José das Dornas era um lavrador abastado, sadio e de uma tão feliz disposição de gênio, que tudo levava a rir; mas desse rir natural, sincero e despreocupado, que lhe fazia bem, e não do rir dos Demócritos de todos os tempos - rir céptico, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.
Em negócio de lavoura, dava, como se costuma dizer, sota e ás ao mais pintado. Até o Sr. Morais Soares teria que aprender com ele. Apesar dos seus sessenta anos, desafiava em robustez e atividade qualquer rapaz de vinte. Era-lhe familiar o canto matinal do galo, e o amanhecer já não tinha para ele segredos não revelados. O sol encontrava-o sempre de pé, e em pé o deixava ao esconder-se.
Estas qualidades, juntas a uma longa experiência adquirida à custa de muito sol e muita chuva em campo descoberto, faziam dele um lavrador consumado, o que, diga-se a verdade, era confessado por todos, sem esforço de malquerenças e murmurações.
Diz-se que quem mais faz menos merece e que mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga, e não sei o que mais; será assim; mas desta vez parecia que se desmentira o ditado, ou pelo menos que o fato das madrugadas não excluíra o auxílio providencial, porque José das Dornas prosperava a olhos vistos. Ali por fins de agosto era um tal de entrar de carros de milho pelas portas do quinteiro dentro! S. Miguel mais farto poucos se gabavam de ter. Que abundância por aquela casa! Ninguém era pobre com ele; louvado Deus!
Como homem de família, não havia também que por a boca em José das Dornas. Em perfeita e exemplar harmonia vivera vinte anos com sua mulher, e então, como depois que viuvara, manifestou sempre pelos filhos uma solicitude, não revelada por meiguices - que lhe não estavam no gênio - mas que, nas ocasiões, se denunciava por sacrifícios de fazerem hesitar os mais extremosos.
Eram dois estes filhos - Pedro e Daniel. Pedro, que era o mais velho, não podia negar a paternidade. Ver o pai era vê-lo a ele; a mesma expressão de franqueza no rosto, a mesma robustez de compleição, a mesma excelência de musculatura, o mesmo tipo, apenas um pouco mais elegante, porque a idade não viera ainda curvatura de certos contornos e ampliar-lhe as dimensões transversais, como já no pai acontecia. Conservava-se ainda correto aquele vivo exemplar do Hércules escultural.
Pedro era, de fato, o tipo de beleza masculina, como a compreendiam os antigos. O gosto moderno tem-se modificado, ao que parece, exigindo nos seus tipos de adoção o que quer que seja de franzino e delicado, que não foi por certo o característico dos mais perfeitos homens de outras eras.
A organização talhara Pedro para a vida de lavrador, e parecia apontá-lo para suceder ao pai no amanho das terras e na direção dos trabalhos agrícolas.
Assim o entendera José das Dornas, que foi amestrando o seu primogênito e preparando-o para um dia abdicar nele a enxada, a foice, a vara, a rabiça, e confiar-lhe a chave do cabanal, tão repleto em ocasiões de colheita.
Daniel já tinha condições físicas e morais muito diferentes. Era o avesso do irmão e por isso incapaz de tomar o mesmo rumo de vida.
Possuía uma constituição quase de mulher. Era alvo e louro, de voz efeminada, mãos estreitas e saúde vacilante.
O sangue materno girava-lhe mais abundante nas veias, do que o sangue cheio de força e vida, ao qual José das Dornas e Pedro deviam aquela invejável construção.
Votar Daniel à vida dos campos seria sacrificá-lo. Apertava-se o coração do pobre pai, ao lembrar-se que os sóis ardentes de julho ou os tufões regelados de dezembro haviam de encontrar sem abrigo aquela débil criança, que mais se dissera nascida e criada em berços almofadados e sob cortinados de cambraia, do que no leito de pinho e na grosseira enxerga aldeã.
E desde então, desde que pensou nisto, um idéia fixa principiou a laborara no cérebro daquele pai extremoso e a monopolizar-lhe as poucas horas que o trabalho não absorvia.
De vez em quando o encontravam os amigos deveras preocupado, o que, sendo nele para estranhar, excitava curiosidades e receio e desafiava interrogações.
O reitor foi um dos que mais se importou com a preocupação do nosso homem.
Era este reitor um padre velho e dado, que há muito conseguira na paróquia transformar em amigos todos os fregueses. Tinha o Evangelho no coração - o que vale muito mais ainda do que tê-lo na cabeça.
A qualidade de egresso não tolhia os ser liberal de convicção. Era-o como poucos.
— Ó homem de Deus - disse pois o reitor um dia, resolvido deveras a sondar as profundezas daquele mistério - que tens tu há tempos a esta parte? Que empresa é essa em que me andas a cismar há tantos dias?
— Que quer, Sr. Padre Antônio? um homem de família tem sempre em que cuidar; tem a sua vida e tem a dos filhos.
Foi a resposta que obteve.
— Ora essa! - insistiu o padre - Bem alegre te via eu, em tempos mais azados para tristezas, e bem alegres vejo muitos com bem outras razões para o contrário. Mas tu! Que mais queres? Tens bons haveres para deixares a teus filhos.; mas, quando não os tivesses, sempre eram dois rapazes; e deixa lá, José; um homem é outra coisa que não é uma mulher; onde quer se arranja; toda a terra é sua; em toda a parte encontra o que fazer, e qualquer trabalho lhe está bem. Agora os pobres que vejo por ai com um rancho de raparigas, coitadinhas, que ficam mesmo ao desamparo de todo, se a sorte lhes roubar o pai... esses, sim, é que não sei como podem ter um momento de alegria; e contudo encontrá-los nas festas, que é um louvar a Deus.
— É assim, Sr. Reitor, eu sei que os há por aí mais infelizes do que eu, mas...
— Mas então, quem tem saúde e a quem Deus não falta com o pão nosso cotidiano, só deve erguer as mãos ao céu para lhe tecer louvores. Mareia a tua vida, que teus filhos não são nenhuns aleijados para precisarem pedir esmolas.
— Graças a Deus que não são, Sr. Reitor. O Pedro, sobretudo, não me dá cuidados. O Senhor fê-lo robusto e fero; é um homem para o trabalho; e quem pode trabalhar não precisa de outra herança. Pelo trabalho, e com a ajuda de Deus, fiz eu esta minha casa, que não é das piores, vamos; ele, com menos custo, a pode agora aumentar, se quiser. Mas o Daniel já não é assim. Aquilo é outra mãe - o Senhor a chame lá. Um dia de ceifa é bastante para mo matar. É a sorte dele que me dá cuidado.
-- Então é só isso? Ora valha-te Deus! É verdade. O pequeno é fraquito e decerto não pode com o trabalho do campo, mas... para que queres tu o dinheiro, José? Acaso não terás alguns centos de mil-réis ao canto da caixa para pôr o rapaz nos estudos? Não podes fazer dele um lavrador? Fá-lo padre, letrado ou médico, que não ficarás pobre com a despesa.
José das Dornas ao ouvir assim formulado o conselho do reitor sorriu com a visível satisfação que sempre experimentamos, vendo que um dos nossos pensamentos favoritos merece a aprovação de alguém, antes de lho revelarmos.
— Nisso mesmo penava eu. Já me lembrou mandá-lo estudar, mas tinha cá certos escrúpulos.
— Escrúpulos! Valha-te não sei que diga! Pois ainda és desses tempos? Que escrúpulos podes ter em mandar ensinar teus filhos? Fazes-me lembrar um tio meu que nunca permitiu que as filhas aprendessem a ler; como se pela leitura se perdesse mais gente do que pela ignorância.
— Não é isso, Sr. Padre Antônio, não é isso o que eu quero dizer; mas custa-me dar a meus filhos uma educação desigual. Vê Vossa Senhoria. São irmãos e , mais tarde, o que tomar melhor carreira e se elevar pelo estudo, há de desprezar o que seguir a vida do pai, a ponto de que os filhos dum e doutro quase não se conhecerão: é o que mais vezes se vê. Não é uma injustiça que faço a Pedro a educação que der a Daniel?
— Homem de Deus, não há desigualdade verdadeira, senão a que separa o homem honrado do criminosos e mau. Essa sim, que é estabelecida por Deus, que, na hora solene, extremará os eleitos dos réprobos. Educa bem os teus filhos em qualquer carreira em que os encaminhes; educa-os segundo os princípios da virtude e da honra, e não os distanciará, acredita; porque, cumprindo cada um com o seu dever, serão ambos dignos um do outro e prontos apertarão as mãos onde quer que se encontrem. E no sentido mundano, julgas tu que fazes mais feliz Daniel, por o elevares a uma classe social acima da tua! Aí, homem, como viver enganado! o quinhão de dores e provações foi indistintamente repartido por todas as classes, sem privilégio de nenhuma. Há infortúnio e misérias que causam o tormento dos grandes e poderosos, e que os pobres e humildes nem experimentam, nem imaginam sequer. Grande nau grande tormenta: hás de ter ouvido dizer. Sabes que mais José? - concluiu o reitor - manda-me o rapaz lá por casa, que eu lhe irei ensinado o pouco que sei do latim, e deixa-te de malucar!
Com estas e idênticas razões foi o bom do padre convencendo José das Dornas, que nada mais veementemente desejava do que ser convencido - e, decorridos oito dias, via-se já Daniel passar, com os livros debaixo do braço, a caminho da casa do reitor.
— Ó ti'Tomásia - dizia, ao vê-lo passar, uma velha que, sentada ao soalheiro, fiava, rezava padre-nossos e cabeceava com sono - o pequeno do José das Dornas anda agora nos estudos?
— Pois não sabe que o pai o quer pôr a padre? - respondeu a vizinha da porta de cima, ao passo que desenredava uma meada e fazia soltar à dobadoura os mais inarmônicos gemidos.
— Toma que te dou eu! A coisa vai ser grande então!
— Bem se diz: mais anda quem tem o bom vento, do quem muito rema. Verá você, ti'Custódia, que o Pedro, que se mata com trabalho, há de ter sempre vida de galés, sem nunca levantar cabeça; e o pelém do irmão é que há de pimpar de senhor e dar leis em casa.
— Uma coisa assim! Já agora havia mister de um senhor abade ou cônego na família! Ora este mundo sempre está!.
— E então veja que padre aquele! A mim não me engana a pinta. É de boa raça. Não tem dúvida nenhuma.
— Sai ao lado da mãe, vizinha. Lembra-se do tio dele - o Joaquim do Morgado? - Que menino!.
A inflexão com que este - que menino! - foi pronunciado era altamente significativa. É de crer que o referido Joaquim do Morgado, cunhado de José das Dornas, deixasse indeléveis recordações entre as mulheres de sua época.
— Se me lembra! Aquilo era uma coisa por maior. Bastava dar-lhe um pouco de trela, que ele aí estava! Nanja eu, comigo nunca ele fez farinha.
E dizendo isto, desviava a cara a abaixava-se para apanhar o novelo que deixara cair, enquanto a vizinha fazia um gesto e resmoneava um aparte ininteligível, que ambos pareciam contrariar a última asserção da velha e pôr em dúvida a sua apregoada isenção de outros tempos.
— Nem comigo, ti'Tomásia - disse, em tom já elevado, esta do aparte - nem comigo, que ele bem sabia com quem se metia.
Desta vez, gesto e aparte pertenceram à outra interlocutora, e tinham a mesma significação.
É certo, porém, que Daniel ia andando com seu latim e, dentro em pouco tempo, já papagueava os substantivos e os adjetivos com incrível e surpreendente velocidade.
José das Dornas divertia-se excessivamente a ouvi-lo. As declinações ditas pelo filho em voz alta "lá lhe caiam no goto" como ele dizia; e já procuravam imitá-lo nas suas horas de bom humor, que, segundo já afirmamos, eram numerosas.
— Dize lá, rapaz, dize lá. Então como é? Como é? Altrotoro, altrotoro, altrotoro. Ó tranca, ó trinque, ai, diabos, diabos, diabos. Ah! Ah! Ah! Ora dize lá, rapaz, dize lá.
E Daniel principiava a repetir as lições acompanhado das gargalhadas de José das Dornas que, sem o saber, ia demonstrando com o exemplo um grande preceito de instrução, tantas vezes recomendado: - o de vencer, pelo estímulo do agradável, o fastio que acompanha o estudo. De fato, a facilidade com que Daniel retinha já as enfadonhas lições da arte do Padre Pereira era em parte devida à maneira por que lhas amenizavam estes gracejos do pai; quanto mais arrevesados eram os nomes, com mais vontade os decorava Daniel, para despertar com eles a estranheza e hilaridade paternas.
Que estrondosas gargalhadas se não deram na noite em que repetia em voz alta a declinação do relativo Qui e seus compostos!
— Ora essa! - dizia José das Dornas - que vem cá a ser isso? Qui, qui, qui, qui... Ai que o Sr. Reitor quer ensinar-me ao filho a língua dos cevados!
E toda a família desatava a rir, e Daniel mais que todos.
E assim procedia o menino Daniel nos seus estudos com grande aprazimento do reitor, que muitas vezes dizia ao pai, em tom confidencial.
— Sabes que mais, José? O rapaz é esperto, e era até um pecado desviá-lo do estudo, para que tem tanta queda. Olha que me estudou as linguagens em oito dias!
José das Dornas não podia avaliar ao certo e gênero e grau de dificuldade que vencera o filho; mas entendeu, lá de si para si, que fora alguma coisa de heróico, e nesse dia não pode deixar de olhar para o rapaz como se ele tivesse no rosto o que quer que fosse de estranho - a auréola dos predestinados para grandes coisas.
— E então, Sr. Reitor - perguntou ele um dia ao mestre - o pequeno vai bem?
— Otimamente. O Sulpicio para ele é já como água de unto. Qualquer dia passo-o para o Eutrópio e dentro em pouco para o Cornélio.
Estas sucessivas passagens do Sulpicio para o Eutrópio, e do Eutrópio para o Cornélio, impressionaram profundamente José das Dornas.
Lá lhe pareceu aquilo uma façanha ginástica admirável.
— Faremos dele um padre Sr. Reitor?
— Que dúvida? E um padre às direitas.
Ora aqui é que o bom do pároco se enganava, como, pouco tempo depois, ele próprio reconheceu.
Foi o caso que, ai por volta de um ano depois que o Daniel principiara os estudos - tinha ele então doze para treze anos - começou o reitor a observar que o rapaz lhe vinha um pouco mais tarde para a lição. Ao princípio eram cinco, dez minutos, um quarto de hora de diferença. Depois cresceu a demora a vinte, vinte cinco minutos, meia hora, e o padre pôs-se a parafusar:
— Já não me vai parecendo bem a história. Dar-se-á o caso que o rapaz me ande por aí a garotar? Se eu o sei! E então que ia tão bem! Deixa-o vir, que eu sempre hei de querer saber o que isto é. Nada, não vamos assim à minha vontade. Deixa-o vir.
Se bem o pensou, melhor o fez. Chegou o pequeno, todo ofegante e suado, como quem viera às carreiras, e o reitor, fitando-o com olhar severo e penetrante, disse-lhe antes de lhe dar as bênçãos, que ele, de chapéu na mão, lhe pedia:
— Olha cá, Daniel; donde vens tu a estas horas?
O rapaz fez-se vermelho como um lacre, e não atinou com a resposta. Ficou-se a coçar na cabeça, a encolher-se, a engolir em seco, a rosnar não sei o quê, e ... mais nada.
— Anda que eu desconfio que me vais saindo garoto. E, se assim é, tens que ver comigo. Grandessíssimo brejeiro! Teu pais manda-te para o estudo ou para andares jogando pedra com a outra canalha?
— Eu não andei jogando pedra, não senhor! - exclamou Daniel com uma tão eloqüente vivacidade que, sem possível ilusão, atestava que ele não mentia.
— Então que fez vossemecê até estas horas?
Nova confusão do rapaz.
— Eu hei de saber; hei de mandá-lo vigiar, e depois direi a seu pai.
Nos quinze dias que se seguiram a esta cena, Daniel foi pontual às horas da escola. O reitor estava satisfeito com a emenda do rapaz, e lisonjeado, lá muito para si, com o seu poder persuasivo e a conversão que operava com uma simples admoestação.
Ao fim de duas semanas encontrou-se por acaso com José das Dornas, e já não se lembrava até de lhe fazer queixa do filho, que assim entrara obediente no bom caminho do dever. José das Dornas, porém, é que se mostrava preocupado. Quanto mais o padre lhe gabava a habilidade de Daniel, tanto mais o bom homem parecia constrangido, limitando-se a soltar uns ininteligíveis monossílabos em sinal de aprovação.
— Que tens tu, José? A modo que te estou estranhando! - exclamou o reitor, já um pouco impaciente.
— É que, Sr. Padre Antônio, eu... a falar a verdade... queria dizer-lhe uma coisa.
— Pois dize, homem, dize para ai. Então deste agora em fazer cerimônias comigo?
— Eu sei o grande favor que o Sr. Reitor me faz ensinando o pequeno...
— Bem, bem, adiante; deixemo-nos agora disso. Se eu o ensino, é porque quero e gosto. O que estimo é que ele aproveite, como de fato aproveita; o mais são histórias.
— Pois muito agradecido. Mas dizia eu... sim... custa-me a explicar...
— Com S. Pedro! Fala, homem, dize lá o que tens a dizer.
— É que o rapaz a modo que é fraquito, e então...
— E então o quê ?
— Tenho medo que, estudando demais, me adoeça por aí, e ...
— Mas ele estuda demais?
— Não, senhor; mas... sim... queria eu dizer, que talvez fosse bom que o Sr. Reitor o demorasse menos na aula. Digo eu isto, mas se vir que...
— Sim, sim, mas então... vamos a saber, então ele demora-se muito?
— Não digo que seja muito. Tudo é necessário, bem sei...Mas... quero eu dizer... para quem é fraco como ele... Como sai às duas horas e vem só às trindades... e às vezes à noite fechada...
O Reitor ficou como se lhe caíra o coração aos pés, ficou... - diga-se a frase, visto que a autorizou quem podia - ficou desapontado. Das duas horas às trindades, e à noite cerrada, às vezes, quando ele lhe entrava em cada às três e lhe saia pouco depois das cinco! Tinha assim o padre de modificar duplamente o seu juízo - quanto ao rapaz e quanto a si - descrendo da conversão do primeiro e do seu próprio poder de catequese. Este sacrifício em duplicado, custou-lhe e conservou-o por algum tempo mudo. Esteve para contar ao pai a história toda, mas calou-se. Tinha um coração generoso afinal de contas e compreendeu que a revelação, iria afligir o velho.
— Tens razão, homem - limitou-se pois a dizer - Tens razão. O rapaz há de sair mais cedo. Eu olharei por isso. Mais alguns dias só, para chegar cá a um ponto que eu quero, e depois será como dizes.
E lá consigo dizia o bom padre.
— Deixa estar, meu Danielzinho, que eu hei de saber por onde tu me vais, depois que te mando embora. Deixa estar, deixa, que me não tornas a enganar, meu menino.
E foi para casa com firme resolução de elucidar este negócio.
No dia seguinte deu Daniel a lição de costume, e às cinco horas recebeu ordem de se retirar, - ordem cuja execução, como era natural, não se fez esperar muito.
Ele a voltar costas, e o reitor a pôr o chapéu na cabeça para lhe ir na pista.
A tarefa não era fácil; basta lembrar-mos da agilidade de Daniel, natural à sua idade, e compará-la com os já trôpegos movimentos do velho padre, que, com a pressa que levava, impelia diante de si todas as pedras soltas do caminho.
Foi seguindo direito pelas ruas que o conduziam a casa de José das Dornas e perguntando a quantos conhecidos encontrava, sentados pelas portas ou debruçados nas janelas, se tinham visto passar o pequeno. Por muito tempo foram as respostas afirmativas, o que satisfazia o reitor, pois indicavam-lhe que, até aquele ponto, o rapaz não se havia extraviado, deixando de seguir o caminho de casa.
Chegou, porém, a um largo, onde desembocavam diferentes ruas e azinhagas, e as coisas mudaram então de face.
O reitor continuando a seguir seu sistema de indagações, tomou a direção que devia ser mais prontamente o pequeno Daniel aos lares paternos.
A porta duma casa térrea, que havia na esquina, dobava uma velha, a qual, ao ver aproximar-se o reitor, ergueu-se, com toda a cortesia da cadeira em que estava sentada.
— Muito boas tardes, tia Bernarda. Diga-me, viu passar por aqui o pequenito do José das Dornas?
— Nosso Senhor venha na companhia de V.S.ª. Pois nada, não senhor, Sr. Reitor. O rapazito passava dantes por aqui todas as tardes; mas haverá coisa de quinze dias, ou três semanas, que já o não tenho visto.
O reitor pôs-se a coçar na orelha. O delito começava a fazer-se evidente.
— Esta agora - murmurava ele deveras zangado, e depois acrescentou mais alto: - E eu que me esqueci de lhe dar um recado para o pai! Diacho!
— Se V.S.ª. quer, eu mando lá a minha neta.
— Nada, não; obrigado. A coisa também tem tempo. Fique-se com Deus, tia Bernarda, e agradecido.
— Nanja por isso, meu senhor - E a velha fez reverência.
— Temos história - dizia o reitor, franzindo o sobrolho e tomando por outro dos caminhos que comunicavam com o largo. - Perguntemos aqui - e parou junto dum alpendre rústico, debaixo do qual estava sentado um velho quase paralítico, que procurava nos raios do sol o calor que lhe escasseava nos membros, já regelados pela idade.
— Boas tardes, tio Bonifácio - disse o reitor, elevando a voz e parando defronte dele.
— Sr. Padre Antônio, um criado de V. Rev.ma.
— Sabe me dizer, tio Bonifácio, se o pequeno do José das Dornas passou há pouco tempo por aqui?
O velho, já meio surdo, fez repetir a pergunta em tom mais elevado, e depois dum momento de silêncio, durante a qual pareceu interrogar a memória, já perra e enfraquecida.
— Sim senhor, vi - respondeu, acenando afirmativamente com a cabeça - Vi sim senhor. Passou aqui com os bois, há meia hora.
— Com os bois!... Aí, esse é o Pedro. Falo no pequeno: no Daniel.
— Ah!... nada... esse... ah! sim, sim... um que anda nos estudos?
— Esse mesmo.
— Sim, pelos modos que... agora neste instante passou ele a correr, para o lado dos açudes.
— Obrigado, tio Bonifácio.
— O mafarrico do rapaz que terá para fazer do lado dos açudes? - dizia o padre consigo, tomando a direção indicada. Efetivamente pelo novo caminho que seguia, iam-lhe dando informações de Daniel, acrescentando de mais a mais, que, havia coisa de duas semanas, era ele certo por ali todas as tardes.
O reitor dava-se a perros, para atinar com o motivo de semelhante rodeio.
— Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo! Para que virá o rapaz dar esta esquisita volta?
De certo ponto por diante faltaram-lhe as informações, porque o sítio tornava-se quase despovoado.
A tarde ainda estava longe do seu fim; mas umas nevoazitas começavam a levantar-se dos campos e lameiros, e o reitor, que tinha o seu reumático a atender, já ia perdendo grande parte daquele fogo com que encetara a pesquisa.
No meio dum estreito e alagado caminho, que seguia tortuosamente por entre dois campos de centeio, parou e entrou a refletir:
— O rapaz sumiu-se. Para o ir procurar assim à toa e a estas horas do dia não estou eu. Vão lá atrás do homem da capa preta. Quem sabe onde o diabrete foi dar agora consigo? O pai que o procure que tem obrigação disso. O melhor é retirar em boa ordem, antes que venha o frio da noite.
Já se preparava para seguir o prudente conselho, que a si próprio acabava de dar, quando lhe despertou a atenção um assobio agudo e vibrante, cujo timbre lhe era tão conhecido como a toada da cantiga que executava.
— Olá - disse o reitor, parando equilibrado sobre duas alpondras no meio do lamaçal do caminho - Moiro na costa, ou eu me engano muito!
Pôs-se a escutar de novo, e cada vez mais parecia confirmar as suas suspeitas, acabando de se convencer de todo, quando, ao assobiar, sucedeu uma voz infantil, que ele logo reconheceu como a do discípulo, cantando, ainda na mesma toada, que era de uma música popular, as seguintes coplas:
Morena, Morena
De olhos castanhos
Quem te deu, morena,
Encantos tamanhos?
Encantos tamanhos
Não vi nunca assim
Morena, morena,
Tem pena de mim.
Morena, morena,
De olhos rasgados
Teus olhos, morena,
São os meus pecados.
São os meus pecados
Uns olhos assim
Morena, morena,
Tem pena de mim.
Morena, morena,
Dos olhos galantes
Teus olhos, morena,
São dois diamantes.
São dois diamantes
Olhando-me assim
Morena, morena,
Tem pena de mim.
Morena, morena,
Dos olhos morenos
O olhar desses olhos
Concede-me ao menos.
Concede-me ao menos
Não sejas assim
Morena, morena,
Tem pena de mim.
- Temos o homem - disse o reitor, depois de ouvir a cantiga, e enfiou resoluto pela rua adiante. Mas tendo dado alguns passos mais, parou como se mudasse de tenção. -
- Nada, não convém que ele me veja. É preciso espiá-lo sem que ele dê por isso.
Feita esta reflexão, passou um rápido exame ao terreno e retrocedeu. Dobrou novamente a esquina da viela em que se introduzira; costeou o campo do lado direito, até se lhe deparar uma cancela rústica, que não lhe opôs a mínima resistência, e oculto pelo centeio, caminhou, o mais prudentemente que pôde, até o lugar correspondente àquele de onde partia a voz e daí por diante até descobrir a caça que procurava. Não levou muito tempo a realizar o seu intento.
Eis a cena que viu o reitor, acocorado ente o centeio, com a bengala fixa no chão, mãos apoiadas na bengala, o queixo apoiado nas mãos
Defronte do campo, donde, com as melhores intenções deste mundo, o reitor estava espionando, e separado apenas dele pela estreita e úmida rua, de que já falamos, estendia-se um trato de terreno inculto, muito coberto de tojo e de giestas, e dessa espontânea vegetação alpestre, que, no nosso clima, enflora ainda mais os montes mais áridos e bravios.
Dispersas por toda a extensão deste pasto, erravam as ovelhas e cabras de um numeroso rebanho, de que eram os únicos guardadores, um enorme e respeitável cão pastor e uma rapariguita de, quando muito, doze anos de idade.
Até aqui nada de notável para o reverendo pároco.
Mas o que o maravilhou foi o grupo que formavam, naquele momento, a pequena zagala, o cão e o nosso conhecido Daniel, por via de quem o bom do padre empreendera tão trabalhosa excursão.
A pequena sentada junto de uma pedra informe e musgosa, folheava com atenção um livro, dirigindo, de tempos em tempos, meios sorrisos para Daniel, que, deitado aos pés dela, de bruços, com os cotovelos fincados no chão e o queixo pousado nas mãos, parecia, ao contemplar embevecido os olhos da engraçada criança, estar divisando neles todos os dotes mencionados na canção da Morena, que lhe ouvimos cantar.
Jaziam ao lado dos dois uma roca espiada e os livros de Daniel.
Completava o grupo o cão, enroscado junto do pequeno estudante com desassombrada familiaridade, e denunciando assim que o conhecimento entre eles, e por conseguinte de Daniel com a pastora, não era já de recente data.
Este grupo, apesar de toda a sua beleza artística, realçada pelas meias tintas do crepúsculo e por o fundo alaranjado do céu, sobre que se desenhavam os rendados das árvores ao longe, não agradou de maneira nenhuma ao reitor, que, com um franzir de sobrolho, mostrou claramente a contrariedade que ele lhe fazia experimentar.
Esteve para surgir entre o centeio e mostrar-se aos enlevados personagens deste idílio infantil, severo e terrível, como o velho vulto do gigante Adamastor, nas estâncias do grande épico.
Pôde, porém, conter-se e constrangeu-se a observar a cena, com mal reprimido desagrado.
A pequena, que estivera por muito tempo inclinada sobre o livro, como a lutar com alguma dificuldade de leitura, que procurava vencer por si, acabou por fazer um gesto de impaciência, e, apontando com o dedo a palavra da dúvida, colocou a página diante de dos olhos de Daniel, perguntando-lhe:
— Isto que quer dizer?
Daniel olhou por algum tempo para o livro, e afinal respondeu:
— Cataclismo.
— E o que vem a ser cataclismo?
Daniel ficou embaraçado. A falar a verdade, ele não sabia bem o que era cataclismo. Não teve coragem para o dizer francamente e titubeou:
— Cataclismo... sim... cataclismo é... sim... eu sei o que é... agora para to dizer é que ... Cataclismo...
O reitor apesar da posição crítica em que estava, não deixou de se zangar lá consigo, ao ver um discípulo seu não poder desenredar-se de tais dificuldades filológicas.
Margarida, que era este o nome da pequena, adivinhou a causa da hesitação de Daniel e delicadamente lhe pôs fim, olhando outra vez para o livro e continuando a estudar em silêncio.
Daí a pouco voltou, porém, a consultar o seu pequeno mestre.
— E isto? Como se lê?
— Metempsicose - foi a reposta de Daniel
— E o que vem a ser?
Desta vez ainda o embaraço de Daniel era maior. Nunca ele soubera o que fosse metempsicose, e, como pela segunda vez se via pilhado em falso, perdeu a paciência. Saiu-se do aperto, como alguns professores em casos análogos.
— Ora! Isso é uma coisa que leva muito tempo a explicar.
Margarida resignou-se a não entender.
Uma terceira interrogação. Desta vez foi a palavra pragmática que a originou.
Daniel estava em maré de infelicidades. Esta acabou de o impacientar. Tirando o livro comprometedor das mãos da discípula, disse com certo despeito mal encoberto:
— Deixa-te de estudar, Margarida; não estou agora para isso.
— Mas depois... amanhã...
— Amanhã! Que tem? Sossega, que não te castigo. E demais ainda tens muito tempo. Não vês que só venho e tarde?
— Mas...
— Mas... agora não quero que estudes, quero que cantes.
— Ora cantar! Que hei eu de cantar?
— A cantiga da Morena.
— Eu não gosto dela.
— Não?
— Eu, não.
— Então de qual gosta mais, Guida? - perguntou Daniel, dando à pergunta, e sobretudo àquela familiar alteração do nome de Margarida, uma música de afetuoso galanteio, que não deixaria ficar mal ninguém.
— A da Cabreira, é muito mais bonita.
— Já não me lembra bem. Pois então canta a da Cabreira.
— Agora não.
— Agora sim; e por que a não hás de cantar agora?
— A minha irmã Clara é que a sabe cantar bem, eu não.
— Ora adeus, ela é ainda uma criança - disse Daniel com um soberbo gesto de homem - Eu quero-a ouvir de ti.
— Eu julgo que nem a sei.
— Sabes, sabes, ora vamos a ver.
— Olhe... eu canto, mas...
E Margarida pôs-se a cantar e com a voz tão sonora e agradavelmente infantil, que, se o reitor estivesse despreocupado, em uma posição mais cômoda e disposto a julgar com imparcialidade, confessaria que era excelente. Mas na ausência destas condições de juízo desapaixonado, foi um crítico como quase todos.
Ai vai o que ela cantava. em uma dessas singelas e monótonas melopéias de quase todas as xácaras populares:
Andava a pobre cabreira
O seu rebanho a guardar,
Desde que rompia o dia
Ate a noite fechar.
De pequenina nos montes
Não tivera outro brincar,
Nas canseiras do trabalho
Seus dias vira passar.
— Assim como tu - disse Daniel.
Margarida sorriu, fazendo com a cabeça um movimento afirmativo, e continuou:
Sentada no alto da serra
Pôs-se a cabreira a chorar,
Por que chorava a cabreira,
Ides agora escutar
"Aí! que triste a sina minha,
"Aí que triste o meu penar
"Que não sei de pai nem mãe,
"Nem de irmãos a quem amar
"De pequenina nos montes
"Nunca tive outro brincar
"Nas canseiras do trabalho
Meus dias vejo passar".
Mas, ao desviar os olhos
Viu coisa que a fez pasmar.
Uma cabra toda branca
Se lhe fora aos pés deitar.
— Assim, pouco mais ou menos - disse Daniel, pousando a cabeça nos braços encruzados sobre as urzes do chão.
Margarida prosseguiu:
Branca toda, como a neve,
Que nem se deixa fitar,
Coberta de finas sedas,
Que era coisa singular!
E, maliciosamente, com um sorriso de travessura infantil, passou os dedos por entre os cabelos de Daniel.
Nunca a tinha visto antes
No seu rebanho a pastar,
E foi a fazer-lhe festa...
E foi para a afagar...
E continuava a correr as mãos pela cabeça de seu jovem companheiro, que sorria.
Eis vai a cabra fugindo
Pelos vales sem parar;
Ia a cabreira atrás dela
Mas não a pôde alcançar.
E andaram assim três dias.
E três noites sempre a andar!
Até que a porta de uns paços
Afinal foram parar.
Chorava o rei e a rainha
Há dez anos sem cessar,
Que lhe roubaram a filha
Numa noite de luar.
E dez anos são passados
Sem mais dela ouvir falar,
Eis chega a cabreira à porta
À porta foi se sentar
"Ai que bonita cabreira...
E Margarida, ao cantar este verso, não pôde conservar-se séria, vendo Daniel levantar os olhos para ela.
Que lá embaixo vejo estar!
E uma cabra toda branca
Que nem se deixa fitar
Meus criados e escudeiros
Ide a cabreira buscar".
Isto dizia a rainha,
Este foi seu mandar.
Foram buscar a cabreira
E a cabra de a acompanhar
Até a sala dos paços
Onde o rei a viu chegar.
"Pela minha c'roa de ouro
Eu quero agora apostar,
Que esta é a filha roubada
Numa noite de luar".
Milagre! Quem tal diria!
Quem tal pudera contar!
A cabrinha toda branca
Ali se pôs a falar.
A seguinte quadra foi cantada também por Daniel e sem ofensa da harmonia:
"Esta é a filha roubada
Numa noite de luar,
Andou sete anos no monte
Quem nasceu para reinar!"
O resultado da intervenção de Daniel foi acabarem os dois a rir, com grande risco de deixarem incompleta a cantiga.
A rogos do seu companheiro, Margarida, passados alguns momentos, concluiu:
Que alegrias vão nos paços,
E que festas sem cessar!
A filha há tanto perdida,
No trono os pais vão sentar,
E vêm damas p'ra vesti-la
E vêm damas p'ra calçar,
E as mais prendadas de todas
Para as tranças lhe enfeitar
Vão procurar a cabrinha...
Ninguém a pôde encontrar;
Mas...
Foi olhando Daniel que a pequena Guida terminou:
Mas um anjo de asas brancas
Viram as céus a voar
E assim acabou a última quadra da xácara, e por algum tempo, as duas crianças se conservaram caladas, como se quisessem seguir ainda, até as derradeiras vibrações, as notas melodiosas daquela voz, ao desvanecerem-se no espaço.
Daniel foi o primeiro a romper o silêncio,
— Então, vês como a soubeste até o fim? E cantaste-a tão bem!
— Ora!
— Mas é noite, Guida, Repara. Olha que são horas de tu ires juntar o gado.
E acrescentou, suspirando melancolicamente:
— Daqui a pouco estou eu de volta com o meu latim! E que lição tamanha me marcou o padre esta manhã!
— Então de que tamanho é?
— Olha; vai vendo - disse Daniel, abrindo a Seleta e mostrando a Margarida as folhas que o reitor lhe marcara para estudar. - É esta lauda... e esta... e esta, até aqui.
— E então isso diz o que diz?
— Conta a vida lá de uns generais antigos que fizeram guerras mortes e que quase sempre se matavam a si, quando não os matavam a eles.
— E para que é preciso que saiba estas histórias quem quer ser padre?
— Eu sei lá! Mas que estás tu a dizer? Padre! padre! Não me fales em ser padre, Guida. Eles cuidam que eu quero mesmo ser padre, estou querendo.
— Então?
— Ora quando chegar a hora eu lhas cantarei. Ainda está por nascer o barbeiro que me há de abrir a coroa. O tio João das Bichas disse-me noutro dia - a rir, já se sabe - que já tinha em casa uma navalha afiada para isso; eu fui-lhe dizendo que bem deixava então a navalha para o barbearem em morto.
— Mas o seu pai mata-o!
— Meu pai? Deixa-te disso. Meu pai não há de querer fazer-me padre a força.
— Mas o Sr. Reitor?
— O Sr. Reitor não é cá chamado. Que se meta com a sua vida. Ora é muito boa!
— E por que não quer ser padre, Danielzinho?
— Olhem que pergunta! Não quero ser padre, porque não quero, porque gosto de ti, e, porque, afinal de contas, hei de vir a casar contigo.
— Ora!
— Hei de, sim. Verás.
E dizendo isso, passou facilmente o braço pelo pescoço da pequena Guida, e pousou-lhe na fronte um beijo que ainda nem sequer a fazia corar.
O reitor estava escandalizado e estupefato por quanto vira e ouvira.
Tivesse assistido em pessoa ao aparecimento do anticristo, que não se maravilhara tanto.
Esta cena inofensiva, esta écloga entre duas crianças, parecia-lhe mais abominável do que a outro qualquer as mais impudicas aventuras daquele herói, que Byron imortalizou com o nome de D. Juan, nome, já antes dele, de pouco austera memória.
Ao chegar a seus atônitos ouvidos, a vibração sonora do beijo, que terminou o diálogo, o padre estremeceu como se acabasse de escutar um silvo de serpente cascavel, e não pôde reprimir uma interjeição desaprovadora, bastante audível, para ser percebida por todas as personagens da cena que descrevemos.
— Não ouviste, Guida? Que foi aquilo? - disse Daniel, já meio erguido e olhando com inquietação ao redor de si.
— Não é nada - respondeu esta, com pouco mais de frieza de ânimo.
Mas, neste tempo, já o cão se havia levantado e ladrava furiosamente na direção do lugar onde o reitor estava escondido.
— Aqui, Gigante, aqui! - bradava-lhe, em vão, Margarida.
— O que estará acolá no centeio para o cão ladrar assim? - perguntou Daniel, já sem pinta de sangue.
E o cão ladrava cada vez mais, e parecia pronto para arremeter contra um inimigo oculto.
O reitor, como é de prever, começava a achar-se muito pouco à vontade.
— Aqui, Gigante - continuava a pequena, já cansada de bradar.
Mas Daniel, assustado, valeu-se do cão, como instrumento de exploração e defesa, e soltou uma palavra imprudente:
— Busca, Gigante, pega!
Não foi preciso mais nada.
O Gigante galgou de um salto o estreito caminho que o separava do campo onde o reitor cada vez suava mais com a iminência do perigo, e rompendo por entre o centeio, veio pousar triunfantemente as patas dianteiras sobre os ombros do pobre velho, que julgou ver a morte na figura deste monstruoso cão.
Como esses bonecos que fazem as delícias dos pequenos feirantes de S. Miguel e do S. Lázaro, no Porto, e que ao abrir-se a caixa que os contém, são repentinamente expelidos por uma mola interior, o pároco, ao toque mágico do agigantado quadrúpede, ergueu-se, de súbito, sobre os calcanhares, e, meio sufocado pelo susto e com as faces enfiadas, bradou para Daniel:
— Chama este cão rapaz endemoniado! Ele mata-me!
Daniel é que não podia lhe valer, tão embasbacado ficou com a inesperada aparição do mestre. A mulher de Ló por certo não se conservou tão imóvel, depois do fatal momento em que cedeu à sua irresistível curiosidade.
A pequena Margarida é que salvou a situação - como me parece que se costuma dizer em política. Armou-se da maior severidade que lhe era possível, e com a inflexão de voz imperiosa, pronunciou um - "aqui Gigante!" - que foi prontamente obedecido.
O reitor estava salvo, mas ainda não senhor seu, e deveras chufado com as circunstâncias ridículas que acompanharam a sua descoberta. Ora, como sempre acontece , estas circunstâncias inabilitavam-no para assumir o caráter severo, grave e pedagógico, necessário a quem se propõe a dar uma repreensão ou a fazer uma prática de moral.
Com muito bom senso renunciou, pois, o reitor a este projeto, e sem dar palavras, virou costas e abandonou o lugar dessa aventura, interiormente quase tão pouco satisfeito consigo como com o seu discípulo.
Daniel, passados alguns momentos mais de silencioso pasmo, desatou a rir, a rir, a rir, desse expansivo e contagioso rir de criança, que não tem outro igual. Esqueceu o que para ele havia de estranho e sério em tudo aquilo, e as conseqüências que poderia ter, para só se lembrar da carantonha que fazia o reitor a gritar que lhe acudissem, do susto que apanhara, do aspecto sorumbático que levava ao partir, e por isso tudo ria às bandeiras despregadas.
Vejam lá se o padre não fez bem em adiar o sermão para ocasião mais oportuna?
Porém. Margarida? Essa é que não ria. Certo instinto de delicadeza inato em quase todas as mulheres, não sei que vaga presciência de infortúnio, que algumas, de criança possuem, parecia-lhe estar dizendo que tudo aquilo, sem saber por quê, lhe poderia vir a ser funesto.
E enquanto Daniel ria, ela, coitada, não se pôde conter, e começou a chorar.
— Que tens tu, Guida? Isso que é? - perguntou-lhe Daniel, já sério e meio sensibilizado - Por que choras assim?
— Deixe-me. Não sei bem... mas sinto uma tristeza... e tamanha... tamanha! Vamos. É tarde, vou juntar o gado.
— E eu ajudo-te.
— Não. Vá para casa e corra bem, antes que o Sr. Reitor chegue lá primeiro.
— Pois ele irá?
— Ande... corra.
Foi então que Daniel reconheceu que Margarida podia ter alguma razão em não levar o caso a rir, e que não devia ser para ele uma coisa de todo insignificante a aparição do padre ali. Por isso disse adeus à sua companheira, e deitou a correr para casa.