não costumado rubor: — Sim. Porque o não hei-de confessar ? Essa loucura que diz, trago-a comigo, vivo com ela e quase que para ela. Quero-lhe assim, e não a desejaria perder. Amor? não é; a tanto não chega... antes um culto, isso sim. É uma adoração como aquela, em que de pequenos nos educam para com a Virgem. Que esperanças tenho? Nenhumas.

Nem procuro alimentá-las. Quer que lhe diga? Vê-la; respirar estes ares que ela respira; atravessar estas devesas em que ela passeia; amimar as mesmas crianças que ela amima ; socorrer, com o meu óbolo de pobre, a miséria sobre a qual ela espalha caridosa as dádivas da sua abençoada opulência... e, aí está; são as minhas aspirações; é o futuro que desejo, e com que me contento. Leu no meu coração, disse ; e há muito que mo dá a entender ; mas, não viu claro de todo, confesse.

Julgou talvez que haveria em volta deste sentimento um enxame de esperanças loucas, e delas se ria. Delas por certo foi que se riu; é muito generoso para se rir do mais. Enganou-se, porém, tio Vicente ; vê agora que se enganou, nao é verdade? Essas esperanças não existem.

Se existissem, bem vê que não estaria aqui. Não me teria impelido a ambição pelo caminho de realizá-las? Não se me têm oferecido os meios para tentá-lo? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto me satisfaz esta felicidade a meu modo, que não arrisco um instante dela para tentar uma ventura maior.

O ervanário escutava silencioso, porém meneando a cabeça com ares de quem não punha demasiada fé naquelas palavras.

— Aos vinte anos!...— disse ele por"fim — sentir o que dizes...

ser feliz assim!... Deixa passar mais tempo; deixa tomar corpo à paixão e verás... verás depois...

— Tem dez anos — disse Augusto, sorrindo.

— Dez anos ! — É verdade. De criança a conheço, a paixão que diz; por issò confio nela. Tenho fé em que se não transviará.

— Dez anos!—repetiu o velho, admirado.—Porém... há dez anos ..

— Há dez anos saí eu daqui, tio Vicente. Não se lembra? Era então uma pobre criança da aldeia, educada entre os braços de minha mãe, e conhecendo, uma por uma, as árvores destes sítios e mais nada.

Saí daqui e fui para Lisboa. Não imagina as fortes impressões que recebi na noite que ali cheguei. Nunca a história mais maravilhosa de fadas e de encantamentos que ouvia, quando era pequeno, nunca me feria a imaginação assim ! Tudo era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes, os palácios, os edifícios, os carros produziam-me quase uma vertigem; sentia-me vacilar. Achei-me, nem sei bem como, de tão atordoado que ia, numa casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia, naquela noite, uma companhia numerosa de homens, de senhoras e de crianças, muitas da mesma idade que eu, e que formavam uma assembléia à parte. A sala era magnífica ; muitas luzes, muitos espelhos, muitas flores, móveis dourados, tapetes, quadros, cristais, e para acabar de me confundir, o piano, objecto novo para mim, e que eu me não fartava de admirar. Tudo isto me perturbava, como imagina, e por força me havia de dar uns ares de estupefacto. O conselheiro recebeu-me com afecto ; deu explicações às pessoas presentes a respeito da minha vida, e deixou-me entregue às crianças. Aí fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta mal talhada, o meu olhar tímido, os meus modos acanhados, no meio de uma turba de crianças elegantes, que se me figuravam de uma essência superior à minha.

As crianças são desapiedadas, quando assim em companhia. Cedo percebi que estava sendo o alvo da zombaria delas; riam ao princípio com disfarce e falavam-se ao ouvido, olhando-me de relance, redobravam as risadas e transmitiam reflexões a meu respeito, cujo sentido julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia nelas. dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarçados; formaram grupos em volta de mim; se eu falava, respondiam-me rindo. Então apoderou-se de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me o coração de tristeza. Lembrei- me, com saudades, das árvores da minha aldeia, do meu pobre quarto, da minha mãe ; e achei-me ali tão só, tão sem conforto nem amizades, que as lágrimas me vieram ferventes aos olhos. Ainda hoje não hesito em dizê-lo, foi aquele um dos mais amargos momentos da minha vida. Nós, quando adultos, esquecemos facilmente os martírios da infância, quando nesta idade uma sensibilidade exagerada tão dolorosos os faz. Foi então que se deu um facto que, na minha piedosa superstição de rapaz aldeão, quase me pareceu de intervenção divina.

Abriu-se a porta, e entrou na sala uma criança, que eu não tinha ainda visto. Era uma menina pálida, de gesto afável e angélico. Vestia tôda de branco. Entrou e aproximou-se do conselheiro, que jogava com uns amigo?, O conselheiro, depois de beijá-la, não sei que lhe disse ao ouvido. Ela correu então a sala com a vista; viu-me e veio direita a mim.

— Não conhecias já da aldeia Madalena ? — perguntou o ervanário.

— Não; minha mãe veio para aqui no ano em que, por morte da sua, Madalena voltou a Lisboa. A afabilidade, a singeleza desafectada com que me falou, causou-me um alívio inefável. Ainda hoje sinto como que os reflexos daquela suave impressão. Parecia-me ouvir a voz de minha mãe ; tinha o timbre da simpatia. Encheu-se-me logo de coniança o coração. com ela não senti mais aquele acanhamento que me enleava. Depois falava-me de coisas que eu sabia tão bem ! Perguntavame a respeito dos campos, das árvores, das abelhas, dos ninhos dos pássaros, das flores, dos trabalhos do linho... interrogando-me e escuando- me com tanta deferência e atenção, que me inspirava coragem, e julgo que me estava dando ares de mais importância junto daqueles pequenos senhores e senhoras que, pouco a pouco, se foram despoando dos seus desdéns e acabaram por me escutar e interrogar tam- )ém com curiosidade. Já uns me lançavam os braços ao ombro, outros fbrmavam círculo em volta de mim, e cedo fui eu a principal personagem daquela noite. Essa criança...

— Era Madalena ; adivinhá-lo-ia agora, se já o não soubesse. Não jodia deixar de ser ela — exclamou o ervanário, com um fulgor de simpatia a iluminar-lhe o olhar. — Era ela ; sempre assim foi ! — Era. Esta cena pueril teve uma grande influência no meu espírito.

Hoje ainda, se penso nela, acho-a de uma grande significação moral. Pois não é mais apreciável numa criança esta prova de superioridade de carácter, do que nas idades em que muitas vezes a razão e o cálculo a impõem a uma índole naturalmente pouco generosa? Ali era tudo espontaneidade. Desde então a adoro.

O ervanário parecia não ter já ânimo para sorrir.

— Agora vejo por que trouxeste da cidade aquela grande triseza.

Tão novo ! — É verdade. Foi esse o motivo. Madalena foi sempre para mim afável ; inclinava-se sobre o livro em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os defeitos da minha educação aldeã, e, se reconhecia processos no discípulo, manifestava uma alegria que era para mim o maior incentivo e o maior prêmio. Fiz os exames. Quando voltei a casa, Madalena com certo ar de gravidade, que aquela criança já então ornava, perguntou-me, no meio de uma conversa própria de crianças: E sente-se com gênio para ser padre, Augusto?» Já me não lembro do que lhe respondi. Trouxe porém comigo aquela pergunta ; trouxe-a para a solidão da minha aldeia. Procurei cerrar os ouvidos à voz inteior, que desde então ma repetia sempre, até junto da cabeceira de minha mãe, cuja maior aspiração era, como sabe, ver-me padre. Mas m vão ! foi desde então uma dúvida constante com que lutava. com morte de minha mãe tudo mudou. Pela primeira vez respondi à interrogação, que havia tanto tempo dirigia a mim próprio, e consegui por fim responder: «Não». Eis o segredo do meu passado.

— E porque disseste « Não » ? — Porque vi que tôda a minha vida era para a consagrar a um sonho ; que o sonharia no altar, no púlpito e no confessionário ; que para toda a parte me seguiria a imagem, a que eu já não podia renunciar, e a qual então já não contemplaria sem remorsos, como agora o faço. Foi por isto.

— Só? Não te iludirás a ti mesmo, Augusto? Repara bem, que nisto pode ir a tua felicidade ! Estás bem certo de que não há uma esperança dentro do teu coração? — Se a tivesse ..

Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de passos na rua.

Cedo batiam na porta duas leves pancadas, e uma voz dizia de fora: — Está acordado ainda, tio Vicente O ervanário trocou um olhar com Augusto. A voz era de Madalena.

Augusto ergueu-se com presteza. O ervanário quis retê-lo.

— Onde vais ? — Deixe-me sair. Não poderia vê-la agora. Não estou preparado com a minha indiferença.

— Pobre máscara ! — Nesse caso sai pelo quintal.

— Tio Vicente ! — repetiu Madalena de fora.

— Eu vou, minha ave nocturna ; eu vou já. Espera — continuou em voz baixa para Augusto : — dá-me a tua palavra que não escutarás.

— Dou; mas .. promete que nada lhe dirá? — Eu?!... Louco! Assim te pudesse fazer esquecer, quanto mais ..

Adeus ! Depois de assegurar-se de que Augusto saíra pelo lado do quintal, o ervanário foi abrir a porta da rua à morgadinha.

XVI ORA com Deus venha a minha fada ; esta querida Lena, que se não esquece dos seus amigos velhos... Boas festas me trazes pela noite, filha! No rosto e nas maneiras de Madalena havia evidentes indícios de preocupação.

— Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar; eu venho...

O ervanário conduziu-a para junto da mesa, onde estavam ainda os sinais da refeição, que havia pouco findara. Vendo os dois talheres, a morgadinha olhou interrogadoramente para Vicente: — Estava alguém consigo ? — Esteve Augusto, que ceou aqui. Porquê ? Temos por aí mais alguns livros a comprar-lhe ? — continuou, sorrindo, com benèvola malícia. — Tenho eu mais uma vez de chamar em meu auxílio a fada que, de vez em quando, me ensina em segredo quais os livros que o rapaz mais deseja e de que eu mal sei dizer os nomes? Hei-de ainda ouvir calado agradecimentos, que não mereço, e que ele mais de coração daria, a quem são de justiça devidos? — Não, tio Vicente ; não se trata agora disso.

— Ai, Lena, Lena, que nao sei bem o que devo pensar de tôdas estas coisas.

A morgadinha parecia um pouco perturbada com as palavras do ervanário.

— Que há-de pensar ? Há nada mais natural ? Ângelo foi que me eu o exemplo. Ele sabia o amor que Augusto tem à leitura. Porém cofre de Ângelo é pequenino, bem sabe; enquanto que eu chego a em saber em que hei-de consumir o que me sobra. Por isso foi que me lembrei... porém como não conviria que eu própria fizesse o presente, nem ele de mim o aceitaria, é que eu lhe pedi que o fizesse em seu nome. Mas falemos de outra coisa, porque me não posso demorar.

Venho às ocultas e enquanto a minha gente foi à missa do galo. Tio Vicente, um objecto muito grave me obrigou a procurá-lo a estas horas.

— Ah ! — disse o velho, sentando-se em tom de gracejo. — Adivinho a gravidade do caso. O filhito do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem algum princípio de sarampo ou de garrotilho, e vens...

— Não, não. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor a esta casa e a este quintal? O velho tornou-se imediatamente sério.

— Se lhe tenho amor ? ! Que pergunta I — Tem? — Nasci aqui, filha.

— Custar-lhe-ia a...

— A quê? — A... a...

E Madalena hesitava.

— Fala ! — insistiu o velho, já inquieto.

— A separar-se dela? O ervanário respondeu simples.

— Ah ! morreria.

Madalena fez um gesto de aflição.

Em Vicente crescia o desassossego.

— Mas... Diz, Madalena; o que significam essas palavras? — É que...

— Explica-te ! — exclamou o ervanário, quase imperiosamente.

— Oiça-me, tio Vicente ; oiça-me, mas não se aflija. Eu vim de propósito para o prevenir. Mas, por amor de Deus, sossegue.; senão tira-me o ânimo de continuar.

— Que sossegue, e tu a atormentares-me com essas demoras.

— Perdoe... Fala-se em deitar abaixo estas árvores e esta casa, p a r a . . .

O ervanário de um ímpeto pôs-se a pé. Fulgurou-lhe nos olhos um relâmpago de ira terrível.

Madalena calou-se, assustada.

— Deitar abaixo estas árvores e esta casa?! Quem?... Quem se atreve ? Pois que venham ! que venham ! Mas reparando no terror que estava causando a Madalena, procurou reprimir-se, e com uma voz que ele se esforçava por tornar tranquila, continuou : — Mas vejamos. Então querem, dizes tu... Fala, Lena, fala... Diz o que sabes. Quem é?... Para que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala, bem vês que eu estou sossegado, filha, — Há um projecto de estrada...

— Ah ! — disse Vicente, com um grito de raiva. — Não digas mais. Já sei — continuou com renascente exaltação. — Já sei. Adivinho o resto. É teu pai que o determina; é teu pai que o resolveu? Madalena baixou a cabeça com dolorosa expressão.

O furor do velho exaltou-se outra vez.

— Teu pai ! Teu pai, Lena ! Então esse homem jurou matar-me ? — Tio Vicente! — Ele não sabe o que sao para mim estas árvores e estas paredes ? Ele não sabe que a minha alma está nelas, presa a estas raízes? que com elas se despedaçará? Esse homem sem coração não vê que são estas as minhas afeições, as únicas? a minha única família? Ele, o companheiro dos meus primeiros anos ! que, como eu, aí brincou, à sombra dessas mesmas árvores e sob os olhares de meu pai, que também o abençoava, tão duro de coração se fez que, sem respeito por estas memórias todas, assim me quer separar do que me dá vida, do que ainda me prende ao mundo? E é teu pai este homem, Lena? — Por quem é, tio Vicente; oiça-me. Deixe-me dizer-lhe ao que vim, que talvez tudo se remedeie ainda.

— Sim, sim; tudo se remediará... com a minha morte. Talvez que ela seja útil a teu pai... Talvez precise dela.

— Oh ! não creia, não creia.

— É duas vezes doloroso o golpe ; porque me separa do que amo deveras e por vir da mão de quem vem. Eu era amigo de teu pai, Lena. Acredita que o era... ainda. Conheci-o tão generoso e tão inocente, como teu irmão Ângelo. Muitas vezes me entusiasmei ao ouvi-lo falar dos seus projectos. E acreditei nele. Tinha então no olhar um fogo, que não mentia. Vi-o seguir a carreira pública e acompanhei-o com a minha fé. Não tardaram os primeiros desenganos ; não lhes quis dar crédito ao princípio. Vieram outros e outros. Fui vendo então que os maus ares daquela terra tinham embaçado o brilho do carácter, que eu julguei melhor do que os outros. Mas o pior dos desenganos estava-me reservado ainda. Para teu pai hoje os homens são medidos pelos votos que podem lançar na urna eleitoral! — Por amor de Deus, tio Vicente, não fale assim! Não duvide de meu pai ! — exclamou Madalena, a quem cruelmente estavam afligindo as recriminações amargas do ervanário. — Meu pai estima-o e respeita-o. Não tem o coração endurecido que diz. Ele mesmo amanhã aqui há-de vir. Verá então...

— Ele? Amanhã?...

— Para isso venho preveni-lo. Não o receba com asperezas, tio Vicente ; fale-lhe com brandura. Talvez o comova, talvez seja ainda possível valer a tudo. Ainda não está decidido... Julgo... E que estivesse ...

— Amanhã ! Teu pai vem aqui amanhã ? E ousa vir ele próprio anunciar-me o que sabe que vai ser uma sentença de morte? — Não ; ele ignora o mal que isto lhe causa, creia. Sabendo-o, verá como...

— Teu pai conhece-me, Madalena. Teu pai conhece-me, e há muito. Não julgues que pode errar, calculando o efeito deste golpe.

Mas que queres tu? ensinaram-lhe já a avaliar em pouco as vénetas de um velho quase tonto. Homens que trazem o pensamento em interesses tão altos, não têm vista para estas pequenas desgraças.

Madalena sentia-se possuir de uma profunda tristeza, ao ouvir falar o ervanário. Era uma dolorosa provação para o seu amor de filha ver assim uma nuvem de desconfiança ofuscar a ideal concepção que ela formara do pai, e não ter forças para a afugentar. As vezes uma dúvida cruel fazia-lhe, a seu pesar, supor que o ervanário tinha razão.

Agora só conseguia opor um gesto suplicante àquelas acerbas acusações, que por muito tempo ainda desatenderam esta súplica muda.

Afinal serenou a violência da irritação do velho ; sucedeu-lhe, porém, uma comoção profunda, dominado por a qual disse a Madalena: — Sossega, Lena ; amanhã eu receberei teu pai sem a menor aspereza. Fizeste bem em vir primeiro, filha. Se o não esperasse, talvez não soubesse conter-me. Agradecido. uma noite é bastante para me preparar. Agora vai, deixa-me só; deixa-me... chorar.

E cobrindo o rosto com as mãos, deixou-se cair, soluçando, sobre a mesa, junto da qual se achava.

Madalena correu para ele, comovida.

— Então, tio Vicente, então! Sossegue! Amanhã meu pai virá.

Fale-lhe, e eu espero que ainda será tempo de evitar .. o mal.

— Pode ser, pode ser... —respondia o velho. — E se não puder, Deus me acudirá, para não viver por muito tempo fora da casa em que nasci.

Madalena já não tinha que lhe dizer.

— Eu pedirei também, e Cristina, e todos pediremos, como |á pedimos. Tenho esperança.

— Não, filha, não peças tu. Deixa-me só com teu pai amanhã.

Disseste que tinhas vindo sem ninguém saber? — continuou ele.— Olha que te não dêem pela falta. Vai, que é tempo.

— Mas...

— Vai, filha. Eu estou já tranquilo. Bem vês. Deus te recompense a bondade que tiveste. Vai. Queres que te acompanhe? — Não é preciso. Vim pela porta das presas, que deixei aberta.

São dois passos e estou na quinta. Mas, tio Vicente...

— Vai então; e Deus te abençoe.

E o velho pousou a mão sobre a cabeça de Madalena, que saiu comovida.

E ele caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.

É sombria a saudade naquelas idades, porque as esperanças são já muito débeis para lhe darem luz.

Saindo de casa do ervanário, perturbada ainda pelos sentimentos que ali a tinham agitado, a morgadinha dirigiu-se à pressa para a porta da quinta por onde saíra. Ao impeli-la para entrar, a porta resistiu.

Este facto surpreendeu e inquietou um pouco Madalena. Quem poderia ter fechado a porta? E se efectivamente estava fechada, tornava-se- -Ihe necessário um longo rodeio pela aldeia para chegar a outra que pudesse encontrar aberta.

Nesta hesitação impeliu outra vez instintivamente a porta, que lhe opôs a mesma resistência.

Cedo, porém, sentiu o rodar da chave na fechadura e viu mover-se lentamente a porta, e no vão, que aumentava, desenhar-se uma figura de homem.

Antes que pudesse, através da obscuridade da noite, reconhecer a pessoa, que assim tão a propósito lhe acudia, deram-lha a conhecer estas palavras: — Muito boas noites, prima Madalena. Espero que pelo menos me concederá licença para exercer, junto de si, as humildes funções de porteiro.

Era Henrique de Souselas.

Madalena não foi superior a um vago sentimento de receio, ao encontrar-se aí com o hóspede de Alvapenha ; contudo esforçou-se por dominar-se e respondeu, com aparente presença de espírito: — Ah ! É o primo Henrique. Muito boas noites. Aí temos um requinte de galantaria que eu estava muito longe de esperar.

— E de desejar, não ? — E de desejar também, confesso-o. Por mais diligente que seja um porteiro, nunca o é tanto como uma porta aberta.

— Mas é mais discreto.

— Duvido. Em todo o caso, agradeço o incômodo.

E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem mais explicações.

— uma palavra, prima Madalena — disse Henrique, retendo-a por o braço e com certa expressão nas palavras e no gesto, que redobrou o sobressalto da morgadinha. — Não há mais acomodado terreno para um diálogo solene do que o limiar de uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o homem muda de máscara ; depõe a que apresenta na sociedade e afivela a que traz na família, e vice-versa. Ora nessas mudanças é fácil surpreender o verdadeiro rosto da pessoa.

— Será tudo o que quiser o limiar de uma porta, primo ; menos um lugar muito confortável para serões numa noite de Dezembro.

E Madalena tentou de novo seguir para diante.

Henrique susteve-a outra vez.

— Um momento só, prima Madalena; tenho necessidade de saber se me quer para aliado ou para inimigo.

.— Não vejo a necessidade da aliança que propõe, nem as razões para a luta.

— Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presença aqui foi um desagradável contratempo. uma certa altivez e consciência de invulnerabilidade, de que tinha o incômodo de se revestir, sempre que tratava comigo, depois desta importuna ocorrência terá de se modificar.

— Não havia dado por essa... revestidura que diz; mas, se ela existiu, far-me-á o favor de dizer: porque não pode continuar? — Essa é boa ! porque eu faço a justiça à prima de supor que não vai tão longe a sua hipocrisia.

— Hipocrisia ! — disse Madalena, com acento mais severo.

— Perdão; não tive tempo para inventar outro termo mais...

brando. Dissimulação talvez lhe agrade mais. Seja dissimulação. Mas depois do ocorrido...

— Agora exijo eu que se explique, senhor.

— Ora vamos. Seja razoável. Poder-me-á dar uma explicação...

edificante... desta sua excursão nocturna? — Obsta apenas a que eu lha dê, Sr. Henrique de Souselas, a falta de uma pequena formalidade : a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.

— Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha idéia. A prima é uma mulher admirável, uma mulher superior, educada na alta escola de uma sociedade distinta, sobranceira por isso a pieguices provincianas.

Tanto mais me encanta ! E creia que me envergonho só ao lembrar- me do que terá pensado de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões de fé, tão cheias de franqueza e de candura. Devo ter-lhe parecido bem ridículo, não é verdade? — Agora é que me está parecendo bem enigmático, — Sim ? Nesse caso eu me decifro. A prima não ignora que eu a amo.

— Pois ignorava ! — atalhou Madalena, com ironia.

— E sabe decerto, por experiência do mundo, que para homens como eu, a indiferença, a frieza e os desdéns redobram o ardor da paixão.

— Sim ; já li isso num romance.

— A prima tem sido para comigo de uma crueldade rovoltante, mas pouco sincera. Eu resignava-me a sofrer, porque um resto de ingenuidade que me ficou dos quinze anos, iludia-me na interpretação de tais resistências. Tive a puerilidade de a supor uma mulher de excepção; pouco me faltou para a divinizar. Estava reservado para esta memorável noite de Natal o desengano.

— Ah! então parece-lhe...

— Que a prima representa admiràvelmente o seu papel. Pode gabar-se de ter iludido um homem habituado às cenas da comédia social.

Madalena respondeu, com um tom de voz cheio de severidade e de nobreza: — Tenho-o estado a escutar, Sr. Henrique de Souselas, sem que eu própria bem saiba o que me retém aqui : se é compaixão que me inspira a profunda doença moral em que o vejo tomado, se a curiosidade de saber a que tendem todos esses arrazoados. Vejo-o inclinado a imaginar que por um facto, que a sua pouca delicada indiscrição preparou, eu ficarei de hoje em diante à mercê da sua generosidade.

Conhece-me muito pouco, Sr. Henrique ! Ainda quando esse facto não pudesse ter uma explicação natural, e que me não repugnará declarar quando quiser, saiba que tenho orgulho de mais para arrostar com tudo, até com a calúnia, de preferência a resignar-me ao menor predomínio que me seja odioso.

— Bravo ! — Saiba mais, Sr. Henrique de Souselas, que se eu não lhe fizesse a justiça de acreditar que desses seus actos e palavras não é absolutamente irresponsável talvez a má influência da ceia desta noite, bastariam eles para me inspirarem por si e pelo seu carácter o mais completo desprezo; e então seria, como nunca, manifesta a minha independência, porque eu nunca temi os seres que desprezo.

Henrique principiava a ser de novo subjugado pelo tom de severidade e de energia, com que a morgadinha lhe falava ; ainda assim um resto de cepticismo obrigou-o a replicar: — Santo Deus ! prima Madalena ; não dê um colorido tão pavoroso às minhas suposições. Despojá-la de uma crueza desumana, para a dotar de uma sensibilidade, verdadeiramente feminil, é uma justiça feita ao seu coração. E o facto que o acaso me revelou a nada mais me autoriza. O pequeno e natural despeito por me haver deixado iludir desvaneceu-se já, creia ; e agora só me resta invejar a sorte de quem tem a felicidade...

— Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem mais um instante o escutarei ; poupar-lhe-ei assim os remorsos que amanhã teria da sua infâmia...

E animada por uma resolução mais enérgica, Madalena caminhou soberanamente para a porta.

Henrique colocou-se-lhe outra vez diante.

— Um momento mais.

— Deixe-me passar, senhor.

— Não, sem que me oiça antes.

— É uma violência ? — É uma súplica.

Neste momento saiu da obscuridade da rua fronteira um vulto que avançou para eles.

— Sr.* D. Madalena, se for preciso reter o insolente, que se lhe atravessa no caminho, ponho um braço à sua disposição.

E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio colocar-se entre Henrique e Madalena.

Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu de cólera.

O olhar que fixou no recém-chegado traiu a veemência da impressão recebida. Depois sucedeu-se-lhe no espirito outra ordem de idéias.

Olhou para Madalena, em quem não era menor a surpresa causada pela inesperada presença de Augusto, olhou outra vez para este e soltou uma risada cheia de malignidade e de_ ironia, que a ambos fez estremecer.

— Aí está uma aparição tanto a tempo, prima Madalena, que aos mais incrédulos infundiria fé na intervenção da Providência. Que foi sem dúvida providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas horas mortas, um tão generoso e intrépido salvador. Não é verdade, prima? O que vale estar de bem com Deus.

Estas palavras mostraram a Augusto que a sua intervenção, ainda que generosa e devida a um espontâneo impulso da alma, não fora porventura das mais convenientes.

— Senhor! — exclamou ele, indignado, dando um passo para Henrique.

— Sossegue — tornou este, com dobrado sarcasmo. — O senhor é um perfeito herói de romance ; entusiasta, cavalheiresco, mas, em certas ocasiões, incômodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse o transtorno que veio causar a um belo diálogo que eu sustentava aqui com a Sr.* D. Madalena! Não vê como a deixou embaraçada? Perdeu com a sua vinda o fio da comédia, que desempenhava com perfeita ciência de actriz. As almas ingênuas e generosas, como a sua, Sr. Augusto, são às vezes de uma impertinencia! Vamos, Sr." D. Madalena; não descoroçoe. Assim esgotou todos os recursos da sua imaginação? Vamos, introduza mais este elemento de aparição de um herói no enredo, e organize a comédia com o superior talento que tem! Eu por mim aceito todos os papéis que me distribuir.

Augusto ia responder, quando Madalena o atalhou dizendo com voz firme : — Perdão ; vejo nesta noite em todos uma notável disposição para usurparem direitos que não possuem! O Sr. Henrique o de me interrogar; o Sr. Augusto, o de me defender. A um repetirei o que já há pouco lhe disse ; se algum dia tiver necessidade de explicar as minhas acções, fá-lo-ei diante de outros juízes, em quem reconheço o direito de o serem. Ao outro peço licença para lhe lembrar que, se o titulo de hóspede e de parente não fosse bastante para me assegurar da parte do Sr. Henrique de Souselas os respeitos que me são devidos, tinha ainda na minha família defensores legítimos e não seria por isso obrigada a recorrer à protecção de um estranho. Meus senhores...

E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha passou por entre eles e entrou para a quinta, sem que nenhum a procurasse reter.

— Se esta senhora aceitasse a sua protecção e eu teimasse naquilo que chamou a minha insolencia, qual seria, pouco mais ou menos, o seu procedimento? Poder-se-á saber? — perguntou Henrique, logo que a morgadinha desapareceu.

Augusto, em quem a fria altivez da resposta dela deixara o desespero no coração, respondeu acerbamente : — Procuraria ensiná-lo a ser cortês. Bem ve que não me esqueço facilmente do meu programa de mestre-escola.

— Vejo ; é a segunda tentativa de lição que lhe mereço. Permite- me que amanhã o procure para dar princípio a um curso de educação mais regular? Augusto respondeu, sorrindo : — É um cartel em forma ? Não sei se estarei ensaiado para essa comédia.

— Se o género trágico lhe agrada mais, dar-se-lhe-á esse sabor.

— Bem ouviu que se me negou o direito de tomar partido por esta causa. Qualquer cena dessas entre nós seria pouco delicada...

amanhã.

— Pois bem, contemporizemos ; e até lá é de esperar que algum motivo ocorra que a explique melhor... aos olhos dos outros.

— como queira ; a minha porta não se fecha a quem me procura.

E separaram-se depois de se cortejarem.

— Se me não engano — dizia consigo Henrique, em caminho do quarto — é um verdadeiro desafio o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me parecer que estou sendo bem ridículo, desafiando um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela férula. Tem graça! Veremos o que amanhã, à luz do dia, eu penso disto tudo. Eu já não fico por mim esta noite. Estou a querer convencer- me de que tenho andado estouvadamente e com não demasiado cavalheirismo. Que diabo ! É que esta mulher e este criancelho são irritantes. Ela com a sua altivez, ele com os seus brios. Mas, na verdade, será este o Endimíão desta esquiva Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingènuo e tímido .. A ociosidade da aldeia para alguma coisa há-de dar. Mas da maneira por que ela lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... O que é certo é que estou em luta com uma mulher superior... Pois lutemos, priminha, mas com armas leais.

Não me prevalecerei do segredo que o acaso me revelou, se segredo existe... Veremos como ela amanhã me trata...

Esta cena deixou em Augusto uma perturbação de espírito mais profunda.

As operações mentais, que o preocuparam toda a noite, eram daquelas a que repugna chamar pensar. É mais uma febre intelectual, um suceder de imagens sem ordem nem filiação, que não conduz a nenhum resultado, que não aconselha nenhum partido, que não esclarece, ofusca.

como se explica esta diferença entre os dois? Por um aparente paradoxo; porque Augusto tinha mais hábitos de refletir. Quando numa vida de episódios uniformes e aparentemente vulgares, o espírito exerce demasiado a análise, habitua-se a estudar factos que para outros passam por insignificantes, e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.

Costumado assim a ligar valor a tudo, quando sucede que no decurso da vida se lhe depara um facto de maior vulto, a confusão do primeiro momento é inevitável. Assim como a balança de precisão, apropriada para oscilar com pesos tenuissimos, não é a que pode servir para os grandes pesos, também a inteligência costumada a pesar subtis acidentes, de que se compõe o drama habitual da vida, não é a que de súbito pode avaliar algum mais complexo e importante.

A resolução nestes espíritos, depois de formada, é mais tenaz; mas, enquanto se não forma, vai neles um tumulto de idéias que se não podem analisar.

Não analisemos, pois, as de Augusto.

Madalena não sossegou enquanto não viu Henrique voltar ao quarto, pelo mesmo caminho por onde saíra.

— Que resultará disto? — pensava ela. — Que fará ele amanhã?....

E preciso não me acobardar, ou estou vencida... Mas que se passaria depois que os deixei?... Veremos amanhã.

No meio desta série de pensamentos, Madalena sorriu.

É que lhe ocorrera então este pensamento : — Dizem que nós, as mulheres, temos filtros subtis para nos tornar amadas. Pois será mais difícil fazer-se aborrecida? como o conseguirei? XVII N A O havia mentido a grande cintilação das estrelas na noite de Natal.

A manhã do dia seguinte correspondeu ao augùrio meteorológico, rompendo pura, desnevoada, com um céu azul sem manchas, e um sol de fundir os gelos dos montes e os gelos da velhice.

O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos, saltavam sebes e cancelos, desembocavam das azinhagas e quelhas na direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da Natividade.

Era dia santo entre os que mais o são ; e os dias santos na aldeia têm uma feição solene e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a vida nos apertados horizontes das cidades, fantasiando o campo por meia dúzia de pardais, que chilram ruidosamente nas copas das enfezadas árvores das nossas praças e jardins.

Desde que a moda estabeleceu a lei de não solenizar o domingo nem o dia santo, com um vestuário mais asseado, com um prato mais esquisito na lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar nesses dias, exactamente como em todos os da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feição típica e interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quiser apreciar tem de ir num sábado pernoitar ao campo, para amanhecer no domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal.

Dirá então se não parece que até o Sol tem outra luz e que as árvores e as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os dias de festa.

Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manhã sentindo Henrique de Souselas, encostado à varanda do quarto em que pernoitara, e enquanto esperava que o chamassem para o almoço.

De vez em quando a recordação das cenas nocturnas da véspera desviava-lhe para outra ordem de reflexões o pensamento ; acudiam- -lhe todos aqueles incidentes à memória, mas vagos e confusos, como se tivessem sido sonhados ; chegava quase a duvidar da realidade deles.

Agora estava experimentando certa curiosidade e também receio de saber como seria recebido pela morgadinha, e que posição deveria tomar na presença dela.

Formava a este respeito várias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.

Destas cogitações veio por fim arrancá-lo o toque da campainha anunciando o almoço.

— Vamos — disse Henrique — preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos a vista para num relance julgar do estado das coisas, e por ele regular o meu plano de táctica.

E depois de uma rápida consulta ao toucador, desceu para a sala do almoço.

Já ali encontrou reunida tôda a família do Mosteiro, e a morgadinha presidindo à mesa e preparando o chá.

Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que ele tinha passado a noite.

Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente ; e, falando, desviava o olhar para Madalena, que a encontrou do modo mais natural, sem timidez nem audácia.

Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de cumprimentar Madalena.

— Bons dias, prima Madalena — disse Henrique, estendendo a e fixando-a com olhar investigador.

Madalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada de afectado nem de constrangido: — Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos.

nossos hábitos matinais. Foi uma indiscrição mandar tocar a cama.

Esqueci-me de prevenir que respeitassem a índole cidadã.

— Eu é que não consentia : — disse o conselheiro — na aldeia na aldeia. Em Lisboa também as minhas alvoradas são mais — Tem razão, sr. conselheiro. Eu próprio não esperei que me asse o toque da sineta. Há muito que eu namorava a manhã da janela do meu quarto.

— Eu não pude dormir tôda a santa noite — disse D. Doroteia.

— Estranhei a cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!...

— Ó prima, não vá sem resposta — disse D. Vitória — que também eu não pus olho, e mais sou de casa. E por sinal que sempre hei-de querer saber quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade ; o primo Henrique não ouviu ? Era mesmo junto do seu quarto.

— Não, minha senhora; eu não senti rumor.

E, dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que justamente naquela ocasião lhe servia uma chávena de chá, e que de novo o fixou sem perturbação nem afectada indiferença.

Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava um pouco à sua vaidade este nenhum vestígio de ressentimento ou de receio que encontrava em Madalena.

No entretanto D. Vitória continuava a comentar com D. Doroteia o facto das passadas que ouvira de noite.

— Deixe-se disso, prima. É porque não sabe o que vai. São coisas destes criados. Não faz idéia ! É uma pouca-vergonha ! É preciso paciência de santa para os aturar.

— Ângelo — disse a morgadinha ao irmão — entretido como estás a conversar com as crianças, esqueces-te de servir a Criste, que também se esquece de se fazer lembrar. Que distracções por aqui vão ! Ângelo reparou para a prima, que em todo aquele tempo estiverà calada e caída em uma daquelas abstracções, a que ultimamente era sujeita.

— Eu não sei que tem hoje esta Criste — disse Angelo. — Julgo que lhe fez mal o frio da noite de ontem.

— É verdade, até está falta de cor ! Ora queira Deus que não seja coisa de cuidado. Dói-te alguma coisa, menina ? — perguntou D. Vitória, — Não, mama — respondeu Cristina.

— Ó meninas, vocês também são umas desacauteladas. Eu bem te dizia ontem, Criste, que levasses mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é não tem dúvida, e depois é que vem o queixarem-se.

Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais neste sentido. Estas reflexões fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era objecto delas.

Cristina estava efectivamente pálida e pensativa ; e desta cor e desta expressão recebia uns ares de poesia melancólica, que a tornavam mais graciosa.

Henrique notou pela primeira vez a beleza desta criança, em que mal fixara a atenção até ali, e pela primeira vez se demorou a observá-la com alguma insistência.

— Ê interessante esta pequenita — pensava ele consigo.

Cristina ia a levantar os olhos para responder a D. Doroteia, quando encontrou os de Henrique a fitá-la. Assomou-lhe então às faces um mal pronunciado rubor, a palavra resolveu-se num sorriso e os olhos baixaram-se de novo.

— Há-de ser adorável esta mulher — pensou desta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.

O conselheiro disse, sorrindo : — Ora, que estão a dizer ? A Criste até está com umas cores muito bonitas. Triste? Melancolías dos dezoito anos nunca me deram cuidados.

Provavelmente está agora nalgum episódio sentimental no romance da sua imaginação. Nao sondemos aqueles mistérios, mana. Já não é para nós compreendê-los, prima Doroteia.

Todos riram do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Cristina.

A morgadinha, a quem nao passara despercebida a impressão que a prima desta vez parecia ter causado a Henrique, quis aproveitar o ensejo que havia tanto procurava, e para isso propôs que se desse uma volta pela aldeia antes da missa do dia. Esperava ela que as atenções de Henrique, durante o passeio, seriam para Cristina se não decorresse o tempo preciso para que se dissipasse no espírito do volúvel rapaz a impressão que o dominava.

A manhã convidava à excursão campestre. A proposta da morgadinha foi acolhida com aplauso. O conselheiro prometeu acompanhá- los até à casa do ervanário, a quem tinha de visitar aquela manhã.

Levantaram-se todos da mesa, e à excepção de D. Vitória e D. Doroteia, todos saíram.

A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atrás para dar tempo a Henrique de oferecer o braço a Cristina, o que efectivamente aconteceu.

— Bem — disse Madalena consigo ao vê-los — agora que os anjos bons de um e de outro se convençam da obra meritoria que fazem entendendo-se.

E, aproximándose do pai, Madalena apoiou-se-lhe no braço.

Ângelo ia com as crianças adiante.

Aproximemo-nos nós de Henrique e de Cristina, para ver se os anjos bons deles ambos acederam ao convite de Madalena.

— Não há prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos, numa manhã como a de hoje, e em companhia tão amável — dizia Henrique, procurando aquilatar o espírito da sua partner, num certame de galantaria, fora do qual não concebia que se pudesse temperar uma paixão.

Pobre rapariga! Que eloqüentes e apaixonadas respostas lhe estava porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava- -lhe os lábios, não lhe deixando formulá-las; apenas pôde responder: — Está muito agradável a manhã, está ; nem parece de Inverno ! — Pelo que vejo, não gosta do Inverno ? É natural em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as aves, suas irmãs. Eu prefiro o Inverno, porque prepara a vida íntima, as cenas ao canto do fogão, as leituras em comum, e traz-me à idéia as imagens de um viver a que a fantasia de todos sorri ; de todos os que têm um resto de coração ; refiro-me as imagens de uma família.

Não há quem sustente mais tremendas lutas do que os tímidos.

A alma revolta-se neles, com toda a violência dos seus instintos, contra não sei que mistério de temperamento, que lhes reprime as expansões.

Na aparência é fraqueza e serenidade, mas no íntimo há esforços realizados, que os fortes nem concebem sequer.

Cristina encobria no seu enleio uma destas lutas. Os lábios só puderam responder: — Na cidade o Inverno é mais fácil de passar, julgo eu ; porém na aldeia...

— Na aldeia e em tôda a parte se pode gozar a felicidade que eu imagino. Não é fora das portas de casa que devemos procurar os elementos para instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima há-de estar admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e sete anos sem família. Não é verdade? Cristina só pôde sorrir: — Mas que quer? Quem muito idealiza arrisca-se a morrer apaixonado do ideal e abraçado à pior das realidades. É a conseqüência legítima e triste do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado na vida mulheres formosas, amáveis, interessantes ; porém nenhuma que satisfizesse às necessidades do meu coração, de quem me afirmasse a consciência poder esperar a realização do meu sonho. Perdoe-me falar-lhe nisto, priminha ; é uma ousadia que tomei, porque um instinto me disse que possui no coração bastante bondade para ma perdoar.

— Está a gracejar ? — disse Cristina, em quem redobrava a turbação, e que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava ver interrompida a sua felicidade : contradições próprias dos tímidos.

— A prima é muito moça — continuou Henrique, que não desesperava aínda de animar esta Galateia — e talvez por isso lhe causará estranheza este meu modo de falar. Um dia virá, porém, em que o compreenderá melhor. Se então encontrar um desconfortado como eu, peço-lhe que tenha misericórdia dele e o salve do desalento, em atenção a quem a conheceu numa época, em que só podia ver em si, priminha, a aurora de uma esperança que já não tinha de luzir para ele.

— Mas... salvá-lo!... como salvá-lo?!...

— como as mulheres salvam ; amando.

— Bem digo eu que está a gracejar — balbuciou Cristina, com voz trémula.

— Tem o defeito da inocência — disse Henrique para si. — Não se lhe tira uma resposta de jeito.

Nisto chegaram defronte da porta, por onde Madalena tinha saído da quinta na noite passada.

— Agora deixo-os por aqui — disse o conselheiro — irei encontrá- los à igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao próprio covil.

— Meu pai, lembre-se do que lhe recomendei — disse Madalena.

— Sossega, filha ; serei de cera. Até logo.

— Até logo.

E o conselheiro tomou a direcção da casa do ervanário.

— Era tempo ! — disse Henrique consigo. — A minha eloqüência arrefecia na proximidade deste gelo.

A morgadinha havia quase adivinhado tudo ; estudando as fisionomias de Cristina e de Henrique, conheceu que se não haviam entendido.

— Ainda não ! — murmurou ela. — Pobre Criste ! como se deve estar odiando a si mesma! como há-de esta criança vencer este obstinado? Mas não perco ainda as esperanças.

Henrique, na presença destes sítios, recordou-se da cena da véspera e tentou outra vez experimentar Madalena.

— Esta porta é da quinta do Mosteiro, não é, prima? — É — respondeu Madalena, imperturbável ; e voltando-se para Angelo : — O que te faz lembrar esta porta, Ângelo? — perguntou ela.

— Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós ambas, já de noite, e sem a tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caça das borboletas.

— Fica perto a casa dele ? — perguntou Henrique.

— É ali, logo ao dobrar daquela esquina — respondeu Angelo.

Henrique pensava: — Seria para provocar uma explicação que ela fez a pergunta ? Esta mulher é admirável! Não lhe sei resistir.

E já lhe não restavam vestígios da impressão causada por Cristina.

— Este ervanário — continuou ele em voz alta — deve, pelos seus hábitos excêntricos e até pelo solitário do sítio em que vive, ter aqui na terra certa famazinha de feiticeiro.

— E tem — afirmou Madalena — mas de feiticeiro bem intencionado.

— Devem correr muitas fábulas a respeito dele, do seu viver.

— É certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o bem que ele faz de dia.

— Ah ! Então temem-se de passar aqui de noite !... Pobre homem !...

O que lhe valerá é algum espírito forte que ainda por aí haja na aldeia.

Que diz, prima Madalena? haverá? Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse : — À excepção de Augusto, que ali vem quase todas as noites, ninguém mais o visita.

— Ah!... O Sr. Augusto vem ali quase todas as noites?! Madalena lutava para reprimir a impaciência.

— Lá me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto não chegava o seu animo, não, prima? — Tanto chega, que já muita vez ali tenho ido só, e a altas horas — respondeu Madalena com a maior firmeza.

— Sim ? ! E não tem medo ? — De quê? De almas do outro mundo? não tenho crença para tanto. De malfeitores? não os há aqui. Nesta terra todos me respeitam, nem com uma suspeita me ofendem — disse a morgadinha, acentuando com expressão as últimas palavras.

Henrique acudiu imediatamente : — Longe de mim duvidá-lo.

E calaram-se por muito tempo.

Pela sua parte prosseguia o conselheiro no caminho para casa do ervanário. Cruzou-se com vários homens, mulheres e crianças de aspecto doentio e sofredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos seus males ; eram mancos, ictéricos, escrofulosos, crianças de aspecto raquítico e enfezado, os mais melancólicos exemplares do infortúnio humano.

— São os peregrinos que vêm de Meça — disse consigo o conselheiro.

- Pelo que vejo, a clientela do meu velho amigo ervanário mantém- se fiel como dantes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor não trata com muito respeito o código.

Entrou enfim a porta do quintal.

Poucos passos andados encontrou-se com o Zé-Pereira, que vinha virando e revirando nas mãos um papel e monologando, segundo o costume : — Oral ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta mexerufada. Isto até era um pecado. Nessa não caio eu! O conselheiro interrogou-o sobre as causas daquele aranzer.

O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe dera o ervanário no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho, causa dos seus males. A receita era extraída da Polianteia, e tinha por ingredientes uma cabeça e sangue de carneiro, cabelos de homem e fígado de enguia ; mas o doente ia pouco disposto a experimentar- lhe a eficácia.

Depois de se separar do Zé-Pereira, o conselheiro seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem a quem era familiar a topografia do quintal. Cedo chegou à vista do ervanário, que dera audiência sub tegmine fagi.

Estava sentado à borda de um tanque, a que uma dessas árvores dava sombra.

O conselheiro saiu enfim de trás dos limoeiros e veio ter com ele.

Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira posição e ficou silencioso.

— Bons dias, Vicente — disse o conselheiro com familiaridade e parando defronte dele.

— Bons dias, Manuel — respondeu o ervanário, deixando-se ficar sentado.

— Saía agora daqui um homem, que julgo será rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que se não cura.

— Os vícios são enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo, são.

— Já que tu não apareces no Mosteiro, como dantes, para solenizar connosco as festas do Natal, vim eu ver-te.

— Obrigado.

— A tua misantropia vai-se azedando, Vicente — continuou o conselheiro, sentando-se à beira do tanque. — Cada vez te estás a sequestrar mais dos homens, cada vez mais os aborreces.

— Eu não aborreço os homens, enganas-te. Não os aborrece quem passa a vida a procurar os meios de aliviar os padecimentos dos seus semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro já no mundo pouca gente com quem me entenda. As idéias do meu tempo passaram. Por isso deixo-me ficar em casa a pensar nele.

— És um homem singular ; um verdadeiro filósofo. Ora diz-me : e em que cogitas tu, quando assim passas uma manhã inteira, sentado nesse banco, com os joelhos ao sol, os braços cruzados, e os olhos no chão? — No passado. Pois não to disse já? O domingo reservo-o eu para me recordar. Aí está que há pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques na igreja, lembrei-me de que era dia de Natal, e o meu pensamento voltou quarenta anos atrás a um dia igual ao de hoje. Lembras-te dele," Manuel? — Do dia de Natal de há quarenta anos ? Não.

— Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois anos que, mais cedo do que estas horas, vieste ter comigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou menos a idade que hoje tem teu filho Ângelo. Meu pai saíra ; julgámos nós ambos boa a ocasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo trazíamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, à beira do poço, uma pequena faia que ali não podia durar muito tempo ; meu pai todos os dias a ameaçava com a enxada e a custo a tínhamos defendido. Resolvemos transplantá-la. Deitámos mãos à obra essa manhã, e, no fim de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemo-la para onde a deixassem em paz os hortelões, e para junto da água que ela já tinha procurado. Conheces a árvore hoje? — Não — disse o conselheiro, olhando em roda, como à procura de algum pequeno arbusto.

— Olha que há quarenta anos; a planta é hoje árvore. É esta a que me encosto.

O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da árvore, como se lhe parecesse impossível ter sido removida para ali por suas mãos.

— É singular como os anos correm, e as árvores crescem depressa — disse ele, distraídamente.

— Depois da nossa tarefa, sentámo-nos — prosseguiu o ervanário.

— Tu ficaste, exactamente como estás agora, à beira deste tanque.

Então, lembra-me bem; olhando para os ramos tenros deste arbusto, que ainda não sabíamos se viveria, tu disseste : « Fizemos uma obra que durará mais do que nós ». E eu respondi : « Quem sabe ? O machado vem quando menos se espera ».

— como te lembras bem dessas coisas ! — disse o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque não agourava bem do exordio que abrira a entrevista.

— Ai, eu tenho boa memória! Houve um momento de silêncio, que Vicente interrompeu sùbitamente, dizendo : — Mas afinal o que te trouxe hoje aqui? O conselheiro respondeu com resolução: — Ver-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.

— Sim? E comigo é que vens tratar os objectos graves? — Porque não ? sempre foste homem de bom conselho.

— Nem sempre, Manuel, ou nem sempre pensaste assim.

— Não poderás dizer que deixasse alguma vez de te respeitar.

Os nossos gênios diferem, os nossos diversos hábitos da vida ensinaram- nos a pensar diversamente a respeito de muitas coisas. Daí procedem divergências naturais, que contudo nos não obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu.

— Bem, então dizias tu que vinhas?...

— Trata-se de um negócio de muita importância, Vicente.

— Diz.

— Responde-me primeiro : tens ainda ânimo para sacrifícios ? — Pouco tenho que sacrificar.

— Tens, e é um sacrifício doloroso.

— Acaba.

— Trata-se de te desapossar desta casa e deste quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto.

O ervanário, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpresa estas palavras, e respondeu, com certa ironia: — E para que me vens consultar? Posso eu opor-me a isso? Avisas-me para eu me arredar a tempo da sombra destas árvores, mais velhas do que eu, a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? Ês generoso, Manuel, em teres ainda em conta a vida de um homem inútil.

— Aí estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu...

— Não mintas, Manuel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte neste projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e diz tudo.

Entre mortificares o coração de um velho e pobre amigo e ofenderes os interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro partido ; e, como os diferentes hábitos de vida te ensinaram em muitas coisas, como dizes, a pensar diferente de mim, não deste a isso o nome de ingratidão.

— Ouve.

— Sê franco, que eu te ouvirei.

— Pois bem, serei franco. Sim, confesso-to; era indispensável que esta estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava nisso empenhada a minha palavra e a minha honra. Há muito que os meus adversários me fazem guerra por causa dela. Trabalhei e consegui, apesar desta situação política me ser contrária. Três traçados se ofereciam. Um sacrificava uma grande parte dos bens de meus filhos, de Ângelo que não é muito rico, que está no princípio da existência, e que só Deus sabe se no decurso dela não teria ocasião de maldizer a improvidencia de quem devera olhar por os seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo, convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querías que o fizesse? ou não me desculpas por o não ter feito? — Fizeste bem — respondeu o ervanário.

— O outro traçado cortava os bens do brasileiro Seabra. Conheces este homem? Um elemento que, nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra ; mas também uma cabeça que, entregue a si, não faz coisa de jeito. O homem opunha-se formalmente a esse traçado ; se o não atendesse, declarava- se, por despeito, no campo contrário ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para lutar), imagina a calamidade que seria para este círculo o confiar àquelas mãos os seus destinos ; vencido, era perder a esperança de tirar dos bens fornecidos cofres, que o homem possui, alguma coisa mais útil do que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos altares. Eu ando a catequizar o homem, para ver se consigo dele uma casa para escolas, melhor do que esse albergue que aí temos, e um estabelecimento sericícola; se o desatendesse, lá iam as esperanças destes melhoramentos tão úteis, e que o mais que nos poderão custar é um diploma de visconde ou uma comenda. Sei que te não agradam estes meios, porém olha que em política são dos mais inocentes que podem empregar-se. Já vês pois que o segundo traçado tinha desvantagens para o círculo, por cujo interesse me empenho deveras ; podes crê-lo. Resta pois o terceiro traçado que, lealmente o confesso, não era o melhor, nem científica nem economicamente considerado ; eu sabia de mais o que valia para o teu coração o sacrifício que se te vinha exigir ; eu mesmo possuo memórias ligadas a estas árvores, e não há homem que, aos cinqüenta anos, veja sem repugnância desaparecerem os vestígios dos seus tempos de infância e de juventude ; mas sabia também que tu eras uma alma generosa e heróica, e que não duvidarias comprar, a custa das tuas dores e saudades, um melhoramento para esta terra que tanto amas. Esta estrada, prometida há tanto, e concedida ainda agora de má vontade, corre risco de se não fazer, se, quanto antes, não principiarem os trabalhos; a menor oposição dos proprietários, o menor embargo dilatòrio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido. Por isso também me animei, porque contava contigo, Vicente. Enganei-me ? O ervanário estava cada vez mais pensativo.

— Pensaste bem. A velhice é assim ; e eu queria dar mais importância a dois anos de vida que me restam, do que à vida nova que vai haver para esta terra. Fizeste bem.

— Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, dissipa as apreensões com que estás; em toda a parte terás árvores...

O ervanário interrompeu-o: — Se não entendes o amor que tenho a estas, não faças por consolar- me, Manuel, porque me afliges mais.

— Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das nossas propriedades, tens sempre um lugar vago à tua espera, tanto à mesa, como ao canto do fogão, e amigos que te receberão com prazer.

— Não receio ficar sem abrigo, Manuel. Em cada choupana de pobre teria tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem que semeei.

— Eu farei com que o contrato da expropriação seja o mais favorável possível. Vejamos, em quanto avalias...

— Não falemos nisso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguém mo pagaria ; a não atender a isso, tudo será pagá-lo bem.

— Mas...

— Não falemos nisso, homem. Tenho medo de que estas árvores me oiçam propor o preço por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, então...

— Tudo. Diz em que te posso servir.

— Peço-te que decidas a pretensão daquele pobre rapaz, de Augusto ; que te lembres um dia de que aqui na aldeia há um homem, que tem vinte anos, um coração e uma cabeça como tu sabes, e que de ti e dos teus, da gente que dá e vende graças, honras e empregos, só quer um favor... mais uma justiça; lembra-te disso.

— Falas do despacho efectivo para professor? É uma coisa facílima; mais que ele queira... E antes ele quisesse mais; esse rapaz perde por modesto. Acredita, às vezes é mais fácil servir os ambiciosos.

Nem eu sei o que tem empatado esse negócio. É certo que há um competidor, por quem alguém trabalha ; mas não importa ; conta com isso, como negócio concluído.

— Enquanto não vir...

— Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que pedes ? Vè lá.

— E que me deixes agora só.

— E não me ficas querendo mal, Vicente ? — Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou pelo menos que supões que a tens. Basta-me isso para te perdoar.

— Ver-te-ei no Mosteiro antes de partir ? Depois do dia de Reis volto a Lisboa, e só tornarei para a campanha eleitoral.

— Não prometo.

— Adeus.

O conselheiro estendeu a mão ao ervanário, que não retirou a sua, e partiu.

— Está feito ! — ia pensando o conselheiro à saída — não foi tão difícil como julgava. Está razoável o homem. Quem o viu e quem o vê ! O que faz a idade ! Bem ! Agora é apressar os trabalhos para antes das eleições, a ver se acalmam algum fermentozito de oposição, que por aí possa haver, que pequeno será.

Nestas cogitações chegou à igreja. Madalena esperava-o no adro, — Então? — perguntou ela, com ansiedade.

— Tudo está remediado ; entendemo-nos perfeitamente — respondeu o conselheiro com manifesta satisfação.

— Deveras ! Eu logo vi que o pai havia de ceder ! — exclamou Madalena, com alegria.

— como ceder? — tornou o pai.—Ele é que foi mais condescendente do que eu esperava. Não opôs a menor resistência, nem se queixou muito amargamente.

— Pois consentiu ? ! — Sem grande custo, ao que parecia.

— Oh meu Deus ! meu Deus ! agora é que eu temo deveras. Pobre tio Vicente ! assusta-me isso que diz, meu pai ! — Ora vamos ; a tua imaginação é que te ilude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o brasileiro, que julgo que têm que me dizer. Vai para a igreja, que eu vou já ter convosco.

E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, era que estavam aquelas duas notabilidades.

— Dou-lhes uma boa nova, meus senhores — disse o conselheiro, depois de cumprimentá-los — dentro em pouco temos os alviões a trabalhar cá na terra. Estive agora com o Vicente ; receei resistências a parte do homem, que nos obrigassem a expropriações judiciais, sempre demoradas. Mas não, achei-o nas melhores disposições ; e sim, dentro em poucos dias...

— Mas, para diante da casa dele, talvez os outros proprietários o sejam tão dóceis — lembrou o brasileiro.

— Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores m pouco se contentam.

— Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco — disse o brasileiro, sorrindo velhacamente — mas os modernos...

— Pois mudaram de senhorio ? — Por contrato de venda assinado e legalizado ontem mesmo.

— E quem os comprou ? — Este seu criado.

O conselheiro teve vontade de o esganar ; conteve-se, porém, dizendo : — Tanto melhor ; quero-me antes com proprietários ilustrados independentes, que compreendam a importância dos melhoramentos públicos, do que...

— Isso são histórias, meu caro amigo; em primeiro lugar estão os melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.

— Decerto que não há-de querer pôr estorvos a uma empresa como esta.

— Estorvos, nao, mas enfim... Amigos, amigos, negócios à parte.

O conselheiro sorriu, enquanto que interiormente mandava ao Diabo o espírito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscípulo.

— Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro ? — requereu do ado o Sr. Joãozinho das Perdizes.

— Mil que pretenda — acudiu o conselheiro ; e tomando o braço o morgado afastou-se do grupo.

— Eu tenho a pedir-lhe um favor — principiou o morgado. — Eu, como sabe, interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, que quer vir ensinar para aqui. Este negócio está empatado, como sabe ; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.

— Pois sim, mas... — fez-lhe notar o conselheiro — não sabe que é Augusto o outro concorrente? — Então que tem isso ? — Não lhe parece que seria uma injustiça ? Um rapaz de merecimento, como ele é, aqui da terra, que já exerce o emprego há três anos e com tanta inteligência? e havíamos de...

— É verdade — atalhou o outro — pois isso é verdade, mas...

Enfim, ele que passe para outra parte.

— Mas se o rapaz quer isto ? — Quer ! quer !... também o outro quer. Ora essa é fresca. E vamos, sr, conselheiro, a gente também não há-de estar só a fazer favores sem os receber quando os pede. com este já sao três. Pedi-lhe para o meu tio abade ser cónego ; foi tanto cónego como eu. Pedi umas caudelarias lá para a freguesia... estou à espera delas.,. Ora isto não se faz. O senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições com a gente da minha freguesia, que vai para onde eu a levo. Pois agora não sei o que será. A não se decidir este negócio depressa...

— Ora não será isso motivo para tanto.

— com certeza que é — insistiu o Sr. Joãozinho. — Então digo- -lhe mais : a mim já me falaram. Há aí alguém que não desgostaria dos votos de que eu disponho, e votar pelos que já estão no poleiro não sei se lhe diga que não é pior.

O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo : — Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relação ao que me diz, eu verei.

— Mau! Não é «eu verei». Então falo-lhe claro. Se daqui até às eleições não estiver feito o despacho, não conte comigo.

— Mas quem lhe diz que não há-de estar ? — Pois lá isso...

— Sossegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.

— Bem.

O sino tocava a chamar para a festa.

Terminou o diálogo.

— O pior — ia pensando o conselheiro — o pior é que prometi ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. Não tem dúvida; é tão magra a posta, que não vale a pena disputá-la. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. É preciso ter ambição por ele. Se ele quisesse ir para Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se maquina no campo contrário ! Hei-de sondar o Tapadas a ver o que sabe.

Estas conferências com o brasileiro e com o morgado tinham mortificado o pai de Madalena a ponto de não conter um movimento de impaciência, assim que viu que o Pertunhas se aproximava dele, e, à força de cortesias e cumprimentos, lhe pedia um momento de atenção, Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o latinista com tanto ardor namorava.

O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente: — Ora adeus ! O senhor é uma sanguessuga que se não farta de chupar. Contente-se com o que tem ; vá conjugando o laudo, laudas, que outros, com mais merecimentos, nem isso conseguem ; e deixe-me, O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestação, e curvou-se para deixar passar o conselheiro.

Mas lá consigo dizia: — Sim? Ele é isso.?! Pois veremos se a sanguessuga te não pica.

E entrou também para a igreja, com não muito cristãs disposições de espírito.

XVIII

DO dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em visitas às freguesias e aos influentes daquele círculo eleitoral, visitas a que o acompanhava Henrique de Souselas, que tomava parte, com gosto, nestas excursões políticas.

Em casa do Sr. Joãozinho das Perdizes, na freguesia de Pinchões, passaram eles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e desmazelo, a cada passo se tropeçava num podengo ou se trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira luta com o proprietário, para esquivar-se a engolir todas as enormes doses de carne de porco e de vinho, com que ele, à viva força, o queria regalar.

No quarto em que os hóspedes pernoitaram estavam amontoados no meio do chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos pés dos leitos dormiam enroscados dois galgos, que eles não conseguiram desalojar, e que tôda a noite os incomodaram com latidos ao menor rumor que escutavam fora.

Henrique lamentou a influência eleitoral do morgado das Perdizes, que o obrigava a esta noitada.

Outro dia jantaram em casa do brasileiro, que lhes mostrou tôda a sua propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloqüência a esgotar- se em afectadas exclamações, diante dos prodígios de mau gosto reunidos ali.

As estátuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana, por onde se entrelaçavam magras trepadeiras ; um pequeno modelo de fragata brasileira com tripulação de altura dos cestos de gávia, flutuando num tanque circular; uma gruta estucada de azul e com assentos de palhinha, para onde vinha 1er as folhas o Sr. Seabra, eram as principais maravilhas do jardim. Nas salas mobília rica, mas vulgar ; litografías coloridas em custosas molduras douradas ; bordados, diplomas de sócio de não sei quantas sociedades brasileiras ; tudo encaixilhado, e no lugar de honra a estampa das capelas do Bom Jesus de Braga. À impertinencia de admirar estas preciosidades acrescia a de ouvir e de ter de achar graça a um papagaio que cantava o hino brasileiro.

Henrique saiu de lá exausto de paciência.

com estas visitas políticas, passou, como dissemos, todo o período das festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa história ocorresse coisa que mereça nota.

Entre Madalena e Henrique mantinha-se a mesma luta moral ; nem um nem outro recordavam declaradamente a cena nocturna, em que tão acerbas palavras se haviam trocado. Augusto não voltara ao Mosteiro dssde então. Era tempo de férias para as crianças, o que fazia natural esta ausência, contra a qual Angelo em vão protestava.

Madalena nunca porém aludia a ela. Cristina passava o tempo, querendo- se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de ciúmes com Madalena, que ria deles e os dissipava com uma palavra.

Chegou enfim o dia de Reis, aquele em que devia realizar-se no pátio do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.

Henrique e D. Doroteia vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para assistir à solenidade popular.

Já por vezes temos ouvido falar neste auto, que prometia ser coisa memoranda nos anais dos festejos públicos da terra. Havia meses que o Sr. Pertunhas esgotava os tesouros da sua ciência dramática a ensaiá-lo, e vimos com antecipação andar Ermelinda decorando a parte da Fama, que lhe competia desempenhar.

Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, são como os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira deixou ficar pelo chão, Não obstante as extravagâncias e as modulações toscas e risíveis de muitos, é certo que nos mostram que a Euterpe rústica tem conservado mais fiel a índole peninsular, do que sua irmã, a civilizada musa das cidades, a cujo paladar já sabem mal as popularíssimas redondilhas, tão apreciadas ainda na Espanha.

Em ocasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro ou pátio de quinta um tablado ; vêm adorná-lo as mais vistosas colchas de chita, das quais também se formam os bastidores; alugam-se nos depósitos mais modestos da cidade ou vila próxima vestidos de reis, de príncipes e de guerreiros, em que se combinam os elementos de épocas e de nacionalidades disparatadas, e perante uma platéia rústica, ao ar livre, como no teatro antigo, desfiam-se em cantada choradeira as sentimentais peripécias da vida de qualquer santo, ou, entre gargalhadas, os episódios cómicos de algum enredo popular.

A circunstância de ser o auto desta vez desempenhado no pátio do Mosteiro, e que fora em parte por deferência ao deputado do círculo, em parte por conveniência dos empresários, pela apropriação do terreno a todos os efeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em tais casos recebiam de S.a Ex.ª, essa circunstância, dizemos, aumentava o número de espectadores.

Das janelas do Mosteiro gozava-se, como de um camarote de frente, do espectáculo popular.

O terreiro era destinado para o povo, em grande parte atraído também pela pipa de vinho, que o conselheiro nestes dias mandava Pôr à disposição dos seus representados.

Desde a véspera havia grande agitação e azáfama no pátio do Mosteiro. Os artífices levantavam o tablado cênico; pregavam e despregavam tábuas ; serravam barrotes ; os directores, e à frente deles o infatigável e imaginoso Pertunhas, davam ordens contraditórias ; e os curiosos estacionavam em magotes, dificultando tudo, censurando o que viam fazer, e aventando alvitres absurdos.

Herodes, o pai de Ermelinda, andava em brasas. Aproximava-se a hora dos seus triunfos. O gênio dramático palpitava nele, cheio de vida e entusiasmo.

Ia mais uma vez pousar nos ombros o manto da realeza judaica; brandir a espada infanticida, carregar aqueles sobrecenhos com que fazia chorar as crianças e estremecer as mães ; ia ressuscitar Herodes, o déspota legendário.

Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tirano e insensìvelmente fazia gestos e esgares prometedores de efeitos cênicos futuros.

Os seus colegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava- os com a sobranceria de um Taima, e muitas vezes lamentava sinceramente a ausência de vocações dramáticas que auxiliassem a dele.

E não sorriam os leitores a esta veleidade artística do recoveiro ; ' ali havia fundamentos para ela. O Cancela era o minério de um trágico, deixem-me assim dizer. No meio de uma escória de rusticidade continha abafado mineral de lei.

Tivessem sido outras as contingências da sua vida, vê-lo-iam porventura arrebatar platéias inteiras com as revelações do gênio, que às vezes num grito, num sorriso, num gesto se manifesta ; mas ainda assim inculto, não mentia nele o verdadeiro entusiasmo, o sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava o gesto no calor do desempenho ; não mentia aquela embriaguez que lhe causavam os aplausos da multidão. Não há verdadeiro gênio artístico que se não namore do público, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O homem, indiferente aos aplausos das turbas, nunca será poeta nem artista de verdadeira inspiração. O amor vivo da glória adiantou a meio caminho os empreendedores desta nova conquista de velocino.

Ermelinda, essa tremia com a comoção de artista nove!, à lembrança do espectáculo, em que pela primeira vez ia entrar.

As senhoras do Mosteiro, ou antes Madalena e Cristina, tinham querido encarregar-se da toilette da Fama.

Logo de manhã fora, pois, a pequena Linda para o Mosteiro, e passava das mãos de Madalena para as de Cristina e das desta para as daquela, e sempre com recato preciso para que ninguém mais lhe pusesse os olhos, pois que pretendiam reservar para a ocasião a surpresa tôda. Contra a curiosidade de Angelo é que mais tiveram que lutar.

Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pátio de espectadores, e os actores a reunirem-se na parte do tablado, oculto por as colchas de chita aos olhares da multidão.

Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da filarmónica, dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa célebre servia também de batuta.

Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava a flauta, e todos prometiam aos ouvidos a mais inarmònica das torturas.

Mestre Pertunhas, distribuídas as partituras, e vendo todos a postos, deu o sinal de principiar.

Um, dois, três ; um, dois — dizia ou fazia ele com os olhos e com os movimentos da cabeça e pés, porque a boca, essa já estava aplicada à embocadura da trompa. O segundo «três» era o tempo fatal.

Os músicos, porém, ou por distraídos, ou por a comoção pròpria dos actos solenes, não corresponderam ao sinal, e a nota furiosa, extraída da trompa do mestre Pertunhas, achou-se só no espaço, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade dos montes vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quase em sangue.

Este sucesso foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas atrás dela, cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de indescritível efeito.

O auditório, o sempre implacável auditório popular, apupava.

Henrique e o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detrás da cortina a ver o que era aquilo. Mestre Pertunhas barafustava por entre os da banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de razão.

uma sinfonia com quatro meses de ensaio ! A falar a verdade ! Ordenadas as coisas rompeu, enfim, a sinfonia.

Os tipos dos artistas, marcialmente uniformizados com fardas que foram de um corpo de infantaria, eram para tentar o lápis de um Cham ou Gavarni. Ali um gordo e rubicundo merceeiro, que ameaçava estalar todas as costuras da farda, primitivamente feita para um indivíduo de metade das dimensões dele, com as faces insufladas, a testa contraída e os olhos injecíados para extrair de um obsoleto serpentão, que embocava com arreganho assustador, as mais destemperadas notas ; acolá um flautim, de braços compridos e tíbias esquinadas, cora meio braço fora das mangas, com meia perna de fora das calças, figura em que havia nao sei o que de onomatopaico, tão bem se casava com os silvos, horripilantemente agudos, que arrancava do exíguo instrumento.

O artista pratilheiro era um velho recurvado, de nariz adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suíças em tufos no meio das faces, e óculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava os pulmões dentro de um figle ; um corcovado e semianão repicava os ferrinhos com uma prodigalidade assustadora ; as baquetas da caixa estavam confiadas às mãos calosas de um moço de lavoura, de repas hirsutas a cobrir- -lhe a testa, olhos esbugalhados e lábio pendente. E, no meio destas e análogas figuras, a alma de tudo, o Sr. Pertunhas, torcendo-se, batendo com o pé, suando, arregalando os olhos, piscando-os, marcando o A MORGADINHA DOS CANAVIAIS compasso com a cabeça armada de enorme trompa, que lhe dava então não sei que aparências de proboscidiano.

Tal era a filarmònica da terra, que Henrique, o conselheiro e tôda a família do Mosteiro escutavam das janelas, e à qual tiveram de dispensar elogios, que o regente aceitou com a modéstia de artista que se. conhece. Henrique foi quem mais sublimes esforços fez para sofrer com paciência aquelas torturas acústicas. Ele que nem à orquestra de São Carlos perdoava uma desafinação, obrigado a escutar com um sorriso aquela banda pandemónica ! — Coragem! coragem!—murmurava-lhe o conselheiro, impassível como perfeito político. — Nas ocasiões é que os homens se conhecem ! Coragem.

— É em extremo forte a provação ! — respondia-lhe, gemendo, Henrique.

— Firmeza ; que a palidez do susto nos não atraiçoe — continuava aquele.

Isto obrigava Henrique a nova luta; desta vez para manter a seriedade.

Afinal calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido tocar. Sucedeu-lhe um intervalo de silêncio. Passou pela assembléia o estremecimento que precede as ocasiões solenes. Os olhares de tantos espectadores fixavam-se na coberta de chita que já se via ondular. Ouviu-se um surdo rumor, significativo de ansiedade, como se fora a resultante do palpitar de tantos corações.

Apareceu, enfim, a primeira personagem do auto. Era o Herodes.

A alta e membruda figura do pai de Ermelinda, com os seus ombros largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabelos e barbas negras e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as junturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho selvático, com que falava e gesticulava, imprimia na multidão um quase pavor, que nem o conhecimento íntimo que tinha do homem conseguia dissipar.

Herodes trazia manto real e turbante muçulmano, borzeguins vermelhos, corpete de veludilho azul, calções golpeados. Pendia- -lhe à cinta um alfange e uma pistola; ao peito algumas condecorações.

Aparência geral, a dos profetas nas procissões.

O auto rompe com um monólogo de Herodes.

O tirano da Judeia, sobressaltado e meditabundo, faz considerações substanciosas sobre as condições dos reis em geral e a sua em particular. Principia ele assim: Não há vida mais inquieta, Nem mais cheia de cuidados, Do que a de um rei que pretende Conservar os seus estados.

O Cancela dizia isto em tom pausado, com os braços cruzados, medindo o palco a passos largos.

Continuavam várias proposições de fisiologia do trono, e, do caso genérico baixando ao particular, da tese à hipótese, principia a falar de si. Cancela, conhecedor dos segredos da arte, começava aqui a dar mais vida à recitação, como para mostrar o maior empenho que tomava a alma neste capítulo da especialidade. Referia-se aos anúncios da vinda do Messias, e inquietava-se ; a maré das paixões subia ; a voz traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de desalento, para com mais violência se exaltarem os afectos. Nos paroxismos da fúria, o Cancela, dando tôda a força à sua voz potente, soltava berros, que participavam da natureza dos de tigre.

Começarei desde logo A publicar leis tiranas, Que aterrem os meus montes, Os palácios e as choupanas.

Será tal o meu furor, Tal a minha indignação, Que ninguém se atreverá A conquistar meu brasão.

O interesse do espectáculo aumentava. Os olhos do público principiavam a fixar-se. A excitação de ânimos a que os transportes de Herodes, inquieto pelo seu brasão, levara o público, foi serenada por um chorado coro de anjos que cantavam atrás da cortina: Não temas, ó rei cruel, Oue te conquiste o dossel.

Herodes pára aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe afiançarem a segurança do dossel, pela qual ele parecia receoso. Vacila, entra-lhe o medo no coração, medo que procura afugentar com bravatas, em que ameaçava pôr tudo por terra. O Cancela exprimia tudo isto com abundância de gestos e de movimentos.

Aqui é que subia a tôda a altura o gênio dramático do Herodes, Para este final do monólogo reservava todos os segredos da arte; apoderava-se dele a musa do palco ; desapareciam-lhe diante dos olhos os espectadores, via o mundo ; perdia a consciência da individualidade própria ; supunha-se Herodes ; e até .. oh força da arte ! ofuscavam-se- -lhe os bons instintos da índole generosa e quase chegava a ter verdadeira ânsia de sangue e carnificina. O público era dominado por o artista, e num destes silêncios que todos prevêem se desencadeará era brados de entusiasmo e frenesi, escutava-lhe as duas quadras finais- Porém o furor me incitai Dava, ao dizer isto, três passos à frente, desembainhava o alfange e abria os braços. Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim.

O brio dá-me ousadia.

Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a mão esquerda.

Para defender o ceptro A favor da tirania I Aqui agitava os bracos como asas de moinhos.

Será cada lança um raio I • E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relâmpago.

Cada espada um corisco, E o braço, armado do alfange, baixava com a rapidez do simile.

Cada soldado um trovão, E trovejava-lhe a voz.

Cada golpe um basilisco ! E, na posição e gesto em que ficava, não era menos terrível e pavoroso do que a fera da comparação.

uma tempestade de aplausos rompeu de todos os lados ; só as mulheres e as crianças ficaram silenciosas e imóveis, porque lhes parecia um pecado aplaudirem Herodes. E não sei se, o que fizera menos escrupulosa neste ponto a parte masculina, fora o exemplo partido das janelas do Mosteiro ; porque é certo que em geral os tiranos no palco são admirados, mas raras vezes aplaudidos.

Herodes, depois de agradecer os aplausos públicos, senta-se e segue o auto.

Daríamos de bom grado na íntegra tão importante peça dramática ou pelo menos circunstanciada notícia dela, se não receássemos o recheio excessivo para esta ordem de alimentos literários, que se querem leves. Não podemos contudo resignar-nos a passá-la por alto inteiramente.

Além do Herodes, são figuras do auto: o caixeiro do dito — assim se lhe chama pelo menos no folheto, o que dá a entender que Herodes era homem de escrituração regular — o capitão das tropas reais, os três reis magos, o anjo, a Virgem, S. José e o Menino Jesus, a criada de Santa Isabel, dois cidadãos de diferentes cidades, o criado de um dêles, a Fama e duas crianças, chamadas Giraldinho e Amorzinho.

As cenas passam-se sucessivamente nos paços de Herodes, na lapa de Belém, e em diversas paragens da estrada do Egipto.

A imaginação do espectador era a encarregada da mudança do cenário.

O poeta corre tôda a clave das paixões humanas, vibra todas as cordas do coração.

Ao terror despertado por Herodes e suas ameaças, sucede a simpatia pelos três reis, personificados daquela vez por três moços de lavoura, de manto, luvas de algodão e turbante, os quais, em lamúria nasal e com profusão de xes, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma das quais, patrióticamente anacrónica, pediam aqueles bons magos ao Deus nascido a protecção para Portugal.

Excitava a piedade a família sagrada. O velho S. José, como carpinteiro que era, aparelhava um madeiro a enxó e plaina, enquanto a Virgem dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem principiava a despontar o buço da puberdade. O anjo aparecia, como nas procissões, carregado de cordões de ouro.

No transe da fugida para o Egipto há uma cena da mais que homérica simplicidade. Quando os sagrados esposos estão para partir, chega a eles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro mocetão em trajes femininos, e da parte da ama oferece aos foragidos algum dinheiro e refrescos ; pedindo desculpa por não poder dar quanto queria, o que tudo a Senhora agradece com as frases da tarifa, recomendando-se muito a sua prima.

O cómico caminha ao lado do patético, como no drama moderno.

Há personagens, reflexões e cenas sempre apreciadas e já aguardadas pelo público, que as saúda com sinceras gargalhadas. Destas a principal é evidentemente a que se passa entre um cidadão, de quem a sacra família recebe gasalhado, e o criado do mesmo.

É uma cena de disputa doméstica, cheia de alusões satíricas à classe dos criados de servir, a qual era sempre aplaudida. O cidadão, depois de mostrar ao criado, de relógio em punho — anacronismo shakespeariano — a demora excessiva que ele tivera fora de casa, diz para o auditório: Não se pode ter criados Hoie em dia, nesta vida, Ou quem houver de os ter Não lhes deve dar guarida.

Neste ponto do auto houve aquela tarde um pequeno mas gracioso episódio.

D. Vitória, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa de tôda a peça, de afinada que estava pelo seu modo de sentir, não pôde conter-se, que não exclamasse : — Aquilo é que é uma verdade ! A espontaneidade da reflexão fez rir a família do Mosteiro, riso que teve eco em baixo, entre o povo, que enchia o pátio.

A cena cómica prolonga-se, mandando o patrão distribuir pelo caixeiro o rapé ao auditório; outra liberdade que produzia sempre o maior efeito.

O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro baú, e oferecia pitadas ao público, dizendo : O meu amo, com ser rico, Gosta destas paruscadas.

Nunca os senhores tiveram As pitadas tão baratas.

Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo, a regularidade do espectáculo. Todos tiravam pitadas, todos falavam, riam e guinchavam. todos fingiam espirrar e não se ouvia senão: «Dominus tecum» e «Deus te salve» no meio de tôda aquela confusão. Porém a um sinal de mestre Pertunhas, que deixou por um pouco folgar o espírito das massas, tudo entrou na ordem.

Preparava-se nova transição dramática. O criado, que vai a sair, volta, dizendo com gesto espantado e tom exclamatorio : Jesus, Jesus, que é isto? Jesus do meu coração ! O sinal da cruz me livre De tão terrivel visão.

Era a Fama que aparecia.

Ermelinda entrava em cena.

No meio daquelas figuras rústicas, e mais ou menos grosseiras, que entravam no auto, a figura delicada e angélica de Ermelinda produzia tão completo contraste, que um murmúrio significativo de profunda sensação correu o auditório.

Ermelinda estava surpreendente de formosura. Haviam-se associado ao que era nela dotes naturais os cuidados de Madalena e de Cristina, para lhe darem a aparência superior.

O próprio Henrique, que até ali estiverà comentando maliciosamente o espectáculo, não pôde reter uma exclamação de surpresa, que foi secundada por o conselheiro. É que parecia que um verdadeiro anjo ocupava agora a cena.

A simplicidade do vestir concorria para esse efeito.

Ermelinda trazia uma longa túnica alvíssima e de amplas mangas, que lhe descia solta dos ombros sem sacrificar a menor beleza dos graciosos contornos e esbeltas proporções daquela criança, que prometia ser uma mulher escultural. Os cabelos, cuja cor loura era de uma pureza rara, caíam-lhe desatados e profusos sobre os ombros, brilhando como fios de ouro na alvura dos vestidos ; a fronte ficava- -lhe livre, e o oval das faces sobressaía naquela moldura natural. com os braços descaídos, os dedos encruzados, e a cabeça ligeiramente pendida, em expressão de melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Madalena e de Cristina nas janelas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem o Ceu, Ermelinda adiantava-se vagarosa, serena, tendo no gesto o encanto da inocência, tendo nos passos a hesitação da timidez. Havia tanto de sobrenatural no vulto cândido, franzino e melancólicamente suave daquela criança, que o actor que estava em cena não teve de simular espanto, porque o sentia real, e não podia desviar os olhos daquela aparição.

O silêncio era profundo ; parecia que em todos estava actuando a força de um encantamento.

como na antiga tragédia, o facto principal da acção, a carnificina dos inocentes, passava-se fora de cena. À Fama competia narrá-lo.

Ermelinda, a meio do palco, parou. com uma voz argentina e leve tremor de comoção, principiou lentamente e no meio de um religioso silêncio a recitar os versos da narração, os quais, como o leitor já sabe, não eram os do auto, que mestre Pertunhas se estafara a ensaiar.

Os versos que Ermelinda recitou, diziam assim : * Desci dos celestes coros, Por Deus mandada a escutar Da infância as queixas e os choros, Para lhos ir confiar.

Desci. Na terra, nos mares Tanta miséria encontrei, Que os meus magoados olhares Da terra e mar desviei.

Desci. E tantos gemidos, Tão dolorosos ouvi ! Que turbados os sentidos.

Quis recuar... mas desci.

Nesta colheita de dore3 Pelo mundo todo andei, No pranto dos pecadores As minhas vestes molhei.

Vagueando dias e dias, Chegara à Judeia enfim, Quando um clamor de agonia3 Veio de longe até mim.

O Sol, o Sol inflamado Destas terras orientais, Tinha no disco afogueado Não sei que estranhos sinaÍ3 Soavam menos distantes Sinistros brados de dor, Choros de mães e de infantes, Cantos de morte e terror, Vi anjos de asas nevadas Em bandos subir ao Céu, Ouais pombas amedrontadas Fugindo à voz de escarcéu.

«Onde ides? Quem vos persegue? A que tormentas fugis ?» Um, que triste o bando segue, Estas palavras me diz : «Somos as almas de infantes Mortos em guerra feroz : Inda das mães delirantes Nos chama a sentida voz.

«Só a materna saudade Nossa carreira detém, Embora no Céu, quem há-de Esquecer o amor de mãe?» Disse e o semblante formoso com as asas encobriu, E ao bando silencioso Silencioso se uniu.

Eu segui. Na ímpia cidade Aterrada penetrei...

Ai, da fera humanidade Os meus olhos desviei! Que cena ! Corre nas praças Sanguinária multidão, como nuvem de desgraças Semeando a desolação.

Caem por terra sem vida Tenras crianças às mil, E uma turba enfurecida Corre à matança febril.

As mães pálidas, chorosas, Suplicam, pedem em vão! Nessas feras sanguinosas Não palpita um coração.

Outras tentam em delírio, Os seus filhos disputar, E com eles no martírio Gostosas se vão juntar.

Sobre a terra ensangüentada Eu soluçando, ajoelhei, E de intensa dor magoada, A Deus piedade implorei.

Findava a prece, e uma estrela No horizonte despontou, Pura, cintilante, bela O caminho me traçou.

À humilde e escondida estancia Da venturosa Belém Cheguei ; vi um Deus na infancia Nos temos braços da mãe.

Minha colheita de dores Naquele berço depus, Da humanidade aos rigores Pedi remédio a Jesus.

No olhar do divino infante Raiou a luz e fulgor, Foi a aurora radiante Que anunciou um redentor.

Não se descreve a impressão causada por estes versos, que assim transformavam a Fama do auto no Anjo da guarda da infância.

Muitas causas concorriam para produzir este efeito : a figura, a voz e o gesto de Ermelinda, que lhe davam uma aparência verdadeiramente angélica, e depois aquelas palavras inesperadas, aquela exposição desconhecida e em versos a que a melancolia da toada, em que eram recitados, parecia aumentar a cadência métrica. Enquanto debaixo da impressão daquela voz sonora e infantil, ninguém procurava explicar o mistério. Milagre lhes parecia e quase como milagre o aceitavam, e de ouvidos atentos, olhos estendidos e bocas semiabertas parecia recolherem, uma a uma, aquelas palavras, como se de um verdadeiro emissário celeste as escutassem. O tablado enchera-se pouco a pouco de gente, e ninguém dera por isso. Os actores que estavam atrás da cortina tinham sido feridos pelos primeiros versos, diferentes dos que eles esperavam; isto obrigou-os a espreitar. Depois, como arrastados pela magia daquela voz e daquele gesto, vieram adiantando-se, adiantando- se, e cedo formaram círculo à volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O espanto, os afectos, o orgulho de pai, a exaltação de artista combinavam-se para dar-lhe ao rosto uma expressão quase de êxtase. Olhava para a filha como se a visse animada de inspiração divina.

Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobrolho, prevendo trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de boca aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro só Angelo sorria, ele só interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente aquela voz de criança, que, em campo descoberto e no meio de tantos espectadores, soava distinta e vibrante como se efectivamente tivesse alguma coisa de sobre-humana.

Depois que ela terminou, persistiu por algum tempo o silêncio, sem que os espectadores pudessem voltar logo a si nem os actores se lembrassem de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quase encantamento. Profundamente impressionado também por aquela cena, exprimiu num «bravo» todo o entusiasmo que sentia.

Foi o sinal.

O silêncio degenerou na mais altíssona ovação.

O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a sustentar a lógica da situação, e tomando nos braços musculosos o corpo débil e franzino da filha, levou-a em triunfo para a beira do palco ; os outros actores disputavam-lha ; do pátio estendiam-se centenas de braços para a receberem ; das janelas do Mosteiro acenavam- lhe, vitonando-a, os lenços das senhoras ; os homens aplaudiam-na com palmas. Herodes parecia devorar a filha com beijos, afagá-la com lágrimas de entusiasmo e de paixão; e Ermelinda foi de braços em braços, entire beijos e afagos, transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde não foi menos calorosa a recepção.

Do auto ninguém mais se lembrou, e, apesar dos esforços do mestre Pertunhas, todos o deram por terminado ali e prescindiram de ver as restantes cenas, com grande desgosto dos actores que entravam nelas.

O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do Mosteiro. Seria para rir aquele entusiasmo, se não fosse bastante patético para comover.

— Mas como foi isto, meu Deus? como foi isto? Que milagre foi este? Ai que versos, Maria Santíssima! Que versos! E como ela os dizia ! — exclamava ele, quase convencido da milagrosa natureza da cena que vira.

Madalena, chamando Ângelo de lado, perguntou-lhe : — Foi Augusto que fez aqueles versos? Ângelo sorriu.

— Porque me perguntas isso a mim? — Porque o deves saber.

— Então não crês no milagre? — Responde.

Ângelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para c conselheiro: — Se eu digo a V. Ex." que o Bernardim existe.

— Mas quem é ? — perguntou o conselheiro.

— Não sei ; porém posso afiançar a V. Ex." que nao são estes os primeiros vestígios que encontro dele. As paredes das capelas dos montes são as suas confidentes. Não está certa, prima Madalena, de umas quadras sentimentais que lemos na ermida da Senhora da Saúde ? — Sim ; recordo-me.

— Não acha entre essas e as do auto analogia de estilo, que a levem a atribuí-las à mesma pessoa? — Estou pouco habituada a analisar estilos, primo.

— Mas talvez este lhe seja habitual.

Madalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a acrescentar : — Por muito o ver por aí desperdiçado por paredes de capelas e ruínas, e nos troncos das árvores.

Ermelinda foi de uma discrição impenetrável. Quando lhe perguntavam quem lhe ensinara os versos, sorria, respondendo que não sabia, ou que não podia dizê-lo.

— Apostemos que nisto entra Ângelo ? — disse o conselheiro.

O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fora pura inspiração.

Henrique, aproveitando uma ocasião em que estava próximo da morgadinha, disse-lhe ao ouvido : — Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que tão bem canta sem se mostrar.

— Sim? — Não há muitas noites que eu o vi vaguear nestas imediações.

Estas aves melancólicas amam as inspirações nocturnas.

— Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. E a hora favorável à espionagem e às... calúnias... Mas se sabe quem é, diga-o. Aqui em minha casa e no seio de minha família, é sempre bem recebida a verdade. Não há quem se tema dela.

E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.

— Desta vez foi de uma severidade ! — pensou Henrique. — Cada vez me convenço mais de que o idilio existe e que vai já muito adiantado.

Mas agora me lembro ; e o meu duelo com o Romeu, que nunca mais vi ? Não foi má tolice aquela minha ! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso não vale a pena.

O despeito de Madalena pelas palavras de Henrique fora desta vez mais intenso; quase chegou a fazê-la desesperar da tenção que alimentava ainda, pois disse a Cristina : — Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que a ele.

— Que dizes ? ! — Nada. Há doenças que fazem desesperar os médicos.

Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no pátio do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietários, foram dispersando pouco a pouco.

A banda de mestre Pertunhas saiu também com o fim de se preparar para as serenatas a casa do brasileiro e de várias personagens da terra, a quem era devido o cantar os Reis.

Ângelo saíra da sala. Fora para o fim da rua de sobreiros, anterior ao pátio da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.

A medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras à fronte e ao coração do pobre rapaz.

Era a noite de Reis, a última dos dias de férias; na manhã seguinte devia partir com o pai para Lisboa.

Que amarguras as destas últimas horas ! que intensas saudades não se amontoam no coração das crianças ao expirar o termo desse feliz espaço de tempo, que viveram para os carinhos da família e para os folguedos despreocupados ! Percebe-se em nós mesmos aquela iminência de lágrimas, que à menor palavra rebentam.

Quem não terá recordações de infância a falar-lhe disto? O pátio despovoara-se de gente ; através das vidraças da casa viam-se já brilhar as luzes interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça inclinada, Ângelo permanecia imóvel. Cortejavam-no, ao passar, homens e mulheres, sem que ele desse por isso.

De repente voltou-se, porque ouviu atrás de si uns passos conhecidos.

Era Ermelinda, que voltava para casa. O pai ficara atrás a pôr em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto.

— Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus — disse Angelo.

— Então vai-se embora ? — Vou amanhã — respondeu Ângelo, com a voz presa de comoção, — Muito cedo ? — De madrugada.

Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.

— E agora quando volta ? — Eu sei lá? agora... só para Agosto.

Novo silêncio.

— Então... adeus...

— Adeus, Ermelinda.

E com a voz quase sumida e os olhos enevoados de lágrimas, Angelo estreitou contra o peito aquela que de pequena tratara como irmã, e que chorava ainda mais do que ele.

Que melancólico fim de dia tão alegre ! A este tempo uma sombra escura passou por eles e estacou.

— Ermelinda ! — disse logo a voz esganiçada e colérica, que saiu daquele vulto.

Ermelinda estremeceu ao ouvi-la.

Era a mulher do Zé-Pereira que voltava das suas devoções e ficara surpreendida com o espectáculo que vira. A assustadiça castidade daquela matrona tôda se alvoroçou com a tocante despedida das duas crianças.

Ermelinda aproximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou pelo braço e a levou consigo.

Ângelo esteve quase resolvido a ir tirar das mãos daquela harpia a inocente vítima ; mas a chegada de Herodes estorvou- o.

A Sr.' Catarina do Nascimento de S. ]oão Baptista ia dizendo, ao levar consigo a afilhada: — Que terão ainda de ver meus olhos, meu Divino Pai do Céu? Que mundo este de abominação, meu doce Jesus ! Ó Virgem das Dores, isto é para se ver e não se crer ! Uma criança, uma criança de dois dias, se pode dizer, e já assim com a alma perdida ! Oh meu Jesus crucificado!...

— Minha madrinha — dizia Ermelinda, chorando.

— Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demônios saltam e riem de contentes. Teu pai é que tem a culpa. Isto são lá modos? trazer-te por entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da Igreja, que é a casa do Senhor! É a missa dos domingos, e acabou se.

Os resultados são estes !... Ai, filha, que muita penitência te é já precisa para salvares a alma ! — Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga isso — exclamava Ermelinda aterrada.

— Os três inimigos da alma te farão guerra, criatura, assanhados como cães raivosos... Eu previa isto... É o lucro de andar por essas casas de Satanás, onde não há religião nem temor de Deus... Oh meu Divino Jesus, e para isto tanto padeceste por nós ! E nós tão pouco caso fazemos dos vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem...

Depois queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos nos fogos do Inferno !...

A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.

A velha prosseguiu, em todo o caminho, nestas exclamações, bramando contra o pecado, contra a família do Mosteiro, que acoimava de hereges, contra o pai de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso, desenvolvia sobre o tema do pecado dissertações não em demasia apropriadas aos ouvidos de uma criança.

O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficara-lhe uma horrível convicção de que tinha a alma perdida, e com lágrimas ardentes pagava a pobre criança bem caro as alegrias daquela tarde, de que já tinha remorsos. Este desalento e pavor quase a fizeram doente.

Quando o pai voltou, estranhou-a. Ele, que vinha orgulhoso com os triunfos próprios e com os da filha, sobressaltou-se ao abraçá-la, Interrogou-a ; pediu, ordenou ; nada pôde saber que explicasse os vestígios de lágrimas que descobria nela; se instava, provocava-lhe o pranto; desistiu pois.

Pobre pai ! não pôde dormir aquela noite ! Logo de madrugada teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem.

Deixou Ermelirida a dormir; não a quis acordar; beijou-a na fronte desmaiada, abençoou-a e saiu.

— Comadre — disse ao passar por casa do Zé-Pereira — aí lhe deixo a pequena. Olhe-me por ela, que não está lá muito boa.

— Vá com Deus — disse uma voz de dentro.

Era a Sr.a Catarina.

O recoveiro partiu, silencioso e triste.

XIX NO dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava determinado, o conselheiro e Ângelo, o que deu lugar no Mosteiro a muitas saudades, O conselheiro devia voltar somente por ocasião das eleições gerais que estavam próximas.

Alguns dias depois, num domingo em que se festejava na aldeia o padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de Janeiro, estava Henrique de Souselas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferências de coisas de pouco interesse e às quais ele ligava a mínima atenção.

Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava se ainda posta ; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da cadeira; D. Doroteia, de mãos cruzadas diante da cinta, falava; Maria de Jesus que, depois de pôr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume patriarcal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a memória da ama sempre que esta emperrava, corrigia- lhe as involuntárias e freqüentes inexactidões em que a via cair.

Henrique habituara-se já a estes placidíssimos hábitos ; e, apesar de não ligar atenção à conversa, ou por isso mesmo que lha não ligava, achava-lhe certas virtudes estomacais que lha tornavam agradável.

Depois de muitas voltas, a conversa caiu sobre as ocorrências do auto dos Reis.

— Eu ainda estou para saber como aquilo foi ! — dizia D. Doroteia.

— Quando me lembro ! como aquela rapariga falava ! — Ó senhora ; olhe que já me disseram que a pequena tinha espírito — disse Maria de Jesus, com ar de mistério.

— Olhem o milagre I — respondeu D, Doroteia. — Por essa estou eu.

— Diz que desde aquele dia anda amarela e triste, que nem parece a mesma.

— Então é mais do que certo.

— Ai, a tia Doroteia também com crendices!—disse Henrique, rindo. — Então parece-lhe que traz espírito aquela criança ? — Pois, menino, aquilo a falar a verdade ! — E não é mais natural supor que alguém lhe ensinou os tais versos ? — Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que aqueles não calhavam bem nas loas? — O Pertunhas é um parvo. Houve alguém que ensinou aquilo à pequena e até suspeito com que fim.

— Não, Sr. Henriquinho, olhe que ali anda coisa ruim. Também o filho do Ceboleiro, quando trazia o espírito, dizia coisas tão bonitas que nem um livro. A senhora não se lembra? — Ora se me lembra ! — Digam-me — insistiu Henrique. — Quem há aqui na aldeia que faça versos? — Versos ! — repetiu a D. Doroteia, admirada. — Ninguém, que eu saiba.

— Ó senhora ! Então o João do Trolha ? Não deita tão bonitos versos nos desafios? — Sem ser o João do Trolha — tornou Henrique, sorrindo.

— Ai, não se ria, Sr. Henriquinho; olhe que os deita muito bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que ele botou? Viva a senhora D. Doroteia.

Paminho de bem-me-queres, Quando põe a sua touca É a rainha das mulheres.

E depois a mim: Viva a senhora Maria, A pérola das criadas, Quando se chega à ¡anela Ficam as estrelas pasmadas.

— Ora com o que você vem, mulher ! Não tinham as estrelas mais que fazer do que pasmarem — disse D. Doroteia.

— Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... sim... como o outro que diz...

— E além do João do Trolha, quem há mais que faça versos ? — perguntou Henrique.

— Que eu saiba!... —disseram as duas.

— E aquele Augusto ? — O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Ele sim ! Credo ! Não, aquilo é um rapaz de muito juízo. , — Isso não tira. Então a tia julga que só os tolos fazem versos ? — Tolos não digo, mas...

— Mas um pouco feridos na asa, não é verdade? — Ora pois então diz-me tu, menino, se um homem sério... sim...

um homem de respeito, faz versos? — Porque não ? — Versos ? ! — Versos, sim, senhora.

D. Doroteia fez um gesto de incredulidade.

Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da entrada e após algumas pancadas à porta da sala, — Abra, tia Doroteia — disseram de fora as vozes de Madalena e de Cristina, que foram logo reconhecidas.

E cedo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D, Vitória, que vinha mais retardada.

D. Doroteia levantou-se para recebê-las.

— Bons dias ou boas tardes, tia Doroteia, porque me parece que já jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Vitória, que não nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do missionário — disse a morgadinha.

— Eu não ; para apertos e barafundas é que nao estou.

— E tu vais, Lena ? — perguntou D. Doroteia.

— Então ? Não quero passar por impenitente. Ainda o não ouvi.

Pode crer ? Além de que percebi na Criste um fervor, com o qual quis condescender.

— Dizem que prega tão bem ! — atalhou Cristina.

— Pois pregará, mas eu é que já não estou para sermões — ponderou D. Vitória.

— Vou eu também ouvir o missionário — disse Henrique, levantando- se. — Já mo mostraram há dias. Se os dotes oratórios do homem corresponderem à figura...

— Então ? — interrogou D. Doroteia.

— É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, tipo da grossura do pulso.

— Pois bom é que vás, menino — disse D. Doroteia — para acompanhares as pequenas.

— como quiser, primo — acudiu Madalena — mas não se constranja.

O Torcato também vai.

— Que quer dizer? Que me dispensa? — Não ; mas que se é só por condescendência que...

— É por prazer. É por devoção.

— Nesse caso...

E Henrique foi procurar o chapéu para acompanhar as duas primas à igreja.

O Santo Amaro fora festejado com espavento na treguesia da sua invocação. Vésperas, missa cantada, duplo sermão, e procissão à volta da igreja, nada faltara para solenizar a festa.

O sermão da manhã fora pregado por o abade ; o da tarde havia sido concedido ao missionário, que o aproveitara para uma das suas catequeses.

• A procissão já tinha recolhido, quando chegaram à igreja a morgadinha e Cristina, na companhia de Henrique e Torcato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e de café, como num arraial.

Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em boca de sorvedouro, sùbitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as águas impetuosas.

A fama, que peias aldeias circunvizinhas apregoava o nome do missionàrio, atraíra imensa gente a escutar o sermão.

As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa popular, que se amontoava à porta da igreja, e conseguiram, por deferência excepcional dos mesários, entrar Dela sacristía para a capela-mor.

Tinha um aspecto melancólico o interior da igreja naquela ocasião.

Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lùgubre parecia com a extraordinária quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam à cabeça.

Apesar da quadra ir fria, como de Janeiro que era, respirava-se ali dentro uma atmosfera quente, abafadiça e pouco salutar.

Um surdo murmúrio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom, orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam lá fora, e requintava a triste impressão que se recebia ao entrar. Ali um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em coro com padre-nossos e ave-marias ; além viam-se outras com as faces rojadas no chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para comoverem a Divindade ; outras em êxtase, como Santas Teresas, de braços abertos diante da imagem da Virgem; outras arnortalhadas, em cumprimento ,de promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns pequenos cubículos, que serviam de confessionários. Às portas destes nichos, munidas de um crivo de folha, aderiam, como as lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a circunstanciada exposição dos pecados da semana, e recebendo de lá regras de bem viver, preceitos de devoção, às vezes exagerada e inspirada de certa moral de convenção, com que a ignorância ou a má fé porfiam em falsificar os simples e luminosos ditames da moral, que a consciência reconhece e que o Evangelho apregoa.

Às vezes despegava daquele crivo de pecados uma das confessadas ; e exausta de forças, abatida de ânimo, descrendo da misericórdia divina, ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo cego, senão hipócrita, lhe pintara inexorável verdugo.

Quando outra se não sucedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta destes cubículos, e sair de lá um padre de batina, socos e capote de cabeção, satisfeito de si, e revendo-se naqueles corpos prostrados, naqueles gemidos surdos, naquelas lágrimas humedecendo o pavimento do templo, tristes indícios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os ingênuos espíritos que dirigia pela intimidação cruel.

De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lùgubre à igreja, que nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta arte dispusera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.

Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.

Olhava com desgosto para aqueles sinais de um terror supersticioso, e sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que nutria contra o clero, cuja influência moral, aliás justa e vantajosa, é cada vez mais diminuída por aqueles dos seus membros.que pretendiam aumentá-la por meios impróprios de sublimidade da sua missão e até dos preçei- ;os da religião, de que se dizem ministros.

Henrique fez algumas reflexões neste mesmo sentido a Madalena, que não pôde deixar de apoiá-las, tanto mais que sabia o ânimo de Cristina, que os escutava, não de todo superior a este aparato terrorífico.

A hora marcada para o sermão aproximava-se; haviam-se já evacuado os diferentes confessionários, e o povo cada vez se apertava mais em todos os pontos da igreja e trasbordava para fora das portas do templo. Quem de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distância, na rua, se prolongava a multidão.

Apenas um confessionário permanecia ainda ocupado. Havia mais de uma hora, que ali estacionava de joelhos uma penitente com a cabeça coberta por a capa de pano, com que rodeava o crivo do confessionário.

Nem o menor movimento revelava animação naquele vulto.

Henrique notara essa imobilidade, que ao princípio o fez sorrir ; depois causou-lhe espanto e acabou, enfim, por o indignar. Qual, porém, não foi a sua surpresa e a de Madalena, quando, ao terminar a confissão, reconheceram as feições da penitente por as de Ermelinda, a filha do Herodes, a formosa e amorável criança, que, dias antes, tanto entusiasmo causara, agora pálida, abatida, sem aqueles sorrisos nos lábios, que tanta graça lhe davam ! E era esta criança que tão longos pecados tinha a narrar, para assim ficar tanto tempo aos pés do confessor? Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestígios de lágrimas, e, como que enleada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cedo rojava com ela a fronte no chão, que regava de lágrimas ferventes.

Pobre criança ! Que negros crimes lavariam aquelas lágrimas ? Que culpas teria a expiar aquela inconsolável dor? O confessionário de onde ela se afastara, abriu-se, enfim, e às vistas, que para ali se voltaram, mostrou um padre gordo, corado, de olhos e fronte pequenos, cabelos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditório.

Espalhou-se no templo um sussurro particular ; um movimento comum animou aquelas cabeças todas, quando este homem apareceu.

Era o missionário.

A sua passagem para a sacristía foi uma passagem verdadeiramente triunfal. Curvaram-se até ao chão as beatas, beijando-lhe a mão ou as borlas da batina, e pedindo-lhe a bênção, que ele distribuía com profusão.

Mas a meio caminho da sacristía, para onde se dirigia, surgiu- -lhe quase do chão um estorvo.

Zé-Pereira, o desconfortado marido, estava diante dele, gesticulando e realizando um tríplice e admirável esforço para firmar as pernas, para abrir os olhos, e para desembaraçar a língua.

Dizia o homem: — Ó sr. aquele... ó sr. padre, ou missionário, ou lá o que é...

eu quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse...

A religião manda... Quando um homem se casa...

O missionário não esperou pelo fim da inesperada interpelação; com modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de cólera : — Então que desaforo é este ? Deixam um homem neste estado vir ter comigo ? ! E com maneiras e palavras igualmente ásperas impôs silêncio ao povo, que rira do desengano do Zé-Pereira. Os mordomos acudiram logo para afastarem o Zé-Pereira dali para fora. Ele deixou-se ir, limitando- se a dizer mansamente : — Ora, senhores, que é forte desgraça a minha ! Então uma pessoa não pode dizer o que sente? Ia ele já fora da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir: — Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Quando depois desta cena, o missionário passou por Henrique, murmurou este em voz perceptível, ao ouvido da morgadinha: — Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é mais de magarefe do que de pastor? O missionário ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma víbora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um ódio farisaico.

Henrique arrostou-o com audácia provocadora.

O padre entrou para a sacristía.

No entretanto o auditório dispunha-se para escutar o sermão, o mais comodamente que era possivel naquele pequeno recinto.

No fim de alguns minutos aparecia no púlpito a figura bem nutrida e pouco atraente do famigerado educador dos povos.

Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistência fixou em Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que ele sustentou com firmeza.

Esta tácita provocação durou alguns minutos, no fim dos quais poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos lábios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quase ameaçador.

Enfim soltou o texto latino do sermão.

Seguiu-se nova pausa, e principiou.

Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entressachar nas páginas humorísticas da Vida e opiniões de Tristam Shandy, um sernão sobre a consciência, eu não ouso transcrever para aqui o modelo e eloqüência sacra, recitado pelo missionário naquele dia.

Ainda se eu pudesse transmitir aos leitores o tom rouco de voz, extravagância de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava recitação dos descosidos períodos daquela indigesta prática, talvez me animasse à empresa, para lhes dar um exemplo da vigorosa eloqüência, com que se anda atrasando a civilização do povo e prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz é abafada por aquela gritaria.

As mais tétricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.

Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as fornalhas ardentes, inúmeras torturas, a que o menor delito, tal como um jejum mal guardado, uma confissão malfeita, uma involuntária falta missa, uma penitência esquecida, uma oração suprimida, arriscava as almas por tôda a eternidade. Para cada pecado venial uma perspectiva de tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal ,de Santo Ofício, onde os autos-de-fé, os potros, e cavaletes guardavam os delinqüentes arrastados até ali ; eis o resumo da oração.

A fatal e desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no pórtico do Inferno, traçava-a este sobre os umbrais do tribunal do Eterno.

Na escultura de Cristo, obra rude do buri! popular, mostrava o vulto de um acusador, surgindo ali a pedir vingança, e não o do Redenor sublime a implorar e prometer perdão. E tudo isto de mistura com imprecações contra as modernas instituições sociais, contra a obra do século, contra os descobrimentos, contra a ciência, contra tudo em que e descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e as idéias em sentido menos favorável à propaganda reaccionaria.

A medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; aumentava a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.

Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditório, e principalmente da parte feminina dele iam crescendo em choro manièsto, em gritos e alaridos. Cedo era já um angustioso clamor em tôda igreja. Madalena, que se sentia, ela própria, um pouco impressionada )or este espectáculo de desolação, voltou os olhos para Cristina. Viu-a trémula, pálida, com as faces banhadas em lágrimas, tendo no gesto todos os sinais de um intenso pavor.

Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notá-lo a Henrique, e tàcitamente lhe comunicou as apreensões que sentia.

Henrique compreendeu a necessidade de dissipar a funesta influência que se estava exercendo no ânimo tímido de Cristina.

Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a disraí- las com comentários satíricos às palavras do sermão e à figura do orador, que ambas ofereciam farto alimento para eles.

Daí a pouco Madalena instava já com Henrique para que se calasse.

Previa o perigo que poderiam correr, persistindo naqueles comentários impróprios do lugar.

Efectivamente não tinham passado despercebidos do padre os comentários de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Madalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflamava mais o orador, exacerbando-lhe a virulência da frase.

Já não podia tirar os olhos daquele grupo, e por vezes a cólera estrangulando-lhe quase a laringe, interrompera-lhe o discurso.

Alguns ouvintes, seguindo a direcção daqueles olhares faiscantes, haviam atingido já a causa deles.

Daí algumas murmurações que principiaram a sussurrar pela igreja.

No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, foram elas mais acerbas do que nenhumas. A Sr.a Catarina e as suas companheiras fartaram-se de anatematizar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração da filha do Cancela, dominado pelo terror que o sermão levara ao cúmulo, calavam aqueles dizeres, que a faziam quase olhar, como se fossem já presas do Inferno, para Madalena e Cristina, a irmã e a prima de Ângelo, do- seu amigo de infância, em.quem já não se atrevia a pensar.

Numa ocasião em que o missionário fulminava com mais veemência os progressos da indústria moderna e chamava redes do Demònio e caminhos do Inferno aos telégrafos eléctricos e às vias férreas, Henrique aproximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão tanto a propósito, que a morgadinha não conteve o riso ; a própria Cristina sorriu também.

Era de mais ! O padre pulou no púlpito. com os olhos em chamas, as faces apoplécticas, os lábios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos e estendidos na direcção de Henrique, rompeu nestes violentos termos: — Fora do templo, pedreiros-livres, que vindes aqui escarnecer da palavra do Senhor ! Fora do templo, ímpios libertinos, que não respeitais os ministros de Deus, nem o seu altar ! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor ! Escorraçai- os, irmãos, se não queréis que se vos pegue a lepra do pecado e que Deus arrase esta aldeia, como arrasou Comorra e Sodoma. São esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias ; são estas as pragas que nos vêm com as estradas e com a civilização. Fugi deles, que trazem o Demônio na alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros-livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos requeiro! Vade-retro!, Satanás, vade- -retro ! vade-retro !...

E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionário estendia o braço na direcção de Henrique.

Este, desde que viu que a imprecação lhe era dirigida, levantou-se e fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder ali mesmo.

Quando o missionário concluiu, o sussurro da igreja degenerou m desordem. Das beatas transmitiu-se a revolta aos homens do campo, cuja mã vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que e suspeitam alvo dos desdéns ou zombarias desta. As ameaças soavam á distintas, os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escândalo ornara proporções assustadoras.

Cristina quase desfalecia; Madalena, pálida, mas sem perder a presença de espírito, que nunca a abandonava, segurou o braço de Henrique e queria obrigá-lo a retirar-se da igreja.

Henrique resistia e procurava falar.

O velho Torcato, trémulo e enfiado, puxava também por ele como podia.

O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a cabeça, e do púlpito animava a anarquia, berrando e bocejando.

Alguns homens prudentes, e entre eles o santo homem de um cura que havia na freguesia, obrigaram, quase à força, Henrique a sair da igreja por a porta da sacristía.

Ao vê-lo retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou- se em confusão para a porta principal, para os vir esperar à saída da sacristia, e correu clamando atordoadoramente.

E defeito, quando ali chegaram, viram-se em frente de uma impenetrável parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de braços que os ameaçavam, e de bocas de onde partiam gritos de «morte aos pedreiros-livres, aos libertinos e aos hereges».

Madalena recuou ; Cristina encostou-se-lhe ao ombro, quase desmaiada.

Henrique parou à porta, pálido, mas sem recuar diante daquela gente furiosa e ameaçadora.

— Que querem de mim e destas senhoras ? — perguntou ele, com voz firme.

Em vez de responder-lhe, berraram com mais violência: — Morra o pedreiro-livre ! — Ensinem esses senhores da cidade I — Pouca-vergonha ! — Isto não fica assim ! Isto é de maia ! — Mação ! — Herege ! — Quero passar ! — repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.

— Havemos de ensinar estes fidalgos.

— Excomungados ! — Havemos de lhes dar os risinhos na igreja.

Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do gênio; deu um passo para eles, levantando o chicote que trazia na mão.

Era uma imprudência perigosa. Num momento uma verdadeira nuvem de varapaus cruzou-se sobre a cabeça dele.

E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros-livres e hereges ! » levantaram-se mais ameaçadores do que antes. Madalena susteve, a tremer, o braço de Henrique.

E o tumulto crescia cada vêz mais e cada vêz mais aumentava o perigo.

uma grande pedra, impelida de longe, veio bater na verga porta da sacristía, e na queda ameaçava ferir a cabeça de uma criança que, entremetendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira colocar- se junto de Madalena, e de olhos espantados assistia àquilo tudo com infantil curiosidade, enquanto a mãe aflita a chamava em altos gritos, procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mãos para proteger a cabeça da criança, foi ferida nos dedos pela pedra. com gesto sereno, e em tom desafectadamente repreensivo e ao mesmo tempo plácido, disse para tôda aquela gente : — Não vêem que iam matando esta criança ? Esta simples acção, e estas palavras da morgadinha, produziram mais efeito do que todos os arrazoados e todas as resistências. Havia nelas claros indícios de uma índole generosa, e a generosidade foi e será sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e comover as massas. Sabem-no os especuladores políticos, que tanto se esforçam por simulá-la, quando precisam do povo.

— Quem foi que atirou a pedra ? — perguntou um.

— Temos tolice ! — Nada de pedra, olá ! — Então isto é coisa de garotos ! Estava a quebrar-se a fúria da onda popular. Os que antes gritavam «morra» achavam já repreensível a primeira tentativa de lapidação.

E contudo era a pedra a arma mais pronta para executar a sentença.

Era evidente que o maior perigo passara e que um pouco de prudência resolveria a crise.

O pior era que Henrique possuía em pequeno grau essa qualidade, e, irritado pelo insulto, ia cometer talvez algum acto irreflectido, apesar dos esforços de Cristina e de Torcato para o reprimirem.

uma circunstância, porém, veio inesperadamente em auxílio deles, e concorreu para dissipar a tempestade.

Foi o caso que, depois de ser posto fora da igreja o Zé-Pereira, que, pelas razões que o leitor já sabe, e ainda mais depois do malogro da interpelação ao missionário, não olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glórias, e que ainda naquele dia servira à frente da procissão.

Aí se conservou enquanto durou o sermão. Junto do artista deitara- se a dormir o seu satélite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas e valentes, secundava os rufos rápidos e febris que o outro executava na caixa — pancadas que eram, por assim dizer, as vírgulas daqueles floridlssimos períodos acústicos.

Em posição de cansaço e desalento o Zé-Pereira monologava, como era hábito seu, sempre que tinha o cérebro repassado do espirito familiar.

Lamentava consigo, o bom do homem, o desmazelo doméstico da sua cara-metade ; a influência funesta dos missionários na paz das famílias, e sobretudo a indiferença que principiava a perceber nas massas para as maravilhas do predilecto instrumento, que ele conhecia a preceito.

Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelão.

Desde que, por influência do mestre Pertunhas, se instituíra a filarmónica na aldeia, Zé-Pereira andava triste e desassossegado.

Naquilo viu ele a morte da sua arte. Um ceci tuera cela, como o que preocupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris, analogamente inquietava o nosso homem. O espírito e gosto público entravam em nova fase, preparava-se uma revolução na arte. O reformado era o mestre Pertunhas ; instituindo a banda marcial, verdadeira extravagância romântica comparada à simplicidade e nobreza clássica dos portentosos rufos do Zé-Pereira, o mestre de latim realizou um cometimento digno de menção na história da arte.

Pobre Zé-Pereira! Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-no, havia perto de uma hora, em uma posição contemplativa diante do tombado instrumento de seus ruidosíssimos triunfos. Lia-se naqueles olhares fixos uma melancolia quase poética.

Nesta contemplação o surpreendeu a tumultuosa e súbita saída do povo pela porta da igreja, e as cenas de motim que se lhe seguiram.

A inteligência perra de Zé-Pereira não achou logo a explicação do que via. Pouco a pouco porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão, principiaram a dar-lhe uma vaga consciência da desordem popular.

Os instintos ordeiros e pacíficos de Zé-Pereira acordaram, e o homem ergueu-se.

Olhou algum tempo para o lugar do maior tumulto, e em seguida passou ao tiracolo a alça do tambor.

Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satélite, que, estremunhado, tomou automàticamente para si o bombo do acompanhamento.

Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Madalena. Então o Zé-Pereira não esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um sinal ao rapaz, e ..

Pom — fez a baqueta deste, caindo com tôda a força sobre a retesada superfície do bombo.

Taplão, taplão, rataplão, rataplão...—responderam as baquetas movidas pelas amestradas mãos do Zé-Pereira.

Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na direcção do som.

O Zé-Pereira prosseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das baquetas; começava a ganhá-lo o vapor do entusiasmo.

Principiou a acudir o povo para junto do artista.

Este tomara-se já do raptus, do frenesi musical. Já não eram só as mãos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que rufavam.

De olhos fechados, dentes ferrados nos lábios, ventas ofegantes, contraídos quase titànicamente os músculos do pescoço, a vergá-lo para trás, Zé-Pereira parecia endemoninhado. Não via, não ouvia, não sentia, não tinha consciência de si, nem dos seus actos ; todo ele era fogo, delírio, convulsão, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes eléctricas se transmitiam do tambor ao cérebro, e do cérebro ao tambor, desafiando aqueles movimentos choreicos, aqueles grunhidos surdos, aquelas visagens extravagantes, aquelas contracções gerais, que o torciam, desconjuntavam e desfiguravam.

Vencera-o completamente a febre ; sangue, nervos, músculos, cérebro, tudo era domínio seu ; congestionado, alucinado, louco, rufou, rufou, rufou com desespero, rufou até as baquetas se não avistarem, de rápidas que se moviam; rufou até o ouvido quase não perceber a descontinuidade dos sons ; rufou finalmente até cair por terra exausto, no colapso que sucede às convulsões do espasmo. Se tinha de ser aquele o declinar de uma glória, todos os astros lhe invejariam tão esplêndido crepúsculo O povo inteiro aplaudiu o artista.

E quando voltaram a si do êxtase em que ele os tivera, acharam já fechadas as portas da sacristía e nem vestígios da família do Mosteiro.

O povo dispersou pacificamente.

— Foi isso que jurou, ou antes que não procuraria ser visto ? — perguntou Madalena, sorrindo. — Veja qual desses juramentos será mais em harmonia com os seus actos.

A lembrança da excursão nocturna aos Canaviais, para espiar Madalena, tirou a Augusto o ânimo de responder.

Madalena compreendeu aquele embaraço, e não insistiu.

— Mas suponhamos que assim foi ; visto isso, parte para buscar as provas da sua justificação? — Não, minha senhora, parto, porque desisto dela. Basta-me estar justificado para com a consciência.

— Não tem direito de o fazer. uma alma, que é nobre, deve homenagem a si própria. Resignar-se à suspeita, é como um suicídio moral.

— Justamente, minha senhora; e não concebe que haja casos em que o suicídio seja natural? — Meu Deus, Augusto — exclamou Ângelo — como eu o estranho ! o que o levou a esse desespero ? A morgadinha sorria, ao responder ao irmão : — É uma febre que passa, verás. Quer que lhe fale com franqueza, Sr. Augusto? Tenho um secreto pressentimento a dizer-me que, apesar dessa descrença, apesar dessa carta, e apesar de estar por minutos o momento da partida, não só não partirá, mas até há-de tomar parte na nossa primeira festa de família, a do próximo casamento de Cristina.

Estas últimas palavras fizeram impressão em Augusto, que instintivamente repetiu: •— Do próximo casamento de Cristina ? ! — Pois não sabia que Cristina vai casar ? — perguntou Madalena com a maior naturalidade, mas fitando os olhos em Augusto. — É verade, o Sr. Henrique de Souselas teve pressa de legitimar o título de irimos, com que arbitrariamente nos tratávamos.

Augusto olhou para Madalena, com indefinivel expressão, dizendo : — Quê?... pois é com Cristina... pois Henrique vai casar com...

Só depois de lhe romperem dos lábios estas palavras, é que, reconhecendo a indiscrição da sua surpresa, acrescentou com mal simulada indiferença: — Ah ! não sabia ! — Deveras ? Pois não tinha ouvido falar deste casamento ? Oh !...

querem ver que supunha também que era eu que me casava?... Digo sto, porque o Cancela também estava na mesma crença. Parece que correu essa voz na aldeia. Estes boatos !... E acham logo quem se fie eles! E, mudando de inflexão, prosseguiu: — São dois noivos exemplares, Henrique e Cristina, perdidos um por o outro. Cristina, com a sua timidez, exerce um forte império sobre aquele incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso encontrá- lo doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de alguma maneira, aquela simpatia. Foram singulares as circunstâncias em que isto se efectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na capela- -mor da minha propriedade dos Canaviais, onde Cristina fora rezar, pela saúde de Henrique, as estações da meia-noite; onde Henrique foi para seguir e observar Cristina, e onde eu fui, com a Brísida, para os vigiar a ambos e preparar-lhe o futuro; intervenção algum tanto perigosa; porque podia haver quem me seguisse a mim com menos generosas intenções de que as de qualquer dos três, e que, ao ver-me em tão extraordinário sítio, a tais horas, não me concedesse a confiança precisa para acreditar, através de tudo, na minha inocência.

A alusão era clara, e mais clara a fazia a inflexão com que foi pronunciada.

Augusto curvou a cabeça e murmurou: — Tem razão, algum miserável.

— Ou algum infeliz — corrigiu delicadamente Madalena. — Os infelizes são também sujeitos a perderem a fé. Mas quem lhes pode levar a mai isso? Houve alguns instantes de silêncio, no fim dos quais a morgainha disse mais jovialmente : — Mas afiancei há pouco que não partiria. Acaso me enganei ? Augusto, como o leitor concebe decerto, já não tinha ânimo nem razão para dizer que partia. Calou-se.

Ângelo, a cuja pronta inteligência não tinha ficado latente o verdadeiro sentido deste diálogo, graças também ao conhecimento que le tinha, havia muito, do coração de sua irmã e do de Augusto, respondeu por ele: — Não te enganaste, não, Lena. Também eu já digo que Augusto não partirá.

E Augusto sem protestar ! Madalena tornou-se de subito mais séria e grave do que até ali, e a mesma gravidade tinha na voz, quando de novo se dirigiu ao irmão, dizendo : — Para vir aqui, pedi o auxílio do teu braço de criança, Angelo, como se fora o de um homem. Deixa-me considerar-te por mais algum tempo ainda da mesma maneira, enquanto não termino a minila missão.

Há pouco, depois que me leste a carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: «Que tencionas fazer?» Não é assim? — Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te acompanhasse aqui.

— Hás-de ter já percebido que o pensamento que me obrigou a este passo, que não sei se me deverão censurar, creio até que devem, que esse pensamento não está cumprido ainda. , — Vejo que não.

— Pois é diante de ti, Ângelo, que considero como um homem, como um bom conselheiro, é diante de ti como seria diante de quem quer que ai estivesse em teu lugar a ouvir-me, que eu vou concluir o meu pensamento.

E voltando-se para Augusto, Madalena acrescentou, com firmeza, que só um demasiado rubor trairia, se a luz fosse bastante para o denunciar.

— Augusto, está pobre, sem família, sem amigos, e, para última provação, até as traições e as suspeitas lhe não pouparam o nome honrado que herdou. Essa posição dá-lhe direitos que eu sei compreender, creia. É uma espécie de nobreza, de que se não pode exigir humilhação alguma. Por isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de Ângelo estender-lhe a mão e dizer-lhe que se, como tenho razão para crer, as simpatias de uma alma que há muito o compreende, Augusto, se essas simpatias podem bastar às aspirações da sua, se para ganhar coragem, os meus afectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma... e dos meus afectos. É diante de ti, que faço esta confissão, Ângelo. Terás que me ralhar por causa dela? Ao ouvir aquelas palavras, Augusto esqueceu toda a hesitação e tomando entre as suas a mão que Madalena lhe estendia, cobriu-a de beijos apaixonados.

Madalena nao teve pressa de retirá-la.

Ângelo veio também beijar as faces da irmã. Era assim que respondia à pergunta dela.

Pobres crianças! Porque afinal eram crianças todos três, crianças a quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que, ao transplantá-los para a vida real, todos os desconhecem e censuram, e só regando-os de lágrimas é que as mais das vezes se consegue nutri-los.

XXXIII O olhar de Augusto radiava já com o vivo fulgor da alegria.

— Obrigado, Madalena, deu-me a vida com essas palavras geneosas.

Deixe-me adorá-la, anjo, anjo libertador ! Compreendo os devees que tenho a cumprir. Hei-de ter força para conquistar as provas a minha inocência. Preciso agora delas; hei-de obtê-las, e depois...

Aqui reteve-se de súbito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe e novo o rosto.

Madalena, como se o compreendesse, concluiu: — E depois sou eu quem tem o direito de exigir que não parta.

Bem vê que, depois do passo que dei, se algum escrúpulo ou orgulho pesasse no seu coração, Augusto, seria uma dolorosa ofensa que me fàzia. Aceitou a mão, que eu com lealdade lhe ofereci ; a lealdade obriga- o agora a seguir o caminho do Mosteiro.

Depois de alguns instantes de reflexão, Augusto respondeu outra vez com firmeza : — Tem razão, Madalena. Terei coragem para cumprir o meu dever.

Escusado é dizer que o Herodes teve de partir só O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto tão inesperada companhia, mas não lhe foi dificil, depois do que viu ouviu, conjecturar qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar e resolução o seu companheiro de jornada.

Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos.

Estes nao conseguiram dissuadi-lo de partir.

Não havia já estimulo para arrancar aquele coração ao desalento.

Madalena e Ângelo voltaram ao Mosteiro.

O resto da noite de Augusto passou sob a influência de tão vioentas paixões, que desisto de descrevê-las.

manhã do dia seguinte estava toda a família de Madalena, na qual incluímos ]á D. Doroteia e Henrique, reunida em uma das salas do Mosteiro.

As duas primas, Madalena e Cristina, trabalhavam em costura; Angelo e Henrique, jogavam o xadrez; D. Doroteia e D. Vitória, conversavam a respeito do preço de umas meadas de linho, que esta tinha dado a corar, e da péssima qualidade do fiado, efeito evidente, segundo D. Vitória, das criadas que tinha, que nem para fiar serviam. O conselheiro examinava distraído vários memoriais e cartas de empenho, que recebera, já a pedir empregos e graças em paga dos serviços eleitorais, às vezes hipotéticos.

A cada passo, porém, Madalena suspendia o trabalho para olhar para a porta da sala, principalmente quando nos 'imediatos aposentos se escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que não com menor freqüência os desviava das pedras do tabuleiro para encontrar os da irmã.

Henrique também, de quando em quando, tinha que perguntar a Cristina, e esta para lhe responder, julgava-se obrigada também a afastar os olhos da costura.

D. Vitória e D. Doroteia não era raro meterem-se na conversa dos outros, de onde fácil transição achavam logo para voltarem aos seus assuntos favoritos : meadas e criados.

O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou fazia notar alguma mais exorbitante pretensão de tantas que examinava.

Era evidente que todas aquelas cabeças estavam pouco preocupadas com os assuntos aparentes das suas cogitações.

— Ó Lena ! — dizia Cristina, que pela terceira vez chamava a prima, sem conseguir ser ouvida — que tens tu esta manhã ? Que distracções são essas, que não respondes quando te chamam? — Pois falaste-me? — É o que eu digo ! Ó menina, há que séculos te estou eu a perguntar em que tempo é que as laranjeiras têm flor? — Ah! Criste!—acudiu o conselheiro do lado, sorrindo. — Esse pensamento é linguareiro ; ficamos todos sabendo aquilo em que tens estado a cismar.

Cristina corou intensamente, ao perceber o sentido das palavras do conselheiro, e tentou defender-se, dizendo: — Ora, não era isso, tio. Eu perguntava, porque ..

— Sossega, quando o véu estiver pronto, a laranjeira não nos faltará com ramos e flores.

— Não, mano — disse D. Vitória — olhe que se não trata de ver o que está dando nas laranjeiras, dentro em pouco não há uma só na quinta. Que também para serem comidas as laranjas pelos criados...

Porque quase que são só para eles. Não que não faz idéia!...

E continuou com D. Doroteia a narração dos abusos de que os criados eram culpados.

Dai a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar.

— Esta é galante ! — disse ele, examinando uns papéis e rindo.

— Ora oiça isto, Henrique. Aqui está um homem que deseja que eu lhe empregue nada menos do que sete sobrinhos que tem. Sete ! É uma geração como a de Jacob; se estivéssemos na corte de Faraó!...

— Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministério completo — disse Henrique.

— Oh ! oh ! — disse o conselheiro, passados alguns momentos.

— Cá está o meu amigo Pertunhas, teimando com o lugar de recebedor.

— Pois o maroto ainda se atreve ? — E que despesa de estilo que faz ! É uma ode congratulatòria em prosa.

Nestas entremeadas conversas e diálogos curtos e interrompidos passou-se o tempo até à chegada do correio, sucesso que marca época uma manhã passada na aldeia.

Naquele dia sobretudo eram esperadas com ânsia as cartas e os periódicos, que deviam trazer notícias do resultado das eleições dos diferentes círculos tío País.

O conselheiro já por três vezes consultara o relógio, estranhando que o correio se demorasse.

Enfim, chegou. O conselheiro pôs de lado os memoriais e requerimentos ; Henrique deu súbito desfecho ao jogo com um lanço absurdo, ambos se precipitaram sobre os periódicos e cartas ; Angelo veio encostar-se ao espaldar da cadeira de Henrique.

O conselheiro principiou por 1er uma carta.

Henrique rompeu a cinta do primeiro periódico.

— Oh ! oh ! — disse o conselheiro, logo às primeiras linhas que eu. — Temos crise ministerial. As eleições foram pouco favoráveis ao governo; perderam-se em quase toda a parte! — Assim também se depreende do estilo em que vem escrito este artigo de fundo — disse Henrique.

— Dizem-me nesta carta que já se fala em que o ministério vai pedir a sua demissão.

— Este artigo alude apenas a uma reconstrução do gabinete.

— «O Governo — prosseguiu o conselheiro, lendo — nem espera pela constituição da câmara e cai por estes dias, infaliveimente. Quando você receber esta, já talvez ele pertença aos livros findos.» — «Diz-se que há para esta noite conselho de ministros para resoler sobre qual o seu procedimento, visto a índole provável na futura câmara» — lia Henrique no periódico, que logo em seguida pôs de ado, para consultar outro.

— «Não imagina — continuava o conselheiro, lendo a carta — o movimento de ambições que vai já por aqui». Ora se não imagino! — Um número do Sufrágio Nacional !—exclamou Henrique, abrindo segundo periódico. — Provavelmente é alguma amabilidade que lhe dirigem, sr. conselheiro; eles que lho mandam! — Sim, decerto. como da outra vez. Veja lá — disse o conselheiro sorrindo — aos moribundos tudo se perdoa.

Henrique correu a vista pela folha, para saber o que motivara a emessa dela para o Mosteiro, onde não costumava vir.

— Ah ! temos correspondência cá da terra ! — exclamou por fim.

— Deve ser isso. Já tardava. É o comunicado do Seabra. Leia, que são curiosos. O homem a apreciar as eleições de domingo deve ser soberbo. Isso não se pode perder. Leia, leia — Assina-se Um eleitor indignado.

— Justo. É o estilo do homem. Vamos lá ver isso.

Henrique principiou a 1er em voz alta o comunicado do brasileiro.

A peça literária, de precioso lavor, em que o Sr. Seabra contava ao mundo os factos eleitorais da sua terra, muito desejaria eu transcrevê- la aqui, se, pela sua extensão, não tomasse demasiado espaço, e se, pela sua unidade e estreita ligação lógica, se não subtraísse à menor tentativa de fragmentação.

Aquele comunicado era indivisível.

Apesar desta forçada omissão, espero que os leitores farão a justiça de supor o escrito digno do distinto economista, que ouvimos discursar com tanta proficiência na taberna do Canada.

O homem escrevia recheado de indignação pela série de ilegalidades, escândalos, subornos e pressões de todo o género, de que.

dizia ele, fora teatro aquela pacífica aldeia do Minho.

„ Em linguagem chã e rude ia tornar patente, acrescentava, aos olhos de todos uma pestifera chaga do organismo social. Sofismara-se a urna e calcara-se aos pés a Carta. As frases em itálico são dele, Depois de um exordio por esta afinação, em que fazia a conveniente razão de ordem, entrava o homem na matéria. Era um modelo .de impertinente bisbilhotice o escrito; desfiava-se ali a vida de todos os eleitores com uma minuciosidade esmagadora.

Coniava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquilo ao sobrinho de Sicrano, e como tal indivíduo fizera e acontecera; e como tal disse que havia de fazer, e não fez ; e como aquele nem disse nem fez ; e como aqueloutro dissera e fizera, e assim por diante. Um dos mais maltratados era o Sr. Joãozinho das Perdizes. Dizia o autor da correspondência que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera pressão sobre os eleitores da sua freguesia; que era homem de péssimos costumes e moral depravada; jogador, bulhento, beberrão cheio de dívidas, amigo de malfeitores, etcefera.

O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas.

O comunicado passava depois a ocupar-se com o mestre Pertunhas.

O brasileiro não lhe perdoara a pressa com que este celebrara a vitória do conselheiro, à frente da filarmónica que regia.

Por vingança chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a raiva lhe sugeria, inclusive o de estafador de trompa, e fechava por estas memoráveis palavras : «Para levar à evidência o carácter infame e intrìguista deste sevandija, basta que diga que foi ele que, poucos dias antes, subtraiu de uma pasta aquela célebre carta política, que tanto deu que falar no Pais.

E este homem exerce o cargo de administrador do correio. Proh pudor! como o leitor imagina, esta parte da correspondência produziu sensação no auditório.

Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quase todas as bocas uma exclamação de surpresa ou de alegria.

— como é?... como é?...—perguntou o conselheiro. — Diz que...? — É o mistério que se explica — respondeu Henriaue.—A traição encarrega-se de a si própria se desmascarar.

— Então foi o Pertunhas? !... Mas... diz-se que tirou a carta de uma pasta! — Era a de Augusto.

— Mas como estava ela aí ? — Lá isso sei eu como foi — disse D. Vitória — fui eu que, por engano, lha tinha dado junta com outras para ele escolher alguma para a leitura dos pequenos.

Cristina celebrou a descoberta, beijando com efusão a morgadinha, e dizia: — Venceste,- Lena! agora está bem provada a inocência dele, até para os que mais duvidavam ! — E quem não duvidaria? — acudiu o conselheiro, como para se desculpar da desconfiança.

— Quem o conhecesse bem, meu pai — respondeu Madalena, a quem a comoção recebida dava animação ao olhar e ao semblante. — Eu e Ângelo, por exemplo.

— E então eu? —acrescentou Cristina. — Eu não entro na conta ? Esta reclamação valeu-lhe da parte da prima a paga do beijo que recebera.

— Olhem o pobre rapaz ! — dizia D. Vitória, sinceramente consternada.— E eu que o tratei tão mal! Bem me dizia ele: «Não tenha pressa de dizer nada a seus filhos, minha senhora, não lhes ensine a duvidar de um homem que eles se costumaram a amar e a respeitar».

E o caso é que eu, desde que lhe ouvi dizer aquilo, de um modo tão sério e triste, fiquei ressentida, e não disse nada às crianças, que todos os dias me perguntavam ainda por ele.

— Mas...—dizia D. Doroteia, deveras embaraçada — eu não sei ainda bem do que se trata. Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o quê ?...

— Ó tia Doroteia! — atalhou Henrique— por quem é, não insista na pergunta. Depois que se sabe que uma suspeita é falsa, não há nada que mais escalde os lábios do que obrigá-la de novo a passar por eles.

— Tens razão, menino. E que precisão tenho eu de saber uma coisa que não é verdadeira ? Mas na verdade ! Suspeitaram de Augusto ! Ah! Henrique, está-me a parecer que também tu tens esse pecado a pesar-te na consciência. Ora anda lá.

I — Não, tia. Há muito que lhe faço justiça. Ao princípio não digo que não. Mas durou pouco tempo e já estava arrependido. Augusto convenceu-me pela maneira com que me falou, convenceu-me sem provas : e até se, em expiação, me não pus em campo a auxiliá-lo a justificar-se, é porque ele exigiu que me abstivesse disso, e depois, o meu desastre... quero dizer — emendou, olhando para Cristina — a felicidade que me procurou sob a forma de doença...

Cristina pagou-lhe com um sorriso o galanteio.

O conselheiro, que ficara pensativo depois das primeiras reflexões que lhe ouvimos fazer, disse suspirando : — Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei àquele rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de fazer? As aparências eram-lhe contrárias!... E depois, nesta vida de política, aprende-se tanto e tão depressa a duvidar! É sorte minha! Homens, a quem eu estimava deveras, foram exactamente os que mais fiz padecer ! Senão, vejam : o ervanário, meu companheiro de infância, e que sempre me teve amizade, apesar das aparências rudes de que a revestia, dispuseram-se as coisas de modo que o privei da casa em que nasceu e talvez lhe apressasse com isso a morte... E ele, coitado, vingou-se nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais me sairá da idéia aquela cena da igreja. Augusto, um rapaz que conheci pequeno, e já então de viva inteligência e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou para o perder, e não só o privei do modesto lugar que ele exercia, mas até levantei contra ele uma acusação infamante, e quase o expulsei de minha casa .. É triste que a vida política me tenha obrigado a estas crueldades ! Preciso de compensar de alguma sorte o mal que fiz. De que maneira lhes parece melhor? — Eu se fosse — disse D. Doroteia — fazia como a morgada, e o rapaz, em vez de vir a ser só padre, havia de se formar em Coimbra, como o reitor de Friande...

— Isso era se ele quisesse ser padre ; — acudiu D. Vitória — mas parece-me que não quer. Nada, nada, eu o que fazia era demitir aquele velhaco do Pertunhas, e dava a este o lugar de mestre de latim, e arranjava que ficasse também com o correio. Ora anda, já que o outro foi tratante !...

O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e não pôde deixar de dizer: — Nesse caso deixava só ao Pertunhas a regência da filarmônica? E tu, Lena, qual é a tua opinião? Madalena respondeu sem vacilar: — A minha opinião é que o pai deve ir a casa de Augusto pedir- -lhe humildemente perdão pela ofensa que lhe fez.

— Mas involuntária — ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que não pôde bem disfarçar.

— Mas ofensa — repetiu Madalena, sem que o sorriso dissipasse totalmente a força da expressão.

— É um pouco dura de cumprir a sentença, sobretudo esse advérbio humildemente... Não lhe parece? — perguntou o conselheiro, voltando- se para Henrique.

— Eu tinha vontade de dizer também a minha opinião — respondeu Henrique; — mas receio certos melindres... Contudo, parece-me que encontraria uma recompensa, que poderia fazer esquecer a Augusto a ofensa e dores muito mais pungentes do que as que sofreu em virtude desta desagradável ocorrência.

— Qual é ? — perguntou o conselheiro.

Henrique olhou para Madalena, respondendo: — Repito que tenho escrúpulos em dizê-lo, porque talvez não seja eu o mais competente para o fazer.

— Tem razão, primo — disse Madalena. — Ele próprio o dirá.

É mais natural.

— Mas sabe-lo também tu, Lena ? — Sei.

— Então diz-no-lo. Melhor para mim, se puder prevenir desejos.

Madalena hesitou.

— Vamos, Henrique — disse Cristina, sorrindo — não esteja com tantos escrúpulos. Diga o que pensa.

— Pois quer? mas se sua prima me não perdoa? — Eu o protegerei. Fale.

— Então, Criste ? — tornou Madalena.

— Bem; nesse caso... Visto que mo ordena quem pode.

— Fale, fale—disseram a um tempo o conselheiro, D. Vitória e D. Doroteia.

— Falarei. A recompensa a que Augusto aspira é a de fazer parte da família de... da nossa família—respondeu Henrique, olhando para Madalena, que já não tentava retê-lo.

— De fazer parte da nossa família ? — repetiu o conselheiro. — Mas como? — como há-de ser? visto eu não estar resolvido a prescindir de.

Cristina, e Mariana ser ainda criança, fácil é de conjecturar o único meio que ainda resta de realizar aquela pretensão.

O conselheiro compreendeu afinal e, fitando Madalena, pôs-se a rir, dizendo: — Pobre rapaz ! Pois meteu-se-lhe isso na cabeça ? — Mas que é afinal ? eu não entendo — dizia, embaraçada, D. Vitória.

— É uma coisa muito simples — respondeu Henrique. — Augusto sentiu o efeito dos encantos da minha prima Madalena, mas sentiu-os a ponto de ligar a eles a sua felicidade, e de cair em adoração para com a magnetizadora.

Esta explicação foi recebida com espanto por D. Vitória.

— Ora ! está a brincar, primo Henrique ? Não ouve aquilo, prima Doroteia ? • — Mas que é, que é ? — perguntou esta.

— Dia que o Augusto aspirava ..

— Perdão, eu disse que o Augusto adorava e não aspirava. Quem pode tomar contas a um coração do culto que ele guarda religiosamente em si ? A prima Lena é adorada por aquele rapaz, isso afirmo eu, porém...

— É possível ! — exclamou também D. Doroteia, espantada. — Por essa nao esperava eu. Olhem para o que lhe havia de dar! Pobre Augusto ! O conselheiro ria ainda da notícia que recebera.

Madalena corou ao ouvir todas aquelas exclamações de estranheza.

Cedendo ao impulso enérgico do seu caracter impetuoso e apaixonado, disse com vivacidade: — Não sei que haja no que diz o primo Henrique, nada que mereça esses espantos. Pois quem sou eu afinal? Que distância me separa da humanidade, para que se tenha por um desacato uma afeição que inspire? É verdade. Julgo que não se enganou o primo Henrique. Também eu descobri esse afecto em Augusto. Nasceu-lhe no coração e não na cabeça, meu pai. Há muito que o sei, e nunca a descoberta me causou o espanto que vejo nos outros. Digo mais, causou-me orgulho.

Orgulho, sim, porque é natural senti-lo por ter inspirado sentimentos daquela ordem a um carácter generoso que, experimentado pelo infortúnio, saiu sempre da prova mais nobre e mais puro do que dantes.

O conselheiro, que ouvira a filha com impaciência, acudiu, em tom profundamente irritado: — Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. Vê lá se me queres fazer acreditar que a vida da aldeia te estragou o natural bom senso, até ao ponto de tomares a sério fantasias e criancices.

— Não é fantasia nem criancice, é uma resolução de mulher —• respondeu Madalena, com firmeza.

— uma resolução de criança, que está na minha mão remediar ,— tornou o conselheiro, como quem desejava cortar o incidente.

Porém para o gênio de Madalena já não era possível recuar nem parar ; replicou : — Talvez não. Deixe-me então dizer-lhe tudo, meu pai. Augusto nunca me revelou esse segredo do seu coração. Adivinhei-lho eu.

Longe de procurar ser entendido, ocultava-se e fugia; ainda ontem estava resolvido a deixar a aldeia para sempre.

— Mas ficou — notou o conselheiro com ironia.

— Ficou — respondeu tranquilamente Madalena — porque eu lhe pedi que ficasse.

O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a filha com olhar severo e interrogador.

A morgadinha prosseguiu com uma serenidade, que ocultava um esforço interior: — Ficou, porque eu lhe disse que o havia compreendido e que aceitava a afeição desinteressada e pura que ele guardava no coração ; ficou, porque eu, que só tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e que o sabia tão leal como pobre, tão inocente como perseguido pelo infortúnio eu, que o vi quase expulsar desta casa, sob o peso de uma acusação em cuja verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir eu própria procurá-lo para lhe estender a mão e dizer-lhe: «Fique, e prometo-lhe que todos lhe farão justiça em breve».

Quando Madalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e exaltação crescentes, ninguém ousou falar na sala ; e os olhos de todos dirigiram-se quase instintivamente para o conselheiro.

Cristina tremia ; as outras senhoras pasmavam ; Henrique e Angelo sentiram-se profundamente inquietos.

Todos viram passar por diferentes cores as taces do conselheiro, os lábios agitaram-se num tremor convulso, e com a voz evidentemente alterada pela cólera, disse para a filha, passados alguns instantes: — Pois saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga estouvada, há meios mais racionais do que esses que parecem naturalíssimos à sua razão estragada pelos romances. Eu ainda não prescindi da minha autoridade paterna, e ela me servirá para corrigir essas levezas, de que deveria envergonhar-se.

Esta cena de família aumentava cada vez mais a dificuldade da posição de todos os que estavam presentes. Ninguém ousava intervir, ou, desejando-o, ninguém sabia a maneira de o fazer.

Entre as falsas situações, em que nos achamos às vezes nesta vida, poucas se podem comparar no incómodo que produzem, à de assistir a uma questão doméstica, por qualquer motivo que seja originada.

Quem se conservou daquela vez menos inactiva foi Cristina, que prendeu Lena nos braços, não sei se para instintivamente a defender, se para reprimir-lhe o ímpeto de reacção que receava nela.

A morgadinha efectivamente repeliu-a com brandura de si e respondeu ao pai : — As vezes aos caracteres levianos estão confiadas tarefas generosas.

Cabe-lhes sanar muitas injustiças que por cálculo os mais reflectidos, e por isso mais desconfiados, praticam sem piedade. Não me envergonho nem arrependo do passo que dei. Não fiz mais do que salvar do desespero uma alma nobre e magnânima, que, se se perdesse, talvez um dia a sua consciência, senhor, o acusasse de não ser inocente nessa perda. Quis evitar-lhe remorsos, meu pai. Se isto foi leviandade, que os anos ma não dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro ser leviana assim, a ser cruel como...

O pai atalhou-a e, cada vez com mais veemência, replicou: — Pois siga, se quiser, a sua fantasia, senhora, mas ierá de escolher entre os seus caprichos e a minha aprovação. F'que certa que, com o consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem família e sem posição, especulará com o estouvamento de uma herdeira rica, que, tão esquecida do que deve a si e aos seus, não hesitou em o procurar na própria casa, sem reparar que estava sendo vítima de uma comédia armada à sua crédula sensibilidade.

Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguém mais na sala.

Era Augusto.

Da sala próxima, onde chegara muito antes ouvira ele o que o conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu venceu-lhe tôda a hesitação e obrigou-o a entrar.

O conselheiro reparando de súbito nele, interrompeu-se e parou, Augusto respondeu-lhe então com dignidade e tristeza: — Esse rapaz pobre, sem posição e sem família, tem nesse tríplice infortúnio outros tantos títulos para ser respeitado dos felizes, como V. Ex.a, e eu não prescindo desses direitos.

O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse responder a Augusto. A. irritação ditava-lhe uma violenta resposta, mas já lho não permitia a consciência.

Augusto continuou : — Sei que V. Ex.' está já convencido de que as suspeitas, que pesavam sobre mim, eram injustas. Nesse periódico, que ainda tem na mão, vêm as provas da minha inocência. Vi-o em casa do Seabra, de onde venho agora. Procurei-o, decidido a saber toda a verdade por qualquer preço que fosse ; ele não ma negou ; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui, sr. conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo, antes que me expulsassem dela como infame, esperava encontrar a receber-me a justiça e a amizade... Enganei-me; em vez delas, foi o insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu encontrei ! — Menos justificado ? — repetiu o conselheiro, azedadamente, — Menos justificado, sim, muito menos ; porque V. Ex.a podia julgar- me criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas nao tem o de duvidar de sua filha; porque a Sr.a D. Madalena pedindo a seu irmão que a acompanhasse a casa de um pobre, que ela sabia ser vítima de uma imerecida acusação, e a quem o desalento e o desespero faziam sucumbir, não se esqueceu do que devia a si e aos seus; pelo contrário, aos seus devia aquele acto de sublime generosidade, porque das mãos dos seus viera o golpe que me ferira. Eu tinha sido expulso desta casa, sr. conselheiro, como um miserável e infame ; os filhos de V. Ex.ª, que sempre foram meus amigos, a quem V. Ex.* ensinara a sê-lo, vieram à minha dizer-me : « Não parta, deve à nossa confiança a justiça de ficar».

— É verdade — disse Ângelo — eu acompanhei Madalena. O pai diz-me muitas vezes que não tenha pressa de principiar a duvidar ; eu não podia principiar por Augusto. Não duvidei.

O conselheiro respondeu a Augusto com reserva e mal disfarçado despeito, ainda que em tom moderado: — Sei que fui injusto consigo, Augusto, e sinto-o do coração, creia.

Ainda que as aparências o culpassem, arrependo-me de não ter tido mais força a minha confiança para não ceder. Peço-lhe por isso... humildemente...

perdão, Iria a sua casa pedir-lho se não viesse aqui. Que mais quer? Acha-se com direitos a exigir mais? Será isso motivo para antever realizadas loucuras de rapaz?...

Augusto não o deixou continuar.

— Oiça-me, sr. conselheiro — disse ele plàcidamente — diante de todas as pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar, patentearei o meu coração. É verdade que essas loucuras se apoderaram de mim, que desde criança até hoje, tenho sido todo delas ; mas que importam aos outros, se eu comigo as guardava? se nunca por elas regulei os actos da minha vida? Ocorrências imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz sempre por sufocar. Nem ambições me despertou, como meio de realizá-lo, porque nem eu realizá-lo pensava.

Resignar-me-ia a morrer com ele, sem o revelar a ninguém ; mas adivi nhado por quem o fizera nascer, e, deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e correspondido, que muito era que me tomasse a vertigem, e que eu por momentos me deixasse cegar pelo fulgor de imprevistas esperanças? Perdoe-se-me a franqueza. As ilusões duraram pouco; as palavras de V. Ex.' dissiparam-nas... um tanto cruelmente, mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro, que o ser pobre, sem família e sem nome, impõe também uma certa ordem de deveres, a que eu serei fiel. Não é o de humilhar-me, é o de manter a única dignidade que me resta, a dignidade moral. Já vê V. Ex.ª que se enganou de duas maneiras : nem da parte do rapaz pobre houve especulação, nem da parte da herdeira rica estouvamento.

E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se respeitosamente diante do conselheiro, e ia a sair, depois de lançar a Madalena um extremo olhar de despedida.

A morgadinha, porém, ergueu-se, e, apesar dos esforços de Cristina para a reter, veio colocar-se no caminho de Augusto, e estendendo- lhe a mão, disse : — Não saia, Augusto. Em nome de meu pai lhe peço que não saia.

— Madalena ! — disse o conselheiro com severidade.

— Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de remorsos ; sim, em seu nome, porque hei-de fazer-lhe ouvir a voz do coração, que tantas vezes desatende, arrependendo-se amargamente depois.

— Madalena ! — repetiu o conselheiro com mais força.

— Minha senhora ! — disse Augusto.

Porém a morgadinha obedecia agora inteiramente à veemência do carácter apaixonado.

— Sinceramente revelei há pouco os sentimentos do meu coração ; todos me ouviram ; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma franqueza e lealdade com que nós o fazemos; poderá confessar a natureza dos escrúpulos que o obrigam a essa resistência? Não se envergonharia deles? E quer que lhe obedeça! mas obedecer- lhe seria ofendê-lo, porque seria acreditar na constância dessa má paixão que o domina, e no seu bom coração não pode ela durar muito tempo.

O conselheiro, no auge da irritação, ia talvez a responder violentamente.

Cristina e Angelo tinham-se aproximado de Madalena ; as outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as primeiras tentativas conciliadoras ; Henrique meditava um plano de intervenção, que ele supunha já indispensável, quando um incidente veio interromper esta cena e modificar a feição crítica do caso.

O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao serviço de um proprietário da vila próxima. Este criado era portador de uma mensagem para o conselheiro.

O velho Torcato tinha adormecido na sala imediata; o lacaio dispensou- se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar à presença do conselheiro.

A chegada do lacaio acalmou a tempestade doméstica, que principiava a carregar-se.

O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim daquela visita.

O criado respondeu: — Venho para entregar a V. Ex.ª esta parte telegráfica, que chegou a meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira que não pôde mandá-la com elas.

O conselheiro, agitado ainda, pegou no pape!, que o mensageiro lhe deu, e correu-o com a vista.

Imediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos.

Acabando de 1er, disse ao criado, que esperava resposta: — Diz a teu amo que recebi, e que pode responder que sim.

O criado saiu.

Neste meio tempo as senhoras e Cristina rodeavam Madalena e combinavam um projecto de harmonia doméstica. Angelo e Henrique desempenhavam-se junto de Augusto de quase idêntica tarefa.

O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegràfica, enquanto que uma visível satisfação se lhe desenhava no semblante.

— Leia e admire — disse ele.

Henrique leu, e não reteve uma exclamação de surpresa.

A parte dizia : «Avise o conselheiro Manuel Bernardo para quanto antes se apre- • sentar em Lisboa. Estou encarregado de organizar ministério e quero que ele aceite uma das pastas.» Assinava-a um dos mais notáveis vultos políticos do Pafs.

Henrique, que sabia o valor de certas oportunidades, e a quem a surpresa da notícia não fez esquecer a crise doméstica a que assistira, disse, logo que acabou de 1er, e dirigindo-se a Madalena: — Prima Madalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os emboras pela sua nomeação.

A palavra «ministro» produziu sensação na sala.

D. Vitória exclamou : — Ministro! Pois quem é que está ministro? O mano? .. Ora, sim senhor! acertou sua majestade!...

— Mas... Valha-nos Deus! O ponto está que não façam por ai alguma revolução para o deitar abaixo — acudiu D. Doroteia, em cujo ânimo os factos das nossas dissensões civis tinham deixado sinistras jdeias ligadas à palavra ministro.

Madalena, Ângelo e Cristina correram a abraçar o conselheiro; Henrique reteve, porém, os dois últimos dizendo: — Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma mercê a S. Ex.», e à primeira não há caracter de ministro que não ceda.

O conselheiro sorriu já.

Madalena beijou-lhe a mão, e o pranto, provocado pela violência das cenas anteriores, e até ali a custo reprimido, rebentou agora abundante, banhando as mãos do pai.

Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o não deixar sair da sala.

O coração do conselheiro não era de pedra. Duas causas poderosíssimas conspiravam-se para abrandá-lo. como homem político, havia a satisfação da máxima ambição de todos, a notícia de ser chamado ao ministério. Nos momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso coração, abrimo-nos às simpatias para com os desejos dos outros ; se de nós depende realizá-los, cedemos de boa vontade. como pai, havia as lágrimas da filha a convencê-lo, e a eloqüência deste argumento das lágrimas em olhos de mulher, é geralmente sabida ; quanto mais se a mulher é jovem e bela ! quanto mais se a mulher é filha! Sem o menor vestígio da irritação anterior, o conselheiro ergueu Madalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente: — Porque choras tu, Lena ? Criança ! Então prometes-me ser muito feliz, se eu te deixar fazer as tuas loucuras? • Madalena respondeu-lhe, abraçando-o afectuosamente, e beijando- o.

Há argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa contra as severidades de um pai? O conselheiro beijou também paternalmente nas faces a filha, e voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quase afectuoso : — Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustiça e do mal que lhe fiz, tornando-ma venturosa. É a única vingança à altura da sua alma.

Augusto não teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho tentassem lutar1 ainda com o amor, sufocá-los-iam os esforços combinados da Cristina, de D. Vitória e de D. Doroteia, que o arrastaram quase para junto do conselheiro.

E tôda aquela família, em que não havia naquele momento um só coração triste, confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e patético grupo, que pode desenhar um artista.

Para mais tocante confusão ainda, as crianças que voltavam dos seus brinquedos na quinta, entraram então na sala, e de boa vontade se associaram àquela manifestação de alegria, sem querer saber o que a motivara.

São assim as crianças. Alegres por instinto, saúdam as cenas alegres sempre que as vêem, sentem-nas antes de as explicarem.

Foram inumeráveis os beijos, os abraços, as palavras de afecto, os sorrisos, as lágrimas, as exclamações pueris que se trocaram entre os diversos actores desta cena de família.

Chegado a este ponto da minha narração, nada melhor posso fazer do que deixar à imaginação dos leitores concluí-la.

Haverá algum tão malfadado, que na sua vida não tenha visto representada uma cena assim? Esse mesmo, se existe, obriga-me a não prosseguir.

O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-ia o desconsolo da alma, de que por certo é vítima.

Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a riarração, vê-lo-iamos abafado pelos sons revolucionados e anárquicos da filarmônica da terra, que não tardará a festejar a nomeação do conselheiro, e sobretudo pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba verdadeiramente épica, e capaz de mudar a cor ao gesto, como a de que fala o poeta.

Fechemos, pois, aqui a história, dando apenas sucinta conta dos acontecimentos ulteriores.

CONCLUSÃO O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfação de ânimo dos meus leitores, que, sob a direcção dos talentos e aptidões do novo estadista, se locupletou a fazenda pública, prosperou a agricultura e a indústria, refulgiram as artes e as letras ; e que Portugal, como a Grécia, sob Péricles, causou o assombro das nações do mundo.

Mas receei que, fantasiando no nosso país um governo fecundo e próspero, a inverosimilhança do facto prejudicasse no espírito dos leitores a dos outros episódios narrados, e lhes entrasse com is;o a desconfiança no cronista. Resolvi pois ser franco, declarando que sob a direcção do conselheiro e dos seus colegas, Portugal regeu-se, como se tem regido sob as dúzias de ministérios, que nós todos havemos já conhecido.

O conselheiro, já ministro, voltou lempos depois à aldeia, para assistir aos casamentos de Madalena e de Cristina, que se verificaram no mesmo dia, Cristina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com D. Doroteia, que nao podia resignar-se a viver só.

Sob a superintendência do novo administrador, transformou-se completamente a quinta, e é hoje uma das mais rendosas e bem geridas propriedades daqueles sitios.

Henrique, o elegante do Chiado, o freqüentador do Grêmio e de Sao Carlos, está um rico e laborioso proprietário rural. Apaixonou-se pela agricultura, e promete realizar o tipo do antigo patriarca.

Cumpriu-se a sua visão.

Das mil e uma moléstias, com. que saíra de Lisboa, já nem memória lhe resta.

Cristina, além de ser adorada pelo marido, vê-se rodeada pelo amor e carinhos de D. Doroteia e de Maria de Jesus, as quais, sem o menor despeito, a viram tomar o ceptro da realeza doméstica, que usa com adorável brandura, desenvolvendo de dia para dia os seus talentos de mulher. 4 No Mosteiro não correm pior as coisas, sob os cuidados de Augusto e de Madalena, que aí ficaram, por exigências de D. Vitória.

Augusto, além de se ocupar de agricultura, alimenta a imaginação, já não a fazer versos, mas em outra forma de poesia : a organizar a escola sob bases mais racionáis, e dotação mais fecunda ; a generalizar e educar os processos agrícolas; a implantar indústrias novas.

É assim que a sericultura, graças aos seus cuidados, é hoje ali cultivada com bons resultados, e outras já principiam a ensaiar-se.

Madalena é sempre a mulher que foi; se é que as nobres qualidades já reveladas nos seus actos de juventude, não se vão caracterizando ainda melhor, à medida que de mais graves deveres se incumbe a sua missão de mulher. Inteligência temperada por um bom senso natural, que a educação esmerada não estragou, como a tantas acontece, carácter apaixonado, mas de trato afável e insinuante, meiga sem indolência, grave sem severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que não faz sentir a ninguém o peso da obediência.

É hoje quem tudo dirige no Mosteiro ; querida pelos primos, querida por D. Vitória, adorada pelo marido e abençoada pelo povo, que socorre com esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que reina naqueles sítios.

D. Vitória resignou na sobrinha todos os encargos domésticos, salvo o direito de ralhar com os criados, que ela sustenta serem os piores do mundo ; pronta sempre a intervir a favor de qualquer deles, quando despedidos.

Em relação às personagens secundárias desta história, pouco teremos a dizer.

O brasileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que entrou para o ministério, mandou lavrar o decreto em que se nomeava visconde de não sei quê o seu antigo inimigo. Foi este o primeiro acto político do gabinete, que o País ingrato teve a sem-razão de nao aplaudir.

O brasileiro, em paga, entrou com Augusto em competência de melhoramentos locais, com grande proveito da aldeia, O Sr. Joãozinho, em vista desta fusão de partidos, achou-se incorporado na liga, e em pouco tempo teve ocasião de demonstrar de novo a sua influência eleitoral, trazendo compacta à uma a freguesia de Pinchões, para reeleger o conselheiro que, pela sua nomeação, perdera o lugar de deputado. Desta vez ninguém lho disputou, e era edificante ver o brasileiro ao lado do Tapadas, esquecidos antigos ódios, votando de comum acordo e de boa harmonia.

A reconciliação entre dois adversários comove sempre a alma.

O Sr. Joãozinho não mudou de hábitos, e cada vez tem mais dívidas, mais cães e mais bebedeiras.

O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbável nas suas funções de ensino e na comissão do correio, odiando os irmãos Vir gilios e desafogando as suas mágoas na embocadura da trompa.

O homem queixa-se de ter sido vítima de uma vingança. Confessa que por brincadeira tirara uma carta da pasta de Augusto, mas que a tornara a colocar no seu lugar, e por isso...

A família Zé-Pereira vai em rápida decadência ; o homem já nem tem força para fazer ressoar o zabumba. É esta uma das que maia deve à caridade de Madalena.

O conselheiro, ainda hoje no gozo imperturbado dos votos unânimes daquele círculo eleitoral, vem de quando em quando retemperar o ânimo exausto nas fadigas parlamentares e nas diversões da capital, no seio da sua feliz família, e volta melhor.

Ângelo, logo que principiam as férias dos seus estudos superiores, corre com alvoroço de criança a gozar na aldeia os dias que ele já pressente terem de ser os mais felizes de toda a sua vida.

A quinta dos Canaviais, à qual andam ligadas suaves recordações dos dois venturosos pares, que os incidentes desta história reuniram, foi transformada por Madalena numa habitação de recreio, onde as duas famílias celebram, durante o ano, algumas festas em comum.

Estes melhoramentos vieram confirmar o título de que Madalena havia muito estava de posse.

E hoje é ela ainda entre a gente do povo conhecida pelo nome de « Morgadinha dos Canaviais ».

 

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