Uma tarde, estavam as duas irmãs sentadas a trabalhar, à janela do lado da rua.
A luz do sol apenas dourava já os cimos dos montes mais elevados e longínquos. Aproximavam-se as horas, às quais Daniel costumava passar ali.
Já por mais duma vez dirigira Clara a vista pelo caminho que ele ordinariamente seguia: era uma vereda íngreme e tortuosa que vinha do alto da colina à planura, onde estava situada a casa, e daí descia ao vale - centro principal do povoado.
Porém, sempre que os olhares de Clara tomavam aquela direção, encontravam-se com os da irmã, e instintivamente se abaixavam logo.
Margarida não estava também tranqüila naquela tarde. Em toda a fisionomia dela, em todos os gestos e palavras, denunciava-se, por sinais evidentes, um violento desassossego interior.
De quando em quando, voltava-se para Clara, como se resolvida a falar-lhe, a comunicar-lhe alguma coisa que a preocupava; mas, num momento, parecia abandoná-la a resolução e permanecia silenciosa.
O estado de espírito de uma e de outra mal lhes permitia sustentar a conversa, a qual procedera frouxa e interrompida, a todo instante, por freqüentes pausas.
De uma vez, porém, a impaciência de Clara, ao observar o caminho, por onde era de esperar Daniel, desenhou-se-lhe tão expressiva na fisionomia, que isto deu ânimo a Margarida para vencer a hesitação com a qual lutara até ali. Fixando a vista na costura em que trabalhava, principiou dizendo, em tom de gracejo:
— É na verdade uma pena, Clara, que tu, que tens tão bonitos olhos, teimes em os trazer assim fechados,
— Fechados? Que queres tu dizer, Guida?
— Que os fecha para muitas coisas, que é sempre perigoso não ver, filha.
—Não te entendo - disse Clara, sorrindo.
Margarida prosseguiu:
— Mas isso é gênio teu. Tu andas no mundo, como de noite pelos caminhos da aldeia. Não te lembras, quando, no outro dia, saímos mais tarde de casa do nosso pobre mestre? Fazia muito escuro. Eu, a cada passo, estava a parar; parecia-me por toda a parte ver fojos e barrancos, tu rias-te de mim e seguia sempre para diante, com uma confiança naquela escuridão, como se realmente fosse estrada direita.
— E olha que não cai! - acudiu intencionalmente Clara, que julgou principiar a compreender o sentido das palavras da irmã.
— Não; é certo que não. Parece que há uma estrela que protege quem assim é animoso; como se todo esse ânimo não fosse outra coisa senão a mão do Anjo da Guarda a guiá-lo, sem se mostrar. Mas olha: lembras-te quando uma vez, voltando assim de noite a casa, e sem escolher caminho, vieste dar aos lameiros dos Casais? Viste-te obrigada a tornar para trás, e, como se adiantava a noite, tiveste de ir ficar a casa da tua madrinha, nos Cabeços. Que susto que eu tive, Santo Deus! se eram já altas horas, e tu sem chegares?
— É verdade. E por sinal que me mandaste procurar.
Mandei. Imagina lá como eu fiquei, como ficamos nós todos quando sendo já madrugada, nos voltaram a casa com uma das argolas das orelhas, que tinham encontrada meio enterrada nos lameiros.
— Tinha-me caido lá, tinha.
— Julgamos-te perdida, morta. Ainda não havia muito que lá morrera afogado aquele pobre cabreiro. Hás de estar certa? Que noite passei, Nossa Senhora! E tu...
— E eu a dormir muito descansada em casa de minha madrinha. Pudera não. Imagina tu que eu tinha andado... léguas, talvez.
— Mas aí está como, sabendo-te salva como dessa vez te sabias, os outros, por alguns sinais mentirosos, como aquele, te podem julgar... perdida.
E Margarida calou-se, depois de fazer esta observação.
Clara olhou algum tempo para a irmã, sem dizer palavra: em seguida replicou, parando de trabalhar:
— Fala-me claro, Guida. Dize o que me tens a dizer. Que precisão tinhas de vir com isso, para me dares um conselho? Alguma coisa fiz eu, que te desagradou. Vamos, dize o que é. Acaso já deixei de escutar-te alguma vez como tu mereces?
— Tens razão, Clarinha. Eu devia ter mais ânimo para te falar... para te dizer certas coisas, vendo como tu me atendes sempre... Mas, que queres? Ao mesmo tempo, tenho tanta confiança em ti, que pergunto a mim mesma, se valerá a pena estar a mortificar-te assim...
— Mas então que mal tenho eu feito?
— Ora! que te responda a tua consciência, Clarinha; pergunta-lho.
— Não sei... - disse Clara, um pouco perturbada.
— Não é de nenhum pecado mortal que ela te acusará, de nenhum crime muito negro; sossega. Mas de uma culpazita... de uma fraqueza dessa cabeça, um pouco mais leve, do que para uma noiva se queria.
— Bom. É o sermão de costume. Já vejo - disse sorrindo, Clara. - Sabes ao que acho graça? É a não ser o Pedro que o prega. Esse tinha mais desculpa. Mas então que fiz eu de assim de maior?
— Ora vamos. Para que precisas que eu to diga? Ia afirmar que, agora mesmo, o estás a dizer baixinho a ti própria.
Houve um pequeno silêncio entre as duas.
No fim dele, Clara ergueu a cabeça, dizendo:
— Sim, parece-me que sei o que é. O Sr. Reitor já no outro dia me deu a entender o mesmo. É por eu falar com o Sr. Daniel quando ele passa por aqui? Santo nome de Maria! Como há de ser isto, então? Não me dirás, Guida? - continuava Clara jovialmente. - Como hei de eu, depois de casada, deixar de conversar com o irmão do meu marido? Que idéia fazem de mim, tu, o Sr. Reitor e todos os que nisso repararam?
— Bem vês, Clarinha, que não é de ti que eu receio. Conheço-te. mas tu bem sabes, o Sr. Daniel é... dizem dele... passa por...
E Margarida hesitava, ao procurar exprimir a opinião pública a respeito de Daniel, porque todas as frases lhe pareciam demasiadamente duras e severas para com o caráter dele.
— Nem sei o que me parece ouvir-te dizer isso. Ainda que ele fosse o que por aí dizem, conserve-se uma pessoa no seu lugar, que nada pode temer. Querias talvez que eu fizesse como aquela gente , no outro dia, na esfolhada, que toda se encolhia quando ele chegou?
— Na esfolhada? - disse Margarida, ainda sem olhar para a irmã. - Ora tu que ainda me não contaste nada do que se passou naquela noite!
Esta alusão embaraçou manifestamente Clara, que se apressou a dizer, como se a não tivesse ouvido.
— E demais, não tens tu escutado todas ou quase todas as conversas do Sr. Daniel comigo? Aí tens estado, por dentro da janela, e sem que ele o saiba. De que o ouves falar? Diz-me alguma coisa que eu não deva ouvir? Conta-me o que viu na cidade, o que leu, histórias, versos... - e como conta bem! - e queres que eu me não entretenha a ouvi-lo, quando tu mesma, às vezes, sim, que eu bem tenho reparado, deixas de trabalhar, e ficas quieta a escutá-lo também! Então que há nisto de mal?
— Mas então? Já se fala... Que se lhe há de fazer? O mundo tem maldades, e nós vivemos no mundo... Há gente de tão más tenções, que, só pelo gosto de fazer mal, pode ir às vezes inquietar o espírito de Pedro, com histórias mentirosas, e daí sabe Deus...
O ruído de uma cavalo a trote, que vinha do lado dos montes, interrompeu o diálogo. Clara dirigiu para lá os olhos, e viu um cavaleiro que se aproximava, saudando-a de longe.
Era Daniel.
— Olha; falai no ruim... - disse ela para Margarida, que instintivamente retirou a cadeira da janela.
— Vais ver - prosseguiu Clara - como eu sou amiga de fazer vontades. Vou acabar com isto, já que assim o querem... isto é, já que assim o queres; pois dos outros bem me importava a mim.
— O melhor é... - ia dizer Margarida, quando a voz de Daniel, falando da rua para a janela, a obrigou a calar.
— Muito boas-tardes Clarinha - dizia ele. - Receava não a ver já hoje; por isso obriguei este pobre animal a um trote por estes caminhos de cabras abaixo, que muito pouco lhe agradou.
— Então tinha o que me dizer?
— Nada. Era para não perder o meu dia. Quando vi fechadas as folhas da mimosa da Quinta da Feira, temi vir encontrar já fechada também a sua janela, Clarinha.
— Era pena! - disse Clara, sorrindo; e depois, debruçando-se ao peitoril, acrescentou, lançando com disfarce, um olhar para a irmã: - Tenho a pedir-lhe um favor, Sr. Daniel.
— Que felicidade para mim! Diga.
— Quando de hoje em diante, voltar para casa, não há de vir por este sítio.
— Clara! - disse Margarida em voz baixa, puxando pelo vestido da irmã.
Clara não a atendeu.
— Por que me faz este pedido? - perguntou Daniel, admirado.
— Porque, segundo me dizem, deram-lhe para reparar por aí nestes seus passeios, e então, para não inquietar o mundo...
— Clarinha, que estás a dizer! - murmurava Margarida, escondendo-se por detrás da irmã.
Clara fingia não ouvi-la.
— Tenho-a ofendido por acaso alguma vez? - perguntou Daniel.
— Em coisa nenhuma. Bem vê que eu digo que é pelo mundo...
— Então deixe falar o mundo.
— Não é tanto assim. Talvez o fizesse se não fosse noiva. Parece-me até que o fazia, mas assim...
— Esta vida de aldeia! ... exclamou Daniel, num tom de supremo enfado. - esta vida de mexericos e de maledicências velhacas! Praga maldita das terras pequenas, onde faltam coisas sérias em que pensar! Ora vejam no que esta gente se ocupa? Em saber o que eu faço, como vivo, para onde vou, com quem converso; e isto entretêm-na! Então repararam já em eu passar por aqui? Como se não fosse coisa muito natural conversar consigo, Clarinha. Pois não somos nós parentes quase?
— Isso dizia eu à...
Um sinal de Margarida obrigou-a a interromper-se. Limitou-se a dizer, mutilando a frase e mudando a inflexão:
— Isso dizia eu.
— Afinal, não há como viver na cidade - continuou Daniel - Lá pode um homem conversar com uma senhora, apertar-lhe a mão até, que ninguém repara nisso. Aqui andam a espiar tudo o que se faz e a tomar tudo a mal. Que costumes estes!
E Daniel prosseguiu numa longa imprecação contra a vida campestre, exaltando a urbana, o que demorou, ainda por muito tempo a conversa.
No fim dela, renovou Clara o pedido, e conseguiu que Daniel, depois de alguma resistência, lhe dissesse a sorrir:
— Pois bem; esteja certa que eu farei com que não falem de mim. Não me hão de ver mais aqui.
E partiu.
— Estás satisfeita? - perguntou Clara, voltando-se para a irmã, logo que o perdeu de vista.
— Não - respondeu esta.
— Por que não?
— Queria que fosses tu a que deixasses de aparecer, e não lhe falasses assim.
— Por outra - tornou Clara - levemente despeitada - querias que eu fosse grosseira.
— Não - respondeu Margarida, abraçando-a - queria que fosses prudente.
Daniel cumpriu a promessa que fizera.
No dia seguinte, à hora costumada, não passou por casa das duas raparigas.
Era para admirara nele esta pronta condescendência às opiniões do público.
A própria Clara não tinha esperado encontrá-lo tão dócil; não ousamos dizer que também o não tinha desejado, ainda que dos freqüentes olhares que dirigia para o sítio, donde todos os dias costumava vê-lo aparecer, alguém tiraria talvez esta ilação.
Cerrava-se a noite. Havia muito tempo que o toque das ave-marias tinha ido perder-se nas mais distantes serras, que limitavam o horizonte. O fumo das choças e das herdades difundira-se sobre a aldeia. O zumbido dos ralos, essa incômoda sinfonia, com que rompem no estio as harmonias do crepúsculo, era atordoador.
Principiavam a cintilar as estrelas no céu, apenas muito para o ocidente, uma estreita faixa restava ainda do dia que fenecera.
Clara saiu de casa, em direção a uma pequena fonte que havia nas proximidades dela, e ao final da estreita rua, que acompanhava o muro dom quintal.
De dia, era esta fonte muito procurada, em virtude da excelência das águas, gabadas de tempos imemoriais, pelos clínicos da localidade, quase como milagrosas em infinitos casos de doenças. Não obstante a absoluta carência de princípios medicinais não justificar a nomeada.
Depois das trindades, porém, o solitário e sombrio do lugar afugentava a gente supersticiosa do campo.
Clara, criada de pequena por aqueles sítios, e desde então costumada a não os temes, de propósito escolhia estas horas para mais à vontade fazer sua provisão de água, e demorava-se ali sem a menor sombra de terror, antes cantando sempre, com ânimo desafogado.
Como o leitor decerto prevê, não era nenhum monumento arquitetônico a fonte de que falamos.
Imagine-se uma boca de mina, aberta na base de um pequeno outeiro, que, todo assombrado de pinheirais, se alongava a distância, na direção do norte da aldeia; uma telha, meia quebrada, servindo de bica; e a receber o abundante e inesgotável jorro de água límpida, uma bacia natural por ele mesmo cavada, e onde, à vontade, vegetavam os agriões ávidos de umidade.
Do pinhal sobranceiro descia-se à fonte por alguns degraus grosseiramente abertos, havia muito tempo, no terreno saibroso do outeiro, e aperfeiçoados pelo trilho cotidiano dos que se serviam dos atalhos do monte com o fim de encurtar distâncias dali a diversos pontos da aldeia.
Ao lado, e separado alguns passos da fonte, abria-se um desses enormes barrancos rasgados pelas torrentes de sucessivas invernos e cuja entrada quase disfarçavam os troncos robustos dos fetos e das giestas que, crescendo livremente, haviam atingido proporções quase tropicais.
Quando Clara chegou à fonte, não havia lá ninguém.
A cantar, aproximou-se dela, e ajoelhando, principiou a encher o cântaro de barro que trazia.
A água caiu ao princípio ressoante no interior do vaso; depois amorteceu gradualmente o som, à medida que subia o nível do líquido; este dentro em pouco transbordava.
Clara ia levantar-se. Na posição em que estava, tinha voltadas as costas para a entrada do barranco. Neste momento pareceu-lhe ouvir algum rumor daquele lado.
Não foi superior a um vago sentimento de susto. Voltou-se inquieta. Deu com os olhos numa forma escura, e em breve reconheceu mais claramente ser um vulto de homem, que se aproximava dela.
Soltando um grito, Clara ergueu-se de súbito para fugir.
Segurou-a a tempo um braço e falou-lhe uma voz conhecida:
— Que vai fazer? Não se assuste. Sou eu.
Era a Voz de Daniel.
— Santo nome de Jesus! - exclamou Clara ao reconhecê-lo e ainda tomada de susto. - O que faz por aqui?
— Vim vê-la - respondeu Daniel, com a maior naturalidade.
— Então é assim que cumpre o que ontem me prometeu?
— Pois que prometi eu, senão fazer com que me não vissem? É o que faço, vindo agora só e aqui.
— É pior, muito pior isto - disse Clara, lançando-se em volta de si olhares de inquietação.
— Não é - continuou Daniel. - Pois não me disse que não desconfiava de mim? Não foi só por condescender com os reparos tolos de meia dúzia de curiosos e de velhacos que me pediu... que exigiu de mim que não viesse? Falando-me assim, neste sítio e a esta hora, não pode recear alguém. Lembra-se de me haver dito que o povo tinha medo de passar de noite por aqui?
— Mas, apesar disso. Jesus, meu Deus! - continuava Clara sobressaltada. - E para que havia de procurar falar-me? que tem que me dizer?
Daniel sorriu.
— Que pergunta a sua Clara! Imagina lá a minha vida na aldeia? devoram-me desejos de conversar. Mas não tenho com quem. Privando-me de a ver, Clarinha, afastava-me da única pessoa, das que até agora tenho encontrado, com quem se pode sustentar uma conversa seguida e agradável. Veja se não seria crueldade proibir-me...
— Não diga isso - respondeu Clara - Eu entendo-o às vezes, sim; mas é quando todos o entendem também; quando a sua conversação mais me entretém, tenho notado que muitos o escutam como eu, com atenção. Mas doutras vezes...
Neste ponto Clara reteve-se, como se receasse terminar.
— Doutras vezes? ... repetiu Daniel sorrindo.
— Doutras vezes não o entendo, e é sobretudo quando fala só para mim.
— Não me entendes? - perguntou Daniel, com uma inflexão de voz, que fez estremecer Clara.
— Não, não o entendo porque não posso... porque não quero... porque não devo acreditar na verdade do que me parece entender.
— E quando lhe falei assim, diz-me?
— Um dia, começava a falar-me desse modo em casa daquele doente que foi ver. Doutra vez... Oh! e dessa!... foi aquela noite da esfolhada, em casa de seu pai.
— E não me entendeu nessa noite?
— E queria que o entendesse?
— Pois não deve ser o desejo de quem fala? - perguntou Daniel dum modo jovial.
— Eu ouço dizer que há muitas pessoas que falam a dormir, quanto dariam esses por não serem entendidos, então?
— Mas eu nunca fui sonâmbulo, Clarinha.
— Tanto pior para si.
— Por quê?
— Porque então é mau.
— Mau!
— Mau, sim. Eu não sei de maior maldade do que a daqueles que andam por aí a inquietar o sossego das famílias, a alegria dos corações, e só por gosto e fazer infelizes.
— Então eu...
— Basta, Sr. Daniel. Se é homem de bem, retire-se ou deixe-me retirar - disse Clara, com arde seriedade e nobreza que o impressionou.
Dando também às suas palavras mais grave tom, Daniel respondeu:
— Escute, Clara. Acredite que não fala com um homem de sentimentos perdidos; escute-me e tranqüilize-se. Eu conheço em mim um princípio mau, é verdade; mas creia que não lhe ando tão sujeito que nem compreenda já a força dos meus deveres. Conceda-me ainda um pouco de consciência. As vezes, muitas vezes até, deixo-me arrastar por esta força, que me leva a loucuras, que chega talvez a aproximar-se de uma vileza... mas, ao chegar ai, até hoje tenho resistido e espero... Perdoem-me isto, por quem são. Cedo me verão arrependido.
— Cedo! e quando é cedo ou tarde? sabe-o lá? Quem lhe há de dizer que é cedo? Cedo para si poderá ser; e para outros também? Há poucos dias, que todos por aí só falavam de uma pobre rapariga, a quem , por divertimento o Sr. Daniel trazia quase doida. Está arrependido, não é verdade? Mas arrependeu-se cedo para ela? Amanhã poderiam dizer de mim...
— Que hão de dizer, Clarinha? Essa rapariga de que fala, não fui eu que a fiz doida; engana-se; encontrei-a já assim. Eu não trabalhei para a perder; também se engana; os seus é que se esforçaram por a darem por perdida. A Clarinha esquece que a si todos respeitam e que...
— Não é verdade. Em que sou eu mais que as outras? Ninguém está acima das vozes do mundo. E se até agora tinha razão para não me importar com elas, por me não julgar culpada, teria de as temer, se continuasse a ouvi-lo aqui. Adeus.
— Vejo que me enganava ainda ontem, dizendo-me que tinha confiança em mim. Esses receios...
— Enganaria; mas enganava-me a mim mesma, também. Eu não sei mentir. E a prova é que sinceramente lhe digo agora que desconfio.
— De mim?
— De si, sim, por que não? As suas ações não são leais. Vê que, vindo procurar-me aqui, me pode perder, e não se importa fazê-lo; peço-lhe que se retire, e teima em ficar; peço-lhe que me deixe retirar, e impede-mo. Brinca assim com minha reputação sem se lembrar que sou quase já a mulher de seu irmão, quase a filha de seu pai, quase sua irmã também. Diz que sabe quais são seus deveres... e como é que os cumpre então? Se Pedro passasse por si, neste momento, e lhe abrisse os braços, como a irmão que é, teria valor para o abraçar, diga? Não fugiria antes dele como um criminoso? Fale.
Daniel curvava a cabeça, sem coragem para responder.
Clara prosseguiu:
— Peço-lhe pela alma de sua mãe, que nunca mais me procure aqui, que nunca mais me procure em parte nenhuma. Ontem ainda me ri eu dos avisos que recebia para me acautelar; hoje, já não sinto vontade de me rir. Tinham razão eles, tinham; agora o vejo; e este meu gênio é que me podia perder. Se por mim não é bastante pedir-lhe, peço-lhe por seu irmão, por sue pai, e por si mesmo, que assim anda a perder o crédito de um nome, que nenhum dos seus nunca deixou de honrar.
— Está sendo muito cruel para mim, Clarinha. Concordo que fui imprudente, inconsiderado, mas... Confesso-lhe que a impressão que me causou e que me causa...
— Sr. Daniel, eu não quero saber os seus segredos. Deixe-me retirar.
—Pois bem, será esta a última vez que a procuro, que lhe falo até, que a vejo, se tanto exigir de mim; mas ao menos desta vez há de escutar-me.
— Mas, para que preciso eu escutá-lo? - dizia Clara pelo tom de exaltação que ele falava.
Daniel continuou:
— Todos só têm palavra para me censurar, e ninguém há de ver um dia claro no meu coração? Ninguém, melhor do que eu, conhece a fraqueza ingênita deste caráter, que não sabe lutar; mas o que eu não sei, o que eu peço que me digam é o remédio para este mal. Clara, não procure fugir sem ouvir-me. Retirar-se-ia supondo pior do que sou, como todos que me conhecem. Eu quero que ao menos uma pessoa saiba a verdade a meu respeito. Escute.
E, ao dizer isto, segurava o braço de Clara, que temia de inquietação.
Neste momento, os passos de uma cavalgadura a trote rasgado soaram próximos, no caminho que vinha terminar defronte do lugar onde esta cena se passava.
Clara não pode reprimir um grito de susto.
— Jesus, que estou perdida! - exclamou ela; e soltando o braço que Daniel lhe segurava ainda, fugiu na direção de casa.
Antes, porém, de transpor a esquina que a devia ocultar às vistas de quem quer que era que se aproximava , e de conseguir fugir pela porta do quintal, o cavaleiro, tendo-a avistado e conhecido bradava rijo:
— Ó Clara, Clarita! Rapariga! Ó pequena! Pichiu! Eh! Onde vais com essas pressas? Não são os franceses, sossega.
O homem que bradava assim, era João Semana, que voltava de uma visita distante. Vendo a Clara a fugir tão apressada, conjeturou que ela se assustara, supondo-o algum facinoroso ou mal intencionado, e por isso berrava para lhe fazer perder o medo.
Mas ao aproximar-se da fonte, o velho cirurgião descobriu alguma coisa, que lhe pareceu procurava ocultar-se dele.
— Hum! - murmurou consigo o velho. - Pelos modos, o susto da rapariga era de outra espécie... Há de ser o Pedro.
E acrescentou em voz alta:
— Olá, não fujas, rapaz; não é crime nenhum vir falar assim com uma noiva; ainda que, para dizer a verdade, escusava de ser tanto às escondidas, escusava.
E com isto foi dirigindo o cavalo para aquele vulto, que parara, desde que viu que não podia fugir sem ser percebido. À medida que se aproximava, João Semana principiou a duvidar que fosse Pedro, o homem da entrevista noturna.
Parecia-lhe menos corpulento do que o primogênito de José das Dornas.
A esta suspeita, sulcou uma ruga profunda o longo da fronte do honesto celibatário, que decidiu consigo averiguar aquele mistério.
Tendo formado esta resolução, João Semana picou a espora de sua égua, a qual, estranhando a insólita amabilidade, de um salto o apresentou junto de Daniel que era, como o leitor sabe já, o vulto em questão.
Daniel, vendo-se descoberto, julgou que o melhor partido era entrar em jogo rasgado.
— Boas-noites, colega - disse ele em tom prazenteiro, e caminhando para João Semana.
Este deu um estremeção na sela ao reconhecer o seu jovem confrade. O não muito favorável conceito que ultimamente formava dele, em relação a certas qualidades morais, fê-lo agourar mal de sua presença naquele lugar.
— Ah! Ah! Você por aqui! Anda a fazer versos?
— Ou a inspirar-me para isso.
— Não é mau o sítio, não. E ao mesmo tempo pode dar-se a estudos de química também; a água desta fonte...
— Já me disseram que é medicinal.
— É excelente.
— Para que moléstias?
— Para muitas. Agora o que não sei é se para certos esvaimentos de cabeça também servirá. Bom era que sim, que anda por aí muito disso.
Daniel fingiu não entender a alusão, e observou com modo natural.
— Está aqui muito agradável.
— Ai, o sítio é bom, lá isso é. E para a caça?! Não gosta de caçar?
— Alguma coisa.
— Pois por estes montes há caça famosa. Ainda agora, quando eu vinha, fugiu daqui uma...lebre, e com uma pressa admirável. Não a viu?
— Não, não vi.
— O que é ser poeta! Não se vê coisa nenhuma. Com os meus oitenta anos vejo eu melhor. Pois é verdade; atravessou neste mesmo instante por esta rua... ia a jurar até que se escondeu ali no quintal; pareceu-me vê-la escapar através daquela porta.
— Tens boa vista, João; mas não tão boa, que te não passe por alto um amigo velho.
A voz, que dissera estas palavras, parecia vir do ar.
João Semana levantou a cabeça e deu com os olhos do reitor muito pachorrentamente estabelecido sobre o tronco de um pinheiro derrubado no topo das escadas que desciam do outeiro.
João Semana ficou espantado com a tal descoberta, e só isso o impedia de notar que Daniel o não ficara menos. Quando, porém, desviou para este os olhos, encontrou-o já sem sinal de perturbação, e até anediando os cabelos com toda a naturalidade.
As suspeitas, vagamente concebidas pelo cirurgião, desfizeram-se.
— Que diabo fazeis vós ambos aqui? e tu então de poleiro, abade?!
— É que isso aí embaixo é úmido como um charco, e eu não quero dar-te o que fazer com o meu reumatismo, João. Mas eu desço, eu desço.
— Não, não, deixa-te lá estar. Lá por isso..
— Não que vão sendo horas também de me chegar até casa. Pois é verdade - continuava o pároco, apoiando-se na bengala, e descendo, com vagar, e cautelosamente, aos poucos suaves degraus, cavados no saibro do monte - pois é verdade; estávamos nós aqui, eu com o Daniel e a Clarita, a conversar...
— Ah! bem me pareceu que era ela...
— Era ela, sim. Então que dúvida? Olha que sempre fizeste uma descoberta!
— Mas para que diabo fugia a rapariga, então?
— Diz antes por que diabo não fugimos nós. Mas o meu reumatismo é que me não deixou. Quando me hás de tu dar um remédio para isto, homem?
— É pregar com os ossos nas Caldas, querendo. Mas, dizias tu fugir? Para que haviam de fugir de mim?
— De todos. Quando se conspira...
— Então vocês?
— Conspirávamos, sim, senhor. Aqui mesmo onde nos vê, estávamos a combinar uma coisa...
— Que diabo era o que combinavam?
— Combinávamos...
O reitor achava-se um pouco embaraçado por nada lhe ocorrer a propósito; por isso exclamou para contemporizar:
— Que maldito costume tu tens, João, de estar sempre com o nome do inimigo na boca! Perde-me esse jeito.
— Pois sim, sim; hei de fazer por isso, apesar de que já vou um pouco tarde. Eu digo agora como aquele franciscano a quem repreendiam por, já na idade avançada, cair anda na fraqueza, em que Noé caiu: "Já agora hei de morrer com isto, dizia ele; porque de duas uma: ou já estou condenado, e então não sei que lhe faça; não vale a pena a emenda; ou não estou, e quem pode perdoar uma bebedeira de quarenta anos, não deve por dúvida em perdoar a de meia dúzia mais". - Mas então o que combinavam vocês?
A renovação da pergunta, depois da referência do caso, fez perder ao reitor as esperanças de eximir-se a responder. Quando João Semana conservava uma idéia fixa, través da narração de qualquer anedota de frades, era para dificilmente a deixar.
Conhecendo isto por experiência, o reitor resignou-se; e, ainda sem saber o que dizia, principiou a responder:
— Combinávamos...
E fingindo arrepender-se, exclamou:
— Mas é boa essa! Não há senão perguntar. Tu não deves entrar no segredo. A coisa é entre nós três.
— Homem, diz lá o que é. Que diabo...
Um gesto dom pároco obrigou João Semana a corrigir-se.
— Que S. Pedro de escrúpulos são esses agora?
A substituição do nome do espírito maligno pelo do apóstolo não lhe valeu a resposta que pedia, e que o reitor de boa vontade lhe dera, se a tivesse para dar.
— E a teimar - dizia o padre ganhando tempo. - Sempre és um curioso.
Daniel interveio enfim
— Olhe, Sr. João Semana, basta que saiba, e depois não pergunte mais nada, que estávamos preparando uma surpresa a meu irmão Pedro, para o dia do casamento dele.
O reitor franziu as sobrancelhas, ao ouvir Daniel. Apesar do auxílio que ele viera lhe dar, desgostou-o a presença de espírito que mostrava, quando devia estar enleado de confusão e de vergonha; foi por isso que acrescentou com num evidente tom de severidade e irritação:
— Casamento que, se Deus quiser, hei de brevemente abençoar. Estás agora satisfeito, João semana? Pois é verdade. Daniel meditava grandes novidades para o dia do casamento do irmão, grandes festas por causa dele e da noiva, et cetera, et cetera. Mas o seu projeto não mereceu, nem merece a minha aprovação.
Daniel baixou os olhos ao ouvir estas palavras do padre.
Este prosseguiu:
— Clara pensa como eu, mas este homem é obstinado, e através de tudo, teima em seguir sua vontade; mas eu protesto que...
— Vejo que não me entendeu, Sr. Reitor - disse Daniel com vivacidade.
— Entendi, entendi, homem. E julgo que não acho a propósito entrar agora em maiores explicações.
Daniel guardou silêncio.
— Mas não podiam tratar disso em casa? teimou João Semana, que não largava assim facilmente uma idéia, de que se tivesse apossado.
— E a dar-lhe! Não há que se lhe faça - dizia o reitor. - Homem, nós não queríamos que a Margarida soubesse nada disto, porque... porque... Mas tu vais a cavalo, e nós a pé. Segue o teu caminho, e apressa-te, que a Joana já há de estar com cuidado pela tua demora.
— E eu com vontade à ceia.
— Então, por que esperas? Vai com Deus, homem.
— Até amanhã, abade. Adeus, Daniel. Olhe lá como se porta, rapaz. Juizinho!... senão está mal servido com a sua vida. Lembre-se daquele frade...
— Aí, se te pegas a contar histórias, não chegas a casa à meia noite.
— Pois já não conto.
E fustigando a égua, desapareceu cedo da vista dos dois.
Logo que se afastou, Daniel ia dirigir-se ao padre.
— Sr. Reitor, foi providencial a sua vinda. Acredite porém...
O gesto cheio de severidade, com que o reitor o acolheu, não o deixou continuar.
— Basta. Não quero escutá-lo. Explicações não as preciso, por que ouvi tudo; justificações não as tem, não as pode ter, para dar. Boas-noites.
E, colocando-se diante da porta de suas pupilas, à frente da qual haviam chegado, afastou-se para deixar passar Daniel.
— Mas... - ia este a dizer.
— Boas-noites - repetiu secamente o reitor, e tão secamente, que fez perder a Daniel a coragem de insistir.
Curvando-se com respeito diante do velho, retirou-se dali.
O reitor, ficando só, entrou em casa das raparigas.
Depois de trocar algumas palavras com Margarida, chamou de parte Clara, e em tom um pouco desabrido, disse-lhe:
— Julgo que recebeste hoje um aviso do teu Anjo da Guarda, Clara. Olha agora se o aproveitas.
Quando a rapariga, levantando para ele os olhos, ia a interrogá-lo, o padre afastou-se, dizendo-lhe simplesmente:
— Adeus.
Dissera bem o reitor.
Clara ouvira de fato o seu Anjo da Guarda.
Aquela noite conheceu o perigo do caminho que seguira, a sorrir; e resolveu fugir-lhe. E iria já a tempo? pensava ela.
Da involuntária entrevista, que tivera com Daniel, saíra salva de todo? de todo livre de suspeitas?
A voz de João Semana, chamando-a de longe, mostrava-lhe que ela fora reconhecida. Mas que se passara depois? O reitor parecia também estar informado do sucedido. Como o teria suspeitado ou previsto?
Mas, por outro lado, o tom moderado das palavras que lhe dissera, levou-a a crer que ele conhecia a verdadeira extensão da sua culpa, e não a exagerava.
No meio desta corrente de pensamentos, Clara, às vezes estremecia.
Se no dia seguinte, lembrava-se então, se levantasse contra si um desses boatos surdos, rápidos a propagar-se, prodigiosos a crescer, que infama, que mancham de lodo as mais firmes reputações, e inoculam seu veneno sutil numa existência inteira?
A esta lembrança, Clara erguia as mãos com terror.
Aos pés de uma imagem da Virgem, pedia então misericórdia, e prometia evitar, dali em diante, todas as ocasiões de novos perigos. Daquela condenação, cuja lembrança bastava só para a assustar assim, a salvara um acaso... ou antes a Providência.
O reitor, a cujos ouvidos continuavam a chegar todos os dias vozes desfavoráveis a respeito de Daniel, andava inquieto por causa da assiduidade com que o vira freqüentar as proximidades da casa das suas pupilas.
Aquelas prolongadas palestras, da rua para a janela, podiam dar que falar, receava ele; e cedo viu que efetivamente iam já dando.
Qual não foi, pois, o seu desassossego, quando da casa de um pobre enfermo que fora confessar, viu às trindades daquele dia, passar furtivamente, e meio disfarçado, um homem, que, apesar e todo o disfarce, o reitor logo conheceu ser Daniel.
Deu-lhe uma pancada o coração, e, mal que pôde, desobrigou-se de sua santa tarefa, saiu apressado, e correu à casa de Margarida, a quem perguntou pela irmã.
Sabendo que naquele momento tinha ela saído para a fonte, para ali se dirigiu também o velho, mas por outro caminho, que o levou ao próximo pinheiral.
Chegou ali justamente quando Daniel aparecia a Clara; e pôde, sem ser visto, assistir a todo o diálogo entre os dois.
Foi por esta forma que o reitor, a quem muitas vezes estava confiado o papel de Providência na sua paróquia, conseguiu salvar oportunamente a boa fama de Clara, no conceito de João Semana, e provavelmente, na opinião geral da terra.
Se as recordações desta noite agitavam o espírito de Clara, não deixavam mais indiferente e tranqüilo o de Daniel.
Cruzando a passos largos o pavimento do quarto, velou grande parte da noite.
Poucas provações mais amargas há para os caracteres humanos do que a de se sentirem desprezados pela própria consciência.
Experimentava-o Daniel, então.
— Têm razão os que desconfiam de mim - pensava ele - conhecem-me melhor que eu próprio. Que sutis distinções ando eu a marcar por aí, entre o meu proceder e o de muitos miseráveis, que me causam tédio e desprezo? Que ridículas lamentações de homem não compreendido são as minhas? É no que se vingam sempre aqueles, cujos sentimentos inspiram aversão geral... Clamam-se que ainda não encontraram o espírito ou coração de harmonia com o seu. Vejamos. Pois não é infame o meu procedimento? Que lhe falta para ser completamente infame? Que espero eu de Clara? Para que a persigo? Para que a procurei hoje? - Não hesitei em dar estes passos, que, na aparência, a podem perder... E hesitaria em perdê-la na realidade? Quem mo assegura? tenho acaso certeza disso?
E, passeando mais agitado ainda, conservou-se por muito tempo sob o domínio desta idéia. depois continuou com mais exaltação:
— Tenho, sim. Não rebaixemos também a tal ponto os nossos sentimentos. Eu sou volúvel, imprudente, inconsiderado; conheço e odeio-me, quando me vejo assim; porém não sou perverso, porém, não sou capaz de uma traição infame... Queria que me acusassem de tudo, mas que não me suspeitassem disso, e muito menos Clara, essa generosa rapariga, e muito menos o reitor, esse homem honrado... Mas o que importam as minhas intenções, se dou lugar a que se diga, a que se possa pensar em calúnia! Se não fosse hoje o reitor, a quem a Providência parece haver inspirado, que se diria amanhã nesta mexeriqueira terra? - de mim, digam lá o que quiserem; mas daquela rapariga... É tempo de me fazer outro homem. E poderei consegui-lo? este meu temperamento é de uma mobilidade! pequenas coisas fazem-lhe perder o equilíbrio, que por momentos a razão consegue dar-lhe. Será pois isto em mim um mal incurável! É verdade que os médicos falam de certos estados nervosos, que pequenas impressões sustentam e exacerbam, e que, muitas vezes, uma profunda comoção consegue serenar, dando a esses pensamentos a estabilidade que não tinham. O estado de meu coração é assim. Talvez ainda não experimentasse a têmpera, que tem de o fortificar; talvez. Em todo o caso devo lutar comigo mesmo. Mas poderei resignar-me à má opinião que de mim conserva aquela rapariga? Não; preciso falar-lhe uma vez ainda para que me perdoe e restitua a sua confiança; serei depois para ela um amigo sincero, um verdadeiro irmão. Hei de falar-lhe.
Uma noite, depois de dormido o primeiro sono, ergueu-se Pedro, como solícito proprietário, para ir rondar um pinhal, distante da casa, onde, segundo informações recebidas, se tinham ultimamente praticado alguns roubos de pinheiros.
Ao vê-lo sair, o criado mais velho da casa, o mesmo ao qual vimos Daniel disposto a fazer compreender a teoria dos eclipses, quis acompanhá-lo.
— Deixe-me ir contigo, Sr. Pedrinho.
— Vai-te daí, homem; eu não sou nenhuma criança, para precisar de companhia.
— Mas...
— Deita-te; já te disse.
E o noivo de Clara saiu, de espingarda ao ombro, e assobiando uma toada popular.
Apesar da quase certeza que tinha de se não encontrar àquela hora com o principal e constante objeto dos seus mais gratos pensamentos, dirigiu o itinerário, com prejuízo da economia de tempo, pela rua em que morava Clara.
É que é já um prazer contemplar os muros, a cujo abrigo se sabe repousar a mulher que se ama; prazer inocente, entre os que mais o são, e que, desde tempos imemoriais, os amantes saboreiam.
Fique a leitora sabendo que, muitas vezes, enquanto dorme, se lhe estão fixados nas janelas, desapiedadamente cerradas e obscuras, os olhos ardorosos de alguns desses tresnoitados passeadores.
À medida que se aproximava do lugar, que o obrigara a este rodeio, ia diminuindo Pedro a velocidade da marcha.
Chegou perto do muro do quintal, e, insensivelmente parou. Lembrou-lhe que bem podia ser que, apesar do adiantado da hora, Clara estivesse acordada, pensando nele talvez. Que amante deixaria de fazer, nas mesmas circunstâncias, iguais suposições?
Como meio de verificação, pôs-se a cantar: Meia noite, tudo dorme;
Só eu não posso dormir;
Pois não me deixa este amor,
Que me fizeste sentir. Depois de pequena pausa, continuou:
Este amor que é minha vida,
Vida do meu coração,
Atrás do qual meus... A interrupção foi devida a certo rumor, que Pedro julgou ouvir dentro do quintal. Calou-se por isso, e pôs-se a escutar.
Tudo caiu em silêncio.
Aplicando, porém, o ouvido à fechadura, pareceu-lhe perceber o murmúrio de vozes abafadas.
— Quem anda aí dentro?! - perguntou em voz alta Pedro, batendo à porta.
Ninguém lhe respondeu.
Continuou a escutar, e de novo julgou distinguir o mesmo som.
Ia interrogar outra vez, mas, refletindo mudou de plano.
Continuou o seu caminho cantando: Este amor, que é minha vida,
Vida do meu coração,
Atrás do qual meus suspiros
E meus pensamentos vão. E seguiu, cantando assim, até certa distância da casa; e depois, retrocedendo, voltou com todas as cautelas, para junto da porta donde viera o rumor que o estava inquietando.
— Se fossem ladrões - pensava Pedro - que haviam de fazer as pobres raparigas, neste sítio solitário, e sem braço de homem em casa para as defender?
E este pensamento decidiu-o a não sair dali sem averiguar aquilo.
O seu estratagema prometia produzir efeito. Desta vez não era possível a ilusão. As vozes percebiam-se distintamente , e como em conversa acalorada, e, entre elas. Pedro julgou reconhecer uma de mulher.
Então, sentiu ele um doloroso constrangimento de coração. Uma idéia terrível, súbita e sinistra, como a luz do relâmpago, lhe iluminou o espírito, e, pela primeira vez, concebeu suspeitas que o fizeram estremecer.
— Se Clara... - murmurou, subjugado por aquela idéia. E um tremor convulso passou-lhe pelos membros com tal violência, que o constrangeu a apoiar-se à ombreira da porta para não cair. Naquele estado, a pulsação febril das artérias das fontes, impediu-o de escutar mais nada; o coração palpitava-lhe tão agitado que o ouviu bater.
O som das vozes tornava-se mais audível, como se aproximassem da porta as pessoas que assim conversavam. Pedro levou maquinalmente a mão ao gatilho da espingarda e ficou à espera com a vista fixa e a respiração reprimida. Era terrível o seu olhar naquele momento.
Ouviu-se o voltar da chave na fechadura, a porta abriu-se lentamente, e um diálogo, travado a meia voz, chegou aos ouvidos de Pedro; mas a energia da vertigem, que lhe tomara os sentidos, não lhe deixava perceber, senão de maneira confusa.
— Foi para lhe dizer isto, só para lhe dizer isto, que consenti em ouvi-lo aqui - dizia a voz feminina - Bem vê que seria uma loucura , se continuasse; mais do que uma loucura, seria um pecado até. Agora espero que cumpra a sua promessa. Mostre que é homem de bem. Adeus.
— Adeus - respondia-lhe outra voz - E perdoe-me se não posso ainda dizer friamente esta palavra. Mas verá se saberei emendar-me. Obrigado pela confiança que teve em mim. Adeus.
E, depois disto, um homem, todo envolvido numa capa comprida, saiu da porta do quintal, tendo antes apertado a mão, que se lhe estendia de dentro.
Pedro mal tinha ouvido, e mal conseguia ver tudo aquilo; passava-lhe pelos olhos como que uma nuvem de fogo. Correu para este visitador noturno com a impetuosidade, de que o animava a raiva e, apontando-lhe ao peito a espingarda, gritou com um rugido aterrador:
— Alto, miserável! Pára, ou está morto!
O homem ficou imóvel.
Dentro do quintal ouviu-se então um grito dilacerante, e a porta, violentamente impelida, veio fechar-se de encontro aos batentes.
Pedro rompeu para o desconhecido, que recuou diante dele.
— Quem és? Quero conhecer-te antes de te matar, infame!
E como o embuçado cada vez procurasse ocultar-se mais, Pedro lançou-lhe a mão, e, com um movimento rápido, descobriu-lhe o rosto, arrojando no chão a capa com que se envolvia. O luar bateu em cheio nas feições do outro.
Reconheceu Daniel.
É inexprimível em linguagem conhecida o que neste momento se passou no coração do pobre rapaz.
— Daniel! - bradou ele sufocado, pela intensidade da comoção que recebera.
Daniel conservava-se mudo e abatido. Dir-se-ia fulminado.
Houve um longo espaço de silêncio.
Pedro sentiu que se lhe formava no coração uma tempestade medonha; um raio de razão que lhe luzia ainda, inspirou-o para dizer em voz já cava e abafada:
— Por alma de nossa mãe, Daniel, por alma de nossa mãe, sai daqui, se não queres que suceda alguma desgraça.
— Ouve Pedro, escuta-me - tentou dizer Daniel; mas as palavras a custo se lhe articulavam, e a voz prendia-se na garganta.
— Daniel, foge, foge daqui, se me não queres perder! foge, irmão! - bradava Pedro, e, como que já sem consciência, contraiam-se-lhe espamodicamente os dedos sobre o gatilho da espingarda.
Daniel ia falar-lhe ainda, quando sentiu uma mão pousar-lhe no ombro, e, em seguida, um homem que, durante o ocorrido se aproximara do lugar, veio interromper-se entre ele e o irmão.
— Retire-se - exclamou este homem com voz severa, voltando-se para Daniel - Eu tinha previsto esta desgraça.
Era o reitor.
Ia a dirigir-se depois a Pedro, mas já não o encontrou ali.
O padre estremeceu.
— Meu Deus, é preciso evitar algum crime. O rapaz vai louco.
Pedro batia violentamente com a coronha da espingarda na porta do quintal, que pouco lhe poderia resistir.
Daniel vendo-o ia correr em defesa da mulher, cujo futuro perdera talvez irreparavelmente.
O padre susteve-o com energia, pouco de esperar naquela idade avançada.
— Retire-se - bradou com voz vibrante exaltada - Não está ainda satisfeito com a sua obra? Quer acabar de perder aquela pobre rapariga?
— Mas ele vai matá-la!
— Estou eu aqui para velar por ela. Cabe-me esse direito, que me foi conferido por sua mãe no leito, onde agonizava. Retire-se.
O reitor naquele momento transformara-se; sublimara-se a ponto de exercer um império completo na vontade de Daniel; no olhar do velho parecia haver não sei que influxo magnético, que obrigou Daniel a baixar a cabeça e a retirar-se, constrangido por irresistível impulso.
Pedro tinha arremetido contra a porta do quintal com verdadeira desesperação. Um pensamento sinistro o dominava; a raiva do ciúme e da vingança perturbava-lhe a razão.
Afinal a porta cedeu. Pedro penetrou no quintal como verdadeiro louco; empeceu-lhe, porém, os passos uma mulher que lhe caiu aos pés, bradando:
— Pedro, Pedro, não cause, não queira causar a minha perdição.
Este grito fê-lo recuar. A voz desta mulher, que o implorava assim. Pedro passou da agitação do delírio à imobilidade do letargo.
— Que é isso? - bradou, enfim, como ao acordar de um mau sonho. - Margarida aqui?
Era efetivamente Margarida a mulher, que de joelhos e mãos erguidas lhe jazia aos pés.
Desenhava-se no rosto da simpática irmã de Clara o mais violento desespero; e quem sabe o que lhe ia no coração.
Era pois Margarida a que tivera a entrevista com Daniel? Abençoada suspeita iluminou pela primeira vez as trevas do espírito atribulado do pobre Pedro! Abençoada lhe chamei, pelo conforto que gerou; porque na horrível tortura de coração daquele desgraçado, foi um bálsamo consolador.
— Margarida - disse-lhe ele, trêmulo de incerteza e de esperança - fale-me a verdade. Em nome de Deus, diga-me; quem estava aqui com Daniel? Diga-me, diga-me tudo pelo Salvador.
Houve um momento de silêncio. Margarida parecia hesitar; por fora da porta apareciam já alguns rostos curiosos, que chegavam atraídos pelo ruído.
— Quem estava aqui com Daniel? - perguntou Pedro.
Na alma de Margarida alguma coisa se passou de terrivelmente doloroso que quase a fez desfalecer.
Fechando os olhos, como quem adota uma resolução desesperada, como quem se despenha num abismo, respondeu com voz tremula, mas perfeitamente inteligível:
— Era eu!
A turbação em que estava não lhe impedia de perceber o sussurro das vozes que, de fora da porta, acolheu esta resposta.
Pedro, alheio a tudo que o rodeava, ergueu as mãos para o céu; e rebentando-lhe as lágrimas dos olhos, exclamou:
— Bendito seja Deus! Sirva de remissão dos meus pecados o tormento destes poucos instantes.
Quando o pároco chegou, encontrou-os nesta posição.
Caminhou com o rosto severo para a mulher que via ajoelhada, mas recuou também, espantado, ao reconhecer Margarida.
— Margarida! Pois era?... O reitor suspendeu-se, antes de concluir, como se um pensamento súbito lhe ocorrera. - Não pode ser, não pode ser. - E aproximando-se de Margarida, tomou-lhe o braço, com energia, bradando-lhe: - Que quer dizer isto, minha filha? Que fazes tu aqui?
Margarida juntou as mãos, e, olhando para o reitor com uma expressão particular, respondeu:
— Peço misericórdia!
— Para que culpa, minha filha?! - perguntou o padre, que não tirava os olhos dela.
— Para a minha...
— Para a... Entendo! - disse ele, como falando para si. - E devo eu consentir que?... Talvez que tenha razão - continuou, fitando em Margarida um olhar de bondade e quase de respeita, e acrescentou a meia voz: - Seja como quiseste, como Deus to inspirou decerto. - Depois voltando-se para Pedro: - E que tens mais que ver aqui, homem!
— Tenho que pedir perdão a todos.
O reitor empurrou-o amigavelmente pelos ombros, dizendo-lhe:
— Vai, vai. Deixa isso para outra vez. Não temos agora vagar para justificações.
— Mas, Sr. Reitor.
— Então! Vai para a tua vida, Pedro. E não me andes mais de espingardas, que são más companhias.
Dando depois com os olhos nos poucos espectadores desta cena, que se conservavam boquiabertos à porta, exclamou, todo irritado:
— E vocês que fazem aí pasmados? Quem vos chamou cá? Não sois tão prontos para o trabalho. Andar! e ter cautela com a língua. Ouviram?
Pedro saiu cabisbaixo. Os grupos dispersaram.
Logo que os viu retirar, o padre levantou Margarida, que se conservava de joelhos e quase exânime e disse-lhe comovido.
— Foi um sacrifício heróico, Margarida, para o qual poucas teriam fortalezas.
— Um sacrifício?
— Sim, não é a mim que iludiste, filha, que te conheço bem e há muito. Vai ter com a verdadeira culpada e...
— Não a condene , Sr. Reitor; o seu anjo bom não a abandonou ainda esta vez.
— Bem sei - respondeu o reitor. - Pois não te vejo eu aqui? Mas vai, e acaba a tua obra abençoada, confortando-a e chamando-a ao caminho do arrependimento. Eu também tenho a minha tarefa. E dou graças a Deus por ter permitido que os meus deveres paroquiais me conservassem por fora até estas horas. Até amanhã, minha filha;
E o reitor saiu, mas em vez de tomar o caminho de casa, voltou na direção oposta.