Funchal, Março 1870
Meu amigo Funchal, Março 1870
Recordo-me de lhe haver prometido, ao separarmo-nos, escre- ver-lhe de quando em quando desta ilha, onde pela segunda vez abordei, à procura do ideal que se chama saúde.
Tarde me lembrei do cumprimento da promessa; mas a tempo vai ainda.
Não é uma monografia que eu vou fazer. Deixarei em paz a constituição geológica, a flora, a fauna da ilha e todas as questões médicas, económicas e políticas que se prendem a este torrão fertilís- simo. O meu intento é mais modesto.
Quero mostrar-lhe a Madeira através das individualissimas impres• sões que o meu espírito recebe nela e isto sem plano, sem método, sem coordenação didáctica e só conforme a corrente irregular e capri• chosa das minhas ideias.
Fazer-lhe esta observação equivale a avisá-lo de que não serão de tintas muito vivas os quadros que traçarei.
A imaginação de um valetudinario tinge de cores amortecidas as mais ridentes paisagens e as cenas mais pitorescas que observa; para ele o brilho do Sol é visto como através de um cristal corado; perceb e as gradações de luz, mas sempre sob o tom uniforme e som• brio do cristal, que neste caso se chama: preocupação.
As viagens, esse sonho dourado que tanto seduz a imaginação da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes e bater asas em demanda de climas novos, transforma-se em amarga proscrição, sempre que as empreendemos, forçados por uma triste necessidade e partimos levando o espírito assombrado por uma ideia, ou antes, por um pressentimento doloroso, Nada então nos compensa as lágrimas da despedida e o cruel confrangimento do coração, que responde ao último adeus do amigo que, de olhos húmidos, nos acena da gare do caminho de ferro ou nos aperta a mão no tombadilho do vapor. Partimos com a alma oprimida e sem aqueles voluptuosos estremecimentos de júbilo que se mistu• ram às saudades de quem se aparta dos seus, seduzido pelo prazer de viajar.
Quando se perd e de vista a terra em que nos ficaram todos os afectos Íntimos, parece-nos escutar uma voz interior a perguntar-nos se voltaremos a vê-la. E não há um clarão de esperança a responder a essa interrogação! Que tristeza a daquele instante! Depois o mar, o mar, esse imenso foco de melancolias, acaba de escurecer-nos o pensamento! Olhar em roda e não avistar um só desses objectos que nos falam do passado, da família, do remanso doméstico! Ver tudo em movimento, tudo em irrequietação, tudo revolto! Ter necessidade, para satisfazer a instintiva ânsia de repouso que sen• timos, de elevar os olhos para o Céu, como faz o homem desalen• tado pelo tumultuar das vagas da vida e que considera aquela outra pátria como o único lugar do verdadeiro repouso. Impressões são estas que não dissipam as nuvens do nosso horizonte, antes mais as carregam.
Apesar da sua grandiosa solenidade, o oceano é um desconso- la,dor companheiro para a alma naquelas disposições.
Por isso quando, ao amanhecer de um desses dias longos e deso• ladores se avista além, muito além no horizonte, uma sombra mal dis• tinta, através da qual só o olhar amestrado do marinheiro consegue distinguir a terra demandada, saúda-se essa sombra como uma pro• messa de redenção.
Todos os olhos a procuram com ansiedade e, à medida que ela se ergue e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas naturais, revelando-se enfim, tal qual é, entre o azul do mar e o azul do céu, dissipa-se a mais e mais a cerração da melancolia que nos pousava no coração.
Como a ave, extenuada de longa travessia por sobre mares vas• tíssimos, abate o voo a repousar na terra que lhe surge do seio das ondas, assim o espírito, cansado daquela imensidade e irrequieta agitação das águas, voa a engolfar-se no regaço das verduras que parec e haverem enfim obedecido à evocação das suas nostálgicas saudades.
Quando a formosa ilha da Madeira, levantando-se da espuma do mar como a mitológica Citereia, crescia para nós a receber-nos, abrindo o seu seio,benéfico e maternal aos desconfortados que nela só depositavam as suas derradeiras esperanças, sentíamos todos pene- trar-nos o coração um desses suaves prazeres como o que nos produz, no meio de uma turba de estranhos, o encontro de um rosto e de um sorriso de amigo.
Formava um consolador contraste com a tremenda severidade do mar a amena perspectiva da ilha! Horas depois de a avistar, a marcha rápida do vapor fez-nos dobrar o cabo de São Lourenço; transpondo o amplo pórtico que ele forma com o grupo das penhascosas Desertas, sentira-se uma súbita mudança de clima, como se de repente se tivessem vencido muitos graus de latitude. Afagou-nos a face a brisa tépida e perfumada da ilha, aspirámos com prazer o hálito acalentador e salutífero desta fada marítima; achávamo-nos sob o seu abençoado encantamento, reco• nhecíamos enfim a Madeira! A costa do sul ia passando em revista com as suas rochas escar• padas, as suas ribeiras profundas, a sua vegetação vigorosa, as suas formidáveis quebradas e os altos picos onde pousam as nuvens, os vales fertilíssimos e as povoações graciosas.
Momentos depois, vencida a ponta do Garajão, as casas e as quintas do Funchal, iluminadas por. um esplêndido sol de Outono, que dourava as extensas plantações de cana, saudaram-nos por sua vez.
A magia do espectáculo emudecera-nos. De um lado o mar, do outro as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade sorrindo, coroo a criança adormecida entre os pais, que a defendem e acalentam.
Dentro em pouco pousávamos pé em terra.
Não é grata a impressão recebida ao desembarcar. Costumados aos extensos e alvejantes areais das nossas praias tão ricas de formo• síssimas conchas e em cujas penhas se formam aquários naturais, onde aos raios do Sol as actínias matizadas escondem os seus braços gela• tinosos e as algas crescem em delicadíssimas arborizações, costuma• dos às praias risonhas que atraem as mulheres e as crianças com o animado e variadíssimo espectáculo que lhes oferecem e os abun• dantes tesouros de pedrarias que escondem nas suas móveis areias, afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra, formada de calhaus roliços, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais que são o principal atractivo da beira-mar.
Esta pedr a escura parece conservar ainda evidentes os vestígios do cataclismo vulcânico que a arremessou à superfície das águas. Dir- -se-ia que ainda está defumada e quente do fogo do imenso forno em que foi fundida. Ao seu aspecto comprime-se o coração do viajante.
Entrámos na cidade. Há um não sei quê de melancólico no aspecto dela. Por isso mesmo que é a generosa consoladora de tantos aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e que de toda a parte do mundo correm a abrigar-se ao seu calor salutar, por isso mesmo, parece anuviar-lhe os sorrisos aquele ar de piedade e de compaixão que é, por assim 'dizer, a alegria da caridade. Não nos sentimos impelidos a saudá-la com um cântico festivo, com uma aclamação de prazer; mas apenas com uma serena comoção, igual àquela com que se beija a mão generosa que se estende a socor- rer-nos ou a enxugar-nos as lágrimas.
Ó Funchal! Que tristes dramas se têm passado à luz do teu sol benéfico! Que lutuosos desenlaces de tantas histórias de paixões! Que de lágrimas ardentes caídas no teu solo sequioso que se apressa a escondê-las discreto! E à sombra das tuas árvores quantas frontes escaldando de febre vergaram sob o peso da cruel melancolia! Ilusões desvanecidas, esperanças desfolhadas, sonhos de amor, de glória, de felicidade, dos quais se desperta à beira do túmulo, tudo tens presenciado, ó humanitária cidade! E debaixo dos cedros e ciprestes dos teus cemitérios dormem o último sono muitos mártires sem que as lágrimas dos que os amaram lhes caiam na campa como tributo.
Dai vem a simpatia e a tristeza que inspiras. As tuas virtudes como irmã de caridade que consagra os dias ao cumprimento de uma missão cristianíssima, brilham entre cenas e espectáculos de deso• lação e de dor.
Este carácter da cidade avulta aos primeiros passos dados no interior dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras pálidas, emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transporta• das em redes, encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa medi• tação, ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia; são ingleses cadavéricos, alemães diáfanos, portugueses des• carnados, brasileiros, norte-americanos, russos; são velhos, adultos, crianças, vaporosas belezas femininas de todas as partes do mundo, todos a convencer-nos de que estamos na città dolente; mas no pór• tico desta não se lê gravado o dístico desesperador que o poeta ins• creveu no da região das tormentas eternas. Pelo contrário, à entrada aqui, revestem-se de esperança os próprios condenados.
Para que a Madeira nos sorria, para que nos apareça formosa como a descreve o poeta inglês e fragrante como uma verdadeira flor do oceano, é necessário sair do recinto da cidade, procurar as fregue• sias rurais, subir as íngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar então a vista pelos formosíssimos vales que vão descobrindo o seio fecundíssimo aos nossos olhos maravilhados, Que vigor e variedade de vegetação ! O verde dourado da cana realça entre as diferentes cambiantes da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira de Africa agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bana• neira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de viço nos mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as laranjeiras odoríferas. As rosas, as malvas, as madressilvas florescem espontâneas à beira dos caminhos; debruçam-se dos muros as «bou- gainvillias» entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaranjadas das bignónias; tudo tem um ar de festa e alegria. A choça mais humilde tem um jardim à entrada; as flores sorriem à porta dos ricos e dos pobres.
E quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnifico aspecto do país. De um lado vemos aos nossos pés, o mar liso como um espelho, azul como safira, limitado ao longe pelo grupo das Desertas vagamente tingidas do azulado da distância; do outro as altas serranias que rompem as nuvens e cujos cimos tantas vezes tinge a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos em fundas que• bradas, sulcados em ribeiras pelas torrentes do Inverno, uma vege• tação exuberante, cheia de vida, encobrindo aqui uma casa isolada, enfeitando além uma povoação risonha, que se agrupa em torno de um campanário.
Então sim, então a atmosfera embriaga, o peito aspira com volup- tuosidade esse ar balsâmico, o espírito liberta-se de todas as apreen• sões que nos gelavam os sorrisos nos lábios e goza-se despreocupado do mais surpreendente espectáculo que pode imaginar-se.
Mas não é só a natureza que tão afável e acariciadora se mostra aos desesperados enfermos que se refugiam aqui; impressões igual• mente gratas, igualmente consoladoras lhes vêm de origem diversa.
É geral a simpatia que os doentes inspiram à gente da Madeira. Se os doces afectos de família, se os carinhos de uma esposa, de uma mãe ou de uma filha se podem substituir no mundo, é aqui a terra para tentar a experiência.
Sentis que vos rodeia uma atmosfera de simpatia. Pessoas que nunca vos falaram, que não conheceis, seguem passo a passo, com sincero interesse, os progressos das vossas melhoras ou as alterna• tivas do vosso padecimento.
Com o olhar que a experiência tem amestrado, estudam-vos no semblante as probabilidades de bom ou mau êxito na luta pertinaz da natureza contra o influxo fatal que vos subjuga. E esse prognóstico é quase sempre infalível.
Rara é a família que, levada por generosa curiosidade, se não informe com o médico que a visita ou com os proprietários dos hotéis, do estado dos estrangeiros doentes.
Nestas vitórias do clima sobre a doença, estão empenhados os brios e o principal brasão da terra, e o amor pátrio é um sentimento profundamente entranhado no coração deste povo. Uma cura operada é um triunfo e todos a conservam na tradição gloriosa da terra com simpático e louvável orgulho.
A simpatia vai ainda mais longe, revela-se sob mais cordial mani• festação, exerce-se mais eficaz e abençoada ainda. As formosas madei• renses, e quem, tendo visitado esta terra, não conservará memória delas? condescendem muita vez em animar a alma desolada dos soli• tários enfermos com o raio vivificador dos seus olhares magnéticos. Amoráveis, movidas por uma generosa simpatia, exaltadas pelo entusiasmo natural a um coração de rapariga, acalentam muitas vezes esses amores que elas bem sabem ser sem futuro, e iluminam os últimos dias de uma triste existência com a doce luz do mais casto e imaculado afecto. Quantos que morriam longe dos seus com o coração partido de saudades, lhes devem os últimos doces sonhos da sua vida, as derra• deiras ilusões e um tributo de lágrimas na campa? Anjos adoráveis, corações generosos, vós concorreis com o tesouro dos vossos afectos para a santa missão que se desempenha aqui. Às vezes sob a influência do vosso amor, voltam as cores às faces desmaiadas, um sangue novo circula nas veias exauridas e por um milagre de afecto renasce para a vida o que a ciência já condenara. Outros sucumbem, mas tendo ao menos nos lábios um nome querido, no pensamento uma imagem e no coração a esperança de que não ficará sem sentido para todos a inscrição funerária que lhes gravarem na lousa.
Abençoadas sejais pelo conforto que tendes dado ãs almas tristes, que sucumbiam à míngua dele! Reparo porém agora, meu amigo, no tom elegíaco que vai tomando a missiva. Será prudente parar aqui, procurando para outra vez ser mais alegre.
Seu do coração
A SEU PAI QUANDO TEVE NOTÍCIAS DA SUA NOMEAÇÃO DE DEMONSTRA. DOR DA ESCOLA MÉDICA DO PORTO
Papá
A estas horas é provável que já saiba que estou despachado. Não tinha informado inexactamente o amigo do Teixeira Pinto, quando disse que na quinta-feira se assinava o decreto da minha nomeação.
É com a data de 20 que ele vem no Diário de 22.
Esse mesmo rapaz escreveu de Lisboa e eu acabo de ver o Diário. O amanuense da Escola escreveu-me também. Finalmente está decidido; acabaram-se todas as dúvidas e inquietações.
Nesta ocasião em que o meu futuro se fixou, não posso deixar de me recordar do muito que devo ao Papá pelos sacrifícios feitos por mim.
Alegra-me duplamente o resultado deste meu empenho porque, com o prazer que me causa, sei que não menos intenso havia de pro• duzir no Papá, que até agora tão improfícuos tinha visto ficarem os seus grandes esforços para a felicidade dos filhos.
Meus irmãos foram privados, não sei por que vistas providen• ciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educação que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou tão novos, parece ter-me reservado, como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia a resignação do Papá.
Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que não me faltará a vida e a saúde para poder cumprir essa missão talvez providencial.
Creia que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacri• fícios e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava não mos fazer sentir.
Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a mão.
Seu filho grato e afectuoso
Joaquim Felgueiras, 24 de Julho de 1865.
A SEU PAI, DE FINS DE MARÇO DE 1868, DEPOIS DA REPRESENTAÇÃO DAS «PUPILAS» EM LISBOA
Papá
Continuo a passar bem e por enquanto não posso dizer quando partirei.
As «Pupilas» foram bem desempenhadas e prometem dar à empresa bastantes enchentes.
Do que se passou na noite em que eu lá estive dá conta exacta a noticia que envio, a qual foi publicada por um Diário daqui. Ontem esperavam-me à noite em casa do Mendes Leal, mas como às segundas- -feiras é lá reunião de etiqueta, a que se vai de casaca e em rigor, fui para o teatro francês e dei por desculpa que não queria deixar a com• panhia com quem tinha vindo a Lisboa.
No teatro da Trindade, no sábado, pediu-me o Mendes Leal para ir ao camarote dele, visto este não poder deixar só as senhoras com quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e entre elas, o Chamiço. O Castilho já me veio visitar.
As «Pupilas» foram postas em cena com bastante fidelidade de vestuário e de costumes.
O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava bastante animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reco• nhecer. No 6.° quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe beija a mão, não me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao palco onde fiquei todo o quadro final.
Peço recomendações a toda a família e ao tio Bernardo.
Peço também que mande entregar ao Dr. Reimão os livros que ai deixei para ele e que se alguém aí for procurar os exemplares da Dissertação do Ilídio, lhe entreguem os que estão em um dos armários inferiores da estante.
Que não esqueça também mandar-me esfregar o quarto.
Seu f.o ob.te Joaquim.
Anitas
Cumprindo a promessa que te fiz hoje mesmo, não me quis deitar sem primeiro te escrever. Cheguei a salvamento a esta terra, tendo engolido muito pó pelo caminho, petisco de que, nem por isso, fiquei gostando.
Ceei bem e espero dormir melhor.
A estas horas em que te estou a escrever já tu deves estar sonhando com a cabeça no travesseiro. Estimarei saber que sonhaste em coisas agradáveis e que acordaste pela manhã satisfeita da tua vida.
Espero que te lembres de mim ainda que seja só quando almo• çares em São João Novo e tiveres de fazer por ti mesma as tuas fatias. Adeus por hoje. Manda-me dizer as flores que tens feito e reco- menda-me à Mamã, a quem hei-de escrever breve, e aos teus dois manos e, se te não esqueceres, faz também as visitas do costume às pessoas que sabes.
O Guilherme ' disse-me o número da vossa casa em Monchique, mas esqueceu-me. Vê se mo mandas dizer na tua carta, que podes dar ao Josèzinho ! para ma enviar com a dele.
Adeus.
Ovar, 7-5-63.
Teu tio e muito amigo
Joaquim
Meu Passos Funchal, 2 de Novembro de 1870.
Aproveito a passagem do vapor de Africa para te escrever duas linhas.
Vou passando como aí passava, dias melhores, dias piores; impaciente com a falta de notícias e monotonia desta terra.
Estes primeiros quinze dias pareceram-me uma eternidade.
Li as confissões de Rousseau e o Cromwel de Vítor Hugo.
Perco-me em conjecturas sobre os resultados prováveis do cerco de Paris e pergunto a mim mesmo se por acaso os vizinhos castelhanos ainda não passariam as fronteiras.
Está resumida a minha vida no Funchal.
Aguardo com impaciência que me informes de tudo. Faz-me sempre lembrar ao Luso, Silva e Albuquerque se os vires.
Em que nova província da História Natural dirige agora o nosso amigo Luso as suas sempre gloriosas campanhas? Adeus, para outra vez serei mais extenso, sem, com certeza, ser mais noticioso.
Teu amigo do coração Coelho.
Depois do que me disseste nas tuas últimas cartas, aguardo com impaciência aquela em que deves pronunciar o Consummatum est, prenúncio, a meu ver, de um período de plácida felicidade na tua vida.
A inquietação febril em que há tanto tempo te tiveram as dúvidas e hesitações do teu espírito acalmarão; essas apreensões de catástro• fes, que te assombram, hão-de dissipar-se e tu acharás que eu tinha razão ao dizer-te que o passo que, à força de muito pensar nele, nos costumamos a considerar terrível, não merecia, afinal, o estupendo conceito que dele fazíamos. É esta a minha convicção e por isso desejo deveras saber de ti a boa nova de haveres enfim saído da insustentável situação em que há muito nós ambos temos vivido.
Sou tão desinteressado nisto que te digo, que contra minha con• veniência falo.
O que será o Porto para mim depois que tu deres por terminada a tua vida de rapaz, deves imaginá-lo bem tu que desde muitos anos sabes qual o meu sistema de vida aí e quais os meus passatempos pre• dilectos. Afasta, porém, da consideração esta ideia para insistir na urgente necessidade que tens de mudar de hábitos de vida. O futuro é de Deus, esse eterno Josué, como lhe chama com esquisito sainete o nosso amigo Nogueira Lima na sua última poesia; mas tanto quanto é dado a um homem prognosticá-lo, palpita-me que se te não pre• para muito sombrio. Animo, pois! Que te direi de mim? Eu vivo aqui no Inverno como me vês aí viver no Verão. A mesma saúde instável, o mesmo aborrecimento, a mesma indiferença por quase tudo aquilo por que os homens se interessam. Leio e escrevo às vezes; passeio sempre que o tempo o con• cede, mas a minha sensibilidade já não é excitada pelos passeios do Funchal. Para mim isto agora é já como o Porto.
Precisava de viver com quem me excitasse a arrancar-me destes hábitos que contraí e me fizesse empreender excursões pelos campos.
A iniciativa, porém, das pessoas com quem mais trato regula por a minha. Daqui resulta que vou vivendo morna e sornamente.
Este ano a Madeira é uma Babel. Todas as nações têm aqui os seus representantes. Há alemães que já adoeceram em conse• quência das marchas forçadas dos generais de S. M. o Imperador da Alemanha.
Morreu aqui um médico prussiano esfalfado pelo excessivo tra• balho dos hospitais de sangue.
O Porto, segundo vejo das locais do Jornal do Porto, passa sem novidade. Deus o conserve.
Funchal, 20 de Dezembro de 1870.
Meu caro Passos
Funchal, 19 de Janeiro de 1871.
Mais um golpe daqueles que eu e tu conhecemos. Mais uma pessoa que desaparece do estreito círculo das que estimo deveras.
Quando daí vim, sabia que isto tinha de suceder durante a minha ausência. O adeus que dei à minha pobre tia, sabia que era o último.
Sabia-o eu e ela também. Não me iludiu a comoção e o silêncio com que se despedia de mim; compreendi-a como se me dissesse tudo o que tinha no pensamento. Mas tu bem sabes que estas coisas, embora esperadas, nunca deixam de nos surpreender dolorosamente quando sucedem. Em cada correio esperava a carta tarjada de preto de meu primo a participar-me o falecimento da mãe dele, que o foi quase minha, e apesar disso causou-me abalo, assim que esta manhã ma vieram entregar, essa carta fatal.
Parece que nestes momentos morre em nós uma infundada espe• rança em não sei que milagre, que bem sabemos que se não dará.
Custa-me imenso esta perda. Desde a idade de quatro anos que fiquei sem mãe e nesta minha tia, única que foi mãe também, encontrei os mesmos extremos que tinha pelos seus próprios filhos. Isto me fez querer-lhe um pouco mais que às outras, um pouco mais com afeição de filho.
No intervalo de um ano morreram as minhas desveladas enfer• meiras. Quem sabe se os cuidados que tiveram comigo concorreriam para mais depressa sucumbirem! Tu deves imaginar o efeito que produzem no meu espírito estes sucessos. Sem esperança de um longo futuro, assusta-me a ideia de sair desta vida tão desprendido de afectos. Aqui na Madeira tenho sido testemunha desse doloroso espectáculo de um homem que morre longe de parentes e de amigos e tendo à cabeceira uma pessoa estra• nha e indiferente. Deve ser desesperador. E cada vez estou mais con• vencido de que essa sorte me está reservada. ' Desejava azedar o espirito até ao ponto de essa ideia me ser indiferente. Ainda o não consegui.
Perdoa-me esta carta. É quase um crime chamar-te o pensa• mento para a beira de uns escuros abismos de onde espontaneamente te aproximas mais vezes do que convinha à tua saúde e placidez de espirito; mas experimentei nisto um certo alívio e confiei na tua ami• zade para me perdoar.
Que me dês notícias alegres na primeira carta que me escreve• res é o que eu mais desejo, e que essas notícias te digam respeito.
Teu amigo do coração Coelho.
P. S. — Esquecia-me dizer-te que de saúde continuo passando como passava aí no Verão.
Funchal, 26 de Fevereiro de 1871.
Não te escrevi no vapor passado e escrevo-te pouco neste por um motivo: tenho estado bastante doente. O que foi nem eu sei bem. Uma verdadeira tempestade nervosa que caiu sobre o meu organismo e mo pôs em completa anarquia. Serenada ela, depois das mais estu• pendas metralhadas de medicina, ficou uma exacerbação do meu catarro habitual e uma fraqueza devido à doença e ao tratamento, de qu e espero sair comendo e passeando.
Faleceu oito meses depois, em 12 de Setembro de 1871, no Porto, rodeado de parentes e de alguns amigos dos mais íntimos,
Por ora o apetite não é o que precisava ser ; mas vai desenvol- vendo-se gradualmente.
Emagreci; quase me desconheço quando, ao pentear, me vejo. Valham-me os meses de Março, Abril e Maio e a atmosfera desta ilha para me reconduzirem ao estado anterior.
Escuso de te dizer qual teria sido o estado do meu espirito nesta crise. Deves supô-lo.
Acho-me melhor depois que escrevi esta carta. Despeço-me por aqui e mando-te com um abraço muitas e verdadeiras saudades.
Teu velho amigo Coelho.
Meu caro Passos Funchal, 19 de Abril de 1871.
Não te escrevi nos vapores passados porque, em parte mal podia escrever e, em parte, porque entendi que era melhor não carregar de sombras escuras os teus pensamentos, que eu já previa estivessem sob a influência habitual e complexa que inclina à melan• colia. Creio que não me enganei muito. Bom foi, pois, que não te escrevesse e talvez bom seria que ainda desta vez seguisse o mesmo exemplo.
O meu estado de saúde ia cada vez pior; sentia-me desfalecer de dia para dia e já não tinha coragem para me mirar a um espelho.
A ideia da dissolução orgânica aterra-me. Fiz um esforço; abracei uma das únicas medidas que me têm salvado. Mudei de residência. Deixei o centro do Funchal, procurei um quarto em um hotel inglês nos subúr• bios desta cidade e onde é mais fácil passear e gozar das vantagens do campo.
Principiei a comer melhor, deitei-me ao vinho fraco e forte, à cerveja, aos ovos e ao leite e consegui cor e mais força (que em parte também é febre). Dizem-me que vou melhor e aplaudem-me a resolução.
Agora, o reverso. Na aparência reconheço todas essas vantagens.
A tosse e expectoração continuam, porém ; os intestinos estão capri• chosos e de noite o calor e suor não me deixam. Respiro pior do que respirava e canso às subidas.
Está empenhada a luta. Veremos o que resulta até 20 de Maio.
Fonte: www.dominiopublico.gov.br