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Inéditos e Esparsos

Júlio Dinis

Carta do Visconde de Castilho a Júlio Dinis acerca do seu romance Uma Família Inglesa, transcrita, por amável concessão do Sr. Visconde de Castilho Quito), das Novas Telas Literárias (vol. IIP (1).)

Ex.mo Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho.

Recebi, mas só muitos dias depois, o exemplar, com que V. Ex." me obsequiou, do seu romance Uma Família Inglesa.

Dizer a V. Ex." que nos lançámos a ele com verdadeira sofreguidão, fora uma superfluidade; acrescentar que o levámos de um fôlego, sem a mínima distracção, até à última página, e que depois dela nos estava ainda inteiro o apetite para o dobro, ou o triplo, outra superfluidade não menos escusada.

Sim senhor: a sua inglesinha não é menos para amores que a Margarida. Esta sua segunda filha há-de-lhe dar tanta glória como a primogénita; e se lha não der maior, é porque não pode ser.

Coisa muito para se citar com louvor e admiração neste seu novo livro, é (quanto a mim) que, sendo tão sóbrio o enredo, e tão pequeno o teatro da acção, o interesse dela é todavia dos mais poderosos.

0 talento real foi sempre assim, e assim é também em todos os seus poemas a Natureza: de elementos mínimos compõe, sem esforços nem violência, os máximos efeitos.

Deus o conserve (e já se vê que o há-de conservar até ao fim) no óptimo sistema que adoptou.

Outros que o elogiem (e com esses também eu faço coro) como escritor de romances já distintíssimo, não só para entre nós. Eu, por cima desse mérito, reconheço-lhe ainda o de filósofo e moralista, que algum dia tem de ser colocado entre os de primeira plana. Teófrasto e La Bruyère não debuxaram com mais exacção os caracteres. Balzac mesmo não lê mais por dentro nos indivíduos. V. Ex.a, além do esmero com que nos pinta o mundo exterior, e nos fotografa a sociedade, tem.

NOTAS

Colhidas de um livro manuscrito.

PRINCIPIEI a escrever as «Pupilas» em Ovar (1863) durante os meses de Julho e Agosto. Terminei-as no Porto em Setembro ou Outubro. Ficaram-me na gaveta até ao ano de 1866 em que solvi publicá-las. Alterei bastante o romance e ampliei-o introduzindo- lhe personagens e capítulos novos. Publicou-se em 1866 de Março a Julho. Publicou-se em volume em Outubro de 1867. O primeiro exemplar brochado em 20 de Outubro.

Os primeiros factos da minha existência literária remontam aos 11 anos. Não os recordo porque pretenda persuadir-te que efectivamente de algum valor eram já essas façanhas de criança, mas tão somente para me darem ensejo de fazer algumas reflexões sobre os motivos principais que podem actuar sobre a inspiração nascente e criar o gosto pelas letras; assim como, mais tarde, apreciar as causas que podem educá-lo em melhor caminho.

Permite-me que te recorde alguns factos da minha vida.

Sabes que aos 5 anos fiquei sem mãe, que a nossa vida de família...

...(Não continua).

P. — Um homem que doma feras como está mais sujeito a morrer ? R. — De uma dor. (Domador).

P. — Que basta a qualquer para enriquecer ? R. — Ser Henrique. (Enrique-cer).

P, — Em que dia do ano tocam melhor os sinos ? R. — No dia de defuntos porque tocam todos a finados. (Afinados).

P. — Para que serve a cal na artilharia ? R. — Para fazer peças de cal e bronze. (Calibre onze).

P. — Qual é o exemplo de um homem inevitavelmente incurável ? R. — Um abade sem cura. (Coadjutor).

Principiei a escrever «Os Fidalgos da Casa Mourisca», no Funchal, em Março de 1869. Levava-o em meio do capitulo 8.° quando voltei ao Porto em Maio do mesmo ano. Trabalhei no Porto e escrevi-o até princípios do capítulo 17, desde Junho até Outubro, época em que voltei para a Madeira. Concluí-o no Funchal em 11 de Abril de 1870.

Levei-o manuscrito para o Porto. Principiei a copiá-lo aí e levei a revisão e cópia até ao capítulo 22. Concluí este segundo trabalho no Funchal a 27 de Novembro de 1870.

AUSÊNCIAS

ACTO I

1863 — Ovar.

1864 — Felgueiras, Amarante, Leiria, Alcobaça, Batalha, Nazaré, Aveiro, Ovar.

1865 — Felgueiras, 1866 — 1867 — Aveiro, Ovar, Vila do Conde, Póvoa.

1868 — Matosinhos, Leça, Lisboa.

1869 — Lisboa, Funchal, Coimbra, Fânzeres.

1869-1870 —Lisboa, Funchal.

Quando uma nação forte e vigorosa, no gozo da sua autonomia, respirando a aura vivificadora da liberdade, é invadida pela agressão estrangeira; quando o despotismo e a servidão se aproximam, a campo descoberto, dos seus muros, estes transformam-se em baluartes, a reacção é pronta e eficaz, cada indivíduo é um soldado, cada soldado cinge-se da coroa dos heróis e o sangue, patriótica e generosamente vertido no altar da pátria, reverdece salutarmente as palmas da vitória.

Mas se o mal se aproximou obscura e lentamente, se o veneno se inoculou gota a gota nos espíritos, pervertendo-os, infeccionando-os; se rastejou como a serpente; se a falsa doutrina foi insidiosamente segredada no confessionário, pregada do púlpito, administrada em sacrílega comunhão com a hóstia consagrada; se as gerações novas a bebem na educação, dirigida por a hipocrisia, a vida da nação definha, os espíritos aviltam-se, os sentimentos nobres perdem-se, a alma adormece voluptuosamente numa inacção vergonhosa ou, se um dia um excesso de opressão a faz acordar, se pretende reagir, o esforço momentâneo não a salva, antes acaba de a deprimir.

A luta é ainda gloriosa, mas improfícua e talvez prejudicial. Disto, a Europa nos ofereceu há pouco um triste exemplo.

No mundo fisiológico há também umas e outras destas comoções, bem comparáveis às comoções políticas a que nos referimos. Às vezes o mal vem do exterior, acomete subitamente, violento sim, mas declarado, franco, sumário. Então a economia, na presença do perigo, rica de todos os seus recursos, forte de toda a sua energia, põe em jogo toda a sua actividade de que está de posse. E o combate trava-se, pronto, violento, muitas vezes eficaz. A febre é o tipo destas revoluções fisiológicas.

Mas se as causas obraram lentamente, se desde o primeiro e misterioso instante da existência, esse momento que encerra séculos, o da fecundação, se assenhoreou da organização, se perverteu o leite materno, se infeccionou as fontes de toda a substância, viciando o ar, envenenando as águas... então o organismo cede-lhe pouco a pouco, segue, sem reagir, um plano de vida mórbida, ou, quando reage, está longe de manifestar aquelas eficazes e salutares sinergias que decidem os fenómenos mórbidos como se estivessem despedaçados os laços da unidade vital. É uma reacção anormal, irregular, aquela que muitas vezes afronta (?) a subjeição do corpo. (?) Os organismos, em certas moléstias crónicas, são um exemplo destas outras comoções.

Baixou do ministério do reino aos estabelecimentos de instrução superior uma portaria mandando-os consultar sobre um plano geral de reforma e nela o ministro deixou transparecer o seu pensamento em relação aos destinos de cada um desses estabelecimentos.

Prepara-se pois uma reforma radical na instrução pública do País; desde a instrução primária, a tão descurada sempre dos nossos governos, até à instrução superior, tão longe ainda entre nós do que devia ser. A portaria é a aurora de um clarão que promete iluminar- -nos para a legislatura seguinte; faremos votos para que não seja apenas uma aurora boreal, como a que aparece aos navegadores dos mares do norte para, momentos depois, se resolver em trevas.

O convite que o ministério do reino fez às escolas e às academias, vimos nós fazê-lo aqui a toda a Imprensa, a todos os publicistas, a todos os pensadores do reino e principalmente aos das províncias do norte, que mais que nenhuns têm razões para se ocuparem desta tentativa de reforma.

O nosso país é pequeno em área; mas ainda assim parece que já não é um só o dialecto que se fala em todas as regiões dele. Palavras há que, segundo as latitudes em que se pronunciam, assim tomam diversas acepções.

A palavra reforma está neste caso.

Quando pelas secretarias do Terreiro do Paço, pelos gabinetes dos ministros, pelas salas e corredores das duas câmaras e pelas praças e teatros principia a vogar esta palavra — reforma — os ouvidos da capita! escutam-na com prazer; mas, se os ventos a transmitem às províncias, se os ecos da Imprensa a repercutem, é raro que não estremeçam de apreensões os espíritos menos timoratos.

De onde provém esta diferença? É que ha muito as reformas manifestam-se em Lisboa por amplia ção nos quadros dos funcionários, aumento da despesa pública, elevação das cifras de vencimentos, criação de sinecuras, com que a proverbial indolência dos nossos compatriotas do sul se pressente lisonjeada.

Para nós, porém, os que vivemos longe do sol, aquele belo e fomentador sol da capital, diversa e quase antinómica acepção tem a palavra, quando a procuramos no dicionário, que por experiência sabemos ser o mais fiel.

Em tudo é assim. Como a antiga Roma, que fora da sua cidade não via senão países bárbaros, Lisboa para lá dos seus muros, esquece que existe o País e procura só por si absorver tudo.

We view the world with our own eyes, each of us; and we make from wifhin us the world we see. A weary heart gets no gladness out of sunshine; a selfish man is sceptical about friendship, as a man with no ear doesn't care for music.

Thackeray — The english humourísts of the eighteen century (pág. 39 Swift).

Les éléments de la conjecture au sujet de telle ou telle action sont, d'une part, ce que l'on croit savoir du caractere de celui qui l'a fait; de 1'autre, le caractere de celui qui la juge. Les bons supposent volontiers de bons motifs; les méchants ou les sots en supposent de méchants ou de sots. De même qu'on ne trouve dans un livre qu'autant d'esprit que l'on en a, on ne peut aussi sentir que dans la mesure de son propre mérite ou de sa propre délicatesse, le mérite et la délicatesse d'autrui. Attendez-vous donc à ce que les gents sans esprit et sans cceur, c'est-à-dire un três grand nombre de gens, supposent à vos actions les motifs mesqums qui réglent les leurs.

Émile Deschanel — Étude sur le Rochefoucauld.

Causou-me vivo prazer a leitura dos dois trechos que transcrevi, por me ter encontrado no pensamento com os seus ilustres autores, quando escrevi na Morgadinha: «É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem no desinteresse dos outros!

«Não há explicação mais difícil de ser recebida do que a que se fundamenta em um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade, «É preciso que duvidemos muito de nós mesmos para assim desconfiarmos do próximo. Porque afinal o que é verdade, é que a mais exacta e infalível ciência do coração humano só se adquire pelo estudo do próprio coração; esse é o único que nos está bem patente. É por isso que as melhores almas são de ordinário as mais crentes.

«Um homem a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas as aparências de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado o coração como supõe o dos outros.»

Li ainda no estudo de Deschanel:

Chamfort conte quelque part ceci: «Mr. Th. me disait un jour qu'en general dans la société, lorsqu'on avait fait quelque action honnête et courageuse par un motif digne d'elle, c'est-à-dire três noble, il fallait que celui qui avait fait cette action lui prétat, pour adoucir l'envie, quelque motif moins honnête et plus vulgaíre.

Este pensamento devido a um autor desconhecido, igualmente me causou satisfação por haver também posto na boca de Jenny na Família Inglesa: «O mundo é assim. Dá-se-lhe a verdadeira explicação dos factos, raras vezes a acredita. Forja-se outra, às vezes menos natural e plausível, quase sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira é generosa e nobre e a falsa interesseira e mesquinha.» E na de Mr. Richard: «E julgas tu que a gratidão é facto mais natural para o mundo do que a iniciativa no benefício? Se subtraíres da explicação o elemento interesse, o facto será incompreensível.»

Quand un discours naturel peint une passion ou un effet, on trouve dans soi même la vérité de ce qu'on entend, qu'y était sans qu'on le sut, et on se sent porte à aimer celui qui nous le fait sentir. Car il ne nous fait pas montre de son bien, mais du notre et ainsi ce bienfait nous le rend aimable; outre que cette communauté d'intélligence que nous avons avec lui, incline nécessairement le coeur à 1'aimer.

Pascal — Pensées VII du 1 article — Edit. Bibl. Nation., pág. 33.

Quand on voit le style naturel on est tout étonné et ravi; car on s'attendait de voir un auteur et on trouve un homme; au lieu que ceux qui ont le goút bon et qui en voyant un livre croient voir un homme, sont surpris de trouver un auteur plus poetico quam humane locuttes est.

Idem VIII, pág. 33.

II y en a qui masquent toute la nature. II n'y a point de roi parmi eux, mais un auguste monarque; point de Paris, mais une capitale de royaume. II y a des endroits ou il faut appeler Paris, Paris, et d'autres ou il faut l'appeler capitale du royaume.

Idem IX, pág. 34.

Transcrevi estes pensamentos de Pascal por me parecerem mais segura guia literária do que os conselhos que me deram alguns críticos em público e em particular, de ataviar mais o meu estilo nos romances que escrevo porque o achavam demasiado desornado. Em contraposição tinha a maioria dos leitores a convencer-me de que o êxito de alguns dos meus livros era principalmente devido a essa pobreza de ornatos e arabescos, que me apontavam os censores. Muita vez ouvi dizerem-me que liam com prazer os romances que eu escrevia porque os entendiam do princípio até ao fim. Pareceu-me entrever nos pensamentos de Pascal mais a confirmação do pensar do vulgo do que o dos críticos.

Funchal, 27 de Outubro.

We are so fond of him because we laugh at him so.

Thackeray — Engl. humourist 100.

Acho um pensamento profundamente verdadeiro nesta frase Thackeray.

* Acabo de ler pela primeira vez na Histoire de Sibylle de Octávio Feuillet o seguinte: «En été, quand 1'aube s'est levée radieuse dans un azur ímmaculé, les prernières heures du jour ont une pureté et un calme que l'on croirait éternels. Cependant des brises folies se levent tout-à-coup, inclinent les herbes et agitent le feuiilage, des roseaux blanchâtres s'entrecroisent dans le ciei d'un horizon à 1'autre, comme des voiles tendus soudain par de mains invisibles. On s'inquiete et l'on se dit qui pourrait bien venir de l'orage dans la journée.» Ora em 1866 havia eu escrito na Família Inglesa, a págs. 268: «No Estio dos nossos climas amanhece às vezes o dia puro e formosíssimo; o céu é azul, resplendentes os raios do Sol; tépida e perfumada a viração que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco parece que o Sol desmaia, que desbota o azul do céu, que nos abafa a atmosfera inflamada; acumulam-se no horizonte e espalham-se depois por todo o firmamento nuvens de um azulado de chumbo; forma-se a trovoada.» O símile è aplicado por Octávio Feuillet a indicar-nos a revolução que se operou na infância de Sibylle, depois dos seis anos.

No meu romance escrevi eu: «Esta manhã de Cecília foi bem semelhante a um destes dias de Verão.» Com estas e outras descobertas aprende-se, à custa própria, a não ser precipitado em atribuir propósitos de plagiário a quem inocentemente muitas vezes o foi. Ninguém se deve persuadir de que, depois de tantos séculos de literatura, ainda qualquer possa ter pensamentos ou conceber imagens absolutamente novos. Esta, de mais a mais, que é já chamada por Octávio Feuillet une vieille image.

Funchal, Dezembro de 1869.

S'il y avait un lieu dans l'univers ou un homme put n'avoir sous les yeux que 1'aspect des grandes scènes de la nature et 1'espectacle d'honnêtes gens, il serait difficile que son âme, si bouleversée qu'on la suppose, n'y recouvrat pas un peu de paix et de confiance.

Oct. Feuillet — Hist. de Sibylle, pág. 339.

O romancista convencido desta verdade, deve empregar o poder criador da sua imaginação em realizar esse lugar bem-aventurado, onde se possa passar mentalmente algum tempo da vida e colher parte dos benéficos frutos que tão ridente realidade prometeria. O autor das linhas citadas assim o faz e eu conheço, por experiência, o efeito salutar dos seus livros.

Pourvu que tout vienne se reunir dans un même noeud facile à saisir, la simplicité d'une action dépend beaucoup moins du nombre des intérêts et des personnages qu'y concourent que du jeu naturel et clair des ressorts qui la font mouvoir. Mais, de plus, il ne faut jamais oublier que 1'unité par Shakespeare consiste dans une idée dominante qui, se reproduisant sous diverses formes, ramène, continue, redouble sans cesse la même impression.

Guizot — Notice sur le Roi Lear

Parece-me verdadeira esta observação do erudito tradutor de Shakespeare. E se ela se pode admitir em relação ao drama, onde a acção tem necessidade de se restringir, com muita mais razão vigora no romance cujo plano é naturalmente mais vasto e permite mais explanação.

É por isso que não posso concordar com os que taxam de falta de unidade o meu romance A Morgadinha. Todas as personagens e episódios nele introduzidos estão ligados por interesses comuns e subordinados a uma ideia principal. Essa é a unidade que eu procuro sempre realizar.

Funchal—Janeiro de 1870

No difuso e confuso livro de critica de Luciano Cordeiro, lê-se a pág. 240: «O chamado romance de costumes, geralmente variante bucólica daquela (a feição social), desfastio da literatura burguesa, sem alcance crítico»... É uma das muitas leviandades e fraquezas de critério do que a si mesmo se apresenta como o reformador da crítica.

Os romances de costumes, bem compreendidos, pintando a maneira de viver e o pensar comum dos povos, sobre serem de irresistível interesse para a actualidade e os que mais prontamente adquirem os tão disputados foros de popularidade, são mina preciosa para o estudo da época fornecida aos vindouros. Se as idades passadas da nossa literatura cultivassem o género, importante subsídio colheriam nele os historiadores, que tanto se queixam da aridez das crónicas e dos escritos literários desses tempos.

Estou convencido de que é mais provável que a posteridade leia com mais interesse o romance de costumes, que não chega ao alcance da critica do Sr. Luciano Cordeiro, do que, com seriedade, os ditames, que uma pretensiosa e pedantesca coorte de rapazelhos, lhe está ditando, cá do nosso século, como se gozassem do privilégio de videntes.

Funchal — Março de 1870

Das cartas mencionadas nesta relação existiam na posse da família de Júlio Dinis apenas as duas que em seguida se publicam, do poeta portuense Faustino Xavier de Novais.

II.m° Sr.

Rio de Janeiro, 23 de Dezembro de 1867.

Não sei se lhe será completamente estranho o nome que assina carta. Nessa hipótese vão algumas palavras necessárias como exórdio ao assunto que me move a escrever-lhe.

Sou natural do Porto, lá passei a infância e a parte melhor da mocidade. Filho de um pobre e honrado artista tive por brasões os calos que me deixara nas mãos o uso da ferramenta empregada no trabalho de ourivesaria, de que vivi muitos anos. Estudei as primeiras letras apenas. Apareceu-me tarde a paixão pela literatura e se hoje não sou inteiramente ignorante, devo o pouquíssimo que sei à perseverança com que me dediquei, em horas vagas, à leitura de bons livros e à convivência que tive com literatos, e especialmente com Camilo Castelo Branco, a quem posso chamar mestre, como lhe chamo amigo. Publiquei dois volumes de versos satíricos e rabisquei por aí muito papel em jornais.

Loucuras do coração me impeliram a deixar a pátria em 1858, dirigindo-me para aqui, onde me tenho conservado sempre e onde me esperam sete palmos de terra que o mundo não poderá negar-me.

A minha saída foi traduzida aí como ambição, ou antes cobiça.

Eu deixei ao mundo a liberdade da tradução, escondendo as minhas mágoas onde não pudesse perturbá-las o sarcasmo dos moralistas de máscara.

Tenho sido sempre infeliz, estou pobríssimo e altamente convencido que assim morrerei.

Cansado de dissabores, vivo retirado do mundo, que só frequento no exercício de um emprego que me dá a subsistência. Abandonei a literatura, sem prejuízo para mim nem para ela e perdi de todo a vontade de escrever. Ao terminar esta página, perguntaria V, S.\ se tivesse a quem, com que fim o estou eu maçando com esta narração biográfica. Eu lhe digo. Quis mostrar-lhe que sei ler, que tenho coração e que sou fanático por Camilo Castelo Branco, para lhe dar depois os mais sinceros parabéns pelo resultado do seu trabalho literário As Pupilas do Senhor Reitor.

Ainda não vi aqui anunciado o livro à venda mas foi-me confiado um exemplar, de cinco que vieram para o Gabinete de Leitura, e li-o com prazer e com entusiasmo.

Sinceramente lhe digo que hâ muito tempo não encontrei um livro tão precioso como o seu.

Acresce em mim a circunstância de me serem muito conhecidos os costumes do campo, que por várias vezes observei de perto e detidamente quando eu achava poesia em tudo o que a tinha.

Admirei, pois, a extrema verdade das suas descrições e lembrei- me com saudade de colegas que conheci do Reitor, do João Semana e do José das Dornas.

É impossível que V. S.* não seja filho do José das Dornas; mesmo porque dizem os jornais que o autor do romance se chama Joaquim Guilherme Gomes Coelho e é lente na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Médico também era o Daniel.

Aceite, pois, os meus sinceros parabéns e creia que conto no número das minhas mágoas a impossibilidade em que estou de dar-lhe um abraço.

Oxalá que a vida lhe corra próspera e desassombrada e que a sua robusta inteligência continue, com mais frutos como aquele, a enriquecer a nossa literatura.

São estes os mais ardentes votos de um homem que V. S." obrigou a assinar-se

Amigo e ardente admirador Faustino Xavier de Novais,

Amigo Senhor Gomes Coelho.

Rio —Março 23-1868

Satisfez-me, penhorou-me, encantou-me a sua carta de 26 de 'Fevereiro último. É o seu retrato moral. De nada mais preciso para avaliá-lo como homem, como, pelas Pupilas, o tinha avaliado como escritor.

Vejo que compreendeu bem a sinceridade das minhas palavras a carta que lhe dirigi, inspirada pelo entusiasmo que me causara o eu magnífico livro.

Não sou lisonjeiro nem pretendo mostrar-me. A um literato de grande e antiga nomeada, não haveria entusiasmo que me impelisse a escrever naquele sentido, não havendo entre nós relações de amizade.

Receava que me julgasse adulador, ou charlatão, porque a um homem notável nunca se apresenta, prestando-lhe homenagem, o obscuro e ignorante. Nesses casos eu mesmo julgo mal muitas vezes. Se não conheço de perto o que se apresenta, fico em dúvida se vai ver, ou mostrar-se. Cedi, pois, ao impulso do entusiasmo que me inspirara o livro, porque a modéstia do autor se revelava no pseudónimo.

Os seus apontamentos biográficos é que vieram tarde. Quando lhe escrevi perguntei daqui a meu irmão Miguel Novais se o conhecia e pedi-lhe informações a seu respeito. Deu-mas imediatamente recordando- me também a antiga actriz do Teatro de Camões, de que me lembro perfeitamente. As suas feições de então desenhava-as eu ainda agora, se fosse conhecedor da arte. As de hoje, porém, devem ser outras, que eu queria ver copiadas pela fotografia.

Se eu lhe merecesse essa prova de estima! Estou ansioso por ver mais trabalhos literários seus. Os correspondentes do Porto para os jornais daqui anunciaram a próxima publicação de outro seu romance, já publicado em folhetins, intitulado — Uma Família de Ingleses no Porto.—É verdade que vai aparecer? Desejo-o ardentemente.

Louvo sinceramente a resolução em que está de não adoptar a literatura como profissão, que o não pode ser em Portugal, e menos, muito menos, aqui.

Aceite um conselho que lhe oferece a amizade, auxiliada pela experiência. Conserve sempre essas ideias. Tome como extraordinário o lucro que lhe advenha da literatura e nunca o espere para ocorrer às necessidades da vida. A inspiração desaparece no momento em que a atenção do escritor começa a fixar-se no interesse que lhe dará a sua obra, calculando antecipadamente a aplicação que há-de dar ao produto.

Chegada essa ocasião, o escritor não escreve — trabalha. E esse trabalho é de todos o mais mal remunerado.

Estimei saber que convive ainda com o Augusto Luso e com o Custódio Passos, duas recordações vivas de dois amigos mortos.

Ainda bem que em ambos sobra o merecimento próprio, diante do que se modifica a saudade.

Abrace-os em meu nome, assim como ao Nogueira Lima, António Correia e mais amigos que se lembrarem de mim. Eu recordo-me de todos eles.

Se quiser escrever-me algumas vezes, creia que o prazer de ler as suas cartas me distrairá do desalento em que vivo, sem esperança em coisa alguma e, com mágoa o digo, quase sem as crenças que outrora me tornavam feliz.

Agradecendo-lhe as suas benévolas expressões termino pedindo- -lhe que no número dos seus afeiçoados conte afoitamente o seu

Amigo e admirador F. X. de Novais

IDEIAS QUE ME OCORREM

Extracto de um livro manuscrito

TENHO ouvido dizer que à índole do romance repugna a lentidão no suceder das cenas e episódios; que num género de literatura, como é aquele, o leitor quer depressa chegar ao desenace e impacienta-se quando o autor entra em profusas descrições, em análises de caracteres, ou em divagações metafísicas.

Já me apontaram isto em processo de crítica feita a um dos meus livros.

Examinei com cuidado os argumentos que se apresentaram e, na melhor boa fé, pensei nisto alguns dias. Acabei por convencer-me de que não tinham razão os censores.

Se foi bem tirada a conclusão, não sei; mas que a adoptei com sincera convicção, posso afirmá-lo.

Ainda que suspeito, devo, primeiro que tudo, declarar que não sei bem por que se há-de julgar o romance uma forma literária menos grave e perfeita que as outras quando ela pode conter em si, em boa e fecunda harmonia, as qualidades de todas.

Este descrédito do romance, que seguindo, com mais ou menos fidelidade os modelos de Walter Scott, é a forma literária verdadeiramente característica dos nossos tempos, provém dos abusos dos romancistas que, possuídos por uma falsa ideia, julgaram ser a imaginação a única base do romance.

Pensaram e pensam estes que o romance é o enredo e esta ideia generalizou-se e radicou-se a tal ponto que muitos críticos, aliás ilustrados, fizeram e fazem, talvez irreflectidamente, artigos de legislação literária inspirados por ela.

Parece-me que a opinião que me suscitou estas reflexões está nesse caso. O romance é o enredo? tudo o mais são condições secundárias, elementos indispensáveis para que a acção principie, para que o nó se aperte e enfim para que o desenlace termine a obra ? Por isso se clama contra o romancista se a acção não caminha durante dois, três ou mais capítulos; por isso se diz, em ar de censura, ao autor, como se a descoberta o devesse desgostar: —já sei o fim do romance; F. casa com L... M. perdoa ao filho, etc, etc.

Porque é que está em deplorável e espantosa decadência o romance de imaginação? Porque se tem derrancado o género até às indigestas e escandalosas produções de Ponson du Terrail? Exactamente por não pretenderem prender o leitor senão pela sucessão rápida das peripécias e dos lances imprevistos.

Nem uma análise de caracteres, nem um curto olhar lançado ao íntimo do coração humano a devassar o que lá é de costume encontrar- se e não nenhuma dessas monstruosidades, que poderiam ter existido num ou noutro coração, mas por excepção, e que o leitor não tem decerto no seu.

Não caluniem o público dizendo que é só desse alimento que ele digere. Não é assim. Vós sois que o alimentais há muito nesse vicioso regímen, que, sem dar sólida nutrição, estraga o paladar, cuja sensibilidade embotada exige estímulos cada vez mais acres e irritantes.

Há uma lei do gosto literário em que eu acredito firmemente.

O excepcional, o extravagante, o desregrado não é o que desperta nos leitores ou nos espectadores o mais verdadeiro, o mais duradouro interesse; pelo contrário, é o comum, o vulgar na justa acepção do termo.

Quando encontramos em um livro pensamentos que já tivemos um dia, sentimos agradável surpresa, como ao darmos em um lugar, inesperadamente, com uma pessoa conhecida; quando no carácter, no coração de uma personagem literária há alguma coisa que é nossa, quando nos reconhecemos em parte personificados numa criação, redobra o interesse com que o acompanhamos nas peripécias do drama.

É por isso que eu gosto dos romances lentos, em que o autor nos identifica bem com as personagens entre quem se passa a acção, antes de a travar.

Depois desta iniciação, creiam-no ou experimentem-no, excita- -nos mais interesse um simplíssimo drama que se passe entre esses indivíduos, do que uma violenta e ultradramática tragédia em que tomam parte personagens que o autor apenas nos faz conhecer pelos nomes.

Querem um exemplo a corroborar a minha opinião, que não é só minha? Muita vez haveis de ter ouvido contar um caso notável, acompanhado das mais curiosíssimas circunstâncias, um grande e horroroso crime, por exemplo, acontecido entre pessoas que vos são desconhecidas.

O caso é de si bastante para vos espantar, independentemente das personagens e, efectivamente, por um momento pasmais do que ouvis. Mas a impressão embota-se, extingue-se e cedo pensais em outra coisa, porque ignorando o carácter das pessoas a quem mais directamente o caso afecta, não podeis prever a natureza das paixões (?) que elas suscitaram. Não as conheceis (?) antes para poder calcular o reflexo psicológico desse facto.

Contem-vos, porém, um acontecimento muito mais simples, um destes casos comuns na história de todas as famílias, mas que se refere a pessoas de cujo carácter, de cujo viver, de cujos hábitos estais bem ao facto e a notícia vos impressionará muito mais do que a outra e correreis de memória, uma por uma, aquelas pessoas, calculando e prevendo pelo conhecimento que tendes delas o estado em que esse acontecimento as conservará.

Isto reproduz-se no sucesso literário de um livro de romance.

As complicadas peripécias de uma história à Ponson du Terrail atordoam- vos, como a descrição de um crime horroroso cometido a distância da vossa terra; mas deixai passar oito dias sobre essa leitura e não vos ficará dela memória porque nunca chegastes a conhecer e fixar, a estimar portanto, as pessoas entre quem ele se travou.

Pelo contrário, dos simples episódios de um romance como o Vigário de Waksfield e tantos outros da escola genuinamente inglesa, fica-vos uma como memória saudosa, porque aquelas figuras que vistes em acção, que sofreram e choraram, eram já de há muito conhecidas vossas e tínheis tido tempo durante a acção lenta da história para lhes conhecer bem o carácter antes de as ver sofrer.

Mas os episódios indiferentes, que não conduzem ao enredo? Para que roubar tempo com eles? Para aumentar o efeito das cenas principais. Insensivelmente, sofreis a influêndia deles.

Ainda outro exemplo, tirado da vida real: Suponde que tendes um vizinho a quem, por involuntária e distraída observação, tendes descoberto certos hábitos. Vede-lo sair a certas horas, falar de certa maneira, parar em certas lojas, etc, etc. São factos indiferentes em que maquinalmente atentais.

Uma manhã dizem-vos que este homem teve o prémio grande da lotaria, por exemplo, ou outro facto análogo. E todos os pormenores do viver desse homem vos acodem à memória e a todos ligais valor, ao referi-los aos vossos amigos, e destas particularidades indiferentes resulta mais interesse para o episódio principal.

; É por estas e análogas reflexões que eu não posso concordar com os críticos a que me referi.

1 Assinalamos com um sina! interrogativo as palavras que não temos a certeza de haver fielmente decifrado. O autor nos seus livros manuscritos escrevia com muita rapidez e usava numerosas e curtas abreviaturas de difícil decifração.

Conseguir com meios naturais e conhecidos um resultado daqueles ; comover e excitar o interesse sem recorrer ao extravagante nem sair da órbita do verosímil; pintar com cores próprias um quadro da vida e com tão perfeita perspectiva que a ilusão seja completa, não requer isto mais imaginação, não exige mais esforço de inteligência do que a concepção desses romances desregrados em que todas as lembranças se aproveitam sem as sujeitar ao critério da lógica literária, em que o autor tem sempre um subterfúgio à mão para se desembaraçar das veredas sem salda onde a sua inteligência imprudente o conduziu ? Parece poder servir-me de um símile para confirmar a minha ideia. Nos espectáculos de prestidigitação tendes visto alguns artistas trabalharem rodeados de uma multidão de acessórios complicadíssimos? mesas com fundos falsos, caixas de todos os tamanhos, maquinismo igualmente misterioso, armas de fogo de construção particular, etc, etc? Conquanto não saibais trabalhar com esses aparelhos de magia branca, desde logo acreditais que são eles os principais elementos do espectáculo e não admirais demasiadamente a prestidigitação do artista.

Vedes, porém, outros apresentarem-se diante de vós, sem aparato, com fato simples, mãos nuas, uma mesa sem falso, etc, etc, e surpreender-vos aliás, tanto como o outro, com sortes maravilhosas.

A este aplaudis com mais entusiasmo e vontade porque aplaudis um verdadeiro artista. Admirais o resultado de estudos e esforços de longo tempo para, com tão simples meios, vos maravilhar assim.

Dizei agora se não vos moverá também o mesmo sentimento a aplaudir mais o escritor consciencioso que vos comove com os recursos naturais que lhe fornece a observação do homem, do que o pelotiqueiro literário que recorre para vos prender e maravilhar a todas as extravagâncias possíveis?

Funchal, Novembro de 1869

Muitos autores de romances e dramas julgam que os amantes em literatura escusam de ter carácter próprio. A heroína é uma rapariga que ama, o herói é um rapaz que a ama a ela. A linguagem de um e de outro é sempre mais ou menos casta e liricamente erótica.

Encontram-se, falam de amor; separam-se, falam um do outro e não têm ocasião de revelar ao leitor mais nenhuma qualidade do seu carácter, senão a de estarem apaixonados.

Resulta daqui que em vez de serem criaturas humanas, vivas, dominadas por uma paixão, que combinada com o seu carácter individual as leva a actuarem de determinada maneira, são simples personificações do amor, frias e incapazes de comover, como alegoria, como personagens abstractas daqueles poemas em que falam as virtudes e os vícios personificados.

O leitor não pode fixar uma feição característica desse par, cujos infortúnios, tribulações e felicidade ou infelicidade final, compõem a narração e, por isso, dias depois da leitura, evaporaram-se essas imagens, como a de uma prova fotográfica não fixada e confundem-se no vago em que já se haviam perdido as feições de outros muitos ternos casais, cuja sorte já anteriormente o tinha igualmente comovido.

Desenganem-se... Para que o romance ou o drama produzam profundo e duradouro interesse, é indispensável desenhar bem as feições características das personagens e dar-lhes um colorido de carnação que simule a vida. A não ser assim, a alma assiste indiferente à leitura ou à representação.

Funchal, Novembro de 1869

Nos meus romances não há indivíduos caracterizadamente maus.

Não tenho pintado crimes; quando muito, vícios. Alguém há que me tem feito o favor de me louvar essa falta como virtude, como se andasse nisso propósito literário. Verdadeiramente não há.

Não penso que o estudo moral de uma alma criminosa ou perversa não seja digno da arte. O que me custa a admitir, a não ser como excepção rara, são os tiranos sem lógica, sem motivo, que amam o mal por instinto e sem que à prática dele sejam levados por o impulso de uma paixão.

A razão por que fogem do campo da minha imaginação aqueles tipos é outra. Tanto eu me deleito em conceber um carácter com que simpatize, em o encarar por todas as suas faces para as pôr em evidência aos olhos do leitor, em vê-lo em acção e em harmonizar o diálogo com esse carácter, quanto me repugna e enfastia o demorar o pensamento em um tipo antipático, em um carácter revoltante, em uma destas criaturas em cuja contemplação a alma se enoja ou se indigna.

O artista deve vencer essa repugnância, se a arte o exigir. Eu, porém, que procuro na cultura das letras distracção e não a tomo por ofício, quero condescender com os meus prazeres, sem que deixe por isso de admirar as concepções magníficas dos romancistas que sabem pintar o mal e a perversidade, sempre que o fazem, por assim dizer, logicamente.

Funchal, Novembro de 1869

Lendo um rápido estudo biográfico de Thackeray sobre os escritores humoristas ingleses do século XVIIIe as notas que o acompanham, algumas das quais constam de cartas dos próprios escritores, lembrei-me da miséria da vida literária do nosso país, onde a preciosa correspondência dos nossos homens de letras raras vezes se salva para a posteridade.

Quem há, por exemplo, que se tenha lembrado de coligir as cartas particulares de Garrett, que por tantos motivos deviam ser um elemento poderoso para a apreciação daquele vulto literário e para a da história da literatura moderna em Portugal, de que ele foi o principal instituidor? Devíamos aprender com os estrangeiros a dar o devido valor a estas origens preciosas de informação para a crítica e para a história.

Funchal, 3 de Janeiro de 1869

Acabo de ler o romance de Octávio Feuillet Histoire de Sibylle, A morte da heroína no desenlace não me parece muito justificada pelas regras naturais da arte. O problema principal do romance estava resolvido da maneira que o autor julgou plausível resolvê-lo. O cepticismo religioso de Raul era o obstáculo único para a felicidade dos dois amantes. Esperava-se que a influência poderosa de Sibylle, já provada com o doido Feray, com o reitor Renaud, com os duques de Vargnes e com a duquesa Clotilde, se exercesse também sobre Raul, cujo ânimo mais do que os outros, devia sujeitar-se à catecjuese daquela mulher que ele idolatrava. Restava saber as circunstâncias que deviam cooperar para a conversão, que conspiração de influências poderia incutir naturalmente a fé em uma alma generosa, leal, incapaz de hipocrisia e de simular, por interesse, uma unção religiosa que não sentisse. Que bálsamo havia de curar aquele cancro da dúvida num coração que lamentava sinceramente a perda das passadas crenças? Conseguiu-se tudo isso. Após uma crise violenta em que a descrença do homem da sociedade parecia mais radicada, o simples espectáculo da mulher que ele amava, desfalecida pela comoção, numa pobre choupana, à borda do mar, ao calor de uma fogueira, bastou para fazer penetrar a luz da fé naquele coração assombrado pela dúvida e para prostrar de joelhos em oração sentida, esse homem que não cria em Deus. Bem ou mal, o problema estava pois resolvido.

Inesperadamente, porém, surge mais uma entidade no romance; aparece uma febre perniciosa que em duas páginas sacrifica a heroína e dissipa as esperanças de felicidade que finalmente parecia sorrirem aos simpáticos amantes.

Revolta-me a brutalidade desta febre paludosa.

Que papel literário representa ela aqui? Por acaso a morte de Sibylle era necessária para a conversão de Raul? Não; e tanto que, só depois de se haver bem verificado essa conversão, é que Sibylle pediu ao reitor que lhe abençoasse a união, e que o reitor se resolveu a fazê-lo.

Completaria ela o carácter da heroína, como uma consequência necessária da sua exaltação mórbida, da sua esquisita sensibilidade? Mas trata-se de uma infecção palustre, da prosaica realidade de uma perniciosa, que nada tem que ver com os caracteres dos doentes.

Consolidar-se-iam mais firmemente as crenças do convertido com a morte daquela, cuja influência lhe abrira o coração ao raiar da fé? É duvidosa a hipótese e no mesmo romance há um exemplo de que nem sempre os golpes da adversidade fortalecem o ânimo para a fé; antes às vezes fazem descrer da justiça divina e da existência de um Deus que premeia os bons. Este exemplo é o do doido Feray. As crenças, ainda tíbias de Raul, não se fortaleceriam mais na vida de paz e ventura, que o futuro lhe prometia, do que com aquele doloroso transe, com aquele inesperado fugir da felicidade, no momento em que julgava possuí-la? Não é o mero desgosto de ver acabar mal o romance o que me leva a estas reflexões. Eu concebo os fins trágicos, que concorrem para o desenvolvimento da ideia primordial da obra literária, quando são a consequência lógica das situações dramáticas imaginadas ou o complemento do desenho de um carácter. Comove-me o lutuoso fim dos amores de Lucy Ashton, de Paulo e Virgínia, de Eurico e Hermengarda e de Madalena de Vilhena.

Suprimi o fim trágico destas e análogas concepções literárias e alterar-lhes-eis completamente a índole e falsear-lhes-eis a significação artística.

Na história de Sibylle, porém, não se dá o mesmo caso.

A febre perniciosa é um acidente brutal que nada significa, que não em razão de ser, debaixo do ponto de vista da arte, que aflige sem comover. É uma simples impertinência do autor.

Na vida real há disso; mas estes tristes acidentes da vida, quando entram no campo literário, precisam representar aí algum papel; de outra forma não são mais do que uma desagradável e cruel inutilidade.

Funchal, 4 de Dezembro de 1869

A ausência prolongada, digam o que quiserem, é prejudicial as mais estreitas amizades. A conveniência habitual, pelo contrário fomenta-as.

Separaram-se dois amigos íntimos. Ao principio escrevem-se todos os dias e enchem folhas e folhas de papel com mútuas expansões; pouco a pouco, as cartas resumem-se e rareiam, e mais tarde deixam de escrever quando não têm necessidade que a isso os impila. Nenhum quererá admitir que a amizade sofreu a menor quebra da sua parte, «Que excelente rapaz aquele, dirá um do outro; palavra de honra que é dos poucos amigos que tenho... Esta minha preguiça em escrever.

Há tanto tempo que lhe não dou notícias minhas nem dele as tenho».

Ora, na minha opinião, muito enfraquecida está já a amizade que nem tem força para dissipar a preguiça de escrever. É da experiência de todos o prazer que se encontra em escrever a qualquer pessoa, quando deveras a trazemos no coração.

Funchal, Janeiro 1870

Quando escrevo, é para mim estimulo o completo segredo. Se por acaso durante o trabalho sou traído por alguma indiscrição, sinto-mo esfriar e durante dias repugna-me o assunto, que até então me atraia.

Não compreendo como, pelo contrário, muitos autores gostam de fazer constar que vão encetar uma obra e estimam até que o público seja informado, passo a passo, do progresso do seu trabalho.

Todos os dias leio nas gazetas de notícias uma ou outra dessas revelações literárias, atrás das quais andam os noticiaristas. «Consta- -nos que o Sr. F. vai escrever um drama que tem por título «As misérias dos ricos». O Sr. C. concluiu já o primeiro acto de um drama, que nos dizem ser magnifico. O Sr. B. leu ontem a alguns amigos as primeiras cenas do seu drama e viu coroada pelos aplausos deles a sua magnífica concepção», etc, etc.

Estas e análogas participações, que parece alentarem muitos, a mim dissipariam aquele misterioso prestigio que tem o trabalho discreto.

Já experimentei este efeito de indiscrição alheia. Escrevia «A Morgadinha dos Canaviais» e entregava-me com ardor ao trabalho. Um dia o correspondente portuense do «Jornal do Comércio», de Lisboa, noticiou ao público que eu andava escrevendo um novo romance assim intitulado.

Causou-me uma desagradável surpresa a revelação e por muitos dias não me apeteceu trabalhar.

A razão principal deste efeito em mim, está em me serem insuportáveis todas as espécies de peias neste género de trabalho.

Quero absoluta liberdade para alterar, modificar, inverter e até abandonar um assunto desde que me desagrada. E esta liberdade é sempre tanto mais restrita, quanto mais informado está o público da natureza e do progresso da obra.

A cada momento inquirirão sobre o provável termo do livro em que se trabalha. Se, condescendendo com uma dessas passageiras indisposições para escrever, que atacam mais ou menos todos os homens de letras, se interromper a obra, terá de sofrer-se a impertinência dos que não compreendem que a composição literária não é tarefa de empreitada para a qual não se precise consultar a aptidão.

Se é conhecido um capítulo do romance, antes de completo este, á quase é vedado ao autor alterá-lo, ainda quando assim o exija um melhor plano que lhe ocorra ou mais perfeita harmonia do todo alterada em ulteriores capítulos.

Enquanto o manuscrito é só conhecido do autor, este decide desaontado os incidentes que durante a composição sobrevêm, guia-se pela ideia literária que concebeu, e mutila, suprime ou acrescenta conforme convém ao completo desenvolvimento dessa ideia.

Se mais alguém foi admitido à confidência do segredo literário, vem uma consideração a mais perturbar a livre acção tão necessária ao autor: «Assim ficava melhor, pensa ele muita vez, mas F. gostou tanto deste capítulo que havia de estranhar que eu o modificasse ou suprimisse». E o capítulo fica em atenção ao tal F.

Quantos defeitos descobre muitas vezes a crítica que não tiveram outra razão de existir? Depois, o prestígio de uma obra literária perde sempre com a assistência do leitor às minúcias da composição. Ler hoje uma cena de paixão violenta, amanhã, ao repetir a leitura, encontrar a mesma cena conduzida por outra forma, dissipa a ilusão, deixa ver muito a arte, que só deve mostrar a sua obra depois de removidos da oficina os instrumentos e mais aprestos com que trabalha.

Guarde-se, pois, muito escrupulosamente o autor de devassar os segredos da sua elaboração literária e só apareça ao público para lhe apresentar completa a nova criação. Siga o exemplo que lhe dá a natureza, que tão avara se mostra dos mistérios da formação dos seres, para a celebração dos quais como que, mais do que para outros, se recata e concentra.

Funchal, Janeiro 1870

A publicação de um livro, por muita glória e proveito que traga ao autor, é sempre uma espécie de profanação desses filhos queridos da fantasia, que ele velava e acalentava com um verdadeiro amor de pai.

Há uma espécie de antagonismo nos sentimentos de alma com que o autor vê sair do recato do seu gabinete para o mundo da publicidade o manuscrito a que dedicou longas horas de meditação e de vigília. Por um lado experimenta-se a satisfação que acompanha sempre a realização de qualquer projecto.

Para o público foi escrito o livro; o dia em que ao público se entrega é pois um dia de vitória. Porém, ao mesmo tempo uma certa melancolia, uma quase saudade nos punge nesse momento solene.

Toda aquela gente que vivia só para nós, vai ser o alvo da observação de milhares de pessoas. O mundo onde só os nossos olhares penetravam, vai ser devassado por olhares curiosos; cessa de alguma maneira o império absoluto da nossa vontade no destino daquelas criaturas.

Daí em diante já não são exclusivamente nossas. Emancipam-se.

Eu, pelo menos, que nunca me enfado de reler o manuscrito em que trabalho, só com esforço consigo levar ao fim um capítulo de romance meu, depois de publicado e conhecido. Sinto que não tenho tanto amor àquela gente, como tinha antes de a introduzir no mundo; que é menos minha do que era.

O autor está no caso de um pai que educa esmeradamente uma filha estremecida para fazer dela um dia uma esposa e mãe digna destes sagrados nomes. Anseia pelo momento de a entregar a um marido que a estime e faça feliz. Chega, enfim, esse dia, realiza-se sob os melhores auspícios o desejado casamento e o pai, sem deixar de agradecer a Deus a realização de seus desejos, sente o coração oprimido todo o dia. E, ao entregar nos braços do esposo a virgem que para ele com tanto amor educou, parece-lhe quase praticar uma profanação. Fica menos sua aquela filha que lhe era a melhor parte da vida e desvanece-se aquele casto perfume virginal que o enlevava.

Desde esse dia o seu amor por ela não pode deixar de sofrer uma leve diminuição porque não e o único a amá-la e a enlevar-se nos seus encantos.

Funchal, Janeiro de 1870

Há livros que são monumentos e livros que são instrumentos.

Os primeiros levantam-se a perpetuar a memória de uma literatura, ainda mesmo que se extinga a nacionalidade a que pertencia. Primorosamente trabalhados, constituídos por os materiais mais duráveis, é antes para o futuro que eles se erigem do que para os contemporâneos, cuja maioria nem sempre os compreende Os livros instrumentos são, pelo contrário, para andarem nas mãos de todos, para o uso quotidiano, para educarem, civilizarem e doutrinarem as massas.

Daí, dessa diversidade de destinos, vem a diversidade de exigências a que uns e outros devem satisfazer.

O livro instrumento precisa ser popular, escrito na linguagem do dia, ao alcance das inteligências da época, de fácil trato em suma. Os extremos de lavor, que ornam o monumento, podem ser prejudiciais ao instrumento que, menos ambicioso, deve contentar-se com mais modesta execução.

À crítica compete ter isto em vista para que lhe não suceda instaurar processo a um livro que se destina a instrumento, como se na mente do autor estivesse a ideia de levantar com ele um monumento à posteridade.

Grande e bom serviço prestam já os autores que conseguem escrever livros para o seu tempo, de cuja leitura possa resultar algum bem para quem os lê.

Direi até que esta turba mais obscura de autores não é menos útil à sociedade do que os raros génios que a alumiam de quando em quando e que, se o progresso da humanidade estivesse só confiado a estes excepcionais luminares, nem sempre compreendidos por os seus contemporâneos, decerto não estaria ainda no grau que já atingiu.

Se os arquitectos levantassem somente pirâmides e monumentos e desprezassem a construção de casas e outras edificações mais modestas, a civilização não lhes seria devedora de tantos benefícios. Um povo pode viver sem monumentos; mas não sem as construções que as primeiras necessidades da natureza exigem.

O símile é de fácil e óbvia aplicação.

Funchal, Fevereiro de 1870

Há uma idade em que a mulher gosta mais de ser namorada do que amada. Entre um amor recatado e reverente e um galanteio indiscreto e ostensivo, não hesita; prefere o segundo. O que lhe enche o coração não é o amor; é a vaidade. Lisonjeia-a o culto que recebe e quer que as outras mulheres a vejam triunfante. O mais puro e dedicado amor que lhe tributassem não a satisfaria, se fosse ignorado pelo Quando um homem de afeições sinceras e profundas se apaixona por uma destas mulheres, pode ter a certeza de que principia para ele uma dolorosa provação.

Funchal, Março de 1870

ESCRITOS INCOMPLETOS

Uma parte do drama Bolo Quente, escrito aos 17 anos de idade. — Acção passada no Minho.

ACTO II

CENA I

Francisco, criado, pondo a mesa para uma ceia que o filho da fidalga oferece em sua casa aos primos de Lisboa, seus hóspedes. João, primo de Francisco.

JOÃO

Então como é isto? Eles não ceiam senão fruta?

FRANCISCO

Não, homem. A fruta põe-se na mesa, com flores e com os vinhos, e o mais é servido por fora.

JOÃO

Por fora? Então eles ceiam fora de casa e vêm depois comer a fruta aqui?

FRANCISCO

Ora adeus! Tu és tolo? Ceiam aqui; mas os pratos trazem-se à volta da mesa para cada um se servir do que quiser.

JOÃO

Ah! agora entendo. Mas que moda! Antes me quero com a moda da aldeia, porque a gente, tendo a comida defronte de uma pessoa, sabe logo o que vai comer.

FRANCISCO

Tudo vai do costume... Os fidalgos têm outra criação. Estão afeitos a coisas que a gente só conhece nas cidades... E, é verdade, como vai o negócio do teu casamento ? Dá-me cá essa garrafa. A coisa faz-se ou não se faz ?

JOÃO

Nem eu sei, Francisco, nem eu sei. Vontade tenho eu e mais a namorada. O pai também não vai longe disso: mas... falta o principal.

FRANCISCO

Aquilo com que se compram os melões? Chega para cá essas cadeiras,

JOÃO

Tal e qual.

FRANCISCO

Tu não tens nada, e ela nada tem, e a gente não vive do ar.

JOÃO

Pois é assim, é, Mas eu estou tão farto de esperar pela sorte, que nunca me favorece, que às vezes cuido que, depois de casado ela me virá, e por isso acho que...

FRANCISCO

Ora adeus; não faças tolices. O orvalho não mata a sede, nem tiram a fome as raízes do monte. Vê lá se vais dar por aí alguma cabeçada.

Toma conta!

JOÃO

Não tenhas medo. Não que, ainda que eu quisesse dá-la, tanto juizo tem a minha rapariga que não deixava. E depois o tio Marcos é quem manda, e ele já me disse que enquanto eu não ganhar para sustentar minha mulher, não quer ouvir falar em tal casamento.

FRANCISCO

E tu não tens feito diligências para arranjar emprego?

JOÃO

Ora se tenho ! Mas tanto faz. Ninguém me quer

FRANCISCO

Porquê?

JOÃO

É por não estar arrumado.

FRANCISCO

Ora essa! Explica-me isso.

JOÃO

Pois é como te digo. Quando um homem tem um emprego menos mau, há quem lhe ofereça outro melhor porque, diz lá consigo: O patrão que o tem em casa é porque ele é bom. Convém-me ainda que lhe pague mais alguma coisa, porque isto de meter vadios em casa é arriscado...' Vês tu? De maneira que um homem não arranja emprego exactamente porque precisa dele.

FRANCISCO

A modo que tens razão. Hei-de falar à fidalga e tu também lhe podes pedir. Olha ela aí vem. Não fujas! Deixa-te ficar que ela não repara nisso. É uma santa senhora. Se ela te falar, tens de a tratar por excelência.

CENA II Os mesmos e D. Joana

D. JOANA

Olhe la, Francisco, não ponha na mesa vinhos muito fortes nem comidas indigestas. De noite é preciso toda a cautela. Não me agradam nada estas ceias. É isto que estraga por aí tantos rapazes que, aos vinte anos, já andam cheios de achaques, como se fossem velhos...

Quem é este rapaz?

FRANCISCO

É meu primo, minha senhora.

D. JOANA

Ah sim; já me falou nele... Chama-se... João.

JOÃO

João do Choupelo, minha senhora, para a servir.

D. JOANA

É isso mesmo, que está para casar...

FRANCISCO

Com a filha do mestre-escola, o mestre Marcos. É este mesmo.

D. JOANA

E então porque não casaram ainda? A sua noiva é uma bonita rapariga e um belo coração. O pai é um santo e honrado velho a quem minha família muito deve. Em tempos aflitivos foi ele que nos valeu. É verdade. Das suas mãos caridosas recebemos já, eu e os meus, a esmola do pão e do abrigo. Vai muito bem, João; melhor noiva não encontra, por mais que procure.

JOÃO

Diz bem, minha senhora. Por essa estou eu.

D. JOANA

Pois olhe, eu tenho deveres a cumprir para com essa família e muito desejo cumpri-los. Avise-me com antecedência, e, se quiserem, já me ofereço para madrinha. Quando será, pouco mais ou menos?

JOÃO

Ó minha senhora, muito obrigado por tão grande favor... Eu sei la quando nos casaremos? FRANCISCO (a meia voz) Sabes que mais? Conta-lhe tudo que talvez seja bom.

D. JOANA

O que diz, Francisco?

FRANCISCO

Eu não sei se devo servir a maionese de lagosta que é um dos pratos da ceia.

D. JOANA

Ai não, não. Credo! É tudo quanto há de mais indigesto à noite.

Nem lhe fale nela, ouviu? Mas então o que é que estorva o seu casamento, João? Assim como assim, visto vossa... vossa...

FRANCISCO

Excelência.

Visto que vossa excelência tanto se interessa por nós, com sua licença, vou contar-lhe tudo, toda a verdade, com o coração nas mãos.

D. JOANA

Isso mesmo é o que eu quero. Fale à vontade.

Pois, minha senhora, como o outro que diz, eu sou um pobre rapaz e mais nada. Sabe a senhora?

D. JOANA

Pobre, honrado...

La isso não é para me gabar...

D. JOANA

E trabalhador...

Isso é que não.

D. JOANA

Como não? Para ser trabalhador, faz míngua trabalhar, para trabalhar é preciso que haja em que e para haver em què e necessário que alguém no-lo queira dar, percebe vossa...

FRANCISCO

Excelência.

JOÃO

Vossa excelência?

D. JOANA

Pobre rapaz! Está então desarrumado?

JOÃO

Estou, sim, minha senhora.

D. JOANA

E é por isso que não casa? Mas parece impossível! Pois não há por aí tantos modos de vida?

JOÃO

Isto em mim é a minha sina. O que quer a senhora?

D. JOANA

Ah! não, não... não diga isso, João. Neste mundo não há sinas nem para o bem nem para o mal. Dores todos as sentem, lágrimas todos as choram, e risos... vamos, também não há alma tão atribulada que não tenha conhecido o prazer que dá uma alegria verdadeira

JOÃO

Pois quer vossa... vossa excelência ouvir? Depois me dirá se isto é sina ou não é sina. Nós éramos três os filhos de minha santa mãe, que Deus tenha; não é verdade, Francisco?

FRANCISCO

Sim, a tia Quitéria, tua mãe, teve três filhos.

JOÃO

Eu era o mais novo. Meu pai, Deus lhe perdoe, era pedreiro; meus irmãos, um era aprendiz do mesmo ofício, o outro quis embarcar.

Vai eu, tinha dez anos e aí cai meu pai dumas obras abaixo e morreu no hospital; o nosso José teve a febre no Brasil e lá se foi também, e o nosso Manuel, que ia principiando a endireitar a vida, deram-lhe na cidade as bexigas e morreu queimadinho, que nem eu quero que me lembre. E aí fiquei eu com a minha pobre mãe que se matava a chorar. Bom. Vai eu, quis ir para a cidade aprender um ofício Mas corno havia de ser se a minha santa criatura me ficou cega de repente ? Havia de deixá-la ? Coitadinha! Aqui na terra há gente caridosa que não nos deixava morrer de fome. Na cozinha do lavrador ha sempre, como a senhora sabe, sobras de pão e de caldo para os que os não têm.

Andava eu pois com ela de porta em porta, meio envergonhado quando via passar os rapazes da minha idade com a saca dos livros da aula ou com a ferramenta do ofício; mas que havia eu de fazer? Chamavam-me o rapaz da cega ou o João da cega.

Era um desprezado que nem companheiros tinha para brincar! Um dia, depois de muito sofrer, levou-me Deus para si aquela desgraçadinha que sempre me teve a seu lado até ao último suspiro.

3om, agora que estás só no mundo trata da vida, João, dizia eu para mim. Mas quem me queria? Roto e pedinte, achavam-me taludo para aprendiz e estragado na vadiagem, Eu bem lhes dizia que nada mais tinha feito que o meu dever servindo de bordão a uma pobre cega, que me tinha só a mim, e que isto não era coisa ruim nem crime. Matavam- me a fome mas ninguém me queria! Até que um bom homem, velho carpinteiro, teve compaixão de mim e aceitou-me. Principiei então a trabalhar e a andar mais contente. Cuidei até que estava feliz para o resto da vida.

Foi por esse tempo que eu vi a filha do mestre Marcos e logo fiquei doido por ela. Até com ela sonhava! Mas nunca futurei que ela fizesse caso de mim. Se andavam tantos a arrastar-lhe a asa, tantos, e todos eram mais do que eu! Mas, veja a senhora aquele coração! Foi para mim, que era o mais pobre e desgraçado do rancho, que ela se inclinou.

Uma tarde, havia festa no adro, entrei a sentir-me tão triste, tão triste, que peguei em mim e fui parar ao cemitério onde não estava ninguém, porque toda a gente andava a divertir-se e a dançar na festa.

Vai senão quando, quem me há-de ali aparecer? Era ela, a filha do mestre Marcos. Eu fiquei sem pinga de sangue e, vai ela, diz-me assim com aquela voz que sabe dizer as coisas: «Que está aqui a fazer no cemitério, João, em que está a pensar?» Penso, menina, disse-lhe eu, que estou só no mundo, tão só, tão só, que era bem melhor para mim me fosse deitar ali ao pó de minha mãe. «Ainda é cedo para procurar companhia no cemitério — disse-me ela;—já todos os vivos ha negaram?» Nem eu me atrevo a pedi-la.—«Pois nisso é que faz mal».— E que tenho eu para agradar a alguém? —«O seu bom coração, a sua alma, João», e nisto foi-se embora. Olhe, minha senhora, que isto passou- se assim tal como lhe estou contando e vai daí principiou esta nossa inclinação e ela tais artes empregou que até o tio Marcos entrou a querer-me bem. Vai depois, sucede, por minha desgraça, andar eu a trabalhar de carpinteiro em casa do fidalgo de Altotojo quando desa pareceu lá de uma gaveta uma porção de notas que valiam muito dinheiro.

Fez-se muito barulho em toda a casa, procura daqui, procura dacolá, perguntam estes, revistam aqueles. Foi um caso falado em toda a aldeia e vai, de repente o fidalgo entra a olhar para mim carrancudo e no dia seguinte manda-me despedir. Perguntei porquê, ninguém me respondeu. Imagine a senhora o que isto deu que falar depois do que se tinha passado. Como eu estava inocente, não podia futurar que na terra todos me chamavam ladrão. O próprio mestre Marcos não me acusava, sim, mas tinha para mim uns modos tão secos, tão zangados que eu logo entendi tudo. Estava perdido. Não sei como não rebentei de dor, logo ali. Saltaram-me as lágrimas dos olhos quando me lembrei que a Ana também me havia de julgar ladrão e, como um desesperado, corri em busca dela. Mal a topei, gritei-lhe de longe: Ó menina, olhe que eu... Ela não me deixou continuar. Cala-te, João, cala-te, disse-me ela, chorando tanto como eu, não me digas nada porque não te julgo culpado. Não te desculpes comigo porque eu conheço-te e sei que não podes deixar de estar inocente.

Ouvindo-lhe estas palavras tão boas, não sei o que teve mão em.

mim para não ir a correr dizer a toda a gente: Sabem que mais ? Se querem acreditar que eu sou um ladrão, acreditem. Não se me importa o que vós todos pensais porque já sei que a Ana não pensa como vós.

Mas, enfim, ela acalmou-me, e disse-me mesmo que era mister convencer os outros, pois não tinham os mesmos motivos que ela para não acreditar o que se dizia na terra. Fui então procurar o fidalgo mas não me quis ver. Vai um dia, olhe, senhora, que até custa a acreditar, ao acabar a missa, estava o adro cheio de gente e o fidalgo vinha a sair. A Ana põe-se-lhe diante no caminho e diz-lhe em voz alta que todos ouviram: «Sr. D. Álvaro, queira perdoar. Corre a fama em toda a aldeia que o fidalgo acusa aquele rapaz que está ali» — e apontou para mim, que estava a um canto muito envergonhado — «de ter feito o roubo de dinheiro em casa do fidalgo. Ele é meu noivo e está inocente, que o sei eu, que o vou jurar porque sei a alma que ali está. Por aí todos o acusam e o Sr. D. Álvaro, se é um homem de honra, não pode mentir e há-de aqui, diante de toda esta gente, declarar que ele não é o ladrão, porque é impossível que o não saiba, e que, se despediu aquele rapaz de sua casa, foi por outro motivo. Responda, fidalgo, mas lembre-se que vem da missa e que esteve ajoelhado no altar do Santíssimo».

Se a senhora quer ver?! Toda a gente pasmada, a Ana a olhar direita para ele e o fidalgo, enfiado, fez-se vermelho, depois branco, tremeu, suou e afinal disse assim esta fala: —«Esse rapaz é inocente.

O roubo foi feito por pessoa de casa. E eu quis desviar suspeitas.

Peço-lhe perdão».

Afinal, sabe a senhora? o ladrão tinha sido o filho dele, para extravagâncias, O fidalgo ficou tão envergonhado que deixou a aldeia e não voltou. Veja a senhora como eu fiquei contente e todos ficaram ali sabendo que eu era o noivo da Ana. Mas isto foi há três meses e nada arranjei ainda porque a família do fidalgo faz-me guerra, por vingança, porque se veio a saber que foram eles que aconselharam o fidalgo a fazer o que ele fez, para não dar que falar contra o filho, que era vergonha para todos os parentes.

D. JOANA

Sabe que é simpática e comovente a sua história ?

JOÃO

Assim Deus salve a minha alma como é verdade tudo quanto disse.

D. JOANA

Acredito. E como a história me interessa, por ambos, pela pureza e generosidade dos seus sentimentos, prometo-lhes para ela um agradável final.

JOÃO

O que diz, minha senhora?

D. JOANA

Nunca lhe contaram histórias em pequeno, João?

JOÃO

Contaram, sim, minha senhora. Ainda me lembro daquela da Gata Borralheira que minha mãezinha nos contava nas noites de Inverno.

D. JOANA

Então há-de saber que há sempre um rapaz que gosta de uma rapariga. Se eles casam, a história acaba bem e, se não casam... o fim é triste e faz chorar quem a ouve.

JOÃO

Quer então vossa... excelência dizer...

D. JOANA

Que a sua história há-de acabar bem.

JOÃO

Mas...

D. JOANA

Mau; se se diz logo tudo, o fim não tem graça nenhuma.

JOÃO (querendo beijar-lhe a mão) Ó minha protectora I

D. JOANA (retirando-se)

Está bom, está bom. Não gosto disso. Ande, vá à sua vida e guarde antes esse beijo para a sua desposada.

FRANCISCO

Então eu não te disse que era melhor contar-lhe tudo?

JOÃO (sorrindo)

Dá-me um abraço. Agora começo a acreditar que sou feliz e vou a correr contar tudo à minha Ana.

Ouve-se-lhe a voz dentro, cantando.

Quem se ri, está contente.

Quem está contente é feliz; Mas... cala-te, coração, O que sentes não se diz.

O ROMANCE DE UM GUARDA-BARREIRA

Um dos meus amigos, mártir entusiasta da caça, que tem sofrido com uma resignação heróica aguaceiros diluviais, sóis calculadores, ventos de assolar cidades, que vadeia rios, escala montes, embrenha-se em matas gigantes, atola-se em brejos pérfidos, aspira miasmas sezonáticos, come o pão negro do lavrador hospitaleiro, sem o menor quebrantamento de ânimo, instigado pelo ardor da perseguição das lebres, codornizes e galinholas; amigo cruel que tem feito de mim uma vítima da estopante odisseia das suas façanhas venatórias, que me quer obrigar a decorar as biografias de quantos podengos e perdigueiros têm sido os companheiros das suas excursões intermináveis; um amigo como decerto o leitor há-de ter algum, contou-me há dias uma pequena história que eu, por minha vez, vou contar ao leitor, É curta, não lhe roubará meia hora ao seu tempo tão ocupado.

Há meses, no tempo do Inverno, tinha este Actéon, inexorável flagelo das tímidas lebres do monte, saldo a montear de espingarda ao ombro, botas de água, polvorinho a tiracolo, chapéu largo, sanduíches de queijo londrino na saca e vinho no pichei, despedindo-se da família assim como se fosse empreender uma exploração aos pólos.

Se não houve lágrimas na despedida é porque o hábito desses apartamentos costumou os olhos a não chorar. Apenas a mãe, boa senhora, toda votada a coisas domésticas, contraste perfeito com a bossa aventureira e viajante de seu único filho, lhe disse do alto das escadas ao vê-lo sair: — Olha lá se tens cautela com essa arma, meu filho... Sempre que e lembra que um dia...

A história contou-a a boa senhora às meninas de casa que, sendas a trabalhar em costura, contavam mentalmente os dias que faltapara o desejado domingo.

Sossegue o leitor que não pretendo arrancá-lo do mole repouso do seu gabinete para o constranger a seguir o meu amigo no fadigoso exercício de sua paixão dominante. Esteja descansado. Saiba que tem em mim um homem que odeia a caça e que por coisa nenhuma se decidiria a servir-lhe de companheiro nestas excursões sanguinárias e laboriosas.

Demais, seria mal escolhido o dia para tentar o passeio, porque o meu amigo, segundo ele mesmo confessou, esteve de uma infelicidade excepcional. Era quase noite e nem lhe tinha aparecido caça de jeito, nem a pouca que pôde ver conseguira fazer pontaria certeira.

Imaginem o desespero e mau humor com que ele voltava a casa.

Este mau humor para alguma coisa lhe havia de dar. Chegando à base de um monte de onde se descia para a estrada, o meu amigo, em vez de o costear até ao lugar onde ele se nivelava com o caminho, pretendeu imprudentemente descê-lo ali mesmo. Principiou a segurar-se aos troncos das giestas, a firmar os pés nalgumas raízes de pinheiros que rompiam a parede saibrosa do caminho; mas, a uma vara de altura do solo, o pé resvalou, as mãos não puderam sustentar o peso do corpo e o desapontado caçador veio cair no chão, sentindo uma dor agudíssima na articulação do pé direito com a perna, que o fez involuntariamente soltar um gemido.

—Estou arranjado!—disse ele.—Uma fractura pelo menos. Quarenta dias de imobilidade e de entalação ! E faltou-lhe o ânimo para se mexer e verificar se efectivamente tinha fracturado o pé.

Quanto tempo assim esteve ? Quando os romancistas fazem esta pergunta é sinal de que se lhes não pode responder. É o caso em que estou.

Umas crianças que vinham do monte viram aquele homem estirado e deitaram a correr, gritando: — Um homem morto! Um homem morto! O meu amigo deixou-as gritar. Tinha procurado mover o pé e julgou que o não sentia. , — Adeus! Este já me não pertence. Declarou-se independente da metrópole. Faz bem. Não lhe durará muito a autonomia.

Esta reflexão parece muito ligeira nas circunstâncias sérias em que se encontrava o meu amigo. E o que é certo é que não tinha nada tranquilo o espírito quando pronunciara estas palavras. Depois lembrou-se do tratamento de fracturas, da cara do seu facultativo, das pessoas que o iriam visitar durante o processo de consolidação da sua tíbia e já procurava saber qual o seu passatempo nessas horas de forçado ócio.

— É ocasião de ler um romance do Ponson du Terrail. F. irá lá por casa para jogarmos uma partida de xadrez. Peço a C. que me empreste o estereoscópio...

Foi interrompido nestas cogitações pelo ruído de uns passos apressados e vozes confusas e cedo se viu rodeado por um magote de povo, capitaneado ao que parecia por um velho de bigode branco e espingarda ao ombro, vestido com o uniforme de guarda das barreiras municipais.

— Ó criatura de Cristo, você ainda vive ? — Foi a interrogação que lhe dirigiu este homem.

— Eu julgo que sim.

— E o outro fugiu ? — O outro? — O assassino! — Qual assassino ? — Adeus minha vida! Então não o mataram ? — Eu julgo que não.

— Então que está você ai a fazer ? — exclamou já meio desconfiado o velho guarda.

— Eu... estou a pensar.

— A pensar !—disseram os circunstantes espantados com a extravagância da resposta.

— A pensar em quê? —perguntou o velho guarda-barreira adiantando- se.

— A pensar... ai!... nos grandes serviços que prestam... ai!... ai!...

ai!... à humanidade esses modestos filantropos... ai!... ai!... a quem chamamos cadeirinhas... ai!... ai!... ai!...—Estes ais eram desafiados pelas pungentes dores da articulação tíbio-társica direita do meu amigo.

— Está bêbedo! — murmurou o guarda aos que o rodeavam e depois, dirigindo-se ao meu amigo: — Levante-se e ande daí.

— Isso é bom de dizer. Andar! É dos maiores prazeres deste mundo, é; mas...

— Vamos — e aproximando-se dele puxou-o por um braço.

— Ai... ai... ai...

— O que é ? — disse o velho, largando-o.

— Pois não vê que tenho um pé...

— Dois vejo eu.

— Pois está enganado, porque um já me não pertence, porque está quebrado.

— Oh diabo! Isso então é mais sério.

— A quem você o diz! E muito sério porque perdi o meu rico pé.

— Tem razão: visto isso... Eh! rapazes, levantem este senhor e levem-no para o meu quarto.

— Ai... ai... Esperem... Façam isso com jeito! — Peguem nele com cautela e aviem-se.

Para encurtar razões: passada meia hora estava o meu amigo deitado na enxerga do guarda-barreira, com o pé ligado com panos embebidos em água fria.

A lesão não passava afinal de uma distensão de ligamentos.

{Não continua).

O RAMO DAS MAIAS

QUE aparência festival dão aos campos as giestas quando em Maio ostentam as vistosas galas da sua vigorosa florescência! Que profusão de corolas amarelas naquele verde, tão verde, dos ramos tenazes! É por certo a flor mais alegre que a natureza produz; por isso lhe querem as galhofeiras raparigas do campo, onde nunca foi moda a melancolia.

Aí está a violeta; é uma flor bonita sem dúvida, mas triste. A mim só o cheiro da violeta me faz cismar, deste cismar que os Franceses chamam rêverie e que nós não sei bem que nome lhe damos. É a razão por que os poetas a cantam. Os poetas são habitualmente inclinados à tristeza e às coisas que a suscitem.

As rosas têm já um aspecto mais risonho, é verdade, mas ainda comedido ou, como hoje se diz, guardam as conveniências nas suas alegrias. É um júbilo grave aquele seu.

Uma elegante pode irrepreensivelmente trazer no chapéu uma rosa artificial; mas vão la dizer-lhe que traga um ramo de maias! É que as maias são alegres à moda dos campos, que é a verdadeira moda de o ser, a mais racional. É ali que o contentamento se não revela em um simples e espremido sorriso, mas em prolongadas e altissonantes gargalhadas; é ali que se usam os lenços escarlates e amarelos, e se odeiam as cores escuras; que se canta desde o nascer do Sol até ao nascer das estrelas e onde, no fim da vida, se tem rido mais do que chorado, a ponto de fazer duvidar da exactidão do epíteto de vale de lágrimas com que o cristianismo designa o mundo em que vivemos.

Ora eu tenho, em muitas coisas, gostos campesinos; é por isso que poucas flores me agradam tanto como as flores das maias.

Inéditos e Esparsos
É que as maias são alegres à moda dos campos...

perdoe-me a leitora delicada esta confissão de mau gosto, mas sincera.

Tenho-lhe afeição deveras á despretensiosa flor.

Não é uma alegria estudada aquela sua; é uma alegria expansiva, lhana, sem refolhos, sem momices afectadas; alegria de flor montanhesa, enfim.

O ar das montanhas é inimigo do cerimonial, que prescreve até as maneiras próprias de manifestarmos nossos prazeres e nossas penas! A gargalhada de um highlander produziria uma irritação de nervos em um homem das planícies; ao pé das flores de jardins e de estufa, as singelas maias haviam de ser estranhadas e escarnecidas; seriam como uma camponesa de cores viçosas e sadias numa reunião dessas formosuras pálidas e franzinas que povoam os salões.

Decididamente o gosto está estragado! Pois não é nestas últimas que os poetas vão, de ordinário, escolher tipos para heroínas de poemas e romances ?! Como se não fossem belezas degeneradas! Como se nossa mãe Eva, que é de supor ter sido o ideal da beleza feminina, não tivesse possuído uma organização robusta, excelente carnação e cores para invejar. A saúde é para mim como um complemento da beleza.

Era já opinião dos antigos que a perfeição dos organismos depende de quatro condições: integridade, força, beleza e saúde; reparem bem — e saúde.

A febre, os espasmos, a histeria, a demência, podem excitar-me a compaixão pelos infelizes que as padecem, mas daí a adoptar como rigor de estética a necessidade de uma destas moléstias para cada protagonista de romance, vai muito longe.

Vejam as mulheres da Bíblia; que poéticos e interessantes tipos aqueles! E sabem de alguma cuja saúde melindrosa nos suscite apreensões? Em toda a literatura clássica pouco há que ver com a medicina.

Se algumas doenças por lá aparecem, encaram-se literariamente, não se lhes desenvolve a patogenia com um rigor científico digno de uma memória académica. Não se vêem ali conferências de médicos, estupendos récipes, nem frascos medicinais e tisanas por cima das mesas; as rubricas dos autores dramáticos não obrigam as actrizes a tossirem de vez em quando para forçar o interesse dos espectadores, incomodando- os.

O delírio de Orestes, prudentemente atribuído às fúrias, não era explicado ao público por nenhuma teoria médica.

Hoje, então, um médico tomando o pulso, percutindo e auscultando a protagonista doente, é uma cena de efeito seguro. Digam-me se no teatro clássico viram alguma vez entrar em cena Hipócrates, Galeno, Celso, Ambrósio Pare e outros vultos da extensa galeria médica que havia já então ? É que a doença não estava em moda. Hoje não há autor que, a não querer arriscar o interesse inspirado pela sua heroína, se atreva a fazê-la sã e escorreita; pelo menos uma doença nervosa é inevitável. Eu por mim julgo ser isto uma perversão de gosto. Enganar- me-ei ? É uma igual perversão que faz com que as flores das maias não sejam apreciadas, não estejam na moda. São alegres e garridas como qualquer lavradeira em dia de romaria. Excitam de longe as vistas com a cor viva de suas pétalas, destacando-se do fundo verde-escuro das folhas e dos ramos.

Ora venham cá dizer-me que não são flores bonitas! Eu tenho por elas uma afeição desinteressada, sincera, que data de muitos anos.

Criança ainda, nunca voltava do campo, no fim de uma tarde de Maio, que não viesse adornado das prazenteiras flores; mais tarde, em certa época em que me quiseram ensinar botânica, nunca tive coração para dilacerar a bicos de alfinetes essas pobres flores alpestres com o único fim, o mais fútil de quantos pode imaginar uma ciência, de substituir o nome prático que lhe dá o povo, por o nome pedante da nomenclatura técnica.

O botânico! Nunca vi gente mais fleumàticamente cruel! Com que indiferença eles partem uma manhã para o campo, munidos do indispensável estojo, que me produz o efeito de um aparelho de torturas em tribunal inquisitorial, e atravessam planícies, trepam colinas e outeiros, profundam vales, devassam moitas, costeiam rios, colhendo quantas flores encontram, sem que o belo das cores ou o inebriante dos perfumes lhes mereçam uma exclamação de prazer. Com que selvagem sangue-frio procedem a esta provisão de plantas, que amontoam sem gosto em suas caixas de folha ou de cartão, e voltam à cidade carregados de modestas presas para, fechados no seu gabinete, encetarem o seu trabalho de destruição! Já os viram alguma vez postos à obra ? Que espectáculo! Nas suas mãos as pobres flores são torturadas, despedaçadas, como as vítimas nos circos pelas garras das feras ; pétala a pétala caem desfolhadas; os bicos de alfinetes movidos por mãos sem piedade rasgam-lhes os cálices, destroem-lhes os nectários, penetram nos ovários que rompem, disseminam-lhes os grãos, gérmenes de futuras flores que sem remorsos aniquilam, estendem-lhes os restos inanimados sob o campo do microscópio e, com a placidez do filósofo e uma insensibilidade de selvagens, examinam as ruínas de uma bela obra.

E para quê, santo Deus? Que buscam eles nestes trabalhos de destruição? Um nome, um nome pedantesco, bárbaro, inarmónico, prosaico, nome de bulir com os nervos, nome que fomenta as silabadas, para o aplicarem, sem compaixão nem consciência, à obra mais singela, poética e despretensiosa da natureza! Eu quando vejo a ciência ocupar-se com os fósseis, com os mastodontes, os pterodáctilos, digo comigo: sois dignos um do outro; mas, quando volta as suas iras classificadoras contra as flores, lamento-lhe a barbaridade.

De todas as vezes que eu ia a colher uma dessas vitimas inofensivas de uma ciência cruel, parecia-me vê-las animarem-se, erguerem- se na haste para me olharem, rociadas de gotas de orvalho que semelhavam lágrimas, e dizerem-me: — Tem piedade de nós! Que as borboletas e as abelhas nos beijem, namoradas dos nossos matizes e perfumes. Se esse beijo nos der a morte, embora; morreremos em um estremecimento de prazer.

Se nos colhe a mão delicada da virgem que fantasia amores. Se em breve nos espera o esquecimento e o desprezo... ao menos fomos por um instante amadas. Que nos desfolhe a brisa na corrente dos arroios... partirá com nossos perfumes e embalsamará com eles os prados e os bosques. É uma espécie de imortalidade que nos dá...

Mas tu... para que nos cortas? Em criança amavas-nos e, como as borboletas, deixavas-te namorar das nossas cores viçosas e dos nossos aromas; então éramos nós as primeiras a inclinarmo-nos na tua passagem para te desafiar os afagos e para morrermos amadas; mas hoje é com fria indiferença que nos procuras, que nos vens separar da haste para nos desfolhar sem dó, dilacerar-nos, sepultar-nos entre as folhas de um herbário, sem vida, sem perfumes, esqueleto do que fomos, pálidas múmias que ufanamente designais com um nome, só de per si capaz de nos fazer murchar. Oh! tem piedade de nós! Esta voz das plantas fez-me desgostar da botânica, que penso ser a ciência mais bárbara que ainda inventaram homens.

Um dia em que numa destas explorações científicas chegara a vez das pobres maias de serem classificadas, a tal voz que eu escutei pareceu falar mais alto; a ponto que não pude resolver-me a despedaçá- las para as classificar. Se eu as conhecia de criança! Era quase um sacrilégio.

Com este culto pelas flores em geral e esta afeição pelas maias em particular, tinha eu ido passar ao campo os mais floridos meses do ano.

Todos os dias o Sol, despontando por cima da crista dos outeiros, me encontrava sentado ou, mais rigorosamente, deitado nas pedras musgosas de um muro derrocado ou junto ao tronco meio carcomido de algum carvalho secular.

Um frondoso e ameníssimo vale seguia em sinuosidades por entre duas colinas, em cujas fraldas e encostas rompia uma vigorosa vegetação de sovereiros e carvalhos e cujos cimos eram coroados pelas elegantes umbelas de pinheiros mansos que faziam lembrar uma vila napolitana. As arcadas de um extenso aqueduto avistavam-se ao longe e, através delas, descobria-se àquela hora um céu sem nuvens apavonado pelos nascentes clarões da luz oriental. Enchia as espessuras do vale e das encostas fronteiras um enxame de pássaros, cujos gorjeios se confundiam, combinavam, ou afrouxando, ou crescendo, e produzindo sempre a harmonia na dissonância, coisa que a arte julga um absurdo, mas que a natureza entende e realiza.

Era no último dia de Abril. Flores em profusão esmaltavam de variado matiz o fundo verde da relva.

Havia lugares em que o campo tinha reflexos dourados, roxos azuis, de magníficos efeitos e lá estavam também dispersas pela colina e debruçadas sobre o vale as minhas queridas flores das maias, todas alegres e festivas.

Eu estava enfeitiçado com o que via. Todo me embevecia a seguir com a vista uma rosa que o vento desfolhara no rio e que, arrebatada pela corrente ia, bem longe da roseira que a produzira, exalar o último alento; outras vezes acompanhava a abelha no seu adejar de flor em flor ou o movimento da sombra da folhagem agitada projectando-se sobre a relva do chão.

(Não conclui).

PECADOS LITERÁRIOS

Programa de um conto para os novos Serões da Província.

PAULO AMÉRICO encetou prematuramente a vida de escritor.

Criança ainda, já firmava com o seu nome escritos de todo o género. Perdeu cedo aquele virginal pudor que é tão salutar reserva para os escritores incipientes. Costumou-se ao público, aos risos e zombarias de críticos e já o não magoavam os golpes com que o feriam, quando entrou na idade da adolescência.

Imaginação viva e espirito cultivado, Paulo Américo tornou-se um escritor distinto mas pouco simpático.

A única família que conhecera fora um tio velho e egoísta, que não lhe soubera semear no coração sentimentos ternos e nobres. Não havia carinhos de mulher nas suas recordações de infância. De pequeno se familiarizou com o vício e aos vinte anos achava-se um desiludido.

Assim, os seus livros eram eivados de cepticismo e desconsoadores.

Romances à imitação dos de uma certa escola francesa, em que o vício se adorna de galas sedutoras e a virtude é tratada com risos de zombaria, eram a sua produção favorita. A mocidade procurava- os com avidez, porque tinham para ela a sedução do vício.

Paulo Américo tornou-se um escritor conhecido, lido clandestinamente selos filhos, temido e abominado pelos pais.

Um dia chegou à cidade uma viúva rica e muito requestada por os pretendentes a casamentos vantajosos, um dos quais era Paulo Américo.

A viúva manifestou por ele alguma predilecção mas depressa o desiludiu, declarando-lhe que nunca tencionara casar-se segunda vez.

Que a razão da simpatia que manifestava por ele, era a compaixão que ele lhe inspirava. Paulo Américo pede-lhe a explicação destas palavras e ela diz-lhe que, estudando-o e conhecendo as suas obras, não o supunha um cínico, mas apenas um infeliz que nunca amara e que daí provinha o seu desespero.

Paulo Américo concorda em parte e a viúva, depois de vários conselhos, acaba por decidi-lo a ir passar algum tempo à terra dela na província.

Paulo Américo vai. A mudança de hábitos e de meio faz dele um outro homem e, tempos depois, apaixona-se por uma menina, filha de um facultativo pobre, casa burguêsmente e propõe-se sinceramente a realizar o tipo de marido de que tanto zombara.

Escreveu ainda um romance de género inteiramente oposto aos antecedentes, no que procurou esmerar-se como em nenhum. O público porém, repudiou-o, achando que o autor estava fora do seu género.

Isto desgostou Paulo Américo que nunca mais escreveu.

Passaram-se anos e Paulo Américo teve uma filha cuja educação absorvia todos os seus desvelos. A filha cresceu e era a mais formosa e ingénua criança que pode causar o enlevo de um pai. Paulo Américo era verdadeiramente feliz, quando um dia a filha o surpreende pedindo- lhe para ler os romances que ele publicara em tempo. Paulo Américo assusta-se. Cônscio dos seus delitos, nunca falara a filha nas suas obras. Tremia só de imaginar que os seus livros chegassem às mãos da filha. Esta, porém, ouvira a uma menina de Lisboa, que passara alguns dias na sua terra, falar deles e agora ansiava por lê-los.

Principiou uma verdadeira tortura para Paulo Américo, uma quase expiação. Falou nisso à mulher e ambos procuraram desvanecer aquela ideia na filha.

Um dia Paulo Américo entra no quarto da filha e vê um livro em cima da banca; repara, era justamente o mais escandaloso dos seus romances. O pobre pai tem quase uma síncope. A mulher acode e faz-lhe ver que o livro está ainda por abrir. Informando-se, soube que a filha ainda não o vira e que o livro tinha chegado momentos antes remetido pela menina de Lisboa. É subtraído o livro juntamente com um bilhete em que lho anunciavam como o melhor do pai. A mãe tem a lembrança de o substituir pelo último romance, único honesto, que publicou Paulo Américo e deste modo a filha pôde ler um livro do pai, sem perigo para a reputação paterna.

UM RETÁBULO DE ALDEIA

Programa de um conto para os novos Serões da Província.

(I) Uma irmandade ou confraria de certa paróquia rural, procurando dar aplicação ao dinheiro que tinha em cofre, convoca assembleia para se discutir o assunto. Aventam-se vários e desencontrados alvitres e afinal resolve-se mandar pintar à cidade um retábulo para o altar da santa sob cuja invocação se erigiu a irmandade.

(II) Os mordomos dirigem-se para esse fim a um proprietário da localidade que, passando metade do ano em Lisboa, estava no caso de melhor do que eles arranjar artista para a execução da obra. Assim se fez. O proprietário escreve a um rapaz seu amigo, discípulo da Escola de Belas-Artes, para se encarregar da pintura do retábulo e, tendo de partir para o estrangeiro, oferece ao amigo a sua casa na aldeia para lhe servir de atelier.

(III) O artista aceita, encantado com a perspectiva do tempo delicioso que vai passar no campo e ao mesmo tempo orgulhoso de encontrar finalmente uma tela, uma obra de mais fôlego do que os retratos de burgueses a cuja confecção se via constrangido a aplicar os seus talentos.

(IV) Parte para a aldeia. Aloja-se na casa senhorial que o amigo deixou vaga à sua disposição. Toma as medidas da obra, estuda a luz e procura informar-se da história da santa.

(V) Contam-lhe a lenda respectiva.

(VI) O artista percorre, solitário, os montes da aldeia, à procura de inspiração. O povo principia a notá-lo e a desconfiar dos seus modos.

A inspiração chegou. A santa fora pastora e o artista, um dia, depara com uma linda serrana adormecida sobre uns pitorescos rochedos e rodeada de numeroso gado. Vê realizado o tipo que se esforçara por conceber. Ali mesmo o esboça rapidamente e sente que venceu a primeira dificuldade da obra.

— Então ? — O recém-chegado responde com a primeira copla da xácara de Claralinda.

Uma voz parece contestá-lo cantando a segunda. É de um outro cavaleiro que chega em trajos de viagem, inculcando ter caminhado muito. Os primeiros interrogam-no. O recém-chegado é novo ainda, alegre e descuidado. Responde que chegou há pouco de Paris, onde seguiu o estudo da medicina, que é nascido em Évora e que vem para viver na corte. Que sabendo em Lisboa que ela estava em Almeirim, para ali se dirigia, porém que o seu cavalo precisa de pronto socorro, razão pela qual ele não passará mais além de uma pequena taberna, que avista dali, sem recuperar novas forças. Com mais algumas palavras afastam-se, os primeiros em direcção a Almeirim e o último na da taberna.

Apesar das fortes pancadas que o fatigado cavaleiro descarrega na porta da taberna, esta não se abre logo. Porfiando, aparece-lhe uma gorda personagem de fartos bigodes e aspecto marcial que, em português, com ressaibos de castelhano, lhe pergunta rudemente o que quer. — Repouso e comida para mim e para o meu cavalo. — O estalajadeiro fez uma visagem como se o requerimento o lançasse em dificuldades imprevistas. A taberna parece estar inteiramente desprovida do necessário. O cavaleiro, João de Évora, estranha o seu hospedeiro e a singularidade da recepção.

Ainda não tinham chegado a um acordo quando subitamente entrou na taberna um embuçado, em vestidos de paisano, que não reparando em João de Évora, rompe em exclamações contra o rei e a corte de Portugal e Castela e lamenta apaixonadamente a Excelente Senhora, a quem se mostra devotado do fundo de alma. O estalajadeiro faz-lhe sinais que ele não compreende até que por acaso repara em João de Évora. Surpreende-se e instintivamente leva a mão à adaga. João de Évora procura tranquilizá-lo e inspirar-lhe confiança, dizendo que tem vivido fora de Portugal e que é inteiramente alheio aos negócios políticos, que não compreendera o segredo que pressentira, nem, que o compreendesse, era de ânimo a abusar dele. • O espanhol retira-se um pouco mais tranquilo para mudar de trajo.

Rompe a tempestade e uma chuva diluviai. Quando o fingido estalajadeiro vai fechar a porta, uma nova personagem entra na taberna fugindo à chuva. Descobre-se e João de Évora e ele acham-se conhecidos.

Dois anos antes o recém-chegado, agora oficial da casa do Duque de Beja, D. Manuel, tinha ido a Paris fazendo parte da embaixada mandada por D. João II a Carlos VIII por causa da prisão de Maximiliano em Bruges. Foi lá que tomou conhecimento e amizade com João de Évora, então estudante.

O desconhecido espanhol volta, já vestido de cavaleiro e por sua vez Filipe do Casal (o recém-chegado) o reconhece e mostra estar ao facto do segredo dele. O espanhol afecta-se contrariado por ver as relações de intimidade de Filipe e João de Évora. Filipe tranquiliza-c relativamente' ao carácter do seu amigo e o fidalgo castelhano resolve-se a ser franco. Confessa que vive na corte, onde procura desviar de si todas as suspeitas, mas que é um dos últimos e fiéis partidários da causa da infeliz D. Joana de Castela e que jurou empregar todos os esforços para a tirar da clausura em que vive encerrada, Para isso faz visitas frequentes ao convento sob disfarce e, para não atrair suspeitas, tomou esta pequena casa isolada onde se disfarça, encarregando o seu criado fiel D. Manrique Pantalon, do papel de taberneiro. Foi no convento de Santarém que Filipe, que tinha lá uma parente, chegara a descobrir D. Pedro Aires ser o burguês disfarçado e o seu segredo.

Filipe procura convencer D. Pedro da loucura dos seus projectos, mas encontra nele um paladino de antigos tempos pronto a desafiar o poder reunido de Portugal e Castela em favor da dama de quem traz a divisa.

D. Pedro retira-se deixando a casa aos dois amigos que por algum tempo continuam as suas conferências.

João de Évora admira a dedicação do castelhano. Filipe observa, sorrindo, que ali há um pouco de amor também. João de Évora espanta- se da loucura daquele amor e, às observações de Filipe de que os há mais loucos e mais fatais, descobre que o seu amigo está apaixonado e convida-o à confidência.

Filipe conta-lhe que tendo sido há pouco tempo enviado a Castela por negócios do Duque D. Manuel salvara por acaso da perseguição da Inquisição a velha mulher e a filha de um célebre judeu que fora queimado dias antes em Sevilha. Ao princípio a compaixão e mais tarde um amor nascente pela judia levaram-no a prometer-lhes conduzi- la a um porto de onde pudessem procurar um asilo seguro. Chegando a Portugal, para onde tinham vindo já avisos de Castela e fazendo- se aqui, desde 1485, severa inquirição e justiça sobre os judeus refugiados de Espanha, que fossem mais culpados de heresias, foi-lhe mister todo o recato para não atrair suspeitas. Apenas confiou este segredo a D. Manuel e enquanto preparava ama embarcação em Lisboa para transportar as fugitivas, abrigara-se numa pobre casa de um pescador de Alfange onde a bela judia, sob o nome de Clara, passava por amante clandestina de um alto senhor da corte — insinuação que teve de fazer entrever ao pescador para lhe vencer os escrúpulos.

Agora confessava Filipe que nas vésperas de as ver partir hesitava e que a sua paixão crescera a ponto que não podia afirmar que, se Ester lhe confessasse amá-lo como ele a amava a ela, não fugiria também do reino, confiando-se às cegas àquele amor e ao seu destino.

João de Évora procura combater-lhe aquela paixão, mas encontrou o seu amigo profundamente possuído por ela. Nisto ouvem um estrépito de cavalos que passam.

No entretanto a tempestade serena, a noite é já adiantada e Filipe .propõe a João de Évora que o acompanhe a casa de Ester. João de Évora aceita e partem.

Chegam a casa do pescador. Tudo é silencioso. A porta está aberta e dentro tudo é escuridade. Apenas algumas brasas no lar.

Filipe chama por Ester e ninguém lhe responde. Chama por Débora, a velha judia. Uma voz seca e severa responde desta vez. Ao mesmo tempo o fogo do lar ateia-se em alguma lenha ainda não queimada e alumia de uma luz amarela o recinto. A velha mulher está acocorada junto ao lar com os cotovelos apoiados nos joelhos e a barba nas mãos. Há no olhar dela um fulgor sinistro.

Filipe pergunta por Ester. — Partiu — responde a velha. Pergunta- lhe para onde e como partira. — Para a perdição e nos braços do seu amante.

Durante a tempestade Ester havia abandonado a casa e a mãe para fugir com um jovem cavaleiro que a requestara e por quem ela se apaixonara a ponto de não poder deixar Portugal como Filipe combinara.

Filipe desespera-se, blasfema, chora e jura vingar-se. A velha parece insensível e lança-lhe em rosto a fraqueza, afirmando-lhe que a vingança de Deus correrá atrás deles. Passado ternpo Filipe aconselha- lhe que fuja, que ele procurará a filha. Ela recusa e diz que não deixará aquele lugar, pois ali espera a filha culpada e o seu roubador porque a vingança de Deus lhos trará ali, mortos ou vivos, e que, só então, abandonará esta terra.

Filipe exorta-a debalde. Ela diz-lhe que não procure a filha, que é inútil o esforço. Espera que a vingança de Deus a trará. Impossível demovê-la desta resolução.

Filipe não sabe que partido seguir. João de Évora, combinando este acontecimento com o que ouvira aos da cavalgada com quem se encontrara, insinua a Filipe que Ester fora raptada por pessoas da corte e que lá a encontrará. Filipe propõe-se a seguir para Almeirim mas pede a João de Évora que vá a Lisboa para ver se descobre os fugitivos e ao mesmo tempo para dar aviso contrário ao barco que destinara à fugida das israelitas. João de Évora condescende e combinando encontrarem-se em Évora, separam-se.

Termina o prólogo.

Passaram-se alguns dias. A corte está toda em Évora. João de Évora, de volta da sua comissão, entra pela primeira vez, depois que dali saiu criança, na sua cidade natal. É noite; depois de errar ao acaso pelas ruas estreitas e escuras, pára em uma taberna onde abundam os grupos populares e entra para descansar. A conversa corre animada.

Fala-se em negócios da corte; respiram-se mal extintos ódios contra Castela, mas com desejos de paz. Superstições, alvoroços pelas festas próximas e amor pelo rei, do qual se referem várias anedotas. Murmura- se da nobreza, cujos excessos no último reinado se referem.

Contam-se vagamente os casos dos Duques de Bragança e Viseu. Uma personagem que parecia de autoridade entre os do grupo, fixa atentamente João de Évora e dirige-lhe a palavra. João de Évora entra na conversa e granjeia simpatias pelo que conta de Paris. Este interlocutor e João de Évora ficam sós depois que os populares se retiram.

Tomado de súbita afeição por João de Évora, o seu recém-conhecido oferece-lhe o seu valimento no Paço, onde ele é benquisto por S. A. e conta-lhe a origem deste valimento: Em 1475, no ano do casamento de D. João II, era este homem, que se chama Vaz Gil, escudeiro de um fidalgo de Évora, que se apaixonara por uma mulher da burguesia de extraordinária beleza mas que debalde requestava. Esta mulher principiou a ser requestada também por muita gente da corte e também pelo próprio D. João, então príncipe, ao qual ela afinal cedeu, recebendo-o muita vez de noite em sua casa. O amo de Vaz Gil, sabendo das visitas nocturnas a Margarida, reuniu uma noite com ele, Vaz Gil e outro escudeiro, homem de prodigiosa força, e postos de emboscada, esperaram o visitador nocturno. Vaz Gil ignorava a jerarquia do homem que estavam esperando.

Noite alta, chegaram três embuçados e a luta travou-se. Vaz Gil fez o que pôde, mas foi rudemente mimoseado com um enorme golpe que, por pouco, lhe decepava uma orelha. Caiu sem sentidos e não soube, senão depois, que os seus companheiros, mais felizes, tinham fugido à aproximação dos guardas e que, passados dias, haviam desaparecido de Évora.

Mestre António, físico do Paço, então judeu, mas que anos depois veio a receber o baptismo, sendo o rei padrinho e servindo-lhe de toalha a própria manga da camisa real, obedecendo às ordens de D. João, que a todos os físicos ordenara que lhe dessem parte de quantos feridos de espada tratassem naqueles dias, denunciou Vaz Gil, a quem D. João mandou chamar e, em vez de o castigar, revelou- se-lhe como o adversário da véspera e recebeu-o como oficial da sua casa, contentando-se apenas em o alcunhar pela enorme cicatriz aberta pela espada do rei e, invertendo-lhe os dois nomes do seu apelido — Vaz Gil de Gilvaz. Desde então gozava Vaz Gil do seu emprego e das boas graças de S. A. e nunca mais ouvira falar do amo, da rapariga, nem dos seus companheiros da briga.

João de Évora agradece e aceita o oferecimento de Vaz Gil e combina encontrar-se com ele no dia seguinte de manhã, ali mesmo na taberna, para ser introduzido na corte, sob os auspícios de tão valente personagem. Pede-lhe instruções para atinar com o convento de Santa Maria do Espinheiro, onde é esperado por um parente seu, e os dois separam-se em cordial amizade.

(Note-se que as portas fecham-se e Santa Maria está fora dos muros)

João de Évora é recebido em Santa Maria do Espinheiro por Frei Domingos, homem de quem recebia todos os recursos de vida e de educação. O frade mostra prazer em vê-lo, mas apesar das boas palavras que lhe dirige, há pouco de afectuoso na voz e na expressão desse homem. Durante a ceia com que recebe o jovem doutor e a que este faz a devida honra, o frade deixa entrever-lhe a ideia de que alguma coisa tem a exigir dele em troca de tantos serviços prestados.

João de Évora conserva no diálogo uma leviandade que exaspera o frade. O frade principia a dar as razões que o levaram a fazer seguir João de Évora a carreira da medicina e associa esta resolução a vagos pensamentos de vingança, que excitam a desconfiança de João de Évora, o qual lhe afirma nunca abusará da sua profissão para fins menos honrosos. O frade ridiculariza as ideias de pundonor e João de Évora começa a achar no frade um ar e expressão diabólicos e francamente lho declara, O frade transige a princípio, mas quando por suas explicações João de Évora parece mais tranquilo, volta de novo à questão e afirma a João de Évora que ele tem uma história que deveria procurar saber e que exige uma vingança. Que a mãe dele fora vítima de um homem que a lançou na miséria e na infâmia e que perseguiu sem piedade todos os membros da sua família. E esse homem ainda vive. João de Évora pergunta-lhe por que o não fez cavaleiro para que pedisse razão no campo a esse homem. O frade responde que era impossível atingi-lo em salto de leão e só em meneios de serpente. João de Évora declara francamente a sua repugnância por vinganças dessa ordem. Frei Domingos responde-lhe ironicamente, que é melhor aceitar a desonra e a miséria da mãe e reprimir o impulso de filho pundonoroso que lhe reclama a vingança. João de Évora pergunta-lhe se sua mãe ainda existe. O frade afirma-lho mas assegura-lhe que nunca ele lhe revelará o nome, sem que primeiro tenha jurado solenemente vingá-la. João de Évora hesita porque lhe repugna o papel de traição que o frade lhe destina. Depois de alguns momentos de luta, o frade concede-lhe tempo para decidir e deixa-o. João de Évora adormece e o frade, vendo-o adormecido, observa-o com desprezo e censura o seu carácter que ele alcunha de covarde. Em seguida encaminha-se para a cela do prior.

O prior do convento era um antigo partidário do Duque de Bragança e mais ainda do Cardeal de Alpedrinha, neste tempo em grande valimento em Roma; apoiara deveras as lucubrações políticas do duque chegando a fazer da sua cela o lugar do conciliábulo dos nobres, mas, como político que era, não concedera confiança nem aprovação à malograda e louca empresa do Duque de Viseu, à qual o astuto amigo do Cardeal D. Jorge não viu alcance político. A entrevista de Frei Domingos com o prior é toda política. Frei Domingos procura ressuscitar o partido da alta nobreza, ferido de morte nas pessoas dos seus mais poderosos representantes. O prior pondera-lhe a inanidade destes projectos. Recorda-lhe a próxima aliança de Castela e Portugal, que vem destruir o antigo elemento em que se firmara o Duque de Bragança. Refere-se à pouca importância dos actuais nobres, uns devotados ao rei que os exaltou, outros incapazes de qualquer acção por covardia e falta de chefe. Frei Domingos lembra D. Manuel. O prior responde que o mais conveniente é lançar sobre outros fundamentos os projectos de resistência. Que a ocasião das revoluções declaradas passou. A decadência da nobreza feudal não é obra de D. João II; e obra do tempo. A classe média julga que a queda do feudalismo é já a aurora de um dia de glória. O principal é fazer-lhe mentida a esperança, deixar cair o feudalismo mas evitar que o municipalismo lhe venha ocupar o lugar. Para isso, é procurar dominar a realeza, sendo a ocasião propícia para o clero dominar.

Estava a declinar o reinado actual. Precisava-se de paciência para contemporizar e ir fazendo a sementeira para o reinado futuro. D. Afonso era um ânimo fraco e fácil de vencer. Convinha segurá-lo. D. Manuel, personagem de influência, que bem podia tomar um dia o caminho do trono, era também uma presa que se não devia perder de vista.

A grande influência do cardeal em Roma, o aumento de poder que ia cada vez mais tomando a inquisição, preparavam o terreno.

Frei Domingos, lembrou se não conviria antecipar os acontecimentos apressando o reinado do fraco. O prior, como prudente, iludiu a pergunta e recomendou a Frei Domingos que, como director espiritual de Justa Rodrigues, ama de D. Manuel, procurasse dominar o espírito do duque. Frei Domingos aludiu, sorrindo, às inclinações do duque para a corte de Castela e em especialidade para alguém dessa corte que em breve estaria em Portugal (primeira alusão à paixão de D. Manuel pela infanta D. Isabel). O prior acolheu com um sorriso favorável a alusão e aconselhou que se não perdesse de vista e, por sua vez, dá informações sobre o carácter fanático da infanta. O frade retira-se da cela do prior e, a sós, mostra um soberano desprezo por todas estas vistas políticas, das quais ele procura servir-se como instrumentos da sua vingança particular.

No dia seguinte ergue-se João de Évora, ainda preocupado pela conversação que tivera com o frade na véspera, mas, por disposição natural, resolvido a distrair-se, toma o caminho da cidade para comparecer no lugar marcado a Gil Vaz. No entretanto não adopta resolução alguma enquanto à proposta do frade.

Meio distraído, acha-se à porta da Sé (ou S. Francisco) onde entra a fazer oração. Impressões que recebe no interior deste templo. Ora com fervor para que Deus decida na sua consciência a luta que as palavras do frade nela despertaram e lhe mande a inspiração. No momento em que está ajoelhado, passam por ele Marta e D. Briolanja.

Sensação que lhe causa Marta e o sentido misterioso que liga às palavras que ela ia dizendo a sua tia. Levanta-se, segue-a até à porta e avança, colocando-se de lado para a ver passar. Marta repara no ardor com que ele a fita e baixa os olhos. Afagos de Marta a uma criança pobre. João de Évora, obedecendo a um impulso irresistível, cobre de beijos a criança que Marta afagara. Confusão de Marta. João de Évora propõe-se segui-la. Nisto dobram a esquina três cavaleiros que cortejam Marta, descendo um do estribo para lhe falar. João de Évora fita-o com despeito, que não passa despercebido pelos dois outros cavaleiros, que se sorriem e comunicam entre si. Quando Marta continua o seu caminho, João de Évora, que a vai seguir, é impedido pelos três cavaleiros, um dos quais o interroga impertinentemente (era o que falara a Marta). João de Évora responde-lhe com soberba, dizendo-lhe que «as cabeças dos vilões andam mais elevadas desde que principiaram a rolar pelos cadafalsos e nos desvãos de janelas as dos fidalgos e cavaleiros». Esta alusão ao suplício do Duque de Bragança e assassínio do Duque de Viseu, fez empalidecer o cavaleiro aparentemente mais moço, enquanto que um dos outros levou com ímpeto a mão à espada e correu para João de Évora. Aquele, que parecia exercer alguma autoridade nos outros dois, sustém-no e murmura-lhe algumas palavras ao ouvido, fitando em João de Évora um olhar de orgulho soberano. Neste momento desembocava de uma outra rua uma guarda de ginetes comandada por Fernão Martim Mascarenhas, o qual fez respeitosa cortesia aos três cavaleiros. João de Évora, ainda na posição defensiva que o gesto do fidalgo lhe fizera tomar, saiu da sua abstracção à voz de um homem que lhe falava da porta de uma casa junto da qual se ia dando o conflito. Este homem aconselhava-lhe se aproveitasse da distracção ocorrida para sair do campo que a sua imprudência lhe tinha tornado perigoso. João de Évora reconhece no monitor André Girarte, o taberneiro da véspera. Interroga-o sobre o sentido das suas palavras e dele sabe que dos três cavaleiros, um é o Duque de Beja, D. Manuel, irmão do Duque de Viseu, assassinado pelo rei em Setúbal, os outros, D. João e D. Nuno Manuel, filhos de Justa Rodrigues, a ama de D. Manuel e ambos íntimos do duque.

João de Évora segue o aviso de Girarte e entra na taberna, a qual era de mais a mais o ponto de reunião marcado por Gil Vaz. Este não se fez esperar e, alegando para desculpa da demora de alguns minutos as suas ocupações no Paço, onde a proximidade das festas do casamento do príncipe traz tudo atarefado, põe-se à disposição de João de Évora para o servir na sua introdução na corte. João de Évora em vão procura saber dele quem seja a desconhecida da Sé; as suas indicações, bastante vagas, a nada conduzem o espírito preguiçoso de Gil Vaz.

Gil Vaz entra com João de Évora no Paço. Grande movimento de pajens e cavaleiros nos corredores e antecâmaras. Impressões de João de Évora. Gil Vaz serve-lhe de cicerone, mas João de Évora vai sus peitando que a sua importância na corte não é tão grande como ele dava a entender. Afinal Gil Vaz aproximou-se de um pajem muito moço e de aspecto agradável e maneiras corteses e procurou servir-se do seu intermédio para abrir a João de Évora o acesso do gabinete real.

Este pajem é Garcia de Resende, então moço de câmara do rei. Garcia de Resende manifestou a opinião de que seria difícil naquele dia receber audiência, porquanto o rei está muito ocupado. Que está tratando com Martinho de Castelo Branco e Henrique de Figueiredo dos grandes preparativos da festa, dos quais Garcia fala com volubilidade de pajem e entusiasmo de mancebo e que além disso tinham vindo noticias de Aveiro de que a infanta D. Joana estava mui gravemente doente e que por isso S. A. tencionava ouvir em seguida mestre António para irem vê-la ao convento alguns dos médicos da corte. Que depois tinha o rei de conferenciar com o seu conselho a respeito de negócios de África, dizendo-se que se tratava de tomar Targa e Camice, sendo a empresa confiada a D. Fernando de Meneses. Gil Vaz perguntou se mestre António já tinha chegado, respondendo Garcia de Resende que já há muito aguardava o rei no gabinete particular. Nisto os porteiros anunciam o rei que atravessou a antecâmara, dirigindo a palavra a alguns nobres. Impressões de João de Évora.

Passado algum tempo sai da câmara mestre António. Gil Vaz aproxima- se dele e apresenta-lhe João de Évora. Mestre António, a princípio distraído, atende com deferência João de Évora desde que o sabe doutor em Paris; pratica com ele sobre algumas notabilidades médicas da Universidade e promete-lhe o seu valimento. Em seguida, como se lhe ocorresse um pensamento, pergunta-lhe se tem alguma dúvida em sair por alguns dias de Évora, numa comissão que o pode adiantar no favor real. João de Évora, não obstante se lembrar da sua desconhecida, não se atreve a recusar. Mestre António diz-lhe então que tendo de partir para Aveiro para observar a infanta D. Joana, que se dizia em perigo de vida, fora encarregado por el-rei de escolher, além do Dr. Lucena, físico-mor, um outro físico de confiança que o acompanhasse e que ele iria dar parte a el-rei da sua escolha de João de Évora se este aceitasse acompanhá-lo. João de Évora aceita e agradece.

Mestre António volta à câmara real e traz a concessão do rei.

Gil Vaz, orgulhoso pelo resultado da sua intervenção, convida João de Évora para jantar em casa de um amigo. Mestre António combina para o dia seguinte a partida.

No entretanto D. Manuel e os seus companheiros continuam cavalgando até saírem as portas da cidade e procuram os arrabaldes. Conversam com familiaridade sobre o encontro com João de Évora e pretensões do povo, sobre algumas lendas que certos pontos de Évora lhes fazem lembrar. A qualquer alusão sobre as próximas festas anuvia- se o rosto de D. Manuel. Chegam a uma casa dos arrabaldes. É a casa de Justa Rodrigues. Entram. Justa recebe-os com alegria e na conversação revela as suas tenções de se retirar do mundo e encerrar- se no convento que projecta edificar. Frei Domingos aparece na sala e saúda D. Manuel. Este mostra-se constrangido na presença dele.

Justa retira-se. A conversa declina para uma feição política, procurando o frade e os filhos de Justa instigar o ânimo do duque para tomar a direcção da resistência às pretensões da monarquia. O duque mostra reserva e prudência. O frade alude aos boatos da próxima morte da infanta D. Joana e que depois desse acontecimento D. João II tencionava chamar à corte o seu bastardo D. Jorge, ainda em poder de sua irmã, para o ter mais próximo dos degraus do trono, para que, dado algum caso imprevisto, possa tolher o passo a alguém que S. A. não gostaria de ver sentar-se nele. D. Manuel não pode inteiramente ocultar o seu desgosto ao ouvir isto. D. João e D. Nuno clamam contra as pretensões reais. O frade fingindo tranquilizá-los, lembra, hipocritamente, que o próximo casamento do príncipe D. Afonso tirará toda a importância à medida, assegurando um herdeiro directo ao trono.

O tiro não errou o alvo porque D. Manuel, mal podendo reprimir a sua comoção, chega a soltar algumas palavras imprudentes que a chegada de Justa Rodrigues lhe faz reprimir. Justa vê o duque abatido e procura alentá-lo com a esperança de um brilhante futuro, que é nela um presságio. O duque mostra que a posição que ocupa, rodeado de suspeitas e vigilâncias, lhe não deixará nunca abalançar-se a grandes empresas. Justa diz-lhe que tenha fé na sua estrela. Frei Domingos, entrando na conversa, pergunta se D. Manuel já consultou o célebre astrólogo judeu que vive junto a uma das portas da cidade, mais afamado que o próprio Galeotti (?) é um verdadeiro profeta. Excita ao duque e aos fidalgos o desejo de o consultarem e sai.

Frei Domingos, deixando os nobres em casa de Justa Rodrigues, foi procurar o astrólogo judeu. A habitação deste não desdizia nada da pragmática astrológica. O frade entra como para consultar o astrólogo ; mas, sentando-se, principiou a blasonar de céptico e a ridicularizar a ciência do sábio. Este irrita-se. O frade mostra-se conhecedor de alquimia e de astrologia judiciária e revela-se ao astrólogo como um competidor respeitável. Este pergunta-lhe o que o levou a procurá- lo. Frei Domingos responde-lhe que a vontade de lhe prestar um serviço. Pergunta-lhe o astrólogo qual. Frei Domingos diz-lhe que lhe vem ler o horóscopo. O astrólogo dispensa-o. O frade insiste e diz-lhe que ele também possui a ciência judiciária e que esta prevê que o astrólogo está sob uma fatal influência e que ao longe avista o clarão da fogueira com que se castigam os heréticos. O astrólogo, judeu refugiado de Castela, perturba-se e olha com suspeita para o frade. Este tranquiliza-o assegurando que está para com ele nas melhores intenções e que a prova é vir ensinar-lhe novos e mais seguros processos astrológicos do que os da antiga ciência. O astrólogo desconfia que alguma tenção oculta trouxe o frade ali e prepara-se para escutá-lo.

Este aconselha-o a que não fite tantas vezes os astros, mas que procure achar a previsão dos acontecimentos humanos nos sinais terrenos.

Que escute mais os homens como melhores guias e conselheiros para formular os seus vaticínios. Que, por exemplo, não despreze os avisos, ainda dos mais humildes. Que se ele um dia viesse dizer-lhe que três nobres, disfarçados, tencionavam procurá-lo numa certa noite, todos ambiciosos mas prudentes e dissimulados e que a dois podia, sem receio de desagrado, predizer honras, grandezas e favor real, sendo provável que o futuro não deixasse muito mentiroso o vaticínio, mas que a um, ao que trouxesse por exemplo um anel de esmeralda, o futuro devia ser mais prometedor, elevá-lo, elevá-lo ao mais alto, não duvidando para isso derrubar alguns obstáculos que lhe tolhiam o passo, aos últimos degraus—sem dizer a maneira como — deixando apenas entrever que um pouco de boa vontade da parte do consultante, alguma condescendência para com os amigos, facilitaria o acesso. Que procedendo assim se faria uma astrologia menos visionária.

O astrólogo compreendeu o frade e prometeu aproveitar a lição. Frei Domingos retira-se. O astrólogo, como para se vingar da superioridade que o frade assumia sobre ele, disse-lhe à saída, que, enquanto ele falara lhe estivera lendo o horóscopo. Frei Domingos pergunta-lhe com desprezo o que tinha descoberto. — Que a vossa cabeça anda arriscada, reverendo nono—foi a resposta do astrólogo, dita com uma simplicidade velhaca. O frade encolheu os ombros coro desdém e prometeu voltar.

Segundo o frade tinha predito os três nobres não faltaram à consulta do astrólogo. Este, avisado por Frei Domingos, preparou-se para os receber, fingindo ignorar que debaixo das capas de cavaleiros se ocultavam três grandes personagens. Promete a D. João e D. Nuno um futuro de glória, de poder e de valimento real. D. João afecta descrença e numa frase dá a conhecer a D. Manuel a causa, que é o seu pouco valimento com D. João II. O astrólogo fala num reinado em que os abatidos serão exaltados, os expatriados restituídos à pátria e honradas as memórias dos condenados. A predição do judeu causa sensação e D. Manuel, ao adiantar-se para ouvir o seu horóscopo, tremia. O judeu permanece por muito tempo silencioso ante a contemplação dos astros, depois volta para D. Manuel os olhos espantados e fita de novo os astros.

Em seguida mostra-se confundido e hesita em formular a sua predição.

D. Manuel insiste. O judeu diz-lhe que o vê subir a um ponto tão alto que mal acredita em seus olhos, que o que é impossível se realiza, que todos os obstáculos se aplanam no caminho, que os que julgaram ferir a árvore só deram mais vigor ao novo rebento, que ele seria o Venturoso, pois que ambições de poder, de glória, de riqueza e até de amor, tudo realizaria; que o mundo se alargaria para se lhe submeter ao seu império, que o seu nome voaria a partes ignoradas e que a paz sorriria (?) à sombra do seu manto real. D. Manuel pálido, interrompe o judeu, ao ouvi-lo pronunciar esta profecia, perguntando-lhe se sabe quem ele é. O astrólogo responde que o ignora mas que os astros falam claro e que mostram nele um rei. Os nobres retiram-se impressionados e D. Manuel recompensou generosamente a predição do astrólogo. Quando eles saem o astrólogo abre um gabinete onde o frade se ocultou e pergunta-lhe, sorrindo: — Que dizes da profecia?— Representais optimamente, mestre, Dir-vos-iam verdadeiramente inspirado.

Transporta-se a cena ao paço e à câmara de D. João II. O rei está encostado, consultando um livro de onde transcreve nomes para um rol. Em pé, por detrás da cadeira real, está Garcia de Resende, com uma pena molhada em tinta, pronta para substituir aquela com que S. A.

escreve desde que esta seque. D. João mostra-se preocupado no trabalho.

Como Garcia desviasse o rosto para não ler o que o rei escrevia, não lhe deu a pena a tempo. S. A. repreendeu-o e mandou-o olhar, que não se trigava (?) dele e diz-lhe que terminara a lista dos oficiais da casa do príncipe, escolhendo-os do livro particular em que se registam os homens que são para os ofícios e que o incluíra a ele Garcia de Resende. O pajem mostra-se sentido por ter de deixar o serviço de S. A. e abandonar o Paço. O rei fala-lhe afectuosamente e diz- -lhe que o continuará a proteger e que vivendo D. Afonso juntamente com ele rei, não terá Garcia de sair do Paço. D. João II, cansado de trabalhar, recosta-se numa cadeira de braços e convida Garcia de Resende a cantar-lhe algumas canções. Garcia canta. O rei faz algumas observações sobre a importância da poesia, afirmando o muito apreço em que tem a arte. Garcia faz ao rei a confidência de que também compõe. O rei deseja ouvir-lhe as suas produções. Garcia obedece. O rei aplaude-o e faz-lhe os maiores elogios, falando dele com louvor Rui de Pina, que entra na câmara, e põe a par os seus méritos de cronista e de trovador.

Rui de Pina chama a atenção do rei para os negócios sérios e de política. Fala-se do casamento e da paz com Castela. Alude-se aos reparos de Castela em quanto às fortificações na fronteira. Combina-se a resposta. Em seguida entram Henrique de Figueiredo e Martinho de Castelo Branco. S. A. dá algumas instruções para as festas do casamento.

Antão de Faria vem depois com o prior do Crato e Fernão Martins de Mascarenhas; fala-se em negócios de política em África, França, Roma e Inglaterra, na doença da infanta D. Joana e probabilidades da sua morte. O rei manifesta a vontade de educar na corte D. Jorge.

Observações do prior do Crato sobre a repugnância da rainha. Antão de Faria aconselha S. A. que procure a rainha e cavalheiramente lhe peça para receber o bastardo. Depois de algumas hesitações S. A.

adopta o conselho. O rei fica só com Antão de Faria. O privado é mais explícito agora, desvanece ao rei os receios que podia ter de encontrar da parte da rainha uma resistência que o humilhasse. A existência em Évora de uma filha natural do Duque de Viseu, que a rainha e D. Manuel, irmão do duque, para subtraírem à perseguição, que receiam do rei, fazem educar como filha do antigo médico da infanta D. Beatriz, sua mãe, torna a rainha cautelosa e pouco disposta a exacerbar o ânimo de seu esposo. Antão de Faria, há muito ao facto da existência daquela filha natural de D. Diogo, comunicou o segredo ao rei que, fingindo ignorá-lo, principiou a encher de honras e distinções o Dr. Lucena, a ponto de o atrair a si e, a pretexto desta protecção encarregou-se de lhe casar a filha com um dos pajens de sua casa muito favorito de S. A. Estas vistas contrariavam muito a rainha e D. Manuel, o qual favorecia as aspirações de D. João Manuel, colaço do duque, à mão da filha de D. Diogo e viam no casamento, que S. A.

premeditava, uma aliança desigual. O rei sabia-o, o que mais o fazia insistir no seu projecto. Despedindo Antão de Faria, o rei mandou, por Garcia de Resende, parte à rainha que a iria procurar e chamou Antão de Figueiredo, moço do guarda-roupa, para que o vestisse. Era este o noivo destinado por S. A. à filha suposta do Dr. Lucena. Era um rapaz cheio de vícios que, por uma destas singularidades frequentes nos homens mais severos, era muito predilecto do rei, com quem tinha grande familiaridade. Antão de Figueiredo tardou em responder ao chamamento do rei. S. A. repreendeu-o. O pajem defende-se secamente.

O rei, vestindo-se, pergunta-lhe o motivo do seu desgosto.

Queixa-se o pajem de que S. A. sendo ele tão bom servidor, não lhe dava mais que 1500 rs. de moradia, sem tença nem outra coisa.

O rei, sorrindo, pergunta-lhe quem lhe sustenta seis homens de capa, seis moços, quatro escravos e duas escravas brancas e dois ginetes e duas azémolas? Ao enleio de Antão, o rei acrescentou que se calasse que ele dispunha do seu guarda-roupa para tudo porque ele lhe fazia disso mercê e não porque o ignorasse; portanto não tinha razão de queixa por não receber mais tença. Acabando de vestir- se tomou a direcção dos aposentos da rainha.

Antes de receber o aviso da visita do rei, a rainha estava só com uma das suas mais intimas damas. Adormecida, com a cabeça sobre os joelhos da rainha, está a filha de D. Álvaro de Bragança, que ficou em Portugal e foi sempre educada na corte. A rainha afaga tristemente a cabeça da criança e suspira. A dama interroga-a por esta tristeza.

A rainha diz que esta criança lhe faz sempre pena; que a acha triste por dormir assim sobre um regaço real. As feridas que as últimas lutas do rei e dos nobres abriram no coração da pobre princesa não fecharam ainda; ainda estão iminentes as lágrimas pela sorte desgraçada de seu irmão e dos seus, lágrimas que diante do esposo, que deveria ser o confidente das suas penas, ela tinha que reprimir.

Lamenta a realeza; sem ela não teriam tido lugar as cena3 que lhe despedaçavam o coração. Recorda-se de que um destino fatal parece pesar sobre a sua família. Lembra-se dos infortúnios da rainha Isabel, mulher de Afonso V, da época de lutas e dissensões em que se fez o casamento com D. João e, chorando, lamenta não ter a obscuridade de uma aldeã. Em seguida tira do seio uma carta de sua mãe, a infanta D. Beatriz, que lhe fala no filho natural de D. Diogo, que vive obscuramente em Pinhel e lhe pede que vigie sempre por D. Manuel e por a filha natural a que já nos referimos no capítulo antecedente.

Mostra a incerteza das suas acções. Vê essa pobre rapariga próxima a ser sacrificada à vontade de el-rei e nem ousa manifestar a sua opinião e o seu interesse por ela, com receio de excitar desconfianças.

É neste momento que recebe o aviso da visita do rei; oculta apressadamente a carta da infanta e acorda a criança para que vá ao encontro do rei a beijar-lhe a mão.

D. João II entra no aposento da rainha com o sorriso nos lábios; depois de afagar a criança, que lhe beija a mão, corteja a rainha, senta- se junto dela e informa-se com interesse da sua saúde. Diz-lhe que a sua ocupação nos preparativos da festa lhe impediu de a visitar mais cedo. Dá-lhe conta de alguns projectos meditados para os festejos e pede-lhe mesmo um conselho. Diz que tenciona permitir o uso de sedas e pergunta à rainha se já viu as que têm chegado do estrangeiro.

Encaminhando a conversa para o assunto que o trouxe ali, manifesta o receio de que algum desgosto venha transtornar estas festas, pois que as notícias vindas de Aveiro a respeito da saúde da infanta são más. A rainha mostra-se sinceramente sentida. D. João, ponderando os resultados daquela morte, menciona o nome de D. Jorge. A rainha não pôde reprimir um movimento de desgosto que o rei finge não perceber. Continua, pedindo desculpa à rainha por se referir a um assunto de antigas dissensões conjugais, felizmente hoje acabadas, .

mas que, enfim, é pai e como tal não pode ver sem apreensões a pobre criança privada do benéfico carinho da sua santa irmã, D. Joana; que, confiando no ânimo generoso da rainha, ousava vir pedir-lhe que abrisse os braços àquele pobre órfão, que ia ficar sem as caricias de uma mulher de que tanto precisava. A rainha não pôde suster as lágrimas à ideia do sacrifício que se exige dela e lembra a D. João que ela lhe supõe um coração diferente do coração humano; que já sacrificcu muito à realeza, as saudades, a afeição fraternal e o orgulho de esposa; pede-lhe que a não sujeite a uma nova humilhação. D. João afirma-lhe que não se humilha perdoando nobremente antigas culpas e estendendo a mão a uma criança, que a não ofendeu. — E julgais que lhe posso abrir o coração também ? — exclama a rainha. O rei diz-lhe que sim, porque lhe conhece a generosidade e depois, como exemplo, mostrou como ela trata em sua casa a filha de D. Álvaro, de quem recebeu muitas injúrias e que de Castela ousou escrever-lhe uma carta insolente.

A rainha não pôde deixar de perguntar-lhe por que não estende a mesma generosidade ao bastardo de Portel (primeiro do Duque de Viseu). D. João, já menos bondoso, responde-lhe que pela tranquilidade do reino; que a infanta D. Beatriz (perdoasse-lhe falar assim de sua mãe) tinha já dado provas de leveza, deixando apoderar-se a cabeça de seu filho de ideias loucas que lha perderam; que, por felicidade desse bastardo, julgava bom arredá-lo dessas influências perigosas.

Por isso achara aplicável a receita que a infanta e os reis de Castela em tempo aconselhavam para seu filho D. Jorge. A rainha observa-lhe que, para quem vem pedir o esquecimento, ele se mostra muito lembrado.

D. João afirma que sabe esquecer e não hesita em fazê-lo quando só tem a sacrificar o seu orgulho. Que às vezes chega a ser demasiado confiado. Acaso manifestou alguma má vontade contra D. Manuel? Não o educou junto de si, não lhe deu aumento e riqueza? — o que o não impede de conspirar um pouco, acrescenta sorrindo. A rainha defende o irmão, dizendo injusta a acusação. O rei tranquiliza-a dizendo que é leve o pecado do duque, apenas o de escutar às vezes, com complacência, as lisonjas de certos amigos imprudentes e não afastar de si alguns visionários perigosos; mas que confia no bom senso e juízo do duque, que não dará passo algum que o comprometa. Enquanto a chamarem-lhe cruel, repare a rainha que nem para todos os bastardos da família dele, ele se apresenta como perseguidor. A insinuação, que parece referir-se à filha do Duque de Viseu, aterra D. Leonor, que em vão procura ler no rosto de el-rei o sentido daquelas palavras.

D. João repete o pedido de chamar à corte D. Jorge. A rainha, ainda atemorizada com o que ouvira, acede, acrescentando que ele será o companheiro de jogos de Beatriz, a filha de D. Álvaro. D. João beija a mão à rainha, com tanta galantaria e afecto que a comove até às lágrimas.

• Nisto entra na sala D. Afonso. É ainda muito moço, formoso, mas efeminado, traja com um apuro excessivo cetins e arminhos e em tudo mostra delicadeza. Aproxima-se do rei e da rainha e corteja-os com respeito, mas ao mesmo tempo com certa petulância de filho amimado.

A rainha olha-o com amor. D. João, que o viu entrar, acolheu-o com um olhar de profundo afecto, mas com uma certa severidade perguntou- -lhe, apontando para o cinto desarmado, onde tinha deixado a espada? D. Afonso sorriu e respondeu que achava impróprio do trato doméstico uma arma de ofensa ou defesa, quando se vivia em completa harmonia.

O rei recorda-lhe que já mais do que uma vez o encontrara desarmado e que, para um futuro rei de uma nação, que conquistou, palmo a palmo, o solo que ocupa e que vai, dia a dia, alargando à custa do sangue dos infiéis, é uma triste garantia. D. Afonso observa ao rei, com certa confiança, que ele não tem culpa em ter nascido em época de menos guerras e cavalarias e que talvez a sua pouca tendência para as armas provenha de ter visto, quando começava a fazer uso da razão, infringirem-se as regras de cavalaria na pessoa de D. Joana de Castela que se sacrificara ao bem do estado, o que mostrava que essa devia ser a razão principal das acções de um rei. D. João II mostrou- se irritado com a atrevida alusão do filho. A rainha interveio sorrindo, lembrando a D. Afonso que esse acto político lhe preparara a felicidade, assegurando-lhe o próximo casamento na casa de Castela.

— Não sou eu que o censuro! — exclamou o príncipe. — Vejo antes nele uma justificação do meu amor pela paz, cujo reinado chegou.

O rei, mais severo, replicou que o amor pela paz obriga muitas vezes à guerra e que não é cuidando de enfeites e galas próprias de mulheres que os grandes reis se formam. D. Afonso pergunta ao rei qual a razão por que ele repreendeu um dos moços da sua câmara por usar espada, sendo criança. — Porque não quero vê-las empunhadas por quem as não saiba honrar, brandindo-as. Espero que o meu filho não esteja neste caso e não esqueça que é neto de Afonso V, do Infante D. Pedro, de D. João I e que da sua idade fui eu armado cavaleiro na mesquita de Arzila, onde combati ao lado dos mais valentes. — Visivelmente irritado, D. João retirou-se recomendando a rainha que se esforçasse por criar um rei como o povo havia mister.

A rainha, ficando só com o filho, chama-o para junto de si. Afonso senta-se-lhe aos pés em um tamborete raso. A rainha passando-lhe a mão pelos cabelos, censura-lhe os modos de acolher as observações de el-rei. Afonso desculpa-se, perguntando se seu pai o desejaria ver de armadura e viseira calada ao vir receber as bênçãos de sua mãe.

A rainha sorri com complacência, mas adverte-o que o rei vê com desgosto o muito cuidado que o príncipe dá aos enfeites, que D. João é inimigo de homens efeminados, que olha para a companhia que D. Afonso mais frequenta, com desgosto visível. Afonso defende os seus amigos. Prosseguem estes conselhos maternais e terminam por a rainha dar o seu parecer sobre o costume que D. Afonso tenciona usar por ocasião das festas e sobre os lenços bordados de que S. A.

usa e contra os quais tinha acabado de falar, contando o que o rei dissera a um fidalgo que os usava.

Anuncia-se D. Manuel. A rainha recebe o irmão com evidentes sínais de afecto. Pede-lhe, sorrindo, que venha em seu auxílio para fazer do príncipe um homem, comunicando àquela cabeça leve um pouco do seu juízo. O duque responde em favor de D. Afonso. Este agradece, e acrescenta que o duque alguma coisa tem na consciência que lhe não permite aceitar os gabos da rainha. A razão desta alusão é que o príncipe, que desde já podemos dizer o raptador da judia Ester, julgou que esta era amante de D. Manuel, por mal interpretadas informações colhidas. D. Manuel não entendeu o verdadeiro sentido da alusão e fitou o príncipe, não ousando acreditar e ao mesmo tempo receando, que ele pudera referir-se ao mais recôndito segredo do seu coração, ao seu amor a Isabel de Castela, que sentia desde criança quando a vira em Moura nos tempos das Terçarias. No entretanto, o príncipe, sempre inquieto, levantou-se para brincar com Beatriz, que adormecera no berço, passando-lhe pelas faces a ponta de um lenço ao de leve.

D. Manuel, aproximando-se da rainha, perguntou-lhe se era verdade que el-rei tencionava chamar D. Jorge à corte. A rainha respondeu- lhe afirmativamente. — E V. A. consente? — disse D. Manuel com desgosto, — Assim é preciso. — Sempre humilhações, exclama D Manuel, suspirando. D. Leonor recorda-lhe que eles têm alguém a proteger e que por isso convém não irritar el-rei, contrariando-o.

D. Manuel diz à rainha constar que D. João tencionava apressar o casamento de sua sobrinha Marta com Antão de Figueiredo. Também se lhe consentiria isso? A rainha promete opor-se formalmente. Nisto Beatriz queixa-se de D. Afonso. A rainha repreende o filho e pede a D. Manuel que se retire com ele. Depois de a cortejarem saem os dois.

Pelo corredor que conduz aos aposentos do duque, D. Afonso, apoiando-se no seu braço e precedido por pajens com tochas e seguidos por oficiais de armas em riste, vai conversando com D. Manuel, queixando-se das injustiças de opinião que lhe atribui a ele príncipe, uma cabeça estouvada, em quanto que muito levianamente concede a D. Manuel uma prudência e sisudez, que em parte é simulada.

D. Manuel sorri e pergunta-lhe em que fundamenta o seu modo de pensar. Afonso responde vagamente, referindo-se por obscuras alusões à desconhecida de Almeirim que ele diz estar agora"»mais perto do amor que a procura. O duque julga que D. Afonso suspeita alguma coisa do seu secreto amor pela princesa e confunde-se. Esta confusão aumenta o bom humor do príncipe que se despede do duque, rindo de boa vontade.

Filipe do Casal, um dos oficiais que mais de perto seguia os reais parentes, pôde ouvir a conversa dos dois e por ela ficou suspeitando ser D. Manuel o raptador.

D. Afonso seguiu até chegar aos seus aposentos. Aparência destes ; o luxo. A corte de D. Afonso é demasiado jovial. Todos elegantes, moços e estouvados. D. Afonso entretém-se com eles de aventuras amorosas. Referem-se a Ester, que se sabe estar em Évora.

Afonso mostra-se enfadado dela e julga conveniente, atendendo ao seu próximo casamento, livrar-se de todos os laços importunos. Antão de Figueiredo, um dos mais afeiçoados ao príncipe, pede-lhe autorização para se encarregar dessa empresa. O príncipe sorri e lembra-lhe que ele está igualmente em vésperas de casar. Antão encolhe os ombros respondendo que lhe pesam pouco esses laços e não receia que o estorvem.

Depois de alguma discussão, organiza-se um bando para irem tentar a empresa de remirem o príncipe das ligações amorosas que o prendem. E com a maior alegria saem do quarto para se espalharem pelas ruas de Évora,

(Fim do programa do 1.° volume)

Esboço de um programa para o conto A vida nas terras pequenas.

Cap. I — Quem eram Estêvão e Adelina. Motivos da sua partida para a vila de Meloais do Duque. Sentimentos de um e de outro.

Cap. II — A chegada. Aspecto da vila. Comentários do público.

A casa. A vizinhança. A senhoria. Visita do boticário e da sua gente.

Reflexões de Estêvão e de Adelina.

Cap. III — Estêvão é levado pelo boticário à câmara. O presidente.

Vítor de Ansão e o que se diz dele. Desilusões de Estêvão.

Estêvão entra em exercício.

Cap. IV — A visita da família do administrador. Tipos. Conversação.

O reverso da medalha. Fala-se no presidente, no boticário e em Vítor de Ansão. Convite. Comentários da vizinhança.

Cap. V — Os serões de Estêvão. Uma tentação. Catequese inconsciente de Adelina, Resoluções de Estêvão. Na botica.

Cap. VI — A visita ao boticário. Confidências de Matilde e Adelina.

Conselhos desta. Despeitos de Joana. Procedimento de Estêvão. Joga-se o quino. Murmura-se do administrador. Reflexões dos irmãos em casa.

Cap. VII — O serão em casa do administrador. A família. O delegado.

O juiz e Eurico. Charadas e recitação. Murmura-se do presidente e do boticário. Oposição ao clube. A Sociedade Filotécnica.

Oferecimento a Estêvão. O doutor Venceslau e os sonetos.

Cap. VIII — Clínica de Estêvão. Em casa da moleira. O cónego e a viúva. Entrevista com Joana. Conselhos de Estêvão. Desfeitas de Matilde. Desgosto de Estêvão contra o boticário.

Cap. IX — No clube. O que se diz de Estêvão. Desgosto do presidente...

Adelina encontra Vítor em casa da moleira. Carta de Vítor a Estevão pedindo-lhe para deixar voltar a irmã, que ele não voltará.

Carta anónima a Adelina participando-lhe os sacrifícios de Estêvão.

Resolução de Adelina. As jóias vão parar às mãos de Vítor. Suspeitas de Estêvão. Vítor convence o Dr. Venceslau a deixar-se operar.

PERSONAGENS

Adelina — Dezoito anos, bondosa, sem afectação. Cheia de boa fé para com todos. Passando através do mal e das intrigas sem suspeitar- lhe a existência. Confia no irmão como num herói.

Estêvão — Espírito honesto, mas não entusiasta. Incapaz de uma paixão extrema; mas com o coração amoldado para sentimentos brandos, O amor fraterno é o mais ardente afecto que lá encerra. Pode sacrificar-se mas reflectidamente ou como obedecendo a um dever e não por irresistível impulso de entusiasmo. Não forma sonhos dourados nem ambiciosos. Homem para transigir com o mundo tal como ele é.

Vítor de Ansão — Rapaz de excelente educação e hábitos da moda. Vive na província porque os seus teres não lhe permitem viver em Lisboa. Convive pouco, É mais entusiasta do que Estêvão; mas exigente em relação ao futuro. Pouco dissimulado. Mais querido entre a classe baixa do que entre a média, que, não obstante, se lisonjeia sempre que lhe merece atenções, o que raras vezes sucede.

Estouvado nos seus primeiros dias da mocidade.

D. Roberta de Ansão — Senhora de fina educação e profundo bom senso. As provações da sua vida têm-lhe dado uma têmpera de tolerância e uma repugnância à convivência que perfeitamente se identifica com o génio de Vítor, por quem é extremosa.

Baltasar — Boticário. Génio vivo e forte, fácil em encolerizar-se.

Homem político e a alma do presidente da camara. Exerce descaradamente a medicina e promove guerra aos médicos que lhe vão nisso, à mão. Gosta de fazer ostentação da sua liberalidade. Descura um pouco a farmácia.

D. Maria do Céu — Mulher dele.. Tipo de burguesa faladora, curiosa e maledicente. Exaltando a importância do marido, mas sempre deixando entrever que é de procedência superior à dele; mas que não olhou a isso porque a verdadeira distinção está no saber e na inteligência.

Matilde e Joana — As filhas. Ambas curiosas janeleiras e amigas de namorar. Matilde, de melhor fundo, tem uma afeição sincera pelo praticante da botica, a qual, não obstante temporárias infidelidades, sobrevive sempre no seu coração. Joana é menos ingénua. Aspira a um casamento vantajoso. Odeia mais cordialmente do que a irmã, a filha do administrador, e ambiciona o afecto de Estêvão. Em tempo namorou-a Vítor de Ansão.

Belchior Azevedo — O administrador. Homem muito preocupado da sua posição oficial, falando a todo o momento dos seus ofícios ao governador civil e ao governo. Com pretensões a conhecedor dos negócios públicos e dos usos diplomáticos.

D. Heloísa — Sua mulher. Senhora de educação literária mas sem senso. Preciosa ridícula. Discorre em literatura e pretende que a sua casa seja um grémio literário. Escolheu para os filhos nomes românticos.

Casa bem mobilada, mas sem feição característica.

Julieta — Filha do administrador. Participa um pouco das qualidades da mãe. Aspirações a espirituosa e julga-se muito superior a todas as raparigas da vila. Fala sempre em Lisboa, teatros, etc. Antigo namoro de Vítor de Ansão.

Eurico — O irmão de Julieta. Estudante dos primeiros anos da Universidade. Um pouco pedante com pretensões a falar de tudo com eloquência.

O Zé do boticário — Pobre rapaz que ama sinceramente a filha mais nova do patrão. Aflige-se quando ela lhe é infiel e perdoa-lhe, de todas as vezes, as infidelidades.

Dominguinhos da Praça — Um pateta. Cavalheiro servente de quase todas as meninas da vila. Adivinha charadas figuradas, faz flores de papel, arma e enfeita altares, superintende em todas as funções.

Recita ao piano.

O delegado — Rapaz namorador, cujo maior prazer é conversar com senhoras. Conviva do administrador e sarcástico contra o partido do presidente. Fala muito no seu tio do Supremo Tribunal.

O juiz — Surdo. Apaixonado do voltarete e contando sempre as mesmas histórias.

O presidente da câmara — Criatura cheia de importância e no fundo um parvo, que o boticário move à vontade. Proprietário rico e influente na terra.

O cónego—Velho rabugento e sem contemplações com ninguém.

A viúva — Mulher positiva e metódica.

Dr. Venceslau — Poço de direito rábula. Metrificador de sonetos a propósito de tudo.

O capitão do destacamento — Gordo e comodista.

Adelina — Luta contra o seu amor a Vítor pelo mau conceito em que o fazem ter as intrigantes.

Estêvão — Preocupado com a felicidade da irmã, faz por vencer todas as causas pessoais de desgosto. Só se exalta quando supõe ameaçada a felicidade de Adelina.

Vítor—Deixa-se possuir cada vez mais pelo amor a Adelina, cuja frieza o não aflige.

D. Roberta — Ambiciona que o casamento de Vítor lhe dê mais uma filha e netos que suavizem a velhice. Aprova a escolha do filho e condescende com Vítor em salvar Adelina de -censuras públicas.

Joana — Odeia Adelina quando suspeita do seu amor a Vítor.

Odeia Estêvão por este a haver razoavelmente dissuadido do seu amor.

Julieta — Tem quase os mesmos motivos que Joana.

Baltasar—O seu desgosto contra Estêvão procede da intimação do administrador para se coibir de exercer a medicina e do parecer sobre a criação de porcos.

O. Heloísa — Suspeitas sobre as tenções de Estêvão em relação ao cónego.

A VIDA NAS TERRAS PEQUENAS Dois capítulos de um conto

TINHA vinte e quatro anos Estêvão de Urzeiros quando recebeu, legalmente selado e rubricado, um diploma que o declarava apto para tratar de medicina e de cirurgia em todo o continente, ilhas e mais possessões do reino.

Concluíra, sem prémios nem erres, a sua formatura na Escola do Porto, à custa de alguns sacrifícios do pai, que nesta cidade exercia com escrupuloso zelo um modesto emprego público.

Durante o tirocínio escolar, Estêvão não se apaixonara por a ciência, nem prometera ser homem para a fazer progredir; mas é certo também que não a odiava, nem lhe negava as atenções devidas.

Convivia com ela, como a grande maioria dos maridos convivem com as suas mulheres, sem extremos de paixão mas também sem as tratarem mal.

Meses antes do ultimato dos seus estudos, sofreu Estêvão um golpe, que sobre doloroso que lhe foi para o coração, veio estorvar- lhe com um embaraçoso tropeço os primeiros passos na carreira da vida.

Morreu-lhe quase de repente o pai, deixando-lhe por única herança uma irmã de dezoito anos, tendo por dote bondade e formosura e que, além do irmão, ninguém mais possuía no mundo a quem legitimamente se encostasse.

Estêvão recebeu-a com os braços abertos e as lágrimas nos olhos.

Adelina, que assim se chamava a órfã, desorientada por uma perda que nunca previra, em que nunca pensara, cingiu-se estreita mente ao peito do irmão, onde sentia bater um coração movido por os mesmos afectos que a atribulavam, e a consciência desta simpatia mais lhe engrossava o pranto.

—Não chores, minha pobre Adelina — dizia-lhe Estêvão, tão comovido como ela — não chores que enquanto eu puder...

— Ai, não é o medo do que vem que me faz chorar, Estêvão; é a saudade do que passou. Eu bem sei que tu me protegerás, tu que és tão bom; e se tu me protegeres, que posso eu recear ? Esta ingénua confiança no valor do braço a que se apoiava era sincera na inexperiente criança. E o mais é que ao ouvir aquelas palavras, Estêvão sentia com o simpático orgulho que lhe vinha da consciência da sua superioridade, o alento de uma nobre coragem. Olhou para a formosa cabeça que, para chorar, se lhe ocultou no seio, e convencia- se de que em ser a providência daquela orfandade, no velar, trabalhar, sacrificar-se pela felicidade dela, havia para a alma uma suave e consoladora tarefa, no preenchimento da qual encontraria a melhor recompensa a esperar no mundo; porque, se para cá do túmulo há alguma coisa que se possa chamar Céu e Inferno, é na própria consciência que se encontra.

Não se julgue, porém, que Estêvão não antevia sombras quando alongava a vista pela desconhecida vastidão do futuro.

Antevia-as e bem cerradas! O leitor experiente do mundo não só não estranhará estas apreensões, mas antes será capaz de com antecipação indicar os fortes motivos que Estêvão tinha para senti-las.

É uma época solene a da entrada na vida social.

Até àquele momento teve-se por viver o sonhar. Acorda-se então.

É um segundo nascimento quase; é a transmigração da alma humana para um mundo novo.

E não há-de ela estremecer na passagem? Tendes reparado alguma vez nesses pobres emigrantes que, seduzidos pelos ouropéis de enganosas esperanças, saem meninos das sombras da sua aldeia e vêm, em folgada peregrinação, até ao porto de mar onde os espera o navio que tem de os levar a praias desconhecidas? Antes de verem o oceano, essas imprevidentes crianças vinham alegres, riam, cantavam, sem saudades da sua terra, sem terrores do futuro e suspirando só pelo fim da jornada, que a sua impaciência alonga desesperadoramente. Mas, à vista do mar, dessa imensidade de águas que nunca tinham sonhado; à vista do navio, essa movediça habitação, que por muito tempo vai ser a sua; quando lhes dizem que têm de perder-se como um ponto naquele horizonte vago, indistinto e solenemente monótono, ao grado daquelas ondas irrequietas, baixa-lhes ao coração uma nuvem de tristeza, corre-lhes os membros um estremecimento de receio; assaltam-nos as primeiras saudades, que são para as tristezas do desterro o que os vapores do Outono são para as cruezas do Inverno, chama-os então da aldeia que abandonaram uma voz desvanecida em que se confundem o canto das aves, o ciciar dos arvoredos e o sussurrar das fontes e dos ribeiros.

Assim na vida. Nós todos, iludidos como essas crianças, vimos dos risonhos vergéis da infância, através das floridas e pitorescas veredas da juventude, ansiosos por chegar ao termo da jornada e confiamo-nos às ondas deste oceano do mundo, em demanda de não sei que nunca realizado futuro. Não nos retêm as flores que se debruçam dos caminhos; quando muito, colhemo-las distraídos e sem piedade as desfolhamos, deixando-as no chão murchas e esquecidas, e seguimos sempre com os olhos e com o pensamento no termo da estrada que trilhamos.

Mas ao chegarmos à praia, ao vermos diante de nós as grandes águas e os que nos precederam, em luta já com elas, ora elevando-se- -lhes no dorso, ora engolfando-se-lhes no seio, apodera-se-nos então do coração um certo pavor, fogem-nos dos lábios o riso e o canto e também sentimos as primeiras saudades do passado, as primeiras apreensões do futuro.

Estêvão de Urzeiros achava-se neste momento crítico.

E davam-se com ele circunstâncias que mais crítico o tornavam.

O coração humano, digam o que quiserem os que o taxam de egoísta, desfalece menos ante a perspectiva dos perigos quando é único a arrostá-los, do que quando a tempestade que ameaça feri-lo, atinge também outro a que os afectos o ligam.

O nosso espírito prevê melhor o futuro quando nenhum outro futuro depende dele; concebe e previne melhor as eventualidades, calcula melhor o alcance e a compreensão da desgraça, porque pelo conhecimento que tem de si, pode pressentir o mal que ele lhe causará.

Mas, se mais alguém sofre connosco, como não temos consciência do sentir dos outros, nem podemos antever neles a intensidade do mal, mais nos assusta o pensamento do futuro porque há nele uma maior porção de desconhecido e o desconhecido é o eterno terror do homem.

Estêvão podia fazer entrar como elemento dos seus cálculos do futuro a sensibilidade do próprio coração, mas não a do coração de Adelina.

Deus só sabia até que ponto qualquer sucesso possível afectaria aquela delicadíssima índole feminina.

Isto o fazia receoso.

Depois vinha a natureza da missão social que lhe cumpria desempenhar.

É natural que o confrangimento de coração que à semelhança do actor novel, experimenta todo o homem, ao entrar em cena neste grande teatro da sociedade, seja tanto mais intenso e doloroso quanto maior é a importância do papel que vai representar.

No teatro o actor encarregado de um papel sem importância, de entregar uma mensagem, de anunciar a entrada de uma figura do drama, que não tem de falar ao coração do público, não pode sentir a comoção que sente o protagonista, em quem todos os olhos se fitam, cujas palavras e gestos têm de dirigir-se aos afectos, de excitar a sensibilidade, de desencadear as paixões no público que o escuta.

E, sendo assim, concebem-se mais justificadas e mais angustiosas apreensões do que as do estudante de medicina de ontem a quem a faculdade, em cujo seio viveu descuidado, lhe diz, separando-o de si e impelindo-o às lutas sociais:—«parte, lida; é tempo de experimentares as armas que te confiei».

O que não estremecer nesse momento solene, o que se não sentir hesitante, impressionado por uma íntima desconfiança em si próprio, nas suas forças e faculdades, não é digno de ser médico porque não compreende nem compreenderá nunca o alcance da missão que vai desempenhar.

Na vida que o espera não há afecto humano com que não tenha de confrontar-se, desgraça que lhe não projecte no caminho o seu triste reflexo, interesse que não possa depender dos seus actos, segredo que não possa ser confiado à sua lealdade. Abrir-lhe-ão um dia a porta de uma casa a esperança e as bênçãos; fechar-lha-ão amanhã a ingratidão e as injúrias; recebê-lo-á hoje aqui o desespero, acolá o crime, além a miséria e, como um espectro implacável, lhe surgirá a cada momento a morte, sob formas sempre diversas e sempre pavorosas, cingida com a capela virginal umas vezes, coroada outras pelas cãs de velhice, animada por o sorriso da infância ou sinistra com os vestígios do crime.

Vai pois viver em uma atmosfera de afectos, mover-se no íntimo seio das famílias, onde cada movimento levanta um capricho, magoa um preconceito, agita um interesse ou revolta uma paixão.

O que, sabendo isto, aceita com desassombro a missão, ou não tem inteligência para a compreender, ou possui um carácter de deplorável natureza.

Estêvão não estava em nenhum destes casos. Ao seu carácter faltava-lhe, diga-se a verdade, um elemento dos mais poderosos para, na sua situação, lhe infundir coragem: — a paixão do ideal.

Os que no mundo perseguem esta luminosa visão, esta fada atraente e sedutora, aqueles cujas vistas penetram através do mundo das realidades e além dele, descobrem um mundo novo, o mundo das ilusões e da poesia, sentem-se, ao empreender uma destas tarefas árduas e dolorosas, rodeados de um prestígio que lhes dá alentos e, longe de desanimarem, mais se lhes exalta o ânimo com as provações da vida. Estas frontes humanas parecem ambicionar uma coroa, seja embora de espinhos, que misturem o seu pungir às embriagadoras comoções da glória.

Estêvão, porém, era um homem positivo. A imaginação não lhe coloria a perspectiva com tintas suas; deixava-lhe o colorido real.

Antes da morte do pai, Estêvão, olhando friamente para o futuro, concebera uns projectos que nada tinham de ambiciosos. Contentava- se em estabelecer-se como facultativo municipal em qualquer terra da província e realizar aí um casamento, senão rico, remediado, embora não presidissem às núpcias nem a beleza da noiva nem a intensa paixão do coração.

Ao sentir-se o amparo de Adelina, Estêvão, sem renunciar de todo aos seus projectos, recuou para mais remota época a realização de parte deles e tomou para primeira tarefa a felicidade da irmã.

Para estes brandos afectos tinha ele coração, que não para paixões violentas.

Era honrado, prudente, exacto no cumprimento dos seus deveres, regular na divisão do seu trabalho; um destes espíritos tão raros hoje em que os hábitos sociais e não sei que auras que se respiram nas cidades, fazem tão predominantes os temperamentos nervosos, com as suas alternativas de desalento e de coragem, de actividade e de indolência, que não os deixa trabalhar com regular constância em qualquer obra empreendida. Mas por isso mesmo que via tudo friamente, Estêvão não desconhecia as muitas dificuldades com que tinha de lutar.

Oferecera-se-lhe um partido municipal na vila de Meloais do Duque, pseudónimo que adoptamos para comodidade da narração e por julgarmos que não pertence a trato algum de terra na corografia pátria. Estêvão escreveu ao presidente da câmara, este respondeu- -lhe, entraram em negociações e enfim Estêvão foi nomeado superintendente da saúde pública da mencionada vila.

Apurou, a muito custo, o dinheiro preciso para as despesas de instalação e de transporte, preparou a bagagem e partiu na companhia da irmã para a sua nova terra, levando em dois baús todos os seus haveres, em sete ou oito livros a sua ciência e numa pequena caixa de folha os seus diplomas de formatura e de nomeação de facultativo municipal.

Estêvão ia grave e meditabundo. Interrogava-se intimamente, achava-se inexperiente; procurava pesar a ciência com que podia contar, achava-a tão leve! E aos ouvidos soava-lhe lugubremente como formidável memento, pronunciado pela boca de espectro perseguidor, o aforismo hipocràtico: — Vita brevis, ars longa, occasio celers, experímentum pericolosum, judicium difficile.

Estas cinco breves orações eram como badaladas a dobrar por finados; faziam-no esmorecer.

Adelina, pelo contrário, ia descuidada e distraída pelas impressões da jornada. A alegria dos dezoito anos principiava já a romper a nuvem de luto com que a morte do pai a assombrara. Os sorrisos vinham-lhe já aos lábios talhados para eles.

Ela não sentia apreensões pelo futuro. Tal era a confiança que depositava em Estêvão que não concebia perigos que ele não pudesse arrostar, desgraça que a ferisse sob tão valiosa protecção.

O irmão com a sua robustez, com a sua juventude, com a sua ciência, com a sua posição social, era para a ingénua criança um herói, que lhe inspirava coragem, a qual florescia em sorrisos naquela expressiva e simpática fisionomia. Porque era deveras simpática Adelina com os seus olhos negros e amoráveis que temperavam sempre, pela expressão de bondade que tinham, o sorriso da travessura e inofensiva malícia que às vezes lhe brincava nos lábios juvenis.

Era Adelina uma destas raparigas delicadas de compleição mas em quem a delicadeza nada tem de mórbido; onde não domina tão absolutamente o sistema nervoso que as torne escravas das suas caprichosas determinações.

Com este carácter, Adelina era para Estêvão uma óptima companheira de jornada, temperando com o seu bom humor as impaciências do irmão.

II

QUER-ME parecer que poucos leitores necessitarão que eu lhes descreva as impressões recebidas por um pobre viajante, extenuado pelas fadigas de uma fastidiosa jornada, desconjuntado pelo chouto de uma cavalgadura manhosa, numa palavra, mal disposto do corpo e do espírito, ao entrar de noite em uma vila do interior da província.

Uma vila! Perdoem-me as muitas pessoas estimáveis constrangidas pelos fados a contar num desses circulozinhos sociais os trezentos sessenta e cinco dias do ano, mas a minha sinceridade constrange- me a declará-lo: uma vila é a mais impertinente localidade em que um homem pode desgastar as rodas do seu complicado mecanismo.

Ainda se é uma dessas povoações, de onde se escuta o rugir do mar vizinho e que participa do ar de família que têm todas as terras marítimas, um ar alegre, desafogado, que é como o sorriso das povoações, modifica-se um pouco a feição característica e a alma não se acha oprimida ao encerrar-se ali.

Mas, se é uma terra bem encravada no centro da província, uma dessas pinhas de casas velhas, cortadas por quatro ruas tortuosas e doze vielas intransitáveis, que de quando em quando interrompem o curso de uma estrada, se é uma terra bem sertaneja, onde em geral se fala do mar como de uma coisa mitológica, uma vila com uns forais e um pelourinho e uns fidalgos e uns pardieiros que foram uns palácios, uma vila, enfim, perfeito espécime do género, e não excepção, duvido que haja coração despreocupado que não se sinta opresso ao entranhar-se nela. Ora a vila de Meloais do Duque era tudo isto.

Por isso Estêvão e até a própria Adelina, cediam a uma opressora melancolia quando as cavalgaduras que os transportavam começaram a trilhar o lajedo das ruas estreitas e não iluminadas da terra que tinha de ser o campo de manobras do novo facultativo.

Adelina, a jovial Adelina, olhava para as casas altas e velhas que parecia curvarem-se para a verem passar, procurava devassar o segredo das adufas e crivos discretos que sentia entreabrirem-se a satisfazer curiosidades de quem por dentro deles se ocultava, perdia o olhar nas lojas funebremente esclarecidas por uma mortiça luz de azeite, que desenhava em escuro o grupo de fregueses estacionados no vão da porta a desfiar a crónica do dia, e a pobre rapariga, tão sequiosa de espectáculos alegres, experimentava esta aura de tristeza, que precede às vezes uma explosão de pranto. Mas cedo triunfava desta influência com uma reflexão jovial.

— Olha, Estêvão, repara — dizia ela, mostrando ao irmão uma casa por diante da qual passavam naquele momento — esta casa, com aquela janela aberta e assim corcovada, não te parece mesmo uma velha a tossir? Estêvão desviou o olhar distraído para a casa em questão e respondeu com um sorriso à lembrança da irmã.

Ao passarem os nossos dois desconfortados viajantes, deixavam atrás de si uma esteira de comentários trocados de adufa para adufa, de uma loja para outra, da rua para as janelas, ou entre os grupos que estacionavam nas esquinas e largos.

— É ele, é — dizia, por exemplo, uma voz de mulher que saía através de uns crivos meio descerrados.

— Bem disse o Chico do boticário que eles vinham hoje— respondia outra voz da água-furtada fronteira.

— Vai na burra do Zé Domingues.

— E a madama é mulher dele? — Pelos modos dizem que é irmã.

— E tem só aquela ? — Tem. O pai morreu no outro dia.

— E ele é novo ainda ? — É uma criança; pois se ainda ontem, se pode dizer, acabou os estudos.

— Hum! E então já lhe dão assim o partido ? Mais adiante ficou a dizer um caixeiro de balcão para a menina da casa defronte, com quem provavelmente tinha de vir a casar.

— É o médico novo.

— Ai é ?! E a senhora que vai com ele ? — Diz que é irmã.

— Ele é solteiro, Manelzinho?

— É, sim, menina; veja se lhe serve.

— Ora não é por isso. Também! — Não, não se constranja; a irmã também é solteira.

— Adeus, adeus; não se ponha a brincar. Olhe, viu se ela ia de chapéu ? — Para lhe falar a verdade, não reparei. Acho que não; levava assim uma manta ..

— Um cachené ? — Não, menina. Era assim uma coisa... seria um cachené, seria.

— Mas olhe, o vestido era de fazenda? — Isso agora é que eu não sei, menina.

Um homem, que, ao dobrar uma esquina, parara para os ver passar, disse, entrando depois na loja próxima, para outro que, embrulhado num capote e calçado com socos e meias de lã, estava sentado no banco da porta : — Então chegou o bicho? — Quê? — O cirurgião novo.

— Ai, pois era esse que ai passou? Ora com Deus venha.

— Se não for melhor do que o outro...

— Hã-de ser como todos; o melhor sempre é não lhes cair nas mãos.

— Isto daqui até que se ponha ao facto da natureza das pessoas! A resposta foi um prolongado assobio, acompanhado de um movimento da cabeça sobre o dorso.

— Quem são ? quem são ? — perguntava, incorporando-se no grupo que se formara numa esquina, um indivíduo que os vira passar.

— É o cirurgião do Porto — responderam-lhe.

— Ai, é verdade. Ele sempre vai morar para a casa da Teresa do Carniceiro? — Vai. O presidente lá lhe arranjou esse negócio.

— Qual presidente; foi o Baltasar boticário que é afinal quem ganha com o negócio.

— Ai sim; porque a Teresa deve-lhe umas dez moedas.

— Por quanto anda aquela casa ? — Ele alugou-a por nove moedas.

— Oh! que logração! — Pois vedes! Aquele menino! Uma ou outra palavra destes variados diálogos, a que ele dava motivo, chegavam aos ouvidos de Estêvão e mostravam-lhe que pouco teria já que informar aquela gente a respeito da biografia própria, tão adiantada a vinha já encontrar.

A cavalgada prosseguia entretanto ao longo da rua principal da vila, a qual abundava em lojas de ferradores e quase impedida de três em três portas por uma recua de cavalgaduras de carga, entregues à própria discrição à porta das tabernas e alquiles, Sons predominantes: o das campainhas das alimárias, o das ferraduras na calçada e o das pragas dos almocreves. Cheiro: o de palha curtida e da erva segada nas estrebarias.

Quase ao fim desta rua e no ponto mais estreito dela havia uma casa de triste aparência, tendo defronte outras casas mais altas a assombrarem-na.

Pararam aí. Tinham chegado ao termo da jornada.

As janelas e portas da vizinhança trasbordavam de curiosos.

Estêvão desmontou e foi ajudar a irmã a saltar em terra.

Esta, ao ver a fachada da casa em que ia entrar, sentiu a impressão de um pesadelo.

A senhoria, com uma vela acesa na mão, a qual, com a outra, resguardava das correntes de vento, veio ao limiar da porta a receber os seus inquilinos.

Estêvão, depois de a cumprimentar, dispunha-se a vencer o íngreme lanço de escadas que o deviam conduzir aos aposentos superiores e, nesse intuito, segurava-se já ao corrimão de corda que seguia junto à parede salitrosa.

Adelina imitava-o.

Ouviram porém atrás de si a voz da senhoria, que, antes de retirar- se, dava as boas noites à vizinhança. Voltaram-se logo e por um acto de cortesia imitaram-na.

Imediatamente rompeu das janelas das casas vizinhas um coro de vozes de todos os timbres, de homens, de mulheres, de novos, de velhos e de crianças a corresponderem-lhes à saudação.

Dentro de alguns minutos mais, achavam-se os dois irmãos instalados na sua nova residência.

Era uma sala baixa e desguarnecida, com janelas acanhadas olhando para a rua, duas alcovas e um corredor, na extensão do qual havia dois quartos pequenos e no fim a cozinha e uma exígua casa de jantar.

A senhoria, que para ceder o andar nobre aos inquilinos, passava a habitar os baixos da casa, andou de luz em punho a mostrar-lhes toda a topografia do lugar, demorando-se muito em explicações e comentários a propósito de cada compartimento.

Adelina, conquanto sentisse que lhe passava ao coração o desconforto que a rodeava, fazia frente à verbosa rendatária, respondia- -lhe e interrogava-a com o insinuante tom de bondade que lhe era natural.

Estêvão não se forçava a tanto; ouvia mudo e soturno as divagações da velha; não sei se lhes prestava atenção.

Ela falava por ambos. Em menos de um quarto de hora, operando as mais rápidas e imprevistas transições, conseguiu esboçar a própria história genealógica, a descrição minuciosa da doença e morte do marido, a relação comentada das pessoas que tinham morado já naquela casa, idem dos facultativos que tinham precedido Estêvão, das qualidades do último; a rápida resenha das principais famílias da terra e dos seus parentescos no Porto.

Estêvão não pôde mais tempo lutar. Deixou-se cair extenuado sobre um baú e declarou os irresistíveis desejos que tinha de dormir.

Adelina olhou, compadecida, para o irmão.

— Pois pudera não! — disse a implacável senhoria—quem vem de uma caminhada dessas! Eu nunca na minha vida dormi tão bem como em uma ocasião em que fui ao Porto pelo Entrudo. Umas senhoras minhas amigas, que lhe chamam aqui as Aparícias. Não sei se têm ouvido falar? Estêvão não respondeu.

Adelina disse, sentando-se também no outro baú da jornada que estava no meio da sala: — Não ; daqui não conhecemos ninguém.

— Elas vêm a ser primas dos Borges do Porto; esses conhecem? — Lá há muitos Borges — disse Estêvão, bocejando e com mau humor.

— São uns que têm negócio para o Brasil — insistiu a senhoria e aguardou a ver se com esta particularidade ficava elucidada a questão dos Borges.

Como não observasse indícios disso, continuou: — Que têm uma filha casada e outra solteira? Nova pausa.

— Um deles chama-se António e outro José ? Idem.

— Pois eles são muito conhecidos.

Adelina acudiu: — Sim, mas como o Porto é muito grande...

— Até um tio deles não sei o que é la do governo de Lisboa...

— Bem, mas então que fizeram esses Lopes? — perguntou Estêvão.

— Lopes! Não é Lopes, é Borges. Por isso o senhor não conhecia! Borges, Borges; um homem bem apessoado. Ainda são aparentados com os Cardosos. Esses conhecem decerto? — Não sei; pode ser.

— Que tem um filho que é oficial da tropa, que anda a cavalo.

Estêvão trocou com a irmã um olhar de lástima.

Adelina interveio.

— Mas dizia a Sr. Teresa que tinha ido ao Porto...

— Fui com as tais senhoras. Elas andavam a perseguir-me para irmos e uma vez em casa do sr. major... Conhecem o sr. major, um que é...

— Sim, sim, que é da tropa; esse conheço; lembro-me de ter ouvido falar nele —• apressou-se a dizer Estêvão para conjurar o vendaval de explicações que via iminente.

E a senhoria em pé no limiar da porta, como quem está para sair, preparava-se para entrar na interminável divagação sobre a sua ida ao Porto, sem atenção à fadiga manifesta dos seus dois inquilinos, que mal a ouviam já.

No meio, porém, desta divagação interrompeu-a o ruído de passos na escada e uma voz varonil que bradava de baixo: — Dá licença, sr. doutor? — Ai que é o Sr. Baltasar, boticário! — exclamou a Sr." Teresa, acudindo alvoroçada a alumiar a escada, que estalava sob o peso do recém-chegado.

— Não se incomode, não se incomode — dizia ele, subindo.

Estêvão e Adelina levantaram-se a receber a visita.

— Ora muito boas noites—disse, entrando na sala, um homem baixo e gordo, vivo de movimentos e de fisionomia jovial; e sempre voz em grita, prosseguiu — Eu sou o Baltasar, boticário, estabelecido nesta freguesia há vinte e dois anos, que os faz para o Santiago, moro aqui mesmo defronte e venho oferecer, em meu nome e no de minha mulher, aquela fraca choupana para tudo aquilo em que lhes possa ser útil.

Estêvão e Adelina agradeceram com reconhecimento.

— Não tem que agradecer — continuou o Sr. Baltasar; — isto é sincero. Nós cá não somos de cerimónias. Eu sei o que é isto de uma mudança, apesar de que estou naquela casa, vai fazer para o S. Miguel quinze anos; mas até assentar, também corri fadário... Isso, antes que as coisas entrem na ordem, é uma consumição.

— Isso é verdade — disse Adelina,—Temos para uma semana.

Só se dá por a falta das coisas quando se precisa delas.

— Ora pois aí está; por isso è que eu digo. Ó Sr.' Teresa, então não prepara o chá para esta senhora? Provavelmente tomam chá à noite? — Sim; costumamos tomar — respondeu Estêvão.

— Eu logo vi. É o sistema da cidade. Eu cá não posso costumar-me.

Aqui onde me vê já estou ceado. E lá a minha patroa é o mesmo. As pequenas é que já não tanto...

—Ah! tem meninas, Sr. ...

— Baltasar, um seu criado, minha senhora.

— Sr. Baltasar — concluiu Adelina.

— Tenho, tenho, por meus pecados. Tenho duas raparigas. Elas queriam cá vir agora, porém...

— Então porque não vieram ?— perguntou Adelina.

— Davam-nos muito prazer — secundou Estêvão, com pouca sinceridade.

O boticário chegou à janela e berrou para defronte: — Ó meninas! — Meu pai ?! — responderam duas frescas vozes de mulher.

— Então vinde e digam à mãe.

Voltando-se para dentro, continuou, passeando de um para outro lado da sala e fazendo estalar as articulações dos dedos.

— Pois é verdade... Com que então vêm para esta nossa terra...

Eu lhe digo; isto por aqui ainda não é mau de todo. A questão é uma pessoa dar-se bem. Olhe que ainda há por estes sítios um par de famílias, que não fazem maus lucros a um facultativo; o ponto está que ele se acredite e queira trabalhar. Ora o sr. doutor está novo...

— Ah! e não me falta vontade de trabalhai", pode crê-lo.

— Pois bom é isso. Aqui o que há de pior são as intrigas.

— Ai, sim? — Isso não falemos. Com certa gente é preciso viver com toda a cautela. Foi o que perdeu o outro que daqui saiu; principiou a frequentar certa roda, a meter-se com certa gente...

Ouviram-se risos e vozes na escada, o ranger de saias engomadas, o raspar dos sapatos no lajedo do portal e, pouco depois, entravam a mulher e as meninas do boticário, que beijaram e abraçaram Adelina e cumprimentaram cerimoniàticamente Estêvão.

A Sr.' Teresa foi buscar aos quartos cadeiras para todos e o círculo formou-se.

As meninas eram duas formosuras vulgares, rosadas, sadias, de cabelos escuros, bonitos dentes e riso pronto; a mãe uma senhora gorda, de voz arrastada e ditos sentenciosos.

Entraram logo em conversa com Adelina, contando-lhe o que tinham dito umas às outras em relação a esta visita, porque não tinham vindo logo e a pressa com que resolveram vir, e falavam quase a um tempo.

— E a Joaninha queria vestir-se — dizia uma.

— Eu não me queria vestir. Olha a mentirosa! — atalhou a outra.

— Eu disse-lhe: Ó menina, deixa-te agora disso — Eu vim como estava — notou a mãe.

— E eu também — acudiu a Joaninha.—Mas é que esta Matilde tem um costume... Credo!...

— Deixe falar; é cisma dela.

— Escusas de negar.

— Tu é que negas que te foste vestir.

— E a dar-lhel Olhe, sabe? É que eu estava de avental.

— Olha, olha! Lá vem ela com o avental! Pois não foste! Ela já tinha dobrado o avental na cesta da meia.

— É mentira. Então não tinha o avental verde ? — Qual avental verde? — Qual há-de ser ? O das florzinhas.

— Ora viva, esse ainda ontem o deste a lavar.

— Olha a mentirosa! já viram? Se eu até hoje te disse assim...

Adelina ouvia toda esta discussão, à qual debalde tentaríamos transmitir toda a vida que o atabalhoado do diálogo lhe dava e, como não pudesse intervir, limitava-se a olhar para as contendoras com um sorriso de amabilidade.

A mãe foi quem cortou o diálogo, dizendo para Adelina: — Não, que isto é sempre assim; em se tratando de sair, já não sabem o que fazem.

— Ora a mãe também! Ela é que.,.

E começou nova discussão, digna em volubilidade da precedente.

O boticário, que estivera falando com Estêvão a respeito das pessoas da terra, disse para a senhoria, no tom de familiaridade de quem está na sua casa: — Ó Sr.ª Teresa, olhe se dá andamento a isto que esta senhora há-de querer acomodar-se.

— Eu vou — disse a senhoria. — E então sempre hão-de querer o chá? — Pois então ? já disseram que sim.

— Eu o que sinto é estar ainda tão estranha nesta casa — disse Adelina — que nem sei se posso ou devo pedir-lhes o favor de nos fazerem companhia.

— Ora essa é boa — acudiu a senhora do boticário.

— Então eu não sei o que é isso? E até, deixe-me então dizer-lhe, que é provável que sintam a falta de muita coisa e não têm mais do que mandar ali defronte. Olhe lá, ó senhora Teresa, tem cá serviço de chá em termos? — Eu... assim ele remedeie.

— Nada, nada; sabe que mais? Ó Joaninha, chega a casa e manda trazer o aparelho azul. Leva a chave do guarda-louça; toma, é esta.

Adelina e Estêvão debalde quiseram opor-se ao oferecimento.

Estava aberto o dique aos obséquios, difícil era retê-los.

As meninas andaram para cá e para lá, trazendo isto e aquilo.

A mãe dava-lhes ordens sobre ordens na sala, repetia-lhas do patamar quando elas desciam a escada; vinha explicá-las ou modificá-las à janela, quando já iam na rua, ou ainda quando elas já lhe respondiam das janelas da casa.

Graças a esta febre obsequiadora tudo se resolveu. A senhora do boticário em tudo pôs a sua mão metódica e administradora. Infundiu o chá, cortou as tostas, teimou em fazer uma cama, deitou a mão a um móvel, que, a conselho seu, se mudou de um para outro quarto, preparou as lamparinas e mil outros serviços. As meninas eram diligentes correios e atravessaram a rua um sem-número de vezes e quase nunca com as mãos vazias. O boticário era mais pronto em dar ordens do que em executá-las e foi pródigo em conselhos em relação a melhoramentos futuros.

Feito o chá, a família do Sr. Baltasar não se recusou a tomar parte nele.

De maneira que Estêvão e Adelina, logo na primeira noite da chegada, tiveram reunião em casa e só conseguiram descansar de tantos obséquios perto das dez horas. famílias de pescadores, longe de imprimirem aparências de vida e animação à feição severa e melancólica do quadro, antes parecia concorrer para lha exagerar, talvez recordando épocas de maior movimento na praia e fazendo, pelo contraste, sentir o seu actual abandono.

As companhas não trabalhavam naquela tarde. Os arrais, estudando com os olhos experimentados a cor do céu, o rumo do vento, a forma das nuvens e a ondulação particular das vagas, prudentemente mandaram recolher as lanchas à praia. Esta não apresentava, portanto, aquele laborioso tumulto e confusa agitação que acompanha sempre o trabalho das pescarias.

Apenas algumas crianças de pernas nuas, crestadas pelo sol e pelas brisas marítimas, lutavam umas com as outras na areia ou brincavam com as ondas, ora correndo para elas, ora fugindo-lhes, mas nem sempre com a presteza necessária para no movimento do fluxo não serem alcançadas, acontecimento que era sempre saudado com estrepitosas gargalhadas e apupos. Dos pescadores, uns haviam ido saborear à vila o tempo de tréguas que lhes concedera o mar, outros refocilavam-se na taberna da tia Salgada, a mais afamada da costa do Furadouro, com longas e preciosas libações do vinho da Bairrada que desafiava competências com os mais acreditados que se vendiam na vila; finalmente alguns mais sóbrios, dispersos em grupos na praia, conversavam tranquilamente, quando não dormiam ao som monótono das ondas e na convidativa cama de areia solta, que tão confortavelmente se lhes amoldava às formas do corpo.

O grupo, de onde haviam partido as poucas palavras que pudemos ainda escutar, era um daqueles em que mais intensamente pareciam absorvidas as atenções pelo assunto que se discutia. Na posição e no gesto de quase todos os que o formavam, revelava-se uma ávida curiosidade e o velho Cabaça, que tinha a palavra naquela ocasião, assumira certo ar de gravidade que não concorria pouco para o efeito produzido.

Era o tio Cabaça uma bela figura de velho, alentado e musculoso e de uma robustez de organização que reagia ainda, vitoriosamente, contra o peso dos anos.

Era tido em grande conta na companha, não só pelo muito que entendia de coisas do mar, como pelo bem que sabia contar histórias curiosas, crónicas dos tempos passados, recebidas por tradição dos seus pais e que de boa vontade transmitia aos moços, que o escutavam sempre atentos, embebidos naquelas recordações, quase todas aloriosas para a gente do mar.

Desta vez, porém, o objecto da narração parecia ter encontrado incrédulos entre o auditório, cujo cepticismo chegara a manifestar-se por aquela exclamação de dúvida, com que abrimos o primeiro capítulo desta singela e despretensiosa história.

O velho protestara, como vimos, pela veracidade do facto; mas ainda assim, encontrou uma voz de incrédulo que redarguiu: — Essa lá me custa a crer, ti'Cabaça. Eu sei que há muitas estranhas e esquisitas castas de peixes lá por esses mares de Cristo. Velho não sou eu nesta vida de pescador e, contudo, posso já dizer, sem me gabar, que tenho visto alguma coisa e que não ando nisto de todo às cegas. Vi já alguns peixes levantarem voo como os pássaros, outros eriçados de espinhos, que nem ouriços; já experimentei o abalo que causam as tremelgas vivas quando se lhes toca com o pé, e até um dia me mostraram de longe o chafariz de água que fazem as baleias ao respirar; mas agora as tais sereias... na verdade... peixes que falam e que cantam como a gente!...

— Que falam e que cantam, sim, senhor, que falam e que cantam.

então que falar e que cantar! Não é lá qualquer coisa! Eu só queria que vocês ouvissem o meu pai, que Deus haja, contar o caso.

— Mas então diga-nos mais por miúdo como isso foi — exclamou do lado um jovem pescador, que se mostrava excessivamente interessado com a história e mais disposto do que o seu companheiro a acreditar na existência do fabuloso animal de que falara o velho.

O tio Cabaça sacudiu fleumàticamente a cinza do seu volumoso cachimbo, soprou ao tubo para o desimpedir, fez nova provisão de tabaco e acendeu-o — tudo isto com movimentos pausados — e, depois de expelir a primeira baforada, principiou, revestindo-se da devida gravidade, a narração que se lhe pedira.

— O caso que lhes vou contar sucedeu, pelos modos, no tempo em que meu avô era ainda rapaz. Vai por isso... Eu sei lá!?... há mais de um cento de anos bem contados. Tinham ido certa tarde as companhas para o mar. Nos lanços da manhã a safra havia sido pequena, apesar de ter esperado que a sardinha, fugindo à trovoada que toda a semana andara pelo mar alto, viesse em abundância à costa. Mas, como tal não sucedera, tiveram de se fazer de tarde os barcos mais ao largo. Estava um tempo assim como hoje: os ares soturnos, o vento sul e o mar picado. Laigaram-se as redes e seria aí pelo fim da tarde quando de novo remaram para a praia. Chega não chega, desembarca não desembarca, era já lusco-fusco. O mar começou então a levantar-se mais, sem que tivesse havido mudança de vento ou coisa que fosse motivo para isso. Os homens mais entendidos das companhas não podiam dizer o que adivinhava o mar, que assim tão do pé para a mão se fizera ruim. Este dizia uma coisa, aquele dizia outra, tantas cabeças, tantas sentenças, e ninguém se entendia.

No entretanto puxavam-se as redes para terra: a canalha fazia, cantando, a algazarra do costume, os homens berravam como... vocês berram ainda agora, rapazes... eis senão quando... " Um movimento de curiosidade se manifestou na assembleia ando o velho Cabaça chegou a este tópico da sua descrição, que ele, como profundo conhecedor da arte de impressionar os auditórios, soube fazer valer por uma pausa conveniente e uma particular e expressiva inflexão de voz.

Depois correu a vista por todos aqueles rostos, eloquentes de curiosidade e, satisfeito consigo pelos dotes oratórios de que se percebia possuidor, continuou: — Eis senão quando, principiou-se a ouvir uma música, a modo de música de igreja.

— De instrumental, ti'Cabaça? — Não, homem, daquela música que se toca nas igrejas do Porto.

— Já sei, é a dos realejos.

— Não é dos realejos, não; é dos orgos, orgos — emendou um outro, melhor informado sobre a matéria.

— Pois é verdade ! — continuou o orador. — Começou-se a ouvir aquela música e logo todos se calaram a escutar. Pareceu-lhes depois mais uma voz de mulher que chorava e que rompia em altas queixas.

Olharam em redor para ver de onde partia aquilo e quanto mais olhavam mais se lhes afigurava virem do mar os tais choros e gemidos.

Contudo, por mais que reparassem para as ondas, nada podiam enxergar.

Continuavam puxando as redes e continuavam a ouvir as vozes, que cada vez aumentavam mais. Havia já quem pensasse ser feitiçaria aquilo.

— Feitiçaria, sim. Bem me fio eu nisso — disse, não desmentindo o seu provado cepticismo, o mesmo pescador que pusera em dúvida a existência das sereias.

O velho Cabaça julgou do seu dever corrigir a incredulidade deste companheiro, a qual lhe ia parecendo demasiada.

— Homem, sabes que mais? Pede a Deus para que não venhas à tua custa a fiar-te em bruxedos e feitiços. Tu fazes-te muito valente, meu rapazote, mas acautela-te, porque um dia...—E operando uma rápida diversão no curso das suas ideias, o velho prosseguiu: — Mas no meio deste — que será que não será — estavam as redes chegando à praia; o pranto ouvia-se ainda mais claro, até que enfim... viram os pescadores a coisa mais maravilhosa, que ainda apareceu na costa.

— Era a sereia? — perguntaram, a um tempo, com ansiosa curiosidade alguns impacientes, cujo ânimo lhes não deixara sofrer as delongas da narração.

O tio Cabaça continuou imperturbável.

— Viram um animal que da cinta para baixo era um peixe completo.

— Um peixe?! — Sem tirar nem pôr, escamas, cauda, barbatanas, finalmente tudo.

— Ah! Barbatanas também? — Também barbatanas.

— E da cinta para cima ? — Da cinta para cima era a mulher mais bonita que se tem visto no mundo.

— Ah! — Ora essa! — Isso era arte do Diabo! — E então tinha cabelo e dentes e...

— Era uma mulher perfeita; não lhes estou eu a dizer? — Vou-me por esse mundo! — Olhem os meus pecados! — E então falava, ti'Cabaça? — Pois dela é que vinha a tal carpideira e os tais choros que te disse.

— Ah! Estou para morrer.

— Eu se visse tal estarrecia.

— E que dizia ela, ti'Cabaça? — Chorava e carpia-se que metia mesmo dó. Toda a sua pena era tirarem-na do mar. O que ela pedia é que a soltassem da rede e que a deixassem voltar para a água, pois só lá é que podia viver.

— E ela falava assim como a gente, ti'Cabaça? — Pois então ? E com uma voz e de uma maneira que fazia mesmo enternecer os mais empedernidos. — E o narrador, forçando a voz a um desafinado falsete, para lhe dar a mais feminil modulação de que ela era susceptível, tentou, pouco modestamente, reproduzir o timbre fascinador da sereia, dizendo, conforme a tradição que fielmente conservara: — «Ai, soltai-me, soltai-me — dizia ela — deixai-me voltar para o mar, que, se me levais para terra, eu morrerei logo.» — Pobre rapariga! — Pobre peixe! — emendou outro.

— E porque há-de ser peixe e não rapariga? — O quê ? O quê ? Aquilo tem la alma ? — Eu sei lá se ela tem alma ? — Que dizes tu, homem, nem que fosse gente cristã! — Mas ela que falava...

— Isso é por artes do Mafarrico.

O velho Cabaça prosseguiu, depois de terminada esta acidental discussão psicológica: — Houve ainda assim quem quisesse tirá-la para seco, mas tais foram os seus queixumes, que o arrais, comovido, mandou soltá-la da rede.

— E era muito grande, ti'Cabaça? — Assim como uma corvina... taluda.

— Está feito! — Logo que se viu livre — continuou o orador — fugiu nadando, como um peixe que era, mas a cantar e com tanta aquela que nem música de anjos do Céu pode ser tão linda. Era um cantar de tal casta, que toda a companha se deixou ficar a escutá-lo, sem se lhe importar com a sardinha que já estava na areia. As cachopas da vila, que tinham vindo aos caminhos para o Carregal, não queriam saber de outra coisa que não fosse ouvir aquela voz. E assim ficaram todos postos enquanto ela se pôde ouvir e só depois se deitaram ao trabalho, ainda que com bem pouca alma.

Foi então que um pescador velho disse ser aquilo uma sereia e que bem mal tinham feito em a deixar fugir, pois de nada sabia tão perigoso para os marinheiros como encontrá-las no mar largo ou escutá-las muito tempo.

— Então o que fazem elas, ti'Cabaça? —perguntou um dos pescadores mais jovens e que de todos parecia também o mais interessado pela narração.

— Com aqueles cantos — respondeu o interpelado — pelos modos atordoam a gente, que fica assim como com uma bebedeira. Não se faz mais coisa com coisa, não se atina com o governo do leme, nem com o das velas ou dos remos. Neste comenos elas levantam o mar e um homem vai para os peixinhos que é mesmo uma consolação.

— E nunca mais voltou à costa essa... esse peixe? — perguntou ainda o mesmo pescador.

— Nunca mais até hoje. Ele anda sempre muito ao largo e só quando alguma trovoada forte o escorraça é que foge para as costas.

Seguiram-se vários comentários sobre a plausibilidade do caso.

O tio Cabaça contara-o com tal acento de convicção, e era tão pouco dado a gracejos o velho pescador, que todo o auditório se sentiu inclinado a admitir o carácter verídico do facto extraordinário que lhe acabara de ser narrado.

Depois de muito conversar, dispersou-se finalmente o grupo, aí pelo cerrar da noite, e a taberna da tia Salgada viu aumentar o número dos hóspedes e o das bocas que faziam justiça, por palavras e obras, às excelências do seu Bairrada.

Na praia apenas ficaram dois homens.

Um era o tio Cabaça, que, sentado, com as mãos entrelaçadas por diante dos joelhos e o cachimbo pendente dos lábios crestados, olhava para as ondas que se sucediam na areia e parecia absorvido em profunda meditação.

Este hábito de cismar gera-o a continuada contemplação das cenas marítimas.

O homem que vive e envelhece a escutar aquela música das ondas, que do alvorecer ao crepúsculo é embalado por elas, o que alternadamente as conheceu afáveis e irritadas, que delas recebeu carícias e ameaças e as viu ora suavemente iluminadas pelo luar, ora reflectindo a luz sinistra dos relâmpagos, surpreende-se muitas vezes nestas silenciosas e inexprimíveis divagações do espírito, tão frequentes nos poetas.

Em todos os portos de mar se encontram, ao fim da tarde, desses velhos cismadores que, aparentemente atentos nas formas em que se condensa no ar o fumo do seu cachimbo, trazem por bem longe o pensamento, "alvez que a colher saudades nas recordações daquele viver incerto de marinheiro, para cujas laboriosas peripécias os anos os invalidaram já.

O velho Cabaça principiava a pensar nessa época próxima, na qual lhe havia de fraquejar o braço que ainda movia vigorosamente o remo; nesses longos dias, em que, preso à terra, se veria obrigado a ocupar- se num trabalho de mulheres, reparando as redes da companha, Aquele futuro tranquilo, reservado à sua velhice, entristecia-o, como, nos tempos de brios cavalheirosos, desanimava o guerreiro a ideia de uma morte que não fosse no meio da refrega e disputada até ao último suspiro com feitos de arrojada bravura.

Por isso o tio Cabaça tinha frequentes momentos de melancolia.

O outro homem era o pescador moço, a quem tanto interessara a história da sereia, contada pelo primeiro, havia pouco, e que, desde que a ouvira, parecia haver ficado sob o domínio de uma profunda impressão.

A alta estatura deste jovem pescador, as suas formas bem desenvolvidas e a fisionomia expressiva de inteligência e vivacidade, davam- -lhe um certo ar de nobreza e resolução que fazia lembrar aquele célebre herói napolitano, o ousado e patriótico Mazaniello.

As amplas e pitorescas vestes de pescador deixavam sobressair todas as vantagens da sua vigorosa e excelente corporatura.

Era uma organização cheia de vida e de robustez, a daquele moço, em cujo rosto trigueiro e imberbe se desenhavam neste momento os sinais evidentes, ainda que desvanecidos, de uma certa preocupação de espírito.

Por baixo do clássico gorro de lã escarlate saíam-lhe profusos os cabelos, que lhe vinham quase pousar nos ombros. Com os braços cruzados e a fronte pendida, este homem passeava silencioso no extremo da praia, tão próximo das ondas, que estas, nos maiores fluxos, chegavam a alcançá-lo sem que mesmo assim conseguissem distraí-lo daquela abstracção em que parecia concentrado.

Este pescador que com o velho Cabaça ficou na praia, o Pedro do Ramires, andava, de há tempo, apreensivo e taciturno. Possuía instintos de poeta, o malfadado.

Eram esses instintos que o impeliam para aquela irresistível tendência à solidão, os que lhe faziam perceber, no som plangente das vagas, modulações, para as quais os seus companheiros não tinham sentidos organizados, que por muito tempo o conservavam imóvel, a seguir com a vista aquelas ondas espumosas que se desfaziam na areia, as formas extravagantes das nuvens, os contrastes surpreendentes da luz que as atravessa ou se reflecte nelas, colorindo-as com inimitável paleta, a curva descrita na amplidão pela ave aquática de voo rápido, e até o estalai do trovão e o fuzilar dos relâmpagos em noites de tempestade.

Pedro sentia, e por infelicidade sua, sentia com excesso. Este mundo, evidentemente não foi feito para quem sente assim! Aceitava, porém, as impressões que recebia sem se lembrar de as discutir; aceitava-as como um quase fatalismo, que nem lhe deixava pensar na possibilidade de se subtrair a elas.

Via que por toda a parte o acompanhava uma como atmosfera de inebriantes aspirações' e recebia a influência balsâmica desse ambiente sem se interrogar sobre a natureza dele.

Sentia, sem a conhecer, a poesia da natureza, a que se revela em cores, em sons e em perfumes e que desperta a poesia do sentimento em almas organizadas para esses sublimes acordes. Era um poeta sem ter a consciência de o ser, sem ter sequer a consciência da poesia.

Quando esta espécie de encarnação de um segundo verbo, mistério original dos entes privilegiados que se dizem poetas, se opera em espíritos que a educação não vem cultivar depois, surgem caracteres, como o de Pedro, nos quais se passam os mais estranhos e admiráveis fenómenos que pode oferecer ao estudo a natureza humana.

É uma luta contínua, um antagonismo inútil, um combater desesperado de aspirações que se estorcem impotentes sob a cadeia que lhes sopeia os esforços. Algemados Prometeus que têm por principal suplício os irrealizáveis anelos do seu próprio génio! Tântalos, sequiosos de um ignoto licor, que adivinham, sem o conhecer, como o alívio único à ansiedade que os martiriza! — Mas em que andavas tu a cismar agora que nem sequer me vias, de tão perto que estavas? — Diga-me, ti'Cabaça, sempre será verdade que existem sereias? O interrogado, recebendo à queima-roupa a interpelação, vacilou um bocado; assumiu, porém, em breve, todo o seu sangue-frio e respondeu: — Conquanto eu as não visse, nem ouvisse nunca — é nem disso me resta pena — creio que as há, pelo que já disse do que muita vez ouvi contar a meu pai — o Senhor o chame a si.

— E é certo que esses peixes ou essas mulheres, que não sei ao certo como lhes chame, cantam às maravilhas? — Assim o dizem. Pelos modos é com esses cantares que elas perdem os navegantes no alto mar. Poucos são os que têm força para as não seguir, só para escutar-lhes aquela música de anjos.

Pedro ficou novamente silencioso e pensativo. O velho pescador respeitou por algum tempo aquele silêncio, mas enfim dirigiu ao seu companheiro uma súbita interrogação.

— Mas para que diabo queres tu saber isso, rapaz? — É porque...—Pedro ia a responder, mas outra vez hesitou.

— Porque é ? Fala! — Olhe, ti'Cabaça. Vou dizer-lhe uma coisa: mas não se ponha a rir de mim, que juro-lhe, por minha mãe, ser verdade tudo quanto me ouvir.

— Fala lá, rapaz — respondeu o tio Cabaça, que tomou logo um ar sisudo e grave, ao ouvir a invocação a que recorrera Pedro e já deveras interessado pela comunicação que ia receber. — Fala, que eu te escuto.

— É que eu... ouvi já cantar uma sereia, ti'Cabaça — disse Pedro em tom misterioso e interrogando ao mesmo tempo a fisionomia do velho, a ver o género de impressão que esta nova produzira nele.

— Ouviste cantar uma sereia! — disse João Cabaça deveras surpreendido.

— Quando? — Há algumas noites a fio que a escuto, — Onde?' — Aqui, da praia. É uma música de anjos que vem das ondas.

Uma música como ainda a não ouvi em parte alguma. Não é alegre e divertida, como a das festas e arraiais; nem séria e de devoção, como a que cantam as mulheres na vila à missa do dia, ao consagrar da hóstia e do cálix; mas é uma música triste, saudosa, uma música que me faz chorar. A voz que canta parece de mulher, mas, ao ouvi-la, até chego a esquecer-me do lugar em que estou. Sabe? A praia, o mar, as estrelas, o céu, tudo desaparece diante de mim. Parece-me que então só sei viver para ouvir aquela voz no meio do barulho das ondas, que não consegue abafá-la. Procuro, apesar da escuridão da noite, descobrir a mulher, se é mulher, eu sei? a fada, talvez o anjo, que canta assim, mas nada pude ainda ver. Sinto em mim uma coisa que não sei bem dizer o que é. Queria seguir aquela voz. Tenho sentido desejos de me deitar às ondas para ouvir de mais perto aquele cantar divino.

É quase uma tentação tão forte que lhe tenho resistido a custo e não sei se alguma vez...

O velho pescador segurou com ímpeto no braço de Pedro, como se naquele momento o visse já próximo a seguir a voz que perfidamente o atraía.

— Que te livre Deus de tal, rapaz! — exclamou João Cabaça. — Não te disse eu que corre à sua perdição quem se deixar levar por esse canto que parece de anjos, mas que é antes de demónios? Pedro prosseguiu: — Eu perguntava há muito a mim mesmo que mistério seria aquele. Ao princípio julguei que fosse um engano dos meus ouvidos.

Os ventos da noite e o barulho das ondas soam às vezes de maneira que semelham uma música a distância, mas era diferente o que eu ouvia; os pássaros do mar, gemendo às noites pelas praias, imitam também queixumes e gemidos, mas eu que nasci e tenho vivido a escutá-los, bem lhes sei distinguir o canto; se o tempo é sossegado e o vento favorável, o cantar dos marinheiros de algumas embarcações que pairam ao largo, chega-nos aos ouvidos confuso e quase sumido; mas a música que eu escutava não era para se confundir com aquela. Era de mulher a voz, mas o estilo do cantar não era o da nossa terra. Nunca até então o tinha eu escutado, não sei até se em alguma parte do mundo se canta assim. Quando há pouco lhe ouvi a história da sereia, foi como se uma luz me alumiasse na escuridão em que estava.

É aquele, deve ser aquele o canto de que falavam os antigos pescadores.

Nem eu sei que outro possa haver mais para nos confundir e perder.

Bem vejo que pode ser perigosa para os marinheiros, porque, digo-lhe uma coisa, se aquela voz cantasse do fundo de um abismo, parece-me que poucos se venceriam para, levados por ela, se não precipitarem.

A praia estava, enfim, completamente deserta.

O vento tinha virado a oeste. Nuvens cada vez mais negras e grandes como montanhas, levantavam-se do ocidente, semelhantes a informes monstros marinhos, surgindo do seio das águas. Bandos de aves aquáticas ora baixavam o voo ligeiro até roçarem com as asas pela superfície das ondas, ora se erguiam a perderem-se de vista no espaço nebuloso, onde por algum tempo volteavam em curvas complicadas ; depois soltando gritos agudos e lastimosos, desciam de novo em parábolas de extensa curvatura, para colherem do oceano a presa que com o olhar penetrante haviam descoberto da altura em que se libravam.

Por toda aquela imensa amplidão de água nem uma vela, nem um pequeno barco sequer; na longa planície de areia que forma esta povoação da costa, eram os palheiros escuros e fechados, as lanchas em seco ou alguma embarcação, ainda de menor lote, a única diversão que encontrava a vista cansada da monotonia da perspectiva.

Haviam chegado as horas talhadas para o descanso e os pescadores, que tinham com o sono antigas dívidas a solver, encerravam-se nas acanhadas recoletas, onde quase miraculosamente se albergam numerosas famílias desta pobre gente e, dentro em pouco, estavam experimentando quanto é fácil a um espírito tranquilo e a um corpo fatigado encontrarem as restauradoras delícias do sono, ainda que em camas bem pouco de apetecer.

A Pedro do Ramires, porém, sobrava-lhe imaginação para o não deixar, tão facilmente como os seus companheiros, saborear este prazer.

As horas da noite eram as suas horas predilectas, eram as suas horas de vida. Então podia ele, sem despertar estranhezas, ficar imóvel a olhar para as ondas, essas suas companheiras inseparáveis, com as quais brincara tantas vezes em criança e que pareciam conservar ainda para ele uma linguagem misteriosa, corresponder-lhe, saudá-lo como a um antigo conhecimento.

Aquele carácter, essencialmente contemplativo, sentia-se livre e desafogado então. Não havia ninguém a espiar-lhe no semblante o refluxo dos encontrados pensamentos que de contínuo o assaltavam; ninguém a perguntar-lhe a causa, por ele mesmo talvez ignorada, de um sorriso instantâneo, de uma melancolia mais duradoura, e às vezes até de uma lágrima, em que a sua tristeza habitual parecia de quando em quando condensar-se, raras crises que por momentos lhe desanuviavam o espírito visionário.

Por isso caminhava longas horas pensativo pelo ermo da costa, Parecia procurar acalmar, por esta forma, a vaga inquietação que sentia em si. Como se aquela ânsia que o devorava fora a necessidade de movimento! Pobre alma! Iludia-se na sua ignorância. A actividade a que tendiam as suas aspirações não era aquela; não se realiza assim. O movimento dos afectos, as lutas da inteligência, o estímulo da glória, os gozos da vida do espirito, tudo isso ela procurava, mas, cega, andava tacteando um caminho bem longe do que a devia conduzir ali. Como não teria de sucumbir no empenho! Como não cairia exausta de forças, e abatida pelo desalento! Que vale ao febricitante a incoerente convulsão em que se revolve no leito? Mitigam-lhe, acaso, esses movimentos o angustioso escaldar do fogo que lhe circula nas veias ? No mesmo caso estava Pedro ao procurar satisfazer os seus indecifráveis anelos, correndo pela beira-mar, às vezes possuído de uma verdadeira alucinação.

Esta noite, em que tivera lugar o diálogo entre ele e o velho João Cabaça, foi uma daquelas em que Pedro do Ramires prolongou até horas adiantadas o seu passeio habitual, seguindo para o sul da costa.

Absorvido em seus pensamentos, caminhou insensivelmente a passos rápidos e desiguais, até deixar a uma grande distância os palheiros da povoação do Furadouro.

Por este tempo já a escuridade da noite era completa, antecipada, como fora, pelos cúmulos de nuvens que, partindo do ocidente, se tinham, em pouco, espalhado por toda a abóbada celeste.

O jovem pescador parou enfim; parou e pôs-se a olhar vagamente para o mar,- como se de mistura com o clamor das ondas, esperasse receber alguma voz que lhe fosse destinada.

Depois quase se deixou cair na areia da praia e pousando a cabeça nas mãos encruzadas, deitou-se e fitou os olhos nas nuvens, como se nas formas irregulares que elas desenhavam no espaço estivesse lendo uma página misteriosa escrita em caracteres desconhecidos.

E assim se conservou durante horas, não o inquietando a violência do vento húmido que lhe açoutava as faces, os gritos roucos e angustiados de alguma ave que fugia à borrasca iminente, nem o rumor surdo que já se escutava de quando em quando, eco ameaçador de tempestades longínquas.

Mas, de súbito, estremeceu, levantou sobressaltado a cabeça e, recostando-se ao braço, trémulo de inquietação, dirigiu a vista para aquele espaço tenebroso que se estendia diante dele, como pretendendo devassar na obscuridade da noite o que quer que fosse que tão repentinamente o arrancava da imóvel contemplação em que se conservava havia tanto.

A noite foi, porém, discreta; não ergueu uma só ponta do seu manto para revelar o mistério. Pedro continuava na mesma posição tão expressiva de ávida curiosidade que de repente tomara.

Pouco a pouco as notas maviosas de um cantar distante chegaram, como um eco ainda mal apreciável, aos ouvidos atentos do pescador.

Escutando-o, ele erguia-se fremente e agitado sobre os joelhos e, de mãos postas e a cabeça inclinada na direcção de onde chegava esta voz, conservava-se imóvel e em profundo recolhimento, como um eleito do Senhor, recebendo em êxtase a inspiração divina. Aquele som contrastava, na sua melodia e suavidade, com o bramir discorde das vagas, que batiam violentas na praia.

Dir-se-ia o canto de algumas dessas fadas que, segundo as crenças populares, atravessam extensas regiões marítimas em fantástica viagem e sob um fatal encantamento.

Pedro escutava embevecido aquela música cuja toada lhe era estranha e de um estilo inteiramente diverso do das canções populares, únicas que até então ele tinha conhecido.

Falava-lhe por isso poderosamente à imaginação esse canto, cujas palavras a distância lhe não permitia ainda perceber, A invisível cantora parecia aproximar-se; percebiam-se agora melhor as modulações so.ioros:Ssimas daquela voz potente e argentina que conseguia dominar o ruído das vagas e que se estendia ao longe pela praia, como à procura de um eco que a. repercutisse.

Agora já a letra da canção podia ser percebida. Mas, se o estilo pouco vulgar daquela música causara já estranheza e influíra poderosamente no ânimo agora excitado do moço pescador, a linguagem desconhecida de que era acompanhada não lhe produzia,menor impressão.

Ignorava o que dizia, mas achava-lhe qualidades musicais que o enlevavam ao escutá-la. Era uma linguagem cujas palavras pareciam ter um sentido universalmente apreciado, em tão perfeita e inexplicável concordância pareciam estar com as ideias e sentimentos que exprimiam, De repente pareceu-lhe distinguir um ruído, como o do bater de remos na água e, com a vista excitada de pescador, julgou reconhecer, não obstante o tenebroso da noite, uma forma negra movendo-se no cimo das ondas, erguendo-se, abaixando-se, desaparecendo para tornar a surgir e a elevar-se e como demandando a praia com esforços porfiados! Pedro fitou aquele objecto com ansiedade. Nas formas mal distintas, nos movimentos, no som particular que produzia ao caminhar, dividindo as águas, parecia-lhe um destes pequenos barcos que os pescadores chamam chinchorro, frágeis esquifes em que esta intrépida gente do mar tantas vezes arrosta, a esforços de poucos braços, com a violência das ondas.

Impelido pela força do vento e pelo esforço dos remos, este barco cada vez se aproximava mais da praia. Pedro não sabia ainda era dele que partira o canto que havia seis noites o trazia enlevado pela solidão da costa marítima e que, depois da história narrada pelo tio João Cabaça, muito seriamente atribuía já à soberba e artificiosa filha das ondas, de que se julgava vítima.

À medida, porém, que ele se avizinhava, pôde perceber o som 'e várias vozes de timbre diverso empenhadas num diálogo animado; e, cedo, a pouca distância a que já vogava da costa tornou distintas seguintes palavras: — Eu bem disse à Madama que era perigoso o passeio numa noite destas. O mar não é o rio, e...

Isto dizia uma voz rouca e áspera, à qual outra de timbre melodioso e vibrante, e que evidentemente pertencia à pessoa a quem fora dirigida a insinuação, respondeu: — Acaso me competirá a mim dar ânimo a homens, que, desde lança, vivem no mar? Que vergonha! —E riu-se. Estas palavras foram ditas com uma certa inflexão, que denunciava a origem estraneira da que as pronunciara.

Pedro reconheceu nesta voz a da cantora desconhecida e o coração sobressaltava-se-lhe a escutá-la.

A voz rouca respondeu à arguição que a outra lhe fizera: — Não, Madama, não somos nós que temos medo do mar e tanto que não pusemos pecha em a trazermos aqui. Mas por um divertimento, brincar assim com as ondas; escolher uma noite escura, fria e ventosa para vir cantar desta forma ao ar livre, quando estão aí à porta tantas de luar claro, como o dia! A falar a verdade...

Uma risada jovial respondeu à observação e a mesma voz feminima replicou: — Parece-lhes tudo isto uma loucura, não é assim ? Pobres homens! E talvez tenham razão. Mas eu quero satisfazer as minhas loucuras todas. Sinto nisto um prazer!... Mas não se inquietem. Eu conheço alguma coisa o mar e sei ler na direcção do vento e no aspecto das nuvens as mudanças prováveis do tempo. Estudei as tempestades da minha terra. Nasci como vós à beira-mar. Meus pais eram pescadores também. O berço que me embalou nos meus primeiros sonos foi o barco em que toda a minha família se transportava; a rede a coberta única em que muita vez me envolveram para dormir. Aprendi assim, de pequena, esta música das ondas, de pequena me costumei a cantar com elas. Depois que a sorte me impeliu nesta vida artística, errante e aventureira que tenho seguido, não esqueci nunca as predilecções os meus primeiros anos. Sou como as aves aquáticas; ando sempre junto às costas marítimas. A escola em que aprendi foi a escola do mar; não me quero longe deste mestre inspirado que me ensinou a arte sublime da música. Parece-me que lhe sei já compreender os segredos todos; cada praia revela-me um novo mistério de arte. As ondas do Adriático, o mar da minha terra, não cantam como as outras. O mar é como o povo. Em cada país tem a música popular um génio próprio, uma índole especial. Assim também o mar. Tenho escutado as ondas de quase todas as praias da Europa. O mar Negro, o Mediterrâneo, o Báltico, a Mancha, o Atlântico, todos têm uma modulação sua e que me parece já distinguir. Nuns é mais majestosa e terrível a música das tempestades; outros têm mais suaves harmonias nas noites sossegadas de calma. Já vêem que eu e o mar somos antigos companheiros.

Ele entende-me e eu também o compreendo. Sosseguem, pois; eu não me iludo com a sua agitação desta noite. Bem cedo o veremos tranquilo.

Os pescadores não responderam. Estranhas lhe deviam parecer estas palavras, incompreensíveis até. A mulher que as pronunciara num tom de voz em que se revelava toda a exaltação de um carácter entusiasta e ardente, falava mais a si própria do que às rudes inteligências dos seus companheiros nesta extraordinária excursão marítima.

Pedro escutava, porém, aquelas palavras, com um entusiasmo de artista apaixonado e como que se lhe comunicava o fogo oculto da imaginação que as ditava. Sobressaltavam-no, como se lhe oferecessem a inesperada solução de um enigma em que, muito havia, lidava a sua inteligência. É que o mar também lhe falava. Ele pressentia-lhe uma linguagem que procurava adivinhar. Longas horas passava nas praias a escutar aquele rumor melancólico e solene e perguntava às vezes a si próprio o que o retinha ali. As palavras da cantora pareciam ter sido a resposta aguardada, há muito, àquela tácita interrogação da sua consciência.

Havia, pois, mais alguém que, como ele, escutava as ondas e se deliciava com a sua harmonia? Passado algum tempo, a noite, como se quisesse confirmar o prognóstico da desconhecida, principiou a serenar um pouco mais, abrandou a violência da ventania e as ondas vinham já quebrar-se com menos força nas areias da praia.

— Vejamos — disse a cantora — que lhes dizia eu, homens sem confiança no mar? Aí temos o vento sul para nos ajudar na volta. A que distância estamos de Espinho? — A légua e meia, Madama; ali mais adiante estão os palheiros do Furadouro.

— Voltemos. Não lhes disse eu que era desnecessário aproximarmo- nos tanto da costa ? Ao largo ! Ao largo! Os pescadores obedeceram-lhe, o barco sulcou as ondas afastando- se da praia, o rumor das vozes tomou-se cada vez menos distinto, mais confusa a forma escura do barco, até que enfim tudo se confundiu na escuridão da noite e no rumor monótono das vagas, já menos impetuosas.

Pedro ainda por muito tempo interrogou aquelas trevas e aquele ruído confuso do mar...

Era uma formosíssima noite de luar, aquela! A alvacenta nebrina que se condensara na atmosfera aumentava o aspecto teatral da cena, difundindo em toda ela um certo colorido vaporoso de surpreendente efeito artístico.

As vagas onde a luz se quebrava em multiplicados e cintilantes reflexos, estendiam-se languidamente pela praia, com um brando murmúrio.

Das pequenas cataratas que, ao dobrarem-se sobre si, produziam as ondas, levantava-se um orvalho denso que retratava a luz num íris desvanecido. Alvejavam ao longo da costa flocos de espuma que, num lento refluxo, desciam de novo às águas, até que outra vaga os impelia mais longe.

Tudo era solidão! No mar, na praia e no céu! O mar sem um barco, a praia sem uma habitação, o céu sem uma estrela! E a Lua, como uma lâmpada mortiça pendente da vasta abóbada de um templo deserto, alumiava esta majestosa e imponente solidão! Pedro caminhava rápido por este vasto areal da praia e nem sentia o seu isolamento, que povoada levava a fantasia por mil imagens e pensamentos encontrados.

Era noite avançada quando chegou à vista dos palheiros de Espinho.

Palpitava-lhe de ansiedade o coração ao aproximar-se daquele lugar.

Aquelas sombras escuras em que se destacavam no horizonte, tingido de um azul-pálido pelos reflexos do luar os palheiros desta parte do litoral, envolviam uma mulher que, sem o suspeitar, se transformara em objecto de um culto fervoroso para um mancebo em cujo coração virgem pela primeira vez se ateara a chama ardente de uma paixão definida.

Pela primeira vez Pedro afrouxou a velocidade dos seus passos e parou levando a mão ao coração como para lhe sentir as palpitações agitadas e irregulares.

Dominando esta comoção momentânea, prosseguiu, porém, na sua marcha e penetrou no centro da povoação. Estava quase deserta àquela hora. Pedro correu, como em delírio, todas aquelas estreitas e turtuosas ruas de areia, que seguiam por entre os palheiros, e parou em toda a parte onde imaginava encontrar aquela que tão ansiosamente procurava.

Em cada sombra que se destacava no vão esclarecido de uma janela, supunha ver o perfil da mulher a quem consagrara todos os afectos do coração, todos os seus pensamentos e aspirações.

Cansou-o esta inútil pesquisa, desalentou-o este baldado procurar, e quase se deixou cair, extenuado de forças e de esperanças, junto à porta de um pequeno palheiro situado no extremo oposto da povoação. Assim permaneceu alguns minutos sem consciência do que se passava em torno de si, pensando no destino da sua paixão insensata e absorvido por amargas ideias de que tantas vezez se lhe alimentava a imaginação.

Pouco a pouco principiou a despertar-lhe a atenção, até ali poderosamente distraída, um rumor de vozes que vinham do interior do palheiro à porta do qual se encostara. Uma das que falava não lhe era desconhecida e esta circunstância operou uma salutar diversão naquele preocupado pensamento, afugentando-lhe por instantes o tropel de ideias negras que o assombravam.

Aplicando o ouvido à porta detrás da qual lhe chegava aquele sussurro, Pedro pôs-se a escutar, com mal reprimida curiosidade, o que se dizia lá dentro.

— Sabes que a Madama nos tomou outra vez o barco para todo o resto da semana? — dizia uma das vozes.

— Outra vez ?! Julguei que desde aquela noite de ventania lhe passara o gosto por estes passeios.

— Enquanto a mim aquilo é mania. Pois não vês tu como ela não aproveitou as belas noites que têm estado e agora diz que quer o barco, quer chova, quer vente?...

— Estas estrangeiras têm destas coisas. Ela, pelos modos, é alguma princesa; paga que nem uma rainha.

— O sor Morgado que aqui esteve a banhos o ano passado disse no outro dia que a conhece do Porto. É uma fidalga estrangeira que anda a viajar.

. — Há gente que vem a este mundo só para passar vida de rosas.

— E aborrecem-se dele. É ver como ela acha gosto naquilo que nos dá pena a nós outros. Deu-lhe para cantar no mar! — E olha que lá isso!... Sempre canta que é um gosto ouvi-la.

— Mas para que lhe havia de dar! Cantar no mar! A falar a verdade...

Aquilo nem sei o que parece! — Deixa lá, homem. Para nós tem sido uma providência; às más pescas que tem havido, de muito nos têm valido os tais passeios da Madama.

— Mas também caro pagamos esses lucros, que quando ela empreende demorar-se por lá, nem que a levássemos a Lisboa a satisfaríamos.

— E então não há mar que a intimide. Uma mulher tão animosa ainda estou para ver.

— Sempre é estrangeira! Será ela cristã ?

— Ih! Não vês como fala tanto na Virgem ? E as esmolas que dá! Não, isso, boa senhora é ela. Verdade, verdade.

— Isso é. Tirante lá aquela veneta!...

— Quem tem dinheiro nem sabe em que o há-de gastar, — Quanto tempo se conservará ela ainda aqui na praia ? — Disse-me que até ao fim da semana. Depois vai para o Porto.

— Nem eu sei como se tem demorado tanto, agora que não é tempo de banhos, e tudo isto está deserto.

Pedro escutava, com indescritível avidez, este diálogo dos pescadores; esforçava-se por não perder uma só das particularidades referidas nele, relativas à desconhecida viajante.

Nas disposições de espírito em que o apaixonado moço estava naquele momento, o nome só da pessoa que assim nos traz, como os dele, avassalados os pensamentos, não é escutado sem uma extrema e agradável comoção.

Recolhia, como revelações preciosas, tudo quanto diziam os pescadores e ardia em desejos de lhes dirigir milhares de interrogações a respeito da mulher que eles tinham a ventura de transportar no seu barco às horas solenes da noite e pela majestosa solidão do mar. Porque preço não pagaria ele esse invejado prazer! Desta quase extática contemplação foi finalmente arrebatado pelas vozes de um piano que partiam do palheiro próximo. Pedro estremeceu, escutando os prelúdios que uma mão exercitada extraía das teclas sonoras.

Poucas vezes, se algumas, Pedro tinha ouvido um piano. Aqueles sons encantavam-no, estimulavam-lhe os vivíssimos instintos musicais que possuía, ignorando-os, essa alma nobre de artista, criada para grandes concepções, que o destino impossibilitava de realizar, condenando- a totalmente a sucumbir de contínuo nos esforços a que, por instinto, obedecia, desconhecendo sempre o alvo em que eles se convergiam.

Depois teve um pressentimento de que a mão que despertava do silêncio da noite aquela suave harmonia era a da mulher que ele procurava.

Que febril agitação então a sua! Era uma quase vertigem o que ! ele experimentava! — Ela aí principiou a cantar. E então é como os rouxinóis... Canta só de noite — disse um dos pescadores cujo diálogo Pedro estivera escutando.

Então a mesma voz, que tantas vezes o apaixonado moço escutara na praia, e que por muito tempo julgara um mistério do mar, principiou cantando, acompanhada, desta vez, pelos acordes sonorosos do piano, que mais a fazia sobressair.

Agora o estilo da música era suave e melancólico; era a canção da rosa, a ária formosíssima da qual Flotow fez o motivo de toda a sua ópera, a Marta, e que raros têm o poder de escutar sem que se sintam possuídos de uma profunda comoção e com disposições para lágrimas.

A artista cantava-a na letra italiana da ópera, cuja tradução é, aproximadamente, a seguinte:

Aqui, só, virgínea rosa, Como podes florescer I Inda em botão desditosa, E já próxima a morrer !

Em vez do orvalho da vida Cresta-te a neve e o tufão É já sobre a haste pendida Incidias a fronte ao chão!

Escutando aquela música elegíaca e sentida, Pedro experimentou uma comoção ainda mais profunda que das outras vezes; não compreendendo a letra italiana do canto, tal era a expressão da cantora e a eloquência da música que ele ouvia-a com intenso recolhimento, como se escutasse a voz do seu próprio coração. Esquecia-se de tudo, como nos esquecemos, levados pela corrente dos nossos pensamentos, a escutar a nossa própria consciência.

Quando as últimas notas deste canto magoado se desvaneceram, confundindo-se com o murmúrio do mar, Pedro, voltando a si do êxtase em que esta música o arrebatara, sentiu que as lágrimas lhe banhavam as faces.

— Que é isto, meu Deus? — exclamou o pobre adolescente com um acento de desespero. —Porque me faz chorar esta música? Porque me sinto entristecer sempre que a oiço cantar, a esta mulher que não conheço, que nem sequer ainda a vi? Que homem sou eu, tão singular! Jesus, Jesus! Será isto uma loucura? Tudo na praia recaíra em profundo silêncio. Pedro, com os olhos postos na janela obscura, conservava-se imóvel, como se temesse desvanecer uma visão deliciosa ou quisesse recolher as últimas e imperceptíveis vibrações sonoras que um sentido superiormente organizado lhe permitia ainda apreciar.

Principiava a tingir-se o horizonte dos rubores da madrugada e Pedro em vão se esforçava por se arrancar dali. Prendia-o uma esperança; a de entrever, por instantes que fosse, a mulher por quem concebera tão violenta paixão; instava com ele, para partir, aquela espécie de pudor do coração, com que de todas as vistas procuramos esconder os menores vestígios de um primeiro amor, tanto mais ardentemente quanto maior é a sua candura e quanto mais digno ele é da nobreza de sentimentos próprios da juventude.

Era já manhã alta quando Pedro voltou ao Furadouro.

Notaram a sua falta na companha, que à hora do costume se fizera ao mar e, segundo a lei, foi multado na parte do quinhão que lhe tocava.

Na noite desse dia reproduziu-se para Pedro a aparição do mar.

Foi pela altura dos palheiros, então ainda desertos, de Maceda e Cortegaça, que ele a veio encontrar.

A noite estava tranquila, o mar sereno. A claridade da Lua, penas velada por um transparente cendal de tenuíssima nebrina, permitiu distinguir o vulto da cantora que, recostada à proa, entoava ma música cheia de entusiasmo e energia, uma espécie de hino patriótico, a cujas palavras ela sabia comunicar todo o fervor do seu animo exaltado. Ainda desta vez foi contagioso para o impressionável moço o sentimento que em todo aquele canto se reflectia.

Assim como na véspera a melancolia do canto lhe havia feito assomar aos olhos lágrimas incompreensíveis, agora a energia, o ardor com que as palavras pátria e liberdade eram pronunciadas pela cantora, comunicaram-se ao enlevado mancebo, que experimentava um desses voluptuosos estremecimentos e sensações indefiníveis que ressentimos nos movimentos de entusiasmo, e nos transformam, e nos sublimam, elevando-nos acima de nós mesmos e fazendo-nos capazes de superiores concepções e empenhos.

Ele caminhava na praia como atraído por aquela harmonia sedutora.

Ela fugia-lhe já. O barco movia-se em direcção ao norte. Pedro seguia-o, seguia-o com uma velocidade que só lhe podia vir da alucinação que o dominava. Já mal se percebia o canto, já quase se tornara indistinto o barco de onde aquela música partia e Pedro, com o olhar fixo naquele ponto e com os ouvidos atentos à desvanecida harmonia, caminhava ainda, e caminhou sempre, até que um súbito obstáculo lhe tolheu os passos.

Estava defronte da Barrinha.

Quem viajasse há anos por esta parte da província da Beira, deve conhecer, por tradição, senão por experiência, o ponto do litoral que recebeu este nome e onde tantos episódios, uns cómicos e outros trágicos, se sucederam, antes que se construísse a ponte que hoje o viajante, ao percorrer a linha férrea, próximo à estação de Esmoriz, descobre desenhando os seus quatro arcos sobre o fundo esverdeado das aguas do oceano.

A Barrinha é uma estreita abertura cavada pelo mar na costa de areia, interrompida neste ponto, e por a qual ele se precipita, vaga a vaga, em um pequeno golfo que se estende para o norte e para o sul, separando dois extensos cabos de areia fronteiros um ao outro. Nas marés brandas, e quando o mar é pouco agitado, esta abertura é vadeável e os viandantes, aproveitando o refluxo, quase a pé enxuta atravessam, tão incólumes como Moisés atravessou as ondas do mar Vermelho; mas uma hesitação, uma demora pode ser-lhe fatal; se a vaga volta com um pouco mais de violência, envolve o incauto e não poucas vezes o arrasta consigo.

Nas marés vivas, porém, e quando as correntes marítimas são mais fortes, a passagem torna-se impossível, a não ser nos barcos que estacionam no pequeno golfo, e cujas águas nem sempre são plácidas, recebendo a agitação que o oceano, em completa comunicação com elas, lhes transmite.

Ora nesta noite era a Barrinha intransitável; ainda então não existia a ponte que hoje permite fácil passagem em toda a ocasião, e o mar era abundante.

E, contudo, Pedro hesitou ainda, como se tentasse lutar com a natureza no obstáculo que ela lhe oferecia. Mas o canto cessara de todo, a vista já não distinguia no mar o menor vestígio do barco; o alento que animara até ali o pobre vagabundo abandonou-o todo à languidez da sua definhada saúde.

Em algumas das noites sucessivas, tranquilas como esta, voltaram de novo o barco e a cantora. Pedro procurou-os com o mesmo fervor, escutou-a com o mesmo recolhimento, viu-a afastar-se com a mesma ou mais intensa saudade.

E o pobre pescador abatia-se a olhos vistos.

João Cabaça vivia taciturno e oprimido, preso às suas crenças e preconceitos, sentindo o estado de Pedro, a quem de cada vez mais se sentia afeiçoado.

! Na opinião do velho, opinião que ele não revelava para não excitar terrores ou causar maiores desgraças, era evidente ser tudo aquilo malefícios da sereia. Ao que já soubera pela comunicação que lhe tinha feito Pedro, acresceu uma nova circunstância, que muito influiu para corroborar esta crença no ânimo do velho pescador.

É que ele também a ouvira, também em uma das últimas noites lhe escutara o canto e não lhe ficou dúvida que' era' de sereia, pois nunca tinha ouvido mulher cantar assim e muito mais no mar e por tais horas da noite.

O velho tinha sido obrigado a ir a Espinho e, ao voltar, aí próximo da capela da Senhora Aparecida, principiou a ouvir aquele canto que o sobressaltou; aplicou o ouvido e percebeu-o mais distante.

O velho ficou aterrado! Quanto mais involuntariamente o deleitava aquela música, tanto maior vulto tomavam as suas apreensões.

Considerava-se já perdido, mas teve uma inspiração salvadora: correu para a pequena ermida, que lhe estava próxima, e, ajoelhando-se na entrada, pôs o pensamento na Virgem e serviu-se do expediente que, segundo a fábula, tinha utilizado um companheiro de Ulisses em uma situação idêntica. A prática surtiu efeito. Quando o velho destapou os ouvidos, já não se percebia o canto; tinha, pois, esconjurado o malefício.

Prosseguiu no seu caminho, mas sempre inquieto.

Nessa noite não pôde conciliar o sono. Volvia-se e revolvia-se no eito, fechava os olhos e escondia a cabeça no travesseiro... Debalde...

Era sempre aquela ideia a afugentar-lhe o sono; afigurava-se-lhe ainda ouvir aquela voz e o pobre velho principiava a imaginar-se enfeitiçado.

Fez o sinal da cruz, encomendou-se à Virgem e ao Pedro Santo que, antes de ser Papa, fora pescador; mas parece que desta vez tinha de ser ineficaz tão valiosa intercessão. Depois lembrava-se de Pedro, bom do velho, e compreendia como ele devia andar perdido, quando a si próprio nem a reflexão nem o peso dos anos lhe foram preservativo contra a influência daquela endemoninhada tentadora.

Se, próximo à manhã, João Cabaça conseguiu dormir, foi de um sono tão agitado, tão cheio de sonos febris e assustadores que, longe de o restaurar, o fatigou...

Quando apareceu diante dos da companha, perguntaram-lhe de todos os lados se estava doente.

Esta pergunta desagradou ao velho.

— Doente! E que me acham vocês para o pensarem ? — Está amarelo, o ti'Cabaça, que nem uma cidra e tem cara de quem lidou com bruxas.

— Malditas, malditas! Só de as ouvir uma vez, já assim me puseram! — exclamou o velho, não podendo reprimir uma indignação.

— Quem? Quem? — perguntaram várias vozes com grande curiosidade.

João Cabaça apenas respondeu: — Ninguém, ninguém. Eu cá me entendo.

Vejam como deveria ter adquirido firmeza a crença de João Cabaça, quando juntara à experiência de estranhos a sua própria experiência.

Procurou Pedro e, desta vez, foi eloquente na prédica em que lhe pintou com as mais vivas cores os artifícios das sereias, e pediulhe que resistisse àquela tentação que lhe viria a ser funesta. Que ele próprio, por a ter ouvido uma noite, se sentira incomodado e que, portanto, tomasse tento, que mais sujeita ao perigo andava a juventude do que a idade em que alvejam os cabelos e a fronte enruga e verga sob a pressão 'dos anos.

Estas e outras muitas coisas dizia o bom do velho, mas o seu companheiro escutava-as distraído e provavelmente sem ter sequer consciência do que elas significavam. A abstracção de Pedro aumentara de ponto a fazer julgar a todos que ele transpusera as raias da loucura.

Tudo fazia maquinalmente; se respondia às perguntas que lhe dirigiam era como se as não houvesse compreendido.

Esta distracção continuada, que o alheava ao trato usual dos seus companheiros, acabou por o isolar completamente, pois todos pareciam experimentar um certo afastamento por aquele carácter excessivãmente concentrado e tão sujeito a aberrações que se assemelhavam a uma verdadeira loucura.

Apesar das recomendações de João Cabaça, já a noite veio encontrar a Pedro no seu posto de vigia.

A tarde estivera magnífica.

No firmamento límpido não se formara uma só dessas pequenas nuvens que são o primeiro assomo da cólera dos elementos. Reinava uma calmaria completa ainda no princípio da noite.

A atmosfera tépida e asfixiante não era agitada pela menor viração ; as ondas, como que dominadas pela geral languidez da natureza, estendiam-se lentamente na praia com suave murmúr-io.

E, contudo, no meio desta tranquilidade, Pedro sentia-se inquieto, como se alguma coisa pressentisse ameaçando-o de um perigo latente.

As organizações impressionáveis são formadas por estas misteriosas percepções, que se não explicam.

Por um instinto, semelhante ao das aves que volteiam sobre as praias ainda quando a tempestade está longe, mas que elas pressentem já, não as ilude as aparências de bonança que o céu às vezes oferece ; o que quer que seja de invisível lhes prognostica as tormentas.

Aonde se engana a experiência dos anos, realiza-a a voz profética destes inexplicáveis instintos.

Nesta noite Pedro sentia-se triste, e experimentava um secreto medo que a si próprio admirava.

Não sei o que descobria no cintilar das estrelas, que o assustava; a voz das vagas, na sua aparente suavidade, parecia-lhe murmurar ameaças surdas; o sorriso da natureza dir-se-ia um sorriso traiçoeiro; não lhe infundia confiança.

Passeava na praia, com os olhos fitos naquela imensa superfície líquida de onde lhe tinham vindo os únicos momentos de felicidade que entrevira na vida. Mas comprimia-se-lhe desta vez o coração respirando a inflamada atmosfera daquela noite de sinistra influência.

Esta vez os temores que ressentia, na aparência mal fundados, pouco a pouco os principiou a justificar o novo aspecto que foram tomando o mar e o firmamento.

Levantou-se do sul uma viração, ao princípio branda, mas que adquiriu gradualmente mais intensidade, turbando a limpidez do céu com um sem-número de pequenas nuvens que coalhavam a imensa abóbada que se descobria dali. A forma, a disposição destas nuvens era de um agouro pouco seguro para os olhos amestrados. Pedro surpreendeu toda a significação destes sintomas do céu e via confirmados por eles os seus vagos terrores de há pouco.

Temia já que o barco, cujo aparecimento ele tão ardentemente esperava, não viesse aquela noite, e só com esta lembrança sentia-se desfalecer.

Era como se aquela esperança, se aquele gozo de momentos fosse o único laço que já agora o prendia à vida.

Pensar que lhe poderia faltar era para ele a origem de uma tristeza tão íntima, de uma tão absoluta desesperança, que na morte antevia o único alívio a esperar, depois de tão dolorosa desilusão.

Mas, no meio destas apreensões, puderam seus olhos descobrir, apesar da cerração cada vez mais densa que principiava a ocultar- lhe o mar, uma forma que lhe pareceu a do barco que aguardava com tanto fervor.

Trémulo de ansiedade indizível, se aproximou da beira-mar, fazendo excessivos esforços, para devassar o fundo impenetrável daquela escuridão.

O coração dizia-lhe que era aquela a aparição pela qual esperava, no seu palpitar ansiado, e na misteriosa sensação que ressentia.

De repente, como respondendo à tácita interrogação daquela alma apaixonada, e impelindo-a a extremos de júbilo indefinível, a conhecida voz feminima principiou cantando uma evocação à tempestade, que se poderia traduzir assim:

« Vinde I Soprai furiosos, Ventos de tempestade Ergue-te, majestade ! Ergue-te, ó vasto mar ! Passai, legiões de nuvens! Velai o céu de estrelas! Ó gemo das procelas ! Vem, quero-ta saudar!

«A luz fatal do raio Guie o meu barco apenas I E rujam como hienas As vagas ao redor...

Pairem nos ar's fatídicos As aves de carnagem.

E cave-se a voragem Com súbito fragor !

«Surjam do fundo abismo Os pavorosos vultos Dos náufragos sepultos Dos mares na amplidão ! Responda à voz das águas Fermentes, agitadas, O silvo das rajadas, Os brados do trovão !

«Do arcanjo de extermínio O gládio chamejante Ostente-se radiante De ameaçadora luz ! Da tempestade às fúrias Assistirei sorrindo, E bradarei: «Bem-vindo!» Ao génio que a conduz!

«Bem-vindo, sim, que eu sinto No seio, mais violenta, Uma cruel tormenta, A luta das paixões ! Procuro o mar furioso Como um seguro asilo 1 Arrosto-o, e não vacilo Das ondas aos baldoes !

Como se efectivamente a tempestade obedecesse a esta evocação singular, um violento tufão do sul veio encapelar as ondas já inquietas, encobrindo com a sua voz poderosa as últimas notas da canção.

O barco jogava nas ondas agitadas de uma maneira assustadora.

Os remadores faziam esforços poderosos para resistirem à violência das ondas e, pelos seus movimentos, denotavam a pouca tranquilidade de espírito que possuíam já.

Nos intervalos das rajadas, algumas palavras destacadas da tumultuosa discussão e ordens encontradas da manobra que se trocavam entre eles, vinham até aos ouvidos de Pedro, que principiava a inquietar- se pela sorte daquela a quem votara todos os seus pensamentos, a quem consagrara inteiros os tesouros de seus ardentes afectos.

— Temo-la connosco! — dizia um dos remadores. — E esta é de respeito! — Quem o havia de dizer, com a noite que estava I — Já me não agrada muito, a falar a verdade...

Neste ponto, nova rajada impediu que chegasse à praia o resto do diálogo.

Quando, por sua vez, serenou, era a voz da cantora a que se ouvia dizer: — Hei-de ser eu ainda desta vez que lhes dê ânimo ? Homens há tanto no mar e que ainda não têm confiança neste seu companheiro de juventude! Sosseguem, eu lhes asseguro que...

O fuzilar de um relâmpago, que iluminou com o clarão sinistro toda a extensa amplidão do mar, interrompeu estas palavras; e, instintivamente, a cantora levou as mãos aos olhos, exclamando: — Jesus! O ruído ensurdecedor de um altíssono trovão acabou de desorientar os pescadores, em cujo manobrar inconsequente se reconhecia toda a turbação de ânimo que sentiam.

Pedro examinava com indescritível ansiedade o resultado daquela luta de súbito travada entre os elementos enfurecidos e a força humana.

Palpitava-lhe violentamente o coração com a lembrança do perigo que aquele barco corria e, por vezes, uma força instintiva o aproximava

1 Esta poesia vem publicada nas últimas edições das Poesias de Júlio Dínis com o titulo Evocação à tempestade. Deve ter sido escrita em Ovar em 1863.

das ondas, como para voar em socorro daquela existência, à qual tão indissoluvelmente deixara ligar a sua.

— Não é possível vencer este mar! Faz-te à terra, Lourenço, que eu já mal posso segurar o remo I — É melhor, é melhor. A terral — Vira!—bradaram os outros.

Quando, seguindo esta nova ordem de manobra, o barco se voltou para demandar a praia, um forte tufão de vento soprou tão de súbito e com tal violência que, apanhando de lado o barco, por pouco o virava.

Um dos homens, que se achava desprevenido, não pôde resistir ao impulso e caiu ao mar.

— Santa Virgem!—bradou com voz angustiada a jovem italiana.

— Acudam! A este grito sucederam as exclamações dos remadores, que se esforçaram para salvar o seu companheiro. Este pôde voltar ao cimo da água a tempo de se encontrar ainda a pouca distância do barco e, firmando-se sobre a borda, saltou para dentro. A escuridão da noite era completa.

Pedro ouviu da praia o grito angustiado da cantora, o qual lhe penetrou até ao coração.

Ouviu as vozes confusas dos remadores e uma ideia terrível lhe passou pelo espírito. Pensou que aquela mulher desconhecida havia caído às ondas e lutava nesse momento com a violência do mar.

Pedro era um dos melhores nadadores do Furadouro. De pequeno fazia admirar os mais hábeis pela maneira como se confiava ao seio das ondas quando mais inquietas, e como que brincava com elas.

Não hesitou muito tempo; correu como um louco ao longo da praia e deitou-se ao mar, nadando na direcção do barco.

Guiava-o o som das vozes dos remadores no meio daquelas trevas que o rodeavam.

Mas, passados os primeiros momentos, Pedro sentiu que o abandonavam as forças em que, por hábito, confiara. Mal fundada esperança fora esta sua! O pobre moço já não era aquele pescador robusto e vigoroso para quem um remo era um brinco de criança, e que fazia inveja aos mais alentados, por aquela força muscular que subjugava a violência das vagas; tinham-no alquebrado as vigílias contínuas e os extremos da paixão que lhe absorveram todas as faculdades daquela alma até então virgem de afectos tão poderosos. Agora sentia-se desfalecer.

A meio caminho da praia ao barco que procurava, já os movimentos lhe eram dificultosos e um certo atordoamento de cabeça lhe impedia regularizá-los.

Já o animava apenas aquela força instintiva que nos estimula em situações desesperadas.

De quando em quando deixava-se tomar de um desalento tão completo que a custo sufocava a tentação de se deixar vencer pela força da corrente e baixar, sem esforços de resistência, ao túmulo que se lhe cavava aos pés. Depois a voz do instinto reanimava a energia de lutar, quando ele já deixava pender exaustos os músculos e se sentia sucumbir.

Renovava-se então aquele combate singular, terrível e solene, cujos resultados não podiam ser duvidosos.

O mar parecia deleitar-se em atormentar a sua vítima antes de a devorar. Uma vaga impetuosa anulava em um momento os esforços de muitos; depois abrandava-se, como deixando-se vencer, para cedo redobrar de violência e subjugá-lo.

A situação do infeliz era desesperada.

No seu espírito principiavam a suceder-se, em confuso tropel, cujo rápido voltear lhe fazia sentir uma verdadeira vertigem, mil imagens variadas, origem de quantas ideias nos últimos tempos lhe haviam preocupado o pensamento.

Por momentos esquecia-se já do fim a que tendiam todos estes esforços extenuantes que estava empregando, perdia a consciência da sua situação precária, duvidava da iminência do perigo, parecia-lhe um sonho tudo o que estava passando por ele e como se esforçava por acordar. Mas cedo aparecia-lhe a realidade mais amarga ainda, torturava-lhe o coração um paroxismo de desespero.

Vinham-lhe as saudades de um passado que havia esquecido, surgiam-lhe os terrores de um futuro que ia devassar.

Dúvidas, superstições, preconceitos, tudo lhe assaltava a consciência e o fazia delirar. Depois a lembrança daquela a cuja salvação sacrificara a sua existência surgia-lhe de repente como um clarão nas trevas que o cercavam e por instantes lhe comunicava uma energia improfícua. Era um lidar inútil, aquele. Já sem consciência dos rumos, não vendo, não ouvindo nada que lhe indicasse a direcção na qual devia fazer convergir os seus esforços, lutava por instinto; mas o espírito alucinado já não presidia à luta. Os membros enregelados, entorpecidos, exaustos, não lhe permitiam uma muito mais longa resistência.

Subitamente um relâmpago prolongado iluminou o vasto teatro desta cena terrível. Aos olhos de Pedro, já meio velados pela angústia, mostrou-se bem claro e próximo o barco que tão energicamente demandava e sentada nele a mulher por quem votava em sacrifício a própria vida, depois de lhe ter tributado todos os tesouros da sua alma.

Um novo relâmpago reflectiu a sua luz fulgurante nas feições simpaticamente belas daquela mulher extraordinária.

Este resultado reanimou por instantes as forças já abatidas do náufrago. Pela primeira vez lhe era dado contemplar o rosto daquela por quem concebeu uma tão singular paixão. Essa vista fascinou-o! Com uma energia quase sobre-humana, segurou-se à borda do barco, quando este se abaixava obedecendo à ondulação das vagas, e, com os olhos espantados, fitou aquela mulher, cuja voz o enfeitiçava e, como a da sereia, parecia arrastá-lo a uma inevitável perdição.

Ela também o viu.

Batia-lhe em cheio no rosto, desfigurado singularmente pelos afectos que então se combatiam tumultuosos e contrários naquele peito, um novo clarão de relâmpago.

A cantora deu um grito ao descobrir aquela inesperada aparição.

Por um instinto de compaixão estendeu as mãos ao náufrago.

O barco, neste mesmo instante, executou um movimento; as forças de Pedro abandonaram-no; quebrara-lhas de todo a violência da última comoção que recebeu. Soltou as mãos do bordo do barco, o qual lhe passou por cima do corpo.

— Esperem! Esperem! — bradou angustiada a cantora. — Um homem no mar! Os pescadores pararam e olharam uns para os outros, como contando-se.

— Estamos todos — responderam depois. — A Madama enganou- se.

— Vi-o! Não foi ilusão! Segurou-se à borda do barco, agora mesmo! Valham-lhe! Tenham piedade dele ! Os pescadores estenderam as vistas por toda a extensão do mar, que os relâmpagos iluminavam por intervalos, mas não descobriram vestígios do náufrago. Demais eles tinham pressa de se pôr a salvo e não depositavam demasiada confiança no sossego de espírito da cantora para supor que não fosse possível uma ilusão da sua parte.

Passado tempo, o maior furor da tempestade abrandara, os pescadores puderam vencer a resistência do mar e, algumas horas depois, desembarcavam na praia de Espinho, jurando nunca mais tornarem a meter-se ao mar numa noite como aquela por dinheiro nenhum deste mundo.

O ânimo da cantora não era desta vez contrário a iguais disposições de espírito.

Impressionara-a demasiado aquela figura do náufrago que entrevira e que ela não acreditava haver sido alucinação dos sentidos; impressionara-a, sobretudo, a estranha expressão daquela fisionomia descomposta, onde parecia reflectir-se, entre os tormentos da agonia, um certo reflexo de inexplicável voluptuosidade.

Era já dia claro quando as companhas se reuniram na praia, preparando-se para se fazerem ao mar.

O tempo melhorara. E do aspecto do céu tiravam os entendidos prognósticos favoráveis.

Um grupo de pescadores no qual se contava o nosso conhecido João Cabaça, caminhava, conversando, em direcção à beira-mar. A trovoada da véspera era o assunto discutido.

— E então que te parece a trovoada desta noite ? — perguntava um dos mais idosos.

— S. Jerónimo ! Alguns trovões estalaram mesmo em cima dos palheiros. Julguei que não ficaria um só de pé! — Vinha puxada do sul com uma força ! — Mas deixa lá! Era precisa para limpar os ares. Olha que manhã está hoje! Não há-de ser pequena a safra.

— É precisa, é precisa. Olha, o pior é dos que ela apanhou no mar — disse João Cabaça, meneando a cabeça.

— Lá isso é verdade ! Mas que remédio! — Andem mais depressa, rapazes! Olhai que os barcos estão prontos. Não vêem? — Mas que diabo fazem aqueles ali, ao pé do mar? — Para que será que eles olham assim? A curiosidade apressou o passo aos pescadores, que correram em direcção ao ponto da costa onde muitos dos da companha já estavam reunidos.

— Que é ? Que é ? — perguntavam uns aos outros, amontoando- se, comprimindo-se, empurrando-se, sem obterem a explicação que desejavam.

— Aquilo é afogado decerto... — dizia um pescador novo, depois de aplicar a vista por algum tempo a um objecto que boiava nas águas.

Estas palavras excitaram a curiosidade de João Cabaça, que se aproximou do que as dissera, com não disfarçada curiosidade.

— Mostra-me o que tu dizes que é um afogado, Luís do Moleiro.,.

TRECHOS

Tirados de dois manuscritos referentes aos romances Pupilas e Morgadinha.

D. DOROTEIA

E disso se poderia gabar quem há cinco anos fosse admitido na sala de recepção da sr." morgada das Fontainhas, Doroteia de Melo Carragena e Sousa de França e Albergaria, às horas em que se tomava o chá. O solar da septuagenária, representante de tantos nomes ilustres, ficava situado nos subúrbios da vila de Ovar, pátria da nobre fidalga, e onde seu pai foi capitão-mor em tempos cuja memória arrancava, a cada passo, do peito de D. Doroteia um suspiro de saudosa significação.

D. Doroteia não tinha cabedal para sustentar com o devido esplendor e galhardia a sua árvore genealógica tão carregada de nobilíssimas produções; era-lhe insuportável a vista do luxo que ostentavam famílias cujos mais próximos ascendentes não se cobriam diante dos seus; e, na impossibilidade de os sobrepujar em luxo e magnificências, ela preferia encerrar-se em uma quase completa reclusão, sob o pretexto de um desapego ao mundo e descrença em coisas e pessoas, digna, tanto na manifestação como na sinceridade, de um dos nossos cépticos de vinte anos.

Enclausurava-se, pois, D. Doroteia com as suas pratas, os seus vestidos, cuja moda estava esquecida há vinte anos, os seus gatos, os seus criados e os seus móveis, e lançava, da sua clausura, olhares de soberano desdém para o resto do mundo.

O acesso às salas desguarnecidas da aristocrática morgada era dificílimo. Frequentavam-nas, a titulo de amigos, apenas um padre meio fidalgo, dois velhos fidalgotes, igualmente ilustres e igualmente pobres, que passavam o tempo a consumir os restos de uma fortuna que demandas e hipotecas haviam, de ano para ano, reduzido em proporção assustadora, a título de familiares, que nunca se deviam esquecer do favor que recebiam nisso, sob pena de lhes ser lembrado, com severas admoestações, um boticário da vila e um doutor que ajudava a morgada a perder várias demandas e lhe preparava o andamento de outras.

O lugar onde, de ordinário, se reunia esta escolhida assembleia, era uma pequena sala quadrada, de soalho nu e carcomido, tecto de castanho pintado de branco, e altas paredes que uma série de quadros adornava, de caixilhos negros, contendo umas péssimas litografias, escandalosamente coloridas, das passagens mais interessantes da parábola do filho pródigo.

A mobília desta sala mostrava uma variedade prodigiosa; o canapé de mogno era flanqueado por duas cadeiras de pau-preto de estilo inteiramente diverso; em volta da sala, cadeiras de variadas qualidades, e junto ao canapé, um pequeno tapete que revelava longos anos de serviço no desbotado das cores. Sobre uma pequena mesa, uma redoma onde se abrigava um São João de marfim, e ao lado dois castiçais de prata ofuscantemente polidos.

Logo ao princípio da noite, às horas em que, quando o vento não era contrário, chegavam à solidão do solar da morgada os sons das ave-marias da igreja de Ovar, a mesa puxava-se para junto do canapé, os habituais convivas acercavam-se dela e a criada trazia os preparativos do chá.

D. Doroteia dignava-se prepará-lo e servi-lo com hospitaleira amabilidade e a conversa principiava a tomar uma vivacidade mais considerável, graças à confortável infusão e ao delicioso doce com que a verbosidade dos circunstantes era alimentada. D. Doroteia, constrangida pelas circunstâncias a prescindir de muitas ostentações, limitava-se a caprichar no bem servido do chá, e em mostrar, no serviço magnífico de prata e porcelana, uma passada riqueza de que hoje restavam apenas raros espécimes. Educada num convento de Aveiro, D. Doroteia trouxera de lá uma qualidade apreciável, a de saber preparar uma infinita variedade de doce que lhe granjeara entre a vizinhança uma merecida reputação.

D. Doroteia tinha sido casada com um coronel de milícias que a deixou viúva passado pouco tempo e do qual lhe ficou um filho único para educar e imensas dívidas a satisfazer.

A decadência da sua fortuna principiava daí; procuradores às mãos de quem a confiou continuaram a obra até ao ponto em que então se encontrava.

O filho da sr.ª morgada, na impossibilidade de viver da sua fortuna, foi obrigado a seguir uma carreira. A única que pareceu à descendente dos Carragenas digna de tão alta linhagem foi a das armas.

Duarte foi enviado para Lisboa e recomendado a um titular, seu primo em terceiro grau, e entrou para o Colégio dos Nobres.

D. Doroteia, como estes monumentos antigos que o vandalismo e o gosto estragado dos modernos têm coberto de emplastagens de cal e gesso que lhes ocultam o estilo da época, encobria, sob pastas de algodão, tranças de ébano, e marcas de carmim, os vestígios que atestavam a idade deste espécime de arquitectura viva. Não havia a nobre morgada abdicado de todas as velhas pretensões de elegância com que tanto brilhara nos salões do tempo de D. Carlota Joaquina e conservava ainda a tal respeito uma excelente opinião de si, corroborada pelas lisonjas aduladoras dos seus comensais, a quem as deliciosas sensações que o doce modelo de D. Doroteia produziam no paladar, exigiam tal retribuição.

Acabara justamente de encetar uma destas finezas insinuadoras a descendente da produtiva enxertia de tantos troncos ilustres, na ocasião em que nós também penetrámos neste salão privilegiado que o espirito nivelador da época não modificara ainda. A fineza partira de um dos fidalgos que, com a boca cheia de toucinho do céu, deveu talvez a esta circunstância a doçura do cumprimento.

A morgada sorriu com um gesto de amabilidade de outros tempos e respondeu, oferecendo ao galanteador uma fatia de pão-de-ló: — Vamos, Sr. de Refojos. Agora compete-me pagar doçura com doçura. Este pão-de-ló coberto...

O fidalgo estendeu a mão e agradeceu com os olhos a oferta, Com os olhos, poderia dizer, parodiando o poeta, porque a boca lhe atravancavam de doces uns fragmentos volumosos.

— O Sr. de Refojos — disse o outro fidalgo que se reputava seu rival nas boas graças de D. Doroteia — o Sr. de Refojos é muito feliz.

Os seus galanteios são-lhe pagos com usura.

— Doçura, quer dizer, Sr. de Alpedrinha — respondeu o interpelado tendo conseguido desembaraçar a língua o suficiente para pronunciar estas palavras.

— Deixe lá, primo — disse D. Doroteia para o segundo que falara.

— Longe de me arruinar com os juros que pago, ainda me considero em dívida; e como gosto de ser leal em minhas contas, vai o Sr. de Refojos dar-me o prazer de aceitar esta pêra de doce.

O Sr. de Refojos não recusou esse prazer à sua amável parenta.

O morgado de Alpedrinha mostrava-se impaciente. D. Doroteia acalmou- o voltando-se para ele com um sorriso: — O primo Henrique quer ter o martírio de me servir o açúcar ? O primo Henrique apressou-se em satisfazer o convite e endirei tando-se na cadeira meditou uma resposta galanteadora. Mas a imaginação do bom do morgado não era para pressas. Em casa, no silêncio de um gabinete, era fertilíssimo em ditos lisonjeiros e finezas de bom gosto que, se viessem em tempo oportuno, dever-lhe-iam ter valido mais do que uma fortuna amorosa; mas na ocasião era de uma esterilidade desesperadora.

— Os mártires... — dizia ele, sem poder encontrar o fio do galanteio— os mártires... os mártires...

— Fala-nos de Marrocos, Sr. de Alpedrinha? — perguntou com ares de simplicidade o doutor, ao passo que escolhia do tabuleiro o mais bem recheado covilhete que o adornava.

O Sr. de Alpedrinha, já embaraçado com a perspectiva de um galanteio, acabou de perder-se com a interpelação do doutor. Não sabia conservar o seu sangue-frio na presença de um aparte.

— De Marrocos, não senhor. Em Marrocos... em Marrocos...— balbuciou o Sr. de Alpedrinha, tendo Marrocos atravancado na garganta como tivera os mártires. Fora tão infeliz na execução do epigrama como no galanteio.

Felizmente que uma rajada do oeste, seguida de um desses aguaceiros de que este vento é tantas vezes acompanhado, veio operar uma natural diversão no diálogo, com grande aprazimento do Sr. de Alpedrinha, que decididamente não era para respostas de momento.

O boticário foi o primeiro a fazer sobre o tempo uma observação importante.

— Esta é a mais fresca de hoje! Estão-se a preparar os caminhos para regressarmos à vila! — Isto é nuvem que passa e como as terras estão secas não formam lama — acrescentou o doutor em tom de confiança.

— Deixe chover, Sr. Bento Firmino — disse D. Doroteia pousando a xícara — deixe chover que bem precisado estava o trigo e o milho.

Que se não perca tudo já agora que se foi a colheita do centeio e da cevada.

— Tem razão V. Ex.*, minha senhora. Isto não é chuva, é maná.

Até as hortaliças estavam secas que metiam dó.

— Ai, primo Alexandre, que tempos estes! Parece o fim do mundo! Olhe aquelas minhas terras das Leivas que me chegaram a render três e quatro carros de pão macho e este ano nem um terço, nem a quarta parte talvez me produzirão.

— Que quer, prima, é como o vinho da Bairrada. Este ano nem uma pipa me veio.

— E então os braços estão tão caros! — disse o Sr. de Alpedrinha que estendia a xícara para, pela quarta vez, a encher de chá.

O doutor, que se ocupava agora a palitar os dentes, tomou também parte na conversa.

— E o sustento! A carne sobe a um preço extraordinário; o vinho está pelo que se sabe; a fruta vai toda para o embarque; o pescado...

— O pescado — disse o boticário interrompendo-o — o pescado come-se em toda a parte menos aqui na vila. Mal os marinhões chegam aos Campos já ele está todo vendido para esses homens das estradas que juraram fazer-nos morrer de fome, pois levam-nos quanto peixe se vem ali vender. E quem há que lhes pode cobrir o lanço ? Homens ordinários como eles são! — Má praga esta das estradas — acrescentou D. Doroteia, suspirando.

— Há pouco, as de macadame, agora as de ferro, amanhã as de ouro... e as nossas terras a partirem-se, a retalharem-se que faz mesmo enegrecer o coração ao vê-las.

— Mas eles indemnizam os proprietários — disse o doutor, que sabia ser esta a objecção mais insuportável para D. Doroteia.

— Indemnizam! Tem graça a palavra, doutor. Dez-réis de mel coado por um terreno onde se empregavam para mais de quatro alqueires de semeadura. Indemnizam! O Demo os indemnize a eles quando mesmo pagassem o valor do terreno! Pagam-me o desgosto de ver as terras retalhadas? E as despesas, ao fabricá-las, não aumentaram? E então para quê? Pois não se ia até hoje ao Porto e a Lisboa pelos caminhos que havia? O padre que estivera calado lendo um número do Direito, único jornal, no Porto, órgão do partido legitimista, levantou a cabeça a esta apóstrofe da sr." morgada contra o progresso e acrescentou: — Hoje é a época das estradas, menos a da virtude onde crescem cardos e abrolhos de pouco calcada que vai. Edificam-se imensos casarões para teatros, para palácios e para estações; e não se edificam igrejas nem capelas. A época vai boa, não tem dúvida nenhuma! Boa para esses pássaros de arribação que vêm do estrangeiro chupar-nos a última gota de sangue e bom para os pedreiros....

E em tom de aparte acrescentou: — ... livres! E continuou a ler com frieza imperturbável um artigo de fundo da política cediça que acabara de parafrasear.

D. Doroteia, que vivia em eterna admiração da eloquência, profundeza de vistas e pureza de sentimentos do seu confessor, abanou a cabeça e suspirou melancolicamente, o que exprimia adesão completa às palavras pronunciadas e de comiseração pelos destinos futuros da sociedade actual.

— Por isso nos castiga Deus, por isso deu um ano de sequeiro e o mar...

II

AS DUAS MANAS

QUE santa paz de espírito gozavam as sr.as D. Quitéria e D. Genoveva na sua casa de Alvapenha aí pelo correr do ano de 1847! Ambas solteiras e quinquagenárias, ambas muito aferradas aos seus hábitos, muito tementes a Deus e inimigas da murmuração, as duas irmãs passavam uma vida, onde se descobria um suave cheiro de santidade, como o da alfazema que perfumava as suas gavetas e repassava a roupa branca pela qual elas velavam com escrupuloso carinho.

A inalterável harmonia mantida há muitos anos entre elas, dava que entender a quantos as conheciam. E com razão, pois não é vulgar observá-la em casos tais, quando a idade e o humor naturalmente um tanto acre das velhas celibatárias, justificam as pequenas impertinências que, sem outro auxílio, bastam já para originar tempestades no seio das famílias.

As duas irmãs, porém, tinham o bom senso e abnegação suficientes para fazerem mútuos sacrifícios em honra dos seus pequenos caprichos, inclinações ou antipatias. Há vinte e tantos anos que viviam ali isoladas na companhia apenas de uma criada tão velha como elas, e em todo esse tempo não se ouvira dentro daquelas paredes uma só palavra que, por mais alto pronunciada ou por significar uma menos evangélica paciência, destoasse da invariável monotonia dos seus diálogos habituais.

Era um exemplo edificante que elas davam aos seus vizinhos que, devorados por demandas entre primos, irmãos, pais e filhos, tios e sobrinhos, mostravam claramente, por seus actos, que era semente caída em amaldiçoado terreno.

Estas discórdias intestinas entre as famílias de seu conhecimento faziam suspirar as senhoras de Alvapenha e aumentavam o número de padre-nossos com que toda a noite se faziam lembrar dos santos de quem eram validas, pedindo a felicidade dos outros, tanto ou mais ainda que a sua.

A alma ia-lhes toda nestas orações. Ouvir rezar as duas irmãs, era escutar uma resenha das diferentes calamidades que afligem o género humano e que elas pretendiam desta maneira evitar. Um padre-nosso a São Marçal para que nos livre do fogo; outro a Santa Luzia milagrosa para que nos defenda da cegueira; outro a São Brás para nos proteger das doenças da garganta; um padre-nosso por todos os que andam sobre as águas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento; outro pelos órfãos; outro pelos doentes; um pelos bons, outro pelos maus; um pelos vivos, outro pelos mortos; um pelos justos, outro pelas almas do Purgatório; não hesitando mesmo a sua clemência a transpor as portas do Inferno e pedir também a remissão dos condenados; — enfim, depois desta enumeração, um último padre-nosso compreendia todos aqueles não mencionados por esquecidos, que pudessem necessitar das suas orações.

D. Genoveva, mais velha três anos que sua irmã, era a despenseira e superintendente dos negócios caseiros. D. Quitéria ocupava- se das contas e direcção dos contratos monetários, arrecadação de rendas, etc, etc.

Elas tinham uma fortuna sofrível que, não obstante as respectivas omissões que o seu procurador lhes fazia, bastava de sobra para elas, cujas necessidades eram limitadas.

Havia quem tivesse já dado a entender a estas senhoras quão mal administrada lhes andava a fortuna nas mãos daquele homem...

que fazia render os seus serviços.

A estes avisos razoáveis as boas irmãs respondiam sorrindo.

— Deixá-lo, deixá-lo. Nós estamos costumadas com ele e não nos poderíamos entender com outro.

Nestes caracteres o hábito impera como senhor despótico.

A sociedade habitual das boas senhoras era, como já disse, a sua criada Antónia; tipo de criada velha bastante comum, para dispensar descrição. Nesta preponderava um pouco o elemento malicioso e murmurador, sempre vantajosamente combatido pelo espirito tolerantemente conciliador das suas amas, que a repreendiam com severidade.

Os negócios de lavoura andavam a cargo de um jovial hortelão que, de quando em quando, subia às salas a divertir as senhoras de Alvapenha com as suas rústicas franquezas e simplórias observações.

Além disto, apenas recebiam como visitas alguns, poucos, vizinhos, entre os quais olhavam como valido um modesto rapaz de vinte anos, futuro ministro do altar, para o que se habilitava no Porto...

Tinham há pouco acabado de almoçar as senhoras de Alvapenha e preparavam-se para se votarem à labutação da casa, quando Antónia, com a roca à cinta, entrou na sala tossindo, como quem preparava a voz para dar uma novidade.

Uma continuada convivência tinha habilitado as suas amas a decifrar a significação destes modos de expressão da criada: era uma semiótica muito do seu conhecimento. Por isso D. Genoveva, que, naquele momento, fechava o armário onde arrecadara o açucareiro, manteigueira e o bule, voltou-se para a recém-chegada, dirigindoe um interrogatório: — Então que temos ? Antónia tossiu de novo, como para se ver livre de um importuno cataarro que ameaçava interrompê-la no meio da novidade e explicou: — Sabem quem chegou? D. Genoveva encolheu os ombros em resposta.

— Ora! Pois não se lembram? Não sabem que estamos em Julho? — E que tem isso ? — Pois em Julho quem é que chega ? — É o Verão — disse, da sala próxima, a voz de D. Quitéria, que escutara a conversa.

— O Verão?! — observou a criada meio espinhada.—Bem digo eu! Ó senhoras, pois na verdade...

— Vá, vá —disse D. Genoveva, que não gostava de enigmas.— Deixe-se disso. Se quer dizer, diga. Se não, trate da sua vida que eu tenho mais que fazer...

— Chegou o Sr. Valentim. Ora, quem havia de ser! As senhoras às vezes...

Esta nova efectivamente parecia de interesse para as duas irmãs.

D. Genoveva, que não concedeu grande atenção até aí à criada, voltou- se agora risonha para ela.

— Ah! Chegou? Quando? — Esta manhã, disse-mo o padeiro, que o viu passar...

D. Quitéria também entrou na sala a perguntar com carinhosa solicitude: — E virá bom, não sabe ? — Bem vê a senhora que eu não lhe pus ainda olho. Digo o que me contaram.

— Pobre rapaz! — observou D. Genoveva. — Aquele é um coração de pomba, é um bom-serás, como se contam poucos.

— E que vocação aquela para a vida eclesiástica! Senhor o ajude! — Enquanto a isso — observou a criada, que era a céptica da casa — veremos. Estes rapazes novos mudam de tenções de um momento para o outro.

— Não aquele! — replicou D. Genoveva.

— Também digo — apoiou a irmã.

— E que gosto para aquela pobre mãe, que tantos sacrifícios tem feito para o sustentar nos estudos! — Bem lhe valeriam eles se as senhoras o não socorressem! — disse Antónia, que não gostava de ocultar benefícios.

. — Pois, Deus nos aceite a boa vontade e não é preciso que ninguém o saiba. Você gosta muito de dar à língua, mulher! — observou D. Quitéria com algum azedume.

Era Valentim que entrava na sala, com expressão de íntimo contentamento no rosto, e não sei que suave alegria no coração, como sempre sentia ao entrar na casa de Alvapenha.

As duas irmãs acercaram-se dele com ansiosa solicitude.

Pareciam devorar-lhe aquela fisionomia plácida, que não reflectia nada das tempestades interiores, se as havia; pois podiam ter-se originado naquele peito que de pequeno se conhecera votado às coisas divinas e aceitara, sem exteriorização de saudade pelas coisas terrenas, o destino que lhe haviam traçado no berço.

Valentim nunca deixara perceber que o amito lhe pesava nos ombros, que as mãos lhe vacilavam a sustentar o cálix, o símbolo da fé, nem que as lágrimas humedeciam, em noites de angustiosas vigílias, o leito solitário.

Se era mártir, tinha a fortaleza do martírio; se, sob o crepe do sacerdote, lhe palpitava o coração, ainda rico de vida, nem no rubor das faces se lhe traía essa agitação comprimida.

E por isso lhe festejavam a vinda e suspiravam por o glorioso dia em que o tinham de ver, revestido de todas as dignidades sacerdotais, entrar, pela primeira vez, no altar do Senhor, pagar com a sagrada bênção as carinhosas bênçãos maternais e as de tantos que o viam caminhar seguro pelo caminho da fé.

D. Genoveva, depois de muito o observar em silêncio, e de o fazer sentar na mais cómoda cadeira da sala, ficando ela em pé defronte do futuro sacerdote, e nisto acompanhada por sua irmã, passou a informar- se do adiantamento de Valentim na carreira eclesiástica.

— Então, então, quando temos missa nova? — Quando mo permitir a idade. Ainda não tenho 25 anos.

— Eu peço a Deus que me não chame à sua divina presença antes de receber de suas mãos, Valentim, a bênção paroquial — disse D. Quitéria, que tinha esperança de que o cuidado da abadia passasse, em pouco, às mãos do jovem sacerdote.

Valentim sorriu.

— É uma profecia? Deus a realize. Ser-me-ia grato consagrar-me ao serviço de Deus na mesma terra onde recebi as primeiras noções da religião; poder socorrer com as consolações da fé aqueles a quem antigas afeições me ligam.

— E espero em Deus que o há-de permitir. E então o senhor abade há-de ver como lhe querem os fregueses! —Muito contente devia ficar sua mãe ao vê-lo hoje ! Pobre mulher! É uma consolação para a sua velhice. E ela que tantas consumições teve noutras idades! — Minha mãe!—disse Valentim, com voz afectuosa. — Quando, ao abraçar o sacerdócio, eu tivesse de consumar grandes sacrifícios, a sua alegria mos compensaria de sobra; e eu ainda teria de agradecer a Deus a constância que me concedeu...

As palavras de Valentim suspiravam uma melancolia vaga de mais para ser percebida pelas senhoras de Alvapenha, que se exultaram com a evangélica vocaçãp do mancebo.

No momento em que Valentim se dispunha a pôr termo à sua visita, soaram à porta duas sonoras pancadas que puseram em excitação os nervos da parte feminina da assembleia.

Era o portador de uma carta do correio.

A chegada de uma carta era um acontecimento em Alvapenha.

As duas irmãs perdiam-se em conjecturas sobre o objecto e procedência da epístola, antes de se resolverem a adoptar a única medida que as poderia esclarecer: a sua leitura.

— Uma carta! Que lhe parece, mana Genoveva, de onde pode ela vir? — Eu sei, menina. Do procurador...

— Não, por certo que não. E daí...

Valentim, que reparara no carimbo, observou que ela vinha de Lisboa.

Nova surpresa.

— De Lisboa? — De quem pode ser então ? Antónia notou com timidez: — Da mana das senhoras, talvez...

— Da Anica — disse D. Quitéria com estupefacção.

Esta admiração explica-se, sabendo-se que há muitos anos as irmãs da província não se correspondiam com a mana da corte.

— Pois na verdade será da mana Anica? Lê lá, Quitéria! — Leia, mana Genoveva, leia! — Não. Lê tu. E senão... deixa estar. O Valentim lê, não lê? — Mas... quem sabe... que negócios...— observou o interpelado.

— Connosco não há segredos. E demais, se os houvesse, era a um sacerdote que os confiávamos.

— Leia, Valentim, leia!...

Valentim cedeu e abriu a carta.

No fim da página lia-se a assinatura de João Soares de Carvalho.

— Ai, é do mano João? Acaso a Anica estará doente? Leia, leia!...

Valentim leu: « Estimadíssimas manas: «Desejo-lhes saúde e felicidades. Há muito que não recebo notícias suas e espero que não sejam más as primeiras que obtiver.

«Escrevo-lhes para lhes pedir um obséquio e ouso confiar que serei atendido pelas manas, não obstante não lho merecer.

Sua mana e minha mulher acha-se presentemente algum tanto adoentada, a ponto de me causar receios; os médicos votam por ares de campo e ela lembrou-se da casa onde passou grande parte da sua vida e na qual deixou pessoas por muitos respeitos dignas do amor que ela sempre lhes tributou. Se as manas virem que não há inconveniente em nos receber aí por algum tempo, peço-lhes mo — queiram participar e por isso lhe ficará muito obrigado aquele que se confessa « Seu mano e muito atencioso criado, «Lisboa, 17 de Julho de 1852.

«João Soares de Carvalho. »

A leitura terminada, houve um solene silêncio na assembleia.

s hábitos pacíficos e monotonamente uniformes das senhoras de 'Alvapenha esta carta produziu o efeito de uma completa subversão.

Por algum tempo se conservaram mudas, por não saberem o que haviam de dizer ou de pensar de tudo aquilo.

D. Genoveva mantinha-se na mesma atitude de religiosa atenção com que escutara a leitura, enquanto os dedos polegares descreviam maquinalmente, em volta um do outro, círculos intermináveis.

D. Quitéria, com a boca semiaberta, os olhos espantados, o queixo apoiado sobre a mão direita, não se mostrava em menor grau de abstracção.

Antónia, cujos olhos oscilavam de uma para a outra, parecia ansiosa por escutar a resposta.

D. Genoveva foi a primeira que interrompeu o silêncio, mas nao ainda para decidir coisa nenhuma. Voltando-se para Valentim, cujo pensamento se diria muito longe dali, disse: — Ora faz favor de tornar a ler. Tenha paciência.

A importância desta medida era contestável; mas passou sem oposição.

Valentim obedeceu.

As coisas ameaçavam permanecer em statu quo, como... outras muitas coisas.

D. Quitéria desta vez foi mais além que sua irmã.

— Não tem que ver, mana Genoveva; que venham, que venham, coitados.

— Pois, porque não? — respondeu esta, como se achasse muito natural o que ainda agora a deixara toda perplexa. — É dizer-lhe que sim.

— Mas... — balbuciou Antónia.

A observação não foi admitida.

— Mas... — disse D. Quitéria — não temos senão que escreverlhes e preparar-lhes os quartos.

— Eles trarão a pequena? — observou D. Genoveva.

— Pois haviam de deixá-la, mana Genoveva? E a coisa ficou discutida.

Valentim pôde enfim retirar-se, deixando aquela boa gente toda atrapalhada com a repentina nova da chegada dos seus próximos parentes da capital.

Quem sacrificou, com menos resignação, os seus hábitos de pacífico remanso foi a velha Antónia...

De resolver responder ao rico capitalista lisboeta a pôr em prática a medida ia grande distância.

As senhoras de Alvapenha nunca haviam cultivado a epistolografia e era empresa esta, de escrever uma carta, digna de muito meditar.

D. Genoveva lembrou-se de Valentim, mas, chegado de pouco, o pobre rapaz precisava de todo o tempo para visitas e descanso.

E que rude fadiga não era o redigir uma carta para o mano João Soares ! — Nada! Nem que nos custe, mana Quitéria, vamos atirar-nos a isto. Escreve tu, que tens melhor letra, que eu dito.

E D. Quitéria, depois de procurar o tinteiro, que, não sendo ali traste de primeira necessidade, não se achava à mão, dobrou com toda a arte uma folha de papel, molhou a pena e esperou.

D. Genoveva assoou-se, tossiu, esfregou a testa e disse: — Põe-lá.

E parou.

— O quê? — perguntou D. Quitéria.

— Espera.

Novo silêncio, durante o qual D. Genoveva tornou a assoar-se, a tossir e a esfregar a testa.

D. Quitéria experimentou a pena fazendo S S.

— Põe lá — disse, pela segunda vez, D. Genoveva.

Depois de outra pausa, continuou: — Estimadíssimo mano do coração.

— Do coração — repetiu D. Quitéria, depois de escrever, — Puseste? — Pus.

— Bem. Recebemos a sua carta...

— Carta... — repetiu o eco.

— E por ela tivemos notícia...

— Notícia...

— De que a mana Anica...

— Anica...

— Se acha adoentada.

— A... do... en... ta... da...

— Se os médicos dizem...

— Dizem...

— Que os ares do campo lhe fazem bem...

— Bem...

— Esta casa aqui está...

— Está...

— Que pobre como é...

- É . . .

— Os há-de receber com prazer...

Neste ponto D. Quitéria não apoiou a redacção e, como um deputado discutindo a resposta ao discurso da coroa, observou, pousando a pena: — Ó mana Genoveva, não é melhor dizer gente em vez de casa ? Sim, pois a casa não é que sente prazer...

— Dizes bem, mana Quitéria, mas agora como há-de ser? — Emenda-se.

— Ora lê do princípio e tem paciência.

D. Quitéria leu o que tinha escrito.

A emenda foi adoptada e modificou-se o último parágrafo da seguinte maneira: esta casa que aqui está, pobre como é, e a gente dela que os há-de receber com prazer.

D. Genoveva continuou: — Por isso, mano, quando quiser...

— Quiser...

— Utilizar-se do nosso fraco préstimo... — E acrescentou: — Olhe que préstimo é palavra grega, mana.

— E então? — disse D. Quitéria, que não pôde tirar nenhum corolário da observação.

D. Genoveva elucidou: — É que escreve-se com ípsilo.

— Ah! É verdade! — disse D. Quitéria, escrevendo em virtude da nota: o nosso fraco prestymo.

— Acredite que o veremos com júbilo.

— É grega também, mana? - É .

E D. Quitéria escreveu jubylo.

— Recomendações à mana Anica e muitos beijos à Laurinha e façam por vir o mais cedo que puderem — Puderem.

— Suas manas que muito o estimam e muito reconhecidas aos seus obséquios.

— Obséquios. Agora assine, mana...

D. Genoveva aproximou-se da mesa e, depois de ter puxado a escrita assinou com a mão trémula: Genoveva Martins.

Depois seguiu-se a colocação das vírgulas, tarefa importante de que as boas senhoras se saíram sofrivelmente, colocando vírgulas quase de duas em duas palavras, sistema de ortografia tão bom como outro qualquer, visto que não temos nenhum.

Antónia foi chamada para ouvir a leitura e todas três admiraram a redacção da carta, que não duvidaram em considerar um modelo no género.

III

A CHEGADA

DIFÍCIL empresa seria tentar descrever o alvoroço que ia naquele momento em Alvapenha. O sangue-frio das boas senhoras abandonou- as completamente quando noticiaram a chegada da cavalgada.

Antónia, cuja vida isolada a tinha tornado um pouco insociável, correu a esconder-se na cozinha. D. Genoveva, que tremia com a lembrança de não receber condignamente os seus cunhado e mana, foi ter com o Santo António, a quem fez uma prece do coração para que a não desamparasse.

D. Quitéria foi quem mostrou ali mais firmeza. Puxou para diante os folhos da sua touca, arrojou a distância o avental do serviço, e galgando as escadas, postou-se à porta a esperar os recém-chegados.

Ela não queria acreditar os seus olhos, quando viu aproximar-se, em rápido trote, a gentil amazona da cavalgada.

— Jesus, santo nome de Jesus! Ela vai despedaçar-se! — murmurou D. Quitéria, e principiou a encomendar a cavaleira à Senhora da Nazaré, que valeu a Fuas Roupinho num caso idêntico, quando esta, por um ágil movimento, se desapeou, atirando as rédeas para as mãos de um criado e num momento a boa senhora se viu rodeada por os braços da elegante menina, que a beijava com efusão.

— Não me conhece, pois não? — dizia ela, da completa estupefacção da pobre senhora que nunca na sua vida vira aqueles trajos! Com qual das minhas tias falo eu? D. Quitéria caiu em si. Era pois a menina.

— Pois tu és a Laura! Tão crescida! — E afastando-a de si para a ver melhor, exclamava, benzendo-se: — Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo! Pois tu és a Laura ?! Laura, uma vez que este é o seu nome, continuava a sorrir-se e parecia deleitar-se com a estupefacção de sua tia.

— Ó mana Genoveva — bradou esta para as escadas. — Venha ver, venha ver, ande cá depressa! — Ah! Então é a tia Quitéria — exclamou Laura, apertando-a de novo nos braços.

D. Quitéria desta vez correspondeu a esta prova de efusão.

A mana Genoveva decidiu-se enfim a descer com a protecção de Santo António e houve repetição da cena.

Elas olhavam assim para Laura como para uma coisa bonita que nunca tinham visto e pareciam estranhar-lhe sobretudo a altura. De acto as duas irmãs, não tendo ouvido falar de Laura senão quando esta era criança, costumaram-se a imaginá-la ainda nessa idade, esquecendo- se que, desde então, se haviam passado quinze anos.

Antónia, debruçada no corrimão da escada, espreitava para baixo, surpreendida pelo chapéu e vestido de Laura, mas não ousava aproximar- se.

No entretanto chegara o resto da cavalgada. João Soares de Carvalho cumprimentou com afecto, ainda que menos expansivo, suas cunhadas, e, apeando-se, ajudou a descer sua mulher, a quem as duas irmãs receberam nos braços, derramando lágrimas de enternecimento.

Ana Soares, irmã mais nova das senhoras de Alvapenha, enfraquecida pela doença, trémula pela emoção que a vista dos sítios onde passara a infância e de pessoas tão queridas lhe determinava, vacilou aos primeiros passos que deu. Laura apressou-se a dar-lhe o braço, que ela parecia preferir e, enquanto João Soares dava ordens em baixo aos criados, tendentes à melhor acomodação das cavalgaduras, a mãe e a filha, precedidas pelas boas senhoras que, à vista de sua irmã, puseram de parte todo o estudo da etiqueta constrangida, para seguirem apenas os ditames do instinto, entraram na sala verde destinada ao alojamento dos hóspedes.

Depois de conduzir sua mãe a uma cadeira de braços, objecto de antiga existência na casa, Laura aproximou-se da janela a contemplar a perspectiva campestre que se descobria de lá.

D. Ana, no meio de suas irmãs, passeava por toda aquela sala olhares de um sentimento exaltado e susceptível, que todas as organizações recebem quando afectadas por estas doenças que lavram latentes na economia, em sintomas que atormentam em acessos ou paroxismos, mas apenas gastam as forças do corpo para exaltar as do espírito.

— Então está muito doentinha, mana Anica ? — perguntou D. Geno veva, com inflexão de voz carinhosa.

. —Não muito — respondeu a irmã.—Apenas uma fraqueza que estes ares do campo hão-de curar, espero eu.

— Hão-de, hão-de ; Nosso Senhor há-de permiti-lo — acrescentou D. Quitéria.

— Os ares do campo ? E não é só isso — continuou a doente— e a companhia das manas e a lembrança daqueles tempos que aqui passámos juntas e em que havemos de falar muito, não é verdade? As duas senhoras sorriram, fazendo um gesto de aquiescência.

— E também a companhia da...— E a bondosa senhora procurou com os olhares alguém na sala, que não encontrou. — Que é dela? — Quem? — perguntou D. Quitéria. —A Laurinha? — Não... Antónia porque não aparece? ! —Eu nem sei—disse a irmã, levantando-se. — Querem ver que a mulher tem vergonha?— E, chegando à porta, chamou pela criada, no interior da qual se travava, efectivamente, naquele instante uma luta entre os desejos de ver a sua ama de outros tempos e o seu acanhamento.

Enfim sempre veio trazida a reboque por D. Quitéria.

— Está muito estranha, esta menina — disse D. Quitéria ao entrar na sala.

— Venha cá, Antónia! Já se esqueceu de mim? — Quem, eu, minha senhora? Eu não me esqueço assim depressa.

— Então não fuja, venha cá.

Antónia ganhou ânimo e aproximou-se. Laura voltara-se e examinava com interesse a criada, em que sua mãe lhe falara bastas vezes.

Antónia cumprimentou-a o mais lisonjeiramente que pôde, E a conversa generalizou-se.

João Soares de Carvalho entrou, por sua vez, na sala.

As cunhadas levantaram-se ao vê-lo.

— Por quem são, manas. Nada de cerimónias. Laura — disse, voltando-se para a filha — uma das tuas malas já está desimpedida.

Laura pediu para a conduzirem ao quarto que lhe era destinado e Antónia, que terminou o seu estudado cumprimento ao cunhado das senhoras, foi por estas mandada a acompanhá-la. Subindo as escadas com a vivacidade que se traía em todos os seus gestos e movimentos, Laura dirigiu a palavra a Antónia: — Já principio por lhe dar incómodo, Sr.' Antónia...

D. Quitéria foi em diligência ao quarto da gentil rapariga e despertou- a daquela quase abstracção em que ela se achava.

— Credo, menina! Olha se o ar da noite te vai fazer mal. Sempre ouvi dizer que esta hora das trindades é mal-azada a quem a ela se expõe.

Laura sorriu.

— Sossegue, minha tia, a mim nada me faz mal e depois...

este espectáculo é novo para mim, que tenho vivido tão pouco no campo.

D. Quitéria aproximou-se para ver o espectáculo de que falava a sobrinha. É de crer que o não achasse empolgante, pois observou: — Mas isto são horas de descer, menina. Vai-se tomar o chá.

A mãe está inquieta.

— Eu vou, eu vou, minha tia; só o tempo de mudar de fato.

D. Quitéria desceu, de novo, à sala onde serenou o ânimo da irmã.

Além da família havia apenas naquele momento, na sala, o reitor, que conversava em assuntos sérios com o comerciante lisbonense, e sua sobrinha que, à fé de historiador, eu afirmo ser tal, embora, como todos os homens, o nosso reitor não escapasse às línguas viperinas de seus desmoralizados fregueses.

Esta menina fora mandada convidar pelas senhoras de Alvapenha, porque as suas muitas prendas a faziam uma companhia conveniente para Laura, que não podia encontrar no resto da assembleia elementos tão adequados para seu entretenimento.

Inês dispensa descrição. Era uma mulher como há muitas. Nem feia que incomodasse a vista, nem bela que entusiasmasse. Tinha uma fisionomia vulgar, destas que zombam da arte dos pintores... ' Os dotes espirituais orçavam pelos corpóreos; não tinha instintos que a chamassem ao mal, nem inteligência para compreender o bem.

O seu sistema era um indiferentismo por tudo e por todos, que nada vencia.

Quando Laura entrou na sala, trazia um vestido de cassa branca, liso e singelo; os cabelos sem um único adorno, mais sobressaindo pelo contraste da enfeitada cabeça de Inês. Laura foi sentar-se junto da sobrinha do reitor, depois de ter cumprimentado as novas personagens da roda das tias.

Entre as duas raparigas travou-se um diálogo, indiferente à primeira vista, mas cujas primeiras palavras bastaram a Laura para formar ideia do carácter ridiculamente pretensioso da sua interlocutora.

Inês mostrava-se em atitude de não ser compreendida naquela terra de selvagens, onde não havia uma única inteligência culta.

— Não faz ideia, menina — dizia ela suspirando e com um gesto de enfado — com que gente rústica se lida aqui; vejo-me obrigada a viver isolada, porque esta sociedade e convivência estupidifica, longe de civilizar.

— Sim? — respondia Laura. Depois perguntou, com um certo sabor de zombaria, que Inês não compreendeu: — Veio há muito do colégio, menina? — Há seis meses.

— Ah! Este monossílabo mostrava que Laura tinha achado a explicação do soberbo spleen da colegial. A vida do colégio dá, na verdade, um certo verniz de pedantaria que só o tempo ou o bom gosto natural fazem perder.

Momentos depois, uma nova visita entrou no círculo que se formara na sala.

Era Valentim.

Nas maneiras do protegido das senhoras de Alvapenha havia um certo acanhamento não desgracioso, filho da natural timidez daquele carácter singular. Graças ao muito que dele haviam já dito as santas cunhadas de João Soares e que o reitor confirmara, o acolhimento que recebeu Valentim foi mais que favorável. D. Ana Soares, sobretudo, quis que viesse para ao pé de si. Os doentes gostam de quem lhes faça lembrar a religião, cujos auxílios

1 É difícil compreender o manuscrito nesta passagem.

eles talvez em pouco tempo exijam, e a vocação de Valentim para a vida da Igreja, apregoada por suas irmãs, valeram-lhe no ânimo de D. Ana Soares uma certa veneração que ela não disfarçava.

IV
VALENTIM

Apobre mulher não via neste mundo senão o filho. De cada vez que o via entrar ressentia uma alegria nova.

— Boas noites, mãe — disse Valentim, sentando-se junto dela e segurando-lhe as mãos entre as suas.

— Como vens frio, filho. Faz-te mal este ar dos campos assim tão tarde.

— Frio? É um engano! Veja! — E levou-lhe as mãos à fronte.

— A testa escalda. Tanto pior. Recolhe-te, Valentim; parece que te não sentes bem.

— Sinto; e, se a mãe quisesse, podíamos ficar um pouco mais a conversar. Há ocasiões em que não gosto de estar só. Tenho pensamentos...

— Pois sim, filho, sim. Não te fazendo isso mal...

— Não faz, mãe, não faz.

— Ora diz-me, Valentim: tu pareces-me triste. Que tens, filho? Eu bem sei que sou uma pobre mulher, que não sei como hei-de dizer-te para te consolar. Mas olha, não sei porque é, mas uma mãe sempre atina com palavras para consolar seus filhos...

Valentim levou aos lábios a mão de sua mãe.

— É assim, mãe. O que nos consola não são as palavras, é o amor que nelas verte o coração. Às vezes uma só palavra é mais rica de sentimentos que longas frases e discursos.

— Pois então, filho, diz-me o que assim te faz tão triste.

— Triste ? Pois acha que quem, como eu, se destina ao serviço de Deus pode acolher a alegria infundada que os prazeres nos fazem sentir? — A seriedade cabe bem aos sacerdotes, mas há também uma alegria que nos dá a consciência quando está de bem com Deus e consigo mesma; uma alegria séria... que nem outro nome lhe sei eu dar a essa...

— E essa, mãe, quem a pode ter? Pois quem tem a consciência tão pura que lhe não sinta a voz a todo o instante? — Olha — disse a pobre mãe depois de fitar em Valentim uns olhos perscrutadores — tu sabes que o meu maior desejo é ver-te seguir essa santa carreira a que te destinas. Mas, vê bem, se para isso tens de fazer sacrifícios para que te faltam as forças e te não sentes com ânimo para a seguir até ao fim,..

E parava dizendo isto, como se, para concluir, tivesse de fazer um esforço superior...

— Então, filho, então... pára...

Valentim não respondeu. Deixando pender a cabeça, parecia meditar nas últimas palavras de sua mãe, que era o mesmo que, há muito tempo, lhe murmurava baixinho a consciência.

Terminada esta meditação silenciosa, ergueu a cabeça. Havia resignação na sua fisionomia.

— Não. Eu posso ter instantes de fraqueza; mas espero me não abandonarão inteiramente as forças. Desanimado tão cedo, para as primeiras dificuldades... Pois que esperava eu? Não as devia ter previsto e não as previ, de facto? Não, mãe, ainda me não falece o ânimo, — Espero em Deus que nunca te abandonará. Mas de onde vens tu, que assim te puseste tão triste? — De casa das senhoras de Alvapenha.

— Ah! Não havia gente de fora esta noite? Pareceu-me ouvir dizer...

— Havia... A família de Lisboa...

E Valentim calou-se de novo, como se lhe acudissem outra vez as imagens tumultuosas que as palavras de sua mãe tinham, em parte, afugentado.

— Boa noite, mãe — disse o inquieto jovem, levantando-se com vivacidade.

— Vai deitar-te, vai, filho, que bem o precisas tu. Deus queira que não seja doença, isso.

Valentim retirou-se para o seu quarto, simples aposento despido de ornatos e que denunciava os hábitos simples da vida do pobre adolescente. Uma mesa, um leito e poucas cadeiras eram toda a mobília.

De uma das paredes nuas pendia, um crucifixo que ele recebera de sua mãe, e sobre a mesa alguns papéis dispersos, em desordem, revelavam laboriosas vigílias a que se entregava o melancólico protegido das senhoras de Alvapenha.

Valentim, entrando no quarto, sentou-se à mesa. Deixou pender a cabeça sobre as mãos e por tanto tempo se manteve assim imóvel que, quando enfim se ergueu, já os primeiros alvores do dia penetravam pelas frestas das janelas.

Foi num destes momentos em que a ideia de Valentim seguia a sua melancólica propensão, que Laura, tentando arrebatá-lo daquele desconforto em que o via mergulhado, lhe disse sorrindo: — Vamos, Sr. Valentim, eu e meu pai já explanámos as nossas predilecções literárias; queremos saber as suas. Recite-nos alguma coisa. Não lhe ocorre nada? Valentim ergueu a cabeça a estas palavras e sorriu.

Havia naquele sorriso uma expressão de amargura sensível aos olhos menos perspicazes. Laura observou-o atentamente.

— Agora mesmo me estavam ocorrendo — disse Valentim com o tom melancólico que lhe era habitual — umas estâncias irregulares cujo autor ignoro. Quero-lhes pelo assunto.

— Qual é ? — perguntou Laura com interesse.

— É uma elegia sobre o túmulo de um padre.

— Ah! — disse Laura fixando os seus olhares sobre o rosto do mancebo. — Recite, recite...

Valentim correu a mão pela fronte, que deixou ficar encostada, enquanto que, com a voz vagarosa, e repassada de tristeza, o olhar perdido no espaço, recitou as singelas quadras que., na véspera, lhe haviam sido ditadas pelo coração junto ao túmulo onde tantas vezes parou, a meditar no seu destino.

O BOM REITOR

Sabem a história triste Do bom reitor? Mísero! toda a vida Levou com dor.

Fez quanto bem podia...

Mas... afinal, Morre, e na pobre campa, Nem um sinal!

Nem uma cruz, ao menos, Se ergue do chão! Geme-lhe só no túmulo A viração.

Vedes além, no vale, Junto ao rosal, Flórea que há desfolhado O vendaval?

Cobrem-lhe a lousa fria, A criação Só lhe venera as cinzas Co'ignota mão.

Pobres que tanto amava Nunca, ao passar, Curvam a fronte e ajoelham Para rezar.

Nunca, ao nascer do dia, O lavrador Passa e lamenta a sorte Do bom reitor.

Nem, do cair da tarde, À ténue luz, Serve, de triste lâmpada, Humilde cruz.

Há nesta vida amarga Sortes assim...

Vive-se num martírio.

Morre-se enfim.

Sem que memória fique Para dizer Às gerações futuras Nosso sofrer.

E calou-se. Todos pareciam respeitar aquele silêncio e fitavam em Valentim olhares de solícito interesse.

Laura foi quem primeiro rompeu este prolongado silêncio.

— E o resto? — disse ela, não desviando a vista de Valentim.

Este estremeceu como se uma voz o despertasse de um sonho.

Ergueu a cabeça e, corando levemente, respondeu com aparente indiferença: — O resto é curto, é uma súplica apenas. —E acrescentou:

Quem me escutar, se, um dia, Ao vale for, Reze sentida prece Ao bom reitor.

Laura conservou-se pensativa depois que Valentim terminou a última estância.

João Soares interrogou-o sobre o autor daquela poesia.

— Ignoro-o — respondeu Valentim; mas tendo-se, por acaso, os seus olhares encontrado com os de Laura, baixou os olhos com embaraço.

— «Entendo — murmurou esta para consigo.—Parece-me que atinei enfim com a verdadeira causa daquela tristeza. Veremos.» A noite ia-se adiantando.

D. Ana Soares retirara-se com suas irmãs e apenas se demoravam na sala Valentim, Laura e seu pai. Tinham descoberto a maneira de .conciliar com os seus, os hábitos regulares das senhoras de Alvapenha.

João Soares retirara-se um tanto para o lado a examinar umas cartas que recebera de Lisboa naquela tarde, e mostrava-se absorvido na leitura.

Laura e Valentim acharam-se, quase sós, na presença um do outro.

— É uma história singela, mas triste a que nos contou.

Valentim ergueu a cabeça ouvindo isto, como se correspondesse ao que ele próprio estava pensando naquele momento.

— Eu sempre pensei — continuou Laura — que não são menos para lamentar estes mártires de espírito, deixe-me assim chamar-lhes, que se estorcem nas angústias de uma tortura moral, do que aqueles cujo martírio todos lamentam porque todos os compreendem.

— É certo — disse Valentim — sofre-se mais talvez quando se sofre uma dor que muitos julgam fingida e de que muitos não fazem ideia sequer.

— E, contudo, quem sabe? —disse Laura, como se os seus pensamentos tomassem uma outra direcção. — Quem sabe se o pobre reitor, se existiu, como creio, se julgava a si mesmo infeliz! O poeta imaginava-o assim, porque o imaginou por si. O bom homem talvez nunca aspirasse a esta espécie de imortalidade que é o sonho dourado das almas jovens e entusiastas; e talvez se achasse tão feliz com esse olvido que sucedeu à morte, como com a obscuridade que o envolveu em vida.

Valentim corou a estas palavras.

Laura prosseguiu: — Eu tenho por costume procurar ler, através das obras, os pensamentos dos autores; nos romances, nos poemas, toda a minha atenção se fixa nas personagens que o autor parece tratar mais do coração. É a essas que ele encarrega de exprimir os seus próprios sentimentos; é pois nas acções e nas palavras destas que eu busco descobri-los.

Valentim escutava Laura com um interesse que não procurava disfarçar.

Ela continuou: — Este sistema não digo que não possa falhar, mas acerto muitas vezes. Por exemplo, quer que lhe diga como eu imagino o autor daquela poesia que recitou há pouco? E tenho pena que o não conheça para me desenganar se não adivinhei.

— Diga — disse Valentim com um visível movimento de curiosidade — diga...

Laura notou-o e, afectando um ar indiferente, prosseguiu: — Imagino-o um homem ainda jovem, por circunstâncias especiais votado a viver em uma esfera obscura e que sente em si alguma coisa que o proclama capaz de aspirações mais subidas. Este homem ainda muito novo, mas que a glória já embriaga, não renuncia, sem um doloroso sacrifício, a esses dourados futuros que a sua imaginação insiste em lhe representar; mas foge-lhes talvez por um exagerado sentimento de dever, talvez porque se julgue ligado por uma força maior a uma missão que exige dele esses sacrifícios... E todos faz, mas ao mesmo tempo despedaça-lhe o coração cada um que realiza...

As senhoras de Alvapenha davam lições de madrugação ao pró prio dia. Ainda o Sol não pensava em alumiar a Terra, já elas saltavam fora do leito a procederem aos seus trabalhos domésticos. Era interessante ver as duas irmãs, à luz duvidosa que antecede a aurora, combinada com os amortecidos raios de uma quase extinta lamparina, passarem e perpassarem naquele quarto, sem despertarem o menor ruído que pudesse acordar os hóspedes cujo aposento era subjacente ao seu. O diálogo que se trocava entre elas, não longo e com frequentes intermitências, era pronunciado em uma voz baixa, como se se tratasse de mistérios espantosos.

Na manhã seguinte à noite em que se passou o capítulo precedente, a azáfama que ia no quarto das irmãs de D. Ana Soares era maior ainda que a de costume. Havia nos seus movimentos uma vivacidade de que elas se não julgavam capazes e uma pressa notável de terminar a arrumação em que se mostravam empenhadas.

É que naquele dia — era um domingo — não tardou que na torre da igreja paroquial se ouvissem tocar as badaladas que chamam os fiéis à missa primeira.

Envolvidas nas suas longas capas de pano e cobrindo a cabeça com um modesto lenço de cor escura, as senhoras de Alvapenha, chamando Antónia, que lhes não ficava atrás em hábitos madrugadores, e depois de recomendar ao Sr. Vicente a vigilância da casa, saíram através dos campos e dirigiram-se à igreja, ainda então quase vazia.

Começaram as suas rezas pieparatórias, encomendando-se a todos os santos e santas que existiam nos altares e mesmo a alguns que ali não tinham representantes.

Nestes actos de piedade cristã punham as senhoras de Alvapenha toda a atenção. Olhos no altar, pensamento no Céu, bem podia abalar-se o templo nos seus alicerces que se lhes não desviaria a cabeça num movimento de justificada distracção.

Também ninguém as interrompia, inteiramente entregues àquela santa abstracção. Deixemo-las nós também por um pouco e aproximemo- nos de um outro grupo que ali junto da pia baptismal dá largas à verbosidade de que participa cada uma das três personagens de que ele é formado.

Bento Crispim é um deles, outro o seu amigo José da Fábrica, o terceiro o boticário Bartolomeu, todos importantes personagens da terra, três caudilhos que os candidatos não dispensam em épocas eleitorais.

Bento Crispim tem a palavra, quando nos acercamos. O boticário luta com os restos de um catarro matinal e José da Fábrica abre, de quando em quando, a boca, ruidosa manifestação de simpatia pelo travesseiro que abandonou há pouco.

V O PEQUENO ÂNGELO

ENTÃO era este o juízo que o menino me prometia ter? Não sabe que é até um pecado zombar assim de um velho? Quando o papá me perguntar como o Ângelo se tem portado, o que hei-de dizer? Ora vamos. Reze outra vez ao seu anjo da guarda e não faça mais travessuras destas, que parecem muito mal a um menino bem-educado.

O pequeno Ângelo, sinceramente contrito, juntou as mãos e principiou rezando a oração ao seu anjo custódio com verdadeiro fervor: — Anjo da minha guarda, por Deus enviado a proteger-me com as tuas asas brancas, vela por mim enquanto eu durmo e guarda-me dos maus sonhos como dos maus pensamentos, conduzindo-me pela mão no caminho do dever, não me abandonando nas aflições nem nas alegrias, mostrando-me sempre o Céu através das penas e dos prazeres da Terra e ensinando-me a recebê-los como da mão do Senhor.

Em seguida, benzeu-se devotamente e beijando a mão que sua mãe lhe estendia, recebeu por bênção beijos e afagos em que parecia esgotarem-se todos os tesouros maternais.

— Bem — dizia a mãe em tom já carinhoso, anediando com os dedos as longas madeixas da criança — agora vai-te deitar que são horas. E não faças arengar a Doroteia, não? Olha que tens de te confessar este ano e vê lá se queres ir logo da primeira vez carregado de culpas. Se tiveres juizo hei-de mandar-te vir de Lisboa uma galgazinha preta...

— Ai, mande, mande, mamã. E eu hei-de pôr-lhe, ao pescoço, uma golazinha de veludo vermelho, sim? — Pois sim, mas...

— E um guizo ? Não é bonito um guizo também ?

— Também, mas é se...

— Sim, mas olhe, mamã. E um casaco para o frio...

— Também há-de ter um casaco.

— E de que cor, mamã, de que cor há-de ser ? — Nós veremos.

— Azul, sim, mamã? — Pois seja azul, mas...

— Olhe, mamã, e... e... como se há-de chamar? — Tu o dirás.

— Borboleta não, pois não? — Como quiseres...

— Não, Borboleta não... Andorinha é mais bonito, pois não é? — Não é feio...

— Há-de ser Andorinha... e... o casaco há-de ter fitas, mamã? — Sim, há-de ter...

— Ah! E... Não sei que queria dizer... Ah!... E quando a manda vir, mamã? — Breve, se tiveres juízo.

— Tenho. A mamã verá. Olhe, vou-me já deitar e prometo não dizer nem uma palavra a Doroteia.

— Não, pois não lhe hás-de dar as boas noites ? O que eu não quero é que te vás pôr a conversar e a rir até que horas.

— Não ponho, não... Ora há-de ver! — Pois hei-de ver.

Nisto entrou na sala Torcato, seguido de Doroteia, antiga criada da casa, mulher baixa, de uma gordura não extremamente vulgar e cores florescentes, em cuja fisionomia alegre transluzia um génio bonacheirão e o contentamento de si e de sua sorte verdadeiramente digno de inveja.

—Doroteia— disse-lhe a senhora, pousando o filho no chão depois de um último beijo — vá deitar este menino e não se me ponha agora a contar-lhe histórias. Estragam-me as crianças com esses contos de feiticeiras; fazem-nas umas medrosas que se não atrevem a passar, às escuras, por um corredor ou a ficar de noite só num quarto. Vá, Ângelo, e olhe o que eu lhe recomendei. Daqui a pouco irei ver se o menino está sossegado.

— Boas noites, mamã.

— Adeus, filho, boas noites.

E beijando-o ainda outra vez, entregou-o a Doroteia, que saiu com ele da sala.

— Sabes, Doroteia — disse-lhe pelo caminho a criança, a quem o júbilo quase obrigava a saltar; — a mamã vai mandar-me vir uma galguinha preta que se há-de chamar Andorinha. Tu é que lhe hás-de dar de comer... Não, não... isso hei-de ser eu... Tu... hás-de fazer-lhe uma goleira de veludo... ou então...

O resto dos projectos já se não ouviu na sala.

Cedo, porém, uma prolongada risada de Doroteia veio mostrar que o pequeno Ângelo não cumpria escrupulosamente a promessa que fizera momentos antes.

VI APRESENTAÇÃO

MAS com razão terá o leitor estranhado que tão sem-cerimónia o tenhamos introduzido numa casa e feito assistir a algumas cenas da vida doméstica de uma família, sem previamente o apresentarmos.

Não obstante, serão as principais personagens que teremos de encontrar no decurso desta narração.

Passo, desde já, a emendar esta falta de método, o que farei o mais sucintamente que possa, por saber que, regra geral, não são bem recebidas estas notas explicativas.

Ela torna-se, contudo, indispensável.

O palacete, em cujo salão principal surpreendemos dormindo a sono solto o nosso conhecido Torcato, pertencia a João Mexia de Melo e Moita, conde de Aveleiras, o mais benquisto proprietário da sua comarca. João de Alvito, ou, como ele próprio se assinava por uma inofensiva veleidade aristocrática. D. João de Alvito, era um homem de quarenta e tantos anos, ainda vigoroso e activo, de maneiras corteses, ânimo generoso e resoluções inabaláveis.

De estatura elevada e de porte airoso, ele possuía as aparências de um verdadeiro fidalgo.

D. João de Alvito era legitimista, mais por tradição do que por.

crença, embora quisesse sustentar o contrário. Repugnava-lhe mudar de ideias políticas em que fora educado, parecia-lhe uma quase apostasia para a qual lhe faltava o ânimo e que lhe reprovava com antecipação a consciência. Era, porém, do número daqueles que transigia com o estado actual dos negócios políticos, a ponto de aceitar, por vezes, uma candidatura às cortes e prestar o juramento exigido, não sei se com reservas mentais.

Como deputado, granjeara sempre merecidos créditos. Era um orador pouco vulgar e nunca negociara com o mandato, vendendo o seu voto para utilidade sua ou dos protegidos. Solícito em promover os interesses locais do círculo que o elegera, não tentou nunca antepor- lhes os interesses gerais do País. Nem os governos nem a oposição contavam com ele, porque de um momento para outro era-lhe infiel por consciência...

Em família não era menos exemplar. Quando o não chamavam à capital os trabalhos parlamentares recolhia-se à obscuridade da vida provinciana, todo absorvido no afecto da esposa e na educação dos filhos que, em pessoa, dirigia.

Ao apartar-se deles borbulhavam-lhe as lágrimas nos olhos e a custo podia pronunciar as palavras de despedida.

O carácter de D. Luísa oferecia a maior conformidade possível com o de seu marido.

Era a mesma gravidade, as mesmas maneiras afáveis e delicadas, o mesmo coração compassivo, os mesmos impulsos generosos. Conservava em todos os seus actos uma certa majestade natural, que imprimia às afeições, que geralmente inspirava, um cunho de veneração.

O seu nome adquirira já um verdadeiro prestigio entre os infelizes, que era tão solícita em socorrer...

Adelaide fora educada por sua mãe, que se esmerara em formar- lhe o coração de que hoje tanto se descura na pretensiosa educação dos colégios que recebem raparigas.

Adelaide não era destas presumidas que, aos quinze anos, nos cumprimentam em francês e travam connosco um diálogo moldado pelos do Guia de Conversação, que dançam uma valsa e garganteiam uma cavatina de um modo elegantemente detestável, o que as autoriza a falarem da prima-dona da companhia lírica com conhecimento de causa e desdenhosas superioridades, que...

Que mal-educados corações palpitam por baixo daqueles apertados espartilhos! Perdoem-me as amáveis leitoras que foram confiadas a um colégio se eu tenho saudades da educação mais patriarcal de outros tempos em que as mães não abdicavam tão completamente do seu dever de instruidoras da infância.

As meninas ficavam talvez falando um pouco mais defeituosamente o francês, porém, quer-nos parecer que ficavam sentindo e amando melhor, mais pelo coração e menos pela fantasia.

Mas voltemos a Adelaide.

Esta aprendeu noutra e na melhor das escolas: tivera por mestra a mãe que a educara à sua semelhança.

Adelaide lia poucos romances e mal suspeitava até, quando em companhia de D. Luísa socorria os seus pobres amigos doentes, quase mortos de fome e de frio, que estava imitando esta ou aquela heroína de quem nunca ouvira falar.

Tais coisas fazia-as naturalmente, sem ao menos se lembrar do efeito que poderiam produzir. Não tinha culpa no interesse que a todos inspirava.

Adelaide cantava como os passarinhos que, no laranjal fronteiro à sua janela pareciam, de contínuo, provocá-la. Desafiava-lhe hinos a verdura do arvoredo, o rumorejar das fontes e as meias-tintas das madrugadas e dos crepúsculos. Cantava para acalentar as criancinhas nuas e tiritando de frio que ia procurar às choupanas, como uma presa que arrebata à miséria; cantava para entreter as raparigas da sua idade que se enlevavam a ouvi-la ou quando seu pai manifestava desejos de escutá-la. Eram quase sempre singelas canções e toadas populares que ela preferia — outro ponto em que infringia o sancionado código da elegância, que não admite que se cante senão em língua estrangeira.

Subindo da pouco confortável sala dos retratos, D. Luísa entrou na câmara imediata, cujo aspecto contrastava notavelmente com o daquela. Quanto ali tudo respirava tristeza e abandono, aqui se denunciavam as aparências da vida em cada particularidade, a mais insignificante. Nas luzes, nas flores, nos tapetes, nos estofos e almofadas das cadeiras e sofás, no papel de custo que forrava as paredes, nas cortinas de damasco que adornavam as janelas, no magnífico piano Erard, aberto ainda, no fogão consolador, tudo indicava que a imaginação esgotara todos os recursos para reunir a elegância à comodidade.

Era a antecâmara de D. Luísa o ponto de reunião da família, onde tinham lugar os prolongados serões do Inverno, as lições nocturnas de Ângelo e as leituras em comum feitas em voz alta por D. João de Alvito, e escutadas com religiosa atenção, e até os concertos familiares em que a voz de Adelaide. .

— Adelaide — disse D. Luísa passado algum tempo — esta solidão em que vivemos aqui é demasiado triste para a tua juventude.

Nessa idade amam-se, é verdade, as flores e o canto das aves que se vêem e escutam em abundância da janela do teu quarto.

São as primeiras a dar-te os bons dias todas as madrugadas, são as primeiras amigas que nos saúdam; mas o coração também nos pede afectos, que a nenhuma convivência que temos aqui te não permite activar...

— Que diz, mamã? Faltam-me por acaso afectos nesta casa? Afeições de pai, de mãe; do Ângelo; a do velho Torcato, da Doroteia, de...

Enganar-me-ei acreditando que todos aqui me querem ? — Não, filha, não te- engana a consciência quando assim to afirma.

Mas falta-te uma amiga a quem não hesites em confiar todos os teus pensamentos, diante de quem não cores quando, com a penetração da amizade,, te devassar alguns que reserves ocultos.

— E não tenho eu essa amiga? — disse Adelaide, baixando os olhos um tanto confusa, como se temesse denunciar na expressão deles um pensamento diverso do que ia exprimir. — Quando é que a mamã se recusou a escutar-me as confidências de todas as minhas penas e prazeres; desde quando é que o seu coração deixou de participar de todos os sentimentos do meu? — Canta, Adelaide, a primeira canção que te lembrar. Aquela que ontem cantaste quando te recolheste ao teu quarto. Lembras-te dela? Estas palavras pareciam ocasionar em Adelaide uma inexplicável confusão.

— Não me recordo bem...— respondeu ela, desviando os olhos dos de sua mãe.

D. Luísa continuou: — A canção das Andorinhas, julgo eu...

— Ah! Essa! — disse Adelaide como se lhe repugnasse aceder ao convite de sua mãe.

— Gostei ontem de te ouvir. Se te não custasse...

Adelaide encaminhou-se para o piano com visível constrangimento.

Sentou-se e principiou a preludiar.

Sua mãe fitava os olhos nela e sorria-se vendo aquele enleio, como se compreendesse a causa que o ocasionava.

Cedo a voz argentina de Adelaide, interrompendo o silêncio da noite, principiou a cantar, em toada popular, a seguinte canção conhecida nos arredores:

Volta andorinha aos países Dos perfumados verdores, Onde têm mais viço as flores Onde tem mais luz o céu...

Cruza o mar, que a Primavera Já ri nos vales e outeiros . Dispersando os nevoeiros Em que o Inverno os envolveu...

CARTAS LITERÁRIAS

COISAS VERDADEIRAS"

Ao folhetinista (Ramalho Ortigão) do «Jornal do Porto»

Publicada sob o pseudónimo de Diana de Aveleda, naquele jornal, em 25 de Fevereiro de 1863.

II."'- Sr.

Há tempos escreveu V. S." no «Jornal do Porto» um folhetim, onde debaixo da pérfida e insinuante epigrafe: — Coisas inocentes — dizia as falsidades mais abominavelmente culpáveis que eu tenho lido em folhetins, dos quais não é, de ordinário, a inocência a feição característica.

Logo eu duvidei da sinceridade e exactidão do titulo, quando no curto argumento que se lhe segue e no qual se acha em resumo, como é de estilo, o tema da subsequente dissertação, vi duas palavras que quase nunca se juntam sem prejuízo reciproco para as ideias que designam: a filosofia e a mulher.

É sabido que uma eterna pendência, perpetuada através dos séculos, lavra entre nós, as mulheres, e os filósofos, essa porção mais impertinentemente pretensiosa do sexo feio, do qual V. S." é um exemplar.

E isto vem de longe! Recebi ontem o escrito, que hoje se publica com este título e que será concluído a folha de amanhã. Era ele acompanhado de uma carta muito elegante igualmente assinada pela autora. Aplaudo-me de haver escrito com o título de «Coisas inocentes» a bagatela que me proporcionou esta honra. Ignoro se Diana de Aveleda ó um pseudónimo ou um nome. Basta-me também saber que é uma senhora quem o escreve.

Em um folhetim que hei-de publicar brevemente, buscarei provar que fui mal compreendido e mal analisado pela minha leritora e colaboradora excelente. No entanto Curvo-me1 muito respeitosamente diante da fineza que acabo de receber e ponho o meu cordial agradecimento aos pés de Diana dei Aveleda.

Ramalho Ortigão.

Veja o que disse Salomão, citado por V. S.\ Salomão que, a acreditarmos as letras sagradas, tinha motivos para falar de nós com mais conhecimento do causa; recorde-se de Aristóteles, o maior folhetinista do seu tempo, o qual nos supunha uma obra por concluir nas oficinas da natureza; repare como Demócrito... também trazido a juízo há poucos dias por V. S.", Demócrito que, dizem, em tudo achava pasto para a sua alacridade, chegou a arrancar os olhos, falo também sob a responsabilidade de Tertuliano e de V, S.", para não ver mulher nenhuma, lembrança que V. S." muito ajuizadamente taxou de estúpida, com grande aprazimento meu.

E depois disto, depois de tantas causas de agravo, com que olhos poderemos nós encarar os filósofos e a filosofia, não me dirá? Poucos são os que, à imitação dos três que mencionei, se não distraíram em seus momentos de pedantesco spleen à custa de nós outras mulheres, caluniando-nos, ensaiando em nossa humilde personalidade as suas aguadas vocações epigramáticas, tentando até ter espírito, que ó o ponto mais alto a que podem subir as aspirações de um filósofo.

Acerca das mulheres e dos médicos, toda a gente se julga com direito para gracejar. É balda antiga! O epigrama a nosso respeito tornou-se juntamente com as observações sobre o bom e o mau tempo, um lugar comum de todas as conversas fúteis, assunto acomodado à inteligência de todos os parvos e excelente material para o tiroteio de banalidades, remoques alambicados e galanteadoras sandices, que fazem as delicias dos nossos encasacados frequentadores de bailes.

E a culpa disso tiveram-na os filósofos com suas sumarentas sentenças e apotegmas absurdos. Pois quem mais? É irreconciliável já agora esta aversão que nos separa deles; um ódio perpétuo cavará entro nós um abismo imensurável. Nunca seus livros terão acesso em nossos gabinetes, nunca repousarão às nossas cabeceiras ou em nossos cestos de costura.

Podem-se esfalfar e mumificar, esses senhores, à vontade, em estupendas elucubrações sobre a identidade do eu e do não eu, sobre os fins finais, as essências e as modalidades e quantas outras extravagâncias lhes acudam à ideia, que nunca farão com que uma mulher, verdadeiramente digna deste nome, lhes conceda um só momento de suas horas de deliciosos e frequentes ócios.

Repare que digo uma mulher verdadeiramente digna deste nome ; porque é notório que muitas há que o não merecem.

São essas tais, ridículos disparates da natureza que se descuidou, insuflando em formas femininas um espírito varonil com todas as suas impertinências e engravatadas predilecções.

Assim: há mulheres que, como M.ml!Dacier, sabem o grego e traduzem Homero! Que abominável saber! Outras, como a nossa Alcipe, que entendia o latimI Algumas até, ó monstruosa aberração! que chegam, como não sei que marquesa parisiense, a comentar o próprio Newton e a lidar com fórmulas algébricas; isto com grande aplauso dos filósofos, a quem essas tais agradam! São exactamente as que eu detesto; a respeito das quais penso como Aristóteles, não serem mais que homens abortidos. Contra elas protesto! Nunca impassível as verei agremiadas a um sexo que, à custa de muitos esforços e sacrifícios, conseguiu adquirir uma tríplice qualificação, da qual deve justamente ufanar-se: a de belo e por isso devemos protestar contra as feias, tomadas como espécime do género; a de amável e por isso protestaremos sempre contra as eruditas e versadas em línguas mortas ou em ciências espinhosas; e a de frágil e por isso protestaremos também contra as chamadas mulheres fortes, muito do gosto aliás dos senhores poetas. Sim; deve saber que nunca pude simpatizar com as Judites, Joanas d'Arc, Carlotas Cordays e outras heroínas que adquiriram grande reputação entre as mulheres, justamente por o não saberem ser.

Para mim, a mulher verdadeira é, por exemplo, aquela Licínia de um romance de Mery, que adormeceu enquanto um filósofo laquista lhe lia uma dissertação sobre os sonhos e que, dormindo, converteu o tal filósofo à razão.

É a mulher como a Ifigénia do teatro grego que, votada à morte, chora, ajoelha-se, procura comover, implora a vida, lamenta as flores que vai deixar, o esplendor do dia, a claridade do céu, os prazeres gozados e tantos outros, vagamente entrevistos ainda e de que o futuro lhe falava. Lamentos que, como diz Saint-Marc Girardin há-de sempre repetir toda a rapariga moribunda, porque são saudades pelos bens mais universais e mais doces da vida.

Esta ó que é a verdadeira mulher, a mulher frágil e não as estóicas heroínas que tanto vos despertam a atenção e o interesse.

A mulher digna de o ser é aquela em cuja ortografia os eruditos tenham que lamentar a ignorância absoluta das letras gregas e latinas, a que dos jornais políticos só lê o folhetim, a que de um livro passa em claro os prólogos, que põe de parte as considerações filosóficas dos romancistas para seguir o entrecho do romance; que perde de vista a ideia metafísica do autor, para não ver nos acontecimentos narrados senão acontecimentos; a que não tem o ridículo descoco de repetir após a leitura o qu'est ce que cela prouve de filosófica e insuportável memória. É a que folga com os casamentos no final da novela, chora sinceramente a morte da heroína, sonha com a beleza do herói e odeia do coração o pai, o tio, tutor ou conselho de família que se opõe à realização dos castos desejos dos dois amantes.

É assim que eu compreendo a mulher, pois é assim que eu sou formada, eu e as minhas amigas todas. Ora é exactamente o contrário disto que os senhores nos fazem. Quer para bem, quer para mal, nunca os poetas, romancistas e filósofos, nos pintam tais como somos. É vulgar chamarem-nos anjos e demónios, raríssimo que nos chamem simplesmente mulheres.

Por saber isto e o mais que vem dito, foi que logo principiei a agourar mal da apregoada inocência do folhetim que V. S.* assinava e no qual se prometia uma confrontação entre a mulher e a filosofia.

A leitura dele veio mostrar-me que, se em parte me enganara, fora em parte fatídico o meu pressentimento.

De facto, V. S.* principia bem. Começa a rir dos filósofos, que é passatempo inocente e para o qual eu me sinto sempre nas melhores disposições de espirito; duvida da ciência desses moralistas antigos e modernos, que tanto falaram da mulher e tão pouco a conheceram, do que muitos deixaram irrecusáveis e eloquentes testemunhos; ocuparam- se, diz pouco mais ou menos V. S.*, de uma mulher que não existe, de uma mulher imaginária, mulher de convenção, mulher mito, feita à imagem da fantasia deles, que aqui para nós, digo eu agora, não fornece grandes modelos; e ai está o que eles fiseram.

E eu a gostar de ouvi-lo! Oh! 3e gostava! Tratava-se pois de refazer o trabalho desde o princípio; propôs- se V. S.' a isso, adoptando o método analítico para chegar ao descobrimento da verdade. Logo me não agradou a escolha. Receei que analisando meia dúzia de mulheres, se apressasse a generalizar, arvorando a excepção em regra e caindo no mesmo defeito dos filósofos que combatia e que me parece terem pecado por analíticos de mais.

Contudo entrei de ânimo folgado no corrente das considerações que sobre o assunto V. S.' expendeu.

Cedo perdi as ilusões que me seguiram até ali.

Ainda desta vez não nos faziam justiça.

Era ainda a mesma fisiologia da mulher—aleijão, da mulher — anomalia, da mulher — extravagância e não da mulher — mulher, a única que, não obstante, mais importaria conhecer a um verdadeiro fisiologista.

Meu marido possui um livro de um tal Geoffroy de Saint-Hilaire.

que trata de todas as monstruosidades humanas: é horrível! Pois as suas fisiologias da mulher, meus caros senhores, fazem-me lembrar este livro. Pode ser que tenham um valor cientifico igual ao dele, o qual valor, aqui para nós, eu ainda não pude compreender bem qual seja.

Depois de acabar de ler o folhetim de V, S.", tive vontade de lhe responder imediatamente para refutar, um por um, os aforismos com que termina, dos quais nenhum lhe posso admitir; mas há tanto tempo que perdi o hábito destes empreendimentos, que me custou a decidir-me.

Se fosse noutro tempo!...

Noutro tempo era eu também mulher— excepção, mulher — extravagância, ou como quiser chamar-lhe. Febricitava-me a vacina do romanticismo, como lhe chamou Garrett, o Jenner da nossa literatura, e dava-me então para velar noites inteiras à janela, entre os ramos de trepadeiras que me enfloravam o balcão, vestida com um penteador branco, os cabelos soltos, a face encostada à mão e de olhos fitos na Lua, naquela mesma Lua que andava então tanto na moda. Escrevi-lhe uma balada sentimental e não como as de Alfredo Musset, que nos acessos desse derrancado romanticismo, lhe chamou quantas extravagâncias e nomes feios lhe vieram à cabeça, tais como: o ponto de letra !, olho do céu zanaga, máscara de um querubim, sonsa, bola, aranha sem pernas e relógio dos condenados e não sei que mais injúrias. Eu não; não ofendi as conveniências, que se devem ter, para com um astro fêmea. A minha balada publiquei-a na Miscelânea Poética, vasto viveiro de poetas e poetisas que havia por aquele tempo no Porto.

Um critico de então, o qual V. S.» conhece muito bem, fez-me o favor de me profetizar um auspicioso futuro literário. O crítico enganou- se, acontecimento vulgar nos críticos, assim como eu também me enganei com ele; pois agoirando-lhe igualmente pela minha parte, em vista das suas tendências romântica?, a elaboração futura de dez volumes de poesias sentimentais, v n'e dramas ultra-românticos e ultra- -históricos, etc, etc, vejo-o hoje todo entregue a estudos paleográficos, entre pergaminhos amarelos e monstruosos in-fólios, anotando e discutindo bulas e pastorais e correspondendo-se com bispos, arcebispos e eminentíssimos dignitários da cúria.

Se fosse nesse tempo, em que despedi o meu facultativo de partido por me dizer um dia que para ele o coração era apenas «um músculo oco, com suas^fibras e válvulas e o principal motor do movimento sanguíneo», não teriam mediado tantos dias entre a leitura do folhetim de V. S.» e a minha refutação; mas hoje, que me deixei de versos para tratar dos filhos, que a realidade de um marido expeliu do meu coração os luminosos fantasmas ideais, belos como o arcanjo São Miguel, que estavam comigo, quando todos me julgavam solitária; hoje que as canseiras domésticas me não deixam tempo para inventar tormentos imaginários, hesitei, por não saber se me não abandonaria o fôlego antes de levar ao fim o empreendimento. Por isso deixei passar tanto tempo sem responder, por isso nunca responderia talvez, se me não instigassem algumas amigas, igualmente escandalizadas como eu corn a falsa fisiologia da mulher, exposta por V. S.».

Fisiologia da mulher! Principiaremos por aqui.

De duas uma, ou a mulher não é uma entidade moralmente distinta do homem e então para que tentar presentear-nos com as honras de uma fisiologia especial? Ou o é e cumpre nesse caso que as descobertas fisiológicas que nos disserem respeito, nos sejam exclusivas, capazes de caracterizar o sexo, de lhe fazer perder o aspecto nebuloso, de que alguns teimam em revesti-lo chamando à mulher um mito e ficando muito satisfeitos de si, como se tivessem dito alguma coisa de jeito.

Ora não estão nesse caso muitas das suas observações, meu caro senhor, as quais são igualmente aplicáveis aos homens e, desde então, impróprias de uma fisiologia especial do sexo amável.

Vamos por ordem: Rompe V. S.« por a seguinte proposição: Toda a mulher que cora não é inocente.

Segue-se uma definição da inocência e uma teoria do pudor, teoria contra a qual nos revoltamos nós todas com as reminiscências de nossos sentimentos passados.

O pudor é instintivo na mulher, precede a razão que o explica.

Cora-se, sem saber porquê, como a criança chora de medo antes de ter conhecimento do perigo. Os caracteres mais feminilmente delicados, ou, como quiser, mais delicadamente feminis, recebem da natureza a faculdade de corar de pejo, como um sexto sentido, que lhes faz pressentir um mal ainda para eles indeterminado. São como estas organizações excessivamente nervosas que experimentam sensações indefiníveis na aproximação das tempestades e enquanto um céu ainda límpido as não revela às minuciosas observações dos homens entendidos.

É uma faculdade misteriosa esta de corar, própria da mulher, como a contractilidade da sensitiva; é como o instinto da andorinha que a impele à procura de climas novos, sem conceber o perigo que corre persistindo nas mesmas florestas, cuja verdura começa apenas a desbotar.

Adora o pudor, diz V. S.», mas prefere-lhe a inocência. E aonde é que a vai reconhecer, essa apreciável inocência? Na mulher que não cora ?! Pois deveras pensa isso ? Custa-me a acreditar que nos falasse sincero! Nem sequer lhe ocorreram à ideia aqueles belos versos que Racine pôs na boca de Fedra e que Scribe fez repetir a Lecouvreur, quando na presença do amante comum, fulminava com um gesto a sua poderosa rival:

... Je ne suis point de ces femmes hardies Qui goutant dans le crime une tranquille paix, Ont su se feire un front qui «ne rougil jamais».

Fedra não era inocente mas ainda se não supunha tão culpada que lá nem sequer corasse. Era um resto de inocência, que lhe ficava ainda, e esse rubor que lhe tinge as faces, é justamente o que em nosso conceito a salva, o que nos comove uma fibra oculta do coração.

Veja como são as coisas. Eu, se tivesse de fazer um aforismo sobre o pudor, proporia o seguinte para substituir o que analiso: Toda a mulher que não cora ou é idiota ou desfaçada.

Uma não cora porque seus instintos embotados não lhe facultam essas delicadas impressões, exclusivas das organizações mais perfeitas, tem a inocência da ovelha — inocência mais que modesta para inspirar poetas. Outra não cora porque um perfeito conhecimento do mal a familiarizou de há muito com ele; são relações antigas; estas não têm inocência. Se estivessem no teatro que V. S.a imaginou, esteja certo que se haviam de rir às escâncaras, ou baixar hipocritamente os olhos, corar é que não poderiam; é um recurso de que não dispõe quem quer. É pois pela candura destas que V. S.» opta? Deve ser, sob pena de se mostrar inconsequente. E tem alma para preferir essa candura à castidade, que é a inocência que cora? Dir-se-ia que V. S." pertence a uma seita de literatos que, por comodidade própria, exigem tais condições a uma rapariga para lhe passarem diploma de inocência, que o mesmo vale negar a existência dessa qualidade neste mundo sublunar. Ora negada ela, ficam esses senhores mais -à vontade por não terem tantas contemplações a guardar.

Alphonse Kajrr, por exemplo, que nunca foi modelo em platonismos e que, estou certa, V. S.a não quereria tomar como norma em costumes, dir-se-ia, ao ouvi-lo, o homem mais pechoso em matérias de virgindade, que ainda apareceu no mundo e, se não, oiça esses versos, que são dele: descrevem-nos a virgem que diz imaginar.

Vierge d'âme et de corps, ignorante, ignorèe Vierge de ses propres dèsirs, Vierge qu'aucun n'a vue et dèsirèe, Vierge qui n'a jamais étê même effleurêe Par de iointains soupirsl

E mais adiante:

Car je n'appelle pas vierge une jeune filie Qui donne des cheveux à son petit cousin Ou qui chaque matin se rencontre et babille Avec un ecolier dans le fond du jardin; J'n'apelle pas vierge une filie qui donne

Un coup d'ceil au miroir sitôt que quelqu'un sonne.

Pour celui-ci d'abord, pour Ia première fois Elle voulait être belie et parèe; Par cet autre sa main en dansant fut serrèe; Ceiui-la vit sa jambe un certain jour qu'au bois On montait à cheval; un autre eut un sourire; Un autre s'empara, tout en feignant de rire D'une fleur morte sur son sein; Un autre ose baiser sa main Dans ces jeux innocents, source de tant de fièvres Qui troubíent les jeunes sens Un monsieur a baisé, devant les grands parents Tout en baissant la joue, un peu la com des lèvres;

On a rougi vingt fois, d'un gest ou d'un rega rd ; On a recu des vers et rendu de la prose...

Conceda-me que não prossiga na citação, para não ser forçada a corar — o que me faria descer consideravelmente no conceito de V. S.°.

O que, de mim para mim fiquei julgando, ao ler esses versos, foi que tão extremas exigências tinham por certo um fim reservado, o qual me parece haver descoberto, e vem a ser: que elevando tão alto o tipo de absoluta virgindade, tão alto que foge da Terra; para se misturar com os anjos, o escritor pretendia talvez desculpar-se a si próprio do pouco respeito que lhe impunham as virgindades reais, que se encontram neste mundo, de onde muito há se retirou o absoluto; queria talvez abafar remorsos que lhe falavam de tantas sacrificadas por ele, em seus momentos de irreverente cepticismo.

E esta consideração me fez formular o seguinte aforismo, que ofereço hoje como pendant ao de V. S.* sobre o pudor feminino: — Os mais pechosos em matérias de inocência e virgindade são justamente os menos dispostos a respeitá-las.

Não queira, porém, ver nisto a menor alusão pessoal. Eu abro uma excepção para o delicado folhetinista do «Jornal do Porto», semelhante àquela em que teve a bondade de incluir as senhoras portuenses.

Vamos adiante Estou suspeitando que V. S.* há-de ter já feito reparo em me ver tanto em dia com os escritos da Boémia literária de Paris, e terá feito suas considerações, repletas de bom senso, sobre a inconveniência de tais leituras para uma senhora. Não pode deixar de estar pensando isto, uma vez que é de opinião que «um livro escondido no estojo de costura ou aberto na gaveta do toucador, pode fazer ajuizar de como pensa nesse dia a dona do toucador e do estojo». Asserção, que voltarei a discutir mais tarde.

Por agora, deixe-me observar-lhe que sou mãe, que também creio, como o senhor, «que um mau livro é mais perigoso do que geralmente se julga» e é esse talvez o único ponto em que estamos de acordo, por ser uma verdade antiga e quase uma banalidade — e que por isso preciso conhecê-los, esses maus livros, para os arredar do quarto de minhas filhas.

Dos bons livros tem-se dito muita vez: La mère en permettra la lecture à sa filie.

Isto faz supor que as mães precisam ler tudo para saber escolher.

E por estas considerações sou naturalmente conduzida a examinar outra das proposições de V. S.*.

«A mulher virtuosa, que acompanha e convive com a mulher leviana, tem por força defeito grave; ou lhe tomou o exemplo ou se julga exemplar. Uma coisa exclui a outra mas qualquer delas é péssima.» Pobres mães que chegastes a reconhecer em vossas filhas os graves sintomas da leviandade; tendes de hoje por diante de cessar a vossa abençoada obra de educação sob pena de se vos apegar o mal que pretendíeis curar ou serdes tidas na conta de presumidas.

Eu tenho duas filhas, Ernestina e Luísa Ernestina é de uma sisudez de carácter, de uma constância nos afectos, de uma perseverança nos sentimentos bons, que a mim e a todos que a conhecem, impõe, apesar dos seus quinze anos apenas, uma certa veneração. Luísa é boa também, mas afectada de-leviandade, que cedo principiou a inquietar aquela pobre cabeça. Sei que é volúvel, sinto apreensões pelo seu futuro, temo, se temo! que pode vir a causar o infortúnio dos que lhe confiarem o seu amor, fazendo-os sacrificar, a um mero capricho, a uma fantasia momentânea, a mais violenta paixão que se possa inspirar.

E sabe a única esperança que me restava ainda? Era a influência benéfica de Ernestina; confiava nela para dominar as más tendências da irmã, não por meio de prédicas presumidas e ridículas, mas com a silenciosa eloquência do exemplo, género de educação que, sem repararmos, pouco a pouco se apodera de nós e cedo nos tem avassalado inteiramente, operando em nossos pensamentos uma completa metamorfose.

Sempre que as via juntas, as duas irmãs, parecia-me aquilo a realização de uma vista providencial, imaginava o anjo a purificar a pecadora. E hei-de acaso, de hoje em diante, ver em lugar disso a pecadora a contaminar o anjo? Não; é desconsoladora de mais essa maneira de pensar. Eu continuarei sem receio a reunir as duas irmãs, folgarei sempre que as vir juntas; porque ainda acredito no poder do bem e espero que Ernestina há-de vencer.

Agora seguem-se algumas observações acerca da mulher, colhidas no teatro. Permita-me desde já que lhe diga que foi péssima a escolha do terreno para as explorações a que V. S.a se propôs.

O teatro é fértil em observações para nós outras, que não para os senhores. A plateia! Que mau posto de observação! Basta reparar na posição forçada e violenta em que são obrigados a manterem-se os homens que aspiram a observar-nos no teatro.

Em pé, com a cabeça em fadigosa extensão, o binóculo sustentado a uma altura, necessariamente incomodativa, as costas voltadas para o palco, circunstância que os obriga a interromper o seu exame durante todo o tempo do espectáculo para só o continuar nos intervalos, é essa uma espécie de observação de astrólogo, falsa como todas as deles.

Nós porém estudamos-vos dos camarotes o mais comodamente possível.

Basta-nos baixar os olhos, toda a plateia nos fica aos pés; observamos- vos justamente quando menos o suspeitais, quando, distraídos, esqueceis o vosso belo ar de convenção e, sem o saber, vos achais revestidos das aparências que melhor se harmonizam com o vosso carácter e indiscretamente o denunciam. Oh! nós temos nesse ponto uma superioridade inquestionável e só a cedemos aos espectadores das varandas.

Esses sim! O folhetinista deve trepar ali, se quiser estudar os mistérios de uma noite de teatro; lá é o terreno dos verdadeiros filósofos.

Aquelas gargalhadas estrepitosas, que dali rebentam de quando em quando, nada vos dizem? Pois a mim causam-me um efeito formidável! Não é sem um certo terror que às vezes ouso profundar as vistas nas meias trevas daquele recinto, de onde com olhos de águia, vos contemplam desapiedados observadores! Doem-me bem mais as tais gargalhadas do que me afligem todas as vossas baterias de binóculos impertinentemente assestados contra os nossos camarotes.

Pobre gente das plateias! míseros diletantes da superior! mostrai- -nos o resultado das vossas observações, forçosamente mesquinhas.

Aí estão duas: 1." — «A mulher que, na ópera, compassa o andamento da música com o bambear da cabeça ou com o rufo dos dedos no parapeito do camarote, ou é mestra de música, ou é pretensiosa.» E foi para isto que passastes uma noite inteira a incomodar-nos com o vosso binóculo? Realmente não valia a pena.

Esta ó uma das tais leis da fisiologia da mulher que passam por serem comuns ao homem e portanto não servem para caracterizar o sexo.

Contudo é necessário em todo o caso fazer-lhe uma modificação; pois tenho bons fundamentos para pensar que os que procedem na ópera, como V. S.* diz, são os mais crassamente ignorantes dos principais rudimentos de arte. Deixe ir só o pretensioso e suprima o professor de música e ter-se-ão encontrado as nossas observações.

Mas, nesse sentido, quanto mais rica é a minha ciência! Que belos aforismos não poderia eu fazer a respeito: dos que entram na plateia de chapéu na cabeça, quando o pano já está em cima, despertando-nos a atenção com o ruidoso bater de seus tacões; dos que murmuram uns bravos em voz cavernosa, assim como um aparte de tirano, e isto nos momentos em que o silêncio é geral; dos que fixam impertinentemente o binóculo na prima-dona, ou na cantora predilecta do público, a darem-se as aparências de preferidos ou profundamente engolfados nas intrigas de bastidor; dos que desviam os olhos do palco para os fitarem nos camarotes justamente quando todos seguem mais ávidos o espectáculo; dos que trauteiam a letra da cavatina antes que os cantores, esperando pelo compasso, voltem à boca de cena do seu passeio obrigado aos bastidores do fundo e principiem a gargantear; dos que de vez em quando fazem uma cara feia, dando a entender que o seu ouvido admiravelmente acústico, percebera uma desafinação ignorada pelos profanos; dos que se levantam antes dos fins dos actos, demonstrando que, sem a advertência do apito, já sabem quando eles estão próximos a terminar; dos que percorrem numa noite os sessenta camarotes das três primeiras ordens, e nem sequer elevam as vistas para a quarta, como se ignorassem até a sua existência, dos que dizem meia dúzia de palavras em italiano e tratam familiarmente com o artista de moda, etc.

Era obra esta para mais vagar e não a desenvolverei por agora.

Vamos à 2.* observação: — «Aquela que ao findar o espectáculo vira as costas ao seu marido e levanta silenciosamente os braços para receber a capa que sabe já com certeza ele lhe lançará nos ombros, é mulher de mau génio que domina e subjuga o osso do seu osso e de quem é lícito suspeitar que o espanca muita vez.»

Queira confrontar essa proposição com a reciproca que ofereço a V. S.\ — «O marido que, ao findar o espectáculo, não tem a delicadeza de lançar nos ombros de sua mulher a capa de salda, é homem malcriado, que despreza e maltrata o osso de seu osso e de quem é lícito suspeitar que a espanca muitas vezes.» Sendo os dois aforismos verdadeiros, todos os ménages devem ser de uma amabilidade!...

Quer-me antes parecer que ambos são falsos e que entre casados reina em geral a mais beatifica harmonia e invejável concórdia.

Há mais uma observação relativa aos livros, à qual já aludi. Essa é recolhida fora dos teatros.

Nada nos revela também de característico a respeito das mulheres, por ser comum e até mais peculiar aos homens.

E senão, diga-me: não vê por aí tantos que se julgam Chattertons ? tantos que macaqueiam os heróis de Byron? outros que batem na cabeça, como André Chónier e teimam, contra a opinião pública, qu'il y a pourtant quelque chose là ? Não os houve tão tolos que se fizeram salteadores, depois de lerem Schiller; ou se suicidaram para tomarem as românticas aparências de Werther? Extremos de imitação de que uma mulher nunca seria capaz.

Permita-me que passe por hoje em claro a observação relativa aos dentes negros e às bocas grandes porque, quando se discute abstractamente a mulher—a mulher-tipo—deve supor-se sempre bela, como já disse no princípio da minha carta.

A respeito das mulheres faladoras e das mudas, o que, em tudo o que V. S." disse há de verdade é admiravelmente aplicável também ao sexo masculino. E reparo até que é lustamente aos folhetinistas que parecem referir-se os caracteres apontados por V. S." «Homem que fala muito de si e de todos e ri descomedidamente de tudo, incluindo as coisas mais sérias e lúgubres».

As conclusões que V. S.a tirar portanto a respeito de tais mulheres, eu as aplicarei pela minha parte a tais homens.

Em quanto ao silêncio das mulheres remeto V. S." para a máxima grega, que dizia ser essa qualidade o melhor ornato do sexo.

D>ana de Aveleda

COISAS INOCENTES

A filosofia e a mulher—Sistemas empregados para descobrir a verdade. — Transcrito, com autorização do seu autor, do Jornal do Porto, de 21 de Janeiro de 1863,

«Não meiabalanço eu a decidir até que ponto um homem pode conhecer outro homem, e muito menos, se é possível, que um homem conheça uma mulher.

Dá-se uma coisa: O nosce te ipsum tem atravessado séculos sempre venerado pelos estudantes de lógica como o verbo supremo da filosofia copiosamente transcendental e bojudamente séria.

Aquela compendiosa sentença do filósofo é ainda hoje tida por alguns crendeiros simplórios e ainda por um ou outro engenho agudo, mas de bom comer, como o teorema sumo em que pode pôr a mira, a atrevida, a esfomeada, a insaciável ciência humana.

Pois se o meu curto juízo me não engana, a razão da popularidade deste preceito está na rasteira faculdade que ele barateia a qualquer joão-ninguém de considerar-se impunemente sábio.

É verdade, não há dúvida alguma em ser verdade, que os sábios desmereceram muito a consideração pública e que o respeito que a gente lhes tem anda muito caldeado de galhofa depois que ultimamente se descobriu que eles não prestavam para nada, os maganões dos sábios.

Mas com ser pequena e desasseada esta pobre vaidade da sabedoria, aqueles a querem que não têm coisa melhor para desejar.

Pelo que foram os ignorantes, segundo eu alcanço, que deram ao nosce te ipsum a celebridade que lhe anda aforada.

Tanto que o ouviram gostaram daquilo, quiseram-no para si, e adoptaram-no para ornamento e lustre da sua inteligência e juízo, assim como também pegaram na moda das calças largas as pessoas cambaias e de pés volumosos. «Vamos, isto disfarça» foi o sentido deles.

Estas grandes verdades que passam em julgado, e são confirmadas por sentença no tribunal da opinião pública, por via de regra, são mentiras. Haja vista aos rifões. Eu lembro-me apenas de um que seja absolutamente verdadeiro, que é o seguinte: Dá Deus o frio conforme a roupa. É rigorosamente assim: está provado que quem tem pouca roupa tem muito frio e quem tem muita não tem frio nenhum. — Este é excepção.

Ora no fim de tudo conhecer-se a si mesmo devemos desenganar- nos de que é fácil e vulgaríssima coisa. O que é peregrino, excepcional, raríssimo, é haver homem que se não conheça perfeita e cabalmente.

Encontra-se um toleirão com fumos de avisado.

Vemo-lo entrar em todas as discussões de chapéu na cabeça, como conhecido velho, avassalar a conversação, puxá-la para diante de si, trinchar o assunto para os convivas; e é então o caso de cuidar a gente que aquele homem se, não conhece. Conhece ! conhece ! e sabe profundamente que é um parvo. Olhem lá se ele se apresenta alguma vez qual é. se ele se faz bonacheirão ou simples! Faz-se atilado é o que ele se faz; faz-se vivo, sagaz, fura-paredes. Atabafar a penúria de dentro e èncampar-nos como possa o fingimento de fora é no que ele cuida.

E esse cuidar é de tolo, mas de tolo que se conhece.

Há em todos os corações uma latente corda sumamente boa e uma outra sumamente má que ninguém mostra aos seus amigos mais particulares e mais íntimos. Costumamos tanto as nossas índoles à estreiteza de molduragem comum e mãe que já nos envergonhamos de parecermos tão bons como às vezes somos, e tão maus como frequentemente nos vemos.

Quantos milhões de homens terão passado a vida a fingir! Quantos idearam um tipo que lhes pareceu bom e consumiram depois a existência, trazendo ajustada à face a máscara daquele herói filho da sua imaginação! Quantos terão rido e quantos chorado ao cotejar perante a consciência o que intimamente são e o que são no mundo! Venera a sociedade este que morreu esmagado pelo sobrepeso de uma honradez medíocre, e que, obedecendo ao natural pendor da vontade, teria desafogadamente sido um salteador insigne; e é desprezado aquele, transviado em diversa trilha, que mais mau é pelo que finge ser do que por aquilo que realmente é.

Dizia o Agostinho de Macedo, metendo o caso a chacota, segundo era useiro, que Larochefoucauld era moquenco como um padre da companhia de Jesus. Não quero desfazer das mordeduras de anavalhada memória com que o célebre crítico assinalava o transeunte, mas nunca puderam nem o José Agostinho, nem o próprio Lamartine, convencer- me a mim de que não fosse um discreto pensador aquele duque Larochefoucauld. Ainda me recordo que lá reprega ele a minha asseveração em uma notável máxima, cuja substância é esta: O hábito de encobrir os nossos pensamentos muitas vezes faz com que os ocultemos a nós mesmos.

Ocultamos e fechamos os olhos e dizemo-nos até que os não vemos; — ressaltos da nossa vaidade tantas vezes atarantada entre o aplauso do mundo, que nos laureia, e a íntima corrimaça da consciência, que nos escarniça e apupa! Ora vá lá agora cada um conhecer assim os outros como se conhece a si! Os escritores que melhor demonstram conhecer o coração humano fizeram um estudo de introversão, e leram na sua alma os ditames da doutrina que pregoam.

Isto é estudar o coração, isto é talvez conhecer o homem, mas a grande ciência, a que dificilmente se atinge, e que mais importava alcançar, tem outro fim. O seu objecto é conhecer um certo homem e principalmente conhecer uma certa e determinada mulher.

Alphonse Karr, o conhecido autor de dois excelentes e bem pensados livros Les lemmes e Encore les femmes consta que se divorciara no fim do primeiro ano de casado. O simpático escritor conhecia as mulheres... excepto uma, a que mais lhe convinha conhecer, a que ele escolheu para si.

Molière, que tão fundamente conhecia o coração humano e a sociedade, sabe-se que não gozou a felicidade conjugal.

Labruyère, o imortal autor dos Caracteres, receou tanto iludir-se que se conservou celibatário.

Todos os moralistas do meu conhecimento consumiram a existência a estudar a mulher, a qual mulher dos moralistas, cá no meu entender, é um mito, é um ser mitológico, é um ente de convenção que eu não encontrei nunca no mundo.

O resultado é que as opiniões divergem porque se não conhece o assunto, os tiros encontram-se porque se não vê o alvo. Já não há argumento nem a favor nem contra, que não esteja refutado.

Que importa que Malherbe escrevesse esta linda frase a favor da mulher: «Deus, que se arrependeu de fazer o homem, não se arrependeu nunca de ter feito a mulher?» Acodem a isso os pessimistas que foi justamente para se desfazer do primeiro que o Criador imaginou a segunda; e Aristóteles lá diz claramente que a natureza só produz mulheres, quando não consegue fazer homens. O príncipe de Ligne assegura que, seguindo-se durante a sua vida cem pessoas de cada sexo hão-de encontrar-se vinte vezes mais virtudes no sexo feminino do que no sexo feio, e Salomão assevera-nos que em mil homens encontrou um bom, e que em todas as mulheres não encontrou boa nenhuma.

Balzac, a quem se não pode negar toda a competência nestas matérias, Balzac, que é geralmente tido como um dos mais sagazes observadores da sociedade e do coração humano, diz què' a mulher ó a criação transitória entre o homem e o anjo, e chama-lhe a mais perfeita das criaturas, ao passo que São Jerónimo, grande santo e grande doutor, escreveu que a mulher de boa índole é mais rara do que a esfinge.

Espero eu que as minhas amáveis leitoras se não sensibilizem rom os argumentos que meramente reproduzo. Não se entende o que fica dito com nenhuma de V. Ex.as. Tudo isto é a respeito da mulher, quer dizer: a respeito do mito, que é como se disséssemos a respeito da Lua.

No tempo em que me dei a estes conspícuos estudos segui eu uma senda diversa e procurei conhecer por mera observação a feição predominante no carácter das pessoas que via, antes de falar-lhes ou de perguntar quem fossem.

O método para estes trabalhos é o analítico puro. A dificuldade do sistema consiste em descobrir as grandes causas nos efeitos mínimos, em conhecer o gigante pela unha.

Vou com inicicar ao leitor o resultado das minhas observações, resutado por cuja infalibilidade eu me responsabilizo porque está já confirmada e consagrada pelos factos.

Pensa-se geralmente que o rubor que sobe às faces da donzela é um respiro de candura que lhe perfuma como olores do Céu a alma virgem. Eu estabeleço a respeito do rubor o axioma seguinte: Toda a mulher que cora não é inocente.

Inocência na acepção em que tomamos a palavra, quer dizer ignorância do que é impuro. Quem cora ao ouvir uma impudência, claro é que distingue, e quem distingue duas coisas conhece-as ambas.

Tenho notado que uma criança de quatro anos não cora nunca, e que as meninas só principiam a corar depois que vão para a mestra.

Não se pense que eu venho aqui a menosprezar o pudor. Oh! eu adoro o pudor!... mas prefiro a inocência.

Duas meninas igualmente bem educadas, igualmente conhecedoras e respeitadoras da sua dignidade ouvem no palco de um teatro uma dessas frases ambíguas criadas por gamenho indecente e expostas em farsícula de cordel para regalo de paladares broeiros; a plateia escancara uma gargalhada estrepitosamente galega; uma das meninas corou, a outra pôs-se a rir daquela bulha. Pensem os outros a seu modo, eu opto pela candura da que riu, e deixo que vá jurar quem quiser a inocência da que está vermelha.

Releva que estejamos precavidos sempre contra estes abusões, que são copiosos e vulgaríssimos, como brevemente demonstrarei em um capítulo ad hoc.

A verdade apresenta característicos infalíveis e de todo o ponto concludentes.

Por exemplo: A mulher que na ópera compassa o andamento da música com o bambear da cabeça ou com o rufo dos dedos no parapeito do camarote ou é mestra de música ou pretensiosa.

A mulher virtuosa que acompanha e convive com mulher leviana tem por força defeito grave: — ou lhe tomou o exemplo, ou se julga exemplar. Uma coisa encobre a outra, mas qualquer delas é péssima.

Aquela que, ao findar o espectáculo vira as costas a seu marido e levanta silenciosamente os braços para receber a capa que sabe já com certeza que ele lhe lançará nos ombros, é mulher de mau génio, que domina e subjuga o osso do seu osso, e de quem é lícito suspeitar que o espancou alguma vez. * As meninas contemplativas que lêem romances, ou se julgam semelhantes às heroínas deles ou procuram fingir que o são. Daqui resulta que pelo livro escondido no estojo da costura ou aberto no toucador, podemos ajuizar como pensa nesse dia a dona do toucador e do estojo.

Ainda resulta outra coisa, mas essa não vem ao ponto, e é que um livro mau é muito mais perigoso do que geralmente se cuida.

Os bonitos dentes e a boca pequena têm a desconveniência de aconselhar sorrisos demasiadamente frequentes. As senhoras de maus dentes são sempre de uma compostura irrepreensível. As meninas de boca grande chegam a ser presumidas no seu recato e tenho observado que afectam quase todas uma melancolia sobremaneira cómica.

Há dois tipos que eu frequentemente encontro. Um é a mulher que fala muito de si e de todos, e ri descomedidamente de tudo o que eu lhe digo, incluídas as coisas mais sérias e mais lúgubres; o outro é aquela que só fala ao ouvido de uma amiga que tem junto de si, e não entra na conversação comum, senão para enviusar os beiços, figurar com eles um canudo e gotejar de longe em longe a palavra sim ou a palavra não, isto é, despender da voz o estrito necessário para comprar o silêncio. — São os dois extremos a tocarem-se pelo ridículo que pertence a ambos, é a boca demasiadamente graciosa e a boca sem graça nenhuma, é o dente alvíssimo e dente negro.

Ninguém me diga que o silêncio aturado e pertinaz inculca discrição.

A senhora que nunca tira as luvas tem a pele áspera ou as unhas mal talhadas; a que não fala nunca, tenho para mim que troca o b pelo v ou que é tátara.»

J. D. Ramalho Ortigão.

1 Este tipo, assim como alguns outros de que terei de ocupar-me, para bem da ciência, não existe no Porto. O autor destas linhas estima por muitos títulos as senhoras portuenses, e respeita e venera sobretudo os seus elevados dotes como esposas virtuosíssimas.

A CIÊNCIA A DAR RAZÃO AOS POETAS

Cartas ao redactor do «Jornal do Porto»

Meu amigo: Nestes tempos que correm, asados para toda a espécie de luta, é de alegrar deveras a notícia de uma reconciliação cordial entre inimigos velhos. O ditado português, Ódio velho não cansa, que o Sr. Rebelo da Silva tomou para epígrafe do seu primeiro romance, sofre felizmente ainda de quando em quando notáveis desmentidos.

A nossa época está presenciando fenómenos bastante singulares.

Enquanto por um lado, e tão perto de nós, vemos o espectáculo desconsolador de um inglório e já fastidioso certame entre os nossos literatos, contenda desapiedada e nem sempre cortês, de onde as reputações feitas saem enxovalhadas, as nascentes, feridas talvez de morte pela dureza do combate, e só incólume quem nada arriscou, por nada ter que perder; lá por fora, mostram-se-nos insòlitamente amáveis para com as fantasias dos poetas até os seus antigos adversários — os homens da ciência! É já um facto reconhecido o da galantaria da ciência contempoea.

Esta sisuda dona, a quem dantes as harmonias da lira romântica escandalizavam os ouvidos, demasiado escrupulosos, já lhes sorri e despojada de velharias pedantescas, vai reconhecendo que, sob aparências frívolas mas não obstante ou não sei se por isso mesmo,

1 Publicada em Dezembro de 1879 e acompanhada da seguinte nota da redacção: «Entre os manuscritos de Júlio Dinis, que vimos há pouco, encontramos as duas cartas que vamos publicar, escritas em 1864, as quais deveriam ser seguidas de outras, e se perderam se porventura chegaram a ser escritas.»

agradáveis, a musa dos poetas e romancistas costuma às vezes dizer coisas, que valem bem a pena de ser atendidas.

Não concorda, meu amigo, que estes factos são uma feliz compensação para aqueles outros, que eu lamentava? Quando lavre no seio de um povo a guerra civil, ao menos que ande ele em paz com os seus vizinhos da fronteira.

Se estiver para me ouvir, quero entretê-lo hoje a respeito de uma destas finezas da ciência à literatura.

Trata-se do coração, assunto ao qual, sem flagrante injustiça, se não poderá negar o epíteto de palpitante.

Há-de saber, que entre os poetas e fisiologistas reinava de há muito grande divergência em quanto à maneira de conceber a vida do coração.

Cada estância de poema erótico, na qual era referido àquela víscera o misterioso e delicadíssimo mundo dos afectos, passava por uma verdadeira blasfémia científica; cada soneto de Petrarca, ou meditação de Lamartine, cada estrofe de Byron, de Zorrilla ou de Musset, em que se via escrito o nome deste órgão, único que os poetas cínicos disputam aos sábios, eram para estes atrevidas heresias, e quando muito perdoadas, corno uma leviandade sem consequências, por aquela espécie de tolerância, com que se perdoa um absurdo se é dito pela boca de uma mulher bonita.

Ora, devemos confessá-lo, algumas dessas formas poéticas, dessas frases sonoras relativas ao coração, eram de tão impertinente arrojo, de desplante tão provocador que se não podia de todo culpar o fisiologista que, mais insofridamente cioso das prerrogativas da ciência, franzisse o sobrolho a essas veleidades literárias da atrevida coorte de poetas, romancistas e folhetinistas, pretéritos e contemporâneos; não se lhe podia estranhar demasiado que ralhasse ao ver, que sem ao menos terem notícia de Harvey, esses estouvados se punham assim a falar no coração que, ignorando quais e quantos os tubos arteriais e venosos que se continuam com este músculo oco, quantas as válvulas que lhe fecham as cavidades, os planos de fibras que o constituem, se apregoavam por aí, urbi et orbi, profundos conhecedores desse órgão que nunca sequer tinham visto dissecar.

Quem tivesse vagar para se deitar à colheita de várias asserções, a respeito do coração pelos livros dos prosadores e dos poetas, teria tarefa para longo tempo e curiosíssima e instrutiva.

Se mo permite, recordar-lhe-ei alguns exemplos colhidos em livros familiares a todos nós, e que por acaso tenho à mão: Lamartine fala-nos em uma das suas melhores Meditações de um coração: lasse de tout, même de 1'espérance. A patologia deixava- o dizer, mas nunca tomou a sério a frase. Se falassem nisso a Barillaud estou certo que se punha a rir.

Une tristesse vague, une ombre de malheur Comme un frisson sur l'eau courut sur tout inon coeur

Dizia ainda o mesmo admirável poeta no seu inspirado livro — o Jocelyn.

Não havia, porém, médico que visse nestes dois alexandrinos a expressão de um facto digno de ser arquivado. Uma sombra de desgraça sobre o coração; eis aí um fenómeno que sem dúvida o mais experimentado especialista confessaria ignorar.

Abre-se o Camões, do Almeida Garrett — livro do qual não sei se os contendores da actual questão literária já fizeram também pataratas para se acometerem — depara-se logo ao princípio com estes singularíssimos versos:

Saudade Misterioso númen que aviventas Corações que estalaram e gotejam Não já sangue de vida mas delgado Soro de estanques lágrimas...

Veja o que aí vai! O anatómico intransigível, ao ler isto, não podia deixar de se afligir. Imaginava sentir as glândulas lacrimais a estremecerem no canto das órbitas e protestarem contra uma tal usurpação de direitos; e ele achava-lhes razão, achava-lhes razão contra Garrett e contra Lamartine, que é relapso nesta ordem de pecados, porque no Rafael tinha também escrito:

Dans cette larme qui tombe toule chaude de votre coeur sur ma main —

O Sr. Alexandre Herculano, carácter sisudo e o mais severamente português dos nossos tempos, não era isento de culpa perante o tribunal dos científicos escrupulosos. Em uma passagem da Harpa do Crente parece tentado a atribuir ao coração não sei que usos vocais e arvorá-lo em habitação de memória; tentativa que a ciência moderna, nisto mais intolerante que algumas das suas ascendentes, não podia acolher sem protestar.

A passagem a que me refiro está nestes dois versos:

Que férreo coração esquece a terra Que lhe escutou os infantis suspiros.

Pois Vítor Hugo ? Esse génio que tão bem e tanto à vontade sabe manejar a arma perigosa das antíteses e das imagens, tantas vezes fatal aos menos destros e experientes, e cujos arrojos líricos chegam a espantar, a intimidar até os mais dispostos a admirá-los, como não havia de escandalizar os fiéis respeitadores da frase ao pé da letra! Nas Contemplações, por exemplo, fala-nos ele de uma rapariga que, em apaixonado colóquio com o amante, lhe diz entre outras coisas:

Oh! de mon cceur leve les chastes voiles Si tu savais comme il est plein d'ètoilest

Com estes dois versos também os astrónomos tinham que ver.

Ora é verdade que Lamartine, que é tido por mais moderado do que o autor dos Miseráveis, já também dissera no Rafael: «Eu sentia que nunca mais haveria noite nem frialdade em meu coração, porque ele (Júlio) af luziria sempre.» Diga-me se não tinham alguma desculpa os que protestavam contra tais liberdades? A anatomia, que há tantos anos anda a estudar o coração pelo escalpelo e pelo microscópio, e que algum proveito julga haver tirado já desse estudo, devia encolher os ombros de apiedada, ouvindo o Sr. Mendes Leal começar assim a primeira das suas Indianas:

Foi-se a têmpera dos peitos Dos portugueses leões; Quem sabe de que eram feitos Seus robustos corações?

Quem sabe de que eram feitos! Se ela não veio a campo a elucidar esta dúvida, foi por uma espécie de contemplação delicada, por uma abstenção, como a do astrónomo cortês, diante de quem uma senhora põe em dúvida a exactidão das suas previsões.

O nosso Camões usou também de iguais liberdades para com o coração. Recorda-se, por exemplo, daquele:

Tu, só tu, puro amor, com força crua Que os corações humanos tanto obriga?

Filinto pinta-nos o coração devorado por consumições:

As penas e os cuidados que os humanos Corações remordiam como abrolhos.

Bocage descrevendo-nos a agonia de Leandro:

e de Hero o nome Do ansioso coração num ai lhe arranca.

A ciência ainda mal conformada com este ai, saído do coração, achou-se na presença de Espronceda, que, pelo contrário, lhe falava de um outro que para lá entrava:

un ay Que penetra el corazon

E já que estamos de volta com o lírico espanhol, não posso resistir ao desejo de transcrever por inteiro a sentidíssima quintilha do Estudiante de Salamanca, como mais outra heresia fisiológica, e das mais arrojadas:

Hojas dei arbol caídas Juguetes del viento son Las illusiones perdidas Ayl son ojas desprendidas De! arbol del corazon.

Com certeza não era da árvore circulatória que o poeta falou e por conseguinte — delito.

Fazer falar o coração em um aperto amigável de mão. é também frequente nos poetas.

Garrett, por duas vezes que eu saiba, deixou entrever tentação de encerrar a alma inteira dentro do coração. Foi na D. Branca

Que a alma nesses países regelados

(Refere-se à Inglaterra).

Toda no coração não vem aos lábios

E noutro lugar:

...quando a alma inteira Rompe do coração e acode aos lábios.

No mesmo poema ainda, não hesita em pôr na boca do próprio Diabo, em uma ocasião em que o maligno espírito sentia o alvoroço das pulsações cardíacas de um cavaleiro, que fugia com uma beleza nos braços, as seguintes palavras:

«Tu que bates assim, má tenção levas.»

Autorizar com o nome do Diabo, que dizem ser de peso em coisas destas, uma opinião que de encontro à ciência, atribui ao coração tenções reservadas é muito sério.

Muitas outras amostras, como estas, se podiam trazer para aquí, respigando-as pelos poetas de todas as nações e de todas as idades.

Estas, porém, bastam para nos levar a conceder, que provas evidentes de tolerância deu ainda assim a ciência, ouvindo quase resignada estas heterodoxas interpretações do coração e não saindo a campo a combatê-las.

Diga-me como podia ser agradável a qualquer erudito, rígido observador do suum cuique, ouvir falar de Balzac, o romancista, que provavelmente nunca viu um stothoscopo, nem teve notícias do plessi metro do Sr. Piorny, imortal descoberta que, à falta de épicos, o próprio autor celebrou em alexandrinos, e ouvir falar de Balzac, mas como? Como de um profundo conhecedor do coração humano, reputação adquirida com detrimento de Andral, de Bouillaud, de Laenec, de Beau e tantos que por longa experiência clínica a mereciam.

Caprichos de opinião pública! Mas o certo é que essas gratuitas ideias, assim espalhadas pelos poetas, ganharam raízes profundas, vulgarizaram-se e ao lado do coração fisiológico, científico, ortodoxo, órgão motor da circulação sanguínea, de há muito se insinuara outro, um coração convencional, romântico, poético, sem foro de ciência, contra o qual do ádito do santuário se fulminaria a excomunhão, se ele manifestasse tentações de lá entrar.

Seja porém dito em seu abono que nunca as manifestou; procedeu, como esses escritores, queridos das multidões e a quem as academias repelem, deviam todos proceder.

Agora é justo confessar que dos dois corações, o mais popular e simpático, não era decerto o primeiro, o legal, o académico.

Que dama namorada, que mãe extremosa, que poeta inspirado, que guerreiro sob o domínio da paixão de glória, que expatriado consumido pelas saudades da sua terra, que nauta, suspirando no meio da sublime mas desconsoladora solidão das vagas, aceitaria sem repugnância, aquele coração máquina, músculo, órgão impulsor do sangue e nada mais, que lhe apresentavam os sábios? Embora lho vitalizassem um pouco ultimamente, não era ainda nada, para aquele irresistível instinto que lhes pedia mais.

Verdade é que já lho não apresentavam como uma simples máquina hidráulica, uma espécie de bomba aspirante e expelente, concepção tão grosseiramente materialista que revoltou os próprios fisiologistas; mas, em todo o caso, melhor enervado e vivificado, promovido da categoria de máquina à de órgão, do mundo físico e mecânico ao vital; era ainda o órgão da circulação e não passava daí.

Os poetas deixavam dizer os fisiologistas e continuavam na sua propaganda e o vulgo aplaudia-os com alma e identificava-se com aquelas crenças poéticas, sem cuidar do seu carácter hipotético.

Quantas vezes os adeptos da ciência, os discípulos em via de iniciação, punham de lado, na banca do estudo, as páginas de ciência positiva sobre a vida do coração, para saborearem furtivamente a fisiologia de contrabando, que em todas as línguas do mundo mortas e vivas os poetas oferecem às imaginações seduzidas.

Mas o encanto era ainda poderoso; revelava-se por provas ainda mais evidentes.

Os próprios sacerdotes, os que proclamavam o interdito contra as falsas doutrinas, os que dentro do templo nunca permitiriam a entrada a essas metrificadas fisiologias do coração — não obstante lá terem entrado coisas muito menos racionais e em estilo incomparavelmente pior — os próprios sacerdotes digo, fecharam muita vez sobre si as portas do santuário e iam-se a praticar amavelmente com esses livres-pensadores e poetas paradoxais, agradados, sem saber porque, daqueles mesmos paradoxos, contra os quais seriam inexoráveis quando chamados a juízo no tribunal da ciência, Muitos foram até os que aprenderam a falar essa mesma linguagem profana, espécie de gíria poética que condenavam como ímpia, herética e atentatória contra os dogmas da fisiologia.

Haller, por exemplo, a quem principalmente se deve uma das mais fecundas revoluções que tem sofrido a ciência da vida — foi poeta também. E ainda hoje parece que os seus compatriotas mais o conhecem por essa qualidade, do que por aquela que lhe granjeou, na história da ciência, um nome imorredouro.

Ora ser poeta, sem falar alguma vez do coração à maneira dos poetas, não sei bem como possa ser. Desejava agora consultar as produções literárias deste sábio alemão, a ver se o encontrava, como suspeito, em flagrante delito de lesa-fisiologia, justamente naquele artigo, que, como poucos, ele tinha razão e interesse de respeitar.

Mas, no meio de tudo isto, uma coisa não perdoo eu aos homens de ciência — que é o não haverem meditado sobre quais pudessem ser os fundamentos desta crença tão geral que, a seu pesar, domina até o homem mais versado nas teorias científicas, e no próprio selvagem se manifesta, pois que na sua mímica expressão, a mão sobre o lado em que pulsa o coração, traduz a existência de um sentimento de afecto, de amizade, de amor, de dedicação — gesto, que o actor mais exercitado, pelo estudo, em exprimir vivamente as paixões humanas, não se esquece de imitar.

II

Dizia eu que quando um facto se apresenta assim com um tal carácter de generalidade, quando um tão completo assentimento aceita a interpretação unânime a expressão nímia que parece confirmá-lo, não obstante os protestos da ciência, quando os mais rigorosos nem sempre são demasiado austeros na observação dos preceitos da moral cientifica — se assim lhes posso chamar — que proclamam, à ciência compete reflectir sobre este facto, e fiel ao seu programa de análise filosófica, procurar-lhe a razão de ser.

Época houve em que a ciência deu provas de querer congraçar- se neste ponto com a poesia, direi até, foi talvez quem deu o exemplo destas teorias hoje olhadas por cima do ombro pelos sábios intolerantes, Mas em que tempo foi isto? Quando as ciências naturais eram poesia também e não haviam adquirido ainda este ar severo e grave que hoje as caracteriza. Filósofos e poetas eram à porfia quais deixariam mais à solta correr a imaginação. Foi quando Platão, desenvolvendo, o sistema de Pitágoras, colocava no coração a parte da alma de onde a generosidade, a coragem, a cólera dependiam; e Aristóteles supunha que dele nasciam as paixões, que era essa a urna onde o fogo natural era mantido. Depois disso ainda sob a influência de Galeno — que tinha muito de poeta também — a ciência fazia sair do coração uns certos espíritos que eram alguma coisa mais subtil e poético do que o sangue; mas ultimamente, orgulhosa com as últimas riquezas adquiridas, ensoberbeceu-se e rejeitou com desdém e ate pouca delicadeza os enfeites que, em épocas de privação, não duvidara aceitar de sua mais leviana, mas, e talvez que por isso mesmo, mais sedutora rival.

Mas enfim a nossa época é, por mais que façam, uma época de reconciliação e tolerância. Os homens de ciência e os poetas dão-se finalmente as mãos e fazem concessões mútuas.

Nunca se viram tão amigos e reciprocamente lisonjeiros.

Os poetas celebram em verso teorias que dantes apenas conseguiam ser prosaicamente expostas nas páginas pouco elegantes dos livros eruditos.

Em um interessante opúsculo de Aug. Langel que, sob o título de Problèmes de la natvre, foi há pouco editado por Balliere na Biblioteca de Filosofia Contemporânea, já o autor faz notar esta crescente popularidade das ciências, como um dos fenómenos mais singulares da nossa época: Observa-nos, como o historiador Michelet, que a opinião pública de França (como a de Portugal) não está ainda resolvida a aceitar como um velho estonteado e treslido — e a romancista George Sand, ambos na idade em que é lícito repousar no seio da glória adquirida, se deitaram à obra e deixando um o domínio da história, outro o da paixão, entraram no reino sempre virgem da natureza.

«Eu não sou daqueles, concluiu o autor citado, que censuram ou temem estas excursões um pouco aventurosas no terreno da observação e da experiência.

«A ciência é invulnerável; se pode desprezar os golpes dos seus inimigos, porque lhes havia de temer os amplexos demasiado apaixonados? Pode ficar nua como a verdade, mas as suas formas nobres conservam-se ainda visíveis debaixo da ténue púrpura que a imaginação lhe deita aos ombros. Já tão naturalista com Goethe, Byron e Lamartine, a poesia, ainda mais o ficou nos versos de Vítor Hugo. Deu uma voz harmoniosa, não só ao Homem, mas a tudo quanto vive, e aos mares, aos ventos, às estrelas e até à própria Terra.» Isto em relação aos poetas; em quanto aos homens de ciência vemo-los a atenderem mais cuidadosamente ao estilo e não desprezarem, nem afugentarem as imagens quando estas travessas se lhes põem a voejar em torno da sua secretária.

Os médicos, sobretudo, têm ido longe nesta via de concessões.

Um professor agregado na Universidade de Medicina de Paris, não pôs dúvida nenhuma em tomar para epígrafe de um livro de filosofia médica, uma quadra de Gerard de Nerval! Gerard de Nerval! o tradutor e amigo de Henry Heine, o infeliz poeta — mais uma alma do que um homem, como Heine dizia dele, cuja morte trágica roubou à França um dos mais prometedores talentos líricos da época? Gerard de Nerval, o suicida da ignóbil rua de la Vieille lanterne, levado àquele acto de desespero pela pobreza um pouco, mas por um desses ocultos padecimentos que são um mistério para as organizações menos delicadas? E forneceu epígrafe, para uma obra de ciência! É verdade. Ainda não vai longe a época em que os próprios que mais ornavam a literatura, os menos severos para com as produções dos engenhos literários, que olhavam como fúteis, não se atreveriam a passar além da citação latina. Quando muito teriam escrito:

Mens agitat molem et magno se corpore mistet

em vez da quadra romântica que escolheu Bouchut.

Espere, enfin, mon ame, espere Du doute brise le reseau, Non, ce globe n'est pas ton père Le nid na pas crèe l'oiseau.

Rasga da dúvida as redes! Espera, ó minh'alma, espera.

Tu da Terra não procedes, O ninho as aves não gera.

Eu considero o facto desta epígrafe como o maior preito prestado até hoje por homens de ciência à escola romântica actual.

Aos médicos competia dar destes exemplos. Os filhos de Esculápio deviam lembrar-se, como bem diz L. Peine, de que Apolo, pai do semideus, estabelece o estreito parentesco entre a poesia e a arte salutar.

Ora o número dos médicos poetas tem sido bastante avultado, mas é certo que não andavam com franqueza e à vontade nesta empresa de conciliação.

Quando muito metrificavam ciência, o que é uma tarefa perigosa de tentar, pois dá muitas vezes em resultado espécimes como este do Sr. Piorry:

Le diamant gazeux et le pur oxigene, Se mariant à 1'hydrogène, Se groupèrent en végetaux; ..L'azote. .elastique fluide Se mêtamorphosant en matière liquide, S'y joigni' pour former les corps des animaux.

Não lhe parece que estamos em plena inspiração lírica? Outros sabiam ser alternadamente poetas e eruditos; duas entidades reunidas no mesmo indivíduo mas em completa independência. — Nos seus versos ninguém podia descobrir a sombra do barrete de doutor e ao escreverem obras de ciência tinham o cuidado de apagar cautelosamente o facho da imaginação.

Hoje a fusão é mais natural e desassombrada.

Por isso era esta mais que nenhuma a época destinada para que a face poética do coração, até agora deixado na sombra pelos homens de ciência, se adiantasse para o campo luminoso da observação e da análise; e a crença unânime da opinião viesse pedir à ciência a sua razão de ser.

E quem se encarregou de estudar o problema? Exemplo eloquente de conciliação de que falamos! Foi Claude Bernard. Se por acaso sabe quem é Claud Bernard há-de por certo admirar-se.

Claude Bernard é um fisiologista mais que tudo experimental, um homem costumado a manejar o escalpelo, a empregar os reagentes, a manipular o microscópio; um homem a quem as vivissecções não comovem e que, no Colégio de França, prossegue imperturbável uma das suas interessantes e proveitosíssimas lições, sem que o afectem os gritos dos animais que se estorcem mutilados, vítimas de uma demonstração fisiológica; sem que hesite em sacrificar nas aras da ciência, desde a rã, um pobre e fleumático animal já chamado por alguém o Job da fisiologia, até ao cão, o fiel companheiro, o amigo dedicado do homem, até ao inofensivo coelho, e até, isto sobretudo poucas leitoras lhe perdoariam, até à pomba, o símbolo de inocência, querida das almas ternas e pelas quais os poetas mitológicos faziam mover o coche de Cítera.

Pois foi este homem, de quem uma senhora dizia não possuir coração, que há pouco na Sorbona inaugurou uma lição por estas palavras : «Para o fisiologista o coração é o órgão central da circulação do sangue. Mas, por um singular privilégio, que com nenhum outro aparelho orgânico se dá, a palavra coração passou, da linguagem do fisiologista, para a do poeta, romancista, e homem de sociedade, com acepções muito diversas. O coração não seria somente um motor vital impelindo o líquido sanguíneo a todas as partes do corpo que anima, mas também a sede e o emblema dos mais nobres sentimentos e dos mais ternos de nossa alma. O esludo do coração humano não deveria ser somente o objecto do anatómico e do fisiologista, mas servir também de base a todas as concepções do filósofo, a todas as inspirações do poeta e do artista.

«A fisiologia deverá desvanecer-nos estas ilusões e mostrar-nos que o papel sentimental atribuído em todos os tempos ao coração, não passa de uma acção puramente arbitrária? Numa palavra, teremos a assinalar uma contradição completa e peremptória entre a ciência e à arte, entre o sentimento e a razão ? Em quanto a mim não creio na possibilidade dessa contradição. A verdade não pode diferir de si mesmo e a verdade do sábio não poderia contradizer a verdade do artista. Pelo contrário, eu creio que a ciência que provém de uma fonte pura, para todos se fará luminosa, e que ciência e arte por toda a parte se darão as mãos interpretando-se e explicando-se uma pela outra.

«Eu não procurarei negar sistematicamente, em nome da ciência, o que em nome da arte se tenha dito sobre o coração, considerado como órgão destinado a exprimir nossos sentimentos e afeições. Pelo contrário, desejaria demonstrar a arte pela ciência, tentando explicar por meio da fisiologia o que até ao presente não passava de uma simples intuição do espirito. Empresa difícil, também temerária até, por causa do estado ainda hoje tão pouco avançado da ciência dos fenómenos vitais.

«Entretanto a beleza da questão e os clarões que a fisiologia, me parece, já poder lançar sobre ela, tudo me determina e anima.» E efectivamente, depois da primeira parte da sua prelecção, na qual, debaixo do ponto de vista anatómico, tratou do coração e da sua fisiologia oficial, isto é, das suas funções como órgão impulsor do sangue — parte a que não me referirei, por ser para as leitoras a parte antipática do órgão — o célebre membro do Instituto entrou na questão pendente, a propósito das relações do coração com o sistema nervoso e particularmente com o cérebro.

Um dia Davy, depois de uma longa meditação sobre as propriedades e usos do sangue, este mais que todos importantíssimo líquido orgânico, não pôde deixar de escrever:' It is a mysterious fluid the blood.

Bem se podia, parodiando o médico;inglês, exclamar também: É um misterioso órgão o coração.

Basta que é ele o infatigável obreiro'desta complicadíssima oficina orgânica; o que primeiro se ergue paira o trabalho no ainda mal distinto crepúsculo da vida embrionária; o último a despegar da tarefa quando os outros já repousam no sono da morte. O primum vivens e o ultimum moriens, como bem o chamou Haller que, como médico e poeta, o conhecia bem, Haller, essa delicada organização germânica, a quem o grito da dor e a vista do sangue afastou sempre do anfiteatro para onde aliás o chamava a vasta profundeza dos seus conhecimentos médicos, e a ardente ansiedade do seu amor de saber.

As primeiras palpitações, comparáveis às primeiras oscilações do pêndulo regulador da vida, começam.quando ainda o coração mal se desenha no campo germinal e pelas;suas exíguas dimensões recebe ainda o nome de ponto — punctum saliens. Na galinha... (não se revoltem as leitoras se concluímos do coração da galinha para o coração humano; debaixo do ponto de vista circulatório não é que eles se distinguem) ; na galinha nas primeiras vinte seis ou trinta horas de incubação manifesta-se o fenómeno.

Depois de definitivamente organizado e desenvolvido o coração continua no seu lidar incessante, sem precisar dessas interrupções reparadoras que exigem os outros músculos, após um exercício continuado.

As pernas do mais maravilhoso andarilho vergam-se no fim de um excessivo trabalho; o braço do mais aguerrido campeador cai desfalecido depois de brandir por muito tempo o pesado montante a decepar cabeças de inimigos; a voz dos mais vigorosos tribunos abandona- os depois de uma oração muito prolongada; finalmente a fadiga, a impossibilidade do exercício produzida pelo exercício, parece a lei geral do funcionar dos órgãos, o cunho da fraqueza humana impresso em cada peça da máquina. E só o coração não cansa! só este órgão, cujo trabalho violento e rápido, cujas contracções vigorosas e sucessivas, pareciam mais próprias para o extenuarem e exigirem a influência benéfica de um repouso vivificador, é o que produz o suplício de Ixion, começando incessantemente a tarefa terminada; como se a consciência da sua responsabilidade o impedisse de adormecer; ele é sempre vigilante, desconhece a inacção proveitosa do sono. O sono para ele não é somente a imagem da morte, mas a morte verdadeira.

Outro facto singular da vida deste órgão, facto em que Cláudio Bernard crê» piamente, conquanto nem todos os fisiologistas o acompanhem tão longe, é a emancipação do coração, permita-se-me esta linguagem, da tutela administrativa do sistema nervoso. Como potência que é, o coração trata de igual para igual com o cérebro, essa outra potência que impõe leis a todos os órgãos. Contrai com ele relações muito íntimas, mas sem fazer cessão completa de sua espontaneidade.

O movimento nos outros músculos tem sempre por facto anterior o da excitação dos cordões nervosos que os prendem aos grandes centros inervadores.

Ora estes nervos e centros nervosos excitam-se por meios diversos— acções mecânicas, agentes químicos, estímulos eléctricos, tudo pode dar o efeito final, o encurtamento, a contracção do músculo onde o nervo se ramifica e por ela o movimento desta ou daquela parte do corpo. E independente destes estímulos artificiais, os mesmos efei tos se produzem quando só à evocação da vontade, parte do cérebro a corrente misteriosa pelo mesmo caminho dos nervos, para diversos pontos da massa muscular.

Pois o coração, diz Cláudio Bernard, reproduzindo neste ponto uma já antiga teoria de Haller, o coração é independente do cérebro e nisto se extrema dos órgãos seus congéneres.

Arrancado do peito de um animal bate ainda sobre a mesa da dissecção e por tempo considerável. Este facto, porém, já há muito sabido, presta-se a outras explicações e não resolve imediatamente a questão no sentido favorável à opinião halleriana.

Mas, diz Bernard, se nós pusermos a nu os nervos que se distribuem no coração, nervos que se chamam pneumogástricos... — Não queiram mal à ciência por inventar este nome na verdade pouco eufónico; ainda ela aqui teve algumas contemplações para com as exigências da harmonia, que se fosse obedecer ao pensamento de que se inspirou ao formá-lo, teria de lhe multiplicar muito mais as sílabas ; mas, dizia eu, se descobrirmos os pneumogástricos e aplicarmos sobre eles os estímulos ordinários, em vez da exacerbação de contracção cardíaca que seria de esperar, o que se observa? a suspensão súbita das suas pulsações; as quais só continuam depois de cessar o estímulo, se a impressão recebida não foi tão forte ou tão continuada que trouxesse consigo a suspensão definitiva e com ela a morte.

Este facto mostra no coração uma certa disposição para contrariar as ordens nervosas, efectivamente singular. Bem merecia um nome feminino uma víscera assim! Se repetirmos a experiência, observaremos o mesmo resultado, somente cada vez menos pronunciado. Sucede com todos os músculos que a repetição de uma impressão estimuladora embota a faculdade de a ressentir.

Com o coração sucede o mesmo; somente como ele revela a influência recebida não pela acção, mas pela supressão dela, a indiferença adquirida evidencia-se aqui pela continuação das pulsações sob a influência dos estímulos.

Os que não querem admitir em todo o seu valor a lei de independência que Bernard admite em relação ao coração, recordam a existência de uma outra espécie de nervo neste órgão, nervo que desta vez tem um nome a fazê-lo benquisto dos mais exigentes; chama-se o grande simpático. Mas sigamos Bernard, que foi esse o nosso intento.

Nestes estudos sobre o coração em geral e o humano em particular, os homens da ciência moderna tiveram um valiosíssimo colaborador.

Graças a ele muitos destes pontos da fisiologia do coração adquiriram um grau de exactidão até agora nunca obtido. Imagine de que colaborador eu falo ? Do mais competente neste assunto; do próprio coração.

É facto; o coração auxiliou com as suas memórias, escritas por ele mesmo, o trabalho dos fisiologistas.

As memórias do coração! O coração autobiógrafo! Sim, senhor. Aquele misterioso órgão, aquela discreta e reservada individualidade, que todos julgavam incapaz de trair um segredo — e tantos se lhe confiavam! — cedeu à tentação da época — deu em escritor! — Ele próprio, em pessoa, se encarregou de traçar sobre um papel com o estilete antigo as suas impressões... vitais. E fê-lo e tem-no feito na presença de um curso; diante do auditório de Bernard e de outros fisiologistas experimentadores, que andam agora a ensinar a escrever a todas as vísceras e órgãos da economia.

O Dr. Marey, laureado pela Academia, afeiçoou a pena e o papel; pô-la ao alcance do órgão e ele não hesitou; palpitando ora regular e pausado, ora tumultuoso e rápido, fez as suas confissões, revelou os seus mistérios.

Graças ao cardiógrafo — é o nome do instrumento — pode-se já dizer sem metáfora que se lê no coração humano.

Pressinto o susto que estarão experimentando as leitoras ao ouvirem esta revelação. Ai, que se o coração lhes fala! Se lhe der para publicar também as suas memórias! O que aí não iria, santo Deus! Ó reservas de tantos tempos, que singulares explicações não receberíeis ! Como a todos nos surpreenderia o conceito dessas continuadas charadas, que nós, pobres inteligências, tanto às cegas andamos a decifrar, sílaba a sílaba—-procurando interpretar um sorriso, um olhar, uma lágrima, um rubor, um movimento de leque, um movimento de cortinas, e que tantas desilusões nos preparam! Já imagino estas interessantes déspotas meditando um sistema repressivo contra a mania da publicidade que temem; procurando organizar a censura para vigiar pelas indiscrições do seu coração.

Assusta-as esta liberdade e verdadeiros diplomatas, só querem deixar falar os lábios, e quando muito os olhos, os quais uma longa educação já conseguiu há muito diplomatizar, se me permitem esta expressão.

Mas sosseguem, minhas senhoras, ainda não chegou para esse império despótico que V. Ex.1" exercem contra as franquias e liberdades dos seus órgãos um novo 93. O coração de V. Ex.a» é ainda demasiadamente feminino, para dizer assim toda a verdade. Mais concentrado que o dos homens, tem já causado o desespero dos fisiologistas. Querem ouvir Cláudio Bernard? Depois de nos descrever o cardiógrafo, esse, para V. Ex.»' antipático instrumento do delito da publicidade dos mistérios do coração, ele conclui: «Este instrumento é tanto mais delicado e mais fiel quanto mais próximo do coração se pode aplicar e menos separado dele fica pelas paredes do peito. É fácil, pois, de conceber, sem que eu o explique, por que é mais fácil ler no coração das crianças do que no dos adultos, e também por que é naturalmente mais difícil ler no coração das mulheres do que no dos homens.» A independência que, segundo Bernard, admitimos para o coração não se deve entender, repetimos, como absoluta carência de relações entre ele o o cérebro, este suserano da confederação orgânica.

Nisto se extrema a teoria moderna de outras anteriores, que à primeira vista parecem manter com ela estreito parentesco, Assim, já vimos que as excitações dos nervos são ressentidas, a seu modo, pelo coração; elas modificam, suspendendo-o, o exercício do próprio órgão. Mas a espontaneidade deste exercício é que caracteriza a independência.

Nas condições normais, de integridade e normalidade do organismo, as coisas passam-se de uma maneira análoga à que a experimentação revelou.

Um facto novo entra no fenómeno — a sensibilidade.

CARTA AO REDACTOR DO «JORNAL DO PORTO» ACERCA DE VÁRIAS COISAS

Publicada com o pseudónimo de Diana de Aveleda, naquele jornal, em 28 de Maio de 1864.

Meu caro redactor: Permita-me que aproveite hoje meia hora de ociosidade a conversar consigo. A nós outras, mulheres, assiste-nos o inauferível direito de fazer, de quando em quando, destas exigências e os senhores devem ser-nos reconhecidos por assim usarmos dele, pois é um dos poucos ensejos, que se lhes oferecem na prática da vida, de se mostrarem amáveis — coisa da qual os homens sérios e preocupados tão impertinentemente se descuidam.

Não espere de mim, estimável redactor, que, sujeitando-me às praxes geralmente seguidas, principie esta carta por apresentar o programa que desenvolverei no decurso dela, pondo em relevo a ideia principal, o pensamento subordinante e, numa palavra, observando escrupulosamente os ditames de uma lógica inflexível.

Sei que seria mais metódica se o fizesse e contudo não o farei.

Por quem é, deixe-me ser mulher à vontade! Não sabe que odeio a lógica? Era nome com que antipatizava havia muito, este nome de lógica, como, regra geral, antipatizo com quase todos os esdrúxulos; mas, principalmente depois que soube o que a coisa era, subiu a minha antipatia a um ponto elevadíssimo.

Disseram-me um dia que assim se chamava a arte de cogitar ou de raciocinar.

Que pretensiosa arte! Folguei depois muito em saber que um tal Dalembert, o qual, Deus lhe perdoe, julgo que também foi filósofo, dizia que esta arte só aproveitava aos que podiam passar sem ela.

Sabe de alguma outra, da qual se possa dizer o mesmo? Só se for a dos cabeleireiros, a qual aproveita principalmente aos calvos, que pareciam ter motivos para, melhor que ninguém, prescindirem dos seus serviços.

Portanto não me exija grandes exibições de lógica, nem me censure por falta de método.

Programa para quê? Há lá nada mais desacreditado? Desde os programas dos ministérios até aos dos pedicuros, ainda não apareceu um que fosse cumprido, por mais compridos que sejam todos, Não me leve a mal o calembur, que prometo não abusar da indulgência com que mo desculpar.

Não farei programa. Está decidido. Vou escrever sem saber ainda de que tratarei. É a mais agradável maneira de conversar que eu conheço.

Semelha-se a bordejar sem destino no rio por uma tarde de Primavera.

Primavera? Como me veio esta ideia? Bonita maneira de gozar a Primavera através das persianas do meu quarto! A primavera das cidades! Que insípida paródia à primavera dos campos ! Faz-me lembrar estas paisagens de teatro, onde a luz do gás substitui a aurora e as árvores de lona, na sua imobilidade, exigem do espectador a força de concepção necessária para as supor rumorejando : Ai o campo! o campo! Há um ano fui eu lá passar alguns meses. Aconselharam-mo os facultativos, • a pretexto de combater as tendências de uma diátese hereditária; — o termo é deles. Ora eu, confesso-o, tenho a fragilidade de os respeitar, temer e servir.

Era também em plena Primavera! O campo estava esplendidamente verde, o céu magnificamente azul.

Que madrugadas! Que crepúsculos! Como eu me sentia bem no meio de tantas maravilhas! Como se me inoculava a vida da natureza inteira! Aqueles ares embalsamados, infiltrando-se por entre a espessura dos arvoredos; aquela relva, humedecida como orvalho matutino, aqueles arbustos que, quando eu passava, me faziam a delicada surpresa de me cobrirem de pétalas esfolhadas, como se eu fosse uma prima-dona em noite de seu beneficio; aquele inimitável concerto de pássaros, insectos, brisas, ribeiros, açudes e campanários; aquela turbamulta de borboletas e abelhas com suas valsas extravagantes por sobre moitas enfloradas; aquelas criancinhas loiras e meias nuas que me surgiam de toda a parte, como espontâneas produções do campo, a rirem por entre os silvados em que colhiam amoras, do meio das searas onde pareciam flutuar em um oceano de verdura, a espreitarem- me da copa frondosa dos carvalhos e castanheiros, como estas cabeças de querubins que marchetam o pedestal de nuvens de Nossa Senhora da Conceição; a saudarem-me, batendo as palmas quando me viam passar pela margem dos pequenos rios, onde se banhavam nuas, tudo isto, meu caro redactor, me deliciava; tudo isto operou em mim uma metamorfose completa. Hábitos, gostos, pensamentos, tudo senti eu que se me ia pouco a pouco modificando... não sei se para bem se para mal.

Era outra, muito outra do que fora. Desconhecia-me' Não encontrava prazer em tantas coisas que apreciava na cidade e descobria, em outras, belezas que até então ignorava! Não me viessem falar, por exemplo, em monumentos de arquitectura ou modelos de estatuária. Artes são estas que nasceram nas cidades, que para as cidades vivem, sérias e graves de mais para se darem naqueles ares campestres, onde tudo é ligeiro, folgazão e jovial.

Produziriam lá o mesmo desgraçado efeito, que uma daquelas elegantes dos arredores, que eu via a cada passo, exibindo por montes e vales o seu vestido de moire e xale de tonquin, ridículas futilidades, no meio das futilidades sublimes da natureza: flores, perfumes e harmonias.

O que sobretudo me agradava então era o desenho ligeiro, esboçado apenas, ao correr do crayon; o ornato fantasiado e caprichoso, como os arrendilhados irregulares que descrevem na relva as sombras da folhagem; as aguarelas em que o pincel copiara a traços rápidos as paisagens mais campestres; agradava-me a simples obra de talha que adornava as colunatas dos altares na igreja paroquial, e a cruz rústica a marcar no cemitério o lugar onde a genuflexão e a prece de um amigo pode ser mais grata à memória do morto.

Pois em música? Pode acreditar que não trocaria então por uma composição de Bellini, cantada pelo melhor tenor do mundo, as cantilenas singelíssimas que as raparigas entoavam por lá em coro ao voltarem às trindades do trabalho ou nos serões nocturnos? Mais ainda, e agora hesito deveras ao fazer a confissão, achava até...

desculpem-me os legisladores municipais, achava no chiar dos carros ao longe uma harmonia inexprimível. Às vezes chegava a impressionar- me mais... ó génio da arte, perdoa-me, que me parece vou ser herética!... do que me lembro ter-me impressionado a rabeca de Sivori, quando me entusiasmou no Porto.

De igual influência se ressentiam as minhas predilecções literárias.

Quer saber? Não me foi possível apreciar a leitura de Notre- -Dame, por exemplo: o Chatterton do A. de Vigny, também o não compreendia; Ponsard, achava-o de gelo; o monge de Cister não me satisfez como dantes; Byron parecia-me falso; Balzac raras vezes correspondia aos meus desejos. Falava-se tão pouco de árvores e campinas em quase todos aqueles livros; tantas vezes me apareciam edifícios, praças e salões em vez de choupanas, florestas e lares, que eu não me dava bem com eles. Achava-os deslocados. Que querem? Pus-me então a reflectir.

Isto que era em mim apenas uma feição passageira do gosto, feição acidental, como o novo sistema de vida que levava, para quantos não seria permanente? Quantos, desejando ler, teriam procurado sempre em vão, como eu somente procurava agora, um livro que pudessem compreender, ao alcance da sua inteligência, à altura do seu sentimento, que não saísse da esfera dos seus hábitos ? Quantos poderiam repetir aquela sublime exclamação de Reine Garde, a simpática costureira para quem Lamartine escreveu o seu romance Genoveva: Quem nos dará a esmola de um livro?! Que expressiva frase! Sempre que a recordo me sinto comovida até às lágrimas. Quem me dera poder satisfazer aquela sede de espírito! Aflige-me então a minha incapacidade, como quando, em criança, um velho mendigo se chegava a mim pedindo-me esmola, que eu não tinha para lhe dar.

Ora se o povo francês, pela boca de Reine Garde ou pela boca de Lamartine pedia assim a esmola de um livro, que fará o nosso povo, coitado, para o qual escasseiam muito mais ainda os alimentos intelectuais.

Como os nossos escritores se lembram pouco dele! Bem o sentia eu quando esgotava a pequena biblioteca que da cidade levara comigo, escolhida segundo as minhas predilecções anteriores, e desesperava de encontrar um livro que me servisse.

Apareceu um finalmente, um livro, cujo autor abençoarei com todas as veras do meu coração. Infeliz! Morreu já.

A meu ver desapareceu com ele um dos mais prometedores talentos de romancista popular, que têm surgido entre nós. O autor era Rodrigo Paganino, o livro Os Contos do Tio Joaquim.

A Imprensa havia recomendado pouco este livro.

Tem desses descuidos a Imprensa. Lio-o por isso sem a menor prevenção favorável. Mas era justamente um livro assim que Reine Garde pedia; é deste género de literatura que o povo precisa; é por esta forma que se resolve a importante questão das subsistências intelectuais, não menos valiosa do que a que ocupa as atenções dos economistas.

Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusíadas e o poema do Sr. Tomás Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria preferível como livro para leitura nas aulas de instrução primária.

Todos se lembram dessas renhidas controvérsias. Eu por mim nunca pude tomá-las a sério naquele ponto. Achei sempre muita graça ao empenho em que via metidos os críticos. Quem se podia convencer seriamente de que qualquer daqueles excelentes livros fosse próprio para as inteligências infantis dos pequenos leitores? Um com o seu sabor clássico e épico e suas comparações mitológicas, o outro com o seu pronunciadíssimo carácter de lirismo e suas imagens românticas e arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apreensões aos mestres, por um ou outro episódio, que, baldados os esforços dos críticos, ninguém poderá considerar como demasiado edificantes.

Ora quando eu li o livro de Faganino pareceu-me encontrar nele justamente tudo o que debalde os críticos procuravam nos outros.

Aquele, sim, era um livro verdadeiramente escrito para o povo e para as crianças! livro em que a atenção se prende pela verdade, em que o gosto se educa pelo estilo, em que o sentimento se cultiva por uma moral sem liga, porque é a moral do decálogo e do evangelho: livro escrito segundo o programa estabelecido por Lamartine naquele belo prefácio da Genoveva e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista do que por o próprio legislador.

Lembro-me bem que o li a um rancho de raparigas do campo e pude observar como elas o compreendiam sem custo. Não havia uma palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que lhes causasse estranheza, as imagens faziam-nas sorrir pela exactidão, como sorrimos ao ver o retrato fiel de uma pessoa conhecida; não eram caracteres extravagantes, paixões excepcionais, situações inesperadas e únicas o que assim lhes absorvia a atenção; pelo contrário, era por aquelas personagens pensarem, sentirem e viverem como elas, que tanto lhes interessava o livro.

Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam: aquele volume, escrito para se ler no campo, como eu o li, junto à fogueira que crepita no lar, sobre a ponte rústica que atravessa o ribeiro ou no degrau da ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou quase desapercebido no mundo das letras. Não suscitou esse murmúrio literário, que acompanha certas obras felizes, murmúrio em que se reúne o louvor à maledicência, a hipérbole laudatória à calúnia escandalosa, os guindados elogios às censuras exageradas.

Foi um livro anunciado apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro cujo autor não tem o seu retrato gravado na Revista Contemporânea e que portanto quem quer tem o direito de desconhecer.

E, apesar de tudo isso, aquele livro, como disse não sei quem a respeito de não sei que obra, era alguma coisa mais do que um bom livro, era uma boa acção! Aceitem-se-me estas palavras — não a título de critica literária — Deus me defenda de pretensões a esse género — mas como um tributo rendido à memória de um escritor infeliz, a quem sou devedora de algumas horas de incomparável prazer, que a sua leitura me proporcionou.

Já que estou em maré de comunicar-lhe as minhas impressões daquela época, permita-me que lhe refira uma outra observação, que então principiei a fazer e que desse tempo para cá tenho tido o desgosto de ver confirmada muita vez.

Depois da leitura dos romances, havia eu passado para a leitura das poesias, e pela primeira vez notei, dolorosa descoberta! que uma terrível doença lavrava em grande número dos jovens poetas, de cujas produções me havia rodeado.

Quando menos o esperava, saiam-me filósofos! Filósofos a fazerem versos! Cada poesia era a exposição de uma teoria de metafísica ultragermânica, uma argumentação de sofista, e até, quando Deus queria, o desenvolvimento de qualquer princípio de ciência politica; e nós, as mulheres, que nos afizéramos a contar com os poetas do nosso lado, a acharmo-nos abandonadas por eles! É uma das faces mais peculiares do nosso tempo.

Singularíssima face! Os homens de ciência amenizam-se; perdem a clássica e quase selvagem esquivança que os caracterizava; as teorias outrora inacessíveis, procuram revesti-las hoje de formas elegantes que deleitam, que atraem, que seduzem; e os poetas, pelo contrário, fazem-se bisonhos, científicos, dissertam, discutem, demonstram, concluem em verso e ninguém os entende.

Quantas vezes eu, mulher, eu, que aborreço as torturas da inteligência, me ponho a ler o Michelet, o Babinet, o sr. visconde de Vila Maior, o Sr. Lapa e outros cultores da ciência inteligível e amável, de preferência a muitos dos nossos poetas, que me dão muito mais que entender j Como eu tinha vontade de dizer-lhes: «Não vos desenganareis, meus caros poetas, que trilhais um caminho errado? Se renegais as nossas bandeiras, se desertais das nossas coortes, correis à vossa perdição.

«Gloriosa ala dos namorados, não vedes que as vitórias alcançadas, as deveis principalmente a essa antiga e simpática divisa do vosso estandarte? «Olhai: crede-me, os filósofos nunca, por mais que teimeis, aceitarão as vossas teorias metrificadas; os governos, também não espereis que tomem a sério os vossos sistemas de organização social. Só nós é que vos sabemos ter na importância que mereceis e contudo assim vos descuidais de escrever para nós? «É uma ingratidão indesculpável e da qual tereis ainda de dar estreitas contas um dia.» Pois o amor, pois a natureza, pois a Pátria, pois a liberdade, pois Deus, já não serão fontes perenes da mais verdadeira inspiração? Estarão esgotados esses inesgotáveis assuntos? Porque os pondes de parte? ou, quando os tratais, porque os transformais em tema de dissertações, em vez de motivos para cantos? Discutis o amor, discutis a liberdade, discutis Deus, mas não os cantais.

Quase nunca os cantais. Já vos envergonhais de ser simplesmente poetas! Mas, reparai:

Quando foi que Soares de Passos, esse grande talento lírico, que vós todos admirais, se elevou mais alto nos voos da sua poderosa imaginação de poeta? Não foi, quando, erguendo os olhos ao Céu, se sentiu inspirado pelo magnificente espectáculo do firmamento, e nas páginas abertas desse «livro do infinito» leu uma hossana ao Criador? Não foi, quando volvendo as vistas para o passado as fixou no maior e mais sublime vulto da nossa história pátria, em Camões, e, sondando o «estreito espaço» daquele seio heróico, lhe compreendeu, com instintos de poeta, a «imensidade do tormento» que lá ia? É um poeta a revelar-nos os mistérios do coração de outro poeta, em tão soleníssimo instante.

Escutai-o, que vos será utilíssima a lição.

Que viu ele a combater-se naquela grande alma «como o vento nas ondas do oceano»? Que imagens a povoavam?

O amor da Pátria, a ingratidão doa homens Natércia, a glória, as ilusões passadas E a Pátria Exalando moribunda Seu último gemido.

Vós provavelmente não teríeis resistido à tentação de nos pintar Camões lutando também com alguns desses insolúveis problemas de esfinge, como o «ío be or not to be» de Hamlet.

Ora confessai: não é verdade que não teríeis resistido ? Mas o Camões de Soares de Passos não morre como o seu Sócrates.

O sentimento predomina naquele, e o sentimento não discute.

O primeiro era um poeta, o segundo era um filósofo.

Ao filósofo competia morrer rodeado dos seus discípulos; a morte era a última lição que lhes dava; ao poeta competia morrer pronunciando aquele

«Pátria querida, morreremos juntos»!

Assim o compreendeu Soares de Passos e assim o tinha já compreendido Garrett ao terminar também o seu poema com a sentida exclamação do grande épico:

Pátria, ao menos, juntos morreremos.

Para Camões, Natércia e Portugal! Amor e Pátria para todos os poetas! E que alma inspirada de poesia deixaria de ter um cântico a sagrar-lhes ?

Não queirais que seja a vossa; é impossível que ela não proteste contra a tirania dos vossos caprichos. Quereis saber agora como a natureza também inspirou Soares de Passos? Vede-o no Buçaco, sentindo- se estremecer ao escutar o solene rumorejar dos cedros; vede-o, quando, servindo-me de suas próprias palavras:

Mais longe deste mundo Mais próximo dos Céus Ali, meditabundo Se erguia aos pés de Deus.

Reparai também como ele lhe consagrava um cântico, quando a viu despir melancólica no Outono as suas galas festivas e misturar já com as primeiras lágrimas de orvalho os seus últimos sorrisos; como ela o inspirava na Primavera, ao cingir alvoroçada as suas vestes de verdura e adornando-se de flores. O passado brilhante e o incerto porvir da pátria; a fé na redenção, a liberdade, o amor nas suas mais puras e delicadas sensações, a solene comoção do momento da partida, a saudade... eis as principais notas daqueles seus cantos harmoniosos, notas que em todos os peitos, patentes à poesia, despertarão sempre um eco, que todas as almas repercutirão.

No volume de Soares de Passos não há uma só poesia que nós, as mulheres, não compreendamos: nos vossos, auspiciosos talentos literários que surgis agora, quantas se contarão, se continuais assim ? É um pedido de mulher, não é um conselho de crítico, o que eu registo aqui.

Por amor de Deus, não nos abandoneis, poetas! Olhai que somos nós as vossas mais fiéis aliadas, nós as que temos sempre protestado contra o ostracismo a que muitos homens sisudos vos têm votado por vezes.

Vítor Hugo, entre as suas poesias transcendentes e metafísicas, tem composições para nós. Nos volumes das Contemplações, porventura os mais filosóficos de todos os seus, há pequenas poesias que vós talvez julgásseis indignas da vossa empertigada seriedade. Ficam-vos tão mal esses ares catedráticos, meus queridos poetas ! Não que se soubésseis como vos ficam mall Disseram-me que era a escola de Vítor Hugo, a que seguis.

Que Deus perdoe ao ilustre poeta, se ele concorreu para vos pôr assim. Mas eu julgo-o inocente.

Que culpa teria Leotard, por exemplo, se algum imprudente, querendo imitá-lo nos seus voos de trapézio, quebrasse as pernas às primeiras tentativas? Dos imitadores de Píndaro, dizia Horácio, segundo eu vejo numa tradução de Garrett — não vão agora julgar que eu sei latim — «que se fiavam em asas que tinham pegado com cera e que, novos ícaros, viriam a ter a sorte deste».

Se se chegasse um dia a dizer o mesmo de vós? Perdoai-me este mau humor impertinente; mas se a poesia lírica era a minha leitura favorita e vós ma preparais de maneira que eu tenho de renunciar a ela! Respeitai a pronunciada individualidade poética de Vítor Hugo e desenvolvei a vossa, que é melhor. Não vedes que estais fazendo torturas ao vosso talento, o qual tem faculdades de sobra para ser original ? Tudo isto que eu pensava o ano passado, penso ainda agora, porque vejo aumentar de intensidade a febre filosófica de alguns dos nossos poetas.

As justas e torneios da Idade-Média acabaram. Nós resignamo- -nos. Os gabinetes diplomáticos usurparam-nos o direito de decidir das contendas.

A humanidade pouco lucrou com a mudança de júri. Nós, se pudéssemos, não teríamos deixado esmagar a Polónia e tomaríamos decerto o partido do fraco nessa desigual e antipática luta travada na Dinamarca; ou, pelo menos, faríamos observar as leis da cavalaria, que tão esquecidas andam nestes tempos. Mas enfim resignemo- nos.

Restavam-nos os certames literários, competia-nos naturalmente cingir os lauréis à fronte do vencedor, pagar-lhes os brios do combate com um gesto, com uma flor, com um sorriso; mas se eles já não combatem por nós? se abjuraram o nosso culto? se nos falam uma linguagem que nós não compreendemos ?! se nos querem iniciar nos dogmas da sua filosofia abstrusa, nebulosa, ininteligível ?! Assistiremos impassíveis a mais esta nova usurpação? Eu não, por certo, e peço-lhe licença, meu caro redactor, já que as minhas ideias tomaram tal direcção, para dedicar o resto desta carta às leitoras do seu jornal.

Sim, quero promover uma cruzada feminina, cujos destinos deverão ser brilhantíssimos.

De nós, de nós todas, minhas amáveis leitoras, é que deve partir a desejada e salutar reacção. Olhai que nos querem privar da poesia que se canta, dando-nos a poesia que se estuda. Vede que os poetas nos fogem, justamente na ocasião em que os homens da ciência se estavam fazendo galanteadores e amáveis, pensai no que disto pode resultar e empenhai toda a força dos vossos atractivos para conjurar esse mal.

O que não poderá conseguir um olhar, um sorriso, um pedido, uma simples insinuação, um arrufo, uma lágrima... sim, até uma lágrima das vossas? Por amor de Deus, chorai, chorai se tanto preciso for, mas salvai- me a poesia da doença que a corrói, transformai-me estes poetas, de reformadores em amantes, e tereis conseguido tudo, tereis operado uma das mais salutares revoluções que se têm visto no mundo.

E permita-me que com esta peroração fique hoje por aqui, amigo redactor, confessando-me.

Maio de 1864.

Sua toda dedicada Diana de Aveleda.

IMPRESSÕES DO CAMPO A CECÍLIA

Transcrita do «Jornal do Porto», de 1 de Agosto de 1864.

...Levantava-me então pela manhã cedo e ia passear.

No campo farias o mesmo, acredita. Perderias também esses enraizados hábitos de vida da cidade, que tão escrupulosamente respeitas em ti. Se é tão fácil sair no campo! Não imaginas! Passa-se, tão naturalmente, tão sem se sentir, da sala para a rua, que nem a tua indolência se intimidaria com a ideia, como sucede ai.

Era levantar-se a gente da mesa de costura, pôr o primeiro chapéu que encontrasse à mão, e, sem consultar o espelho, ir por esses campos fora, comendo cerejas, como uma criança e sem a afectada compostura a que somos obrigadas aqui.

O meu passeio favorito era por uma extensa avenida de castanheiros que havia .nas imediações. Que majestade a daquelas árvores! Quantas vezes me lembrei das árvores anãs do teu jardim, disso a que tu chamas pomposamente a tua floresta.

A tua floresta, Cecília! Floresta de tangerinas e lilases! Valha-te Deus, minha pretensiosa! Se as devesas e soutos, que vi por lá, soubessem do insulto! Quase sempre saía só, levando apenas um livro comigo.

Esta faculdade de sair só! Atreves-te a marcar-lhe o preço ? Só, só, repara bem! Só por meio dos campos, só à sombra dos bosques, só pelas margens arrelvadas dos ribeiros! Que vida! Que desafogo! Que liberdade de respirar e, o que é mais ainda, de cismar! Às vezes sentava-me para ler no primeiro lugar pitoresco que encontrava; um tronco de árvore derrubada, uma pedra musgosa, um cômoro virente, tudo me oferecia uma convidativa estação.

Passados momentos, era sabido, achava-me rodeada de criancinhas, rotas e quase nuas, que me contemplavam admiradas.

Pegava na mais pequena ao colo e beijava-a. As outras riam e olhavam-se, como espantadas de me verem fazer aquilo.

Distribuía por cada uma delas uma pequena moeda de cobre e aí se dispersava, saltando, aquela turba infantil, como um bando de pássaros que se levantam de uma seara, inquietos pela voz do lavrador.

Não cabiam em si de contentes, as pobrezinhas, com a inesperada fortuna e corriam apressadas a comunicar a nova ãs mães, que as acariciavam.

Pobres crianças! Contava muitos amigos neste pequenino povo, não fazes ideia. Tinha entre eles uma popularidade! Basta que te diga que já me saudavam pelo nome quando me viam passar e todas as manhãs me vinham trazer raminhos de malmequeres, margaridas e violetas silvestres, ufanas com o presente e orgulhosas pelo prazer com que eu o recebia.

Prazer sincero, podes acreditá-lo. Olha que nunca apreciei tanto as mais bonitas camélias do teu jardim, desculpa-me a confissão, como estas floritas selvagens e sem perfumes que tinha então sempre no quarto.

Outro espectáculo que me atraía sempre a atenção, era o das lavadeiras. Que alegria aquela! Ai, Cecília, Cecília, como é ridículo o nosso sentimentalismo e vaporosa melancolia das cidades! Pois que quer dizer isto, que não existia enquanto os romancistas e poetas o não inventaram, mas de que logo a humanidade se apropriou, como faz sempre a tudo quanto é afectado e piegas, como se apropria dos enfeites com que a imaginação estragada de qualquer modista parisiense se lembra de adornar as cabeças de suas freguesas ? Que quer dizer isto, que passa por uma coisa muito natural e a que eufònicamente se chama: devaneios, tristezas vagas, aspirações ignotas, anseio sem motivo, lágrimas inexplicáveis e não sei que mais, que não está, que não pode estar na natureza humana, a qual é espontaneamente alegre e expansiva e só disposta a ser afectada por infortúnios reais e não por males, como esses, fictícios e fantásticos? É falso. Tudo isso é falso e forçado como um pé de chinesa.

Reconheci-o então e cheguei a envergonhar-me de ter, eu também, por vezes julgado ser uma vítima desse mal da moda, que não tem, que não pode ter a mínima razão de ser. Arrebiques de caracteres românticos que destoam no meio da simplicidade do viver campesino e... nada mais.

No caminho que eu frequentemente seguia nestes meus passeios matutinos há uma pequena ponte de pedra de dois arcos, por baixo da qual corre mansamente o rio da aldeia. Rio sem nome ! Por isso mesmo eu lhe queria. Não compreendes isto? Um rio sem nome, um rio que não vem nas cartas geográficas, virgem das explorações e estudos dos engenheiros hidráulicos, conservando toda a poesia dos primeiros tempos!... É quase um tesouro oculto e tem não sei quê de misterioso que, por isso mesmo, me atraía.

As margens elevam-se, de um e outro lado, em suavíssimos declives, orlam-nas renques de álamos aos quais as vides se abraçam estreitamente, debruçando-se depois em viçosos íestões a tocarem quase na água. Pequenas ilhas, todas floridas e ramosas, agrupam-se na mais graciosa miniatura de arquipélago, que se pode conceber.

Nesta parte do rio e àquela hora da manhã era certo encontrarem- se, a lavar e a cantar, as mais bonitas raparigas do sítio e tão desafogada e jovialmente o faziam que comunicavam alegria aos mais hipocondríacos.

Que pureza e frescura de timbre em algumas daquelas vozes! Eu só queria que as ouvisses. Tu, que em gosto musical não fazes envergonhar a tua canonizada homónima, minha Cecília, confessarias que é raro encontrar mais simpática voz de contralto do que a da Margarida, a filha da minha lavadeira.

Vejo-te sorrir ao ler isto. Não me acreditas, bem sei.

Os preconceitos artísticos... Mas não tens razão.

Outra vez te falarei ainda de Margarida. Tenho uma pequena história a contar-te a respeito dela. É uma curta história de amores.

Agora não.

Como eu dizia, demorava-me muito naquele sítio. Aprazia-me em escutar aquelas singelas canções — tão graciosas algumas — e sem autor, que se saiba; poetas e maestros desconhecidos e às vezes bem dignos de celebridade, vamos.

O amor é o tema favorito destas composições. Recordo-me ainda de uma quadra que muitas vezes ouvi e à qual achava uma certa elegância e singeleza de dizer inexprimíveis.

A ver se concordas comigo. Era assim:

Os teus olhos, negros, negros São gentios da Guiné.

Da Guiné por serem negros.

Gentios por não ter fé.

Cito-te de preferência este por estarem no referido caso os teus olhos, que, em sua negrura, revelam uma incredulidade verdadeiramente gentílica, incredulidade de que só aqueles ares de campo te podem vir a curar.

Sim, minha Cecília, sim; devias ir ao campo para dar largas a essa bondade de coração que possuis, mas que o espartilho comprime.

É certo. Em quanto a mim o espartilho não influi só na arcadura das costelas, como pensa o meu facultativo, mas no carácter moral das mulheres também e muito. Pois um coração comprimido, encaniçado, entalado entre varas de aço e baleia pode lá bater livre, ter estas expansões de bondade, estas explosões de sentimento, que alegram, que fazem bem, que aliviam? Eu pelo menos sinto-me em geral de tanto mais endurecida disposição de ânimo, quanto mais apertada ando. Nos bailes, por exemplo, reconheço em mim uma malignidade de Mefistófeles e a causa é essa; não sei de outra.

Depois os teus instintos de artista, adormecidos no teu bonito e confortável quarto da cidade, inebriados na atmosfera do «patchouly» e água-de-colónia que o perfuma, despertariam por lá. Verias. Isso com certeza.

Aí, que tens tu a inspirar-te? a ramagem do papel das paredes, as rosáceas do tapete, os acantos do estuque, as florestas e lagos das gravuras encaixilhadas, os gorjeios de uma avezita aprisionada, as flores agrupadas com artifício e esmero em jarras de porcelana, montes de cadernos de música, o piano aberto... que inspirações, meu Deus! que inspirações, comparadas com a grandeza das que se recebem no campo! Os nossos artistas — poetas, pintores e músicos — são em geral como tu. Encontro-os nas praças do Porto, estacionados nas lojas mais concorridas, nos teatros, frequentam os cafés, dizem-me... mas no campo, na presença desses magníficos espectáculos da natureza que os inspirariam, a escutarem as lições desta grande mestra da arte...

só por uma casualidade, de que eles próprios se admiram.

As vezes penso, por exemplo, vendo elevar-se com tão violento impulso de inspiração entre os nossos actuais poetas um dos mais jovens, mais verdadeiros e o mais injustamente deslembrado no areópago dos promulgadores de diplomas de celebridades contemporâneas, numa palavra, Guilherme Braga, pois que para ti basta dizer-lhe o nome para dizer tudo; penso a que altura prodigiosa o veríamos nós subir, se fosse de quando em quando, vigorizar ao ar livre do campo aquele seu talento; tão robusto que nem os hábitos indolentes da vida urbana conseguem amortecer.

Dos nossos pintores ainda encontrei às vezes por aqueles lugares o Resende, sobraçando a sua pasta de esboços ou parado diante de uma paisagem surpreendente.

Basta vê-lo em verdadeiro êxtase diante de um efeito qualquer de luz, para se lhe reconhecer as pronunciadas tendências artísticas que possui.

A projecção da sombra de uma nuvem, numa parte do horizonte, o colorido do ocidente no crepúsculo, o efeito da atmosfera nas tintas sob que se apresentam desenhadas as montanhas distantes... é o bastante para o arrebatar.

E é contagioso aquele entusiasmo. Tenho-o sentido.

Mas, perdoa-me a digressão, sabes que é modo meu e que já agora não perco. Eu continuo.

Da ponte de que te falei seguia eu pela encosta de uma pequena colina, debaixo de um continuado toldo de verdura, parando, de momento a momento, para colher uma flor ou um desses bonitos insectos de asas cintilantes e matizadas que brilham como pedras preciosas. Outras vezes era a ouvir o rouxinol. O rouxinol, percebes? o verdadeiro rouxinol, a filomela clássica, o rouxinol, que eu quase cheguei a pensar ser um mito, o rouxinol de que tanto se fala na cidade e que a máxima parte da gente que fala dele nunca ouviu.

Ia até jurar que neste caso está a maioria dos nossos poetas. Ó imperdoável descuido! Numa planura em que terminava a colina, estava o cemitério da paróquia, um cemitério de aldeia; não to descrevo. Imagina-lo sem isso, não é verdade? Continuava-se com o cemitério um prado extenso, todo orlado de álamos gigantes e revestido de relva. Era no meio dele que se elevava a velha igreja paroquial, cujo estado de ruína, devido à sua remota antiguidade, a fizera, de há muito, abandonar de pároco e paroquianos.

Em mais completa ruína se achava ainda a casa do último abade, que, apesar disso, ali vivera sempre e atrás de cujo féretro se haviam fechado as portas da residência para nunca mais se abrirem.

O novo abade vivia próximo à capela, para onde provisoriamente se transferiu a sede paroquial; ficava um quarto de légua afastada da primeira e mais no centro do povoado, que, como acontece tantas vezes, pouco a pouco se deslocara, abandonando a sua antiga igreja em torno à qual primitivamente se havia agrupado e procurando aproximar- se da estrada principal que passava perto; de maneira que hoje só se encontram nas proximidades do velho templo meia dúzia de pardieiros desertos e tão arruinados como ele, os quais dão ao sítio um aspecto melancólico.

A mudança da paróquia, que se dizia provisória, prometia tornar- se efectiva. O novo abade não manifestava desejos de viver no ermo em que jazia a sua verdadeira residência e menos ainda os fregueses de ir ouvir missa tão distante, quando mais perto de casa a podiam ter.

Folgavam com a resolução as corujas e os mochos, agora senhores absolutos daquelas ruínas; e uma multidão de répteis, rastejando em liberdade por baixo das pequenas moitas de ortigas, parietárias e leitugas que rebentavam luxuosamente de entre os montões de tijolo e caliça do tecto desmoronado que se acumulavam no chão.

Subia eu esta colina e sentava-me no último degrau de pedra que havia à porta da casa arruinada e ficava horas esquecidas a contemplar tudo aquilo, que estava diante de mim e que mal te posso descrever.

Deste ponto dominava-se a aldeia toda. As suaves ondulações daquele terreno, pitorescamente acidentado, eram todas forradas de folhagem viçosa; as casas alvíssimas disseminadas por aquela verdura, tinham um aspecto festivo, que consolava o coração. O pequeno rio que atravessava a aldeia em tortuosos meandros, o meu rio anónimo, cortado a cada passo por pontes rústicas e açudes, fazia mais aprazível a cena; nas relvas de um verde magnífico, verdadeira relva inglesa, alvejavam as roupas estendidas por lavadeiras madrugadoras ; numerosas manadas de gado pastavam por lameiros extensos e a sons de frauta pastoril, a frauta primitiva, nobilitada há pouco por um artista inspirado, vinha ecoar nas concavidades da colina e desafiar as vozes das aves escondidas na impenetrável espessura dos arbustos que a guarneciam.

O colorido da aurora animava, poetizava tudo isto, tornava tudo surpreendente, inimitável. Nunca em paleta alguma de artista se combinaram tintas assim.

Digo-te, minha Cecília, que raras vezes me tenho sentido tão comovida como me sentia então.

Uma manhã levara comigo o Jocelin, aquele teu livro predilecto, mas do qual mais gostarias ainda, se o lesses ali. Olha que há nele coisas que eu só então compreendi e que tinham escapado à apreciação que dele fazíamos nas nossas leituras em comum. Lembras-te? Garrett tem razão quando diz que certos livros devem ler-se em certos lugares e de certo modo.

Eu por mim, se for ao Buçaco, hei-de levar comigo La chute d'un ange. Quero ler debaixo daqueles cedros seculares a magnífica descrição do Líbano primitivo, visto que já desesperei de o fazer no próprio Líbano.

Mas... por Buçaco, sabes tu que estou com medo de lá ir? Este caminho de ferro povoou-me aquelas solidões majestosas e despoetizou- mas; estou vendo. Temo de encontrar por lá uma família burguesa jantando à sombra dos cedros como jantaria à sombra de qualquer parreiral, com a mesma insensibilidade, com a mesma irreverência, e, o que é pior, dormindo a sesta depois. Tremo de encontrar meninas a jogar as escondidas e a cabra-cega naquela famosa mata, rapazes jogando a bola ou homesns sérios a lerem jornais e a tomarem café para auxiliarem a digestão. Se tal me acontecesse... ficava doente oito dias. Por isso tremo de lá ir. Continuemos.

Tinha eu comigo o Jocelyn, que abri ao acaso. Li algumas páginas das mais apaixonadas daquele belo livro e fiquei-me a cismar, sabes em quê? Nos destinos do padre, não do padre vulgar e prosaico que vemos todos os dias; mas do padre ideal, irrealizável talvez como a gente concebe e como quase acredito que já não existe. Um padre como Jocelyn; com travadas lutas, com íntimas tempestades no coração e com a impassível serenidade e brandura no semblante; como esse pároco obscuro, que Genoveva servia e de cuja juventude o leitor do inspirado poema de Lamartine sabia bastante já para mais admirar a heroicidade daquela vida tranquila, para cismar no que havia de ir no coração do malfadado quando lhe pairava nos lábios um sorriso de placidez que enganava, de benevolência que atraía; esse homem sem pre votado à consolação dos outros, ele, o desconfortado, que abafou no crepe as revelações dos seus tormentos.

Pensava nisto, Cecilia, nestes martírios obscuros e ignorados; nestes heróis que se não celebram, nestes poemas que se não escrevem, nestas lágrimas que se escondem, nestes suspiros que se abafam...

pensava nisto e comovia-me.

Quem pudesse devassar os dramas íntimos de algumas isoladas residências rurais! E isto a ocorrer-me e logo a lembrança de que justamente naquele momento estava eu sentada talvez nas ruínas de um desses teatros, onde dolorosos dramas íntimos se tinham passado já.

A vida solitária do último pároco, aquele seu apego à velha igreja e residência, que ambas ameaçavam a cada instante sepultá-lo nas suas ruínas, a pouca memória que deixara de si... tudo parecia conspirar- se para fazer-me crer ter sido este um daqueles heróis em que eu pensava, um daqueles mártires sem panegiristas, vítimas sacrificadas sem deixarem vestígios que lhes prolonguem, mais que a vida, a memória entre os que ficam, quando a não perpetuem.

Sob o domínio desta ideia, levantei-me e possuiua de certa inquietação, olhei para aquelas paredes arruinadas, como se a ver ae elas encontrariam uma voz com que me dissessem: «É verdade! padeceu»; como se pudesse descobrir ainda vestígios de lágrimas vertidas em segredo ; como se a tristeza de um olhar se pudesse imprimir, pela continuação, nos objectos em que se fixa.

E queres que te diga? Pareceu-me então que alguma coisa havia efectivamente naquelas pedras soltas, que não podia ter outra origem.

Puerilidade minha, não é verdade? Mas olha, Cecília, eu às vezes penso: Quem sabe que mistérios terá ainda a devassar a ciência? Sabes tu? Tenho sempre escrúpulos de me rir dos visionários e utopistas; receio que os vindouros se riam do meu riso. Isto de ver as coisas só à luz da ocasião tem seus inconvenientes também.

O que é certo é que me pus a examinar as paredes com atenção e quase com supersticioso temor.

Ainda não durava um quarto de hora este exame, quando fiz uma descoberta.

Próximo a um dos ângulos da parede reconheci, em letras a lápis quase desvanecido o que quer que era escrito. Corri para elas com uma sofreguidão que não descrevo.

Não foi sem dificuldade que consegui ler e às vezes adivinhar o que elas diziam.

Eram versos.

Pareciam uma resposta às minhas mudas interrogações. Se o espírito das ruínas me ouviria? Aí tos copio da minha carteira, onde então os escrevi com a mão trémula e em sobressalto:

O BOM REITOR

Sabem a história triste
Do bom reitor ? Mísero ! toda a vida
Levou com dor.

Fez quanto bem podia... Mas... afinal
Morre, e na pobr e campa
Nem um sinal.

Nem uma cruz ao meno3
Se ergue do chão !
Geme-lhe só no túmulo
A viração.

Vedes, além... na relva
Junto ao rosal
Flores que há desfolhado
O vendaval?

Cobrem-lhe a lousa humilde: A criação
Paga-lhe assim a dívida
De compaixão.

Pobres que amava tanto, Nunca ao passar
Choram, curvando a fronte
Para rezar,

Nunca, ao romper do dia
O lavrador
Pára e lamenta a sorte
Do bom reitor.

As criancinhas nuas
Que estremeceu
Já nem sequer se lembram
Do nome seu.

No salgueiral vizinho, Ao pô r d o Sol,
Vai-lhe carpir saudades
O rouxinol.

Lágrimas, pobr e campa! Ai, não as tem,
Só de manhã o orvalho
Rociá-la vem

Da solitária Lua
A triste luz
Grava-lhe em vagas sombras
Estranha cruz.

E ele repousa, dorme... Vive no Céu;
Dorme esquecido e humilde
Como viveu.

Há nesta vida amarga
Sortes assim,
Vive-se num martírio,
Morre-se enfim...

Sem que memória fique
Para dizer
Às gerações que passam
Nosso viver.

Quem me escutar se um dia
Ao prado for
Ore pelo descanso
Do bom reitor.

Não te copio a poesia se não por lhe andar ligada uma das mais profundas e indeléveis impressões que trouxe do campo.

Que mão escreveu estes versos? Ignoro. Alguém que passou e que, como eu, se sentiu arrebatar por a mesma série de pensamentos, dominar pela mesma ordem de impressões.

Na aldeia não só não há quem faça versos, mas até não sei de quem os leia.

O primeiro leitor desta pequena produção fui por certo eu. Que te direi mais? Vais rir da minha simplicidade. Desci ao cemitério, procurei, adivinhei o lugar onde o velho pároco repou• sava e... cumpri o desejo do poeta, ajoelhei e orei. Depois colhi da roseira próxima quantas flores ela tinha e esfolhei-as na campa.

Era talvez a primeira homenagem que recebia o bom velho. Ser-lhe-ia ao menos grata? Gosto de acreditar que sim.

Adeus, minha boa Cecília, até cedo ; pois bem sabes que fiz voto de te comunicar as minhas impressões do campo, a ver se te converto.

Porto, Julho de 1864.

Diana de Aveleda

*

Publicada em 21 de Agosto de 1864 no «Jor• nal do Porto».

Ai está como tu és. Falei-te de tanta coisa na minha última carta, empreguei todos os meus esforços em excitar o teu interesse a favor de um pobre e obscuro pároco, ou antes da sua memória tão mal con• servada entre os homens... e tu vais logo ocupar a imaginação... com o quê ? Com uma palavra que eu soltei ao acaso, uma promessa que fiz, talvez sem pensar em satisfazê-la; e agora já me não deixas, impa- cientas-te, agitas-te, interrogas-me, persegues-me para que eu te fale... nos amores de Margarida.

Mas sabes o que me custa, filha? é supores tu talvez que é a his• tória de uns amores românticos, que eu tenho para te contar. E com certeza que o supões, de outra sorte não insistirias assim. Que sei eu ? Imaginas que enquanto examinava o rol da minha lavadeira descobri na filha dela uma Virgínia, uma Graziela, uma dessas raras pérolas de que os romancistas se apoderam sôfregos e que os leitores com mais sofreguidão contemplam e admiram ? Pérolas na maior parte artificiais, sempre to irei dizendo. Estás fantasiando cenas de requintado senti• mentalismo, frases de delicada ingenuidade, frases que estão mesmo a pedir que Manuela Rei as pronuncie, porque só na boca dela real• çam com toda a sua graciosa singeleza; e vais decerto ficar... ficar... sim, ficar desapontada quando souberes o que é.

Primeiro que tudo preciso dizer-te que Margarida nada tem de vaporoso, silfídico, e franzino; não é destas mulheres nevoeiros que nos aparecem nos romances e que nos conservam em continuado sobressalto, receando que o menor raio de Sol as evapore, que o mais leve sopro de vento as desvaneça.

Margarida não é pálida, não tosse, não tem ataques nervosos, dorme tranquilamente, tem digestões fáceis e ri com todas as veras do coração, quando há motivo para o riso.

Já vês que não tem nenhum dos requisitos das heroínas de romances sentimentais. Margarida não permanece em contemplações extáticas diante da luz poética da Lua. Quando a vê, sai-lhe esponta• neamente dos lábios, quando muito, uma saudação como esta:

Ó luar da meia-noite,
Tu és o meu inimigo,
Estou ã porta de quem amo,
Não posso falar contigo,

que dantes visitava apenas os velhos, fez-lhe a fineza de o acalentar no berço? É muito para agradecer, porque ela sempre antipatizou com crianças. Dé-me licença, Sr. F..., o meu par vem buscar-me.

Bem vê que ainda danço. Observe-me, mas... por quem é, seja benigno.

E o meu filósofo assesta a luneta, senta-se a um canto e observa. Que pena que conserve inéditos os sumarentos frutos da sua observação nocturna! Mas o que eu lhe dizia era verdade ; ainda danço; mas, aqui para nós, não danço à minha vontade.

A dança não é, não deva ser isto assim.

Antigamente é que se compreendia o dançar. Basta dizer que não havia quem de o fazer se envergonhasse.

Em quanto a mim, aquele século de Luís XIV não se chamou o grande século só por as grandezas políticas, militares, financeiras e literárias do reinado desse monarca. Concorreram, e muito, para lhe granjearem o epíteto, as festas esplêndidas de Fouquet, as noites deslumbrantes de Versalhes e aqueles bailados que Molière era cons• trangido a entremear nas suas comédias para satisfazer a mania coreo• gráfica da corte e nos quais tomava parte o próprio rei, transfigurado em pastor; dessa graciosa raça de pastores que povoavam os tablados daquele tempo. E julgas que Luís XIV era lá homem que dançasse como qualquer dos nossos partners da actualidade executa um fastidioso solo? Qual! dançava saltando, rodopiando e cabriolando, que é a ver• dadeira maneira de dançar.

Dançar, dançava David à frente da arca da aliança e vejam lá os nossos elegantes se se lhes mete na cabeça deixarem aos vindouros memória de si, mais acatada e sisuda do que a do rei salmista.

Sisudos e até sombrios foram D. Pedro ! e D. João II e digam-me se eles não dançaram com toda a agilidade dos seus músculos.

D. Pedro, o terrível D. Pedro, o amante de D. Inês, tomava parte em folias populares, e D. João II só deixou de dançar quando a gordura o impediu de o fazer, diz o cronista, o que prova que não se conten• tava com dançar, passeando.

E depois... que santos e singelíssimos costumes aqueles! As mais honradas e respeitáveis damas não punham muito em saírem à rua de pandeiro na mão e em festivais coreias por ocasião de regozijos públicos.

Uma tal D. Briolanja Henriques, que eu quisera dar por modelo às elegantes dos nossos dias, fê-lo nas ruas de Évora, diante de D. João II, o qual tanto folgou com a lembrança, que a tomou nas ancas do seu cavalo e assim a levou aos paços.

Ora a isto é que eu chamo compreender o dançar. No século passado...

Ai, perdão, perdão ! esquecia-me que estás impaciente, que estás febril, que estás frenética, por eu não entrar no assunto.

Venham os amores de Margarida à barra. Vamos lá aos amores de Margarida.

Desci ao largo para gozar mais de perto daquela alegria. Marga• rida veio ter comigo. Estava ofegante.

— Bravo! disse-lhe eu, estiveste inimitável, sabes? Nunca admi• rei tanto a tua agilidade na dança, nem a tua voz no canto! — Está a mangar ? — Falo séria. Muito alegre te principiou hoje o dia! — Que diz, senhora; alegre ! Não, ao que hoje tenho chorado já...

— Mas... nesse caso, Margarida, se essas são as tuas tristezas, não me darás uma amostra das tuas alegrias? — Então ? a gente precisa de se distrair. Isso lá! De que vale dar-se uma pessoa à melancolia? Não remedeia nada e...

— E posso saber a causa das tuas tristezas ? — atalhei eu.

— Ai, porque não? julguei até que a sabia já. É que ontem pren• deram o Luis... a senhora conhece-o...

— Bem sei, o teu conversado. Mas... prenderam-no porquê ? — Prenderam-no para soldado.

— Para soldado?! — É verdade, minha senhora. Veja o pobre rapaz que é tão sossegado, tão bom, tão metido consigo. Aquilo é mesmo um cora• ção de pomba. Que vai ele fazer com uma espingarda, ele que nem aos pardais atira? No dia em que ele matar alguém na guerra, estala-lhe o coração de pena, assim como me estalaria a mim se o matassem a ele.

— Sossega, Margarida, os nossos soldados não matam ninguém... na guerra ; felizmente não lhes dão ocasião para isso. Morrer, isso lá morrem... mas como toda a gente, como qualquer de nós pode morrer. Tu estás muito nova; dentro em cinco anos Luís obtém a baixa e estão muito em idade de se casarem.

— Dentro em cinco anos! Ora! daqui até lá, tinha ele tempo de me esquecer. Longe da vista...

— Nem para tão longe vai que vos não possais ver e visitar. Do Porto aqui é um passeio e assim não tens probabilidades de ser esque• cida, falando-lhe a miúdo.

— Falar-lhe? Que diz, senhora? Sendo ele soldado! — Ah! então? — Não, isso é que não, senhora. Que diriam por aí se me vissem a falar com um soldado? — Mas sendo esse soldado um rapaz da terra, sendo Luís...

— Nem assim. Isso parece muito mal.

— Mas então... estás resolvida a romper para sempre com ele ? — Eu! Agora estou.

— Mas não dizes que os cinco anos de ausência.., — Mas é que eu... Olhe, tenho a dizer-lhe e a pedir-lhe uma coisa... Agora vou dançar, mas volto já.

E, dizendo assim, afastou-se de mim a saltar e, dentro em pouco, escutava-lhe já a voz cantando:

Água leva o ribeirinho
Pra regar o laranjal;
As pena3 do amor que eu peno
Hão-de acabar afinal.

Aí está, pensava eu comigo, vão lá acusar aquele coração de insensibilidade. É próprio da natureza humana esta inconstância na dor ; cada vez mais o acredito. — Percebo o gesto que fazes ao leres isto, Cecília. Eu bem sei. Entre nós são menos vulgares estas súbitas transições, mas... será porque o nosso coração seja menos volúvel? Que te parece, Cecília, será ? Fala-me com franqueza. Eu, pela minha parte, hesito em afirmá-lo. Não haverá antes em nós um pouco de afectação também? A sociedade para tudo faz regulamentos, é a sua mania; em tudo quer as aparências salvas. Decreta que o órfão seja inconsolável durante seis meses, e mânda-o vestir de rigoroso dó ; outros seis meses quer que os empregue a consolar-se, sem o conseguir de todo, e traje luto aliviado; passado o ano, deve considerar-se consolado, e permite-lhe esquecer completamente os pais falecidos. Para irmãos reduz apenas a metade estas manifestações de saudade. Se durante o prazo em que nos manda ser tristes, se infringe a mais pequena cláu• sula do seu regulamento funerário, estigmatiza a infracção com severi• dade ; mas, se no fim desse tempo, nunca mais se venera a memória do morto, pouco se lhe importa com isso, não se julga autorizada a censurar porque se teve para com ela as atenções reclamadas.

Ora muitas das nossas inconsoláveis amantes, repara que ainda não digo todas, bem vontade tinham de fazer como Margarida, mas a moda tem exigências! e por isso conservam a tristeza por tempo conveniente... Margarida que não sabia afectar o que não sentia, ia assim alternando com suas lamentações as cantigas festivais que a dis• traiam. Fazia ela muito bem.

Quando de novo se interrompeu a dança, voltou a procurar-me.

— Então que me querias tu pedir ? — Olhe; lembrou-me uma coisa. Disseram-me que quem der não sei quantas moedas se livra de soldado. Ora o rapaz, coitado, não as tem. Sabe Deus como ele se arranja com o pouco que ganha. Mas aquela senhora que era minha madrinha, quando morreu, deixou-me um ourito, que eu tenho no fundo da caixa, porque afinal a gente anda cá no tra• balho e quase nunca traz aquilo. Lembrou-me que se o vendesse...

— Então quere s desfazer-te do teu ouro, Margarida? Mas repara bem.

— Ora, senhora, então? É bom tê-lo para as ocasiões. E esta é uma. Luís é trabalhador. Eu... vendendo o meu ouro... perco, é ver• dade ; mas, quem sabe? Talvez ainda venha a ganhar.

— Como ? — Por isto. Olhe, deixando ele de ser soldado e casando comigo, eu por um lado e ele por outro, iremos mareando a nossa vida melhor; e em pouco tempo poderei comprar ainda mais ouro do que tenho agora. Em quanto que ficando ele soldado...

— E então que me querias tu pedir ? — Era para que falasse a minha mãe nisso. Eu tenho medo que ela me não deixe.

Terminei este diálogo, como tu o terminarias, Cecília; apertei Margarida nos braços e prometi-lhe colaborar naquela boa acção. Margarida voltou a dançar. Dançar outra vez! Ainda! Que incons• tância! Não é verdade ? Mas quantas das nossas belas apaixonadas, que se privariam de dançar oito dias depois da ausência de um namo• rado como Luis, não teriam coração para se desfazerem... do seu leque que fosse, mesmo sabendo que esse pequeno sacrifício lho restituiria? Não te ofendas por quem és, nem tu nem as tuas amigas; repara que não disse todas.

Eu voltei para casa e pus-me a pensar nisto. Contei tudo a meu marido e deixei-lhe percebe r desejos de poupar este sacrifício à rapa• riga, adiantando ele o dinheiro para a soltura.

Sabes o que ele me respondeu ? — «Deixa-a. Esse sacrifício de agora é uma garantia para a sua felicidade futura. Dá-lhe direitos a exigi-la daquele por quem assim o realiza». Em vista deste parecer, resolvi falar à mãe e, com algumas dificuldades, sempre obtive o seu consentimento.

Meu marido encarregou-se de comprar, ele próprio, o ouro que pagou por um preço muito superior ao seu valor e que conserva ainda em seu poder, desconfio que para fazer presente dele a Margarida no dia do seu noivado.

Luís foi efectivamente livre. Comoveu-me vê-lo chorar de alegria aos pés da sua desposada. Por nossa intervenção conseguiu uma colo• cação mais lucrativa do que a que tinha, Arrendou uma quinta e sus• peito que já capitaliza um poucochito. O rapaz não deseja casar sem ter algum pequeno dote a oferecer àquela que se sacrificou por ele. Ora aqui tens o que eu te queria contar dos amores de Marga• rida. Bem vês que não há aqui nada de romântico; é uma história que a gente conta sem percebe r que a está contando e da mesma maneira a escuta, tão desprovida ela é de situações que afectem a imaginação.

Não me queiras mal por te haver feito conceber esperanças, que não pude realizar. Eu prometo nunca mais cair nessa imprudência. Adeus, Cecília, adeus que se eu continuo a falar não acabo hoje; até outra vez

Porto, Agosto de 1864.

Tua afeiçoada

Diana de Aveleda.

Publicada no «Jornal do Porto» em 11 de Janeiro de 1865.

Fragmento de uma carta que não era para ser publicada.

III

Já que me falaste em música na tua última carta, não quero ter• minar esta sem te dizer quais os meus pensamentos actuais sobre o assunto.

Repara que digo — actuais. — É que eu sou já cautelosa. Receio que a minha versatilidade, que sou a primeira a reconhecer, me ponha em contradição comigo mesma dentro em pouco tempo.

Vamos por isso firmando desde já a cláusula que me seja depois desculpa. Tratemos pois de música.

Poucas como tu estão no caso de falar nisto; poucas, menos do que eu, no de te responder.

Sabes que estou muito longe de ser uma mulher da moda. Sou uma mulher do antigo sistema e nada mais.

Meus pais entenderam que me seria mais útil uma educação que me tornasse prestável, quando os anos da juventude me não garan• tissem já um bill de indemnidade para a minha inaptidão, do que rodear-me desses mil pequenos dotes que até aos vinte anos nos ser• vem de alguma coisa, mas que, depois de certa idade, infalivelmente nos abandonam, deixando-nos então mais desacompanhadas e indefe• sas que nunca.

Meu pai teve, por exemplo, o mau gosto de me mandar ensinar a cozinhar; minha mãe não abdicou nas directoras do colégio o cui• dado da minha educação. Coitada! dizia ela que não me poderia for• mar tão bem a inteligência, mas que o coração, tinha fé que o formaria melhor.

Em quanto ao primeiro artigo da sua piedosa e sincera crença, acredito-o porque esta inteligência não saiu lá de grandes forças.

Reconheço-me, em desenvolvimento intelectual, muito aquém de todas as mulheres da geração nova, que falam francês com uma acen• tuação de parisiense pur sang; copiam a dois crayons cabeças de Julien e discutem Meyerbeer, Rossini com um desplante admirável. Ultimamente parece que até se filiam nas lojas maçónicas — pelo menos assim mo afirmaram.

Não sei se tu também estarás já iniciada nos mistérios do grande Oriente.

Agora sim, acredito na regeneração da pátria. Çà irà.

Mas em todo o caso, bem sei que eu não posso discutir música contigo; nem é essa a minha tenção.

Com este génio que Deus me deu hei-de — isso sim — dizer tudo o que penso, que a mais não pode ninguém ser obrigado.

Respondo-te como te responderia se me falasses nisso em um daqueles despretensiosos colóquios que tantas vezes temos tido em que até os maiores absurdos e atrevidos paradoxos são aventados sem a menor responsabilidade, sem incorrermos na censura de nin• guém. Porque hei-de ter mais escrúpulos escrevendo-te do que falando-te ? Acaso terá uma carta mais fundadas pretensões à imortalidade do que um diálogo ? As palavras voam, os escritos ficam. Histórias! Se os escritos ficassem todos, em pouco tempo o mundo seria uma papeleira. Só fica o que merece ficar.

Há palavras que atravessaram séculos e escritos que nem duram dias. Mas vamos ao assunto.

Tu entraste em plenos mistérios da arte, Cecília. Admirei-te mas compreendi-te mal. Via-te cá de baixo, subir, não te pude seguir.

O mau humor que dai me resultou, explica talvez a direcção, que estranharás em minhas ideias.

E depois eu recebi a tua carta em uma época em que andava preocupada por um pensamento, que alguns meses de vida campes• tre me haviam sugerido. Foi talvez por isso que não pude apreciar as tuas teorias musicais, como as apreciaria aí debaixo das mesmas impressões sob que as meditaste e formulaste.

Ocupava-me muito da música popular, cuja singeleza e originali• dade me tinham enamorado.

Sabes que eu em música tenho o mau gosto, que só a ti muito baixinho confessarei, de preferir a execução fiel e correcta de qual• quer trecho lírico que me agrade, às brilhantes fioritures e variações de fantasia com que um artista de génio consegue revelá-lo, sacrifi• cando— aos meus ouvidos profanos — o motivo musical que lhe serve de pretexto.

É por uma razão análoga àquela que me faz preferir o ondeado natural das tuas belas tranças negras ao impertinente e caprichoso fri• sado com que as martirizas em uma noite de baile.

Espero que a comparação me faça perdoar a heresia de arte, que acima julgo que pronunciei.

Podes ver que com estas decididas tendências para tudo que é natural e singelo, estou muito arriscada a apaixonar-me pela música popular, por essa caprichosa e ligeira música que voga nos ares com todos os mais rumores de que a escola romântica há tempos os traz povoados.

Ora, apaixonada assim, diz-me se me era possível escutar com a reverência de discípula ignorante, a erudita dissertação, a que o último concertista, de quem eu te pedi informações, deu lugar.

Esses períodos da rua apreciável carta vieram despertar-me de uma espécie de sonho — e digo sonho por não saber bem como hei-de traduzir de outra maneira aquela eloquente rêverie dos Franceses — em que me deixara arrebatar; é natural que respondesse com a rabu- gice própria do despertar.

Vinhas fazer-me a apologia da música científica, académica, clás• sica, entendida só por os raros iniciados nos mistérios do contraponto, e eu, que estava a escutar uma cantilena aldeã repassada de poesia, impacientei-me, reagi.

Contrariedade por contrariedade, minha querida. Agora hás-de ouvir-me tu. Vê se a tua ciência musical te dá a solução do seguinte problema que era o que me preocupava. É como respondo à tua dis• sertação. Este problema — em que eu muitas vezes cismo e para o qual peço a tua cooperação — é o da origem da música popular.

Sabes-me dizer qual o maestro inspirado dessas toadas singelas que se cantam ao bater das roupas nos ribeiros, ao esfolhar das espi• gas nas eiras, ao espadelar do linho nos serões? E terão elas compositor? Chego a duvidá-lo. Ouve a minha teoria: Às vezes lembra-me que o povo é como os pássaros, que ame• nizam a espessura das selvas. Qual deles foi o autor desses quebros e gorjeios que todos repetem ? Quais os maestros? Quais os discí• pulos? Não há distinção. Cantam assim porque lhes está na natureza aquele cantar, porque as vozes do campo desafiam um eco e eles res- pondem-lhes, como a concavidade da colina responde aos ventos que bafejam. — Ai está.

Assim me parece o povo.

Uma noite — penso eu — as brisas adormentadas mal fazem ciciar os olmedos da campina; os ribeiros afagam serenamente, e murmu• rando apenas, os musgos húmidos das levadas; cintilam as estrelas no azul-escuro do céu; prorrompe das moitas e silvados um concerto magnífico de insectos... e o povo sente vagamente a poesia da hora, a poesia da noite, a poesia da natureza.

Sente-a o velho pensativo à soleira da porta, balanceando lenta• mente nos joelhos um gracioso grupo de netos adormecidos, sente-a a mãe, jovem e desvelada, ao acalentar o filho no berço e fitando os olhos na mais brilhante dessas estrelas, como se ali se escrevera o destino daquela criança que estremece; sente-a a aldeã namorada aspirando os aromas que dos alegretes do jardim lhe sobem até ao peitoril da janela, onde se esquece a devanear; sente-a a própria infância, deixando os brinquedos ruidosos, falando baixo, escutando, cismando...—Este cismar da infância! este cismar da infância! Que gérmen de futuros pensamentos! Nessa noite pois, em uma noite assim, opera-se o mistério, o génio popular estremece, visita-o o fogo sagrado, a brisa da noite acorda a estátua de Mémnon; e então, no mesmo instante, no instante solene, um canto vem naturalmente aos lábios desses numerosos poe• tas, que todos sentiram e cismaram.

Do balcão enflorado, do limiar da porta, de junto dos berços, dos largos, das encruzilhadas, prorrompe uma voz; o ancião, a donzela, a mãe, as crianças cantam a um tempo e uma nova música nasce então, suave, saudosa, melancólica, como as maviosíssimas notas daquela noite que a inspirou.

Todos compuseram, todos imitaram. Mistérios das multidões! Decifre-os quem puder. Eu não os discuto; creio neles, como outros tantos artigos de fé.

Como explicar de outra sorte as nenhumas reclamações de pro• priedade, tão naturais à vaidade humana, e que, até no seio das mais doutas academias, consomem a máxima parte do tempo, que devia ser votado a investigações mais úteis, do que as de prioridade entre dois inventores litigantes ? Não sei.

Que melancolia a de alguns daqueles cantares; que festiva graça a de outros ! Lembra-me que uma noite deixara eu aberta a janela do meu quarto — vinha-me de fora um tão suave perfume de laranjeiras que não tive coragem para fechá-la — o rouxinol, esse poeta dos bos• ques, o chefe da escola romântica entre aquela sonora turba, porque não sofre modular as suas canções por formas sempre as mesmas, antes as varia, segundo as aspirações do seu génio, o rouxinol estava admirável! As folhas brincavam com a luz do luar e desenhavam no corti• nado do meu leito uma renda buliçosa de extravagantes ramagens. Cedi à influência languescente e deliciosa daquela noite de Estio. Adormeci. Por altas horas acordei ao som de uma cantiga aldeã.

Entoava-a uma voz feminina, cujo timbre melodioso e juvenil me comoveu como ainda nenhuma prima-dona. Perdão, perdão, reconsi• derei a tempo. É certo, porém, que me comoveu aquela voz. Durante o meu sono a luz desaparecera e agora cintilavam algumas estrelas pálidas, procurando combater infrutuosamente a escuridão mais intensa que preced e o amanhecer.

Não pude resistir, corri à janela.

A voz partia já de mais distante. Era a de uma jovem lavadeira, que ia para as presas lavar.

Olhei o relógio; pouco passava das quatro horas! Pobre rapariga! Ela aí ia sozinha votar-se ao trabalho! Aos dezoito anos, repara tu e todas as tuas elegantes companheiras; à hora em que vós apagais a luz, ainda com a imaginação alvoroçada pelas aventuras da mais simpática personagem do romance que vos disputou ao sono, à hora em que desprendeis o enfeite que vos adornou as tranças no baile e vos despis, cismando na frase de leviano galanteio que vos segredou o último valsista, ela, coitada! ergue-se para ir lavar, ergue-se para atravessar sozinha os caminhos ermos, cujo aspecto bastaria para vos desafiar um ataque de nervos, melin• drosas organizações. • Muito felizes sois! muito malfadada é ela! E contudo.,. —vede . — De quando em quando o vosso silêncio é interrompido por um suspiro, que não podeis reprimir; caís em desalento no sofá vizinho do leito e apodera-se de vós uma tristeza que vos faz chorar.

E ela ? ela canta, ela desperta, cantando os ecos escondidos pelas quebradas e afugenta os espectros sinistros que povoavam os recan• tos obscuros.

Mas é que vós não podeis cantar como ela, por isso também não tendes aquelas expansões que distraem e aliviam.

Cantar! Pobres meninas! Se vos ensinam a cantar em italiano! Se a moda, essa tirânica divindade que do alto do seu trono de ren• das e vidrilhos vos impõe um código absurdo, menospreza a nossa harmoniosa língua! Se para saudardes a Lua precisais de lhe chamar — casta diva — e repetir a letra de Felice Romani! se só com o auxílio dos libretos e martirizando a língua do Dante podeis celebrar Deus, as flores, as estrelas, o mar! Se vos ensinam a erguer-vos às onze horas! Se vos mostram as belezas do amanhecer nas gravuras ingle• sas ou, quando muito, no poliorama que adorna uma das mesas do vosso salão! Se só vedes o mar quando apequenado pela afluência de banhistas! Se vos mandam cantar ao espelho para estudardes o gesto conveniente a uma. cantora que tem escola! Se quando cantais tendes na ideia tudo menos o canto! Oh! vós não podeis, vós não sabeis cantar! Com todo o vosso estudo ficais suplantadas por tantas espontâ• neas cantoras que abundam nos campos.

Ainda não encontrei artista de profissão que afinal de contas não fizesse caretas a cantar e ainda não vi rapariga aldeã que não fosse mais bonita cantando. Porque é isto? O artifício mata-vos.

E não é só a letra estrangeira que neutraliza para vós todo o efeito calmante que um antigo ditado português de tempos imemo• riais concede ao canto, é também a música estrangeira.

Da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha, de toda a parte aceitais de bom grado a música; só desdenhosamente sorris para a que não é de importação.

Ao lado do vosso piano, se se depara com alguma composição firmada com um nome português, é como envergonhada e escondida nas rimas de cadernos onde, em grande tipo, se lêem os nomes de compositores de fora, nem sempre dignos de celebridade.

— Mas se nós não temos música popular — disse-me ainda há pouco um dos nossos melhores talentos musicais. Não o contestei; seria arrojo da leiga, heresia de profana. Houve quem, sem o saber, lhe respondesse — e pela Imprensa — que a fizesse ele. O artista lendo o conselho, encolheu os ombros e riu-se. Desta vez tinha razão.

— Como! fazer música popular! Pois a música popular faz-se ? Se ela não existe, haveria génio tão superior que a tirasse do nada? Mas, não existirá de facto? Ai é qu e se resume a questão. Pois será este nosso povo um povo que não canta? ou para cantar irá pedir trovas emprestadas às outras nações? Responde por mim essa harmonia que sai dos campos, que nos enche os ouvidos, que anima o trabalho das ceifas, das esfolhadas, das malhas... Música rudimentar — dizem-me. Concordo. Mas é que se não vai assim de repente à ópera.

Exigir de um compositor que escreva uma ópera com música nacional é exigir muito, é marcar-lhe uma meta superior às forças de qualquer artista.

Fossem lá dizer aos escritores de língua portuguesa, esses que balbuciavam as primícias da poesia nacional, ao autor daquela canção do Figueiredo das Donas por exemplo — se é que depois da opinião de um nosso ilustre crítico ainda lhe podemos dar o foro de nacio• nalidade— fossem lá dizer-lhe: Escrevei um poema épico nacional! Tomai fôlego, fazei o que fez Homero, o que fez Virgílio.

Mas a ave não sobe às alturas logo ao primeiro voo. Camões só podia nascer quando nasceu.

Não digais, pois, aos nossos compositores: Escrevei óperas nacio• nais. — Isso é exigir-lhes o impossível — mas dizei-lhe: Escrevei tro• vas, escrevei canções, escrevei cantigas... porque deveras não sei por que se há-de pôr de parte esta palavra e esta coisa tão genuina• mente portuguesa — a cantiga — deveras que não sei.

Vós que falais em romanzas, em cavatinas, em rondós, em bar• carolas, sentis um certo escrúpulo de mau gosto em falar de cantigas. Pois eu, se estivesse no vosso lugar, legisladores do gosto, não o sentiria; eu havia de dizer desafogadamente aos nossos talentos artísticos: Fazei música para cantigas inspirando-vos do gosto popu• lar, subireis depois às composições líricas ligeiras e mais tarde, no futuro, os nossos netos aplaudirão a verdadeira ópera nacional — antes disso tentá-lo é absurdo.

As artes têm todas a sua infância. E Deus nos livre de crianças assenhoradas que é a mais antipática espécie de Preciosas ridículas que eu conheço.

Mas atendei a que não é só dos compositores que depende a reforma.

Alguns têm feito as primeiras tentativas, mas como lutar entre a tremenda potestade que se chama a moda ? Ainda me recordo de um malicioso sorriso que te vi nos lábios quando em certa reunião uma senhora teve a coragem de cantar deli ciosamente a canção do Marujo, do drama de César de Lacerda. Sor• risos como esse é que estragam tudo, Cecília.

Momentos depois ouvias, já muito sisuda e atenta, uma pequena ária francesa, destas que os editores de romances publicam nas capas dos seus feuilletons e que se podem cantar sem ofensa do bom-tom — porque são francesas.

Eu tenho vontade de promover uma revolução proclamando neste sentido: — Senhores folhetinistas, é necessário convencer as nossas ele• gantes que não é de mau gosto cantar em música portuguesa poesia portuguesa; ridiculizai muito embora a Jovem Lília e as antigas modi• nhas, mas substituí-lhe canções nacionais como elas. Não vos mostreis benignos somente para com os ohimés, infelices, míseros, mios con• tentos e addios das letras italianas.

A moda é um potentado. Para a combater é preciso uma aliança poderosa, poderosíssima.

Não exijais de ninguém desacompanhado essa façanha de Hér• cules. Não há forças isoladas que bastem.

Vós não criareis música nacional nos salões e gabinetes. Desen- ganai-vos. Ide ao campo e às ruas, percorrei as províncias e depois ponde à moda a Euterpe rústica que tiverdes encontrado por lá, per- fumando-a e apresentando-a com a etiqueta do estilo, na sociedade elegante.

É uma subservivência necessária. A musa popular, para se tornar nacional, tem de sujeitar-se a essas formalidades. Os promulgadores dos diplomas não lho dispensam. Sujeite-se, que faz bem. Coloque-se à moda, depois o resto virá naturalmente.

Aí tens o meu modo de pensar.

Em troca da tua dissertação científico-artística, que me impacien• tou — por ininteligível — dou-te uma opinião de leiga que te revol• tará — por absurda.

Estamos quites. Até outra ocasião.

Continuo a ser toda ao teu, dispor.

Janeiro de 1865.

Diana de Aveleda

UMA DAS MINHAS MADRUGADAS
CARTA A CECÍLIA

(Inédita)

Na antevéspera da nossa partida, o administrador, vindo visi- tar-nos, perguntou-nos quais os nossos projectos para o dia seguinte.

— O arranjo das malas, respondeu-lhe a L... sorrindo.

— Por amor de Deus ;—disse aquele jovial companheiro dos nos• sos serões da aldeia. — Por amor de Deus! V. Ex.a s fazem-me recor• dar o tempo das liteiras e das jornadas com almocreves, os meus bons tempos de Coimbra. O arranjo das malas ! isso, actualmente, é obra de uma hora quando muito.

— Mas também que mais curiosidades nos pode oferecer a sua terra meu caro senhor doutor? A seus olhos triplicemente investiga• dores de arqueólogo, de naturalista e de poeta, que poderá ter ainda escapado ? — O mosteiro.

— O mosteiro ?! Escuso dizer-te, Cecília, que ficámos já sem a menor vontade de contrariar o nosso cicerone. Eu a acabar de pronunciar aquela palavra mágica — mosteiro — e logo um mundo todo de fantasia, como se evocado por um condão misterioso, a surgir-me, a encan- tar-me, a pedir-me toda a atenção aos meus sentidos distraídos... Um mosteiro ! E nós há um mês ali, ignorando-lhe a existência.

— Sabe, doutor — disse-lhe eu — que é indesculpável a levian• dade com que até hoje se tem conservado silencioso em relação a esse mosteiro? Não'nos podia ter prevenido da existência dele, para eu ao menos me preparar com a leitura ale Walter Scott e ir bem pre • venida do espírito fantasioso que concebeu a «Dama do Lago», aquela deliciosa criação?

— Seria uma triste desilusão para V. Ex.a s quando vissem as mudanças que o tempo exerceu naquele antigo retiro de virgens.

— E de mais a mais mosteiro de monjas extintas! Ó doutor, cada vez estou menos disposta a perdoar-lhe. O tempo! as mudanças do tempo? Tem graça. Tanto melhor. Hera pelos muros, não é isso que quer dizer? Estátuas derrubadas, fustes partidos, capitéis despedaça• dos nos lajedos, baldaquins e cornijas servindo de asilo às aves? Tudo isso aumenta prodigiosamente o interesse da cena. Pois uma lenda bem conservada na memória do povo vizinho, cheia de maravilhoso, cheia de fantástico. Diga, diga se há em toda esta sua terra, a que tanto quer, coisa mais digna de se mostrar e menos capaz de se esquecer ? — Infelizmente, minha senhora — continuava o desapiedado dou• tor, parecendo deliciar-se em destruir todas estas minhas fantasias com a indiferença revoltante do botânico que desconjunta a mais bela flor do campo para — inútil crueldade — para a classificar. — Infeliz• mente, minha senhora, o mosteiro onde desejo conduzi-las oferece pouco alimento à curiosidade justificadamente feminil de V. Ex.as. Não é a poesia do tempo que se respira ali. Desta vez deu-lhe o mitológico velho para ser utilitário e esqueceu os seus antigos brios de poeta. Verão V. Ex.as a cerca aproveitada para hortas, transformadas as celas em tulhas e vivendas de rendeiros e a igreja invadida pela cal e pelo desastrado pincel do único artista da localidade.

— Nesse caso não vamos.

— Porque não? — disse a L... — deixa falar o doutor. Eu te pro• meto que a poesia e a saudade do passado conseguirão romper toda essa grande camada de prosa. Os perfumes de uma e de outra hão-de subir ao ar com os vapores que de tarde se elevam de entre o milho desses mesmos campos, penetrar nas celas com os últimos raios de sol, voejar na igreja com as partículas coloridas da poeira que a clari• dade de uma fresta venha iluminar.

— Bravo! — exclamou o doutor. — Com essa boa vontade, minhas senhoras, não há poesia que se não encontre.

— Emprazamo-lo para amanhã, doutor.

— E têm coragem de madrugar ? — Boa! Ao romper do dia estaremos prontas.

— Então, até ao romper do dia de amanhã.

Tu sabes como eu sou, Cecília, podes imaginar em que azáfama andou toda aquela noite a minha fantasia. Eu que ainda não consegui olhar com indiferença para o convento de Monchique, do Porto, não obstante estar desde criança habituada com aquelas ruínas e apesar da influência do Trem, da Alfândega e de tudo, como poderia receber de ânimo frio a inesperada promessa de um mosteiro retirado, quase destruído, talvez ignorado de todos ou pelo menos ignorado por mim, Porque para mim é de facto nova a existência do convento de... das... Então não queres tu ver que nem nome lhe posso dar! Pois é verdade, satisfiz-me com a denominação genérica de mos• teiro e nem me lembrou perguntar qual a invocação sob que foi eri• gido aquele obscuro asilo de almas tímidas e qual a ordem monástica que por tanto tempo o habitou.

Mas que importa? Não é também uma memória arqueológica que eu te escrevo. É uma carta, como todas as minhas, como todas as tuas em que se diz tudo quanto lembra e não se fica responsável por nada do que esqueceu.

Mas, como eu te dizia, cismei e sonhei em monjas toda a noite. Lembrou-me efectivamente Walter Scott e lembrou-me também Meyerbeer.

A dança fantástica que no quarto acto do Roberto fascinava o filho de Bertrand e cuja música, por uma diabólica coincidência, a L... lhe deu para tocar essa noite no piano, parecia atordoar-me também.

Acordei deste sono pouco restaurador quando me vieram dizer que principiava a madrugada e que há muito havia luz no quarto do doutor.

Tu não sabes bem ao certo o que é uma madrugada, tu a quem vai despertar no teu tranquilíssimo bairro o ruído das dez horas da manhã; nem eu me proponho a fazer-te a análise dos encontrados sentimentos que nos agitam em tais ocasiões. Dir-te-ei só, de passa• gem, que parece que naqueles momentos a habitual corrente das nossas ideias muda de direcção. Costumadas a pensar no meio de um determinado grupo de condições, de luz, de movimento, de vida, quase sempre as mesmas, quando em presença de condições tão outras das ordinárias, como são as de uma madrugada, como que os nossos pen• samentos tomam uma diversa feição e novas soluções a problemas, que tínhamos por definitivamente resolvidos, avultam e avultam sob um aspecto tão luminoso que todos os mais ofusca.

Isto não é filosofia, sossega; é a simples expressão do que eu senti quando acordada por L... me dispunha, não sem um pouco de má vontade, a cumprir a promessa feita na véspera ao doutor.

AL.. . estava admirada do meu silêncio, pois desde que principiara a vestir-me não lhe dera uma palavra só.

— Em que pensas tu? — disse-me por fim, impaciente — se isso não é ainda sonhar.

— Não é, não. Queres saber ? Penso que talvez não tiveram razão os que mandaram fechar as portas dos conventos e proibiram as profissões.

AL.. . obrigou-me a repetir esta resposta.

— Que extravagante reflexão política é essa tua agora? ! — É que eu, por mais que tenha estado a recordar-me dos argu• mentos pelos quais havia conseguido, julgava eu, convencer-me da utilidade de tal reforma, não os encontro.

— Vê se os deixaste no travesseiro — disse a L..., rindo.

— Olha que te falo séria! Nesse caso dir-te-ei que a razão mais justificativa, a meu ver, é a de nos ter proporcionado esta visita matinal, que espero será deli• ciosa. Porque, olha que se existissem lá freiras que não fossem pena• das, tudo mudava.

Eu odeio, como sabes, os doces e os conceitos das freiras e deci• didamente não acompanharia o doutor, se me esperassem lá essas duas espécies de gulodices.

Não gostei da feição jocosa que a L... continuava a dar à conversa, e por isso calei-me.

A ditadura de D. Pedro IV estava a ser julgada no tribunal da minha consciência.

Bem vês que o momento era solene.

Tal se manifestou em mim desta vez a influência da madrugada. Mais poder do que as jovialidades de L... teve porém a voz do admi• nistrador cantando junto de nossas janelas como o baixo no primeiro acto do Trovador: Alerta! Alerta! Respondemos-lhe pondo os chapéus e apresentando-nos na rua.

— Vamos a saber, doutor, inventou alguma bonita mentira para nos contar quando estivermos no mosteiro? — Eu? ! — Sim; é impossível que há tanto tempo nesta terra tenha resis• tido à tentação de meditar a esse respeito algum romance.

— Um romance meditado no gabinete da administração! Nem V. Ex." sabe o que pede .

— Nesse caso medite-o no caminho porque não posso dispensar uma história quando visito ruínas.

— É um mau sistema. O mais interessante é fantasiá-la cada um a seu modo na ocasião. É a maneira melhor de nos satisfazer. Eu por mim tenho sempre achado muito aquém do merecimento da cena as lendas dos sítios que visito.

E neste conversar fomos nós matando o tempo do nosso curto passeio.

Como sabes estávamos no Outono e as manhãs eram já repas• sadas daquela suavíssima poesia da tua estação predilecta.

O caminho que seguíamos, ora por vales cheios de sombras e de mistérios, ora por planuras desafogadas, compensaria de sobra o sacrifício da madrugada, quando a visita do mosteiro nos não reser• vasse outra compensação.

Àquela hora do dia há mais vida nos campos do que nesses magní• ficos sarcófagos que se chamam cidades.

Cantam nos montes os guardadores de gado, nos ribeiros as lava• deiras, os lavradores nos campos e o moleiro ao ruído das levadas despedaçando-se nas rodas das azenhas.

Depois e melhor que todos cantam as aves e tantas e tão variadas na cor, no canto e no voo que eu não sei como há naturalistas que as conheçam a todas, se é verdade o que se diz.

Eu sinto-me outra em passeios assim, inteiramente outra.

Pois há lá prazer como o de internar-se a gente por entre campos orlados de moitas viçosas, sebes naturais do onde se debruçam as rosas e as madressilvas seduzindo com seus perfumes o caminhante, que raro deixa de ceder aos encantos destas formosas flores, colhen- do-as na passagem? A luz do Sol coada pelas frondes dos álamos e castanheiros e das vides que estreitamente abraçadas com eles suspendem no caminho seus festões verdejantes, cheios de cachos prometedores, derrama uma meia claridade nestas veredas pouco frequentadas e por isso mesmo gratas talvez às recordações de muitos amantes campesinos. Numa manhã bem clara, passando por uma rua assim, Cecília, parece-me que com os insectos que a minha chegada vai perturbar e que, impacientes, ou amedrontados, se põem a voltear-me em torno da cabeça, se ergue também um enxame de memórias agradáveis que me ficaram pelos campos nos poucos mas deliciosos momentos da minha vida que tenho passado lá, turba inquieta que me envolve, que me embriaga, que me arrebata, no seu voo vertiginoso longe, ai bem longe do presente, da realidade, do mundo.

Digo-te uma coisa; então reproduzem-se em mim aquelas intensas e desanuviadas alegrias de criança que tão depressa os anos modifi• cam, alegrias espontâneas sem pensamento reservado, sem explica• ção possível, que se não reprimem, que rompem em risos, em cantos, em jogos, alegrias de causa toda interior que nenhum travo perturba.

Depois de algum tempo de caminho o administrador, que dirigia o rancho, retrocedeu a com uma fisionomia entre risonha e contra• riada disse: — Uma dificuldade imprevista! — Qual é ? — perguntámos nós a um tempo.

— Nada menos que uma cancela a transpor e uma cancela que se não pode abrir.

Saudámo-la com uma exclamação de prazer que deixou embara• çado o administrador, homem comodista, que desejaria ver alisar-se- -lhe debaixo dos pés em suave macadame todos os caminhos e arra- sarem-se-lhe os mais insignificantes estorvos, qualquer que fosse o ponto do universo para onde a necessidade ou o capricho o pudes• sem um dia levar.

— Então que é isso? Pois deveras não as amedronta uma cancela? ! — Está a gracejar — disse a L... Pelo contrário acolhemo-la como um interessante episódio no decurso de um poema.

— Ah!... pois estão nessas disposições? Então eu lhes prometo dificuldades, verdadeiros episódios para o poema, inclusive um ata• que de cães de quinta.

— Menos isso — exclamou a L... já quase séria Devo porém confessar-te que efectivamente foi com o coração folgado que eu vi surgir a dificuldade da cancela. Que queres tu? Outra puerilidade minha.

Nisto conservo todos os instintos de criança. É sabido que nada há mais fastidioso para estes pequenos entes, cujos instintos naturais ainda não foram falsificados pelo prosaísmo da vida ordinária e pela influência das ocupações que, tantas vezes com bem pouco fundamento, se dizem mais graves que as deles, como a seguir um caminho fácil, cómodo, feito de propósito, trilhado por toda a gente. Eles odeiam as estradas principais, acham-nas monótonas, sem acidentes, sérias de mais para eles, essas risonhas criaturas de Deus.

E se não, observa aos domingos qualquer desses numerosos grupos de famílias burguesas que transpõem as barreiras da nossa cidade e se espalham nos arrabaldes para sobre a mesa de lousa e à sombra das frondosas ramadas dos deliciosos retiros campestres, celebrarem o bom repasto patriarcal a que classicamente se chama merenda. Enquanto os pais e as mães seguem em linha recta pelo meio da estrada conversando, aqueles, do tempo do cerco, do estado das novidades agrícolas e das questões do abade com a confraria do Sacramento e da confraria com o abade e estas, das criadas, das nove• nas e das teias de pano de linho que deitaram esse ano; enquanto as meninas donzelas, de braço dado, e languidamente apoiadas uma na outra, entregues a confidências de tal ordem que nem se atrevem a fitar-se, quando muito descrevem ziguezagues caminhando obliqua• mente entre os dois lados da estrada; o rancho infantil, turbulento, ruidoso, indomável, borboleteia em torno de uns e de outros, amea- çando-lhes perturbar estonteados cometas, a regularidade da trajec• tória que seguiam. Trepa aos muros, salta aos valados, interna-se nos campos, explora os caminhos vicinais, desaparece atrás de um cômoro, surge às gargalhadas do alto de outro mais distante, pendura-se das árvores, rebola-se na relva, atola-se nos lameiros, rasga-se pelo tojo e silvas, indiferente aos gritos, exclamações, ameaças e até às cor• recções maternas e paternas.

E se, por acaso, a pacifica caravana depara com uma dessas can• celas rústicas como a que tínhamos diante de nós, enquanto os papás se preparam para abri-la, já as crianças a têm cavalgado, receando perde r a ocasião de uma nova peripécia que vem aumentar o interesse do passeio.

Efectivamente abrir uma cancela é uma vulgaridade, é o que todos os dias cada um faz em sua própria casa e uma excursão nos arrabaldes, sendo um facto excepcional no curso monótono da vida, a regra manda evitar tudo quanto seja vulgar.

Eu sou ainda como eles, essas criaturas sem presunção, que não têm pejo de brincar, saltar um muro, sendo possível, transpor uma cancela, franquear um valado de silvas, vadear um ribeiro... que impa• gáveis prazeres ! Passados momentos achávamo-nos em plena campina.

Tínhamos diante de nós a indicar-nos o caminho um desses estrei• tos carreiros conservado entre terras cultivadas para o serviço das lavouras. De um lado e de outro eleva-se-nos o milho até aos joelhos. Em torno uma imensa planície verd e onde só alvejavam as camisas brancas dos sachadores dispersos em numerosos grupos em toda ela. As improvisadas cantigas com que esta gente se anima no tra• balho cruzavam-se em disputado certame, interrompido de quando em quando por um coro de sonoras gargalhadas.

O sossego da hora, a vastidão do horizonte do lugar e o timbre puro daquelas vozes deixavam ir ao longe, muito ao longe, esses vilan- cetes cantados na popular toada da Cana-Verde. Percebiam-se ainda distintamente das colinas circunvizinhas, cujos ecos as repetiam como se participando da contenda.

Altos castanheiros, cuja plena florescência os tingia naquele tempo de reflexos dourados e as faias de tronco liso que, agitadas pela viração, ofereciam alternadamente aos raios solares as duas faces da sua folhagem bicolor, repartiam em figuras irregulares toda esta pla• nície. Aqui e ali uma pequena casa branca em cujo telhado se beijavam as pombas e volitavam as andorinhas, que vinham aninhar-se-lhe nos beirais. Nos quinteiros adjacentes misturava-se com o agradável ruído de vozes infantis o cantar do galo respondido por o de outros mais afastados.

Depois eiras extensas onde numerosas raparigas ripavam o linho colhido de pouco, cabanas e colmo de tentarem o pincel de um artista, medas de palha dispostas em longas fileiras, que vistas de noite à luz fantástica da Lua, tantas vezes se me afiguravam compridas pro• cissões de monges brancos, aspecto que, sabe Deus, quanta supers• tição tem fomentado por lá! Plena aldeia enfim, plena aldeia da nossa terra, fértil, risonha, amena, abundante em verdura, em flores e em água, onde a luz e as sombras se casam em misteriosa combinação; cheia de vagos rumores de folhas agitadas, de arroios invisíveis, de gorjeios de aves, de tudo o que consola, de tudo o que nos dá vida.

Tendo atravessado os campos subimos por entre giestas e urzes em flor e à sombra de magníficas carvalheiras, o mais frondoso dos outeiros que os limitavam e, atraídos pelo longínquo rumor de uma queda de água fomos ladeando a encosta até encontrarmos a corrente de onde esse rumor partia.

Era para ver a agilidade com que eu e L... descíamos então a ver• tente oposta da colina, seguindo sempre a beira da levada, com grande susto da parte do doutor que, a cada momento, estava esperando ver- -nos despenhadas no abismo.

— Cautela! cautela! — bradou ele de longe, embaraçado em afas• tar os estorvos que lhe interrompiam a passagem.

De quando em quando voltávamo-nos. Víamo-lo apegado aos tron• cos das giestas, deixando-se escorregar docemente pelo suave declive todo arrelvado e que ele insultou com o nome de despenhadeiro. A nossa hilaridade saudava-o então cá de baixo.

A corrente era a cada passo interrompida por açudes e moinhos, atravessada por pontes rústicas, oculta às vezes pelos arbustos das margens e, dos sitios mais profundos, soltava do seio os amieiros sem• pr e ávidos e insaciáveis de frescura.

Conduziu-nos finalmente este caminho a uma devesa na qual ces• saram as tribulações do administrador. O mau humor que a descida lhe tinha exacerbado desvaneceu-se totalmente no remanso que o esperava ali e não foi ele o que menos se riu dos seus passados ter• rores e apreensões.

Mas que devesa aquela, Cecília! Que íntimo recolhimento ! Que misteriosa tranquilidade! Os rouxinóis, ocultos na copa espessíssima de carvalhos seculares, cantavam à porfia sem que a nossa presença os inquietasse. A andorinha dos bosques, cheia de confiança, passava ao nosso lado perseguindo os insectos com aquela graciosa agilidade de movimentos, que nos encanta nela. De quando em quando uma folha seca, uma lande desprendida da árvore vinham cair-nos aos pés ; um raio de Sol que, atravessando já amortecido aquele arren• dado de verdura, descia a procurar na relva a florinha cor de anil que não sei que nome bárbaro tem em botânica, traçava obliquamente no recinto assombrado pelo arvoredo uma coluna luminosa que se dissera fuste tombado de um templo em ruínas. Insectos de cor variada, cujos zumbidos eram o maior rumor daquela solidão, seduzidos por este raio de luz procuravam-no com ansiedade e vertigem.

Instintivamente falávamos baixo ali.

Subjuga-nos tanta solenidade, intimida-nos, sentimo-nos pequenos e;.. —A caminho! a caminho!—foi a exclamação que ruidosamente nos arrancou da silenciosa abstracção em que pouco a pouco nos dei• xáramos cair.

Desnecessário será dizer-te que foi do doutor que ela partiu. Para tanto só a coragem dele.

— A terra da promissão não está longe — continuou, apontando por entre um claro que deixava a folhagem.

Olhámos nessa direcção. Descobrimos ao longe a grimpa e toda a parte superior de um velho campanário. Saiu-nos dos lábios uma exclamação de prazer a mim e à L...

— O mosteiro ? — O próprio.

A estas duas palavras sucedeu o silêncio. Com os olhos fitos naquele enegrecido edifício que, pouco a pouco, parecia ir-se des• pojando à nossa vista do invólucro da folhagem que ao princípio no-lo encobria, fomos caminhando para ele de novo, possuídas daquela mesma impressão que sentíramos na véspera.

Perdoa à minha ignorância de arquitectura se omito a minuciosa descrição daquele vetusto convento, transformado hoje em uma dúzia de coisas muito diversas, que nem já te sei enumerar. Não perde s muito, tu, nem perd e a arte com a lacuna porque afinal de contas conhecia-se pelo que vimos ainda dele que o convento nunca passou de uma dessas construções irregularíssirnas, acanhadas, sem estilo, que um pensamento religioso erguia a cada canto para abrigo dos foragidos aos tormentos mundanos e nos quais se procurava simboli• zar o desapego ãs vaidades da Terra na ausência completa da menor beleza arquitectónica. Extensas paredes crivadas de janelas mesqui• nhas, carência absoluta de simetria nas construções posteriores à do edifício principal, assim uma coisa à semelhança do convento de Cor• pus Christi em Vila Nova de Gaia e mais nada.

Tinha alguma razão o administrador quando nos falava no carác• ter prosaico das modificações que o tempo introduzira neste mosteiro. Nada do grandioso das ruínas! renovações escandalosas, verda• deiros sacrilégios de arte, isso, muitas. Montes de palha por toda a parte e a vegetação das hortaliças de uma exuberância insolente! AL.. . bem se esforçava por reconstituir um romance com o pouco que via; mas as galinhas que esgaravatavam nos claustros dilacera- vam-lho à nascença. É uma ave essencialmente burguesa a galinha. Não há lenda que possa florescer onde constantemente cacarejam estes prosaicos bipedes.

AL.. . chegou a desesperar.

— Visto isso, nem uma pedr a histórica, nem uma memória ligada a estas paredes. Ó doutor, compadeça-se desta nossa ansiedade.

Recorde, descubra, invente um romance — dizia eu.

— Eu só conheço o lugar como a matriz de um círculo eleitoral e ligada a este recinto só posso recordar-me da história das eleições passadas.

Cheguei a odiar o administrador ao ouvir-lhe dizer isto.

— Silêncio ! Nada de profanações.

— E contudo estas naves — disse a L... entrando na igreja, efecti• vamente a parte mais solene do edifício — são ainda assim longas, ele• vadas bastante, convenientemente obscuras. Nem as reformas tolas dos restauradores conseguiram privá-las de uma certa majestade e poesia. Doutor, doutor, eu quero levar daqui alguma impressão mais dura• doura ! Não saio sem isso.

E, dizendo estas palavras, encaminhou-se para uma capela mal alumiada por um lampadário antigo e ainda não visitada por nós.

Seguimo-la. À entrada, porém, a imprevista aparição de um vulto fez-nos recuar. Não er a afinal nenhuma alma do outro mundo, tão somente um rapaz muito pálido, vestido com singeleza, o qual com um sorriso modesto e melancólico nos cortejou.

O doutor correspondeu-lhe com um gesto de afabilidade.

— Quem é este homem ? — perguntei ao doutor quando o recém- -aparecido se afastou de nós.

— É o mestre-escola da aldeia.

— Ninguém o dirá! Tem uma fisionomia inteligente.

— E desta vez não fica mal Laváter.

— Deveras? Mas... mestre-escola! — Então que quer ? Com aquele estofo — disse o doutor, apon• tando para ele que já ia à porta da igreja — fazia-se talvez um bom académico, fazia. Mas amarraram-no à atafona das primeiras letras.

Nisto saía a L... da capela, verdadeiramente desesperada.

— Não há meio de tirar coisa alguma destas paredes. Temos de nos resignar a partir com as nossas carteiras em branco. Incomode, sacuda a sua imaginação para nos mentir, doutor, ande. Invente, seja amável uma vez na vida.

— Não sou poeta e V. Ex.a s perderam talvez a ocasião de satisfa• zerem tão inofensivo desejo deixando sair esse rapaz.

— Quê ! Pois é também poeta! exclamei, admirada.

— Afiança-me que pode dizer-nos alguma coisa interessante ? — perguntou a L...

— Aqui, para o que V. Ex.as desejam, ou ele ou ninguém.

— Pois vou chamá-lo.

E a L... com aquele estouvamento que lhe conheces dirigiu-se para a porta, sem fazer caso das minhas observações e dentro em pouco voltava com o pálido mestre-escola, singularmente embaraçado com a assistência que se lhe pedia.

— Emprazamo-lo — disse a L..., usando das maneiras convenien• temente familiares com que logo à primeira entrevista sabe pôr à von• tade os seus interlocutores. — Emprazamo-lo para que nos tire destas paredes, destas naves, destas abóbadas uma memória, uma lenda, um drama, seja o que for. Porque, há-de concordar, ir a gente daqui sem qualquer destas coisas é desagradável, é impertinente, é triste.

O professor sorriu e naturalmente dirigiu o olhar para a capela de onde o víramos sair.

— Dali ? — exclamou a L... que lhe seguira o olhar. —Bem me quis parecer. Há um ar de mistério naquele altar, há; mas já procurei e nada vi.

— Quer V. Ex.' que as paredes falem, sem se lembrar que elas só dizem o que a gente lhe ordena.

— Cale-se, doutor. Os códigos asfixiaram-lhe toda a poesia que talvez em tempos felizes existiu em si. E se não experimentemos. Glose este mote alambicado:

Saudade, cruel saudade
Tormento da minha vida

— Não sou capaz de a satisfazer a não ser que me conceda algu• mas semanas para procurar inspiração nos autos administrativos e par• tes dos regedores.

— Então, silêncio! Este senhor, tenho fé que satisfará gentilmente a nossa curiosidade. Ou ele não fosse um poeta! — Poeta! — disse timidamente o interpelado.

— Sim. Sabemo-lo porque o doutor o denunciou e denunciava-o até esta sua visita solitária à capela de onde há pouco saiu. Vamos, diga-nos, o que há nela de interessante? O mancebo continuou a sorrir e parecia hesitar em tomar uma resolução. Depois, corando levemente, tirou de um livro que trazia na mão um pequeno papel, no qual se enfileiravam linhas regulares de uma letra miúda mas de traço firme e entregou-o sem pronunciar uma só palavra à L,.., que se apoderou dele com vivacidade. Com não menor presteza nos aproximámos eu e o doutor e por cima do ombro da L... fomos acompanhando a leitura das seguintes quadras, leitura a que ela procedeu com voz profundamente comovida

A NOVIÇ A

«Oh! vem, querida irmã; do santuário do templo
Já desce a receber-te o celestial esposo.
Vem ser da nossa fé sublime e vivo exemplo;
Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.

«Vem; dos círios à luz, ao som de alegres hinos, Cinge o hábito escuro, emblema da humildade,
E, abrasada no ardor dos teus estos divinos
Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade.

«Esposa do Senhor, virgem cândida e pura, Do teu noviciado expiram hoje os dias.
Não tremas ao fitar as portas da clausura, Também na estreita cela há grandes alegrias.»

Assim das monjas soa o religioso canto: Juntas, em procissão pelas extensas naves Espalham-se na igreja as vozes do hino santo Melancólica voz de aprisionadas aves.

Caído o longo véu por sobre a fronte airosa
Caminha lentamente a pálida noviça;
Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,
Um como cintilar de lâmpada mortiça.

Sobe os degraus do altar, humilde se ajoelha
E ao culto fervoroso as tranças sacrifica.
«Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,
Teus tesouros d'amor nas asas santifica.»

E o coro ergue outra vez o ritual hosana,
Entre nuvens de incenso, à voz do órgão sagrado ; Responde-lhe o rezar de multidão profana,
Que transpôs curiosa o pórtico elevado.

A cerimónia é finda; a monja de joelhos
Permanece, inclinada a face para a terra ;
Era no ocaso o Sol; e seus clarões vermelhos
Vinham tingir o altar, ungindo ao longe a serra.

Longo tempo ali esteve, as pálpebras descidas,
. Imóvel, silenciosa, em êxtase absorta,
Ergueram-na afinal as monjas comovidas;
Doloroso mistério, a pobre estava morta!

— Tinha ou não razão ? — exclamou a L..., elevando ao ar o papel assim que acabou de o ler.

Todos instintivamente procurámos o autor. Havia desaparecido.

Estupefactos olhámo-nos em silêncio sem saber o que pensar desta surpresa. Bem longe estava eu naquele momento de encontrar um metrificador de alexandrinos ! — Agora o que me apetecia decifrar — disse eu ao doutor — era o mistério deste melancólico e simpático mestre-escola.

— Se V. Ex.* ordena, porei em acção os meus cabos de polícia para qualquer dia me habilitar a revelar-lho, já se sabe, em estilo de relatório administrativo, — Pois olhe, esse mistério preocupa-me pouco — disse L... — o que pretendo é saber os fundamentos disto — e apontou para o papel que conservava na mão.

— Fantasias — disse o doutor.

— E como diz isso! Fantasias! E é coisa de pouco valor isto de fantasias? Assim fantasia quem quer ? Pois há três horas estou eu a pedir-lhe que fantasie e o doutor sem me fazer essa fineza que, pelos modos, lhe parec e fácil tarefa. Ora, na verdade, não lhe mereço essa crueza de frase que me está revoltando.

— Por amor de Deus, não me condene, minha senhora. Ninguém admira mais do que eu as obras de imaginação; mas como vejo que V. Ex." quer achar forçosamente razão de ser a uma coisa que a con• tém em si, é por isso que eu...

— Mas ele olhava insistentemente para esta capela. Deve estar aqui a explicação que procuramos.

— Vamos — disse eu — tenha a condescendência de procurar connosco.

— Mas procurar o quê ? — O mistério.

— Mas que mistério ? — O vestígio do drama denunciado nestes versos — disse a L... — Venha, acompanhe-nos.

Investigámos tudo. Eu, pela minha parte, nada encontrava. AL.. . não era mais feliz. De repente o doutor perguntou, no tom de indi• ferença que lhe dera para afectar naquela manhã; — Serve-lhes uma inscrição tumular ? — Uma inscrição? — exclamou a L... —Pois que mais poderemos querer ? Está decifrado o enigma! Leia, leia depressa.

— Hic jacet — principiou a dizer o doutor.

— Latim, doutor! — exclamámos nós a um tempo, com o mais justificado dos terrores.

— Eu traduzirei, que até aí ainda chega a minha sabedoria.

O pior é que as letras estão quase todas safadas. Aqui jaz... a irmã Maria de.. . não sei quê... Nasceu aos... do ano do Senhor de mil seis• centos e... tantos, professou aos... tantos de tal e morreu in codem no mesmo dia. Pater noster.

— Vitória! — exclamou a L... com um grito que ecoou por toda a igreja. — Até que enfim! Esta pedr a com o seu eloquente laconismo vale um tesouro! — Que entusiasmo! Não o compreendo — dizia o doutor, sorrindo.

— Que grande significação acha V. Ex." nessa descoberta? — Que significação ? Pois não vê nela confirmada a interessante história contada nestes versos? Desvendado o doloroso mistério que matou aquela pobre mártir no próprio dia do seu noviciado? — Romances, romances... poesia, minha senhora. Se V. Ex.a quer, eu vou glosar-lhe mais prosaicamente este epitáfio. Era talvez uma menina...

— Cale-se, bárbaro ! Que aflição! Não lhe perdoaria nunca se me tirasse a memória agradável que afinal consegui levar daqui. E, sabe ? Vou rezar por aquela desventurada.

E a L..., ajoelhando junto ao altar da capela, pôs-se a rezar. No entretanto dizia eu ao doutor: — O que me parece interessante, curioso e, quem sabe se huma• nitário até, é estudar o carácter e história deste mestre-escola tão triste quanto simpático. Porque não há-de dar-se a essa tarefa, doutor? — Estava pensando agora nisso mesmo. Alguma coisa que sei já dele excita-me a curiosidade.

— Então diga o que sabe, diga.

— Deixe-me investigar o que me falta saber para então lhe contar a história completa.

— E promete não se esquecer ? — Prometo.

1— Dou-lhe então quinze dias.

— Será pouco; mas farei a diligência por não faltar.

Ao sair da igreja ainda fomos à escola da aldeia procurar o profes• sor, mas não o encontrámos. Voltámos em seguida para casa. AL... com a poesia e com a sincera crença na história da noviça, história que ficará sempre misteriosa se algum romancista a não quiser decifrar, e eu inte• ressada em conhecer a vida deste mestre-escola e insistindo com o dou• tor para se não demorar em satisfazer esta tão justificada curiosidade.

Se ele cumprir a promessa, terás cedo, minha Cecília, notícias minhas.

Diana de Aveleda

CARTAS À VONTADE A CECÍLIA

Publicada em 10 de Julho de 1867 no sema• nário «Mocidade».

AMAS, MESTRA S E MARIDOS

Vais gritar: paradoxo! ao ouvir-me afirmar, Cecília, que da maneira por que as coisas vão, cedo veremos desaparecer da cena social essa poética e amável entidade, esse tipo afectuoso e cândido a que chamamos mãe.

Pois é com íntimo convencimento que to digo, acredita, e com doloroso aperto de coração também. A mãe, a mulher sublime, que tantas vezes inspirara o escopro, o pincel e a pena, que a arte aureo• lava de prestígios ao apresentar-no-la espiando com antecipada ale• gria o primeiro sorrir da criança adormecida ou apertando-a amorosa• mente ao seio, àquele seio que pela segunda vez a faria mãe; o anjo da guarda que velava com carinhosa solicitude o sucessivo desabro• char da inteligência do ente fraco, que a natureza e a sociedade colo• caram sob a sua protecção e assim fazia a abençoada sementeira de afectos, que deviam mais tarde florescer e frutificar; a confidente natu• ral dos primeiros segredos do coração, que nasce para a vida dos objectos; a fada que pela magia do seu amor extremoso, debaixo da sua suavidade, serenava a revolta das paixões, tornava salutar o fogo que pudera ser destruidor, essa mãe tende a desaparecer ; mais algum tempo e tornar-se-á lendária. Matam-na, anulam-na os hábitos actuais.

Um dia virá em que o poeta, tocado pela majestade daquele tipo, pelo augusto daquela missão, não poderá exclamar, dirigindo-se a elas, como ainda não há muito o fazia um poeta portuense;

Ó santas que embalais o berç o das crianças !

Não; porque as não encontrará aí junto desse berço, de onde a moda terá conseguido arrancá-las para as substituir pela ama mer• cenária.

Ao coroar-se de flores de laranjeira, a noiva dos nossos dias não principia vida nova; para ela não se fecham as portas dos bailes e dos salões. Espera que os vagidos infantis a não afastem de lá, retendo-a no gineceu, porque em outros ouvidos declinará a impertinência de os escutar, em outros seios o encargo de os satisfazer; não será ela que escutará enlevada, que procurará decifrar as primeiras mal arti• culadas sílabas do pequeno ser que desperta à luz do mundo, não, que mais agradáveis lhe são as frases completas, inteligíveis, tornea• das, elegantes, pelas quais recebe nas salas a afirmação de que é ainda bela.

Bela ! E precisa que lho afirmem! Como se a verdadeira mater• nidade não devera ter sempre a consciência de que o é! juram-lhe que perante o viço exuberante da sua formosura, ninguém a acredi• tará mãe e isto lisonjeia-a! Corre-se deste nome sagrado que em casa, a todo o momento, lhe está apregoando entre choros e sorrisos essa criança que não sabe ser lisonjeira, calando-ol' Este continuado — memento quia mater es — se me é lícito falar latim, impacienta-a! Pobre senhora! Ela tem razão. Como se não bas• tassem para preocupá-la e afligi-la os descuidos e as imperfeições da costureira! Olha, Cecília, no pequeno drama íntimo, que o nascimento de uma criança faz representar sob cada tecto, o papel mais simpático é, quanto a mim, o da ama.

Ela, a quem muitas vezes a miséria obriga a recusar o seio ao próprio filho para o oferecer ao de outra mulher que, quase sempre, voluntariamente o nega ao seu, olha ao princípio com desculpável aversão para este inocente usurpador que se lhe pendura ao colo; mas pouco a pouco afaz-se àquele olhar carinhoso que a fita; àquele sorriso que inscientemente a consola quando a saudade lhe está ainda orvalhando de lágrimas os olhos; àquelas pequenas mãos, que a afa• gam ; àqueles lábios que a beijam; e ela, a pobre, a rude mulher, chega a persuadir-se que um milagre de Deus permitiu que o espírito de seu filho viesse animar este corpo débil, que voasse evocado pelo amor materno, a acolher-se ao seu abrigo, e iludida, apaixonada, já não distingue entre os dois, já sente de novo estremecer suas entranhas de mãe a cada grito aflitivo do infante, inundar-se-lhe de júbilo o coração, a cada sorriso de alegria! Enquanto a mãe verdadeira se embriaga no volutear das valsas, que a arrebatam de sala em sala, como em nuvens de harmonias e perfumes, ela só, à luz da lamparina doméstica, acalenta-lhe o sono do filho, cantando uma daquelas melan• cólicas e populares cantilenas, que a mãe ignora, pois só lhe ensina• ram a cantar romanzas, baladas e rondós, em italiano. Ora o estilo do cantar da ópera não é muito próprio para acalentar crianças, e neste ponto, é uma providência que a mãe se não julgue obrigada a soltar junto do berço as notas que foram aplaudidas na sala.

Assim decorrem meses de íntima convivência da ama e da criança. Fora um pensamento de interesse que trouxera aquela mulher àquela casa; mas agora um laço mais forte a retém ali, prende-a um sentimento generoso como poucos; e é quando o laço é mais forte, é quando o amor a estreita à criança, à qual cedeu porção de sua vida, que um dia lhe dizem — «Parte!».

O amor que ela viu nascer, que cultivou com alegria, não lhe era destinado; arrancar-lho-ão do seio, embora este fique sangrando ao separar das raízes. A afeição daquela criança é como a planta estimada que receb e de um terreno a seiva que a faz vigorosa e a outro concede mais tarde a sombra da sua folhagem e o perfume das suas flores.

Pobre mulher! Curvando resignada a cabeça à crueldade da sua sorte, parte, acompanhada de saudades, como com elas viera. Rega segunda vez de lágrimas o limiar daquela porta. Encontra lá sentada, onde a deixara, a imagem da melancolia, que lhe estende novamente a mão.

E a mãe, a mãe elegante, recebe então nos braços a criança, que passada já a idade dos primeiros vagidos, é menos exigente e incómoda; agora já diverte pelos seus ditos e brinquedos; é uma dis• tracção para a indolente senhora. Mas como todas as distracções repe• tidas cansam, estas mesmas graças infantis acabam por aborrecê-la. Depois vem a época da educação e esta exige cuidados e aten• ções para as quais falta a paciência à nervosa dama, que, sem grande prejuízo dos negócios do toucador, se não poderia entregar a eles.

Novas exigências sérias obrigam portanto a uma nova abdicação. Deixando o regaço materno é a criança entregue aos cuidados de: uma mestra.

Uma mestra! Valha-nos Deus! nesta personagem nem sequer encontra a poesia da ama. É um tipo exótico e de procedência britâ• nica principalmente, que eu do coração detesto. As melhores não pas• sam de um código vivo de regras e máximas de bem viver, frio, rígido, inflexível, impertinente, antipático.

A preceptora, que ensina como se dança, como se reza, como se fala, como se corteja, como se deve sorrir e até não sei se como se deve chorar, esmera-se principalmente em insinuar no ânimo de suas educandas os princípios de hipocrisia social, que se chama a eti• queta, e esforça-se por sufocar tudo o que são impulsos naturais, espontâneos de um coração sensível. Das suas mãos saem destas rapa• rigas que nós todos os dias encontramos na sociedade em que cada gesto, cada palavra, cada movimento, cada sorriso, é regulado pelas prescrições de uma coisa, que se chama por aí—uma educação distinta.

Pobres meninas! Constrange-as, mais do que o espartilho, uma absurda pragmática, à qual se deixou usurpar o lugar da verda• deira moral.

Daí vêm essas reservas, menos modestas e cândidas do que as expressões cheias de confiança, de quem muitas vezes não desvia os olhos do mal, por o desconhecer; daí vêm esses ouropéis da inteli• gência, com que se procura encobrir a nudez, em que deixaram o coração.

A língua francesa, uma geografia comezinha, uma história do Museu das Famílias, as primeiras noções de desenho e não sei o que mais, soma total, uma pedantaria que desespera, um falar de tudo com suposição de que de tudo se sabe, eis a grande ciência por cuja aqui• sição as tristes raparigas pagam o exorbitante preço das carícias mater• nas ! Cada composição francesa, insulsa e descorada, que a mestra aplaude como um modelo de linguagem e de estilo, foi escrita à custa de um grande sacrifício; foi preciso resignar por ela o ensino afável mas insinuante, despretensioso mas contínuo, livre mas indelével que uma mãe verdadeira sabe fazer com um sorriso, com uma oração, com uma esmola e com o exemplo.

Malfadadas mães, que estais por vossas próprias mãos rasgando a alva túnica da pureza, o véu mágico da poesia com que o nosso amor vos revestira! Já vos não víamos junto dos berços e ainda agora vos não encontramos a presidir aos jogos, a dirigir as primeiras preces1, a formar o coração dessas pequenas mulheres, que um dia em sua consciência vos julgarão e condenarão por lhes terdes privado assim a infância de afectos e carinhos.

Que mal compreendeis a vossa missão sagrada! Abdicastes a vossa dignidade abençoada, perante a instituição dos colégios. Os colégios! Perdoa-me, minha boa Cecília, se não posso calar a minha aversão por esta palavra e por a coisa que ela exprime — os colégios.

O colégio é uma empresa industrial, que se propõe formar inte• ligências e corações para a sociedade. E como os forma ela? Muitas vezes ouvi da tua boca humorística a descrição dos seus processos. As regras da ciência e os preceitos da moral são formulados em comum e horas fixas por dia a todos os que ali concorrem; observa-se nisso a escrupulosa regularidade de um estabelecimento industrial.

A regr a do ensino é inflexível, inalterável, única. Não se modifica para amoldar-se às desigualdades de aptidões e caracteres de cada discípulo, que para tanto falta o tempo e a paciência.

Não se procura combater o mal, sob as suas formas mais ocultas e dissimuladas; institui-se contra ele uma batalha organizada e geral.

É sob um fogo cerrado de preceitos e conselhos, registados no programa, artilharia formidável cujo estrondo é repercutido ao longe, que se procura a vitória dos bons princípios. Ora o inimigo é arteiro e dado à guerra de emboscadas. Deixa troar nos ares os canhões da educação oficial, mostra-se subjugado pelos princípios que lhe são respeitávelmente impostos e, oculto em algum lugar inacesso às metra• lhadas disciplinares, espera por ocasião favorável para desenrolar aos ventos a sua bandeira de guerrilha.

Porque o desgraçado estava intimidado, mas não convertido, se não aparecia era por prudência e não porque tivesse deposto as armas e renunciado à rebelião. Para o converter, para tornar impossível a insubordinação futura, era mister substituir o general que com as bocas dos seus canhões e espingardas defende todas as estradas e caminhos e o obriga a viver oculto pelas cavernas e florestas, pele missionário que se aventura à longa, laboriosa e até terrível peregrinação do deserto, que fosse procurar o rebelde ao seu esconderijo, que se aproximasse dele com o sorriso nos lábios e a fé no olhar; que lhe falasse com amor e brandura, sem se deixar intimidar nem desalentar pelas primeiras resistências e defecções; que dali se não levantasse sem o trazer con• sigo pela mão, humilde, resignado, mais do que resignado, contente pela estrada ampla da virtude para o bom caminho da felicidade.

Mas este papel de missionário só uma mãe o pode desempenhar. Esta obra de persuasão, e não de repressão, só do ensino individual, doméstico, íntimo pode ser exigida.

A directora do colégio contenta-se com a submissão aparente, com a obediência explícita; não gasta tempo nas delicadas e metafí• sicas sondagens das consciências sempre que a rebelião se não revele em actos, embora esteja nos espíritos. Proclama a ordem.

É uma espécie de ordem de Varsóvia. É o Evangelho imposto a lançadas e pelouros e não pelo poder de catequese. Os actos de submissão da educanda são muitas vezes comparáveis à missa hugue- note de Henrique IV.

Nem outra coisa se podia exigir destas casas de educação.

O ensino nos colégios há-de ser forçosamente administrado como a alimentação — em refeitório. Mal da instituidora se ia a fazer cozinha a parte segundo os gostos e talvez as necessidades de organização de cada educanda. A tanto não vai o seu compromisso. Só as mães sabem temperar diferentemente o prato de cada filho, só elas igualmente sabem ministrar, sob formas diversas, a cada um o ensino dos pre • ceitos invariáveis de uma sã moral.

A este deve o ensino ser feito com sorrisos; àquele quase que com lágrimas; umas vezes uma súplica vale um código de preceitos; outras, uma palavra severa, um gesto de desagrado, corrigem mais que todas as clássicas penalidades do colégio. Mas a preceptora tem por prática adoptada não tomar estas fases diversas, o que, segundo ela, seria indigno da sua gravidade e importância profissional.

Não ri, não chora e não suplica; endireita-se, franze o sobrolho e repreend e — com a mesma voz com que manda trabalhar, manda brincar, manda rezar, manda até dormir. Sempre o regulamento, sempre a disciplina! Oh! eu abomino os colégios e por isso é que morro de simpa• tias por todas as privilegiadas que, como tu, Cecília, saíram daquelas casas com os afectos do coração salvos e com o espírito livre de pedan- tescos preconceitos, numa palavra, tão propriamente tu como se nunca tivesses saído de junto de tua mãe, que só a chorar se resignava ao sacrifício de te apartar de si.

A mestra é quando muito como o director de uma oficina de fun• dição que recebe de fora os moldes em que tem de vazar os metais mais diversos confiados aos seus cadinhos e procede a essa obra com escrúpulo, mas sem aspirações; a mãe é o artista, que a golpe de cinzel vai modelando a sua obra, vendo-a tomar vulto e expressão com estremecimentos de entusiasmo. A inspiração nunca a abandona, a cada instante o génio lhe formula um preceito, a cada instante lhe modifica outros. É mais íntima a sua relação com a obra que produz, porque ela é efectivamente a realização de um pensamento seu ; é como que uma parte de si mesma numa existência independente.

Deixem embora às mestras o cuidado de dar às jovens educan• das esse verniz de educação que as tornará bem vistas na sociedade, quando as mães lho não saibam dar, mas não lhes confiem o resto, não lhes confiem sobretudo o coração, que é mais uma vez deixar de ser mãe, renunciar a um dos mais santos, mais invejados direitos da mater• nidade.

Mas enfim volta a casa com quinze anos a filha que aos oito se sepa• rara da vigilância materna.

Como vem prendada ! Sabe dançar, tocar piano, bordar, cantar, falar francês, inglês e italiano, sabe que o mundo é uma esfera, que o descobridor da América foi Cristóvão Colombo, que Sampetersburgo é a capital da Rússia, que Napoleão perdeu a batalha de Waterloo, sabe de cor os nomes de todos os poetas e romancistas notáveis da França e Inglaterra, sabe tudo que a mestra lhe ensinou e muita coisa que lhe deixou aprender. Traz os baús cheios de livros de devoção fran• ceses, volumes de Bonald, de Lorgnes e Dupanloup e de envolta a literatura de Alphonse Karr e Teoph. Gautier e a ciência de Figuier e da Biblioteca das Maravilhas.

Numa palavra, vem uma menina da sociedade elegante, mais devota que religiosa. Costumada ao culto do regulamento, sujeitar- -lhe-á também o cumprimento dos seus deveres para com a divindade. Fora das horas de devoção não lhe deixará remorsos um estouvamento, um pecado de maledicência, uma inveja implacável; porém, nos momen• tos decretados para o culto, a mais inocente e involuntária distracção lhe avultaria como uma tentação diabólica, como um delito para ser expiado por jejuns e cilícios. É moral de ocasião, infelizmente muito na moda.

Eis a ocasião escolhida pela mãe para fazer valer os seus direi• tos, para principiar a colher os frutos apetecidos do amor filial. Agora sim, que é uma inteligência desenvolvida já, que saberá apreciar devi• damente os extremos maternais, que com a dedicação de filha lhe recompensará o ter pago a sua amamentação a uma pobre mulher de quem já ninguém se lembra, e despendido avultadas mensalidades para a aquisição daquela geografia, daquela história, daquela educa• ção que todos admiram. Enfim, chega o tempo de principiar a mãe a ser mãe, tarefa que até agora tem adiado. É, porém, tarde para isso.

O coração da menina já começou vida nova, passou a oportunidade para essas suavíssimas afeições que, cultivadas a tempo, deixam ves• tígios eternos mas que não podem desenvolver-se quando semeadas tarde.

O ideal revestiu novas formas, não o podereis vós realizar. Pobres mães e dignas de piedade sois decerto, se a peito tomais a tentativa. Um dia aparece um homem a pedir-vos a mão de vossa filha.

Este homem, ou seja impelido a dar este passo pelas incitações apai• xonadas da menina, ou pelos cálculos positivos do pai, é em todo o caso mais um rival vosso e desta vez aquele que nunca vos restituirá a filha que ides confiar-lhe.

«Por este deixarás pai e mãe», esta lei quase fatal a que nós todas, mães e filhas, nos curvamos resignadas, era uma lei, cujo cumprimento nunca deixava de ser selado com lágrimas de tristeza e de saudade.

E vós mesmo tendes-vos esforçado por lhe facilitar a execução. Afastando de vós o berço de vossos filhos, negando-lhes o seio, con• fiando a estranhos a sua educação, deixando a outros tomar o lugar de confidente dos primeiros segredos, anulais-vos ante seus olhos, e quando um dia aparece o homem, que as separará de vós, dei- xam-vos quase sem uma lágrima, porque mal vos conhecem, porque se acostumaram a orar, a pensar, a chorar e a sorrir longe de vós, sem vós, que de pequenas as repelistes.

É muitas vezes então que começa o vosso castigo. Os anos mos• tram-vos a inanidade dos gozos do mundo em que viveis, pedem-vos e ensinam-vos a apreciar a concentração do lar doméstico, a alegria íntima, o amor dos filhos; mas é tarde.

Quando os procurais com sincero amor, fogem-vos eles.

Então, se a cegueira e a loucura da vaidade vos não acompanhar até ao limiar do túmulo, só vos resta ser a mãe dos vossos netos.

É frequente de facto, Cecília, vermos muitas dessas mulheres a quem as loucas exigências da moda trouxeram sempre arredadas dos deveres da maternidade, tornarem-se depois as mães estremecidas dos filhos de seus filhos, pagando assim tarde à natureza o tributo que, quase sacrllegamente, até ali lhe haviam negado.

É tempo de terminar esta carta, Cecília, que não tem a pretensão de te moralizar. Tu és destas índoles privilegiadas que saem intactas de todas as más influências.

Vives no mundo onde a moda é soberana e contudo, vê a fé que eu tenho em ti, estou certa que, se um dia fores mãe, evitarás que te usurpem o amor dos teus filhos essas duas rivais da maternidade — a ama e a mestra— e, se o fizeres, está certa que nunca to usurpará intei• ramente o rival, quase sempre vitorioso — o marido.

A afeição filial, duplamente confirmada pelo estado de amamenta• ções e dos ensinos não murchará nunca, ainda mesmo que passe sobre ela o vento esterilizador da paixão.

Adeus até breve.

Tua sempre Diana de Aveleda

CARTAS PARA A MINHA FAMÍLIA

Meu amigo

Voltámos ontem do campo sem que merecêssemos à política o favor da tua presença, por poucos dias que fosse.

As pequenas chegaram boas e parece-me que não demasiado saudosas dos prazeres e das belezas campestres.

É tão raro que raparigas de dezasseis anos amem a bucólica! E é pena, que se me enchia o coração de alegria e de confiança, quando as via a elas à sombra daquelas árvores salutares, respirando com desafogo um ar embalsamado e vivificador.

Não sei como me persuadia de que era impossível que elas me adoecessem ali.

Sabes, meu amigo, aqueles meus continuados sustos, aqueles meus escuros pressentimentos pela saúde dos nossos filhos, motivo de me ralhares tantas vezes? Pois nunca os senti lá.

O campo era para mim como uma destas pessoas de juízo a quem se deixa entregue um filho, quando a necessidade nos obriga a sepa- rar-nos dele por momentos.

Olhava para aquelas velhas e frondosas árvores e parecia-me achar- -lhes uns ares protectores e amigáveis que me inspiravam confiança.

Dir-se-ia que ao abrigarem minhas filhas na sua sombra me diziam: Deixa-as connosco que tas protegeremos.

Mas enfim viemos; aqui estamos outra vez nesta terra do Porto e aqui estaremos até à hora de emalarmos para qualquer praia de banhos.

E tu em Lisboa, e tu ocupado em acudir à Pátria, meu bom amigo, e esquecendo por ela um poucochinho a família.

É uma virtude cívica a venerar em ti, Gustavo? Será? Eu sei? Desculpa-me mas, como sabes, não morro de amores pela polí

tica. Ou eu não fora mulher, com quem em geral os políticos são bem pouco amáveis.

Além de que a política ocupa-se de umas pequeninas coisas, que são, sem contestação, as mais detestáveis de todas as coisas pequeninas.

Mas deixemos por hoje as minhas reflexões e reparos sobre politica, Gustavo, e façamos como é nosso costume, quando aqui estás. Lembras-te? Depois do chá conversamos às vezes horas esque• cidas sobre os acontecimentos do dia, ora domésticos, ora civis, ora alegres, ora tristes, e dizemos tudo quanto nos acode à ideia, sem observância de programa nem de método, sem escrúpulos de estilo e até sem rigoroso respeito pela coerência lógica da opinião.

Se a politica te não derrancou ainda de todo a bondade natural e te não cerrou a alma às expansões afectuosas, ser-te-á agradável a leitura das minhas cartas escritas, como conversamos, à vontade.

Escrever-te-ei sob a impressão dominante do dia. A de hoje é pouco agradável.

Como te disse, chegamos do campo e as pequenas vinham ver• dadeiramente ansiosas pelas distracções da cidade.

Andavam-me a falar em toilettes e teatros havia oito dias, Não tive remédio senão condescender.

Ao entrarmos na cidade depararam-se-nos nas esquinas uns car• tazes enormes, anunciando no teatro de São João a Grã-Duquesa de Gerolstein.

As pequenas fitaram-me uns olhos eloquentes.

Este olhar, as saudades que eu deveras sentia já por aquele nosso elegante teatro e este titulo Grã-Duquesa, que há tanto tempo me anda nos ouvidos como um zumbir de importuno mosquito volteando em torno de mim, formaram a minha resolução de ir ao teatro essa mesma noite.

Fui; fomos e que doida alegria a da Ernestina e da Luísa! Pobres pequenas! apesar de todo o prazer que me vem sempre da vossa ale• gria, quis mal a mim mesma por ter cedido à tentação desta vez.

O Gustavo, tu que viste já a Grã-Duquesa, não adivinharás o resto da minha carta? Tu que tens vivo o sentimento e o respeito da arte, que te entusiasmas pelo belo, que concebes o que deve ser o teatro na sociedade, não voltaste de assistir a essa híbrida e absurda compo• sição teatral, como eu vim ontem de lá? com desgosto, com tédio, com indignação, duvidando do progresso da arte, acreditando na total degeneração do gosto entre nós? Que época atravessamos, meu amigo? Que cidade de quase cem mil almas é esta em que só se aplaude o disparate ? Há nada mais vergonhoso do que uma crónica da última época teatral no Porto ? Dois êxitos brilhantes a caracterizam: O jovem Telémaco e a Grã- -Duquesa, dois disparates, duas irreverências para com o bom senso, para com o bom gosto, para com a arte nobre e digna, para com a arte que se respeita! Mas não é isto uma imoralidade também? Pois não é certo que as belas artes têm uma missão social a preencher ? Não é certo que encaminhá-las erradamente é ofender o interesse público ? Não é verdade que progride na carreira da civilização um povo, cujo bom gosto e instintos se educam e aperfeiçoam pela arte e que se deprava e desmoraliza o que se costuma a insultá-la? Que malévolo espírito move então os artistas a perverterem assim o gosto em vez de o educar? a porem às ordens do despropó• sito e do desconchavo as harmonias da música, a cadência da poesia, as ilusões da pintura, numa palavra, todos os prestígios da arte ? E ilumina-se para isto um teatro! e enfeitam-se as senhoras nos toucadores! e rodam as carruagens nas ruas e avilta-se uma orquestra para acompanhar o carro do triunfo do disparate! E no dia seguinte emprega-se tipo para falar no assunto! Acabou pois a religião da arte entre nós? Pois não é a arte uma religião também? Não haverá ninguém a quem estas orgias aflijam e revoltem, como o austero, o fervente sacerdote que visse o tripúdio profanando o lugar de augustos sacrifícios ? Esta aberração do gosto público, este desvairamento que invade todas as cabeças, esses excessos e abusos que fazem recuar séculos o nosso progresso artístico, dura, reina, propaga-se, sem que uma coorte de leais entusiastas e vigorosos lutadores se levante para com• bater a todo o transe o mal deplorável! combatê-lo através de sacri• fícios, combatê-lo apesar da indiferença ou das repugnâncias do público, combatê-lo como combateu Garrett, como combateu Vítor Hugo, como combateram todos quantos tentaram uma reforma literária útil e eficaz.

Pois tinha fé que venceriam, se bem de alma e com boa coragem o tentassem! Os instintos da arte não morrem no povo; adormecem às vezes; mas é pronto o seu acordar, se os desperta uma voz altí- loqua animada por uma verdadeira crença, por uma sincera e pura intenção.

É preciso pronto remédio para este mal, que é grave.

Há muito que lavra, revelado por essas produções mórbidas da arte, que se chamam paródias e disparates, galhas venenosas que vegetam sobre os ramos viçosos de uma literatura e lhe roubam a seiva dissipando-a em excrescências balofas e inúteis como bugalhos ou prejudiciais como esses cogumelos destruidores das searas.

Isto acusa uma debilidade crescente na imaginação dos autores e uma assustadora irreverência nas massas para tudo quanto há de belo e portanto de venerável.

Afadiga-se um compositor em traduzir pela música as paixões violentas, os efeitos suaves, as tristezas e os júbilos, que formam o drama da vida. Exaltado, febril, na excitação nervosa que acompanha os mistérios da concepção, não vive senão para aquela ideia, através da qual antevê o esplendor da glória. A inspiração visita-o, ilumina-lhe as noites de tão longas e laboriosas vigílias e após esta aurora, surge a obra de arte esplêndida, impregnada do pensamento do artista, cheia de vida e de futuro e anelando levantar o voo em busca de mais amplos horizontes, por um instinto como o da ave que, ainda com pouco vigor para bater as asas, já estremece seduzida pelo espaço vasto que a rodeia.

Um dia parte a filha predilecta. Separa-se dela a procurar a rea• lização da sua última metamorfose, a sua encarnação final.

Chega ao teatro perante uma multidão que a aguarda despre • venida ; revela-se enfim, primeiro timidamente como se as nervosas pulsações do compositor naquele momento se reflectissem na obra ; pouco a pouco ganha coragem e desassombro; fala, penetra nos cora• ções, subjuga os sentidos, domina as massas, e o sonho da ambição do artista realiza-se e compensa-lhe as vigílias de muitas noites uma só noite de glória.

Mas, a um canto da sala, no meio desse mesmo entusiasmo e delí• rio, há um coração frio e incapaz de sentir, que se não comove; há um olhar maligno que estuda a comoção da plateia e não se fascina; há um pensamento satânico que premedita uma obra sacrílega.

E uma noite basta a esse espírito para consumar a obra fácil, ímpia, fatal à arte, perversa e imoral que premeditou: A mesma música concebida para exprimir sentimentos e paixões elevados e nobres é por ele rebaixada às vulgares, ridículas e insulsas peripécias de um enredo chocho e rasteiro; e a musa que nas vestes alvíssimas com que a inspiração a cingira, arrebatara a multidão, agora, irreverentemente, vestida com o jaleque multicor de truão e atada ao pelourinho das praças, receb e as alvares e insultuosas gargalhadas dos mesmos que a adoraram e que experimentam um maligno prazer em desprestigiar o seu ídolo.

E quando de novo se apresenta aos mesmos olhares, sob as suas primeiras vestes, há sempre quem se recorde de a ter visto já de outra maneira, e ainda então o riso a insulta.

Não é esta uma acção altamente condenável? Não é quase o mesmo que expor em completa nudez aos olhos cinicamente curiosos do povo uma virgem ingénua e pura, cuja ino• cência os mais ousados respeitam e condená-la assim a corar eter• namente ao recordar a sua involuntária aviltação? E esta profanação é a última recompensa que recebe o artista pelas suas fadigas! Nos seus sonhos de glória não contara com o apupar das turbas! E consente-se o atentado! E não se protege a obra do génio de tão irreverentes ataques? Estes insultos tem-nos recebido com a música, a poesia também.

A paródia nada respeita. Os mais belos tipos, as mais ideais concepções, as mais brilhantes imagens que tem concebido uma fantasia de poeta, de dramaturgo, de romancista, tudo ela abocanha e profana.

Para fazer rir as turbas, os truões dos nossos dias, ignorantes dos verdadeiros mistérios da arte, destituídos de engenho, incapazes de produzir nada útil, especulam com os contrastes irreverentes e fazem rir como o macaco porque irrisòriamente imita as visagens do homem, como o papagaio porque de igual forma, lhe imita a fala! E todos riem, ainda que me quer parecer que no peito de lodos se esconde certo desgosto, como o que eu sinto e em geral toda a gente, perante essas duas paródias do homem, que nos apresenta a natureza. Quem há que experimente por um mono a mesma afeição que tem a um cão? Ou que ligue a um papagaio o interesse que lhe inspira o original e inspiradíssimo rouxinol? Em geral é o gosto duvidoso de um embarcadiço ou sertanejo da América que mais os aprecia.

Mas ao lado da paródia nasce o disparate. É mais um passo dado pela arte no caminho da devassidão.

A musa perd e então todo o casto pudor que caracterizava as nove filhas de Júpiter.

Ei-la no palco, desgrenhada, descomposta, ébria, rouca da orgia e do tripúdio, soltando como a bacante cantigas licenciosas e risadas cínicas. Reparem para aqueles gestos, para aquelas maneiras, para aquelas danças e digam se ó esta a musa que se respeita, se é esta a musa que civiliza.

E é no mesmo tablado onde nos apareceu já a severa e nobre Melpómene, no palco onde se nos revelou o génio de Donizetti, de Bellini, de Meyerbeer; em que o drama leal e consciencioso nos tem por vezes comovido e onde havemos aplaudido a boa e salutar comé• dia; é a esse mesmo tablado que deixaram subir a embriagada?! E não receiam que não volte ao templo assim profanado a arte que se preza? Fechem antes os teatros, fechem-nos, porque os espectáculos assim não são os que civilizam, corrompem; não educam, pervertem.

Sabes tu, meu amigo? estou em acreditar que vamos a respeito de arte num período de retrocesso.

Não sei se te lembras de que nos nossos tempos de criança havia nesta hoje tão enfastiada cidade uma companhia lírica italiana e uma companhia nacional. Tenho uma vaga ideia de que o teatro português, bom ou mau que fosse, era então concorrido, que ninguém se enver• gonhava de o frequentar e de se interessar por os assuntos teatrais.

A arte não florescia, é certo, mas encontrava no interesse do público uma garantia da sua regeneração. Pouco a pouco abandonaram o tea• tro nacional e só foi moda tratar do teatro lírico. Hoje nem desse.

De maneira que no decurso de um ano, abrem-se três ou quatro vezes as portas dos nossos teatros e lançam-se ao difícil e apurado paladar do nosso público delicados manjares como este : «El joven Telémaco», «Franchifredo», «Os sete castelos do Diabo», a «Grã- -Duquesa»; amanhã o «Barba-Azul» e não sei quantas mais paródias, mágicas e disparates e tudo isto condimentado com uma especiaria de cenas cómicas insulsas e farsas sem sabor, em que um falso cómico usurpa o lugar do cómico de bom quilate.

E o talento de alguns bons actores que temos, a corromper-se a falta de exercício nobre e consciencioso da arte! Diz-me tu quantas vezes encontras o Taborda desempenhando um papel digno dele ? Do coração abomino todos os colaboradores desta obra ímpia da depravação da arte. Não perdoo, por exemplo, a Offenbach o aceder ao derrancado gosto da época, pondo ao serviço dele o seu grande talento musical. Um homem verdadeiramente artista nunca o teria consentido.

O sacerdote que, para satisfazer os caprichos de uma companhia de ébrios, consente em entoar salmos e antífonas na sala de uma orgia, avilta a religião de que é ministro e polui os lábios que nunca mais celebrarão nos altares com a pureza digna do sacrifício.

Mas, dizem os homens para quem as regras do bom gosto são mudáveis e chegam todos os anos com os figurinos de Paris e das capitais à moda, que escrúpulos são esses de portuguesa puritana? Acaso não se aplaude hoje a «Grã-Duquesa» em Paris? o «Barba- -Azul»? e todo este género a que tanta aversão mostras? E que me importa ? Se fosse certo como dizem, que em Paris é este o gosto dominante, o que não posso ainda acreditar, se fosse certo que o mais espirituoso povo do mundo precisava já para excitar a sua embotada sensibilidade, destes derrancados produtos de uma arte aleijada e doentia, eu não duvidaria dizer que a arte estava em lamentável decadência lá também; que a imaginação parisiense sen- tia-se esgotada e o gosto em via de perder-se.

Se em vez de se r só Paris, toda a Europa, todo o mundo aplau• disse estes escândalos, ainda assim a consciência nos dizia que toda a Europa, que todo o mundo estava em declinação em assuntos de arte e de gosto porque não são de convenção as regras do belo. Há em nós alguma coisa que no-las formula, que no-lo ensina a reconhecer e que nos dá a coragem e a convicção para nos revoltarmos contra a opinião geral, quando a sentimos extraviada da verdadeira e recta estrada que o gosto e a razão lhe traçaram.

Mas não é assim, não pode ser assim! Em Paris ao lado do mal está o remédio; ao lado da arte doente e degenerada, a arte sã e vigorosa.

Entre nós o mal é maior porque, nação de pouca gente, quando o mau gosto estabelece uma corrente para os teatros, desaparece o bom gosto, à falta de quem o siga.

E depois nós hoje estamos em um período de educação artística, desfavorável à verdadeira arte e no qual estes excessos são perigo• síssimos.

O gosto de uma nação corre fases como o gosto de qualquer indi• víduo. Em criança, por exemplo, o teatro interessa-nos de uma maneira diversa daquela por que nos influi adultos. É o enredo do drama que nos comove e não as belezas literárias, não o mérito dos artistas que, se nos influem, é sem que o percebamos. Choramos as desgraças da protagonista, odiamos o tirano, aflige-nos como real a morte das personagens simpáticas, trememos ante a perspectiva de um duelo e recolhemos a casa alegres ou tristes, conforme a natureza do desfecho.

Esta ingenuidade dissipa-se cedo ; substitui-a mais tarde o gosto pelas belezas da composição e da execução. Este, porém, forma-se mais lentamente do que se dissipa a primitiva ilusão de que falámos. Daqui resulta haver um período de transição em que já nos não ilude o enredo como em criança nem ainda nos comovem as belezas literá• rias, como quando o bom gosto se formou em nós.

Nesse período frequenta-se o teatro com insensibilidade artística, apreciam-se tanto os intervalos como os actos, é indiferente perde r uma cena inteira ou no principio ou no fim e, se a moda pôs isso em costume, adopta-se o costume da melhor vontade.

Então aplaude-se tudo quanto a moda recomenda, o entusiasmo não é espontâneo, é de convenção e antes de saber se nos devemos arrebatar, perguntamos se o que vemos já arrebatou alguém que auto• rize o entusiasmo.

O nosso povo na sua educação artística está quase neste caso, acha-se neste antipático e estéril período de transição.

Perdeu já aquela ingenuidade dos bons tempos em que corria aos teatros interessado pelas peripécias dos grandes dramas em que chorava e ria e se indignava com diversos episódios que presenciava de boa fé; em que tão completamente encarnava nos actores as per• sonagens do drama, que nem os distinguia.

Ele não queria então saber quem er a o autor da obra dramática, que o interessava. Esquecia-se até de que um drama precisa de ter um autor.

Estava na infância do gosto, nem os teatros eram então con• corridos.

Desenvolveu-se, porém, o nosso público e hoje já assiste com o sorriso céptico aos espectáculos; já tem vergonha de os tomar a sério, de chorar nas cenas sentimentais, de rir abertamente nas cómicas. Mas, por infelicidade, o bom gosto não veio ainda ocupar o terreno para fazer florescer a arte. Não há ainda bastante amor e conheci• mento dela para manter entre nós um teatro permanente.

Quem dá as leis, quem domina exclusivamente é a moda. Aplau• de-se o bom e o mau, contanto que a moda o recomende.

São capazes de fazer hoje uma ovação à Ristòri e passar a noite seguinte a ouvir em delírio as intermináveis e insulsas coplas de Telé- maco na ilha de Calipso.

Ponham pois em moda o bom, os legisladores da moda, Perdoa-me demorar tanto esta minha conversa, Gustavo; mas sabes que eu tenho destas indignações a que preciso dar expansão.

Custa-me ver que, reconhecendo o mal que está corrompendo entre nós a arte nascente, não se organize entre os nossos homens de letras uma cruzada leal e corajosa, tendo por divisa a arte e comba• tendo sem quartel nem misericórdia o mau gosto que nos vem do estrangeiro de mistura com os chignons e os mais artigos da moda. Adeus que chegam visitas a que tenho de atender; até breve.

Porto, 6 de Setembro de 1868.

Diana de Aveleda.

que dantes visitava apenas os velhos, fez-lhe a fineza de o acalentar no berço? É muito para agradecer, porque ela sempre antipatizou com crianças. Dé-me licença, Sr. F..., o meu par vem buscar-me.

Bem vê que ainda danço. Observe-me, mas... por quem é, seja benigno.

E o meu filósofo assesta a luneta, senta-se a um canto e observa.

Que pena que conserve inéditos os sumarentos frutos da sua observação nocturna! Mas o que eu lhe dizia era verdade; ainda danço; mas, aqui para nós, não danço à minha vontade.

A dança não é, não deva ser isto assim.

Antigamente é que se compreendia o dançar. Basta dizer que não havia quem de o fazer se envergonhasse.

Em quanto a mim, aquele século de Luís XIV não se chamou o grande século só por as grandezas políticas, militares, financeiras e literárias do reinado desse monarca. Concorreram, e muito, para lhe granjearem o epíteto, as festas esplêndidas de Fouquet, as noites deslumbrantes de Versalhes e aqueles bailados que Molière era constrangido a entremear nas suas comédias para satisfazer a mania coreográfica da corte e nos quais tomava parte o próprio rei, transfigurado em pastor; dessa graciosa raça de pastores que povoavam os tablados daquele tempo. E julgas que Luís XIV era lá homem que dançasse como qualquer dos nossos partners da actualidade executa um fastidioso solo? Qual! dançava saltando, rodopiando e cabriolando, que é a verdadeira maneira de dançar.

Dançar, dançava David à frente da arca da aliança e vejam lá os nossos elegantes se se lhes mete na cabeça deixarem aos vindouros memória de si, mais acatada e sisuda do que a do rei salmista.

Sisudos e até sombrios foram D. Pedro ! e D. João II e digam-me se eles não dançaram com toda a agilidade dos seus músculos.

D. Pedro, o terrível D. Pedro, o amante de D. Inês, tomava parte em folias populares, e D. João II só deixou de dançar quando a gordura o impediu de o fazer, diz o cronista, o que prova que não se contentava com dançar, passeando.

E depois... que santos e singelíssimos costumes aqueles! As mais honradas e respeitáveis damas não punham muito em saírem à rua de pandeiro na mão e em festivais coreias por ocasião de regozijos públicos.

Uma tal D. Briolanja Henriques, que eu quisera dar por modelo às elegantes dos nossos dias, fê-lo nas ruas de Évora, diante de D. João II, o qual tanto folgou com a lembrança, que a tomou nas ancas do seu cavalo e assim a levou aos paços.

Ora a isto é que eu chamo compreender o dançar.

No século passado...

Ai, perdão, perdão! esquecia-me que estás impaciente, que estás febril, que estás frenética, por eu não entrar no assunto.

Venham os amores de Margarida à barra. Vamos lá aos amores de Margarida.

Desci ao largo para gozar mais de perto daquela alegria. Margarida veio ter comigo. Estava ofegante.

— Bravo! disse-lhe eu, estiveste inimitável, sabes? Nunca admirei tanto a tua agilidade na dança, nem a tua voz no canto! — Está a mangar ? — Falo séria. Muito alegre te principiou hoje o dia! — Que diz, senhora; alegre ! Não, ao que hoje tenho chorado já...

— Mas... nesse caso, Margarida, se essas são as tuas tristezas, não me darás uma amostra das tuas alegrias? — Então ? a gente precisa de se distrair. Isso lá! De que vale dar-se uma pessoa à melancolia? Não remedeia nada e...

— E posso saber a causa das tuas tristezas ? — atalhei eu.

— Ai, porque não? julguei até que a sabia já. É que ontem prenderam o Luis... a senhora conhece-o...

— Bem sei, o teu conversado. Mas... prenderam-no porquê? — Prenderam-no para soldado.

— Para soldado?! — É verdade, minha senhora. Veja o pobre rapaz que é tão sossegado, tão bom, tão metido consigo. Aquilo é mesmo um coração de pomba. Que vai ele fazer com uma espingarda, ele que nem aos pardais atira? No dia em que ele matar alguém na guerra, estala-lhe o coração de pena, assim como me estalaria a mim se o matassem a ele.

— Sossega, Margarida, os nossos soldados não matam ninguém...

na guerra; felizmente não lhes dão ocasião para isso. Morrer, isso lá morrem... mas como toda a gente, como qualquer de nós pode morrer.

Tu estás muito nova; dentro em cinco anos Luís obtém a baixa e estão muito em idade de se casarem.

— Dentro em cinco anos! Ora! daqui até lá, tinha ele tempo de me esquecer. Longe da vista...

— Nem para tão longe vai que vos não possais ver e visitar. Do Porto aqui é um passeio e assim não tens probabilidades de ser esquecida, falando-lhe a miúdo.

— Falar-lhe? Que diz, senhora? Sendo ele soldado! — Ah! então? — Não, isso é que não, senhora. Que diriam por aí se me vissem a falar com um soldado? — Mas sendo esse soldado um rapaz da terra, sendo Luís...

— Nem assim. Isso parece muito mal.

— Mas então... estás resolvida a romper para sempre com ele? — Eu! Agora estou.

— Mas não dizes que os cinco anos de ausência.., — Mas é que eu... Olhe, tenho a dizer-lhe e a pedir-lhe uma coisa... Agora vou dançar, mas volto já.

E, dizendo assim, afastou-se de mim a saltar e, dentro em pouco, escutava-lhe já a voz cantando:

Água leva o ribeirinho Pra regar o laranjal; As pena3 do amor que eu peno Hão-de acabar afinal.

Aí está, pensava eu comigo, vão lá acusar aquele coração de insensibilidade. É próprio da natureza humana esta inconstância na dor; cada vez mais o acredito. — Percebo o gesto que fazes ao leres isto, Cecília. Eu bem sei. Entre nós são menos vulgares estas súbitas transições, mas... será porque o nosso coração seja menos volúvel? Que te parece, Cecília, será? Fala-me com franqueza. Eu, pela minha parte, hesito em afirmá-lo. Não haverá antes em nós um pouco de afectação também? A sociedade para tudo faz regulamentos, é a sua mania; em tudo quer as aparências salvas. Decreta que o órfão seja inconsolável durante seis meses, e mânda-o vestir de rigoroso dó; outros seis meses quer que os empregue a consolar-se, sem o conseguir de todo, e traje luto aliviado; passado o ano, deve considerar-se consolado, e permite-lhe esquecer completamente os pais falecidos. Para irmãos reduz apenas a metade estas manifestações de saudade. Se durante o prazo em que nos manda ser tristes, se infringe a mais pequena cláusula do seu regulamento funerário, estigmatiza a infracção com severidade ; mas, se no fim desse tempo, nunca mais se venera a memória do morto, pouco se lhe importa com isso, não se julga autorizada a censurar porque se teve para com ela as atenções reclamadas.

Ora muitas das nossas inconsoláveis amantes, repara que ainda não digo todas, bem vontade tinham de fazer como Margarida, mas a moda tem exigências! e por isso conservam a tristeza por tempo conveniente... Margarida que não sabia afectar o que não sentia, ia assim alternando com suas lamentações as cantigas festivais que a distraiam.

Fazia ela muito bem.

Quando de novo se interrompeu a dança, voltou a procurar-me.

— Então que me querias tu pedir ? — Olhe; lembrou-me uma coisa. Disseram-me que quem der não sei quantas moedas se livra de soldado. Ora o rapaz, coitado, não as tem.

Sabe Deus como ele se arranja com o pouco que ganha. Mas aquela senhora que era minha madrinha, quando morreu, deixou-me um ourito, que eu tenho no fundo da caixa, porque afinal a gente anda cá no trabalho e quase nunca traz aquilo. Lembrou-me que se o vendesse...

— Então queres desfazer-te do teu ouro, Margarida? Mas repara bem.

— Ora, senhora, então? É bom tê-lo para as ocasiões. E esta é uma. Luís é trabalhador. Eu... vendendo o meu ouro... perco, é verdade; mas, quem sabe? Talvez ainda venha a ganhar.

— Como ? — Por isto. Olhe, deixando ele de ser soldado e casando comigo, eu por um lado e ele por outro, iremos mareando a nossa vida melhor; e em pouco tempo poderei comprar ainda mais ouro do que tenho agora. Em quanto que ficando ele soldado...

— E então que me querias tu pedir? — Era para que falasse a minha mãe nisso. Eu tenho medo que ela me não deixe.

Terminei este diálogo, como tu o terminarias, Cecília; apertei Margarida nos braços e prometi-lhe colaborar naquela boa acção.

Margarida voltou a dançar. Dançar outra vez! Ainda! Que inconstância! Não é verdade? Mas quantas das nossas belas apaixonadas, que se privariam de dançar oito dias depois da ausência de um namorado como Luis, não teriam coração para se desfazerem... do seu leque que fosse, mesmo sabendo que esse pequeno sacrifício lho restituiria? Não te ofendas por quem és, nem tu nem as tuas amigas; repara que não disse todas.

Eu voltei para casa e pus-me a pensar nisto. Contei tudo a meu marido e deixei-lhe perceber desejos de poupar este sacrifício à rapariga, adiantando ele o dinheiro para a soltura.

Sabes o que ele me respondeu ? — «Deixa-a. Esse sacrifício de agora é uma garantia para a sua felicidade futura. Dá-lhe direitos a exigi-la daquele por quem assim o realiza». Em vista deste parecer, resolvi falar à mãe e, com algumas dificuldades, sempre obtive o seu consentimento.

Meu marido encarregou-se de comprar, ele próprio, o ouro que pagou por um preço muito superior ao seu valor e que conserva ainda em seu poder, desconfio que para fazer presente dele a Margarida no dia do seu noivado.

Luís foi efectivamente livre. Comoveu-me vê-lo chorar de alegria aos pés da sua desposada. Por nossa intervenção conseguiu uma colocação mais lucrativa do que a que tinha, Arrendou uma quinta e suspeito que já capitaliza um poucochito. O rapaz não deseja casar sem ter algum pequeno dote a oferecer àquela que se sacrificou por ele.

Ora aqui tens o que eu te queria contar dos amores de Margarida.

Bem vês que não há aqui nada de romântico; é uma história que a gente conta sem perceber que a está contando e da mesma maneira a escuta, tão desprovida ela é de situações que afectem a imaginação.

Não me queiras mal por te haver feito conceber esperanças, que não pude realizar. Eu prometo nunca mais cair nessa imprudência.

Adeus, Cecília, adeus que se eu continuo a falar não acabo hoje; até outra vez.

Porto, Agosto de 1864.

Tua afeiçoada

Publicada no «Jornal do Porto» em 11 de Janeiro de 1865.

Fragmento de uma carta que não era para ser publicada.

III

Já que me falaste em música na tua última carta, não quero terminar esta sem te dizer quais os meus pensamentos actuais sobre o assunto.

Repara que digo — actuais. — É que eu sou já cautelosa. Receio que a minha versatilidade, que sou a primeira a reconhecer, me ponha em contradição comigo mesma dentro em pouco tempo.

Vamos por isso firmando desde já a cláusula que me seja depois desculpa. Tratemos pois de música.

Poucas como tu estão no caso de falar nisto; poucas, menos do que eu, no de te responder.

Sabes que estou muito longe de ser uma mulher da moda. Sou uma mulher do antigo sistema e nada mais.

Meus pais entenderam que me seria mais útil uma educação que me tornasse prestável, quando os anos da juventude me não garantissem já um bill de indemnidade para a minha inaptidão, do que rodear-me desses mil pequenos dotes que até aos vinte anos nos servem de alguma coisa, mas que, depois de certa idade, infalivelmente nos abandonam, deixando-nos então mais desacompanhadas e indefesas que nunca.

Meu pai teve, por exemplo, o mau gosto de me mandar ensinar a cozinhar; minha mãe não abdicou nas directoras do colégio o cuidado da minha educação. Coitada! dizia ela que não me poderia formar tão bem a inteligência, mas que o coração, tinha fé que o formaria melhor.

Em quanto ao primeiro artigo da sua piedosa e sincera crença, acredito-o porque esta inteligência não saiu lá de grandes forças.

Reconheço-me, em desenvolvimento intelectual, muito aquém de todas as mulheres da geração nova, que falam francês com uma acentuação de parisiense pur sang; copiam a dois crayons cabeças de Julien e discutem Meyerbeer, Rossini com um desplante admirável.

Ultimamente parece que até se filiam nas lojas maçónicas — pelo menos assim mo afirmaram.

Não sei se tu também estarás já iniciada nos mistérios do grande Oriente.

Agora sim, acredito na regeneração da pátria. Çà irà.

Mas em todo o caso, bem sei que eu não posso discutir música contigo; nem é essa a minha tenção.

Com este génio que Deus me deu hei-de — isso sim — dizer tudo o que penso, que a mais não pode ninguém ser obrigado.

Respondo-te como te responderia se me falasses nisso em um daqueles despretensiosos colóquios que tantas vezes temos tido em que até os maiores absurdos e atrevidos paradoxos são aventados sem a menor responsabilidade, sem incorrermos na censura de ninguém.

Porque hei-de ter mais escrúpulos escrevendo-te do que falando-te ? Acaso terá uma carta mais fundadas pretensões à imortalidade do que um diálogo ? As palavras voam, os escritos ficam. Histórias! Se os escritos ficassem todos, em pouco tempo o mundo seria uma papeleira. Só fica o que merece ficar.

Há palavras que atravessaram séculos e escritos que nem duram dias. Mas vamos ao assunto.

Tu entraste em plenos mistérios da arte, Cecília. Admirei-te mas compreendi-te mal. Via-te cá de baixo, subir, não te pude seguir.

O mau humor que dai me resultou, explica talvez a direcção, que estranharás em minhas ideias.

E depois eu recebi a tua carta em uma época em que andava preocupada por um pensamento, que alguns meses de vida campestre me haviam sugerido. Foi talvez por isso que não pude apreciar as tuas teorias musicais, como as apreciaria aí debaixo das mesmas impressões sob que as meditaste e formulaste.

Ocupava-me muito da música popular, cuja singeleza e originalidade me tinham enamorado.

Sabes que eu em música tenho o mau gosto, que só a ti muito baixinho confessarei, de preferir a execução fiel e correcta de qualquer trecho lírico que me agrade, às brilhantes fioritures e variações de fantasia com que um artista de génio consegue revelá-lo, sacrificando— aos meus ouvidos profanos — o motivo musical que lhe serve de pretexto.

É por uma razão análoga àquela que me faz preferir o ondeado natural das tuas belas tranças negras ao impertinente e caprichoso frisado com que as martirizas em uma noite de baile.

Espero que a comparação me faça perdoar a heresia de arte, que acima julgo que pronunciei.

Podes ver que com estas decididas tendências para tudo que é natural e singelo, estou muito arriscada a apaixonar-me pela música popular, por essa caprichosa e ligeira música que voga nos ares com todos os mais rumores de que a escola romântica há tempos os traz povoados.

Ora, apaixonada assim, diz-me se me era possível escutar com a reverência de discípula ignorante, a erudita dissertação, a que o último concertista, de quem eu te pedi informações, deu lugar.

Esses períodos da rua apreciável carta vieram despertar-me de uma espécie de sonho — e digo sonho por não saber bem como hei-de traduzir de outra maneira aquela eloquente rêverie dos Franceses — em que me deixara arrebatar; é natural que respondesse com a rabugice própria do despertar.

Vinhas fazer-me a apologia da música científica, académica, clássica, entendida só por os raros iniciados nos mistérios do contraponto, e eu, que estava a escutar uma cantilena aldeã repassada de poesia, impacientei-me, reagi.

Contrariedade por contrariedade, minha querida. Agora hás-de ouvir-me tu. Vê se a tua ciência musical te dá a solução do seguinte problema que era o que me preocupava. É como respondo à tua dissertação.

Este problema — em que eu muitas vezes cismo e para o qual peço a tua cooperação — é o da origem da música popular.

Sabes-me dizer qual o maestro inspirado dessas toadas singelas que se cantam ao bater das roupas nos ribeiros, ao esfolhar das espigas nas eiras, ao espadelar do linho nos serões? E terão elas compositor? Chego a duvidá-lo.

Ouve a minha teoria: Às vezes lembra-me que o povo é como os pássaros, que amenizam a espessura das selvas. Qual deles foi o autor desses quebros e gorjeios que todos repetem? Quais os maestros? Quais os discípulos? Não há distinção. Cantam assim porque lhes está na natureza aquele cantar, porque as vozes do campo desafiam um eco e eles respondem- lhes, como a concavidade da colina responde aos ventos que bafejam. — Ai está.

Assim me parece o povo.

Uma noite — penso eu — as brisas adormentadas mal fazem ciciar os olmedos da campina; os ribeiros afagam serenamente, e murmurando apenas, os musgos húmidos das levadas; cintilam as estrelas no azul-escuro do céu; prorrompe das moitas e silvados um concerto magnífico de insectos... e o povo sente vagamente a poesia da hora, a poesia da noite, a poesia da natureza.

Sente-a o velho pensativo à soleira da porta, balanceando lentamente nos joelhos um gracioso grupo de netos adormecidos, sente-a a mãe, jovem e desvelada, ao acalentar o filho no berço e fitando os olhos na mais brilhante dessas estrelas, como se ali se escrevera o destino daquela criança que estremece; sente-a a aldeã namorada aspirando os aromas que dos alegretes do jardim lhe sobem até ao peitoril da janela, onde se esquece a devanear; sente-a a própria infância, deixando os brinquedos ruidosos, falando baixo, escutando, cismando...—Este cismar da infância! este cismar da infância! Que gérmen de futuros pensamentos!

Nessa noite pois, em uma noite assim, opera-se o mistério, o génio popular estremece, visita-o o fogo sagrado, a brisa da noite acorda a estátua de Mémnon; e então, no mesmo instante, no instante solene, um canto vem naturalmente aos lábios desses numerosos poetas, que todos sentiram e cismaram.

Do balcão enflorado, do limiar da porta, de junto dos berços, dos largos, das encruzilhadas, prorrompe uma voz; o ancião, a donzela, a mãe, as crianças cantam a um tempo e uma nova música nasce então, suave, saudosa, melancólica, como as maviosíssimas notas daquela noite que a inspirou.

Todos compuseram, todos imitaram. Mistérios das multidões! Decifre-os quem puder. Eu não os discuto; creio neles, como outros tantos artigos de fé.

Como explicar de outra sorte as nenhumas reclamações de propriedade, tão naturais à vaidade humana, e que, até no seio das mais doutas academias, consomem a máxima parte do tempo, que devia ser votado a investigações mais úteis, do que as de prioridade entre dois inventores litigantes ? Não sei.

Que melancolia a de alguns daqueles cantares; que festiva graça a de outros ! Lembra-me que uma noite deixara eu aberta a janela do meu quarto — vinha-me de fora um tão suave perfume de laranjeiras que não tive coragem para fechá-la — o rouxinol, esse poeta dos bosques, o chefe da escola romântica entre aquela sonora turba, porque não sofre modular as suas canções por formas sempre as mesmas, antes as varia, segundo as aspirações do seu génio, o rouxinol estava admirável! As folhas brincavam com a luz do luar e desenhavam no cortinado do meu leito uma renda buliçosa de extravagantes ramagens.

Cedi à influência languescente e deliciosa daquela noite de Estio.

Adormeci. Por altas horas acordei ao som de uma cantiga aldeã.

Entoava-a uma voz feminina, cujo timbre melodioso e juvenil me comoveu como ainda nenhuma prima-dona. Perdão, perdão, reconsiderei a tempo. É certo, porém, que me comoveu aquela voz. Durante o meu sono a luz desaparecera e agora cintilavam algumas estrelas pálidas, procurando combater infrutuosamente a escuridão mais intensa que precede o amanhecer.

Não pude resistir, corri à janela.

A voz partia já de mais distante. Era a de uma jovem lavadeira, que ia para as presas lavar.

Olhei o relógio; pouco passava das quatro horas! Pobre rapariga! Ela aí ia sozinha votar-se ao trabalho! Aos dezoito anos, repara tu e todas as tuas elegantes companheiras; à hora em que vós apagais a luz, ainda com a imaginação alvoroçada pelas aventuras da mais simpática personagem do romance que vos disputou ao sono, à hora em que desprendeis o enfeite que vos adornou as tranças no baile e vos despis, cismando na frase de leviano galanteio que vos segredou o último valsista, ela, coitada! ergue-se para ir lavar, ergue-se para atravessar sozinha os caminhos ermos, cujo aspecto bastaria para vos desafiar um ataque de nervos, melindrosas organizações. • Muito felizes sois! muito malfadada é ela! E contudo.,. —vede. — De quando em quando o vosso silêncio é interrompido por um suspiro, que não podeis reprimir; caís em desalento no sofá vizinho do leito e apodera-se de vós uma tristeza que vos faz chorar.

E ela ? ela canta, ela desperta, cantando os ecos escondidos pelas quebradas e afugenta os espectros sinistros que povoavam os recantos obscuros.

Mas é que vós não podeis cantar como ela, por isso também não tendes aquelas expansões que distraem e aliviam.

Cantar! Pobres meninas! Se vos ensinam a cantar em italiano! Se a moda, essa tirânica divindade que do alto do seu trono de rendas e vidrilhos vos impõe um código absurdo, menospreza a nossa harmoniosa língua! Se para saudardes a Lua precisais de lhe chamar — casta diva — e repetir a letra de Felice Romani! se só com o auxílio dos libretos e martirizando a língua do Dante podeis celebrar Deus, as flores, as estrelas, o mar! Se vos ensinam a erguer-vos às onze horas! Se vos mostram as belezas do amanhecer nas gravuras inglesas ou, quando muito, no poliorama que adorna uma das mesas do vosso salão! Se só vedes o mar quando apequenado pela afluência de banhistas! Se vos mandam cantar ao espelho para estudardes o gesto conveniente a uma. cantora que tem escola! Se quando cantais tendes na ideia tudo menos o canto! Oh! vós não podeis, vós não sabeis cantar! Com todo o vosso estudo ficais suplantadas por tantas espontâneas cantoras que abundam nos campos.

Ainda não encontrei artista de profissão que afinal de contas não fizesse caretas a cantar e ainda não vi rapariga aldeã que não fosse mais bonita cantando. Porque é isto? O artifício mata-vos.

E não é só a letra estrangeira que neutraliza para vós todo o efeito calmante que um antigo ditado português de tempos imemoriais concede ao canto, é também a música estrangeira.

Da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha, de toda a parte aceitais de bom grado a música; só desdenhosamente sorris para a que não é de importação.

Ao lado do vosso piano, se se depara com alguma composição firmada com um nome português, é como envergonhada e escondida nas rimas de cadernos onde, em grande tipo, se lêem os nomes de compositores de fora, nem sempre dignos de celebridade.

— Mas se nós não temos música popular — disse-me ainda há pouco um dos nossos melhores talentos musicais. Não o contestei;

seria arrojo da leiga, heresia de profana. Houve quem, sem o saber, lhe respondesse — e pela Imprensa — que a fizesse ele. O artista lendo o conselho, encolheu os ombros e riu-se. Desta vez tinha razão.

— Como! fazer música popular! Pois a música popular faz-se ? Se ela não existe, haveria génio tão superior que a tirasse do nada? Mas, não existirá de facto? Ai é que se resume a questão. Pois será este nosso povo um povo que não canta? ou para cantar irá pedir trovas emprestadas às outras nações? Responde por mim essa harmonia que sai dos campos, que nos enche os ouvidos, que anima o trabalho das ceifas, das esfolhadas, das malhas... Música rudimentar — dizem-me. Concordo. Mas é que se não vai assim de repente à ópera.

Exigir de um compositor que escreva uma ópera com música nacional é exigir muito, é marcar-lhe uma meta superior às forças de qualquer artista.

Fossem lá dizer aos escritores de língua portuguesa, esses que balbuciavam as primícias da poesia nacional, ao autor daquela canção do Figueiredo das Donas por exemplo — se é que depois da opinião de um nosso ilustre crítico ainda lhe podemos dar o foro de nacionalidade— fossem lá dizer-lhe: Escrevei um poema épico nacional! Tomai fôlego, fazei o que fez Homero, o que fez Virgílio.

Mas a ave não sobe às alturas logo ao primeiro voo.

Camões só podia nascer quando nasceu.

Não digais, pois, aos nossos compositores: Escrevei óperas nacionais.

— Isso é exigir-lhes o impossível — mas dizei-lhe: Escrevei trovas, escrevei canções, escrevei cantigas... porque deveras não sei por que se há-de pôr de parte esta palavra e esta coisa tão genuinamente portuguesa — a cantiga — deveras que não sei.

Vós que falais em romanzas, em cavatinas, em rondós, em barcarolas, sentis um certo escrúpulo de mau gosto em falar de cantigas.

Pois eu, se estivesse no vosso lugar, legisladores do gosto, não o sentiria; eu havia de dizer desafogadamente aos nossos talentos artísticos: Fazei música para cantigas inspirando-vos do gosto popular, subireis depois às composições líricas ligeiras e mais tarde, no futuro, os nossos netos aplaudirão a verdadeira ópera nacional — antes disso tentá-lo é absurdo.

As artes têm todas a sua infância. E Deus nos livre de crianças assenhoradas que é a mais antipática espécie de Preciosas ridículas que eu conheço.

Mas atendei a que não é só dos compositores que depende a reforma.

Alguns têm feito as primeiras tentativas, mas como lutar entre a tremenda potestade que se chama a moda ? Ainda me recordo de um malicioso sorriso que te vi nos lábios quando em certa reunião uma senhora teve a coragem de cantar deliciosamente a canção do Marujo, do drama de César de Lacerda. Sorrisos como esse é que estragam tudo, Cecília.

Momentos depois ouvias, já muito sisuda e atenta, uma pequena ária francesa, destas que os editores de romances publicam nas capas dos seus feuilletons e que se podem cantar sem ofensa do bom-tom — porque são francesas.

Eu tenho vontade de promover uma revolução proclamando neste sentido: — Senhores folhetinistas, é necessário convencer as nossas elegantes que não é de mau gosto cantar em música portuguesa poesia portuguesa; ridiculizai muito embora a Jovem Lília e as antigas modinhas, mas substituí-lhe canções nacionais como elas. Não vos mostreis benignos somente para com os ohimés, infelices, míseros, mios contentos e addios das letras italianas.

A moda é um potentado. Para a combater é preciso uma aliança poderosa, poderosíssima.

Não exijais de ninguém desacompanhado essa façanha de Hércules.

Não há forças isoladas que bastem.

Vós não criareis música nacional nos salões e gabinetes. Desenganai- vos. Ide ao campo e às ruas, percorrei as províncias e depois ponde à moda a Euterpe rústica que tiverdes encontrado por lá, perfumando- a e apresentando-a com a etiqueta do estilo, na sociedade elegante.

É uma subservivência necessária. A musa popular, para se tornar nacional, tem de sujeitar-se a essas formalidades. Os promulgadores dos diplomas não lho dispensam. Sujeite-se, que faz bem. Coloque-se à moda, depois o resto virá naturalmente.

Aí tens o meu modo de pensar.

Em troca da tua dissertação científico-artística, que me impacientou — por ininteligível — dou-te uma opinião de leiga que te revoltará — por absurda.

Estamos quites.

Até outra ocasião.

Continuo a ser toda ao teu, dispor.

Janeiro de 1865.
Diana de Aveleda.

A ILHA DA MADEIRA

Funchal, Março 1870

Meu amigo Funchal, Março 1870

Recordo-me de lhe haver prometido, ao separarmo-nos, escre- ver-lhe de quando em quando desta ilha, onde pela segunda vez abordei, à procura do ideal que se chama saúde.

Tarde me lembrei do cumprimento da promessa; mas a tempo vai ainda.

Não é uma monografia que eu vou fazer. Deixarei em paz a constituição geológica, a flora, a fauna da ilha e todas as questões médicas, económicas e políticas que se prendem a este torrão fertilís- simo. O meu intento é mais modesto.

Quero mostrar-lhe a Madeira através das individualissimas impres• sões que o meu espírito recebe nela e isto sem plano, sem método, sem coordenação didáctica e só conforme a corrente irregular e capri• chosa das minhas ideias.

Fazer-lhe esta observação equivale a avisá-lo de que não serão de tintas muito vivas os quadros que traçarei.

A imaginação de um valetudinario tinge de cores amortecidas as mais ridentes paisagens e as cenas mais pitorescas que observa; para ele o brilho do Sol é visto como através de um cristal corado; perceb e as gradações de luz, mas sempre sob o tom uniforme e som• brio do cristal, que neste caso se chama: preocupação.

As viagens, esse sonho dourado que tanto seduz a imaginação da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes e bater asas em demanda de climas novos, transforma-se em amarga proscrição, sempre que as empreendemos, forçados por uma triste necessidade e partimos levando o espírito assombrado por uma ideia, ou antes, por um pressentimento doloroso, Nada então nos compensa as lágrimas da despedida e o cruel confrangimento do coração, que responde ao último adeus do amigo que, de olhos húmidos, nos acena da gare do caminho de ferro ou nos aperta a mão no tombadilho do vapor. Partimos com a alma oprimida e sem aqueles voluptuosos estremecimentos de júbilo que se mistu• ram às saudades de quem se aparta dos seus, seduzido pelo prazer de viajar.

Quando se perd e de vista a terra em que nos ficaram todos os afectos Íntimos, parece-nos escutar uma voz interior a perguntar-nos se voltaremos a vê-la. E não há um clarão de esperança a responder a essa interrogação! Que tristeza a daquele instante! Depois o mar, o mar, esse imenso foco de melancolias, acaba de escurecer-nos o pensamento! Olhar em roda e não avistar um só desses objectos que nos falam do passado, da família, do remanso doméstico! Ver tudo em movimento, tudo em irrequietação, tudo revolto! Ter necessidade, para satisfazer a instintiva ânsia de repouso que sen• timos, de elevar os olhos para o Céu, como faz o homem desalen• tado pelo tumultuar das vagas da vida e que considera aquela outra pátria como o único lugar do verdadeiro repouso. Impressões são estas que não dissipam as nuvens do nosso horizonte, antes mais as carregam.

Apesar da sua grandiosa solenidade, o oceano é um desconso- la,dor companheiro para a alma naquelas disposições.

Por isso quando, ao amanhecer de um desses dias longos e deso• ladores se avista além, muito além no horizonte, uma sombra mal dis• tinta, através da qual só o olhar amestrado do marinheiro consegue distinguir a terra demandada, saúda-se essa sombra como uma pro• messa de redenção.

Todos os olhos a procuram com ansiedade e, à medida que ela se ergue e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas naturais, revelando-se enfim, tal qual é, entre o azul do mar e o azul do céu, dissipa-se a mais e mais a cerração da melancolia que nos pousava no coração.

Como a ave, extenuada de longa travessia por sobre mares vas• tíssimos, abate o voo a repousar na terra que lhe surge do seio das ondas, assim o espírito, cansado daquela imensidade e irrequieta agitação das águas, voa a engolfar-se no regaço das verduras que parec e haverem enfim obedecido à evocação das suas nostálgicas saudades.

Quando a formosa ilha da Madeira, levantando-se da espuma do mar como a mitológica Citereia, crescia para nós a receber-nos, abrindo o seu seio,benéfico e maternal aos desconfortados que nela só depositavam as suas derradeiras esperanças, sentíamos todos pene- trar-nos o coração um desses suaves prazeres como o que nos produz, no meio de uma turba de estranhos, o encontro de um rosto e de um sorriso de amigo.

Formava um consolador contraste com a tremenda severidade do mar a amena perspectiva da ilha! Horas depois de a avistar, a marcha rápida do vapor fez-nos dobrar o cabo de São Lourenço; transpondo o amplo pórtico que ele forma com o grupo das penhascosas Desertas, sentira-se uma súbita mudança de clima, como se de repente se tivessem vencido muitos graus de latitude. Afagou-nos a face a brisa tépida e perfumada da ilha, aspirámos com prazer o hálito acalentador e salutífero desta fada marítima; achávamo-nos sob o seu abençoado encantamento, reco• nhecíamos enfim a Madeira! A costa do sul ia passando em revista com as suas rochas escar• padas, as suas ribeiras profundas, a sua vegetação vigorosa, as suas formidáveis quebradas e os altos picos onde pousam as nuvens, os vales fertilíssimos e as povoações graciosas.

Momentos depois, vencida a ponta do Garajão, as casas e as quintas do Funchal, iluminadas por. um esplêndido sol de Outono, que dourava as extensas plantações de cana, saudaram-nos por sua vez.

A magia do espectáculo emudecera-nos. De um lado o mar, do outro as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade sorrindo, coroo a criança adormecida entre os pais, que a defendem e acalentam.

Dentro em pouco pousávamos pé em terra.

Não é grata a impressão recebida ao desembarcar. Costumados aos extensos e alvejantes areais das nossas praias tão ricas de formo• síssimas conchas e em cujas penhas se formam aquários naturais, onde aos raios do Sol as actínias matizadas escondem os seus braços gela• tinosos e as algas crescem em delicadíssimas arborizações, costuma• dos às praias risonhas que atraem as mulheres e as crianças com o animado e variadíssimo espectáculo que lhes oferecem e os abun• dantes tesouros de pedrarias que escondem nas suas móveis areias, afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra, formada de calhaus roliços, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais que são o principal atractivo da beira-mar.

Esta pedr a escura parece conservar ainda evidentes os vestígios do cataclismo vulcânico que a arremessou à superfície das águas. Dir- -se-ia que ainda está defumada e quente do fogo do imenso forno em que foi fundida. Ao seu aspecto comprime-se o coração do viajante.

Entrámos na cidade. Há um não sei quê de melancólico no aspecto dela. Por isso mesmo que é a generosa consoladora de tantos aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e que de toda a parte do mundo correm a abrigar-se ao seu calor salutar, por isso mesmo, parece anuviar-lhe os sorrisos aquele ar de piedade e de compaixão que é, por assim 'dizer, a alegria da caridade.

Não nos sentimos impelidos a saudá-la com um cântico festivo, com uma aclamação de prazer; mas apenas com uma serena comoção, igual àquela com que se beija a mão generosa que se estende a socor- rer-nos ou a enxugar-nos as lágrimas.

Ó Funchal! Que tristes dramas se têm passado à luz do teu sol benéfico! Que lutuosos desenlaces de tantas histórias de paixões! Que de lágrimas ardentes caídas no teu solo sequioso que se apressa a escondê-las discreto! E à sombra das tuas árvores quantas frontes escaldando de febre vergaram sob o peso da cruel melancolia! Ilusões desvanecidas, esperanças desfolhadas, sonhos de amor, de glória, de felicidade, dos quais se desperta à beira do túmulo, tudo tens presenciado, ó humanitária cidade! E debaixo dos cedros e ciprestes dos teus cemitérios dormem o último sono muitos mártires sem que as lágrimas dos que os amaram lhes caiam na campa como tributo.

Dai vem a simpatia e a tristeza que inspiras. As tuas virtudes como irmã de caridade que consagra os dias ao cumprimento de uma missão cristianíssima, brilham entre cenas e espectáculos de deso• lação e de dor.

Este carácter da cidade avulta aos primeiros passos dados no interior dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras pálidas, emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transporta• das em redes, encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa medi• tação, ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia; são ingleses cadavéricos, alemães diáfanos, portugueses des• carnados, brasileiros, norte-americanos, russos; são velhos, adultos, crianças, vaporosas belezas femininas de todas as partes do mundo, todos a convencer-nos de que estamos na città dolente; mas no pór• tico desta não se lê gravado o dístico desesperador que o poeta ins• creveu no da região das tormentas eternas. Pelo contrário, à entrada aqui, revestem-se de esperança os próprios condenados.

Para que a Madeira nos sorria, para que nos apareça formosa como a descreve o poeta inglês e fragrante como uma verdadeira flor do oceano, é necessário sair do recinto da cidade, procurar as fregue• sias rurais, subir as íngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar então a vista pelos formosíssimos vales que vão descobrindo o seio fecundíssimo aos nossos olhos maravilhados, Que vigor e variedade de vegetação ! O verde dourado da cana realça entre as diferentes cambiantes da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira de Africa agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bana• neira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de viço nos mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as laranjeiras odoríferas. As rosas, as malvas, as madressilvas florescem espontâneas à beira dos caminhos; debruçam-se dos muros as «bou- gainvillias» entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaranjadas das bignónias; tudo tem um ar de festa e alegria. A choça mais humilde tem um jardim à entrada; as flores sorriem à porta dos ricos e dos pobres.

E quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnifico aspecto do país. De um lado vemos aos nossos pés, o mar liso como um espelho, azul como safira, limitado ao longe pelo grupo das Desertas vagamente tingidas do azulado da distância; do outro as altas serranias que rompem as nuvens e cujos cimos tantas vezes tinge a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos em fundas que• bradas, sulcados em ribeiras pelas torrentes do Inverno, uma vege• tação exuberante, cheia de vida, encobrindo aqui uma casa isolada, enfeitando além uma povoação risonha, que se agrupa em torno de um campanário.

Então sim, então a atmosfera embriaga, o peito aspira com volup- tuosidade esse ar balsâmico, o espírito liberta-se de todas as apreen• sões que nos gelavam os sorrisos nos lábios e goza-se despreocupado do mais surpreendente espectáculo que pode imaginar-se.

Mas não é só a natureza que tão afável e acariciadora se mostra aos desesperados enfermos que se refugiam aqui; impressões igual• mente gratas, igualmente consoladoras lhes vêm de origem diversa.

É geral a simpatia que os doentes inspiram à gente da Madeira. Se os doces afectos de família, se os carinhos de uma esposa, de uma mãe ou de uma filha se podem substituir no mundo, é aqui a terra para tentar a experiência.

Sentis que vos rodeia uma atmosfera de simpatia. Pessoas que nunca vos falaram, que não conheceis, seguem passo a passo, com sincero interesse, os progressos das vossas melhoras ou as alterna• tivas do vosso padecimento.

Com o olhar que a experiência tem amestrado, estudam-vos no semblante as probabilidades de bom ou mau êxito na luta pertinaz da natureza contra o influxo fatal que vos subjuga. E esse prognóstico é quase sempre infalível.

Rara é a família que, levada por generosa curiosidade, se não informe com o médico que a visita ou com os proprietários dos hotéis, do estado dos estrangeiros doentes.

Nestas vitórias do clima sobre a doença, estão empenhados os brios e o principal brasão da terra, e o amor pátrio é um sentimento profundamente entranhado no coração deste povo. Uma cura operada é um triunfo e todos a conservam na tradição gloriosa da terra com simpático e louvável orgulho.

A simpatia vai ainda mais longe, revela-se sob mais cordial mani• festação, exerce-se mais eficaz e abençoada ainda. As formosas madei• renses, e quem, tendo visitado esta terra, não conservará memória delas? condescendem muita vez em animar a alma desolada dos soli• tários enfermos com o raio vivificador dos seus olhares magnéticos. Amoráveis, movidas por uma generosa simpatia, exaltadas pelo entusiasmo natural a um coração de rapariga, acalentam muitas vezes esses amores que elas bem sabem ser sem futuro, e iluminam os últimos dias de uma triste existência com a doce luz do mais casto e imaculado afecto. Quantos que morriam longe dos seus com o coração partido de saudades, lhes devem os últimos doces sonhos da sua vida, as derra• deiras ilusões e um tributo de lágrimas na campa? Anjos adoráveis, corações generosos, vós concorreis com o tesouro dos vossos afectos para a santa missão que se desempenha aqui. Às vezes sob a influência do vosso amor, voltam as cores às faces desmaiadas, um sangue novo circula nas veias exauridas e por um milagre de afecto renasce para a vida o que a ciência já condenara. Outros sucumbem, mas tendo ao menos nos lábios um nome querido, no pensamento uma imagem e no coração a esperança de que não ficará sem sentido para todos a inscrição funerária que lhes gravarem na lousa.

Abençoadas sejais pelo conforto que tendes dado ãs almas tristes, que sucumbiam à míngua dele! Reparo porém agora, meu amigo, no tom elegíaco que vai tomando a missiva. Será prudente parar aqui, procurando para outra vez ser mais alegre.

Seu do coração

CARTAS PARTICULARES

A SEU PAI QUANDO TEVE NOTÍCIAS DA SUA NOMEAÇÃO DE DEMONSTRA. DOR DA ESCOLA MÉDICA DO PORTO

Papá

A estas horas é provável que já saiba que estou despachado. Não tinha informado inexactamente o amigo do Teixeira Pinto, quando disse que na quinta-feira se assinava o decreto da minha nomeação.

É com a data de 20 que ele vem no Diário de 22.

Esse mesmo rapaz escreveu de Lisboa e eu acabo de ver o Diário. O amanuense da Escola escreveu-me também. Finalmente está decidido; acabaram-se todas as dúvidas e inquietações.

Nesta ocasião em que o meu futuro se fixou, não posso deixar de me recordar do muito que devo ao Papá pelos sacrifícios feitos por mim.

Alegra-me duplamente o resultado deste meu empenho porque, com o prazer que me causa, sei que não menos intenso havia de pro• duzir no Papá, que até agora tão improfícuos tinha visto ficarem os seus grandes esforços para a felicidade dos filhos.

Meus irmãos foram privados, não sei por que vistas providen• ciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educação que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou tão novos, parece ter-me reservado, como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia a resignação do Papá.

Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que não me faltará a vida e a saúde para poder cumprir essa missão talvez providencial.

Creia que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacri• fícios e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava não mos fazer sentir.

Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a mão.

Seu filho grato e afectuoso Joaquim         

Felgueiras, 24 de Julho de 1865.

A SEU PAI, DE FINS DE MARÇO DE 1868, DEPOIS DA REPRESENTAÇÃO DAS «PUPILAS» EM LISBOA

(Inédita)

Papá

Continuo a passar bem e por enquanto não posso dizer quando partirei.

As «Pupilas» foram bem desempenhadas e prometem dar à empresa bastantes enchentes.

Do que se passou na noite em que eu lá estive dá conta exacta a noticia que envio, a qual foi publicada por um Diário daqui. Ontem esperavam-me à noite em casa do Mendes Leal, mas como às segundas- -feiras é lá reunião de etiqueta, a que se vai de casaca e em rigor, fui para o teatro francês e dei por desculpa que não queria deixar a com• panhia com quem tinha vindo a Lisboa.

No teatro da Trindade, no sábado, pediu-me o Mendes Leal para ir ao camarote dele, visto este não poder deixar só as senhoras com quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e entre elas, o Chamiço. O Castilho já me veio visitar.

As «Pupilas» foram postas em cena com bastante fidelidade de vestuário e de costumes.

O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava bastante animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reco• nhecer. No 6.° quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe beija a mão, não me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao palco onde fiquei todo o quadro final.

Peço recomendações a toda a família e ao tio Bernardo.

Peço também que mande entregar ao Dr. Reimão os livros que ai deixei para ele e que se alguém aí for procurar os exemplares da Dissertação do Ilídio, lhe entreguem os que estão em um dos armários inferiores da estante.

Que não esqueça também mandar-me esfregar o quarto.

Seu f.o ob.te Joaquim.

A SUA SOBRINHA ANA C. GOMES COELHO

Anitas

Cumprindo a promessa que te fiz hoje mesmo, não me quis deitar sem primeiro te escrever. Cheguei a salvamento a esta terra, tendo engolido muito pó pelo caminho, petisco de que, nem por isso, fiquei gostando.

Ceei bem e espero dormir melhor.

A estas horas em que te estou a escrever já tu deves estar sonhando com a cabeça no travesseiro. Estimarei saber que sonhaste em coisas agradáveis e que acordaste pela manhã satisfeita da tua vida.

Espero que te lembres de mim ainda que seja só quando almo• çares em São João Novo e tiveres de fazer por ti mesma as tuas fatias. Adeus por hoje. Manda-me dizer as flores que tens feito e reco- menda-me à Mamã, a quem hei-de escrever breve, e aos teus dois manos e, se te não esqueceres, faz também as visitas do costume às pessoas que sabes.

O Guilherme ' disse-me o número da vossa casa em Monchique, mas esqueceu-me. Vê se mo mandas dizer na tua carta, que podes dar ao Josèzinho ! para ma enviar com a dele.

Adeus.

Ovar, 7-5-63.

Teu tio e muito amigo Joaquim

UMA DAS MINHAS MADRUGADAS CARTA A CECÍLIA

(Inédita)

Na antevéspera da nossa partida, o administrador, vindo visitar- nos, perguntou-nos quais os nossos projectos para o dia seguinte.

— O arranjo das malas, respondeu-lhe a L... sorrindo.

— Por amor de Deus ;—disse aquele jovial companheiro dos nossos serões da aldeia. — Por amor de Deus! V. Ex.as fazem-me recordar o tempo das liteiras e das jornadas com almocreves, os meus bons tempos de Coimbra. O arranjo das malas ! isso, actualmente, é obra de uma hora quando muito.

— Mas também que mais curiosidades nos pode oferecer a sua terra meu caro senhor doutor? A seus olhos triplicemente investigadores de arqueólogo, de naturalista e de poeta, que poderá ter ainda escapado ? — O mosteiro.

— O mosteiro ?! Escuso dizer-te, Cecília, que ficámos já sem a menor vontade de contrariar o nosso cicerone. Eu a acabar de pronunciar aquela palavra mágica — mosteiro — e logo um mundo todo de fantasia, como se evocado por um condão misterioso, a surgir-me, a encantar- me, a pedir-me toda a atenção aos meus sentidos distraídos... Um mosteiro ! E nós há um mês ali, ignorando-lhe a existência.

— Sabe, doutor — disse-lhe eu — que é indesculpável a leviandade com que até hoje se tem conservado silencioso em relação a esse mosteiro? Não'nos podia ter prevenido da existência dele, para eu ao menos me preparar com a leitura ale Walter Scott e ir bem prevenida do espírito fantasioso que concebeu a «Dama do Lago», aquela deliciosa criação?— Seria uma triste desilusão para V. Ex.as quando vissem as mudanças que o tempo exerceu naquele antigo retiro de virgens.

— E de mais a mais mosteiro de monjas extintas! Ó doutor, cada vez estou menos disposta a perdoar-lhe. O tempo! as mudanças do tempo? Tem graça. Tanto melhor. Hera pelos muros, não é isso que quer dizer? Estátuas derrubadas, fustes partidos, capitéis despedaçados nos lajedos, baldaquins e cornijas servindo de asilo às aves? Tudo isso aumenta prodigiosamente o interesse da cena. Pois uma lenda bem conservada na memória do povo vizinho, cheia de maravilhoso, cheia de fantástico. Diga, diga se há em toda esta sua terra, a que tanto quer, coisa mais digna de se mostrar e menos capaz de se esquecer ? — Infelizmente, minha senhora — continuava o desapiedado doutor, parecendo deliciar-se em destruir todas estas minhas fantasias com a indiferença revoltante do botânico que desconjunta a mais bela flor do campo para — inútil crueldade — para a classificar. — Infelizmente, minha senhora, o mosteiro onde desejo conduzi-las oferece pouco alimento à curiosidade justificadamente feminil de V. Ex.as. Não é a poesia do tempo que se respira ali. Desta vez deu-lhe o mitológico velho para ser utilitário e esqueceu os seus antigos brios de poeta.

Verão V. Ex.as a cerca aproveitada para hortas, transformadas as celas em tulhas e vivendas de rendeiros e a igreja invadida pela cal e pelo desastrado pincel do único artista da localidade.

— Nesse caso não vamos.

— Porque não? — disse a L... — deixa falar o doutor. Eu te prometo que a poesia e a saudade do passado conseguirão romper toda essa grande camada de prosa. Os perfumes de uma e de outra hão-de subir ao ar com os vapores que de tarde se elevam de entre o milho desses mesmos campos, penetrar nas celas com os últimos raios de sol, voejar na igreja com as partículas coloridas da poeira que a claridade de uma fresta venha iluminar.

— Bravo! — exclamou o doutor. — Com essa boa vontade, minhas senhoras, não há poesia que se não encontre.

— Emprazamo-lo para amanhã, doutor.

— E têm coragem de madrugar ? — Boa! Ao romper do dia estaremos prontas.

— Então, até ao romper do dia de amanhã.

Tu sabes como eu sou, Cecília, podes imaginar em que azáfama andou toda aquela noite a minha fantasia. Eu que ainda não consegui olhar com indiferença para o convento de Monchique, do Porto, não obstante estar desde criança habituada com aquelas ruínas e apesar da influência do Trem, da Alfândega e de tudo, como poderia receber de ânimo frio a inesperada promessa de um mosteiro retirado, quase destruído, talvez ignorado de todos ou pelo menos ignorado por mim, Porque para mim é de facto nova a existência do convento de... das...

Então não queres tu ver que nem nome lhe posso dar!

Pois é verdade, satisfiz-me com a denominação genérica de mosteiro e nem me lembrou perguntar qual a invocação sob que foi erigido aquele obscuro asilo de almas tímidas e qual a ordem monástica que por tanto tempo o habitou.

Mas que importa? Não é também uma memória arqueológica que eu te escrevo. É uma carta, como todas as minhas, como todas as tuas em que se diz tudo quanto lembra e não se fica responsável por nada do que esqueceu.

Mas, como eu te dizia, cismei e sonhei em monjas toda a noite.

Lembrou-me efectivamente Walter Scott e lembrou-me também Meyerbeer.

A dança fantástica que no quarto acto do Roberto fascinava o filho de Bertrand e cuja música, por uma diabólica coincidência, a L... lhe deu para tocar essa noite no piano, parecia atordoar-me também.

Acordei deste sono pouco restaurador quando me vieram dizer que principiava a madrugada e que há muito havia luz no quarto do doutor.

Tu não sabes bem ao certo o que é uma madrugada, tu a quem vai despertar no teu tranquilíssimo bairro o ruído das dez horas da manhã; nem eu me proponho a fazer-te a análise dos encontrados sentimentos que nos agitam em tais ocasiões. Dir-te-ei só, de passagem, que parece que naqueles momentos a habitual corrente das nossas ideias muda de direcção. Costumadas a pensar no meio de um determinado grupo de condições, de luz, de movimento, de vida, quase sempre as mesmas, quando em presença de condições tão outras das ordinárias, como são as de uma madrugada, como que os nossos pensamentos tomam uma diversa feição e novas soluções a problemas, que tínhamos por definitivamente resolvidos, avultam e avultam sob um aspecto tão luminoso que todos os mais ofusca.

Isto não é filosofia, sossega; é a simples expressão do que eu senti quando acordada por L... me dispunha, não sem um pouco de má vontade, a cumprir a promessa feita na véspera ao doutor.

AL... estava admirada do meu silêncio, pois desde que principiara a vestir-me não lhe dera uma palavra só.

— Em que pensas tu? — disse-me por fim, impaciente — se isso não é ainda sonhar.

— Não é, não. Queres saber? Penso que talvez não tiveram razão os que mandaram fechar as portas dos conventos e proibiram as profissões.

AL... obrigou-me a repetir esta resposta.

— Que extravagante reflexão política é essa tua agora?! — É que eu, por mais que tenha estado a recordar-me dos argumentos pelos quais havia conseguido, julgava eu, convencer-me da utilidade de tal reforma, não os encontro.

— Vê se os deixaste no travesseiro — disse a L..., rindo.

— Olha que te falo séria! Nesse caso dir-te-ei que a razão mais justificativa, a meu ver, é a de nos ter proporcionado esta visita matinal, que espero será deliciosa.

Porque, olha que se existissem lá freiras que não fossem penadas, tudo mudava.

Eu odeio, como sabes, os doces e os conceitos das freiras e decididamente não acompanharia o doutor, se me esperassem lá essas duas espécies de gulodices.

Não gostei da feição jocosa que a L... continuava a dar à conversa, e por isso calei-me.

A ditadura de D. Pedro IV estava a ser julgada no tribunal da minha consciência.

Bem vês que o momento era solene.

Tal se manifestou em mim desta vez a influência da madrugada.

Mais poder do que as jovialidades de L... teve porém a voz do administrador cantando junto de nossas janelas como o baixo no primeiro acto do Trovador: Alerta! Alerta! Respondemos-lhe pondo os chapéus e apresentando-nos na rua.

— Vamos a saber, doutor, inventou alguma bonita mentira para nos contar quando estivermos no mosteiro? — Eu?! — Sim; é impossível que há tanto tempo nesta terra tenha resistido à tentação de meditar a esse respeito algum romance.

— Um romance meditado no gabinete da administração! Nem V. Ex." sabe o que pede.

— Nesse caso medite-o no caminho porque não posso dispensar uma história quando visito ruínas.

— É um mau sistema. O mais interessante é fantasiá-la cada um a seu modo na ocasião. É a maneira melhor de nos satisfazer. Eu por mim tenho sempre achado muito aquém do merecimento da cena as lendas dos sítios que visito.

E neste conversar fomos nós matando o tempo do nosso curto passeio.

Como sabes estávamos no Outono e as manhãs eram já repassadas daquela suavíssima poesia da tua estação predilecta.

O caminho que seguíamos, ora por vales cheios de sombras e de mistérios, ora por planuras desafogadas, compensaria de sobra o sacrifício da madrugada, quando a visita do mosteiro nos não reservasse outra compensação.

Àquela hora do dia há mais vida nos campos do que nesses magníficos sarcófagos que se chamam cidades.

Cantam nos montes os guardadores de gado, nos ribeiros as lavadeiras, os lavradores nos campos e o moleiro ao ruído das levadas despedaçando-se nas rodas das azenhas.

Depois e melhor que todos cantam as aves e tantas e tão variadas na cor, no canto e no voo que eu não sei como há naturalistas que as conheçam a todas, se é verdade o que se diz.

Eu sinto-me outra em passeios assim, inteiramente outra.

Pois há lá prazer como o de internar-se a gente por entre campos orlados de moitas viçosas, sebes naturais do onde se debruçam as rosas e as madressilvas seduzindo com seus perfumes o caminhante, que raro deixa de ceder aos encantos destas formosas flores, colhendo- as na passagem? A luz do Sol coada pelas frondes dos álamos e castanheiros e das vides que estreitamente abraçadas com eles suspendem no caminho seus festões verdejantes, cheios de cachos prometedores, derrama uma meia claridade nestas veredas pouco frequentadas e por isso mesmo gratas talvez às recordações de muitos amantes campesinos.

Numa manhã bem clara, passando por uma rua assim, Cecília, parece-me que com os insectos que a minha chegada vai perturbar e que, impacientes, ou amedrontados, se põem a voltear-me em torno da cabeça, se ergue também um enxame de memórias agradáveis que me ficaram pelos campos nos poucos mas deliciosos momentos da minha vida que tenho passado lá, turba inquieta que me envolve, que me embriaga, que me arrebata, no seu voo vertiginoso longe, ai bem longe do presente, da realidade, do mundo.

Digo-te uma coisa; então reproduzem-se em mim aquelas intensas e desanuviadas alegrias de criança que tão depressa os anos modificam, alegrias espontâneas sem pensamento reservado, sem explicação possível, que se não reprimem, que rompem em risos, em cantos, em jogos, alegrias de causa toda interior que nenhum travo perturba.

Depois de algum tempo de caminho o administrador, que dirigia o rancho, retrocedeu a com uma fisionomia entre risonha e contrariada disse: — Uma dificuldade imprevista! — Qual é ? — perguntámos nós a um tempo.

— Nada menos que uma cancela a transpor e uma cancela que se não pode abrir.

Saudámo-la com uma exclamação de prazer que deixou embaraçado o administrador, homem comodista, que desejaria ver alisar-se- -lhe debaixo dos pés em suave macadame todos os caminhos e arrasarem- se-lhe os mais insignificantes estorvos, qualquer que fosse o ponto do universo para onde a necessidade ou o capricho o pudessem um dia levar.

— Então que é isso? Pois deveras não as amedronta uma cancela? ! — Está a gracejar — disse a L... Pelo contrário acolhemo-la como um interessante episódio no decurso de um poema.

— Ah!... pois estão nessas disposições? Então eu lhes prometo dificuldades, verdadeiros episódios para o poema, inclusive um ataque de cães de quinta.

— Menos isso — exclamou a L... já quase séria.

Devo porém confessar-te que efectivamente foi com o coração folgado que eu vi surgir a dificuldade da cancela. Que queres tu? Outra puerilidade minha.

Nisto conservo todos os instintos de criança. É sabido que nada há mais fastidioso para estes pequenos entes, cujos instintos naturais ainda não foram falsificados pelo prosaísmo da vida ordinária e pela influência das ocupações que, tantas vezes com bem pouco fundamento, se dizem mais graves que as deles, como a seguir um caminho fácil, cómodo, feito de propósito, trilhado por toda a gente. Eles odeiam as estradas principais, acham-nas monótonas, sem acidentes, sérias de mais para eles, essas risonhas criaturas de Deus.

E se não, observa aos domingos qualquer desses numerosos grupos de famílias burguesas que transpõem as barreiras da nossa cidade e se espalham nos arrabaldes para sobre a mesa de lousa e à sombra das frondosas ramadas dos deliciosos retiros campestres, celebrarem o bom repasto patriarcal a que classicamente se chama merenda. Enquanto os pais e as mães seguem em linha recta pelo meio da estrada conversando, aqueles, do tempo do cerco, do estado das novidades agrícolas e das questões do abade com a confraria do Sacramento e da confraria com o abade e estas, das criadas, das novenas e das teias de pano de linho que deitaram esse ano; enquanto as meninas donzelas, de braço dado, e languidamente apoiadas uma na outra, entregues a confidências de tal ordem que nem se atrevem a fitar-se, quando muito descrevem ziguezagues caminhando obliquamente entre os dois lados da estrada; o rancho infantil, turbulento, ruidoso, indomável, borboleteia em torno de uns e de outros, ameaçando- lhes perturbar estonteados cometas, a regularidade da trajectória que seguiam. Trepa aos muros, salta aos valados, interna-se nos campos, explora os caminhos vicinais, desaparece atrás de um cômoro, surge às gargalhadas do alto de outro mais distante, pendura-se das árvores, rebola-se na relva, atola-se nos lameiros, rasga-se pelo tojo e silvas, indiferente aos gritos, exclamações, ameaças e até às correcções maternas e paternas.

E se, por acaso, a pacifica caravana depara com uma dessas cancelas rústicas como a que tínhamos diante de nós, enquanto os papás se preparam para abri-la, já as crianças a têm cavalgado, receando perder a ocasião de uma nova peripécia que vem aumentar o interesse do passeio.

Efectivamente abrir uma cancela é uma vulgaridade, é o que todos os dias cada um faz em sua própria casa e uma excursão nos arrabaldes, sendo um facto excepcional no curso monótono da vida, a regra manda evitar tudo quanto seja vulgar.

Eu sou ainda como eles, essas criaturas sem presunção, que não têm pejo de brincar, saltar um muro, sendo possível, transpor uma cancela, franquear um valado de silvas, vadear um ribeiro... que impagáveis prazeres!

Passados momentos achávamo-nos em plena campina.

Tínhamos diante de nós a indicar-nos o caminho um desses estreitos carreiros conservado entre terras cultivadas para o serviço das lavouras. De um lado e de outro eleva-se-nos o milho até aos joelhos.

Em torno uma imensa planície verde onde só alvejavam as camisas brancas dos sachadores dispersos em numerosos grupos em toda ela.

As improvisadas cantigas com que esta gente se anima no trabalho cruzavam-se em disputado certame, interrompido de quando em quando por um coro de sonoras gargalhadas.

O sossego da hora, a vastidão do horizonte do lugar e o timbre puro daquelas vozes deixavam ir ao longe, muito ao longe, esses vilancetes cantados na popular toada da Cana-Verde. Percebiam-se ainda distintamente das colinas circunvizinhas, cujos ecos as repetiam como se participando da contenda.

Altos castanheiros, cuja plena florescência os tingia naquele tempo de reflexos dourados e as faias de tronco liso que, agitadas pela viração, ofereciam alternadamente aos raios solares as duas faces da sua folhagem bicolor, repartiam em figuras irregulares toda esta planície.

Aqui e ali uma pequena casa branca em cujo telhado se beijavam as pombas e volitavam as andorinhas, que vinham aninhar-se-lhe nos beirais. Nos quinteiros adjacentes misturava-se com o agradável ruído de vozes infantis o cantar do galo respondido por o de outros mais afastados.

Depois eiras extensas onde numerosas raparigas ripavam o linho colhido de pouco, cabanas e colmo de tentarem o pincel de um artista, medas de palha dispostas em longas fileiras, que vistas de noite à luz fantástica da Lua, tantas vezes se me afiguravam compridas procissões de monges brancos, aspecto que, sabe Deus, quanta superstição tem fomentado por lá! Plena aldeia enfim, plena aldeia da nossa terra, fértil, risonha, amena, abundante em verdura, em flores e em água, onde a luz e as sombras se casam em misteriosa combinação; cheia de vagos rumores de folhas agitadas, de arroios invisíveis, de gorjeios de aves, de tudo o que consola, de tudo o que nos dá vida.

Tendo atravessado os campos subimos por entre giestas e urzes em flor e à sombra de magníficas carvalheiras, o mais frondoso dos outeiros que os limitavam e, atraídos pelo longínquo rumor de uma queda de água fomos ladeando a encosta até encontrarmos a corrente de onde esse rumor partia.

Era para ver a agilidade com que eu e L... descíamos então a vertente oposta da colina, seguindo sempre a beira da levada, com grande susto da parte do doutor que, a cada momento, estava esperando ver- -nos despenhadas no abismo.

— Cautela! cautela! — bradou ele de longe, embaraçado em afastar os estorvos que lhe interrompiam a passagem.

De quando em quando voltávamo-nos. Víamo-lo apegado aos troncos das giestas, deixando-se escorregar docemente pelo suave declive todo arrelvado e que ele insultou com o nome de despenhadeiro. A nossa hilaridade saudava-o então cá de baixo.

A corrente era a cada passo interrompida por açudes e moinhos, atravessada por pontes rústicas, oculta às vezes pelos arbustos das margens e, dos sitios mais profundos, soltava do seio os amieiros sempre ávidos e insaciáveis de frescura.

Conduziu-nos finalmente este caminho a uma devesa na qual cessaram as tribulações do administrador. O mau humor que a descida lhe tinha exacerbado desvaneceu-se totalmente no remanso que o esperava ali e não foi ele o que menos se riu dos seus passados terrores e apreensões.

Mas que devesa aquela, Cecília! Que íntimo recolhimento ! Que misteriosa tranquilidade! Os rouxinóis, ocultos na copa espessíssima de carvalhos seculares, cantavam à porfia sem que a nossa presença os inquietasse. A andorinha dos bosques, cheia de confiança, passava ao nosso lado perseguindo os insectos com aquela graciosa agilidade de movimentos, que nos encanta nela. De quando em quando uma folha seca, uma lande desprendida da árvore vinham cair-nos aos pés; um raio de Sol que, atravessando já amortecido aquele arrendado de verdura, descia a procurar na relva a florinha cor de anil que não sei que nome bárbaro tem em botânica, traçava obliquamente no recinto assombrado pelo arvoredo uma coluna luminosa que se dissera fuste tombado de um templo em ruínas. Insectos de cor variada, cujos zumbidos eram o maior rumor daquela solidão, seduzidos por este raio de luz procuravam-no com ansiedade e vertigem.

Instintivamente falávamos baixo ali.

Subjuga-nos tanta solenidade, intimida-nos, sentimo-nos pequenos e;.. —A caminho! a caminho!—foi a exclamação que ruidosamente nos arrancou da silenciosa abstracção em que pouco a pouco nos deixáramos cair.

Desnecessário será dizer-te que foi do doutor que ela partiu.

Para tanto só a coragem dele.

— A terra da promissão não está longe — continuou, apontando por entre um claro que deixava a folhagem.

Olhámos nessa direcção. Descobrimos ao longe a grimpa e toda a parte superior de um velho campanário. Saiu-nos dos lábios uma exclamação de prazer a mim e à L...

— O mosteiro ? — O próprio.

A estas duas palavras sucedeu o silêncio. Com os olhos fitos naquele enegrecido edifício que, pouco a pouco, parecia ir-se despojando à nossa vista do invólucro da folhagem que ao princípio no-lo encobria, fomos caminhando para ele de novo, possuídas daquela mesma impressão que sentíramos na véspera.

Perdoa à minha ignorância de arquitectura se omito a minuciosa descrição daquele vetusto convento, transformado hoje em uma dúzia de coisas muito diversas, que nem já te sei enumerar. Não perdes muito, tu, nem perde a arte com a lacuna porque afinal de contas conhecia-se pelo que vimos ainda dele que o convento nunca passou de uma dessas construções irregularíssirnas, acanhadas, sem estilo, que um pensamento religioso erguia a cada canto para abrigo dos foragidos aos tormentos mundanos e nos quais se procurava simbolizar o desapego ãs vaidades da Terra na ausência completa da menor beleza arquitectónica. Extensas paredes crivadas de janelas mesquinhas, carência absoluta de simetria nas construções posteriores à do edifício principal, assim uma coisa à semelhança do convento de Corpus Christi em Vila Nova de Gaia e mais nada.

Tinha alguma razão o administrador quando nos falava no carácter prosaico das modificações que o tempo introduzira neste mosteiro.

Nada do grandioso das ruínas! renovações escandalosas, verdadeiros sacrilégios de arte, isso, muitas. Montes de palha por toda a parte e a vegetação das hortaliças de uma exuberância insolente! AL... bem se esforçava por reconstituir um romance com o pouco que via; mas as galinhas que esgaravatavam nos claustros dilaceravam- lho à nascença. É uma ave essencialmente burguesa a galinha.

Não há lenda que possa florescer onde constantemente cacarejam estes prosaicos bipedes.

AL... chegou a desesperar.

— Visto isso, nem uma pedra histórica, nem uma memória ligada a estas paredes. Ó doutor, compadeça-se desta nossa ansiedade.

Recorde, descubra, invente um romance — dizia eu.

— Eu só conheço o lugar como a matriz de um círculo eleitoral e ligada a este recinto só posso recordar-me da história das eleições passadas.

Cheguei a odiar o administrador ao ouvir-lhe dizer isto.

— Silêncio ! Nada de profanações.

— E contudo estas naves — disse a L... entrando na igreja, efectivamente a parte mais solene do edifício — são ainda assim longas, elevadas bastante, convenientemente obscuras. Nem as reformas tolas dos restauradores conseguiram privá-las de uma certa majestade e poesia.

Doutor, doutor, eu quero levar daqui alguma impressão mais duradoura ! Não saio sem isso.

E, dizendo estas palavras, encaminhou-se para uma capela mal alumiada por um lampadário antigo e ainda não visitada por nós.

Seguimo-la. À entrada, porém, a imprevista aparição de um vulto fez-nos recuar. Não era afinal nenhuma alma do outro mundo, tão somente um rapaz muito pálido, vestido com singeleza, o qual com um sorriso modesto e melancólico nos cortejou.

 

O doutor correspondeu-lhe com um gesto de afabilidade.

— Quem é este homem ? — perguntei ao doutor quando o recém- -aparecido se afastou de nós.

— É o mestre-escola da aldeia.

— Ninguém o dirá! Tem uma fisionomia inteligente.

— E desta vez não fica mal Laváter.

— Deveras? Mas... mestre-escola! — Então que quer? Com aquele estofo — disse o doutor, apontando para ele que já ia à porta da igreja — fazia-se talvez um bom académico, fazia. Mas amarraram-no à atafona das primeiras letras.

Nisto saía a L... da capela, verdadeiramente desesperada.

— Não há meio de tirar coisa alguma destas paredes. Temos de nos resignar a partir com as nossas carteiras em branco. Incomode, sacuda a sua imaginação para nos mentir, doutor, ande. Invente, seja amável uma vez na vida.

— Não sou poeta e V. Ex.as perderam talvez a ocasião de satisfazerem tão inofensivo desejo deixando sair esse rapaz.

— Quê! Pois é também poeta! exclamei, admirada.

— Afiança-me que pode dizer-nos alguma coisa interessante ? — perguntou a L...

— Aqui, para o que V. Ex.as desejam, ou ele ou ninguém.

— Pois vou chamá-lo.

E a L... com aquele estouvamento que lhe conheces dirigiu-se para a porta, sem fazer caso das minhas observações e dentro em pouco voltava com o pálido mestre-escola, singularmente embaraçado com a assistência que se lhe pedia.

— Emprazamo-lo — disse a L..., usando das maneiras convenientemente familiares com que logo à primeira entrevista sabe pôr à vontade os seus interlocutores. — Emprazamo-lo para que nos tire destas paredes, destas naves, destas abóbadas uma memória, uma lenda, um drama, seja o que for. Porque, há-de concordar, ir a gente daqui sem qualquer destas coisas é desagradável, é impertinente, é triste.

O professor sorriu e naturalmente dirigiu o olhar para a capela de onde o víramos sair.

— Dali ? — exclamou a L... que lhe seguira o olhar. —Bem me quis parecer. Há um ar de mistério naquele altar, há; mas já procurei e nada vi.

— Quer V. Ex.' que as paredes falem, sem se lembrar que elas só dizem o que a gente lhe ordena.

— Cale-se, doutor. Os códigos asfixiaram-lhe toda a poesia que talvez em tempos felizes existiu em si. E se não experimentemos. Glose este mote alambicado:

Saudade, cruel saudade Tormento da minha vida.

— Não sou capaz de a satisfazer a não ser que me conceda algumas semanas para procurar inspiração nos autos administrativos e partes dos regedores.

— Então, silêncio! Este senhor, tenho fé que satisfará gentilmente a nossa curiosidade. Ou ele não fosse um poeta! — Poeta! — disse timidamente o interpelado.

— Sim. Sabemo-lo porque o doutor o denunciou e denunciava-o até esta sua visita solitária à capela de onde há pouco saiu. Vamos, diga-nos, o que há nela de interessante? O mancebo continuou a sorrir e parecia hesitar em tomar uma resolução. Depois, corando levemente, tirou de um livro que trazia na mão um pequeno papel, no qual se enfileiravam linhas regulares de uma letra miúda mas de traço firme e entregou-o sem pronunciar uma só palavra à L,.., que se apoderou dele com vivacidade. Com não menor presteza nos aproximámos eu e o doutor e por cima do ombro da L... fomos acompanhando a leitura das seguintes quadras, leitura a que ela procedeu com voz profundamente comovida

A NOVIÇA

«Oh! vem, querida irmã; do santuário do templo
Já desce a receber-te o celestial esposo.
Vem ser da nossa fé sublime e vivo exemplo;
Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.

«Vem; dos círios à luz, ao som de alegres hinos, Cinge o hábito escuro, emblema da humildade,
E, abrasada no ardor dos teus estos divinos
Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade.

«Esposa do Senhor, virgem cândida e pura, Do teu noviciado expiram hoje os dias.
Não tremas ao fitar as portas da clausura, Também na estreita cela há grandes alegrias.»

Assim das monjas soa o religioso canto: Juntas, em procissão pelas extensas naves Espalham-se na igreja as vozes do hino santo Melancólica voz de aprisionadas aves.

Caído o longo véu por sobre a fronte airosa
Caminha lentamente a pálida noviça;
Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,
Um como cintilar de lâmpada mortiça.

Sobe os degraus do altar, humilde se ajoelha
E ao culto fervoroso as tranças sacrifica.
«Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,
Teus tesouros d'amor nas asas santifica.»

E o coro ergue outra vez o ritual hosana,
Entre nuvens de incenso, à voz do órgão sagrado ; Responde-lhe o rezar de multidão profana,
Que transpôs curiosa o pórtico elevado

A cerimónia é finda; a monja de joelhos
Permanece, inclinada a face para a terra ;
Era no ocaso o Sol; e seus clarões vermelhos
Vinham tingir o altar, ungindo ao longe a serra.

Longo tempo ali esteve, as pálpebras descidas,
. Imóvel, silenciosa, em êxtase absorta,
Ergueram-na afinal as monjas comovidas;
Doloroso mistério, a pobre estava morta!

— Tinha ou não razão ? — exclamou a L..., elevando ao ar o papel assim que acabou de o ler.

Todos instintivamente procurámos o autor. Havia desaparecido.

Estupefactos olhámo-nos em silêncio sem saber o que pensar desta surpresa. Bem longe estava eu naquele momento de encontrar um metrificador de alexandrinos ! — Agora o que me apetecia decifrar — disse eu ao doutor — era o mistério deste melancólico e simpático mestre-escola.

— Se V. Ex.* ordena, porei em acção os meus cabos de polícia para qualquer dia me habilitar a revelar-lho, já se sabe, em estilo de relatório administrativo, — Pois olhe, esse mistério preocupa-me pouco — disse L... — o que pretendo é saber os fundamentos disto — e apontou para o papel que conservava na mão.

— Fantasias — disse o doutor.

— E como diz isso! Fantasias! E é coisa de pouco valor isto de fantasias? Assim fantasia quem quer ? Pois há três horas estou eu a pedir-lhe que fantasie e o doutor sem me fazer essa fineza que, pelos modos, lhe parec e fácil tarefa. Ora, na verdade, não lhe mereço essa crueza de frase que me está revoltando.

— Por amor de Deus, não me condene, minha senhora. Ninguém admira mais do que eu as obras de imaginação; mas como vejo que V. Ex." quer achar forçosamente razão de ser a uma coisa que a con• tém em si, é por isso que eu...

— Mas ele olhava insistentemente para esta capela. Deve estar aqui a explicação que procuramos.

— Vamos — disse eu — tenha a condescendência de procurar connosco.

— Mas procurar o quê ? — O mistério.

— Mas que mistério ? — O vestígio do drama denunciado nestes versos — disse a L... — Venha, acompanhe-nos.

Investigámos tudo. Eu, pela minha parte, nada encontrava. AL.. . não era mais feliz. De repente o doutor perguntou, no tom de indi• ferença que lhe dera para afectar naquela manhã; — Serve-lhes uma inscrição tumular ? — Uma inscrição? — exclamou a L... —Pois que mais poderemos querer ? Está decifrado o enigma! Leia, leia depressa.

— Hic jacet — principiou a dizer o doutor.

— Latim, doutor! — exclamámos nós a um tempo, com o mais justificado dos terrores.

— Eu traduzirei, que até aí ainda chega a minha sabedoria.

O pior é que as letras estão quase todas safadas. Aqui jaz... a irmã Maria de.. . não sei quê... Nasceu aos... do ano do Senhor de mil seis• centos e... tantos, professou aos... tantos de tal e morreu in codem no mesmo dia. Pater noster.

— Vitória! — exclamou a L... com um grito que ecoou por toda a igreja. — Até que enfim! Esta pedr a com o seu eloquente laconismo vale um tesouro! — Que entusiasmo! Não o compreendo — dizia o doutor, sorrindo.

— Que grande significação acha V. Ex." nessa descoberta? — Que significação ? Pois não vê nela confirmada a interessante história contada nestes versos? Desvendado o doloroso mistério que matou aquela pobre mártir no próprio dia do seu noviciado? — Romances, romances... poesia, minha senhora. Se V. Ex.a quer, eu vou glosar-lhe mais prosaicamente este epitáfio. Era talvez uma menina...

— Cale-se, bárbaro ! Que aflição! Não lhe perdoaria nunca se me tirasse a memória agradável que afinal consegui levar daqui. E, sabe ? Vou rezar por aquela desventurada.

E a L..., ajoelhando junto ao altar da capela, pôs-se a rezar. No entretanto dizia eu ao doutor: — O que me parece interessante, curioso e, quem sabe se huma• nitário até, é estudar o carácter e história deste mestre-escola tão triste quanto simpático. Porque não há-de dar-se a essa tarefa, doutor? — Estava pensando agora nisso mesmo. Alguma coisa que sei já dele excita-me a curiosidade.

— Então diga o que sabe, diga.

— Deixe-me investigar o que me falta saber para então lhe contar a história completa.

— E promete não se esquecer ? — Prometo.

1— Dou-lhe então quinze dias.

— Será pouco; mas farei a diligência por não faltar.

Ao sair da igreja ainda fomos à escola da aldeia procurar o profes• sor, mas não o encontrámos. Voltámos em seguida para casa. AL... com a poesia e com a sincera crença na história da noviça, história que ficará sempre misteriosa se algum romancista a não quiser decifrar, e eu inte• ressada em conhecer a vida deste mestre-escola e insistindo com o dou• tor para se não demorar em satisfazer esta tão justificada curiosidade.

Se ele cumprir a promessa, terás cedo, minha Cecília, notícias minhas.

Diana de Aveleda.

CARTAS PARA A MINHA FAMÍLIA

Meu amigo

Voltámos ontem do campo sem que merecêssemos à política o favor da tua presença, por poucos dias que fosse.

As pequenas chegaram boas e parece-me que não demasiado saudosas dos prazeres e das belezas campestres.

É tão raro que raparigas de dezasseis anos amem a bucólica! E é pena, que se me enchia o coração de alegria e de confiança, quando as via a elas à sombra daquelas árvores salutares, respirando com desafogo um ar embalsamado e vivificador.

Não sei como me persuadia de que era impossível que elas me adoecessem ali.

Sabes, meu amigo, aqueles meus continuados sustos, aqueles meus escuros pressentimentos pela saúde dos nossos filhos, motivo de me ralhares tantas vezes? Pois nunca os senti lá.

O campo era para mim como uma destas pessoas de juízo a quem se deixa entregue um filho, quando a necessidade nos obriga a sepa- rar-nos dele por momentos.

Olhava para aquelas velhas e frondosas árvores e parecia-me achar- -lhes uns ares protectores e amigáveis que me inspiravam confiança.

Dir-se-ia que ao abrigarem minhas filhas na sua sombra me diziam: Deixa-as connosco que tas protegeremos.

Mas enfim viemos; aqui estamos outra vez nesta terra do Porto e aqui estaremos até à hora de emalarmos para qualquer praia de banhos.

E tu em Lisboa, e tu ocupado em acudir à Pátria, meu bom amigo, e esquecendo por ela um poucochinho a família.

É uma virtude cívica a venerar em ti, Gustavo? Será? Eu sei? Desculpa-me mas, como sabes, não morro de amores pela política. Ou eu não fora mulher, com quem em geral os políticos são bem pouco amáveis.

Além de que a política ocupa-se de umas pequeninas coisas, que são, sem contestação, as mais detestáveis de todas as coisas pequeninas.

Mas deixemos por hoje as minhas reflexões e reparos sobre politica, Gustavo, e façamos como é nosso costume, quando aqui estás. Lembras-te? Depois do chá conversamos às vezes horas esque• cidas sobre os acontecimentos do dia, ora domésticos, ora civis, ora alegres, ora tristes, e dizemos tudo quanto nos acode à ideia, sem observância de programa nem de método, sem escrúpulos de estilo e até sem rigoroso respeito pela coerência lógica da opinião.

Se a politica te não derrancou ainda de todo a bondade natural e te não cerrou a alma às expansões afectuosas, ser-te-á agradável a leitura das minhas cartas escritas, como conversamos, à vontade.

Escrever-te-ei sob a impressão dominante do dia. A de hoje é pouco agradável.

Como te disse, chegamos do campo e as pequenas vinham ver• dadeiramente ansiosas pelas distracções da cidade.

Andavam-me a falar em toilettes e teatros havia oito dias, Não tive remédio senão condescender.

Ao entrarmos na cidade depararam-se-nos nas esquinas uns car• tazes enormes, anunciando no teatro de São João a Grã-Duquesa de Gerolstein.

As pequenas fitaram-me uns olhos eloquentes.

Este olhar, as saudades que eu deveras sentia já por aquele nosso elegante teatro e este titulo Grã-Duquesa, que há tanto tempo me anda nos ouvidos como um zumbir de importuno mosquito volteando em torno de mim, formaram a minha resolução de ir ao teatro essa mesma noite.

Fui; fomos e que doida alegria a da Ernestina e da Luísa! Pobres pequenas! apesar de todo o prazer que me vem sempre da vossa ale• gria, quis mal a mim mesma por ter cedido à tentação desta vez.

O Gustavo, tu que viste já a Grã-Duquesa, não adivinharás o resto da minha carta? Tu que tens vivo o sentimento e o respeito da arte, que te entusiasmas pelo belo, que concebes o que deve ser o teatro na sociedade, não voltaste de assistir a essa híbrida e absurda compo• sição teatral, como eu vim ontem de lá? com desgosto, com tédio, com indignação, duvidando do progresso da arte, acreditando na total degeneração do gosto entre nós? Que época atravessamos, meu amigo? Que cidade de quase cem mil almas é esta em que só se aplaude o disparate ? Há nada mais vergonhoso do que uma crónica da última época teatral no Porto ? Dois êxitos brilhantes a caracterizam: O jovem Telémaco e a Grã- -Duquesa, dois disparates, duas irreverências para com o bom senso, para com o bom gosto, para com a arte nobre e digna, para com a arte que se respeita!

Mas não é isto uma imoralidade também? Pois não é certo que as belas artes têm uma missão social a preencher ? Não é certo que encaminhá-las erradamente é ofender o interesse público ? Não é verdade que progride na carreira da civilização um povo, cujo bom gosto e instintos se educam e aperfeiçoam pela arte e que se deprava e desmoraliza o que se costuma a insultá-la? Que malévolo espírito move então os artistas a perverterem assim o gosto em vez de o educar? a porem às ordens do despropó• sito e do desconchavo as harmonias da música, a cadência da poesia, as ilusões da pintura, numa palavra, todos os prestígios da arte ? E ilumina-se para isto um teatro! e enfeitam-se as senhoras nos toucadores! e rodam as carruagens nas ruas e avilta-se uma orquestra para acompanhar o carro do triunfo do disparate! E no dia seguinte emprega-se tipo para falar no assunto! Acabou pois a religião da arte entre nós? Pois não é a arte uma religião também? Não haverá ninguém a quem estas orgias aflijam e revoltem, como o austero, o fervente sacerdote que visse o tripúdio profanando o lugar de augustos sacrifícios ? Esta aberração do gosto público, este desvairamento que invade todas as cabeças, esses excessos e abusos que fazem recuar séculos o nosso progresso artístico, dura, reina, propaga-se, sem que uma coorte de leais entusiastas e vigorosos lutadores se levante para com• bater a todo o transe o mal deplorável! combatê-lo através de sacri• fícios, combatê-lo apesar da indiferença ou das repugnâncias do público, combatê-lo como combateu Garrett, como combateu Vítor Hugo, como combateram todos quantos tentaram uma reforma literária útil e eficaz.

Pois tinha fé que venceriam, se bem de alma e com boa coragem o tentassem! Os instintos da arte não morrem no povo; adormecem às vezes; mas é pronto o seu acordar, se os desperta uma voz altí- loqua animada por uma verdadeira crença, por uma sincera e pura intenção.

É preciso pronto remédio para este mal, que é grave.

Há muito que lavra, revelado por essas produções mórbidas da arte, que se chamam paródias e disparates, galhas venenosas que vegetam sobre os ramos viçosos de uma literatura e lhe roubam a seiva dissipando-a em excrescências balofas e inúteis como bugalhos ou prejudiciais como esses cogumelos destruidores das searas.

Isto acusa uma debilidade crescente na imaginação dos autores e uma assustadora irreverência nas massas para tudo quanto há de belo e portanto de venerável.

Afadiga-se um compositor em traduzir pela música as paixões violentas, os efeitos suaves, as tristezas e os júbilos, que formam o drama da vida. Exaltado, febril, na excitação nervosa que acompanha os mistérios da concepção, não vive senão para aquela ideia, através da qual antevê o esplendor da glória. A inspiração visita-o, ilumina-lhe as noites de tão longas e laboriosas vigílias e após esta aurora, surge a obra de arte esplêndida, impregnada do pensamento do artista, cheia de vida e de futuro e anelando levantar o voo em busca de mais amplos horizontes, por um instinto como o da ave que, ainda com pouco vigor para bater as asas, já estremece seduzida pelo espaço vasto que a rodeia.

Um dia parte a filha predilecta. Separa-se dela a procurar a rea• lização da sua última metamorfose, a sua encarnação final.

Chega ao teatro perante uma multidão que a aguarda despre • venida ; revela-se enfim, primeiro timidamente como se as nervosas pulsações do compositor naquele momento se reflectissem na obra ; pouco a pouco ganha coragem e desassombro; fala, penetra nos cora• ções, subjuga os sentidos, domina as massas, e o sonho da ambição do artista realiza-se e compensa-lhe as vigílias de muitas noites uma só noite de glória.

Mas, a um canto da sala, no meio desse mesmo entusiasmo e delí• rio, há um coração frio e incapaz de sentir, que se não comove; há um olhar maligno que estuda a comoção da plateia e não se fascina; há um pensamento satânico que premedita uma obra sacrílega.

E uma noite basta a esse espírito para consumar a obra fácil, ímpia, fatal à arte, perversa e imoral que premeditou: A mesma música concebida para exprimir sentimentos e paixões elevados e nobres é por ele rebaixada às vulgares, ridículas e insulsas peripécias de um enredo chocho e rasteiro; e a musa que nas vestes alvíssimas com que a inspiração a cingira, arrebatara a multidão, agora, irreverentemente, vestida com o jaleque multicor de truão e atada ao pelourinho das praças, receb e as alvares e insultuosas gargalhadas dos mesmos que a adoraram e que experimentam um maligno prazer em desprestigiar o seu ídolo.

E quando de novo se apresenta aos mesmos olhares, sob as suas primeiras vestes, há sempre quem se recorde de a ter visto já de outra maneira, e ainda então o riso a insulta.

Não é esta uma acção altamente condenável? Não é quase o mesmo que expor em completa nudez aos olhos cinicamente curiosos do povo uma virgem ingénua e pura, cuja ino• cência os mais ousados respeitam e condená-la assim a corar eter• namente ao recordar a sua involuntária aviltação? E esta profanação é a última recompensa que recebe o artista pelas suas fadigas! Nos seus sonhos de glória não contara com o apupar das turbas! E consente-se o atentado! E não se protege a obra do génio de tão irreverentes ataques? Estes insultos tem-nos recebido com a música, a poesia também.

A paródia nada respeita. Os mais belos tipos, as mais ideais concepções, as mais brilhantes imagens que tem concebido uma fantasia de poeta, de dramaturgo, de romancista, tudo ela abocanha e profana.

Para fazer rir as turbas, os truões dos nossos dias, ignorantes dos verdadeiros mistérios da arte, destituídos de engenho, incapazes de produzir nada útil, especulam com os contrastes irreverentes e fazem rir como o macaco porque irrisòriamente imita as visagens do homem, como o papagaio porque de igual forma, lhe imita a fala! E todos riem, ainda que me quer parecer que no peito de lodos se esconde certo desgosto, como o que eu sinto e em geral toda a gente, perante essas duas paródias do homem, que nos apresenta a natureza. Quem há que experimente por um mono a mesma afeição que tem a um cão? Ou que ligue a um papagaio o interesse que lhe inspira o original e inspiradíssimo rouxinol? Em geral é o gosto duvidoso de um embarcadiço ou sertanejo da América que mais os aprecia.

Mas ao lado da paródia nasce o disparate. É mais um passo dado pela arte no caminho da devassidão.

A musa perd e então todo o casto pudor que caracterizava as nove filhas de Júpiter.

Ei-la no palco, desgrenhada, descomposta, ébria, rouca da orgia e do tripúdio, soltando como a bacante cantigas licenciosas e risadas cínicas. Reparem para aqueles gestos, para aquelas maneiras, para aquelas danças e digam se ó esta a musa que se respeita, se é esta a musa que civiliza.

E é no mesmo tablado onde nos apareceu já a severa e nobre Melpómene, no palco onde se nos revelou o génio de Donizetti, de Bellini, de Meyerbeer; em que o drama leal e consciencioso nos tem por vezes comovido e onde havemos aplaudido a boa e salutar comé• dia; é a esse mesmo tablado que deixaram subir a embriagada?! E não receiam que não volte ao templo assim profanado a arte que se preza? Fechem antes os teatros, fechem-nos, porque os espectáculos assim não são os que civilizam, corrompem; não educam, pervertem.

Sabes tu, meu amigo? estou em acreditar que vamos a respeito de arte num período de retrocesso.

Não sei se te lembras de que nos nossos tempos de criança havia nesta hoje tão enfastiada cidade uma companhia lírica italiana e uma companhia nacional. Tenho uma vaga ideia de que o teatro português, bom ou mau que fosse, era então concorrido, que ninguém se enver• gonhava de o frequentar e de se interessar por os assuntos teatrais.

A arte não florescia, é certo, mas encontrava no interesse do público uma garantia da sua regeneração. Pouco a pouco abandonaram o tea• tro nacional e só foi moda tratar do teatro lírico. Hoje nem desse.

De maneira que no decurso de um ano, abrem-se três ou quatro vezes as portas dos nossos teatros e lançam-se ao difícil e apurado paladar do nosso público delicados manjares como este : «El jovenTelémaco», «Franchifredo», «Os sete castelos do Diabo», a «Grã- -Duquesa»; amanhã o «Barba-Azul» e não sei quantas mais paródias, mágicas e disparates e tudo isto condimentado com uma especiaria de cenas cómicas insulsas e farsas sem sabor, em que um falso cómico usurpa o lugar do cómico de bom quilate.

E o talento de alguns bons actores que temos, a corromper-se a falta de exercício nobre e consciencioso da arte! Diz-me tu quantas vezes encontras o Taborda desempenhando um papel digno dele ? Do coração abomino todos os colaboradores desta obra ímpia da depravação da arte. Não perdoo, por exemplo, a Offenbach o aceder ao derrancado gosto da época, pondo ao serviço dele o seu grande talento musical. Um homem verdadeiramente artista nunca o teria consentido.

O sacerdote que, para satisfazer os caprichos de uma companhia de ébrios, consente em entoar salmos e antífonas na sala de uma orgia, avilta a religião de que é ministro e polui os lábios que nunca mais celebrarão nos altares com a pureza digna do sacrifício.

Mas, dizem os homens para quem as regras do bom gosto são mudáveis e chegam todos os anos com os figurinos de Paris e das capitais à moda, que escrúpulos são esses de portuguesa puritana? Acaso não se aplaude hoje a «Grã-Duquesa» em Paris? o «Barba- -Azul»? e todo este género a que tanta aversão mostras? E que me importa ? Se fosse certo como dizem, que em Paris é este o gosto dominante, o que não posso ainda acreditar, se fosse certo que o mais espirituoso povo do mundo precisava já para excitar a sua embotada sensibilidade, destes derrancados produtos de uma arte aleijada e doentia, eu não duvidaria dizer que a arte estava em lamentável decadência lá também; que a imaginação parisiense sen- tia-se esgotada e o gosto em via de perder-se.

Se em vez de se r só Paris, toda a Europa, todo o mundo aplau• disse estes escândalos, ainda assim a consciência nos dizia que toda a Europa, que todo o mundo estava em declinação em assuntos de arte e de gosto porque não são de convenção as regras do belo. Há em nós alguma coisa que no-las formula, que no-lo ensina a reconhecer e que nos dá a coragem e a convicção para nos revoltarmos contra a opinião geral, quando a sentimos extraviada da verdadeira e recta estrada que o gosto e a razão lhe traçaram.

Mas não é assim, não pode ser assim! Em Paris ao lado do mal está o remédio; ao lado da arte doente e degenerada, a arte sã e vigorosa.

Entre nós o mal é maior porque, nação de pouca gente, quando o mau gosto estabelece uma corrente para os teatros, desaparece o bom gosto, à falta de quem o siga.

E depois nós hoje estamos em um período de educação artística, desfavorável à verdadeira arte e no qual estes excessos são perigo• síssimos O gosto de uma nação corre fases como o gosto de qualquer indi• víduo. Em criança, por exemplo, o teatro interessa-nos de uma maneira diversa daquela por que nos influi adultos. É o enredo do drama que nos comove e não as belezas literárias, não o mérito dos artistas que, se nos influem, é sem que o percebamos. Choramos as desgraças da protagonista, odiamos o tirano, aflige-nos como real a morte das personagens simpáticas, trememos ante a perspectiva de um duelo e recolhemos a casa alegres ou tristes, conforme a natureza do desfecho.

Esta ingenuidade dissipa-se cedo ; substitui-a mais tarde o gosto pelas belezas da composição e da execução. Este, porém, forma-se mais lentamente do que se dissipa a primitiva ilusão de que falámos. Daqui resulta haver um período de transição em que já nos não ilude o enredo como em criança nem ainda nos comovem as belezas literá• rias, como quando o bom gosto se formou em nós.

Nesse período frequenta-se o teatro com insensibilidade artística, apreciam-se tanto os intervalos como os actos, é indiferente perde r uma cena inteira ou no principio ou no fim e, se a moda pôs isso em costume, adopta-se o costume da melhor vontade.

Então aplaude-se tudo quanto a moda recomenda, o entusiasmo não é espontâneo, é de convenção e antes de saber se nos devemos arrebatar, perguntamos se o que vemos já arrebatou alguém que auto• rize o entusiasmo.

O nosso povo na sua educação artística está quase neste caso, acha-se neste antipático e estéril período de transição.

Perdeu já aquela ingenuidade dos bons tempos em que corria aos teatros interessado pelas peripécias dos grandes dramas em que chorava e ria e se indignava com diversos episódios que presenciava de boa fé; em que tão completamente encarnava nos actores as per• sonagens do drama, que nem os distinguia.

Ele não queria então saber quem er a o autor da obra dramática, que o interessava. Esquecia-se até de que um drama precisa de ter um autor.

Estava na infância do gosto, nem os teatros eram então con• corridos.

Desenvolveu-se, porém, o nosso público e hoje já assiste com o sorriso céptico aos espectáculos; já tem vergonha de os tomar a sério, de chorar nas cenas sentimentais, de rir abertamente nas cómicas. Mas, por infelicidade, o bom gosto não veio ainda ocupar o terreno para fazer florescer a arte. Não há ainda bastante amor e conheci• mento dela para manter entre nós um teatro permanente.

Quem dá as leis, quem domina exclusivamente é a moda. Aplau• de-se o bom e o mau, contanto que a moda o recomende.

São capazes de fazer hoje uma ovação à Ristòri e passar a noite seguinte a ouvir em delírio as intermináveis e insulsas coplas de Telé- maco na ilha de Calipso.

Ponham pois em moda o bom, os legisladores da moda Perdoa-me demorar tanto esta minha conversa, Gustavo; mas sabes que eu tenho destas indignações a que preciso dar expansão.

Custa-me ver que, reconhecendo o mal que está corrompendo entre nós a arte nascente, não se organize entre os nossos homens de letras uma cruzada leal e corajosa, tendo por divisa a arte e comba• tendo sem quartel nem misericórdia o mau gosto que nos vem do estrangeiro de mistura com os chignons e os mais artigos da moda. Adeus que chegam visitas a que tenho de atender; até breve.

Porto, 6 de Setembro de 1868.

Diana de Aveleda

A ILHA DA MADEIRA

Funchal, Março 1870

Meu amigo Funchal, Março 1870

Recordo-me de lhe haver prometido, ao separarmo-nos, escre- ver-lhe de quando em quando desta ilha, onde pela segunda vez abordei, à procura do ideal que se chama saúde.

Tarde me lembrei do cumprimento da promessa; mas a tempo vai ainda.

Não é uma monografia que eu vou fazer. Deixarei em paz a constituição geológica, a flora, a fauna da ilha e todas as questões médicas, económicas e políticas que se prendem a este torrão fertilís- simo. O meu intento é mais modesto.

Quero mostrar-lhe a Madeira através das individualissimas impres• sões que o meu espírito recebe nela e isto sem plano, sem método, sem coordenação didáctica e só conforme a corrente irregular e capri• chosa das minhas ideias.

Fazer-lhe esta observação equivale a avisá-lo de que não serão de tintas muito vivas os quadros que traçarei.

A imaginação de um valetudinario tinge de cores amortecidas as mais ridentes paisagens e as cenas mais pitorescas que observa; para ele o brilho do Sol é visto como através de um cristal corado; perceb e as gradações de luz, mas sempre sob o tom uniforme e som• brio do cristal, que neste caso se chama: preocupação.

As viagens, esse sonho dourado que tanto seduz a imaginação da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes e bater asas em demanda de climas novos, transforma-se em amarga proscrição, sempre que as empreendemos, forçados por uma triste necessidade e partimos levando o espírito assombrado por uma ideia, ou antes, por um pressentimento doloroso, Nada então nos compensa as lágrimas da despedida e o cruel confrangimento do coração, que responde ao último adeus do amigo que, de olhos húmidos, nos acena da gare do caminho de ferro ou nos aperta a mão no tombadilho do vapor. Partimos com a alma oprimida e sem aqueles voluptuosos estremecimentos de júbilo que se mistu• ram às saudades de quem se aparta dos seus, seduzido pelo prazer de viajar.

Quando se perd e de vista a terra em que nos ficaram todos os afectos Íntimos, parece-nos escutar uma voz interior a perguntar-nos se voltaremos a vê-la. E não há um clarão de esperança a responder a essa interrogação! Que tristeza a daquele instante! Depois o mar, o mar, esse imenso foco de melancolias, acaba de escurecer-nos o pensamento! Olhar em roda e não avistar um só desses objectos que nos falam do passado, da família, do remanso doméstico! Ver tudo em movimento, tudo em irrequietação, tudo revolto! Ter necessidade, para satisfazer a instintiva ânsia de repouso que sen• timos, de elevar os olhos para o Céu, como faz o homem desalen• tado pelo tumultuar das vagas da vida e que considera aquela outra pátria como o único lugar do verdadeiro repouso. Impressões são estas que não dissipam as nuvens do nosso horizonte, antes mais as carregam.

Apesar da sua grandiosa solenidade, o oceano é um desconso- la,dor companheiro para a alma naquelas disposições.

Por isso quando, ao amanhecer de um desses dias longos e deso• ladores se avista além, muito além no horizonte, uma sombra mal dis• tinta, através da qual só o olhar amestrado do marinheiro consegue distinguir a terra demandada, saúda-se essa sombra como uma pro• messa de redenção.

Todos os olhos a procuram com ansiedade e, à medida que ela se ergue e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas naturais, revelando-se enfim, tal qual é, entre o azul do mar e o azul do céu, dissipa-se a mais e mais a cerração da melancolia que nos pousava no coração.

Como a ave, extenuada de longa travessia por sobre mares vas• tíssimos, abate o voo a repousar na terra que lhe surge do seio das ondas, assim o espírito, cansado daquela imensidade e irrequieta agitação das águas, voa a engolfar-se no regaço das verduras que parec e haverem enfim obedecido à evocação das suas nostálgicas saudades.

Quando a formosa ilha da Madeira, levantando-se da espuma do mar como a mitológica Citereia, crescia para nós a receber-nos, abrindo o seu seio,benéfico e maternal aos desconfortados que nela só depositavam as suas derradeiras esperanças, sentíamos todos pene- trar-nos o coração um desses suaves prazeres como o que nos produz, no meio de uma turba de estranhos, o encontro de um rosto e de um sorriso de amigo.

Formava um consolador contraste com a tremenda severidade do mar a amena perspectiva da ilha! Horas depois de a avistar, a marcha rápida do vapor fez-nos dobrar o cabo de São Lourenço; transpondo o amplo pórtico que ele forma com o grupo das penhascosas Desertas, sentira-se uma súbita mudança de clima, como se de repente se tivessem vencido muitos graus de latitude. Afagou-nos a face a brisa tépida e perfumada da ilha, aspirámos com prazer o hálito acalentador e salutífero desta fada marítima; achávamo-nos sob o seu abençoado encantamento, reco• nhecíamos enfim a Madeira! A costa do sul ia passando em revista com as suas rochas escar• padas, as suas ribeiras profundas, a sua vegetação vigorosa, as suas formidáveis quebradas e os altos picos onde pousam as nuvens, os vales fertilíssimos e as povoações graciosas.

Momentos depois, vencida a ponta do Garajão, as casas e as quintas do Funchal, iluminadas por. um esplêndido sol de Outono, que dourava as extensas plantações de cana, saudaram-nos por sua vez.

A magia do espectáculo emudecera-nos. De um lado o mar, do outro as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade sorrindo, coroo a criança adormecida entre os pais, que a defendem e acalentam.

Dentro em pouco pousávamos pé em terra.

Não é grata a impressão recebida ao desembarcar. Costumados aos extensos e alvejantes areais das nossas praias tão ricas de formo• síssimas conchas e em cujas penhas se formam aquários naturais, onde aos raios do Sol as actínias matizadas escondem os seus braços gela• tinosos e as algas crescem em delicadíssimas arborizações, costuma• dos às praias risonhas que atraem as mulheres e as crianças com o animado e variadíssimo espectáculo que lhes oferecem e os abun• dantes tesouros de pedrarias que escondem nas suas móveis areias, afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra, formada de calhaus roliços, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais que são o principal atractivo da beira-mar.

Esta pedr a escura parece conservar ainda evidentes os vestígios do cataclismo vulcânico que a arremessou à superfície das águas. Dir- -se-ia que ainda está defumada e quente do fogo do imenso forno em que foi fundida. Ao seu aspecto comprime-se o coração do viajante.

Entrámos na cidade. Há um não sei quê de melancólico no aspecto dela. Por isso mesmo que é a generosa consoladora de tantos aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e que de toda a parte do mundo correm a abrigar-se ao seu calor salutar, por isso mesmo, parece anuviar-lhe os sorrisos aquele ar de piedade e de compaixão que é, por assim 'dizer, a alegria da caridade. Não nos sentimos impelidos a saudá-la com um cântico festivo, com uma aclamação de prazer; mas apenas com uma serena comoção, igual àquela com que se beija a mão generosa que se estende a socor- rer-nos ou a enxugar-nos as lágrimas.

Ó Funchal! Que tristes dramas se têm passado à luz do teu sol benéfico! Que lutuosos desenlaces de tantas histórias de paixões! Que de lágrimas ardentes caídas no teu solo sequioso que se apressa a escondê-las discreto! E à sombra das tuas árvores quantas frontes escaldando de febre vergaram sob o peso da cruel melancolia! Ilusões desvanecidas, esperanças desfolhadas, sonhos de amor, de glória, de felicidade, dos quais se desperta à beira do túmulo, tudo tens presenciado, ó humanitária cidade! E debaixo dos cedros e ciprestes dos teus cemitérios dormem o último sono muitos mártires sem que as lágrimas dos que os amaram lhes caiam na campa como tributo.

Dai vem a simpatia e a tristeza que inspiras. As tuas virtudes como irmã de caridade que consagra os dias ao cumprimento de uma missão cristianíssima, brilham entre cenas e espectáculos de deso• lação e de dor.

Este carácter da cidade avulta aos primeiros passos dados no interior dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras pálidas, emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transporta• das em redes, encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa medi• tação, ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia; são ingleses cadavéricos, alemães diáfanos, portugueses des• carnados, brasileiros, norte-americanos, russos; são velhos, adultos, crianças, vaporosas belezas femininas de todas as partes do mundo, todos a convencer-nos de que estamos na città dolente; mas no pór• tico desta não se lê gravado o dístico desesperador que o poeta ins• creveu no da região das tormentas eternas. Pelo contrário, à entrada aqui, revestem-se de esperança os próprios condenados.

Para que a Madeira nos sorria, para que nos apareça formosa como a descreve o poeta inglês e fragrante como uma verdadeira flor do oceano, é necessário sair do recinto da cidade, procurar as fregue• sias rurais, subir as íngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar então a vista pelos formosíssimos vales que vão descobrindo o seio fecundíssimo aos nossos olhos maravilhados, Que vigor e variedade de vegetação ! O verde dourado da cana realça entre as diferentes cambiantes da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira de Africa agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bana• neira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de viço nos mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as laranjeiras odoríferas. As rosas, as malvas, as madressilvas florescem espontâneas à beira dos caminhos; debruçam-se dos muros as «bou- gainvillias» entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaranjadas das bignónias; tudo tem um ar de festa e alegria. A choça mais humilde tem um jardim à entrada; as flores sorriem à porta dos ricos e dos pobres.

E quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnifico aspecto do país. De um lado vemos aos nossos pés, o mar liso como um espelho, azul como safira, limitado ao longe pelo grupo das Desertas vagamente tingidas do azulado da distância; do outro as altas serranias que rompem as nuvens e cujos cimos tantas vezes tinge a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos em fundas que• bradas, sulcados em ribeiras pelas torrentes do Inverno, uma vege• tação exuberante, cheia de vida, encobrindo aqui uma casa isolada, enfeitando além uma povoação risonha, que se agrupa em torno de um campanário.

Então sim, então a atmosfera embriaga, o peito aspira com volup- tuosidade esse ar balsâmico, o espírito liberta-se de todas as apreen• sões que nos gelavam os sorrisos nos lábios e goza-se despreocupado do mais surpreendente espectáculo que pode imaginar-se.

Mas não é só a natureza que tão afável e acariciadora se mostra aos desesperados enfermos que se refugiam aqui; impressões igual• mente gratas, igualmente consoladoras lhes vêm de origem diversa.

É geral a simpatia que os doentes inspiram à gente da Madeira. Se os doces afectos de família, se os carinhos de uma esposa, de uma mãe ou de uma filha se podem substituir no mundo, é aqui a terra para tentar a experiência.

Sentis que vos rodeia uma atmosfera de simpatia. Pessoas que nunca vos falaram, que não conheceis, seguem passo a passo, com sincero interesse, os progressos das vossas melhoras ou as alterna• tivas do vosso padecimento.

Com o olhar que a experiência tem amestrado, estudam-vos no semblante as probabilidades de bom ou mau êxito na luta pertinaz da natureza contra o influxo fatal que vos subjuga. E esse prognóstico é quase sempre infalível.

Rara é a família que, levada por generosa curiosidade, se não informe com o médico que a visita ou com os proprietários dos hotéis, do estado dos estrangeiros doentes.

Nestas vitórias do clima sobre a doença, estão empenhados os brios e o principal brasão da terra, e o amor pátrio é um sentimento profundamente entranhado no coração deste povo. Uma cura operada é um triunfo e todos a conservam na tradição gloriosa da terra com simpático e louvável orgulho.

A simpatia vai ainda mais longe, revela-se sob mais cordial mani• festação, exerce-se mais eficaz e abençoada ainda. As formosas madei• renses, e quem, tendo visitado esta terra, não conservará memória delas? condescendem muita vez em animar a alma desolada dos soli• tários enfermos com o raio vivificador dos seus olhares magnéticos. Amoráveis, movidas por uma generosa simpatia, exaltadas pelo entusiasmo natural a um coração de rapariga, acalentam muitas vezes esses amores que elas bem sabem ser sem futuro, e iluminam os últimos dias de uma triste existência com a doce luz do mais casto e imaculado afecto. Quantos que morriam longe dos seus com o coração partido de saudades, lhes devem os últimos doces sonhos da sua vida, as derra• deiras ilusões e um tributo de lágrimas na campa? Anjos adoráveis, corações generosos, vós concorreis com o tesouro dos vossos afectos para a santa missão que se desempenha aqui. Às vezes sob a influência do vosso amor, voltam as cores às faces desmaiadas, um sangue novo circula nas veias exauridas e por um milagre de afecto renasce para a vida o que a ciência já condenara. Outros sucumbem, mas tendo ao menos nos lábios um nome querido, no pensamento uma imagem e no coração a esperança de que não ficará sem sentido para todos a inscrição funerária que lhes gravarem na lousa.

Abençoadas sejais pelo conforto que tendes dado ãs almas tristes, que sucumbiam à míngua dele! Reparo porém agora, meu amigo, no tom elegíaco que vai tomando a missiva. Será prudente parar aqui, procurando para outra vez ser mais alegre.

Seu do coração

CARTAS PARTICULARES

A SEU PAI QUANDO TEVE NOTÍCIAS DA SUA NOMEAÇÃO DE DEMONSTRA. DOR DA ESCOLA MÉDICA DO PORTO

Papá

A estas horas é provável que já saiba que estou despachado. Não tinha informado inexactamente o amigo do Teixeira Pinto, quando disse que na quinta-feira se assinava o decreto da minha nomeação.

É com a data de 20 que ele vem no Diário de 22.

Esse mesmo rapaz escreveu de Lisboa e eu acabo de ver o Diário. O amanuense da Escola escreveu-me também. Finalmente está decidido; acabaram-se todas as dúvidas e inquietações.

Nesta ocasião em que o meu futuro se fixou, não posso deixar de me recordar do muito que devo ao Papá pelos sacrifícios feitos por mim.

Alegra-me duplamente o resultado deste meu empenho porque, com o prazer que me causa, sei que não menos intenso havia de pro• duzir no Papá, que até agora tão improfícuos tinha visto ficarem os seus grandes esforços para a felicidade dos filhos.

Meus irmãos foram privados, não sei por que vistas providen• ciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educação que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou tão novos, parece ter-me reservado, como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia a resignação do Papá.

Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que não me faltará a vida e a saúde para poder cumprir essa missão talvez providencial.

Creia que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacri• fícios e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava não mos fazer sentir.

Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a mão.

Seu filho grato e afectuoso

Joaquim Felgueiras, 24 de Julho de 1865.

A SEU PAI, DE FINS DE MARÇO DE 1868, DEPOIS DA REPRESENTAÇÃO DAS «PUPILAS» EM LISBOA

Papá

Continuo a passar bem e por enquanto não posso dizer quando partirei.

As «Pupilas» foram bem desempenhadas e prometem dar à empresa bastantes enchentes.

Do que se passou na noite em que eu lá estive dá conta exacta a noticia que envio, a qual foi publicada por um Diário daqui. Ontem esperavam-me à noite em casa do Mendes Leal, mas como às segundas- -feiras é lá reunião de etiqueta, a que se vai de casaca e em rigor, fui para o teatro francês e dei por desculpa que não queria deixar a com• panhia com quem tinha vindo a Lisboa.

No teatro da Trindade, no sábado, pediu-me o Mendes Leal para ir ao camarote dele, visto este não poder deixar só as senhoras com quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e entre elas, o Chamiço. O Castilho já me veio visitar.

As «Pupilas» foram postas em cena com bastante fidelidade de vestuário e de costumes.

O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava bastante animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reco• nhecer. No 6.° quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe beija a mão, não me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao palco onde fiquei todo o quadro final.

Peço recomendações a toda a família e ao tio Bernardo.

Peço também que mande entregar ao Dr. Reimão os livros que ai deixei para ele e que se alguém aí for procurar os exemplares da Dissertação do Ilídio, lhe entreguem os que estão em um dos armários inferiores da estante.

Que não esqueça também mandar-me esfregar o quarto.

Seu f.o ob.te Joaquim.

A SUA SOBRINHA ANA C. GOMES COELHO

Anitas

Cumprindo a promessa que te fiz hoje mesmo, não me quis deitar sem primeiro te escrever. Cheguei a salvamento a esta terra, tendo engolido muito pó pelo caminho, petisco de que, nem por isso, fiquei gostando.

Ceei bem e espero dormir melhor.

A estas horas em que te estou a escrever já tu deves estar sonhando com a cabeça no travesseiro. Estimarei saber que sonhaste em coisas agradáveis e que acordaste pela manhã satisfeita da tua vida.

Espero que te lembres de mim ainda que seja só quando almo• çares em São João Novo e tiveres de fazer por ti mesma as tuas fatias. Adeus por hoje. Manda-me dizer as flores que tens feito e reco- menda-me à Mamã, a quem hei-de escrever breve, e aos teus dois manos e, se te não esqueceres, faz também as visitas do costume às pessoas que sabes.

O Guilherme ' disse-me o número da vossa casa em Monchique, mas esqueceu-me. Vê se mo mandas dizer na tua carta, que podes dar ao Josèzinho ! para ma enviar com a dele.

Adeus.

Ovar, 7-5-63.

Teu tio e muito amigo

Joaquim

LIV

Meu Passos Funchal, 2 de Novembro de 1870.

Aproveito a passagem do vapor de Africa para te escrever duas linhas.

Vou passando como aí passava, dias melhores, dias piores; impaciente com a falta de notícias e monotonia desta terra.

Estes primeiros quinze dias pareceram-me uma eternidade.

Li as confissões de Rousseau e o Cromwel de Vítor Hugo.

Perco-me em conjecturas sobre os resultados prováveis do cerco de Paris e pergunto a mim mesmo se por acaso os vizinhos castelhanos ainda não passariam as fronteiras.

Está resumida a minha vida no Funchal.

Aguardo com impaciência que me informes de tudo. Faz-me sempre lembrar ao Luso, Silva e Albuquerque se os vires.

Em que nova província da História Natural dirige agora o nosso amigo Luso as suas sempre gloriosas campanhas? Adeus, para outra vez serei mais extenso, sem, com certeza, ser mais noticioso.

Teu amigo do coração Coelho.

LV Meu caro Passos

Depois do que me disseste nas tuas últimas cartas, aguardo com impaciência aquela em que deves pronunciar o Consummatum est, prenúncio, a meu ver, de um período de plácida felicidade na tua vida.

A inquietação febril em que há tanto tempo te tiveram as dúvidas e hesitações do teu espírito acalmarão; essas apreensões de catástro• fes, que te assombram, hão-de dissipar-se e tu acharás que eu tinha razão ao dizer-te que o passo que, à força de muito pensar nele, nos costumamos a considerar terrível, não merecia, afinal, o estupendo conceito que dele fazíamos. É esta a minha convicção e por isso desejo deveras saber de ti a boa nova de haveres enfim saído da insustentável situação em que há muito nós ambos temos vivido.

Sou tão desinteressado nisto que te digo, que contra minha con• veniência falo.

O que será o Porto para mim depois que tu deres por terminada a tua vida de rapaz, deves imaginá-lo bem tu que desde muitos anos sabes qual o meu sistema de vida aí e quais os meus passatempos pre• dilectos. Afasta, porém, da consideração esta ideia para insistir na urgente necessidade que tens de mudar de hábitos de vida. O futuro é de Deus, esse eterno Josué, como lhe chama com esquisito sainete o nosso amigo Nogueira Lima na sua última poesia; mas tanto quanto é dado a um homem prognosticá-lo, palpita-me que se te não pre• para muito sombrio. Animo, pois! Que te direi de mim? Eu vivo aqui no Inverno como me vês aí viver no Verão. A mesma saúde instável, o mesmo aborrecimento, a mesma indiferença por quase tudo aquilo por que os homens se interessam. Leio e escrevo às vezes; passeio sempre que o tempo o con• cede, mas a minha sensibilidade já não é excitada pelos passeios do Funchal. Para mim isto agora é já como o Porto.

Precisava de viver com quem me excitasse a arrancar-me destes hábitos que contraí e me fizesse empreender excursões pelos campos.

A iniciativa, porém, das pessoas com quem mais trato regula por a minha. Daqui resulta que vou vivendo morna e sornamente.

Este ano a Madeira é uma Babel. Todas as nações têm aqui os seus representantes. Há alemães que já adoeceram em conse• quência das marchas forçadas dos generais de S. M. o Imperador da Alemanha.

Morreu aqui um médico prussiano esfalfado pelo excessivo tra• balho dos hospitais de sangue.

O Porto, segundo vejo das locais do Jornal do Porto, passa sem novidade. Deus o conserve.

Funchal, 20 de Dezembro de 1870.

LVI

Meu caro Passos

Funchal, 19 de Janeiro de 1871.

Mais um golpe daqueles que eu e tu conhecemos. Mais uma pessoa que desaparece do estreito círculo das que estimo deveras.

Quando daí vim, sabia que isto tinha de suceder durante a minha ausência. O adeus que dei à minha pobre tia, sabia que era o último.

Sabia-o eu e ela também. Não me iludiu a comoção e o silêncio com que se despedia de mim; compreendi-a como se me dissesse tudo o que tinha no pensamento. Mas tu bem sabes que estas coisas, embora esperadas, nunca deixam de nos surpreender dolorosamente quando sucedem. Em cada correio esperava a carta tarjada de preto de meu primo a participar-me o falecimento da mãe dele, que o foi quase minha, e apesar disso causou-me abalo, assim que esta manhã ma vieram entregar, essa carta fatal.

Parece que nestes momentos morre em nós uma infundada espe• rança em não sei que milagre, que bem sabemos que se não dará.

Custa-me imenso esta perda. Desde a idade de quatro anos que fiquei sem mãe e nesta minha tia, única que foi mãe também, encontrei os mesmos extremos que tinha pelos seus próprios filhos. Isto me fez querer-lhe um pouco mais que às outras, um pouco mais com afeição de filho.

No intervalo de um ano morreram as minhas desveladas enfer• meiras. Quem sabe se os cuidados que tiveram comigo concorreriam para mais depressa sucumbirem! Tu deves imaginar o efeito que produzem no meu espírito estes sucessos. Sem esperança de um longo futuro, assusta-me a ideia de sair desta vida tão desprendido de afectos. Aqui na Madeira tenho sido testemunha desse doloroso espectáculo de um homem que morre longe de parentes e de amigos e tendo à cabeceira uma pessoa estra• nha e indiferente. Deve ser desesperador. E cada vez estou mais con• vencido de que essa sorte me está reservada. ' Desejava azedar o espirito até ao ponto de essa ideia me ser indiferente. Ainda o não consegui.

Perdoa-me esta carta. É quase um crime chamar-te o pensa• mento para a beira de uns escuros abismos de onde espontaneamente te aproximas mais vezes do que convinha à tua saúde e placidez de espirito; mas experimentei nisto um certo alívio e confiei na tua ami• zade para me perdoar.

Que me dês notícias alegres na primeira carta que me escreve• res é o que eu mais desejo, e que essas notícias te digam respeito.

Teu amigo do coração Coelho.

P. S. — Esquecia-me dizer-te que de saúde continuo passando como passava aí no Verão.

LVII

Funchal, 26 de Fevereiro de 1871.

Não te escrevi no vapor passado e escrevo-te pouco neste por um motivo: tenho estado bastante doente. O que foi nem eu sei bem. Uma verdadeira tempestade nervosa que caiu sobre o meu organismo e mo pôs em completa anarquia. Serenada ela, depois das mais estu• pendas metralhadas de medicina, ficou uma exacerbação do meu catarro habitual e uma fraqueza devido à doença e ao tratamento, de qu e espero sair comendo e passeando.

Faleceu oito meses depois, em 12 de Setembro de 1871, no Porto, rodeado de parentes e de alguns amigos dos mais íntimos,

Por ora o apetite não é o que precisava ser ; mas vai desenvol- vendo-se gradualmente.

Emagreci; quase me desconheço quando, ao pentear, me vejo. Valham-me os meses de Março, Abril e Maio e a atmosfera desta ilha para me reconduzirem ao estado anterior.

Escuso de te dizer qual teria sido o estado do meu espirito nesta crise. Deves supô-lo.

Acho-me melhor depois que escrevi esta carta. Despeço-me por aqui e mando-te com um abraço muitas e verdadeiras saudades.

Teu velho amigo Coelho.

LVIII

Meu caro Passos Funchal, 19 de Abril de 1871.

Não te escrevi nos vapores passados porque, em parte mal podia escrever e, em parte, porque entendi que era melhor não carregar de sombras escuras os teus pensamentos, que eu já previa estivessem sob a influência habitual e complexa que inclina à melan• colia. Creio que não me enganei muito. Bom foi, pois, que não te escrevesse e talvez bom seria que ainda desta vez seguisse o mesmo exemplo.

O meu estado de saúde ia cada vez pior; sentia-me desfalecer de dia para dia e já não tinha coragem para me mirar a um espelho.

A ideia da dissolução orgânica aterra-me. Fiz um esforço; abracei uma das únicas medidas que me têm salvado. Mudei de residência. Deixei o centro do Funchal, procurei um quarto em um hotel inglês nos subúr• bios desta cidade e onde é mais fácil passear e gozar das vantagens do campo.

Principiei a comer melhor, deitei-me ao vinho fraco e forte, à cerveja, aos ovos e ao leite e consegui cor e mais força (que em parte também é febre). Dizem-me que vou melhor e aplaudem-me a resolução.

Agora, o reverso. Na aparência reconheço todas essas vantagens.

A tosse e expectoração continuam, porém ; os intestinos estão capri• chosos e de noite o calor e suor não me deixam. Respiro pior do que respirava e canso às subidas.

Está empenhada a luta. Veremos o que resulta até 20 de Maio.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

 

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