Havia na sala grande obscuridade e um silêncio profundo. Parando, até habituar a vista àquela pouca luz, Margarida chamou, a meia voz, a mulher, a quem ela e a irmã pagavam para tratar do doente.
Ninguém lhe respondeu.
— Pois teria a crueldade de o deixar assim, neste estado! - pensou Margarida.
E apertava-lhe o coração só com a lembrança de tal abandono.
— Maria! - repetiu, elevando a voz.
O mesmo silêncio em resposta.
— Só! coitado!... Só! Que coração o desta gente, meu Deus!
E, com as lágrimas nos olhos, encaminhou-se para a alcova.
Guiava-a o respirar ansioso do enfermo. Mais acostumada já a obscuridade da sala, conseguiu Margarida aproximar-se do leito em que ele jazia.
Com a solicitude de uma filha, inclinou-se a observar o estado do pobre velho; e dando às suas palavras aquela inflexão carinhosa que é o segredo sabido das mulheres ao velarem por um doente estremecido, disse-lhe, unindo quase o rosto ao rosto macilento do moribundo:
— Deixaram-no aqui só? Como se sente? Dormia talvez, e eu vim acordá-lo.
E, ao examinar-lhe assim de perto as feições, estremecia de susto.
Naquela palidez, naquele olhar, nos movimentos dos lábios entreabertos, havia de fato uma significação de assustar.
— Então não se acha melhor? - repetiu Margarida, no mesmo tom de voz, e limpando-lhe a compassiva fronte, da qual um suor frio corria em abundância.
O velho volveu para ela um olhar, que, apesar de amortecido, refletia ainda bem evidente a mais viva expressão do seu estranho afeto, e por um movimento de cabeça, respondeu negativamente à pergunta.
— Coitado! - prosseguiu Margarida, ajeitando-lhe a roupa do leito. - Padece muito, não padece?
O doente moveu os lábios como para articular algumas palavras, mas tão sumido lhe saía já o som, que não se podia distinguir de um suspiro.
Margarida apalpou-lhe as mãos: estavam frias. dessa frialdade de cadáver, que desperta em nós repulsão instintiva. Apesar de toda a sua corajosa afeição a este velho, a compadecida rapariga, ao senti-las assim, ia a retirar as suas; mas impediu-a contração violenta com que lhas segurou agonizante.
Por pouco rompia um grito do seio de Margarida. Figurou-se-lhe, no primeiro momento, que um cadáver a ia prender ao sepulcro.
Venceu-se porém, e deixando a sua mão entre as mãos geladas do velho, e com a outra arredando-lhe da fronte os cabelos brancos, que em desordem a cobriam, continuou:
— Jesus, que soube o que é padecer, há de ter compaixão de si. Ele lhe dará o alívio.
O velho fez um esforço, e fitando em Margarida um olhar, ao mesmo tempo de dor e de saudade, murmurou a custo, e em voz cortada pela respiração:
— Sim... alívio na morte.
— Não diga isso - replicou Margarida, procurando sorrir, mas tremendo-lhe os lábios de compaixão. - Como perdeu assim a esperança? Pois não se lembra de, ainda há dias, combinamos dar uns passeios, que lhe hão de fazer muito bem? Havemos de ir breve; vou eu, a Clara, e o Sr. Reitor também vai, que já mo prometeu. Há de ser à ermida da Senhora da saúde. Se soubesse como lá é bonito! A vista segue, segue, por cima de campos, de devesas, de aldeias, e tão longe, tão longe, que só para no mar. Não se pode estar doente ali; verá.
Um sorriso, sorriso de gratidão e de amargura também se desenhou nos lábios descorados do velho, sorriso como pode ser o dos agonizantes - triste, desalentado, desconsolador.
— Então parece-lhe que não há de gostar do passeio? - prosseguiu Margarida, a quem fazia mal vê-lo sorrir assim. - Que medos são esses agora? Quantas vezes tem já estado, como já hoje, senão pior ainda; e depois melhora. Olhe, vou dizer-lhe uma coisa. Está para poucos dias o casamento de Clara. É preciso pôr-se bom para esse tempo.
O doente tomou uma expressão e agitou os lábios, como procurando falar.
Margarida inclinou melhor o ouvido atenta para conseguir percebê-lo. Entendeu-lhe estas palavras mal distintas:
— Não, nunca senti isto...
— Que o aflige então? - perguntou Margarida.
— Não sei... é aqui... - e com dificuldade elevou a mão ao peito; depois acrescentou: - É a morte.
E dizendo isto, fechou os olhos, como que extenuado pelo esforço.
— Bem sei também do que há de ser isso - prosseguiu Margarida, depois de pequena pausa. - É de estar assim tão sumido pela cama abaixo. Quer que o levante?
O velho fez um sinal de assentimento.
Margarida segurou então por baixo dos braços aquele corpo enfraquecido e descarnado; e suavemente, com cuidado de mãe, com a arte instintiva na mulher, elevou-o para a cabeceira. Mas o aspecto que iam tomando as feições do doente, à medida que ela o levantava assim, intimidou-a e tanto, que precisou de fechar os olhos com medo que lhe falhassem em meio as forças, a que a piedade dera alento.
A palidez aumentava naquele rosto desfigurado; afastavam-se-lhe os lábios para respirar; cada respiração era acompanhada de um gemido.
— Está pior? - dizia Margarida sobressaltada com a mudança. - Sente-se mais mal? Fale. Por que está assim aflito? estava melhor na posição que tinha? Quer que o ajude outra vez a descer?
E inquieta, aterrada por aquela agonia silenciosa, Margarida juntava as mãos irresoluta no que devia fazer. O moribundo parecia que não a escutava. Caiu pouco a pouco num abatimento extremo. A mão, que Margarida lhe tomava entre as suas, já não dava sinal de movimento, nem de vida.
Dissera-se, ao vê-lo agora desfalecer gradualmente, que a morte se aproximaria, lenta, suave, sem paroxismos, como um adormecer, que se não pressente.
De súbito porém alterou-se esta placidez enganosa.
Animado de uma energia, que contrastava com a depressão que, momentos antes, lhe paralisava os membros, tocados pelo dedo da morte, afastou impaciente a roupa, e, elevando as mãos, cruzou-as sobre o peito, ao mesmo tempo que inclinava para trás a cabeça , como em espasmo violento.
Margarida julgou-o morto.
Apoderou-se então dela um terror súbito e profundo. Assustou-a aquela escuridão, aquele silêncio, aquela agonia, e, soltando um grito, correu à porta para pedir socorro.
Ao abri-la, achou-se inesperadamente em face de Daniel, que, por acaso, entrava ali também naquele momento.
Estava muito agitado o espírito de Margarida, para que a presença de Daniel produzisse nela a impressão que, em outras quaisquer circunstâncias, produziria.
No homem, que mais pudera influir-lhe no coração, ela só viu naquele momento, o médico, o socorro, que lhe enviava talvez a providência; e com as lágrimas nos olhos e as mãos juntas, caminhou para ele sem hesitação, sem timidez, cheia de confiança.
— Por amor de Deus, Sr. Daniel, acuda a este infeliz que morre! - dizia ela comovida.
Daniel, surpreendido a princípio pelo inesperado aparecimento de Margarida, num instante recebeu o contágio abençoado da generosidade daquela alma.
A mais leviana cabeça curva-se diante da manifestação sincera duma dor assim: o coração mais volúvel deixa-se penetrar do influxo misterioso da simpatia e cerra-se a outros motores menos desinteressados.
Daniel compreendeu toda a nobreza daquele sentimento , e sentiu-se arrastado por ela.
—Que aconteceu Margarida? - perguntou ele, olhando com atenção para aquelas feições que se recordava de ter conhecido na infância, e agora duplamente realçadas pela poesia dos vinte e três anos e pela poesia da tristeza.
— Venha, venha; - respondeu Margarida - foi Deus que o trouxe aqui! - E tomando-lhe a mão por um movimento ao qual a menor vacilação de suspeita não alterava a firmeza, conduziu-o à cabeceira do moribundo.
— Veja! - disse ela então deixando a mão de Daniel - e salve-o se puder.
A agonia da morte, com que naquele momento lutava o ancião, não permitia conceber esperanças: um simples olhar revelou a Daniel toda a verdade.
— Salvá-lo?! - murmurou sorrindo tristemente e apalpando-lhe o pulso quase sumido.
— Aliviá-lo ao menos! - disse Margarida. - Pois não haverá nada que lhe diminua esta ânsia?
— As suas orações, talvez, Margarida. Tente.
Margarida caiu logo de joelhos, e com as mãos erguidas, e os olhos, donde lhe corriam as lágrimas, fitos no rosto do agonizante, murmurou uma prece fervorosa.
Daniel em pé, do outro lado do leito, contemplava-a com afeto. Não havia muito tempo que, naquele mesmo lugar, ele tinha visto Clara; mas que diversa e mais profunda era a sensação que recebia agora!
A dor, a compaixão, a fé, pareciam transfigurar o melancólico vulto de Margarida; dar vida àquelas feições, de ordinário serenas; fulgor àqueles olhos , languidamente cismadores; movimento aos lábios, que de costume a meditação contraía.
A vida latente dessa natureza delicada e sensível revelava-se em ocasiões destas. Como que um raio de luz divina, descia então sobre aquela beleza, que a luz da terra iluminava mal.
Sentia-se vontade de ajoelhar diante dela; a alma toda ia nesta contemplação, quase extática. Nunca mais se apagava da memória a imagem da simpática rapariga, vista uma vez sob tão prestigioso aspecto.
Lutando entre a paixão e o respeito, ente o amor que sentia nascer em si, veemente como nunca e um vago enleio de timidez, novo para ele, Daniel não podia tirar os olhos daquela saudosa figura de virgem em oração, que lhe parecia quase sobrenatural.
A agonia do velho acalmou, como se por efeito das preces de Margarida. Foi, pouco a pouco, decaindo da ansiedade num profundo abatimento: a respiração fazia-se a custo e com grandes intervalos; a cabeça pendia-lhe desfalecida. Depois os olhos, já embaciados, voltaram-se lentamente para o lugar, onde Margarida rezava ainda; agitaram-se-lhe os lábios, como a balbuciar um nome - o dela; - um sorriso de suave placidez cobriu aquelas feições como do reflexo da felicidade suprema, e um a lágrima, a última, rolou-lhe pelas faces, vagarosa, solitária.
— Veja, veja - disse em voz baixa Margarida para Daniel, sem desviar o olhar do rosto do velho, onde estas mudanças se sucediam rápidas.
Daniel inclinou-se sobre o peito do moribundo, e conservou-se por algum tempo assim.
Ao erguer de novo a cabeça, apenas disse:
— Está morto.
Ao ouvir esta fatal palavra, Margarida, sufocada de prantos, apoderou-se da mão do seu velho amigo, cadáver já, e cobriu-a de beijos lágrimas.
Reinou por algum tempo o silêncio no quarto. Interrompia-o apenas o soluçar da afetuosa rapariga.
— Margarida - disse-lhe enfim Daniel, que estivera presenciando mudo àquela dor generosa - é diante deste cadáver que lhe vou falar agora. Foi Deus que me trouxe a esta casa. Disse-o há pouco, não disse? E foi; creio agora que foi. O lugar é para mim tão sagrado como o interior de um santuário. Não é verdade que ninguém teria coragem para mentir aqui, Margarida? Não é verdade que ninguém pode recear do seu coração, quando o interroga em momentos como este, e o sente forte? É pois aqui, é neste momento que lhe repito, que eu venho jurar que a amo, Margarida.
— Oh! cale-se, cale-se! - exclamou sobressaltada Margarida, sem levantar o rosto para ele.
— Para que me manda calar? Levará tão longe a sua desconfiança que possa acreditar que até neste momento lhe minto, que nem a promessa, feita sobre este leito, para mim consagrado pela sua generosidade, que nem essa saberei respeitar?
— Por compaixão, por misericórdia cale-se - dizia com maior veemência Margarida, elevando agora para ele as mãos juntas e os olhos banhados de lágrimas.
— Margarida! - repetia Daniel.
— Não vê que é um sacrilégio quase, isso que está a dizer? Repare, veja onde está; olhe o que nos espera. Oh! cale-se!
— É a solenidade do lugar e do momento que me anima a falar-lhe. Não duvide de mim, Margarida. Será preciso que lhe lembre o tempo passado? será preciso que lhe fale da infância, Guida? da infância que passamos juntas.
— A mim? Serei eu a que preciso de avivar lembranças? - disse involuntariamente Margarida, num tom quase de amarga exprobração; mas, reprimindo este movimento, que não soube disfarçar a tempo, acrescentou com desespero: - Que quer de mim?
— A sua confiança, a sua estima; juro-lhe que a mereço. pela primeira vez faço, sem hesitar, este juramento. Alguma coisa se passou no meu coração, que me fez outro homem. Acabou o louco sonho de dez anos, que andei sonhando. Despertei ontem. Agora sou o mesmo Daniel, que daqui partiu, deixando na aldeia alguém que do alto dos montes olhava com tristeza para a estrada que o constrangeram a seguir, estrada que, ele também, regou com lágrimas de saudades. Guida, não me perdoará as loucuras deste sonho mau? Não mas perdoará em nome do passado? Fale.
Margarida não respondia.
— Diga, que devo eu fazer para adquirir de novo esta estima, que perdi? Peça-me sacrifícios, peça-me provas, mas não me feche assim de todo o coração. É generosa para com todos, e só para mim...
— Que quer? - disse Margarida, afastando com as mãos trêmulas os longos cabelos negros que se lhe haviam desprendido pelos ombros. - Que vem me pedir aqui? Para que vem lembrar-me o passado, que, primeiro do que eu, deixou esquecer? Deseja a minha estima, a minha confiança... Confiança em quê? No seu caráter?... bem sabe que não desconfio da nobreza dele; no seu coração?... - e a voz tremia-lhe ao acrescentar - aí, do seu coração... para que deseja que me ocupe do seu coração, Daniel? Por piedade, não me fale assim! Se soubesse o mal que me faz, se soubesse... ó meu Deus! eu a dizer isto, e este cadáver a pedir-nos orações! Daniel... Sr. Daniel, peço-lhe que me deixe rezar.
— E vai rezar com a alma cerrada aos sentimentos de piedade, Guida?
— Daniel! - repetiu Margarida, quase suplicante.
Naquela posição, com aquele olhar, pronunciando-lhe assim o nome, tão sentida e singelamente, a simpática pupila do reitor acabou por dominar de todo o coração de Daniel.
— Margarida! - exclamava ele - não vê que essa desconfiança me mata? por piedade!
Margarida julgou perceber não sei que de sentido e de apaixonada na voz e no gesto que a implorava assim.
Olhou algum tempo para Daniel, irresoluta; ia talvez estender-lhe a mão, ia revelar enfim o segredo de tantos anos; o mesmo pensamento, porém, que a obrigara a guardá-lo até ali, fê-la recuar mais uma vez.
Mas Daniel tinha-lhe percebido já a hesitação; bastou-lhe um instante para convencer-se de que não era com a indiferença que teria a lutar. Alentou-o esta idéia. Enquanto que Margarida recuava, ele, cada vez mais próximo, ia de novo repetir a súplica.
Neste momento, as mãos que o velho Álvaro conservava ainda cruzadas sobre o peito, desunidas agora pela morte, vieram cair inertes no leito, de cada lado do corpo.
A esta aparência de animação no cadáver, a este movimento inesperado como para separá-los, Daniel recuou, estremecendo, e Margarida soltou um grito ocultando o rosto com terror.
Neste tempo abria-se com violência a porta do quarto, e aparecia no limar a figura do pároco.
— Que é isto? - perguntou ele, ouvindo o grito de Margarida, e alternando o olhar inquieto entre ela, ajoelhada ainda, e Daniel, pálido e em pé, do outro lado do leito.
— É uma vida de tormentos que findou - respondeu Daniel, indicando o cadáver do velho.
Então o padre caminhou lentamente até junto do leito, onde um feixe de luz, entrando pela porta, que ficara aberta, vinha iluminar a cabeça do morto; contemplou-a por algum tempo com tristeza; depois, ergueu os olhos e as mãos para o céu, e principiou com voz pausada e clara, a recitar:
— Requiem aeternam dona ei, Domine! Lux perpetua luceat ei, Requiescat in pace. Amen (Repouso eterno no seio Senhor. Que a luz brilhe perpétua. Descanse em paz)
Cedendo à influência da voz e do gesto e da sincera compunção do reitor ao recitar a oração mortuária, Daniel ajoelhara.
O reitor continuou por algum tempo rezando ainda em voz baixa. Depois baixou melancolicamente os olhos outra vez para a fisionomia serena do morto; consolou-o aquele reflexo de felicidade que julgou perceber nela. Em seguida, voltando-se para Daniel e Margarida, que se conservavam ainda ajoelhados, suspirou.
Cedo, porém, veio um sorriso desanuviar as feições do pároco. Ergueu novamente as mãos, como a invocar a influência do céu, e sem que os dois o pressentissem, cobriu-os com sua benção.
Quando, passado algum tempo, saiu com a sua pupila da casa em que estas cenas se passaram, ia a sorrir de satisfeito o reitor. É que lá lhe parecia que tinha sido inspiração divina aquela benção dada ali e que não podia deixar de ser eficaz para o que ele meditava.
Muito antes da hora, à qual o reitor viera encontrar Margarida abandonada das suas discípulas, e possuído de indignação, a constrangera a acompanhá-lo em passeio pelas caminhos da aldeia, saiu Clara do cemitério paroquial onde fora visitar a sepultura de sua mãe. Caminhava vagarosa e pensativa, a irmã de Margarida, por a alameda contígua, e tão distraída ia que, ao passar pela porta lateral da igreja, não reparou que uma sua conhecida, e nossa também, a estava observando de lá.
Era a Sr.ª Joana, que achando-se com vagar aquela manhã, resolveu cumprir uma antiga promessa a Santa Luzia, que a livrara, havia meses. de impertinente doença de olhos. Outra causa, porém, além desta, e menos piedosa, a impelira a devoção tão matinal.
Depois da altercação, que violentamente sustentara na véspera com a tia Josefa da Graça, a criada de João Semana, de volta aos lares domésticos, lembrou-se de uma coisa, que lhe podia ter dito, e que na ocasião não lhe ocorrera.
Isto que sucedeu a Joana, quer-me parecer que há de ter já sucedido também ao leitor; quase sempre as grandes, as boas lembranças, os argumentos mais felizes para fazer emudecer adversários, vêm-nos extemporâneos, quando a discussão findou; salteiam-nos à mesa do jantar, visitam-nos à cabeceira do leito, luminosos, mas tardios.
A Sr.ª Joana ganhou pois vontade de ter novo encontro com a sua contendora, para a mimosear com a formidável adenda de amabilidades, que lhe estavam ocorrendo, a todo instante, e cada vez mais preciosas.
Frustrou-se porém este plano, porque a beata tinha sido chamada aquela manhã por suas devoções a uma outra Igreja.
Joana ia retirar-se desconsolada, quando avistou Clara na alameda.
Vendo que não era percebida por ela, chamou-a:
— Fale à gente. Então que modos são esses agora? Passa por uma pessoa, como cão por vinha vindimada!
— Não a tinha visto - disse Clara, parando à espera dela.
E ambas continuaram depois por o mesmo caminho.
— Então que doidices foram aquela lá por casa? - perguntou Joana, que não era para rodeio, e ia logo direta ao fim que tinha em vista. - Aquilo é coisa que se faça? Ainda se fosse consigo, não me admirava eu tanto, mas a Guida!
Clara ficou surpreendida com o que ouvia a Joana. Margarida para acalmar à irmã os escrúpulos em aceitar o sacrifício, dera-lhe a entender que, a exceção de Pedro, ninguém mais na aldeia suspeitava a cena do quintal. Agora adquiriu ela certeza do contrário.
— Então você sabe?... - perguntou timidamente, não ousando olhar para Joana.
— Se eu sei! E quem não o há de saber, filha, se por aí não se fala em outra coisa?
— Que diz, Joana?
— Pois que cuidava? Ai está bom, está! é o que eu digo! Aí tem que ontem... Mas a mim custa-me a crer! pois a Guida?
— Joana! por quem é, não fale dessa maneira. Se soubesse...
— Pois não falo, não... Ainda que de eu falar não é que vem o mal. Assim não andassem por aí outras línguas danadas...
— Então dizem? ó meu Deus! meu Deus!
— Dizem tudo, e mais alguma coisa: é o costume. Pois ainda aí está! Bem o digo eu!
— Jesus Senhor! E falam de Guida?!
— Que dúvida! Há lá manjar mais doce para essas boquinhas cá da terra, do que uma novidade daquelas? Falam dela, e de modo que já me fizeram ferver o sangue. Olhe que estive para obrigar uma das tais a engolir a língua peçonhenta, a ver se a envenenava com ela. Ora imagine a Zefa da Graça a contar história e veja lá o que não diria!
Clara ocultou o rosto com as mãos; a dor e a desesperação estavam-na torturando.
— E então o pior não é isso - continuava Joana. - O pior é que a essas desalmadas meteu-se-lhes em cabeça que as filhas corriam perigo, continuando a ser ensinadas por a sua irmã; e é de crer que já hoje... Mas veja aquelas tolas, que mais o que sabem é estragar os filhos com maus exemplos e com más palavras, a fazerem-se agora de escrúpulos! Impostoras!
— Oh! isto é demais! - bradou Clara, tremendo de indignação.
— A Rosa alfaiata, por exemplo - prosseguiu Joana. - Ora digam se não é mesmo de uma pessoa perder a paciência ouvir aquela desbocada com medos que lhe estraguem a filha? a filha, que se não sair das que nem o demônio quer, não há de ser por falta de diligências que faça a mãe para isso.
Clara não podia já reter as lágrimas.
— E a Joaquina do Moleiro? Pois não querem ver aquela senhora também com delicadezas? Ora isto! Isto é de uma pessoa morrer com riso. A Joaquina do Moleiro , que eu conheci... Cala-te, boca
E por esta forma continuou a Sr.ª Joana fazendo a severa crítica das suas escrupulosas patrícias, e aumentando, sem o saber, a grande aflição em que estava Clara.
Ao separar-se da velha governante de João Semana, ia Clara com uma resolução formada, a qual se lhe podia adivinhar na firmeza do olhar e na expressão do semblante.
— É demais! murmurava ela - vou procurar Pedro; vou dizer-lhe tudo; quero que todos saibam...
Ia pensando nisto, quando se achou em frente dos dois irmãos, que se aproximavam conversando afetuosamente. Daniel vinha pálido: voltava naquele momento da entrevista que inesperadamente tivera com Margarida.
Ao vê-los assim de súbito, faltou a Clara a coragem para cumprir o que tinha resolvido.
Só com Pedro teria ânimo para a confissão, mas, diante de ambos!... Era demais para as suas forças. Calou-se.
Passadas algumas horas, voltou a casa, e entrou na sala em que estava já Margarida, o reitor e o José das Dornas.
Este último tinha ares meditabundos, como se estivesse ponderando idéias graves e não sei que misteriosos planos.
Clara foi direita à irmã. Trazia ainda no rosto toda a indignação causada por o que tinha ouvido a Joana e depois vira confirmação já. Tinham-lhe contado a ofensa que a irmã recebera aquela manhã, não lhe aparecendo discípulas; conservando ainda vermelhos os olhos, de tanto que, por isso, havia chorado.
Chamando Margarida à parte, disse-lhe com voz trêmula de raiva:
— Margarida, estou resolvida a acabar com isto. Não devo, não posso, não hei de consentir que assim te percas por mim. Vou dizer tudo. Se tu és forte, eu também tenho forças; menos para isto, para te ver assim insultar, Guida, minha pobre Guida.
E as lágrimas saltavam-lhe dos olhos, ao abraçar a irmã.
— Cala-te, cala-te, não digas loucuras. Se soubesses?... Olha, já estou de bem com essa gente toda, essa pobre gente, que é boa no fundo, afinal, coitada. Ainda agora...
E Margarida contou, com sorrisos, toda a cena do largo.
— Pois sim - disse Clara, depois de ouvi-la - mas ficarão suspeitosos; ouvirás ditos, viverás debaixo das desconfianças desses, que, todos juntos, te não valem, Guida; e isso não me deixaria sossegar. Ora, diz-me, se, por alguma coisa do mundo, aceitarias de mim um sacrifício tamanho?
— Quem sabe? - disse Margarida, fazendo por sorrir; e depois acrescentou: - Outra coisa me aflige, neste momento, mais, bem mais, que tudo isso. Não sabes que morreu o nosso pobre amigo?
— Sei; soube-o de Daniel, que vinha de lá.
— Pois falaste-lhe? - perguntou Margarida, baixando os olhos, por se lembrar da cena que no capítulo antecedente descrevemos.
— Falei. Foi ele quem me disse que tinha morrido aquele infeliz. Fui-lhe rezar junto do leito. E lá, outra vez, aconselhou-me Deus que não abandonasse a minha idéia.
— Então que idéia tiveste tu? - perguntou Margarida.
Clara continuou:
— Guida, agora isto em mim é decidido. Ou tu aceitas o oferecimento de Daniel, ou eu digo tudo.
— Doida; nem me fales nisso.
— Agora, juro-te, pela salvação da minha alma, que é tenção firme, e te não darei ouvidos, Guida.
— Clara!
— Juro-to.
— Queres fazer-me desgraçada?
— Quero fazer-te feliz.
— Matavas-me.
— A morte te estás tu a dar com esse teu gênio, Guida. Esse teu bom coração consome-se assim. Queres fingir-te mais forte do que és. Escondes-te para chorar. E olha, quando se não chora parece que as lágrimas nos caem todas cá dentro e queimam; e o padecimento é então de morte.
— Estás enganada, Clara; a gente costuma-se afinal a tudo, até a tristeza.
— Para que estás tu a mentir-me assim? Aprendi mais de ti neste dois dias, do que em tantos anos, que te conheço. Dantes eu dizia, como todos: - Esta minha irmã é feliz no meio das suas tristezas; vai tanto sossego naquela alma, que a vida para ela deve ser como um dormir de criança, em que se não fazem sonhos maus; mas ontem, ó Guida, como te vi ontem! Eu que tenho este gênio forte, nunca me senti assim. Imaginei o que ia pelo teu coração naquele momento, minha boa irmã, e assustei-me. Mas ainda isso não era nada. Que horas terão havido na tua vida de vinte e três anos, minha Guida? o que terá ido lá por dentro nesse coração, que não abres a ninguém? Nem a mim, Guida, que precisei de adivinhar-to, se quis. É mal feito. Mas cada vez que penso nisto, cada vez que me lembro de quanto terás chorado, escondida, de quanto terás penado, calada, sinto quase que terror. Não era sem causa essa distração, em que tantas vezes caías, e que me fazia rir. Que cega que eu era, e que má, sem o querer ser, ao rir assim! Quantas vezes estarias tu sofrendo como eu nem penso que se sofra, e eu a rir-me! Perdoa-me, Guida, perdoa-me aquela maldade; mas bem vês que eu não te conhecia bem. Não, tu não é de gelo como dizias. Quem sabia perdoar, como tu, e desde bem pequena principiaste a fazê-lo! quem sabia, como tu, estimar e proteger uma irmã, podia lá ter fechado o coração para o mais? para o amor? E que amor que lá guardas, há tanto! e que ainda agora queres abafar; como julgas que o há de fazer, doida? Que hás de por tu no lugar dele?
— A tua amizade, Clara - redargüiu Margarida, beijando-a sensibilizada. - Essa me bastará. Amava-te já muito, minha filha, mas agora sinto que hei de vir amar-te mais. Até aqui, estremecia-te como uma a uma criança bonita, meiga, carinhosa, e - acrescentou com um leve sorriso - com suas perrices também. Tudo que nos agrada, que nos enfeitiça nas crianças, agradava-me, enfeitiçava-me em ti. Mas agora, Clara, apareces-me outra. Como se aquele momento de dor, que passaste, te fizesse de repente mulher, falas-me, como ainda não te ouvira, sentes, pensas, e ... adivinhas até, como julguei que nunca o farias. Agora sim, vejo que terminou a minha tarefa de protetora, a tarefa que tua mãe me encarregou. Estás uma mulher, Clarinha. Agora posso tomar-te por confidente, e conselheira até. Tens direito a sê-lo, tu, a única pessoa que me adivinhou. É teu o meu segredo... porque mo roubaste, vamos. Vê, que já me não envergonho de dizer-te que me adivinhaste. Sim, é certo que, este... esta loucura viveu comigo, cresceu comigo, e quem sabe até se comigo morrerá? É uma companhia a que me afiz, mas nunca deixei de a conhecer pelo que ela é, uma loucura. Estou como aquela viúva do Outeiro, que rodeia de cuidados e amor o filho doido que tem. E queres agora que vá assim arriscar o meu futuro, o futuro do meu coração, que é o que eu mais prezo, para satisfazer esta loucura? Diz; não, tu não hás de exigir isso de mim. Promete-me sempre a tua amizade de irmã, e eu serei... feliz...
— Não serás; nunca o foste. Agora sou eu que devo ordenar. A minha tenção é firme.
— Então, Clara!
— Escolhe. Não sejas má contigo e com ele.
— Com ele! - repetiu Margarida, sorrindo amargamente.
— Com ele, sim, que te ama.
— Para que afirmas o que sabes que é mentira?
— Não é. Há pouco vi-os, como te disse; vi-os, a Pedro e Daniel; encontrei-os por acaso. Aí, Guida, que momento aquele! Se soubesses como tremia! Eu a ver Pedro constrangido diante de mim, sem poder dizer-me uma palavra; aí, como me custou fingir! Não sei o que me não deixou lançar-me aos pés dele e pedir-lhe perdão. Depois o Pedro retirou-se para o lado. Daniel falou-me de ti, disse que viera conversando com o irmão a teu respeito. Pedro teimava com ele para que se casasse contigo; e Daniel respondia-lhe, comovido, que seria para o seu coração grande ventura, mas que tu recusaras. Que ele via agora a razão por que tão de repente te amara assim.
— Deve ser uma razão bem conhecida dele, que tantas vezes a tem sentido com outras - observou Margarida, com a mesma expressão de amargura.
— Não digas isso, má. Daniel recordava-se de tu teres sido a sua companheira , em criança; lembrava-se que fora quem te ensinou a ler, quando te ia procurar ao monte, onde, sozinha, passavas os dias a guardar os rebanhos de nossa casa.
Margarida suspirou, ao ver assim avivadas as imagens daquele tempo.
— De tudo se lembrava Daniel, e tudo me repetia, o que cantavas, o que lhe dizias, os vossos projetos, e até os vossos arrufos. E afligia-se o pobre rapaz tanto, que se o visses, Guida, se o visses... Depois, quando se recordava da maneira por que respondeste ao seu pedido, e de como havia pouco, dizia ele, o tinhas outra vez rejeitado; quando pensava em que o não amavas já; ficava tão triste que metia pena. E então disse-lhe...
— O quê, meu Deus?
— Disse-lhe... que o amavas.
— Ó Clara! que foste fazer? - exclamou Margarida, juntando as mãos.
— O que devia. De que servem os fingimentos? Pois não o amas tu deveras?
— Aí, Clara, Clara; não te perdôo isso, não.
— Nem eu quero que me perdoes; hás de agradecer-me. Se visses como ele ficou, quando eu lhe contei tudo. O teu choro de ontem de manhã, como eu te fui achar. O que te disse, o que me respondeste, tudo enfim. Parecia-me um louco, o rapaz; abraçava-me, ria... Depois eu propus-lhe que viessem, ele e o irmão...
— Que viessem?...
— Que viessem comigo.
— Aonde?
— Aqui? e então...
— E então vieram. Estão naquela sala esperando.
— Ó Clara!
— Pois não fiz bem? Agora vais dizer que sim, quando ele de novo te propuser...
— Não, nunca o direi.
— Como quiseres. Mas lembra-te do que eu te jurei.
— Clara!... Clara!... minha irmã!... minha amiga!... repara ao que me queres obrigar. Pois força-se alguém a uma coisa assim? Diz: Queres que eu me abaixe a...
Neste ponto forem interrompidas por José das Dornas e pelo reitor, que, depois de muito conferenciarem, se aproximaram delas.
— Vocês perdoem, se lhes interrompo a conversa, raparigas; mas é que eu tenho de falar a Margarida - disse José das Dornas, afagando com as mãos a copa do chapéu, e dando mostras de embaraçado.
—Margarida, o meu filho Daniel é um estouvado.
Margarida desviou os olhos, perturbada.
José das Dornas, vendo isto, julgou que teria principiado mal, e dirigiu ao reitor uma interrogação muda. O padre fez-lhe sinal que continuasse, e ele continuou:
— Desde criança o conheci assim. A quem saiu é que eu não posso saber. Lá que com seus estouvamentos e as suas estroinices desse cabo da saúde e da legítima materna, era uma pena, mas enfim... - acrescentou , encolhendo os ombros - entre Deus e ele se decidisse esse negócio. Mas agora, que venha a perder e inquietar os outros com as suas asneiras, isso é que é muito feio; e eu não estou resolvido a sofrer-lho. Muito menos então, quando essa outra pessoa é a pérola cá da nossa terra... Todos o dizem. escusa a menina de fazer esse sinal com a cabeça; que não se precisa cá do seu consentimento para nada.
E ao dizer isto, José das Dornas olhava, sorrindo, para o reitor, em cujo semblante havia também um sorriso de satisfação.
O lavrador prosseguiu:
— Ora muito bem. Mas o rapaz é que não entendeu assim, e pelos modos...
— Bem, bem; adiante. O que aconteceu todos nós sabemos, vamos adiante - atalhou o reitor, que vira formar-se na fronte de Clara uma ruga, que ele julgou prudente alisar a tempo.
— É verdade; pois agora de duas uma, ou ele para remediar o mal que fez, vem aqui pedir para a menina o aceitar por marido, e, se a menina lhe quiser fazer este favor, tudo se remedeia, e eu recebo por filhas, logo de uma assentada, as duas melhores moças da terra, ou então... ou então, ao poder que eu possa, parte-me já o rapaz para o Brasil ou para fora daqui pelo menos; por que já não estou para ver, por causa dele, alguma desgraça cá na terra.
Clara inclinou-se ao ouvido da irmã para lhe dizer:
— E lembra-te de que o culpado, que tens de sentenciar, não está longe daqui.
— Ora é preciso que se saiba - acrescentou o lavrador - que isto não é só lembrança minha; não senhores. Deus me livre de lhe querer dar à força um noivo que a não estimasse como merece; mas, pelos modos, o rapaz tem a sua inclinação para a menina, porque enfim... - e aproveitou esta reticência para um sorriso benevolente - foi o jeito que tomou em pequeno. Amores antigos... Lembra-se Sr. Reitor, que por causa desta é que o rapaz não nos canta hoje a missa? porque dizia ele, já então, que havia de casar com a menina.
— É verdade, é verdade; - respondeu o reitor em tom igualmente jovial - tinha coisas o rapaz!
E os dois velhos desataram a rir, com todas as veras do coração.
— Pois enfim - disse em seguida o lavrador - às vezes são coisas talhadas por Deus. Deixe lá. O Casamento e a mortalha... lá diz o rifão. Eu cá tenho o meu palpite, que, se a menina aceitar, o rapaz toma emenda, o que para ele era uma felicidade, porque, a Margaridinha bem o sabe, isto de cirurgiões e médicos quer-se gente séria, ou não fazem nada. Por isso, resta saber se a menina aceita, porque se não, adeus! faço uma figa ao amor de pai, e não descanso sem pôr o rapaz fora daqui. Pense nisto a menina, e quando Daniel voltar...
— Nada de pensar mais tempo - exclamou Clara, não podendo já reprimir a alegria, que lhe tinham causado as palavras do lavrador. - As coisas querem-se decididas depressa; também é mau pensar demais. Vêm-nos de Deus às vezes certas lembranças, que se perdem se pensamos muito... Eu vou buscar o noivo.
E aproximando os lábios do ouvido de Margarida, a qual se conservava ainda calada e com os olhos fitos no chão, disse-lhe:
— Vê lá agora o que vais fazer; olha que tu a dizeres que não e eu a contar tudo como foi. Ouviste?
E sem esperar resposta, correu à porta, e fez sinal para dentro da sala imediata
Daí a pouco tempo entraram Pedro e Daniel.
— Ah! estavam aí?! Pois melhor!... - disse José das Dornas, ao vê-los.
O reitor sorria de esperanças.
Daniel aproximou-se de Margarida, que tremia sobressaltada.
— Margarida, - disse Daniel com timidez - venho renovar um pedido, que ontem lhe fiz aqui mesmo, e que já hoje lhe repeti; peço-lhe...
— Aí, pois ele já?... - disse José das Dornas para o reitor.
— Já, já; mas cala-te, homem - respondeu este, ansioso por ouvir a resposta de sua pupila.
Durante esta interlocução dos dois, havia Daniel acabado de formular seu pedido.
Margarida ficou por algum tempo silenciosa. Ergueu lentamente os olhos para Clara, viu-a pálida, e notou-lhe no rosto um ar de firmeza, que a assustou. Conheceu que era inabalável a resolução que ela formara.; Margarida dirigiu-lhe ainda um gesto de súplica; Clara respondeu-lhe com um movimento de recusa ambos tão rápidos e tão sutis, que só por ambas podiam ser percebidos.
— Então... minha filha? - disse, quase a medo, o reitor, já pouco tranqüilo com a hesitação de Margarida.
Enfim com voz trêmula e mal percebida, ela respondeu:
— Que direito tenho de recusar uma proposta... tão generosa? Aceito.
Na maneira de dizer aquele - generosa - ia toda a censura.
— Ainda bem! exclamaram os presentes, menos Daniel, porque este apoderara-se da mão de Margarida, e, apertando-a na sua, beijou-a com paixão.
Margarida estremeceu e... - vão lá agora acreditar na firmeza do coração humano, quando jura cerrar-se às branduras do sentimento e às explosões da paixão! - e, por um desses movimentos irresistíveis, por uma dessas soluções, com que se dá no amor o passo tremendo e decisivo das confidências, correspondeu a Daniel, apertando-lhe também a mão.
Neste momento passou na rua uma rapariga cantando:
De pequenina nos montes,
Nunca teve outro brincar.
Nas canseiras do trabalho
Seus dias vira passar.
Daniel olhou para Margarida, que desta vez não desviou também o olhar.
E agora, como que o passado inteiro, aquele passado de ambos, lhe apareceu com o prestígio da saudade, e dourou-se-lhes o futuro com o fulgor das esperanças.
Estes pensamentos trouxeram-lhe o sorriso aos lábios, e a confiança ao coração.
Margarida, alvoraçada com as novas sensações recebidas, voltou-se para a irmã, que sorria, porque lhe estava a ler na alma.
Margarida corou, e, retirando a sua da mão de Daniel, foi esconder a fronte entre os braços de Clara.
— Então? - disse-lhe esta ao ouvido - devo pedir perdão, ou alvíssaras, minha teimosa? Ora dize-me se o que sentes agora no coração te causa grande dor, e se te obriga a querer-me muito mal por o que fiz?
Margarida respondeu-lhe, apertando-a ao seio.
Era feliz naquele momento.
Nisto ouviu-se uma voz que bradava da rua:
— Ó reitor! ó abade! Ouves? ó Padre Antônio! ó homem!
O reitor chegou à janela, a verificar quem era; conquanto tivesse já, pelo estilo, quase reconhecido o homem.
— Ah! és tu, João Semana? Sobe.
— Nada, nada; desce tu, que tenho que te falar.
E João Semana dizia isto com a voz sobressaltada e o gesto assombrado de inquietação.
— E eu digo-te que subas.
— Não subo tal; o que tenho a contar-te não se pode contar aí.
— Ah! já vejo que ouviste também a história do dia! - disse o reitor, que suspeitou do que se tratava.
— Ouvi, ouvi, e o que me pareces é que tu a não sabes toda, abade; se a soubesses, não estavas com tantas pachorras!
—Achas? Pois eu não me sinto hoje de maré para me afadigar. Sobe, João Semana, sobe.
— E se eu te disser, que enquanto tu aí estás, muito descansado, talvez esteja a correr sangue...
— Então deixaste alguma sangria mal vedada, João Semana? Ah! Ah!...
E o reitor achava deliciosa a mortificação em que via o seu velho amigo.
— Uma figa para a graça! - disse o cirurgião contrariado. - Estás hoje muito contente da vida.!
— Que queres! deu-me para aqui.
— Talvez não leves assim o dia todo. Queres saber o que há, ou não queres?
— Quero, mas sobe.
— Pois, com os diabos, eu subo, e se a notícia estourar aí dentro como uma bomba a culpa é tua.
E dizendo isto, enfiou pelo portal dentro.
Enquanto ele sobe as escadas, direi ao leitor o motivo do desassossego, em que nos aparece o velho clínico.
João Semana só aquela manhã soubera do acontecido no quintal das duas irmãs, na noite de antevéspera.
No dia antecedente andara o cirurgião por longe, aonde a fama ainda não tinha levado a notícia do escândalo. De volta a casa, Joana, mortificando o desejo que sentia de falar, foi de uma discrição admirável a esse respeito. Duas causas a moveram a isto: primeira, o não saber ainda como poderia contar o fato, sem grande prejuízo do seu afeiçoado Daniel; depois, parecendo-lhe quase impossível que João Semana não soubesse já alguma coisa, deu-lhe para tomar à má parte o silêncio que o via guardar, e resolveu, despeitada, não ser mais expansiva do que ele.
O resultado foi sair João Semana, no dia seguinte, ainda em completa ignorância do ocorrido. Ficou portanto surpreendido ao receber à queima roupa, em casa de um cliente, a notícia e sob uma das feições mais pavorosas que ela havia revestido.
Falaram-lhe em projetos sanguinários da parte de Pedro, na fuga de Daniel, no desespero de Clara sobre cuja culpabilidade havia ainda grandes dúvidas na mente do narrador.
João Semana acreditou tudo aquilo, e correu à casa de José das Dornas. Perguntou pelo lavrador, tinha saído; perguntou por Daniel, e depois por Pedro, obteve a mesma resposta.
Pareceu-lhe ver nos criados um ar de susto e de perturbação, que acabou de lhe fazer perder a frieza de ânimo. Correu, em vista disso, à casa do reitor; também o não encontrou. Calculou que estaria em casa das pupilas, e dirigiu-se para lá.
Imagine-se pois se o não irritaria a presença de espírito, o ar de gracejo, com que lhe respondeu o reitor! Subiu as escadas , disposto a pôr de parte todas as cautelas, e a dar a novidade sem lhe importar as conseqüências .
Ao entrar na sala ficou porém imóvel de admiração com o que viu.
José das Dornas, sentado, limpava uma lágrima de satisfação; a uma janela, Pedro e Clara entretinham-se, conversando amigavelmente; à outra, Margarida escutava Daniel, que estava falando do passado e do futuro, da maneira desordenada por que se fala em ocasiões assim.
O velho cirurgião olhava boquiaberto para uns e para outros, sem saber o que pensar daquilo tudo; afinal olhou para o reitor, que lhe pregou uma risada.
— Isto que quer dizer? - perguntou João Semana, conseguindo enfim fazer uso da língua. - Então que diabo me tinham dito?...
— Ora! e tu dessa idade ainda a engolir todas as pílulas que te impigem! É bem feito, que também às vezes as receita de calibre de granada... Então contaram-te coisas horrorosas? Eu logo vi. Estava a ler-tas na cara; pois agora conta tu o resto da história a essa gente, e que façam o favor de se calarem por uma vez com isso.
— Melhor foi assim - disse João Semana um pouco envergonhado de sua credulidade - já vejo que não faço nada aqui; adeus!
E ia retirar-se.
— Espera, onde vais tu com tanta pressa? Então não te alegra o coração com estes espetáculos?
— Alegra, alegra... mas os meus oitenta anos é que são demais para a alegria dos noivos. Eu, tu e José das Dornas deviamo-nos retirar, porque eles estão agora persuadidos que nunca envelhecem nem morrem e nós estamos aqui a bradar-lhes com os nossos cabelos brancos: Memento... et coetera, et coetera. Diz tu o resto do latim se quiseres.
— Isso era bom se eles lembrassem de nós, mas parece-me que nem deram por ti ainda. demora-te, pois, João, demora, que me hás de acompanhar, e mais ao José das Dornas, em uma saúde aos noivos.
— Pois vá lá - respondeu João semana - ainda que saúdes aos noivos, feitas por velhos... Sabes o que dizia o prior de S. Domingos?
Não podemos saber o que era, porque João Semana disse-o só ao ouvido do reitor o qual não pode suster o riso, ainda que, com um gesto de má vontade, observou ao jovial clínico:
— Valha-te Deus, homem... quando te deixarás dessas histórias?
E o reitor, usando e familiaridade que tinha em casa, foi ele próprio buscar a garrafa e os copos, para a saúde combinada.
Nesse ponto, ouviram-se passos apressados na escada, e à porta da sala assomou a figura ofegante da Sr.ª Joana, a quem não sofreu o ânimo que não viesse procurar Margarida.
Encontrando tanta gente na sala e o seu amo incluído no número a boa mulher parou embasbacada.
— Aí vinha outra às vozes, como tu - disse o reitor a João Semana.
— Você que faz por aqui, mulher? - perguntou este à criada.
— Eu?
E Joana não sabia o que dissesse.
— Esturro tenho eu hoje no arroz - disse João Semana, rindo.
— Não há de ter, se Deus quiser.
Clara correu a Joana, e abraçando-a com alegria, disse-lhe:
— Fez bem em vir. Margarida vai ser feliz; olhe.
Joana olhou e compreendeu tudo.
— Ora, sim senhor; teve juízo uma vez aquela cabeça, - disse ela, referindo-se a Daniel, de quem se aproximou; e depois, em tom de familiaridade, perguntou-lhe: - Então a tal senhora que havia de mandar vir da cidade de vestido a arrastar, e não sei que mais? Olhe que esta não tem os cem mil cruzados que queria.
— Mas não vale mais do que todas as outras, Joana?
— Ora, boa pergunta! Afalar a verdade não a merecia muito, não.
E, afastando-se um pouco de Daniel e Margarida, pôs-se Joana a olhar para eles ambos, com ar de contentamento, dizendo depois em voz alta:
— Não que parece que foram mesmo talhadinhos um para o outro.
Os três velhos e Pedro, Clara e Daniel riam da observação de Joana; Margarida sorriu também, mas corando.
E a saúde projetada entre o reitor, João Semana e José das Dornas, fez-se, conforme o estilo, tomando também parte nela Joana, cujo toast não foi o menos eloqüente.
— Nunca fiz um casamento com tanta vontade! - disse o padre esfregando as mãos.
— E fica tudo numa família - observou José das Dornas, todo satisfeito.
— Isso é que é o diabo, se as duas me dão agora as avenças de uma só! - resmungou João Semana, de maneira que todos o ouvissem, fingindo-se apreensivo com isto.
José das Dornas, conquanto bem conhecesse que era aquilo um gracejo do cirurgião, assegurou-o que as avenças redobrariam.
Pedro, achando-se perto de Daniel, abraçou-o com expansão de alegria.
— Ou a noite de antes de ontem, ou o dia de hoje, irmão - dizia ele quase lacrimejando.
— Agora sim! - exclamou o reitor, vendo aqueles contentamentos. - Agora, quando Deus me chamar a si, posso dar contas limpas aos pais destas raparigas. estou certo que deixo felizes as minhas duas pupilas.
O leitor concordará por certo que devemos fechar por aqui a narração.
As suaves alegrias das núpcias, imaginem-nas, pelo que sentiram, os felizes que na vida as gozaram já; os outros fantasiem-nas, pelo que tantas vezes sonham, ao pensarem no futuro.
FIM
Fonte: www.dominiopublico.gov.br