Carta do Visconde de Castilho a Júlio Dinis acerca do seu romance Uma Família Inglesa, transcrita, por amável concessão do Sr. Visconde de Castilho Quito), das Novas Telas Literárias (vol. IIP (1).)
Ex.mo Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
Recebi, mas só muitos dias depois, o exemplar, com que V. Ex." me obsequiou, do seu romance Uma Família Inglesa.
Dizer a V. Ex." que nos lançámos a ele com verdadeira sofreguidão, fora uma superfluidade; acrescentar que o levámos de um fôlego, sem a mínima distracção, até à última página, e que depois dela nos estava ainda inteiro o apetite para o dobro, ou o triplo, outra superfluidade não menos escusada.
Sim senhor: a sua inglesinha não é menos para amores que a Margarida. Esta sua segunda filha há-de-lhe dar tanta glória como a primogénita; e se lha não der maior, é porque não pode ser.
Coisa muito para se citar com louvor e admiração neste seu novo livro, é (quanto a mim) que, sendo tão sóbrio o enredo, e tão pequeno o teatro da acção, o interesse dela é todavia dos mais poderosos.
0 talento real foi sempre assim, e assim é também em todos os seus poemas a Natureza: de elementos mínimos compõe, sem esforços nem violência, os máximos efeitos.
Deus o conserve (e já se vê que o há-de conservar até ao fim) no óptimo sistema que adoptou.
Outros que o elogiem (e com esses também eu faço coro) como escritor de romances já distintíssimo, não só para entre nós. Eu, por cima desse mérito, reconheço-lhe ainda o de filósofo e moralista, que algum dia tem de ser colocado entre os de primeira plana. Teófrasto e La Bruyère não debuxaram com mais exacção os caracteres. Balzac mesmo não lê mais por dentro nos indivíduos. V. Ex.a, além do esmero com que nos pinta o mundo exterior, e nos fotografa a sociedade, tem.
Colhidas de um livro manuscrito.
PRINCIPIEI a escrever as «Pupilas» em Ovar (1863) durante os meses de Julho e Agosto. Terminei-as no Porto em Setembro ou Outubro. Ficaram-me na gaveta até ao ano de 1866 em que solvi publicá-las. Alterei bastante o romance e ampliei-o introduzindo- lhe personagens e capítulos novos. Publicou-se em 1866 de Março a Julho. Publicou-se em volume em Outubro de 1867. O primeiro exemplar brochado em 20 de Outubro.
Os primeiros factos da minha existência literária remontam aos 11 anos. Não os recordo porque pretenda persuadir-te que efectivamente de algum valor eram já essas façanhas de criança, mas tão somente para me darem ensejo de fazer algumas reflexões sobre os motivos principais que podem actuar sobre a inspiração nascente e criar o gosto pelas letras; assim como, mais tarde, apreciar as causas que podem educá-lo em melhor caminho.
Permite-me que te recorde alguns factos da minha vida.
Sabes que aos 5 anos fiquei sem mãe, que a nossa vida de família...
...(Não continua).
P. — Um homem que doma feras como está mais sujeito a morrer ? R. — De uma dor. (Domador).
P. — Que basta a qualquer para enriquecer ? R. — Ser Henrique. (Enrique-cer).
P, — Em que dia do ano tocam melhor os sinos ? R. — No dia de defuntos porque tocam todos a finados. (Afinados).
P. — Para que serve a cal na artilharia ? R. — Para fazer peças de cal e bronze. (Calibre onze).
P. — Qual é o exemplo de um homem inevitavelmente incurável ? R. — Um abade sem cura. (Coadjutor).
Principiei a escrever «Os Fidalgos da Casa Mourisca», no Funchal, em Março de 1869. Levava-o em meio do capitulo 8.° quando voltei ao Porto em Maio do mesmo ano. Trabalhei no Porto e escrevi-o até princípios do capítulo 17, desde Junho até Outubro, época em que voltei para a Madeira. Concluí-o no Funchal em 11 de Abril de 1870.
Levei-o manuscrito para o Porto. Principiei a copiá-lo aí e levei a revisão e cópia até ao capítulo 22. Concluí este segundo trabalho no Funchal a 27 de Novembro de 1870.
1863 — Ovar.
1864 — Felgueiras, Amarante, Leiria, Alcobaça, Batalha, Nazaré, Aveiro, Ovar.
1865 — Felgueiras, 1866 — 1867 — Aveiro, Ovar, Vila do Conde, Póvoa.
1868 — Matosinhos, Leça, Lisboa.
1869 — Lisboa, Funchal, Coimbra, Fânzeres.
1869-1870 —Lisboa, Funchal.
Quando uma nação forte e vigorosa, no gozo da sua autonomia, respirando a aura vivificadora da liberdade, é invadida pela agressão estrangeira; quando o despotismo e a servidão se aproximam, a campo descoberto, dos seus muros, estes transformam-se em baluartes, a reacção é pronta e eficaz, cada indivíduo é um soldado, cada soldado cinge-se da coroa dos heróis e o sangue, patriótica e generosamente vertido no altar da pátria, reverdece salutarmente as palmas da vitória.
Mas se o mal se aproximou obscura e lentamente, se o veneno se inoculou gota a gota nos espíritos, pervertendo-os, infeccionando-os; se rastejou como a serpente; se a falsa doutrina foi insidiosamente segredada no confessionário, pregada do púlpito, administrada em sacrílega comunhão com a hóstia consagrada; se as gerações novas a bebem na educação, dirigida por a hipocrisia, a vida da nação definha, os espíritos aviltam-se, os sentimentos nobres perdem-se, a alma adormece voluptuosamente numa inacção vergonhosa ou, se um dia um excesso de opressão a faz acordar, se pretende reagir, o esforço momentâneo não a salva, antes acaba de a deprimir.
A luta é ainda gloriosa, mas improfícua e talvez prejudicial. Disto, a Europa nos ofereceu há pouco um triste exemplo.
No mundo fisiológico há também umas e outras destas comoções, bem comparáveis às comoções políticas a que nos referimos. Às vezes o mal vem do exterior, acomete subitamente, violento sim, mas declarado, franco, sumário. Então a economia, na presença do perigo, rica de todos os seus recursos, forte de toda a sua energia, põe em jogo toda a sua actividade de que está de posse. E o combate trava-se, pronto, violento, muitas vezes eficaz. A febre é o tipo destas revoluções fisiológicas.
Mas se as causas obraram lentamente, se desde o primeiro e misterioso instante da existência, esse momento que encerra séculos, o da fecundação, se assenhoreou da organização, se perverteu o leite materno, se infeccionou as fontes de toda a substância, viciando o ar, envenenando as águas... então o organismo cede-lhe pouco a pouco, segue, sem reagir, um plano de vida mórbida, ou, quando reage, está longe de manifestar aquelas eficazes e salutares sinergias que decidem os fenómenos mórbidos como se estivessem despedaçados os laços da unidade vital. É uma reacção anormal, irregular, aquela que muitas vezes afronta (?) a subjeição do corpo. (?) Os organismos, em certas moléstias crónicas, são um exemplo destas outras comoções.
Baixou do ministério do reino aos estabelecimentos de instrução superior uma portaria mandando-os consultar sobre um plano geral de reforma e nela o ministro deixou transparecer o seu pensamento em relação aos destinos de cada um desses estabelecimentos.
Prepara-se pois uma reforma radical na instrução pública do País; desde a instrução primária, a tão descurada sempre dos nossos governos, até à instrução superior, tão longe ainda entre nós do que devia ser. A portaria é a aurora de um clarão que promete iluminar- -nos para a legislatura seguinte; faremos votos para que não seja apenas uma aurora boreal, como a que aparece aos navegadores dos mares do norte para, momentos depois, se resolver em trevas.
O convite que o ministério do reino fez às escolas e às academias, vimos nós fazê-lo aqui a toda a Imprensa, a todos os publicistas, a todos os pensadores do reino e principalmente aos das províncias do norte, que mais que nenhuns têm razões para se ocuparem desta tentativa de reforma.
O nosso país é pequeno em área; mas ainda assim parece que já não é um só o dialecto que se fala em todas as regiões dele. Palavras há que, segundo as latitudes em que se pronunciam, assim tomam diversas acepções.
A palavra reforma está neste caso.
Quando pelas secretarias do Terreiro do Paço, pelos gabinetes dos ministros, pelas salas e corredores das duas câmaras e pelas praças e teatros principia a vogar esta palavra — reforma — os ouvidos da capita! escutam-na com prazer; mas, se os ventos a transmitem às províncias, se os ecos da Imprensa a repercutem, é raro que não estremeçam de apreensões os espíritos menos timoratos.
De onde provém esta diferença? É que ha muito as reformas manifestam-se em Lisboa por amplia ção nos quadros dos funcionários, aumento da despesa pública, elevação das cifras de vencimentos, criação de sinecuras, com que a proverbial indolência dos nossos compatriotas do sul se pressente lisonjeada.
Para nós, porém, os que vivemos longe do sol, aquele belo e fomentador sol da capital, diversa e quase antinómica acepção tem a palavra, quando a procuramos no dicionário, que por experiência sabemos ser o mais fiel.
Em tudo é assim. Como a antiga Roma, que fora da sua cidade não via senão países bárbaros, Lisboa para lá dos seus muros, esquece que existe o País e procura só por si absorver tudo.
We view the world with our own eyes, each of us; and we make from wifhin us the world we see. A weary heart gets no gladness out of sunshine; a selfish man is sceptical about friendship, as a man with no ear doesn't care for music.
Thackeray — The english humourísts of the eighteen century (pág. 39 Swift).
Les éléments de la conjecture au sujet de telle ou telle action sont, d'une part, ce que l'on croit savoir du caractere de celui qui l'a fait; de 1'autre, le caractere de celui qui la juge. Les bons supposent volontiers de bons motifs; les méchants ou les sots en supposent de méchants ou de sots. De même qu'on ne trouve dans un livre qu'autant d'esprit que l'on en a, on ne peut aussi sentir que dans la mesure de son propre mérite ou de sa propre délicatesse, le mérite et la délicatesse d'autrui. Attendez-vous donc à ce que les gents sans esprit et sans cceur, c'est-à-dire un três grand nombre de gens, supposent à vos actions les motifs mesqums qui réglent les leurs.
Émile Deschanel — Étude sur le Rochefoucauld.
Causou-me vivo prazer a leitura dos dois trechos que transcrevi, por me ter encontrado no pensamento com os seus ilustres autores, quando escrevi na Morgadinha: «É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem no desinteresse dos outros!
«Não há explicação mais difícil de ser recebida do que a que se fundamenta em um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade, «É preciso que duvidemos muito de nós mesmos para assim desconfiarmos do próximo. Porque afinal o que é verdade, é que a mais exacta e infalível ciência do coração humano só se adquire pelo estudo do próprio coração; esse é o único que nos está bem patente. É por isso que as melhores almas são de ordinário as mais crentes.
«Um homem a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas as aparências de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado o coração como supõe o dos outros.»
Li ainda no estudo de Deschanel:
Chamfort conte quelque part ceci: «Mr. Th. me disait un jour qu'en general dans la société, lorsqu'on avait fait quelque action honnête et courageuse par un motif digne d'elle, c'est-à-dire três noble, il fallait que celui qui avait fait cette action lui prétat, pour adoucir l'envie, quelque motif moins honnête et plus vulgaíre.
Este pensamento devido a um autor desconhecido, igualmente me causou satisfação por haver também posto na boca de Jenny na Família Inglesa: «O mundo é assim. Dá-se-lhe a verdadeira explicação dos factos, raras vezes a acredita. Forja-se outra, às vezes menos natural e plausível, quase sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira é generosa e nobre e a falsa interesseira e mesquinha.» E na de Mr. Richard: «E julgas tu que a gratidão é facto mais natural para o mundo do que a iniciativa no benefício? Se subtraíres da explicação o elemento interesse, o facto será incompreensível.»
Quand un discours naturel peint une passion ou un effet, on trouve dans soi même la vérité de ce qu'on entend, qu'y était sans qu'on le sut, et on se sent porte à aimer celui qui nous le fait sentir. Car il ne nous fait pas montre de son bien, mais du notre et ainsi ce bienfait nous le rend aimable; outre que cette communauté d'intélligence que nous avons avec lui, incline nécessairement le coeur à 1'aimer.
Pascal — Pensées VII du 1 article — Edit. Bibl. Nation., pág. 33.
Quand on voit le style naturel on est tout étonné et ravi; car on s'attendait de voir un auteur et on trouve un homme; au lieu que ceux qui ont le goút bon et qui en voyant un livre croient voir un homme, sont surpris de trouver un auteur plus poetico quam humane locuttes est.
Idem VIII, pág. 33.
II y en a qui masquent toute la nature. II n'y a point de roi parmi eux, mais un auguste monarque; point de Paris, mais une capitale de royaume. II y a des endroits ou il faut appeler Paris, Paris, et d'autres ou il faut l'appeler capitale du royaume.
Idem IX, pág. 34.
Transcrevi estes pensamentos de Pascal por me parecerem mais segura guia literária do que os conselhos que me deram alguns críticos em público e em particular, de ataviar mais o meu estilo nos romances que escrevo porque o achavam demasiado desornado. Em contraposição tinha a maioria dos leitores a convencer-me de que o êxito de alguns dos meus livros era principalmente devido a essa pobreza de ornatos e arabescos, que me apontavam os censores. Muita vez ouvi dizerem-me que liam com prazer os romances que eu escrevia porque os entendiam do princípio até ao fim. Pareceu-me entrever nos pensamentos de Pascal mais a confirmação do pensar do vulgo do que o dos críticos.
Funchal, 27 de Outubro.
We are so fond of him because we laugh at him so.
Thackeray — Engl. humourist 100.
Acho um pensamento profundamente verdadeiro nesta frase Thackeray.
* Acabo de ler pela primeira vez na Histoire de Sibylle de Octávio Feuillet o seguinte: «En été, quand 1'aube s'est levée radieuse dans un azur ímmaculé, les prernières heures du jour ont une pureté et un calme que l'on croirait éternels. Cependant des brises folies se levent tout-à-coup, inclinent les herbes et agitent le feuiilage, des roseaux blanchâtres s'entrecroisent dans le ciei d'un horizon à 1'autre, comme des voiles tendus soudain par de mains invisibles. On s'inquiete et l'on se dit qui pourrait bien venir de l'orage dans la journée.» Ora em 1866 havia eu escrito na Família Inglesa, a págs. 268: «No Estio dos nossos climas amanhece às vezes o dia puro e formosíssimo; o céu é azul, resplendentes os raios do Sol; tépida e perfumada a viração que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco parece que o Sol desmaia, que desbota o azul do céu, que nos abafa a atmosfera inflamada; acumulam-se no horizonte e espalham-se depois por todo o firmamento nuvens de um azulado de chumbo; forma-se a trovoada.» O símile è aplicado por Octávio Feuillet a indicar-nos a revolução que se operou na infância de Sibylle, depois dos seis anos.
No meu romance escrevi eu: «Esta manhã de Cecília foi bem semelhante a um destes dias de Verão.» Com estas e outras descobertas aprende-se, à custa própria, a não ser precipitado em atribuir propósitos de plagiário a quem inocentemente muitas vezes o foi. Ninguém se deve persuadir de que, depois de tantos séculos de literatura, ainda qualquer possa ter pensamentos ou conceber imagens absolutamente novos. Esta, de mais a mais, que é já chamada por Octávio Feuillet une vieille image.
Funchal, Dezembro de 1869.
S'il y avait un lieu dans l'univers ou un homme put n'avoir sous les yeux que 1'aspect des grandes scènes de la nature et 1'espectacle d'honnêtes gens, il serait difficile que son âme, si bouleversée qu'on la suppose, n'y recouvrat pas un peu de paix et de confiance.
Oct. Feuillet — Hist. de Sibylle, pág. 339.
O romancista convencido desta verdade, deve empregar o poder criador da sua imaginação em realizar esse lugar bem-aventurado, onde se possa passar mentalmente algum tempo da vida e colher parte dos benéficos frutos que tão ridente realidade prometeria. O autor das linhas citadas assim o faz e eu conheço, por experiência, o efeito salutar dos seus livros.
Pourvu que tout vienne se reunir dans un même noeud facile à saisir, la simplicité d'une action dépend beaucoup moins du nombre des intérêts et des personnages qu'y concourent que du jeu naturel et clair des ressorts qui la font mouvoir. Mais, de plus, il ne faut jamais oublier que 1'unité par Shakespeare consiste dans une idée dominante qui, se reproduisant sous diverses formes, ramène, continue, redouble sans cesse la même impression.
Guizot — Notice sur le Roi Lear
Parece-me verdadeira esta observação do erudito tradutor de Shakespeare. E se ela se pode admitir em relação ao drama, onde a acção tem necessidade de se restringir, com muita mais razão vigora no romance cujo plano é naturalmente mais vasto e permite mais explanação.
É por isso que não posso concordar com os que taxam de falta de unidade o meu romance A Morgadinha. Todas as personagens e episódios nele introduzidos estão ligados por interesses comuns e subordinados a uma ideia principal. Essa é a unidade que eu procuro sempre realizar.
Funchal—Janeiro de 1870
No difuso e confuso livro de critica de Luciano Cordeiro, lê-se a pág. 240: «O chamado romance de costumes, geralmente variante bucólica daquela (a feição social), desfastio da literatura burguesa, sem alcance crítico»... É uma das muitas leviandades e fraquezas de critério do que a si mesmo se apresenta como o reformador da crítica.
Os romances de costumes, bem compreendidos, pintando a maneira de viver e o pensar comum dos povos, sobre serem de irresistível interesse para a actualidade e os que mais prontamente adquirem os tão disputados foros de popularidade, são mina preciosa para o estudo da época fornecida aos vindouros. Se as idades passadas da nossa literatura cultivassem o género, importante subsídio colheriam nele os historiadores, que tanto se queixam da aridez das crónicas e dos escritos literários desses tempos.
Estou convencido de que é mais provável que a posteridade leia com mais interesse o romance de costumes, que não chega ao alcance da critica do Sr. Luciano Cordeiro, do que, com seriedade, os ditames, que uma pretensiosa e pedantesca coorte de rapazelhos, lhe está ditando, cá do nosso século, como se gozassem do privilégio de videntes.
Funchal — Março de 1870
Das cartas mencionadas nesta relação existiam na posse da família de Júlio Dinis apenas as duas que em seguida se publicam, do poeta portuense Faustino Xavier de Novais.
II.m° Sr.
Rio de Janeiro, 23 de Dezembro de 1867.
Não sei se lhe será completamente estranho o nome que assina carta. Nessa hipótese vão algumas palavras necessárias como exórdio ao assunto que me move a escrever-lhe.
Sou natural do Porto, lá passei a infância e a parte melhor da mocidade. Filho de um pobre e honrado artista tive por brasões os calos que me deixara nas mãos o uso da ferramenta empregada no trabalho de ourivesaria, de que vivi muitos anos. Estudei as primeiras letras apenas. Apareceu-me tarde a paixão pela literatura e se hoje não sou inteiramente ignorante, devo o pouquíssimo que sei à perseverança com que me dediquei, em horas vagas, à leitura de bons livros e à convivência que tive com literatos, e especialmente com Camilo Castelo Branco, a quem posso chamar mestre, como lhe chamo amigo. Publiquei dois volumes de versos satíricos e rabisquei por aí muito papel em jornais.
Loucuras do coração me impeliram a deixar a pátria em 1858, dirigindo-me para aqui, onde me tenho conservado sempre e onde me esperam sete palmos de terra que o mundo não poderá negar-me.
A minha saída foi traduzida aí como ambição, ou antes cobiça.
Eu deixei ao mundo a liberdade da tradução, escondendo as minhas mágoas onde não pudesse perturbá-las o sarcasmo dos moralistas de máscara.
Tenho sido sempre infeliz, estou pobríssimo e altamente convencido que assim morrerei.
Cansado de dissabores, vivo retirado do mundo, que só frequento no exercício de um emprego que me dá a subsistência. Abandonei a literatura, sem prejuízo para mim nem para ela e perdi de todo a vontade de escrever. Ao terminar esta página, perguntaria V, S.\ se tivesse a quem, com que fim o estou eu maçando com esta narração biográfica. Eu lhe digo. Quis mostrar-lhe que sei ler, que tenho coração e que sou fanático por Camilo Castelo Branco, para lhe dar depois os mais sinceros parabéns pelo resultado do seu trabalho literário As Pupilas do Senhor Reitor.
Ainda não vi aqui anunciado o livro à venda mas foi-me confiado um exemplar, de cinco que vieram para o Gabinete de Leitura, e li-o com prazer e com entusiasmo.
Sinceramente lhe digo que hâ muito tempo não encontrei um livro tão precioso como o seu.
Acresce em mim a circunstância de me serem muito conhecidos os costumes do campo, que por várias vezes observei de perto e detidamente quando eu achava poesia em tudo o que a tinha.
Admirei, pois, a extrema verdade das suas descrições e lembrei- me com saudade de colegas que conheci do Reitor, do João Semana e do José das Dornas.
É impossível que V. S.* não seja filho do José das Dornas; mesmo porque dizem os jornais que o autor do romance se chama Joaquim Guilherme Gomes Coelho e é lente na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Médico também era o Daniel.
Aceite, pois, os meus sinceros parabéns e creia que conto no número das minhas mágoas a impossibilidade em que estou de dar-lhe um abraço.
Oxalá que a vida lhe corra próspera e desassombrada e que a sua robusta inteligência continue, com mais frutos como aquele, a enriquecer a nossa literatura.
São estes os mais ardentes votos de um homem que V. S." obrigou a assinar-se
Amigo e ardente admirador Faustino Xavier de Novais,
Amigo Senhor Gomes Coelho.
Rio —Março 23-1868
Satisfez-me, penhorou-me, encantou-me a sua carta de 26 de 'Fevereiro último. É o seu retrato moral. De nada mais preciso para avaliá-lo como homem, como, pelas Pupilas, o tinha avaliado como escritor.
Vejo que compreendeu bem a sinceridade das minhas palavras a carta que lhe dirigi, inspirada pelo entusiasmo que me causara o eu magnífico livro.
Não sou lisonjeiro nem pretendo mostrar-me. A um literato de grande e antiga nomeada, não haveria entusiasmo que me impelisse a escrever naquele sentido, não havendo entre nós relações de amizade.
Receava que me julgasse adulador, ou charlatão, porque a um homem notável nunca se apresenta, prestando-lhe homenagem, o obscuro e ignorante. Nesses casos eu mesmo julgo mal muitas vezes. Se não conheço de perto o que se apresenta, fico em dúvida se vai ver, ou mostrar-se. Cedi, pois, ao impulso do entusiasmo que me inspirara o livro, porque a modéstia do autor se revelava no pseudónimo.
Os seus apontamentos biográficos é que vieram tarde. Quando lhe escrevi perguntei daqui a meu irmão Miguel Novais se o conhecia e pedi-lhe informações a seu respeito. Deu-mas imediatamente recordando- me também a antiga actriz do Teatro de Camões, de que me lembro perfeitamente. As suas feições de então desenhava-as eu ainda agora, se fosse conhecedor da arte. As de hoje, porém, devem ser outras, que eu queria ver copiadas pela fotografia.
Se eu lhe merecesse essa prova de estima! Estou ansioso por ver mais trabalhos literários seus. Os correspondentes do Porto para os jornais daqui anunciaram a próxima publicação de outro seu romance, já publicado em folhetins, intitulado — Uma Família de Ingleses no Porto.—É verdade que vai aparecer? Desejo-o ardentemente.
Louvo sinceramente a resolução em que está de não adoptar a literatura como profissão, que o não pode ser em Portugal, e menos, muito menos, aqui.
Aceite um conselho que lhe oferece a amizade, auxiliada pela experiência. Conserve sempre essas ideias. Tome como extraordinário o lucro que lhe advenha da literatura e nunca o espere para ocorrer às necessidades da vida. A inspiração desaparece no momento em que a atenção do escritor começa a fixar-se no interesse que lhe dará a sua obra, calculando antecipadamente a aplicação que há-de dar ao produto.
Chegada essa ocasião, o escritor não escreve — trabalha. E esse trabalho é de todos o mais mal remunerado.
Estimei saber que convive ainda com o Augusto Luso e com o Custódio Passos, duas recordações vivas de dois amigos mortos.
Ainda bem que em ambos sobra o merecimento próprio, diante do que se modifica a saudade.
Abrace-os em meu nome, assim como ao Nogueira Lima, António Correia e mais amigos que se lembrarem de mim. Eu recordo-me de todos eles.
Se quiser escrever-me algumas vezes, creia que o prazer de ler as suas cartas me distrairá do desalento em que vivo, sem esperança em coisa alguma e, com mágoa o digo, quase sem as crenças que outrora me tornavam feliz.
Agradecendo-lhe as suas benévolas expressões termino pedindo- -lhe que no número dos seus afeiçoados conte afoitamente o seu
Amigo e admirador F. X. de Novais
Extracto de um livro manuscrito
TENHO ouvido dizer que à índole do romance repugna a lentidão no suceder das cenas e episódios; que num género de literatura, como é aquele, o leitor quer depressa chegar ao desenace e impacienta-se quando o autor entra em profusas descrições, em análises de caracteres, ou em divagações metafísicas.
Já me apontaram isto em processo de crítica feita a um dos meus livros.
Examinei com cuidado os argumentos que se apresentaram e, na melhor boa fé, pensei nisto alguns dias. Acabei por convencer-me de que não tinham razão os censores.
Se foi bem tirada a conclusão, não sei; mas que a adoptei com sincera convicção, posso afirmá-lo.
Ainda que suspeito, devo, primeiro que tudo, declarar que não sei bem por que se há-de julgar o romance uma forma literária menos grave e perfeita que as outras quando ela pode conter em si, em boa e fecunda harmonia, as qualidades de todas.
Este descrédito do romance, que seguindo, com mais ou menos fidelidade os modelos de Walter Scott, é a forma literária verdadeiramente característica dos nossos tempos, provém dos abusos dos romancistas que, possuídos por uma falsa ideia, julgaram ser a imaginação a única base do romance.
Pensaram e pensam estes que o romance é o enredo e esta ideia generalizou-se e radicou-se a tal ponto que muitos críticos, aliás ilustrados, fizeram e fazem, talvez irreflectidamente, artigos de legislação literária inspirados por ela.
Parece-me que a opinião que me suscitou estas reflexões está nesse caso. O romance é o enredo? tudo o mais são condições secundárias, elementos indispensáveis para que a acção principie, para que o nó se aperte e enfim para que o desenlace termine a obra ? Por isso se clama contra o romancista se a acção não caminha durante dois, três ou mais capítulos; por isso se diz, em ar de censura, ao autor, como se a descoberta o devesse desgostar: —já sei o fim do romance; F. casa com L... M. perdoa ao filho, etc, etc.
Porque é que está em deplorável e espantosa decadência o romance de imaginação? Porque se tem derrancado o género até às indigestas e escandalosas produções de Ponson du Terrail? Exactamente por não pretenderem prender o leitor senão pela sucessão rápida das peripécias e dos lances imprevistos.
Nem uma análise de caracteres, nem um curto olhar lançado ao íntimo do coração humano a devassar o que lá é de costume encontrar- se e não nenhuma dessas monstruosidades, que poderiam ter existido num ou noutro coração, mas por excepção, e que o leitor não tem decerto no seu.
Não caluniem o público dizendo que é só desse alimento que ele digere. Não é assim. Vós sois que o alimentais há muito nesse vicioso regímen, que, sem dar sólida nutrição, estraga o paladar, cuja sensibilidade embotada exige estímulos cada vez mais acres e irritantes.
Há uma lei do gosto literário em que eu acredito firmemente.
O excepcional, o extravagante, o desregrado não é o que desperta nos leitores ou nos espectadores o mais verdadeiro, o mais duradouro interesse; pelo contrário, é o comum, o vulgar na justa acepção do termo.
Quando encontramos em um livro pensamentos que já tivemos um dia, sentimos agradável surpresa, como ao darmos em um lugar, inesperadamente, com uma pessoa conhecida; quando no carácter, no coração de uma personagem literária há alguma coisa que é nossa, quando nos reconhecemos em parte personificados numa criação, redobra o interesse com que o acompanhamos nas peripécias do drama.
É por isso que eu gosto dos romances lentos, em que o autor nos identifica bem com as personagens entre quem se passa a acção, antes de a travar.
Depois desta iniciação, creiam-no ou experimentem-no, excita- -nos mais interesse um simplíssimo drama que se passe entre esses indivíduos, do que uma violenta e ultradramática tragédia em que tomam parte personagens que o autor apenas nos faz conhecer pelos nomes.
Querem um exemplo a corroborar a minha opinião, que não é só minha? Muita vez haveis de ter ouvido contar um caso notável, acompanhado das mais curiosíssimas circunstâncias, um grande e horroroso crime, por exemplo, acontecido entre pessoas que vos são desconhecidas.
O caso é de si bastante para vos espantar, independentemente das personagens e, efectivamente, por um momento pasmais do que ouvis. Mas a impressão embota-se, extingue-se e cedo pensais em outra coisa, porque ignorando o carácter das pessoas a quem mais directamente o caso afecta, não podeis prever a natureza das paixões (?) que elas suscitaram. Não as conheceis (?) antes para poder calcular o reflexo psicológico desse facto.
Contem-vos, porém, um acontecimento muito mais simples, um destes casos comuns na história de todas as famílias, mas que se refere a pessoas de cujo carácter, de cujo viver, de cujos hábitos estais bem ao facto e a notícia vos impressionará muito mais do que a outra e correreis de memória, uma por uma, aquelas pessoas, calculando e prevendo pelo conhecimento que tendes delas o estado em que esse acontecimento as conservará.
Isto reproduz-se no sucesso literário de um livro de romance.
As complicadas peripécias de uma história à Ponson du Terrail atordoam- vos, como a descrição de um crime horroroso cometido a distância da vossa terra; mas deixai passar oito dias sobre essa leitura e não vos ficará dela memória porque nunca chegastes a conhecer e fixar, a estimar portanto, as pessoas entre quem ele se travou.
Pelo contrário, dos simples episódios de um romance como o Vigário de Waksfield e tantos outros da escola genuinamente inglesa, fica-vos uma como memória saudosa, porque aquelas figuras que vistes em acção, que sofreram e choraram, eram já de há muito conhecidas vossas e tínheis tido tempo durante a acção lenta da história para lhes conhecer bem o carácter antes de as ver sofrer.
Mas os episódios indiferentes, que não conduzem ao enredo? Para que roubar tempo com eles? Para aumentar o efeito das cenas principais. Insensivelmente, sofreis a influêndia deles.
Ainda outro exemplo, tirado da vida real: Suponde que tendes um vizinho a quem, por involuntária e distraída observação, tendes descoberto certos hábitos. Vede-lo sair a certas horas, falar de certa maneira, parar em certas lojas, etc, etc. São factos indiferentes em que maquinalmente atentais.
Uma manhã dizem-vos que este homem teve o prémio grande da lotaria, por exemplo, ou outro facto análogo. E todos os pormenores do viver desse homem vos acodem à memória e a todos ligais valor, ao referi-los aos vossos amigos, e destas particularidades indiferentes resulta mais interesse para o episódio principal.
; É por estas e análogas reflexões que eu não posso concordar com os críticos a que me referi.
1 Assinalamos com um sina! interrogativo as palavras que não temos a certeza de haver fielmente decifrado. O autor nos seus livros manuscritos escrevia com muita rapidez e usava numerosas e curtas abreviaturas de difícil decifração.
Conseguir com meios naturais e conhecidos um resultado daqueles ; comover e excitar o interesse sem recorrer ao extravagante nem sair da órbita do verosímil; pintar com cores próprias um quadro da vida e com tão perfeita perspectiva que a ilusão seja completa, não requer isto mais imaginação, não exige mais esforço de inteligência do que a concepção desses romances desregrados em que todas as lembranças se aproveitam sem as sujeitar ao critério da lógica literária, em que o autor tem sempre um subterfúgio à mão para se desembaraçar das veredas sem salda onde a sua inteligência imprudente o conduziu ? Parece poder servir-me de um símile para confirmar a minha ideia. Nos espectáculos de prestidigitação tendes visto alguns artistas trabalharem rodeados de uma multidão de acessórios complicadíssimos? mesas com fundos falsos, caixas de todos os tamanhos, maquinismo igualmente misterioso, armas de fogo de construção particular, etc, etc? Conquanto não saibais trabalhar com esses aparelhos de magia branca, desde logo acreditais que são eles os principais elementos do espectáculo e não admirais demasiadamente a prestidigitação do artista.
Vedes, porém, outros apresentarem-se diante de vós, sem aparato, com fato simples, mãos nuas, uma mesa sem falso, etc, etc, e surpreender-vos aliás, tanto como o outro, com sortes maravilhosas.
A este aplaudis com mais entusiasmo e vontade porque aplaudis um verdadeiro artista. Admirais o resultado de estudos e esforços de longo tempo para, com tão simples meios, vos maravilhar assim.
Dizei agora se não vos moverá também o mesmo sentimento a aplaudir mais o escritor consciencioso que vos comove com os recursos naturais que lhe fornece a observação do homem, do que o pelotiqueiro literário que recorre para vos prender e maravilhar a todas as extravagâncias possíveis?
Funchal, Novembro de 1869
Muitos autores de romances e dramas julgam que os amantes em literatura escusam de ter carácter próprio. A heroína é uma rapariga que ama, o herói é um rapaz que a ama a ela. A linguagem de um e de outro é sempre mais ou menos casta e liricamente erótica.
Encontram-se, falam de amor; separam-se, falam um do outro e não têm ocasião de revelar ao leitor mais nenhuma qualidade do seu carácter, senão a de estarem apaixonados.
Resulta daqui que em vez de serem criaturas humanas, vivas, dominadas por uma paixão, que combinada com o seu carácter individual as leva a actuarem de determinada maneira, são simples personificações do amor, frias e incapazes de comover, como alegoria, como personagens abstractas daqueles poemas em que falam as virtudes e os vícios personificados.
O leitor não pode fixar uma feição característica desse par, cujos infortúnios, tribulações e felicidade ou infelicidade final, compõem a narração e, por isso, dias depois da leitura, evaporaram-se essas imagens, como a de uma prova fotográfica não fixada e confundem-se no vago em que já se haviam perdido as feições de outros muitos ternos casais, cuja sorte já anteriormente o tinha igualmente comovido.
Desenganem-se... Para que o romance ou o drama produzam profundo e duradouro interesse, é indispensável desenhar bem as feições características das personagens e dar-lhes um colorido de carnação que simule a vida. A não ser assim, a alma assiste indiferente à leitura ou à representação.
Funchal, Novembro de 1869
Nos meus romances não há indivíduos caracterizadamente maus.
Não tenho pintado crimes; quando muito, vícios. Alguém há que me tem feito o favor de me louvar essa falta como virtude, como se andasse nisso propósito literário. Verdadeiramente não há.
Não penso que o estudo moral de uma alma criminosa ou perversa não seja digno da arte. O que me custa a admitir, a não ser como excepção rara, são os tiranos sem lógica, sem motivo, que amam o mal por instinto e sem que à prática dele sejam levados por o impulso de uma paixão.
A razão por que fogem do campo da minha imaginação aqueles tipos é outra. Tanto eu me deleito em conceber um carácter com que simpatize, em o encarar por todas as suas faces para as pôr em evidência aos olhos do leitor, em vê-lo em acção e em harmonizar o diálogo com esse carácter, quanto me repugna e enfastia o demorar o pensamento em um tipo antipático, em um carácter revoltante, em uma destas criaturas em cuja contemplação a alma se enoja ou se indigna.
O artista deve vencer essa repugnância, se a arte o exigir. Eu, porém, que procuro na cultura das letras distracção e não a tomo por ofício, quero condescender com os meus prazeres, sem que deixe por isso de admirar as concepções magníficas dos romancistas que sabem pintar o mal e a perversidade, sempre que o fazem, por assim dizer, logicamente.
Funchal, Novembro de 1869
Lendo um rápido estudo biográfico de Thackeray sobre os escritores humoristas ingleses do século XVIIIe as notas que o acompanham, algumas das quais constam de cartas dos próprios escritores, lembrei-me da miséria da vida literária do nosso país, onde a preciosa correspondência dos nossos homens de letras raras vezes se salva para a posteridade.
Quem há, por exemplo, que se tenha lembrado de coligir as cartas particulares de Garrett, que por tantos motivos deviam ser um elemento poderoso para a apreciação daquele vulto literário e para a da história da literatura moderna em Portugal, de que ele foi o principal instituidor? Devíamos aprender com os estrangeiros a dar o devido valor a estas origens preciosas de informação para a crítica e para a história.
Funchal, 3 de Janeiro de 1869