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Inéditos e Esparsos

Júlio Dinis

IV
VALENTIM

Apobre mulher não via neste mundo senão o filho. De cada vez que o via entrar ressentia uma alegria nova.

— Boas noites, mãe — disse Valentim, sentando-se junto dela e segurando-lhe as mãos entre as suas.

— Como vens frio, filho. Faz-te mal este ar dos campos assim tão tarde.

— Frio? É um engano! Veja! — E levou-lhe as mãos à fronte.

— A testa escalda. Tanto pior. Recolhe-te, Valentim; parece que te não sentes bem.

— Sinto; e, se a mãe quisesse, podíamos ficar um pouco mais a conversar. Há ocasiões em que não gosto de estar só. Tenho pensamentos...

— Pois sim, filho, sim. Não te fazendo isso mal...

— Não faz, mãe, não faz.

— Ora diz-me, Valentim: tu pareces-me triste. Que tens, filho? Eu bem sei que sou uma pobre mulher, que não sei como hei-de dizer-te para te consolar. Mas olha, não sei porque é, mas uma mãe sempre atina com palavras para consolar seus filhos...

Valentim levou aos lábios a mão de sua mãe.

— É assim, mãe. O que nos consola não são as palavras, é o amor que nelas verte o coração. Às vezes uma só palavra é mais rica de sentimentos que longas frases e discursos.

— Pois então, filho, diz-me o que assim te faz tão triste.

— Triste ? Pois acha que quem, como eu, se destina ao serviço de Deus pode acolher a alegria infundada que os prazeres nos fazem sentir? — A seriedade cabe bem aos sacerdotes, mas há também uma alegria que nos dá a consciência quando está de bem com Deus e consigo mesma; uma alegria séria... que nem outro nome lhe sei eu dar a essa...

— E essa, mãe, quem a pode ter? Pois quem tem a consciência tão pura que lhe não sinta a voz a todo o instante? — Olha — disse a pobre mãe depois de fitar em Valentim uns olhos perscrutadores — tu sabes que o meu maior desejo é ver-te seguir essa santa carreira a que te destinas. Mas, vê bem, se para isso tens de fazer sacrifícios para que te faltam as forças e te não sentes com ânimo para a seguir até ao fim,..

E parava dizendo isto, como se, para concluir, tivesse de fazer um esforço superior...

— Então, filho, então... pára...

Valentim não respondeu. Deixando pender a cabeça, parecia meditar nas últimas palavras de sua mãe, que era o mesmo que, há muito tempo, lhe murmurava baixinho a consciência.

Terminada esta meditação silenciosa, ergueu a cabeça. Havia resignação na sua fisionomia.

— Não. Eu posso ter instantes de fraqueza; mas espero me não abandonarão inteiramente as forças. Desanimado tão cedo, para as primeiras dificuldades... Pois que esperava eu? Não as devia ter previsto e não as previ, de facto? Não, mãe, ainda me não falece o ânimo, — Espero em Deus que nunca te abandonará. Mas de onde vens tu, que assim te puseste tão triste? — De casa das senhoras de Alvapenha.

— Ah! Não havia gente de fora esta noite? Pareceu-me ouvir dizer...

— Havia... A família de Lisboa...

E Valentim calou-se de novo, como se lhe acudissem outra vez as imagens tumultuosas que as palavras de sua mãe tinham, em parte, afugentado.

— Boa noite, mãe — disse o inquieto jovem, levantando-se com vivacidade.

— Vai deitar-te, vai, filho, que bem o precisas tu. Deus queira que não seja doença, isso.

Valentim retirou-se para o seu quarto, simples aposento despido de ornatos e que denunciava os hábitos simples da vida do pobre adolescente. Uma mesa, um leito e poucas cadeiras eram toda a mobília.

De uma das paredes nuas pendia, um crucifixo que ele recebera de sua mãe, e sobre a mesa alguns papéis dispersos, em desordem, revelavam laboriosas vigílias a que se entregava o melancólico protegido das senhoras de Alvapenha.

Valentim, entrando no quarto, sentou-se à mesa. Deixou pender a cabeça sobre as mãos e por tanto tempo se manteve assim imóvel que, quando enfim se ergueu, já os primeiros alvores do dia penetravam pelas frestas das janelas.

Foi num destes momentos em que a ideia de Valentim seguia a sua melancólica propensão, que Laura, tentando arrebatá-lo daquele desconforto em que o via mergulhado, lhe disse sorrindo: — Vamos, Sr. Valentim, eu e meu pai já explanámos as nossas predilecções literárias; queremos saber as suas. Recite-nos alguma coisa. Não lhe ocorre nada? Valentim ergueu a cabeça a estas palavras e sorriu.

Havia naquele sorriso uma expressão de amargura sensível aos olhos menos perspicazes. Laura observou-o atentamente.

— Agora mesmo me estavam ocorrendo — disse Valentim com o tom melancólico que lhe era habitual — umas estâncias irregulares cujo autor ignoro. Quero-lhes pelo assunto.

— Qual é ? — perguntou Laura com interesse.

— É uma elegia sobre o túmulo de um padre.

— Ah! — disse Laura fixando os seus olhares sobre o rosto do mancebo. — Recite, recite...

Valentim correu a mão pela fronte, que deixou ficar encostada, enquanto que, com a voz vagarosa, e repassada de tristeza, o olhar perdido no espaço, recitou as singelas quadras que., na véspera, lhe haviam sido ditadas pelo coração junto ao túmulo onde tantas vezes parou, a meditar no seu destino.

O BOM REITOR

Sabem a história triste Do bom reitor? Mísero! toda a vida Levou com dor.

Fez quanto bem podia...

Mas... afinal, Morre, e na pobre campa, Nem um sinal!

Nem uma cruz, ao menos, Se ergue do chão! Geme-lhe só no túmulo A viração.

Vedes além, no vale, Junto ao rosal, Flórea que há desfolhado O vendaval?

Cobrem-lhe a lousa fria, A criação Só lhe venera as cinzas Co'ignota mão.

Pobres que tanto amava Nunca, ao passar, Curvam a fronte e ajoelham Para rezar.

Nunca, ao nascer do dia, O lavrador Passa e lamenta a sorte Do bom reitor.

Nem, do cair da tarde, À ténue luz, Serve, de triste lâmpada, Humilde cruz.

Há nesta vida amarga Sortes assim...

Vive-se num martírio.

Morre-se enfim.

Sem que memória fique Para dizer Às gerações futuras Nosso sofrer.

E calou-se. Todos pareciam respeitar aquele silêncio e fitavam em Valentim olhares de solícito interesse.

Laura foi quem primeiro rompeu este prolongado silêncio.

— E o resto? — disse ela, não desviando a vista de Valentim.

Este estremeceu como se uma voz o despertasse de um sonho.

Ergueu a cabeça e, corando levemente, respondeu com aparente indiferença: — O resto é curto, é uma súplica apenas. —E acrescentou:

Quem me escutar, se, um dia, Ao vale for, Reze sentida prece Ao bom reitor.

Laura conservou-se pensativa depois que Valentim terminou a última estância.

João Soares interrogou-o sobre o autor daquela poesia.

— Ignoro-o — respondeu Valentim; mas tendo-se, por acaso, os seus olhares encontrado com os de Laura, baixou os olhos com embaraço.

— «Entendo — murmurou esta para consigo.—Parece-me que atinei enfim com a verdadeira causa daquela tristeza. Veremos.» A noite ia-se adiantando.

D. Ana Soares retirara-se com suas irmãs e apenas se demoravam na sala Valentim, Laura e seu pai. Tinham descoberto a maneira de .conciliar com os seus, os hábitos regulares das senhoras de Alvapenha.

João Soares retirara-se um tanto para o lado a examinar umas cartas que recebera de Lisboa naquela tarde, e mostrava-se absorvido na leitura.

Laura e Valentim acharam-se, quase sós, na presença um do outro.

— É uma história singela, mas triste a que nos contou.

Valentim ergueu a cabeça ouvindo isto, como se correspondesse ao que ele próprio estava pensando naquele momento.

— Eu sempre pensei — continuou Laura — que não são menos para lamentar estes mártires de espírito, deixe-me assim chamar-lhes, que se estorcem nas angústias de uma tortura moral, do que aqueles cujo martírio todos lamentam porque todos os compreendem.

— É certo — disse Valentim — sofre-se mais talvez quando se sofre uma dor que muitos julgam fingida e de que muitos não fazem ideia sequer.

— E, contudo, quem sabe? —disse Laura, como se os seus pensamentos tomassem uma outra direcção. — Quem sabe se o pobre reitor, se existiu, como creio, se julgava a si mesmo infeliz! O poeta imaginava-o assim, porque o imaginou por si. O bom homem talvez nunca aspirasse a esta espécie de imortalidade que é o sonho dourado das almas jovens e entusiastas; e talvez se achasse tão feliz com esse olvido que sucedeu à morte, como com a obscuridade que o envolveu em vida.

Valentim corou a estas palavras.

Laura prosseguiu: — Eu tenho por costume procurar ler, através das obras, os pensamentos dos autores; nos romances, nos poemas, toda a minha atenção se fixa nas personagens que o autor parece tratar mais do coração. É a essas que ele encarrega de exprimir os seus próprios sentimentos; é pois nas acções e nas palavras destas que eu busco descobri-los.

Valentim escutava Laura com um interesse que não procurava disfarçar.

Ela continuou: — Este sistema não digo que não possa falhar, mas acerto muitas vezes. Por exemplo, quer que lhe diga como eu imagino o autor daquela poesia que recitou há pouco? E tenho pena que o não conheça para me desenganar se não adivinhei.

— Diga — disse Valentim com um visível movimento de curiosidade — diga...

Laura notou-o e, afectando um ar indiferente, prosseguiu: — Imagino-o um homem ainda jovem, por circunstâncias especiais votado a viver em uma esfera obscura e que sente em si alguma coisa que o proclama capaz de aspirações mais subidas. Este homem ainda muito novo, mas que a glória já embriaga, não renuncia, sem um doloroso sacrifício, a esses dourados futuros que a sua imaginação insiste em lhe representar; mas foge-lhes talvez por um exagerado sentimento de dever, talvez porque se julgue ligado por uma força maior a uma missão que exige dele esses sacrifícios... E todos faz, mas ao mesmo tempo despedaça-lhe o coração cada um que realiza...

As senhoras de Alvapenha davam lições de madrugação ao pró prio dia. Ainda o Sol não pensava em alumiar a Terra, já elas saltavam fora do leito a procederem aos seus trabalhos domésticos. Era interessante ver as duas irmãs, à luz duvidosa que antecede a aurora, combinada com os amortecidos raios de uma quase extinta lamparina, passarem e perpassarem naquele quarto, sem despertarem o menor ruído que pudesse acordar os hóspedes cujo aposento era subjacente ao seu. O diálogo que se trocava entre elas, não longo e com frequentes intermitências, era pronunciado em uma voz baixa, como se se tratasse de mistérios espantosos.

Na manhã seguinte à noite em que se passou o capítulo precedente, a azáfama que ia no quarto das irmãs de D. Ana Soares era maior ainda que a de costume. Havia nos seus movimentos uma vivacidade de que elas se não julgavam capazes e uma pressa notável de terminar a arrumação em que se mostravam empenhadas.

É que naquele dia — era um domingo — não tardou que na torre da igreja paroquial se ouvissem tocar as badaladas que chamam os fiéis à missa primeira.

Envolvidas nas suas longas capas de pano e cobrindo a cabeça com um modesto lenço de cor escura, as senhoras de Alvapenha, chamando Antónia, que lhes não ficava atrás em hábitos madrugadores, e depois de recomendar ao Sr. Vicente a vigilância da casa, saíram através dos campos e dirigiram-se à igreja, ainda então quase vazia.

Começaram as suas rezas pieparatórias, encomendando-se a todos os santos e santas que existiam nos altares e mesmo a alguns que ali não tinham representantes.

Nestes actos de piedade cristã punham as senhoras de Alvapenha toda a atenção. Olhos no altar, pensamento no Céu, bem podia abalar-se o templo nos seus alicerces que se lhes não desviaria a cabeça num movimento de justificada distracção.

Também ninguém as interrompia, inteiramente entregues àquela santa abstracção. Deixemo-las nós também por um pouco e aproximemo- nos de um outro grupo que ali junto da pia baptismal dá largas à verbosidade de que participa cada uma das três personagens de que ele é formado.

Bento Crispim é um deles, outro o seu amigo José da Fábrica, o terceiro o boticário Bartolomeu, todos importantes personagens da terra, três caudilhos que os candidatos não dispensam em épocas eleitorais.

Bento Crispim tem a palavra, quando nos acercamos. O boticário luta com os restos de um catarro matinal e José da Fábrica abre, de quando em quando, a boca, ruidosa manifestação de simpatia pelo travesseiro que abandonou há pouco.

V O PEQUENO ÂNGELO

ENTÃO era este o juízo que o menino me prometia ter? Não sabe que é até um pecado zombar assim de um velho? Quando o papá me perguntar como o Ângelo se tem portado, o que hei-de dizer? Ora vamos. Reze outra vez ao seu anjo da guarda e não faça mais travessuras destas, que parecem muito mal a um menino bem-educado.

O pequeno Ângelo, sinceramente contrito, juntou as mãos e principiou rezando a oração ao seu anjo custódio com verdadeiro fervor: — Anjo da minha guarda, por Deus enviado a proteger-me com as tuas asas brancas, vela por mim enquanto eu durmo e guarda-me dos maus sonhos como dos maus pensamentos, conduzindo-me pela mão no caminho do dever, não me abandonando nas aflições nem nas alegrias, mostrando-me sempre o Céu através das penas e dos prazeres da Terra e ensinando-me a recebê-los como da mão do Senhor.

Em seguida, benzeu-se devotamente e beijando a mão que sua mãe lhe estendia, recebeu por bênção beijos e afagos em que parecia esgotarem-se todos os tesouros maternais.

— Bem — dizia a mãe em tom já carinhoso, anediando com os dedos as longas madeixas da criança — agora vai-te deitar que são horas. E não faças arengar a Doroteia, não? Olha que tens de te confessar este ano e vê lá se queres ir logo da primeira vez carregado de culpas. Se tiveres juizo hei-de mandar-te vir de Lisboa uma galgazinha preta...

— Ai, mande, mande, mamã. E eu hei-de pôr-lhe, ao pescoço, uma golazinha de veludo vermelho, sim? — Pois sim, mas...

— E um guizo ? Não é bonito um guizo também ?

— Também, mas é se...

— Sim, mas olhe, mamã. E um casaco para o frio...

— Também há-de ter um casaco.

— E de que cor, mamã, de que cor há-de ser ? — Nós veremos.

— Azul, sim, mamã? — Pois seja azul, mas...

— Olhe, mamã, e... e... como se há-de chamar? — Tu o dirás.

— Borboleta não, pois não? — Como quiseres...

— Não, Borboleta não... Andorinha é mais bonito, pois não é? — Não é feio...

— Há-de ser Andorinha... e... o casaco há-de ter fitas, mamã? — Sim, há-de ter...

— Ah! E... Não sei que queria dizer... Ah!... E quando a manda vir, mamã? — Breve, se tiveres juízo.

— Tenho. A mamã verá. Olhe, vou-me já deitar e prometo não dizer nem uma palavra a Doroteia.

— Não, pois não lhe hás-de dar as boas noites ? O que eu não quero é que te vás pôr a conversar e a rir até que horas.

— Não ponho, não... Ora há-de ver! — Pois hei-de ver.

Nisto entrou na sala Torcato, seguido de Doroteia, antiga criada da casa, mulher baixa, de uma gordura não extremamente vulgar e cores florescentes, em cuja fisionomia alegre transluzia um génio bonacheirão e o contentamento de si e de sua sorte verdadeiramente digno de inveja.

—Doroteia— disse-lhe a senhora, pousando o filho no chão depois de um último beijo — vá deitar este menino e não se me ponha agora a contar-lhe histórias. Estragam-me as crianças com esses contos de feiticeiras; fazem-nas umas medrosas que se não atrevem a passar, às escuras, por um corredor ou a ficar de noite só num quarto. Vá, Ângelo, e olhe o que eu lhe recomendei. Daqui a pouco irei ver se o menino está sossegado.

— Boas noites, mamã.

— Adeus, filho, boas noites.

E beijando-o ainda outra vez, entregou-o a Doroteia, que saiu com ele da sala.

— Sabes, Doroteia — disse-lhe pelo caminho a criança, a quem o júbilo quase obrigava a saltar; — a mamã vai mandar-me vir uma galguinha preta que se há-de chamar Andorinha. Tu é que lhe hás-de dar de comer... Não, não... isso hei-de ser eu... Tu... hás-de fazer-lhe uma goleira de veludo... ou então...

O resto dos projectos já se não ouviu na sala.

Cedo, porém, uma prolongada risada de Doroteia veio mostrar que o pequeno Ângelo não cumpria escrupulosamente a promessa que fizera momentos antes.

VI APRESENTAÇÃO

MAS com razão terá o leitor estranhado que tão sem-cerimónia o tenhamos introduzido numa casa e feito assistir a algumas cenas da vida doméstica de uma família, sem previamente o apresentarmos.

Não obstante, serão as principais personagens que teremos de encontrar no decurso desta narração.

Passo, desde já, a emendar esta falta de método, o que farei o mais sucintamente que possa, por saber que, regra geral, não são bem recebidas estas notas explicativas.

Ela torna-se, contudo, indispensável.

O palacete, em cujo salão principal surpreendemos dormindo a sono solto o nosso conhecido Torcato, pertencia a João Mexia de Melo e Moita, conde de Aveleiras, o mais benquisto proprietário da sua comarca. João de Alvito, ou, como ele próprio se assinava por uma inofensiva veleidade aristocrática. D. João de Alvito, era um homem de quarenta e tantos anos, ainda vigoroso e activo, de maneiras corteses, ânimo generoso e resoluções inabaláveis.

De estatura elevada e de porte airoso, ele possuía as aparências de um verdadeiro fidalgo.

D. João de Alvito era legitimista, mais por tradição do que por.

crença, embora quisesse sustentar o contrário. Repugnava-lhe mudar de ideias políticas em que fora educado, parecia-lhe uma quase apostasia para a qual lhe faltava o ânimo e que lhe reprovava com antecipação a consciência. Era, porém, do número daqueles que transigia com o estado actual dos negócios políticos, a ponto de aceitar, por vezes, uma candidatura às cortes e prestar o juramento exigido, não sei se com reservas mentais.

Como deputado, granjeara sempre merecidos créditos. Era um orador pouco vulgar e nunca negociara com o mandato, vendendo o seu voto para utilidade sua ou dos protegidos. Solícito em promover os interesses locais do círculo que o elegera, não tentou nunca antepor- lhes os interesses gerais do País. Nem os governos nem a oposição contavam com ele, porque de um momento para outro era-lhe infiel por consciência...

Em família não era menos exemplar. Quando o não chamavam à capital os trabalhos parlamentares recolhia-se à obscuridade da vida provinciana, todo absorvido no afecto da esposa e na educação dos filhos que, em pessoa, dirigia.

Ao apartar-se deles borbulhavam-lhe as lágrimas nos olhos e a custo podia pronunciar as palavras de despedida.

O carácter de D. Luísa oferecia a maior conformidade possível com o de seu marido.

Era a mesma gravidade, as mesmas maneiras afáveis e delicadas, o mesmo coração compassivo, os mesmos impulsos generosos. Conservava em todos os seus actos uma certa majestade natural, que imprimia às afeições, que geralmente inspirava, um cunho de veneração.

O seu nome adquirira já um verdadeiro prestigio entre os infelizes, que era tão solícita em socorrer...

Adelaide fora educada por sua mãe, que se esmerara em formar- lhe o coração de que hoje tanto se descura na pretensiosa educação dos colégios que recebem raparigas.

Adelaide não era destas presumidas que, aos quinze anos, nos cumprimentam em francês e travam connosco um diálogo moldado pelos do Guia de Conversação, que dançam uma valsa e garganteiam uma cavatina de um modo elegantemente detestável, o que as autoriza a falarem da prima-dona da companhia lírica com conhecimento de causa e desdenhosas superioridades, que...

Que mal-educados corações palpitam por baixo daqueles apertados espartilhos! Perdoem-me as amáveis leitoras que foram confiadas a um colégio se eu tenho saudades da educação mais patriarcal de outros tempos em que as mães não abdicavam tão completamente do seu dever de instruidoras da infância.

As meninas ficavam talvez falando um pouco mais defeituosamente o francês, porém, quer-nos parecer que ficavam sentindo e amando melhor, mais pelo coração e menos pela fantasia.

Mas voltemos a Adelaide.

Esta aprendeu noutra e na melhor das escolas: tivera por mestra a mãe que a educara à sua semelhança.

Adelaide lia poucos romances e mal suspeitava até, quando em companhia de D. Luísa socorria os seus pobres amigos doentes, quase mortos de fome e de frio, que estava imitando esta ou aquela heroína de quem nunca ouvira falar.

Tais coisas fazia-as naturalmente, sem ao menos se lembrar do efeito que poderiam produzir. Não tinha culpa no interesse que a todos inspirava.

Adelaide cantava como os passarinhos que, no laranjal fronteiro à sua janela pareciam, de contínuo, provocá-la. Desafiava-lhe hinos a verdura do arvoredo, o rumorejar das fontes e as meias-tintas das madrugadas e dos crepúsculos. Cantava para acalentar as criancinhas nuas e tiritando de frio que ia procurar às choupanas, como uma presa que arrebata à miséria; cantava para entreter as raparigas da sua idade que se enlevavam a ouvi-la ou quando seu pai manifestava desejos de escutá-la. Eram quase sempre singelas canções e toadas populares que ela preferia — outro ponto em que infringia o sancionado código da elegância, que não admite que se cante senão em língua estrangeira.

Subindo da pouco confortável sala dos retratos, D. Luísa entrou na câmara imediata, cujo aspecto contrastava notavelmente com o daquela. Quanto ali tudo respirava tristeza e abandono, aqui se denunciavam as aparências da vida em cada particularidade, a mais insignificante. Nas luzes, nas flores, nos tapetes, nos estofos e almofadas das cadeiras e sofás, no papel de custo que forrava as paredes, nas cortinas de damasco que adornavam as janelas, no magnífico piano Erard, aberto ainda, no fogão consolador, tudo indicava que a imaginação esgotara todos os recursos para reunir a elegância à comodidade.

Era a antecâmara de D. Luísa o ponto de reunião da família, onde tinham lugar os prolongados serões do Inverno, as lições nocturnas de Ângelo e as leituras em comum feitas em voz alta por D. João de Alvito, e escutadas com religiosa atenção, e até os concertos familiares em que a voz de Adelaide. .

— Adelaide — disse D. Luísa passado algum tempo — esta solidão em que vivemos aqui é demasiado triste para a tua juventude.

Nessa idade amam-se, é verdade, as flores e o canto das aves que se vêem e escutam em abundância da janela do teu quarto.

São as primeiras a dar-te os bons dias todas as madrugadas, são as primeiras amigas que nos saúdam; mas o coração também nos pede afectos, que a nenhuma convivência que temos aqui te não permite activar...

— Que diz, mamã? Faltam-me por acaso afectos nesta casa? Afeições de pai, de mãe; do Ângelo; a do velho Torcato, da Doroteia, de...

Enganar-me-ei acreditando que todos aqui me querem ? — Não, filha, não te- engana a consciência quando assim to afirma.

Mas falta-te uma amiga a quem não hesites em confiar todos os teus pensamentos, diante de quem não cores quando, com a penetração da amizade,, te devassar alguns que reserves ocultos.

— E não tenho eu essa amiga? — disse Adelaide, baixando os olhos um tanto confusa, como se temesse denunciar na expressão deles um pensamento diverso do que ia exprimir. — Quando é que a mamã se recusou a escutar-me as confidências de todas as minhas penas e prazeres; desde quando é que o seu coração deixou de participar de todos os sentimentos do meu? — Canta, Adelaide, a primeira canção que te lembrar. Aquela que ontem cantaste quando te recolheste ao teu quarto. Lembras-te dela? Estas palavras pareciam ocasionar em Adelaide uma inexplicável confusão.

— Não me recordo bem...— respondeu ela, desviando os olhos dos de sua mãe.

D. Luísa continuou: — A canção das Andorinhas, julgo eu...

— Ah! Essa! — disse Adelaide como se lhe repugnasse aceder ao convite de sua mãe.

— Gostei ontem de te ouvir. Se te não custasse...

Adelaide encaminhou-se para o piano com visível constrangimento.

Sentou-se e principiou a preludiar.

Sua mãe fitava os olhos nela e sorria-se vendo aquele enleio, como se compreendesse a causa que o ocasionava.

Cedo a voz argentina de Adelaide, interrompendo o silêncio da noite, principiou a cantar, em toada popular, a seguinte canção conhecida nos arredores:

Volta andorinha aos países Dos perfumados verdores, Onde têm mais viço as flores Onde tem mais luz o céu...

Cruza o mar, que a Primavera Já ri nos vales e outeiros . Dispersando os nevoeiros Em que o Inverno os envolveu...

CARTAS LITERÁRIAS

COISAS VERDADEIRAS"

Ao folhetinista (Ramalho Ortigão) do «Jornal do Porto»

Publicada sob o pseudónimo de Diana de Aveleda, naquele jornal, em 25 de Fevereiro de 1863.

II."'- Sr.

Há tempos escreveu V. S." no «Jornal do Porto» um folhetim, onde debaixo da pérfida e insinuante epigrafe: — Coisas inocentes — dizia as falsidades mais abominavelmente culpáveis que eu tenho lido em folhetins, dos quais não é, de ordinário, a inocência a feição característica.

Logo eu duvidei da sinceridade e exactidão do titulo, quando no curto argumento que se lhe segue e no qual se acha em resumo, como é de estilo, o tema da subsequente dissertação, vi duas palavras que quase nunca se juntam sem prejuízo reciproco para as ideias que designam: a filosofia e a mulher.

É sabido que uma eterna pendência, perpetuada através dos séculos, lavra entre nós, as mulheres, e os filósofos, essa porção mais impertinentemente pretensiosa do sexo feio, do qual V. S." é um exemplar.

E isto vem de longe! Recebi ontem o escrito, que hoje se publica com este título e que será concluído a folha de amanhã. Era ele acompanhado de uma carta muito elegante igualmente assinada pela autora. Aplaudo-me de haver escrito com o título de «Coisas inocentes» a bagatela que me proporcionou esta honra. Ignoro se Diana de Aveleda ó um pseudónimo ou um nome. Basta-me também saber que é uma senhora quem o escreve.

Em um folhetim que hei-de publicar brevemente, buscarei provar que fui mal compreendido e mal analisado pela minha leritora e colaboradora excelente. No entanto Curvo-me1 muito respeitosamente diante da fineza que acabo de receber e ponho o meu cordial agradecimento aos pés de Diana dei Aveleda.

Ramalho Ortigão.

Veja o que disse Salomão, citado por V. S.\ Salomão que, a acreditarmos as letras sagradas, tinha motivos para falar de nós com mais conhecimento do causa; recorde-se de Aristóteles, o maior folhetinista do seu tempo, o qual nos supunha uma obra por concluir nas oficinas da natureza; repare como Demócrito... também trazido a juízo há poucos dias por V. S.", Demócrito que, dizem, em tudo achava pasto para a sua alacridade, chegou a arrancar os olhos, falo também sob a responsabilidade de Tertuliano e de V, S.", para não ver mulher nenhuma, lembrança que V. S." muito ajuizadamente taxou de estúpida, com grande aprazimento meu.

E depois disto, depois de tantas causas de agravo, com que olhos poderemos nós encarar os filósofos e a filosofia, não me dirá? Poucos são os que, à imitação dos três que mencionei, se não distraíram em seus momentos de pedantesco spleen à custa de nós outras mulheres, caluniando-nos, ensaiando em nossa humilde personalidade as suas aguadas vocações epigramáticas, tentando até ter espírito, que ó o ponto mais alto a que podem subir as aspirações de um filósofo.

Acerca das mulheres e dos médicos, toda a gente se julga com direito para gracejar. É balda antiga! O epigrama a nosso respeito tornou-se juntamente com as observações sobre o bom e o mau tempo, um lugar comum de todas as conversas fúteis, assunto acomodado à inteligência de todos os parvos e excelente material para o tiroteio de banalidades, remoques alambicados e galanteadoras sandices, que fazem as delicias dos nossos encasacados frequentadores de bailes.

E a culpa disso tiveram-na os filósofos com suas sumarentas sentenças e apotegmas absurdos. Pois quem mais? É irreconciliável já agora esta aversão que nos separa deles; um ódio perpétuo cavará entro nós um abismo imensurável. Nunca seus livros terão acesso em nossos gabinetes, nunca repousarão às nossas cabeceiras ou em nossos cestos de costura.

Podem-se esfalfar e mumificar, esses senhores, à vontade, em estupendas elucubrações sobre a identidade do eu e do não eu, sobre os fins finais, as essências e as modalidades e quantas outras extravagâncias lhes acudam à ideia, que nunca farão com que uma mulher, verdadeiramente digna deste nome, lhes conceda um só momento de suas horas de deliciosos e frequentes ócios.

Repare que digo uma mulher verdadeiramente digna deste nome ; porque é notório que muitas há que o não merecem.

São essas tais, ridículos disparates da natureza que se descuidou, insuflando em formas femininas um espírito varonil com todas as suas impertinências e engravatadas predilecções.

Assim: há mulheres que, como M.ml!Dacier, sabem o grego e traduzem Homero! Que abominável saber! Outras, como a nossa Alcipe, que entendia o latimI Algumas até, ó monstruosa aberração! que chegam, como não sei que marquesa parisiense, a comentar o próprio Newton e a lidar com fórmulas algébricas; isto com grande aplauso dos filósofos, a quem essas tais agradam! São exactamente as que eu detesto; a respeito das quais penso como Aristóteles, não serem mais que homens abortidos. Contra elas protesto! Nunca impassível as verei agremiadas a um sexo que, à custa de muitos esforços e sacrifícios, conseguiu adquirir uma tríplice qualificação, da qual deve justamente ufanar-se: a de belo e por isso devemos protestar contra as feias, tomadas como espécime do género; a de amável e por isso protestaremos sempre contra as eruditas e versadas em línguas mortas ou em ciências espinhosas; e a de frágil e por isso protestaremos também contra as chamadas mulheres fortes, muito do gosto aliás dos senhores poetas. Sim; deve saber que nunca pude simpatizar com as Judites, Joanas d'Arc, Carlotas Cordays e outras heroínas que adquiriram grande reputação entre as mulheres, justamente por o não saberem ser.

Para mim, a mulher verdadeira é, por exemplo, aquela Licínia de um romance de Mery, que adormeceu enquanto um filósofo laquista lhe lia uma dissertação sobre os sonhos e que, dormindo, converteu o tal filósofo à razão.

É a mulher como a Ifigénia do teatro grego que, votada à morte, chora, ajoelha-se, procura comover, implora a vida, lamenta as flores que vai deixar, o esplendor do dia, a claridade do céu, os prazeres gozados e tantos outros, vagamente entrevistos ainda e de que o futuro lhe falava. Lamentos que, como diz Saint-Marc Girardin há-de sempre repetir toda a rapariga moribunda, porque são saudades pelos bens mais universais e mais doces da vida.

Esta ó que é a verdadeira mulher, a mulher frágil e não as estóicas heroínas que tanto vos despertam a atenção e o interesse.

A mulher digna de o ser é aquela em cuja ortografia os eruditos tenham que lamentar a ignorância absoluta das letras gregas e latinas, a que dos jornais políticos só lê o folhetim, a que de um livro passa em claro os prólogos, que põe de parte as considerações filosóficas dos romancistas para seguir o entrecho do romance; que perde de vista a ideia metafísica do autor, para não ver nos acontecimentos narrados senão acontecimentos; a que não tem o ridículo descoco de repetir após a leitura o qu'est ce que cela prouve de filosófica e insuportável memória. É a que folga com os casamentos no final da novela, chora sinceramente a morte da heroína, sonha com a beleza do herói e odeia do coração o pai, o tio, tutor ou conselho de família que se opõe à realização dos castos desejos dos dois amantes.

É assim que eu compreendo a mulher, pois é assim que eu sou formada, eu e as minhas amigas todas. Ora é exactamente o contrário disto que os senhores nos fazem. Quer para bem, quer para mal, nunca os poetas, romancistas e filósofos, nos pintam tais como somos. É vulgar chamarem-nos anjos e demónios, raríssimo que nos chamem simplesmente mulheres.

Por saber isto e o mais que vem dito, foi que logo principiei a agourar mal da apregoada inocência do folhetim que V. S.* assinava e no qual se prometia uma confrontação entre a mulher e a filosofia.

A leitura dele veio mostrar-me que, se em parte me enganara, fora em parte fatídico o meu pressentimento.

De facto, V. S.* principia bem. Começa a rir dos filósofos, que é passatempo inocente e para o qual eu me sinto sempre nas melhores disposições de espirito; duvida da ciência desses moralistas antigos e modernos, que tanto falaram da mulher e tão pouco a conheceram, do que muitos deixaram irrecusáveis e eloquentes testemunhos; ocuparam- se, diz pouco mais ou menos V. S.*, de uma mulher que não existe, de uma mulher imaginária, mulher de convenção, mulher mito, feita à imagem da fantasia deles, que aqui para nós, digo eu agora, não fornece grandes modelos; e ai está o que eles fiseram.

E eu a gostar de ouvi-lo! Oh! 3e gostava! Tratava-se pois de refazer o trabalho desde o princípio; propôs- se V. S.' a isso, adoptando o método analítico para chegar ao descobrimento da verdade. Logo me não agradou a escolha. Receei que analisando meia dúzia de mulheres, se apressasse a generalizar, arvorando a excepção em regra e caindo no mesmo defeito dos filósofos que combatia e que me parece terem pecado por analíticos de mais.

Contudo entrei de ânimo folgado no corrente das considerações que sobre o assunto V. S.' expendeu.

Cedo perdi as ilusões que me seguiram até ali.

Ainda desta vez não nos faziam justiça.

Era ainda a mesma fisiologia da mulher—aleijão, da mulher — anomalia, da mulher — extravagância e não da mulher — mulher, a única que, não obstante, mais importaria conhecer a um verdadeiro fisiologista.

Meu marido possui um livro de um tal Geoffroy de Saint-Hilaire.

que trata de todas as monstruosidades humanas: é horrível! Pois as suas fisiologias da mulher, meus caros senhores, fazem-me lembrar este livro. Pode ser que tenham um valor cientifico igual ao dele, o qual valor, aqui para nós, eu ainda não pude compreender bem qual seja.

Depois de acabar de ler o folhetim de V, S.", tive vontade de lhe responder imediatamente para refutar, um por um, os aforismos com que termina, dos quais nenhum lhe posso admitir; mas há tanto tempo que perdi o hábito destes empreendimentos, que me custou a decidir-me.

Se fosse noutro tempo!...

Noutro tempo era eu também mulher— excepção, mulher — extravagância, ou como quiser chamar-lhe. Febricitava-me a vacina do romanticismo, como lhe chamou Garrett, o Jenner da nossa literatura, e dava-me então para velar noites inteiras à janela, entre os ramos de trepadeiras que me enfloravam o balcão, vestida com um penteador branco, os cabelos soltos, a face encostada à mão e de olhos fitos na Lua, naquela mesma Lua que andava então tanto na moda. Escrevi-lhe uma balada sentimental e não como as de Alfredo Musset, que nos acessos desse derrancado romanticismo, lhe chamou quantas extravagâncias e nomes feios lhe vieram à cabeça, tais como: o ponto de letra !, olho do céu zanaga, máscara de um querubim, sonsa, bola, aranha sem pernas e relógio dos condenados e não sei que mais injúrias. Eu não; não ofendi as conveniências, que se devem ter, para com um astro fêmea. A minha balada publiquei-a na Miscelânea Poética, vasto viveiro de poetas e poetisas que havia por aquele tempo no Porto.

Um critico de então, o qual V. S.» conhece muito bem, fez-me o favor de me profetizar um auspicioso futuro literário. O crítico enganou- se, acontecimento vulgar nos críticos, assim como eu também me enganei com ele; pois agoirando-lhe igualmente pela minha parte, em vista das suas tendências romântica?, a elaboração futura de dez volumes de poesias sentimentais, v n'e dramas ultra-românticos e ultra- -históricos, etc, etc, vejo-o hoje todo entregue a estudos paleográficos, entre pergaminhos amarelos e monstruosos in-fólios, anotando e discutindo bulas e pastorais e correspondendo-se com bispos, arcebispos e eminentíssimos dignitários da cúria.

Se fosse nesse tempo, em que despedi o meu facultativo de partido por me dizer um dia que para ele o coração era apenas «um músculo oco, com suas^fibras e válvulas e o principal motor do movimento sanguíneo», não teriam mediado tantos dias entre a leitura do folhetim de V. S.» e a minha refutação; mas hoje, que me deixei de versos para tratar dos filhos, que a realidade de um marido expeliu do meu coração os luminosos fantasmas ideais, belos como o arcanjo São Miguel, que estavam comigo, quando todos me julgavam solitária; hoje que as canseiras domésticas me não deixam tempo para inventar tormentos imaginários, hesitei, por não saber se me não abandonaria o fôlego antes de levar ao fim o empreendimento. Por isso deixei passar tanto tempo sem responder, por isso nunca responderia talvez, se me não instigassem algumas amigas, igualmente escandalizadas como eu corn a falsa fisiologia da mulher, exposta por V. S.».

Fisiologia da mulher! Principiaremos por aqui.

De duas uma, ou a mulher não é uma entidade moralmente distinta do homem e então para que tentar presentear-nos com as honras de uma fisiologia especial? Ou o é e cumpre nesse caso que as descobertas fisiológicas que nos disserem respeito, nos sejam exclusivas, capazes de caracterizar o sexo, de lhe fazer perder o aspecto nebuloso, de que alguns teimam em revesti-lo chamando à mulher um mito e ficando muito satisfeitos de si, como se tivessem dito alguma coisa de jeito.

Ora não estão nesse caso muitas das suas observações, meu caro senhor, as quais são igualmente aplicáveis aos homens e, desde então, impróprias de uma fisiologia especial do sexo amável.

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