Berta relanceou um olhar para os dois velhos e adivinhou que a cena que ela previra tivera lugar.
— Quer que vamos? — perguntou ela ao pai, timidamente.
— Vamos — respondeu este com um modo sacudido, dirigindo-se para a porta.
Berta aproximou-se do fidalgo, olhando-o com timidez.
— Quer dar-me a sua bênção de despedida, meu padrinho ? — perguntou Berta a meia voz, como receosa de uma recusa.
D. Luis, sem voltar o rosto, estendeu-lhe silenciosamente a mão.
Berta apoderou-se dela e beijou-a, banhando-a de lágrimas de saudade.
D. Luis estremeceu ao sentir aqueles beijos e aquelas lágrimas, mas fez por se reprimir na presença de Tomé.
Enfim, Berta separou-se dele, e encaminhou-se para a porta, onde o pai a esperava.
Poucos passos andados ouviu que a chamava uma voz sufocada.
Voltou-se. D. Luis seguiu-a com a vista nublada de pranto e estendia- lhe os braços para um último adeus.
Ela correu para o velho e abraçaram-se soluçando.
Tomé, sensibilizado, escondeu-se discretamente nas dobras do reposteiro.
Por algum tempo durou ainda aquela tocante cena de despedida, que despedaçou o coração do velho fidalgo.
Afinal afastando brandamente de si a rapariga e beijando-lhe a fronte, enternecido, murmurou: — Vai, minha filha ; é melhor que vás. O teu sacrifício é grande, mas crê que não é maior do que o meu. Diz a teu pai...
Mas percebendo Tomé meio escondido na porta, dirigiu-se a ele: — Tomé, há pouco fui injusto consigo. Desculpe-me ; a velhice, a doença, fizeram-me assim. Creio na sua boa fé e espero que todos nós saberemos proceder como o dever nos manda. Adeus, entrego- -lhe a sua filha. Tem razão em a querer junto de si.
E, pela segunda vez na sua vida, o fidalgo da Casa Mourisca estendeu a mão ao seu antigo criado.
Tomé aceitou-lha com a efusão com que sempre acolhia a mão que lealmente se estendia para a sua.
— Fidalgo, se V. Ex.'... Mas não; é melhor que Berta venha comigo. É melhor para sossego de todos. Custa ao principio, mas...
— Sim; é melhor, é, Berta que vá — assentiu D. Luis.
E, depois de uma última despedida, tão terna como a primeira, o pobre doente viu desaparecer, para não voltar, a doce figura da sua carinhosa enfermeira.
Assim que deixou de ouvir-lhe os passos no corredor, o desalentado velho escondeu a cabeça entre as mãos já trémulas, e com a voz cortada pelos soluços, exclamou com desespero: — Agora morre ! morre ! morre para aí só, velho desgraçado, sem filhos, sem família, sem amigos; morre só com os teus rancores, com as tuas paixões, com o teu orgulho, já que assim o queres. Quando acabará de se despedaçar este coração, para me deixar descansar? Frei Januário veio surpreendê-lo neste apaixonado monólogo e recuou assustado ante a veemência daquela dor.
D. Luis nem deu pela chegada do padre. Caindo em um profundo abatimento, assim permaneceu sem que as perguntas e súplicas do padre conseguissem arrancar-lhe uma palavra dos lábios contraídos.
Somente ao fim da tarde, D. Luis disse que queria deitar-se ; ajudaram- no a despir-se e a metê-lo na cama, onde ele ficou como caído em uma soñolencia mórbida.
O padre, receoso do resultado daquela súbita depressão de forças, pensou em avisar Jorge.
O bom do padre, apesar dos seus defeitos, não era um coração insensível, e por D. Luis tinha uma afeição sincera. Aquela noite, reagindo contra o seu amor pelas comodidades, velou, ou melhor, permaneceu à cabeceira do doente. Teve, porém, o desgosto de perceber que este não sentia grande refrigèrio em vê-lo ali, porque sempre que no intervalo dos seus sonos agitados dava com os olhos nele, desviava- os logo com despeito.
Não obstante, o padre conservou-se fiel no seu posto.
Oestado do doente no dia seguinte não era mais animador. O abatimento, em que tão de súbito caíra, mostrava jeitos de prolongar- se e porventura de terminar por uma solução funesta.
O padre mandou à pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacelos.
A carta de frei Januário chegou às mãos de Jorge juntamente com outras de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a decisão favorável da importante demanda que ele sustentava ; outras da baronesa e de Maurício, participando-lhe o seu casamento e prometendo uma próxima visita à aldeia. Todas estas notícias, de tão diversa índole, impressionaram extraordinariamente Jorge.
Por esse lado iluminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a constância e tenacidade de um ânimo varonil ; por outro, assombrava- o o estado perigoso do seu velho pai, a quem ele desejaria dar ainda a consolação de ver como que erguida das ruínas a casa de seus antepassados.
As novas, quase fúnebres, que lhe vinham dos Bacelos, enlutavam- lhe as alegrias nupciais das cartas do irmão e de Gabriela,
Debaixo da influência destas impressões opostas, Jorge, depois de escrever um pequeno bilhete a Tomé, em resposta a outro que dole recebeu, comunicando-lhe também o resultado da demanda, montou a cavalo e partiu a tôda a pressa para os Bacelos.
O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a cabeça, conduziu-o ao quarto de D. Luis.
Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o coração ao aproximar- se do leito do pai.
— Ele já nem fala — dissera-lhe a meia voz o padre, que de facto ainda não conseguira obter uma só palavra do fidalgo.
Jorge afastou quase tremendo as cortinas do leito.
D. Luis, que jazia com os olhos fechados e naquela imobilidade quase mórbida em que desde a partida de Berta caíra, não deu sinal de ter percebido a chegada do filho.
Jorge, assustado com aquela impassibi]idade, pegou-lhe na mão que tinha estendida por fora da roupa, como para procurar nela o calor da vida.
Ao contacto da mão do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos ; vendo Jorge, passou-lhe nos lábios um desvanecido sorriso de afecto.
— Ah! és tu, Jorge? — disse ele com a voz ainda fraca — não te tinha visto entrar.
Frei Januário ficou estupefacto, ouvindo falar o doente, que ele já supunha em estado de não poder fazê-lo.
— Acha-se melhor? — perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito.
O velho só respondeu encolhendo os ombros, como exprimindo indiferença pela sua parte, e depois fitando outra vez os olhos no filho, interrogou-o por sua vez: — E tu? Jorge estranhou esta solicitude no pai, tão fora dos seus hábitos, e sentiu-se comovido.
— Eu?... eu estou bom.
— Estás pálido e doente — prosseguiu o pai, fitando-o.
E, sem desviar os olhos, recaiu no silêncio, que manteve por alguns segundos.
Depois, procurando a mão do filho e apertando-a na sua, murmurou com uma comoção a que só ùltimamente era sujeito : — És um homem, Jorge ! És digno do nome que tens e da família que representas.
Estas palavras surpreenderam extraordinariamente Jorge e não menos frei Januário, que as atribuiu ao delírio produzido pela doença.
D. Luis acrescentou no mesmo tom: — Saber sacrificar tudo a um dever é a principal e a mais difícil ciência que nós temos a aprender na vida, e tu... mostras que estás bem senhor dela.
Julgando perceber o sentido destas palavras, Jorge fitou no pai um olhar perscrutador.
Ele, porém, fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu como caído em um sono profundo.
O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito.
— Como vão os negócios da nossa casa ? — perguntou daí a pouco ele sem abrir os olhos.
Jorge comunicou-lhe a boa nova que recebera de se haver vencido a mais antiga e a mais importante demanda que sustentavam.
Na palidez das faces do doente passou um instantâneo rubor.
Os lábios agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o pôde ouvir o filho, murmurou : — Será chegado o termo desta longa provação ? ! Depois recaiu no torpor em que passara a noite, e não disse mais palavra alguma.
Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a claridade do aposento, e entregando-o à vigilância do padre, retirou- se ao escritório para trabalhar nos negócios da casa.
Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade.
Pela madrugada do dia imediato despertou a gente nos Bacelos à chegada de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando a baronesa e Maurício, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa da sua visita.
Jorge correu a recebê-los e cingiu nos braços, comovido, o irmão e a cunhada.
Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria, a baronesa e Maurício, reparando mais atentamente para o ar abatido e a palidez de Jorge, fizeram-lho notar com apreensão.
— Pelo que vejo, as tuas imprudências continuam, Jorge? — disse a baronesa. — Ajuizado como és, não vês que pelo caminho que segues não podes realizar os teus grandes projectos? Jorge sorriu, encolhendo os ombros.
— Que quer que lhe faça, Gabriela? A vontade do homem não rege os processos íntimos da sua vida orgânica. Não está na minha mão modificar o andamento dos meus actos nutritivos.
— Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam.
O excesso de trabalho...
— Não é isso, Gabriela — acudiu Maurício — eu sempre conheci em Jorge o hábito de estudar e de trabalhar sem estes efeitos. O que o mata é a louca presunção de ser superior às paixões, e a tentativa que faz para sacrificá-las a não sei que imaginários deveres.
Jorge sorriu.
— Já vejo que se estabeleceu entre os noivos o comunismo de segredos. Esse soubeste-o só depois de casares.
— Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.
— Isso é verdade, suspeitaste-o muito antes de eu próprio me convencer dele.
— Mas — tornou a baronesa — é preciso sair disto. O Jorge supõe-se mais forte do que é.
— Creia, Gabriela, o melhor é deixar ao tempo o cuidado de resolver as crises. Hoje o que me preocupa é a solução dos meus negócios que felizmente vão tomando uma face animadora.
— É verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a demanda que tanto te preocupava. O que tu não sabes é que ao valimento de Maurício com um dos desembargadores, em cujas mãos parava o processo, se deve essa pronta resolução.
•— Deveras ? — Não ouso crê-lo — disse Maurício — ainda que é verdade ter- -lhe falado e haver recebido dele a promessa de aviar depressa o processo.
— Hoje quase posso assegurar-lhe que é certa a nossa regeneração — tornou Jorge. — Esta primeira vitória prepara-me o terreno para outras e solta-me os movimentos que tinha peados. E os teus projectos, Maurício ? ! — Vão em bom caminho. Tenho quase certo um lugar na embaixada de Londres ou de Berlim.
— Eu ainda não desespero de envelhecer embaixatriz — disse a baronesa, sorrindo, e acrescentou : — Mas que é da Berta ? Já cá não está?! — Retirou-se há dias. Desde então recrudesceu a doença do pai.
— E para que se retirou? — O Tomé veio buscá-la.
— com que fim ? — Não sei... Ainda que... por algumas coisas que ouvi... quer-me parecer que fizeram conceber a Tomé certos receios. Enfim, eu próprio não quis profundar os motivos da retirada, por temer que não me fosse agradável ouvi-los.
— E querem ver que o tio Luis também o soube ? É impossível que tudo isto não lhe tenha feito muito mal ! Eu nunca vi ! Esta gente tôda entregue a si parece que porfía em complicar a situação. Maurício, vamos ver teu pai. Deus queira que ainda seja possivel remediar o mal feito. Vens, Jorge? Passados momentos entravam todos três no quarto de D. Luis, onde penetrava apenas a discreta claridade coada pelas cortinas corridas e pelas janelas meio abertas.
Frei Januário, que dormitava ao lado do leito, com o lenço vermelho em uma mão e o breviàrio na outra, ergueu-se ao ver a baronesa, e depois de cumprimentá-la dispunha-se a avisar o fidalgo.
Gabriela susteve-o, e avizinhando-se do leito, correu ela própria os panos do cortinado e contemplou o rosto do ancião, que dormia profundamente.
Maurício e Jorge acercaram-se também.
A nobre fisionomia de D. Luis, abatida pelo sofrimento físico e moral, e sobre a qual o sono parecia derramar uma serenidade, como de resignação, impressionou-os a todos.
A baronesa ajoelhou ao lado do velho e, pegando-lhe na mão, beijou-a com afecto e respeito. Maurício ajoelhou também ao lado de sua esposa.
D. Luis acordou um tanto sobressaltado. Deu primeiro com a vista em Jorge, e depois, desviando-a, reconheceu a sobrinha e o filho mais novo, e raiou-lhe no semblante, ao vê-los, um clarão de alegria.
— Ó meus filhos ! — exclamou ele, solevantando-se no leito e apoiando-se no braço trêmulo.
Depois, passando a mão por sobre a cabeça dos noivos, acrescentou : — Deus vos abençoe, como eu vos abençoo.
E deixou-se cair extenuado sobre o travesseiro.
Gabriela levantou-se para ampará-lo.
— Ai, Gabriela — disse ele, suspirando — finalmente parece que chegou a hora da liberdade.
— Diga que chegou a hora da ressurreição. Verá como de hoje em diante tudo vai ser ventura nesta casa. Há-de trazer-lha Jorge, Maurício e eu, até eu e... e mais alguém, quem sabe? D. Luis voltou os olhos para o filho mais novo.
— Maurício — disse com a voz cansada e interrompida — és ainda muito rapaz e vais viver em um mundo perigoso ; não desprezes a conselheiia que Deus colocou a teu lado.
— Como hei-de desprezá-la, se a adoro ? — disse Maurício com o galanteio de um noivo ainda namorado.
A baronesa correspondeu-lhe com um sorriso, e observou: — Nem receio o desprezo, nem creio na adoração. Deixemos as coisas nos termos ajustados. Estimemo-nos e seremos felizes.
— Nem todos podem ter a frieza do teu ânimo, filha — disse Maurício a meia voz.
— Não é tempo agora de discutirmos isso. Sabes ? O pai não pode por enquanto ouvir longas conversas. Acordou há pouco e precisa de poupar a atenção. Se tu fosses com Jorge dar ordem a essas coisa3 que os criados trouxeram... Eu ficaria entretanto aqui.
Jorge e Maurício perceberam que a baronesa tinha desejos de que a deixassem só com D. Luis, e saíram por isso da sala.
Frei Januário, meio adormecido, não deu pela saída dos rapazes e permaneceu entre o leito e a parede encoberto pelo cortinado e despercebido de Gabriela.
Esta sentou-se à cabeceira do leito e com feminil carinho começou a ajeitar a travesseira do doente e a desviar-lhe da fronte as cãs desordenadas.
— Eu não esperava vir encontrá-lo sem enfermeira—dizia Gabriela o mais natural possivel.
D. Luis suspirou.
Ela insistiu: — É uma coisa tão necessária ! Porque há certos cuidados que só uma mulher pode ter. É a nossa especialidade.
D. Luis abanou a cabeça.
— Tem razão, Gabriela. É uma desconsoladora solidão a de um doente sem esses cuidados de que fala.
— Mas... porque se retirou Berta? D. Luis não respondeu logo a essa pergunta, que parecia contrariá- lo, porque lhe chamou à fronte uma contracção de desgosto.
— Ai, raparigas ! — tornou a baronesa — ferve-lhes o sangue afinal.
— Não diga isso, Gabriela, que é injustiça. Berta é um anjo de abnegação.
— Mas para que havia o anjo de abandonar o seu posto ? — Vieram buscá-la.
— Quem? — O pai.
— Pois o Tomé da Póvoa seria capaz de levá-la daqui contra vontade dela e do padrinho ? — O Tomé teve razão para o fazer. Eu mesmo lhe disse que devia levá-la.
— Ah ! então não entendo.
— Há sacrifícios tão dolorosos, que não é justo exigi-los nem permiti-los.
— E o que Berta fazia, ficando aqui a seu lado, eia dessa natureza? — Talvez fosse.
— Não posso conceber de que maneira.
D. Luis, cansado do esforço que fazia para falar ou hesitando no que dissesse, não respondeu logo.
Depois murmurou: — Aquela pobre rapariga tem uma alma nobre e heróica. não seria ela que se trairia por um sinal de dor, ainda quando sentisse despedaçar-se-lhe o coração.
— E corria esses riscos aqui ? — perguntou a baronesa com afectada candura.
— Gabriela — continuou D. Luis — Berta saiu vitoriosa de uma grande luta. O coração, porém, ainda lhe devia sangrar, e não era aqui que se lhe consolidariam as cicatrizes.
— São tão vagos esses dizeres ! Ora vamos ; diga-me o que houve ; fale-me claro.
— Que havia de ser? Berta é um anjo, mas sob a encarnação de mulher, tem um coração... e esse, sujeito a apaixonar-se como os outros.
Gabriela fez um gesto de quem tivera uma idéia súbita.
— Ah! Já sei! Percebo agora! Era a isso que aludia? Cuidei que seria outra coisa mais grave.
D. Luis fixou na sobrinha um olhar admirado.
i— A Gabriela por certo não sabe ao que me refiro.
— Sei, sei, pois não sei ! Havia muito que eu tinha descoberto esse segredo de Berta e de Jorge.
— E deu-lhe tão pouca importância ? — Apenas a que merece. Mas deveras, foi esse o motivo da retirada de Berta ? Parece-me impossível ! — Já não pouco imprudente havia sido a demora dela nesta casa.
Eles ambos são fortes, mas não devem abusar das suas forças com risco de agravar o mal e levá-lo a extremos irremediáveis.
— O mal,., extremos irremediáveis... Que linguagem tão carregada para uma coisa tão simples ! Pois diga-me, considera um grande mal o facto de eles gostarem um do outro? D. Luis encarou Gabriela, deveras admirado da pergunta.
— Está a zombar, Gabriela ? — Não estou. Falo-lhe com toda a minha seriedade. Sabe quando eu receio mal da inclinação recíproca de duas pessoas? É quando nos caracteres delas há tais contradições que o futuro promete ser uma continuada luta. Agora todas as mais desigualdades, desigualdades de riqueza, de posição social e de jerarquía, são facilmente niveladas por um amor verdadeiro e sério. E esta é decerto a índole do amor deles.
— Visto isso, achava Gabriela muito natural que meu filho casasse com a filha do Tomé da Póvoa? A pergunta era feita com certa acrimonia, que não passou despercebida da baronesa. Ela, porém, estava resolvida a atacar de frente os preconceitos do tio e não titubeou ao responder-lhe : — Se quer que lhe diga, achava até muito conveniente.
D. Luis moveu com certa impaciência a cabeça.
Gabriela insistiu: — Queria antes que eu votasse, pela continuação deste estado de coisas, que o há-de matar, que infalivelmente o mata, porque — diga o tio o que disser — a companhia de Berta é-lhe já tão necessária como lhe foi a de Beatriz ! Queria antes que eu votasse por esta ordem de coisas, que traz definhado seu filho e que irremediavelmente o sacrificará e com ele as esperanças de regeneração desta casa e desta família? Desengane-se, meu tio, o futuro da sua família está indissoluvelmente ligado a Berta.
— Pode ser.
— Está, digo-lho eu, que bem conheço Jorge. Ele renunciou espontaneamente ao mais violento desejo do seu coração, julgando que seria empresa ao alcance das suas forças. O resultado está-se vendo. De dia para dia cresce nele o abatimento e as consequências não é difícil prevê-las. E diga-me se vale a pena sacrificar vidas tão preciosas, e tão nobres e brilhantes projectos a um capricho aristocrático?
— Capricho ? ! — Capricho, sim. Se invocar toda a sua filosofia, o tio Luis há-de reconhecer que não merece outro nome esse escrúpulo.
— Não será dever? — Em que código lhe é imposto? — No da nobreza.
— O dever de quem é nobre de origem é conservar-se pelas suas acções digno dela. Ora hoje, meu tio, que o mundo está quase todo descoberto e em que já passaram de moda as conquistas dos Mouros e as guerras com os Castelhanos, que melhor pode cumprir-se esse dever de que o faz Jorge, lutando nobremente para resgatar a sua casa e dando um grande e salutar exemplo, que oxalá fosse seguido ? Ele sim, é quem continua as gloriosas tradições dos seus avós e olhe que não será menos útil à pátria do que eles foram. Mas há um estímulo necessário para manter nele aquela actividade. Ele próprio ilude-se, julgando que pode prescindir desse estímulo. Não pode. Esse esforço há-de sacrificá-lo. Agora veja o tio, em respeito a quem é somente feito o sacrifício, se não sentirá remorsos um dia por havê-lo consentido.
D. Luis parecia pouco satisfeito com a discussão, que o colocava entre duas forças que igualmente o oprimiam.
— A minha vida é de sacrifícios ; é destino. Devo estar preparado para aceitá-los com resignação.
— Resignação nada cristã ; porque Deus não quer que nos resignemos com os males que podemos evitar e muito menos quando é uma paixão ruim que os prepara.
— uma paixão ruim ! — exclamou o fidalgo mais exaltado — até que ponto a traz cega a corrente das idéias modernas, que já chama paixão'ruim ao respeito que devemos ao esplendor das nossas casas? — E que perderia esse esplendor com a aliança de Berta? Nãc é ela uma rapariga de sentimentos nobres, cheia de virtudes e de exce lentes qualidades? Nessas famílias que mantêm o esplendor que diz conta muitas noivas mais dignas de seus filhos? E depois, meu todeixe- me dizer-lhe : nós precisamos de misturar sangue novo ao nosso, senão morreremos asfixiados nestes ares modernos. É verdade isto; as famílias que escrupulizam em não caldearem o sangue antigrque trazem nas veias, dão de si uns descendentes quase sempre parvos e pecos, por isso mesmo que saem organizados para viverem e1 uma sociedade talhada por moldes que já se não usam, e não sabei viver na actual.
D. Luis não podia ainda habituar-se a ouvir tais doutrina irreverentemente expostas por uma das representantes dessas vetusta famílias.
Era provável que as frases incisivas da baronesa lhe provocassem uma resposta apaixonada, se uma inesperada ocorrência o não viesse distrair.
Frei Januário, que ficara, como dissemos, oculto pelo cortinado do leito, e despercebido tanto da baronesa como de T Luis, ouvira com surpresa crescente o diálogo que temos descrito. Para ele eram ainda novidades os amores de Jorge e Berta, porque D. Luis já não fazia do padre o confidente dos seus segredos.
Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os comentários de Gabriela a tal respeito, e as idéias revolucionárias e subversivas que sustentara contra o fidalgo.
Frei Januário, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquelas doutrinas e a vir em auxílio do fidalgo com inesperado socorro, que por certo o faria de novo entrar nas suas boas graças.
Portanto, nesta altura da discussão, levantou-se do canto em que estiverà oculto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que conservara entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do leito, defronte da baronesa, disse, escandalizado: — Perdoe-me V. Ex.ª, Sr.' D. Gabriela, mas eu não posso deixar de manifestar o meu espanto pelo que acabo de ouvir.
— Ah! Pois estava ai, sr. frei Januário? Confesso que nem de tal me lembrava — disse Gabriela sorrindo.
D. Luis franziu o sobrolho, como quem não agradecia ao padre a intervenção.
— Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora — respondeu o padre em tom de censura — e fiquei, porque ninguém me mandou sair. Além de que eu já estou costumado a ouvir e a guardar os segredos desta família.
— Quem lhe diz menos disso, sr. frei Januário ? Eu apenas observei que me não lembrava da sua presença aí. Mas pelo que vejo as minhas idéias não merecem a sua aprovação.
— Decerto que não — tornou o padre. — O Sr. D. Luis tem razão.
A nobreza é a nobreza ; e mal de nós se ela se esquecia dos seus deveres e assim se misturava às classes ínfimas, — Então que mal sucedia com isso ao sr. frei Januário ? — perguntou a baronesa rindo.
— A mim ? — Então não disse : «mal de nós?» — Sim, mal de nós todos, porque a sociedade precisa destas distições ; senão, não há ordem, não há governo, tudo é anarquia e república.
- Leu isso no evangelho ? -•É o que a experiência me tem mostrado.
—Ah! a experiência! Muitos obséquios deve à experiência o sr. frei Januário ! — Porem deveras, minha senhora, V. Ex.ª podia aconselhar sèriamente ao Sr. D. Luis o casamento do Sr. Jorge, do morgado, morgado não, que ¡O ja com isso acabaram, para acabarem com todas as famílias ilustrei mas enfim do representante, o filho mais velho de S. Ex.ª...
o casamento dele com quem? com a filha do Tomé da Póvoa! um homem, senhores, que eu conheci criado desta casa ! V. Ex." não falava a séno há pouco. É impossível.
— Olhe que falava, sr. frei Januário, falava, falava.
— Oh minha senhora, por quem é! Lembre-se V. Ex.ª da família a que pertence, do nome que tem, e verá que se há-de envergonhar da lembrança. Berta da Póvoa ! a filha do Tomé ! Era o que me faltava ver neste mundo ! Berta, que o pai enfeitou com vestidos de senhora, mas que afinal sempre há-de mostrar a origem de onde saiu ! Eu sempre ouvi dizer que o que o berço dá, a tumba leva, e que o pé de tamanca foge sempre para a tamanca. Havia de ter graça ouvir o Sr. D. Luis chamar filha à rapariga ! e ela feita senhora na Casa Mourisca ! Ora essa ! Em tal não podia consentir o Sr. D. Luis, ainda mesmo que quisesse.
Bem vê V. Ex.ª que uma pessoa da nobreza do Sr. D. Luis não tem só a consultar a sua vontade. Lá está a mais família. Que diriam os Srs. Meios da Ribeira Formosa? os Srs. Cunhas do Choupelo? os Srs. Sotomaiores da Fonte das Urzes, os Srs. do Cruzeiro, e toda a nobreza por essa província adiante? com que olhos veriam esse casamento monstruoso as damas de todas essas famílias e em uma palavra, a fidalguia do reino? V. Ex,» decerto não pensou nisto.
Demais...
O padre não pôde prosseguir na sua animada refutação.
Interrompeu-o D. Luis.
Dera-se com o fidalgo um fenômeno não calculado pela experiência do padre, ainda que natural ao espírito humano.
Sentindo-se apoiado na defesa das suas idéias por um aliado antipático — porque o era para o fidalgo, desde certo tempo, o seu ex-procurador — teve logo um desejo veemente de recusar o auxílio e quase o de esposar a causa oposta, só para o castigar da impertinencia.
Além disso frei Januário levou a defesa mais longe do que devia.
A maneira por que falou de Berta e da dependência em que estava o fidalgo da opinião da sua parentela, irritaram o orgulhoso D. Luis, que por isso tudo com extrema vivacidade o interrompeu, dizendo : — Cale-se, frei Januário, cale-se! Que está para aí a dizer? Cuida que eu, querendo fazer a minha vontade, me dou ao trabalho de consultar os de Ribeira Formosa, os do Choupelo, ou os do Cruzeiro, ou qualquer dessa parentela que tenho por essa província adiante? Era o que me faltava ! Do que convém ou não convém à dignidade do meu nome, sou eu o juiz, e não admito ingerências alheias. Actos que deslustram e envergonham têm-nos eles feito que farte, e eu nunca lhes fui pedir satisfações por isso.
— Eu queria dizer... — acudiu o padre, intimidado pela irritação em que via o fidalgo.
Este interrompeu-o outra vez: — Ora não diga nada, que é melhor. com que olhos veriam as damas este casamento ! É boa ! com os mesmos olhos com que têm visto muita miséria e muita vergonha que vai por casa dos seus. Os olhos deviam elas empregá-los em Berta, mas era para aprender dela o que é dignidade, nobreza de sentimentos e verdadeira educação.
Como está aí a dizer o frei Januário que Berta há-de mostrar afinal a origem de onde vem? Berta há-de mostrar que é filha de um homem honrado e de uma mulher virtuosa. Se é isso que quer dizer, tem razão.
E oxalá que todas as nossas damas pudessem dizer o mesmo de si.
Fique sabendo que não seria ela que ocupasse mal o seu lugar na Casa Mourisca. Fique sabendo isto. O quarto de minha filha a poucas o franquearia eu com melhor vontade do que a ela, que parece ressuscitar- ma. Para ser nobre não basta ser do Cruzeiro ou de Ribeira Formosa.
O Cruzeiro é um ninho de bêbados e a Ribeira Formosa uma gaiola de parvos. A ter de escolher entre essa gente sem dignidade e aquela que de origem obscura lhe dá todos os dias lições de deveres, decerto que não hesitaria, nem iria entre a primeira procurar noiva para meu filho. Como se formaram as famílias nobres? São todas da mesma época? É claro que não. Houve tempo em que umas já eram nobres e outras não o eram; mas por um feito ilustre e verdadeiramente nobre um homem obscuro destas últimas mereceu que as primeiras o chamassem a seu grêmio, partilhando com ele o dom que já possuíam. Pois bem, também nós hoje podemos fazer o mesmo, que nesses antigos tempos se fazia, e chamar a nós os espíritos fidalgos, que os há fora do nosso grêmio; e assim pudéssemos também expulsar dele os espíritos plebeus que por cá temos I D. Luis, levado pela força da reacção, ia mais longe do que quisera.
Por pouco estava advogando idéias manifestamente democráticas.
O padre estava estupefacto, como se assistisse a um cataclismo. A própria Gabriela não esperava ouvir expender tais idéias a seu tio. Ainda que percebesse que a irritação que dominava o doente fosse a principal causa inspiradora naquela defesa acalorada, ainda assim lhe dava importância. As últimas palavras de D. Luis, a espécie de raciocínio com que pretendera justificar a possibilidade de alianças desiguais, realizadas certas circunstâncias, davam-lhe a entender que ele já consigo próprio previra a eventualidade e procurara argumentos que porventura a justificassem.
Gabriela viu nesta descoberta um óptimo indício e percebeu a conveniência de deixar o espírito do tio sob aquela ordem de impressões e entregue ao movimento próprio que a intervenção do padre iniciara.
Por isso, sob o pretexto de que a discussão fatigara em extremo o doente e que os excessos lhe podiam ser funestos, cortou no princípio a réplica do padre e obrigou-o a retirar-se da sala para deixar dormir o doente.
Ao sair dizia ela, tomando o braço do capelão: — Depois de se lançar o crescente na massa, cobre-se esta e deixa-se em repouso levedar. Quando era criança via fazer isto em minha casa, sempre que se cozia pão.
O padre não entendeu o alcance da parábola. Saiu dali desnorteado com o que via naquela casa, que ele supunha eivada do veneno da maçonaria, única maneira por que explicava as irregularidades que via.
Gabriela saiu no intento de encaminhar a crise em um sentido favorável.
MAURÍCIO veio ao encontro da baronesa assim que esta saiu do quarto de D. Luis.
Como deixaste meu pai? — perguntou ele.
— Mal e bem.
— Que queres dizer com isso ? — Mal, porque me inquieta o abatimento em que o vejo. Naquela idade !... Bem, porque o acho em excelentes disposições de se lhe aplicar um remédio heróico.
— Qual? — Queres principiar hoje a tua carreira diplomática? — De que maneira? — Vais já daqui a casa do Tomé da Póvoa.
— Sim, e depois ? — É uma visita que lhe deves, visto que não te lembraste de lhe dar parte do nosso casamento.
—É verdade que não.
— Vais, pois, visitar Tomé. Repara que nem sequer me lembro de ter ciúmes de Berta.
— É uma prova de confiança que te mereço.
— Sim? Mereces? Diz-te isso a consciência? Bom será. Vamos adiante. Em casa de Tomé contas qual o estado de teu pai. Fazes sentir a necessidade de que Berta volte para aqui, ou para o reanimar, do que só ela é capaz neste mundo, ou pelo menos para suavizar-lhe os últimos momentos e despedir-se dele. É provável que encontres objecções em Tomé, mas insiste ; diz que teu pai se mostra magoado com a ausência de Berta, e que e um pecado imperdoável prolongar-lhe essa dor tão fácil de remediar. Finalmente não voltes sem ter resolvido Berta a vir hoje mesmo para aqui.
— E quais são os teus projectos? — Ora quais hão-de ser? São casar Berta com Jorge. Está claro.
— Hás-de encontrar dificuldades.
— Já me pareceram maiores. O padre fez-nos, sem querer, um grande serviço. Meteu-se a advogar com tanto calor a aristocracia, que por pouco fazia do teu pai um democrata.
— Deveras ?
— É verdade. Agora quatro caricias" de Berta devem consumar a vitória. Vocês os homens levam-se por isso.
— Parece-te ? — Veremos se me engano.
Mauricio encarregou-se da mensagem que lhe incumbia a mulher e partiu para casa de Tomé, onde foi recebido com caloroso afecto.
Expondo o principal fim da sua visita, não encontrou grande oposição em Tomé contra o regresso da filha para os Bacelos. Ele próprio prometeu levá-la.
Efectivamente horas depois, Berta era de novo conduzida pela baronesa para junto da cabeceira do enfermo, que em todo aquele tempo continuara a manifestar sinais da mais profunda depressão de forças.
D. Luis dormitava quando Berta se lhe aproximou do leito. A rapariga correu cautelosamente o cortinado para contemplar a figura do ancião. Comoveu-a o aspecto do abatimento que crescera nele desde que Berta o deixara. D. Luis tinha o sono agitado por sonhos febricitantes, e sonhando soltava gemidos surdos, palavras mal articuladas, estremecia e suava como sob a influência de uma aflitiva impressão.
Berta veio encontrá-lo em um destes estados e curvou-se, compadecida, para enxugar o suor que lhe orvalhava a fronte.
O doente acordou então e fitou os olhos nela.
Imediatamente lhe distendeu as feições contraídas um sorriso de alegria.
Por algum tempo não falou, como se estivesse duvidando da realidade do que via e suspeitando-a de ser a continuação de um sonho.
Foi Berta a primeira que falou.
— Está melhor ? — interrogou ela, sorrindo.
O tom daquela voz e a particular inflexão da pergunta, com que já estavam familiarizados os ouvidos do doente, parece que o convenceram de que não dormia.
Estendendo para a afilhada a mão magra e ardente, murmurou, profundamente comovido : — Então sempre voltaste ? — Como me disseram que tinha passado mais inquieto estes últimos dias...
— Fizeste bem. Havia de custar-me a morrer sem me despedir de ti.
— Quem fala aqui em morrer ? Agora que o Inverno passou e que este tempo está a dar vida a tudo é que o padrinho se lembra disso? Pois veremos. Dentro de poucos dias é preciso continuarmos aqueles nossos passeios na quinta.
D. Luis sorriu tristemente e fechou os olhos, como para reter uma lágrima, que, apesar disso, lhe passou por entre as pálpebras e lhe rolou vagarosa pelas faces descarnadas.
Berta murmurou ao ouvido do velho :
— Chore à vontade, que estou eu só aqui. Chore, que lhe faz bem.
Como se a densa tristeza que pesava sobre o coração daquele homem só esperasse aquelas palavras para se fundir em lágrimas, o pranto inundou-lhe o rosto, que ele quase escondeu no seio de Berta.
Aquela expansão foi-lhe salutar. O sono seguinte foi mais tranquilo e menos cortado por sonhos fatigadores. Contudo o estado do doente era ainda muito grave, e na aldeia e imediações corria já voz do próximo falecimento do fidalgo da Casa Mourisca.
A parentela das vizinhanças a cada momento vinha ou mandava aos Bacelos saber novas do fidalgo. Tomé da Póvoa passava ali a maior parte do seu tempo ; a própria Ana do Vedor viera oferecer os seus serviços à família, e raras vezes se desviava da casa.
Berta continuava assiduamente junto do leito do enfermo, sem perder a esperança de o ver sair vitorioso daquela tremenda crise.
Ninguém a desviava dali. Re tinha-a a vontade própria, assim como a do doente, a quem a menor contrariedade podia ser fatal.
A baronesa não só não insistia para que Berta cedesse a outrem o campo, mas nem deixava que alguém insistisse. Dizia ela que a juventude de Berta podia bem com aquele sacrifício, e que era provável que Deus não deixasse sem recompensa a sua caridade.
Durante três dias a família reunida nos Bacelos passava o tempo, por assim dizer, na expectativa do triste acontecimento que se esperava.
Jorge interrompeu os seus trabalhos. Maurício nunca saía de casa, e a baronesa passeava constantemente entre a sala, onde quase sempre permaneciam os dois irmãos, às vezes na companhia de Tomé, e o quarto do enfermo, que mal consentia junto de si outra pessoa além de Berta.
uma noite, D. Luis, depois daqueles três dias de febre e quase de delírio, conseguira adormecer de um sono mais tranquilo e reparador.
Não foram os sonhos incoerentes, absurdos e fatigadores que o atormentaram desta vez ; mas um sonhar grato, sem visões febris, e durante o qual a imagem da filha por vezes lhe apareceu sorrindo-lhe e falando- -lhe com o carinho de que ele ainda se recordava com a mais pungente saudade do seu coração. Esta imagem transformava-se-lhe às vezes por insensível transição na imagem de Berta, e tão semelhantes, tão confundidas lhe apareciam, que ele nem sabia ao acordar com qual das duas sonhara. Umas vezes era a filha que lhe falava com a voz e a figura de Berta ; outras, Berta revestindo a imagem de Beatriz.
Despertou deste sonho por alta e calada da noite. No aposento era completo o silêncio. Interi ompia-o somente o bater cadenciado da pêndula do corredor. A tenue claridade de uma pequena lâmpada alumiava a cena.
D. Luis depois de acordado tentou avivar as gratas impressões que lhe deixara o sonho.
Pensou na filha e no passado, nas tristezas presentes, nas venturas perdidas e nas desgraças por vir.
Àquela hora da noite, na solidão e repouso da câmara de um doente, o espírito ergue-se superior à habitual esfera onde ordinariamente paira e contempla com a vista de águia as suas paixões e preconceitos ; vê-os flutuar como nuvens nas regiões inferiores. É nesses momentos que a consciência nos julga ; a parte mais etérea do nosso ser parece então erguer-se lúcida como nunca e contemplar compadecida os maus instintos, as prevenções arreigadas, os falsos preconceitos que no trato comum da vida em tão viciosas direcções nos solicitam.
Enquanto o mundo dorme, dormem com ele no nosso coração as paixões que o mundo alimenta.
Naquele momento D. Luis não era o mesmo homem que conhecemos.
Luzia-lhe a verdade resplandecente à sua imaginação fascinada.
No meio da corrente dos seus pensamentos distraiu-o um quase imperceptível respirar que ouviu a seu lado. Voltou-se.
Era Berta que, cedendo às fadigas de tão continuadas vigílias, adormecera junto do leito do doente.
D. Luis ficou a contemplá-la assim.
A luz do velador dava-lhe no rosto, em que se desenhava a mais doce expressão de serenidade de espírito.
Pendia-lhe a cabeça sobre as travesseiras do leito e urna madeixa de cabelo, soltando-se-lhe, viera afagar-lhe a fronte, abrindo caminho por entre os dedos que a sustinham.
D. Luis ergueu-se a pouco e pouco no leito para melhor observar aquela figura angélica de mulher, adormecida ao seu lado.
Traduziam as feições do velho o êxtase, em que o arrebatara aquela contemplação. Parecia-lhe uma visão sobrenatural. com movimentos cautelosos para não a acordar, encostou os braços às almofadas da cama e apoiando a cabeça entre as mãos, assim permaneceu imóvel, abstracto, com os olhos fitos em Berta e o espírito subindo às regiões mais limpas dos espessos nevoeiros do mundo.
Era um expressivo grupo o daquela rapariga adormecida e o daquele velho pálido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um quase rapto de adoração. Àquela hora, no meio daquele silêncio, alumiada por aquela luz, a cena era misteriosamente solene e imponente.
Horas talvez durou aquela contemplação silenciosa.
De repente acentuou-se no rosto do fidalgo uma expressão de energia e firmeza que a doença e a preocupação de espírito havia muito lhe tinham dissipado.
Curvando-se mais sobre o rosto de Berta, desviou com extrema delicadeza a madeixa que lhe caía sobre a fronte, e murmurou como para si : — Porque és tu que velas a meu lado ? Que laços te prendem a mim? Porque dedicas a este velho a tua juventude?... E não se recompensa esta abneqação? Pagam-te, sacrificando-te aos seus,., preconceitos.
E continuava a contemplá-la em silêncio; depois voltava a murmurar : — Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irmã ; havia de querer-te junto de si, no seu quarto. E eu... porque não hei-de chamar-te filha? Não disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, pousou na fi onte da rapariga um beijo expressivo de paternal afecto.
Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de sobressaltar Berta, que o espiava com solicitude.
À interrogação que ela lhe dirigiu para saber a causa da agitação em que o via, D. Luis não respondeu logo ; porém, momentos depois, olhou para a afilhada com uma expressão singular, pegou-lhe nas mãos, apertou-as com afecto, e disse-lhe com manifesta comoção: — Berta, vai chamar Jorge. Que me venha falar. Preciso de conversar com ele quanto antes.
Berta saiu do quarto com os olhos arrasados de água.
Aquelas palavras tinham para ela uma dolorosa significação.
D. Luis, que mandava chamar o filho mais velho, o directo sucessor do seu nome e da sua casa, era porque um daqueles pressentimentos, que nos advertem da proximidade da nossa hora final, indicava-lhe ter chegado a ocasião de despedir-se do filho e dar-lhe os derradeiros conselhos de pai.
, Todos nos Bacelos formaram a mesma conjectura. Jorge ergueu-se precipitadamente do leito, assim que soube que o pai lhe queria falar.
A nova espalhou-se em tôda a casa e pôs todos em alvoroço. Em breve transpirou fora que o fidalgo da Casa Mourisca já se despedira dos filhos e que em poucas horas seria com Deus.
A casa de Tomé e de Ana do Vedor chegou a notícia e trouxe até aos Bacelos esses antigos comensais da família, cujo representante actual chegava à hora mais solene da vida. A boa Luisa acompanhou o marido no intento de oferecer os seus serviços naqueles momentos de dor e confusão.
Jorge entrou comovido e pálido no quarto do pai, onde ninguém mais o seguiu.
O pobre rapaz ia preparado para uma cena dilacerante ; esperava assistir à agonia do velho.
Tremiam-lhe as pernas ao aproximar-se do leito.
D. Luis percebendo-o chegar, dirigiu-se-lhe com voz débil mas firme: — És tu, Jorge? — Sou eu, meu pai.
— Chega-te mais para aqui. Assim.
E, fitando o filho com o olhar ainda cheio de expressão e vida, continuou depois de um demorado silêncio : — Jorge, tu não és feliz.
Jorge olhou para o pai, espantado pela inesperada observação que lhe ouvia.
— Tens uma nobre alma, tomaste sobre os ombros uma pesada tarefa, dedicaste ao cumprimento dela a tua vida inteira, e como se isso não fosse bastante, sacrificaste-lhe ainda os teus mais ardentes afectos. Jorge, não será o sacrificio superior às tuas forças? Jorge baixou a cabeça sem responder.
A estranheza causada pelas palavras do pai, tão diferentes das que esperava, perturbara-o a ponto de não saber o que dissesse.
— Fala, Jorge — prosseguiu o velho. — Vá, nunca viste em mim um confidente, porque o meu carácter sério e reservado afugentava as tuas expansões de criança ; mas a doença quebrou-me e hoje posso escutar-te. Tu sofres, Jorge, e sofres por minha causa, não é verdade ? — Meu pai ! — dizia Jorge, cada vez mais embaraçado.
— Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no coração e que disputou o teu pensamento aos projectos de reabilitação que empreendeste para salvar esta casa da ruína que os nossos e eu lhe preparamos ; sei da tenacidade com que combateste esse amor, da coragem com que o sacrificavas aos meus princípios aristocráticos, apesar de veres apenas neles meros preconceitos de classe.
—Creia, meu pai, que respeito as suas opiniões e que...
— Ouve-me. Orgulho-me com o teu carácter ; vi nele a nobre tempera de um verdadeiro fidalgo, e desde então creio deveras que a regeneração da nossa casa, empreendida por um homem como tu, não pode deixar de realizar-se. Vou sem este peso para a sepultura.
Os meus erros ser-me-ão relevados por o facto de te ter por filho. Tu reabilitarás a minha memória, Jorge, o meu coração não tem já a dureza de outros tempos ; males de tôda a espécie acabaram de vencê-lo ; agora é um coração de homem. Por isso me é intolerável a idéia do teu sacrifício. Se tu participasses dos meus... preconceitos, era justo que lhe sacrificasses todos os afectos ; sentirías na satisfação interior a compensação do sacrifício. Mas sacrificares-te só por meu respeito, sem teres a mesma fé no objecto a que te sacrificas... nisso não posso eu consentir. Reunirei as minhas forças para subjugar alguns restos de vaidade que se revoltem, e antes de morrer desviarei o único obstáculo da tua infelicidade, dizendo-te : «Podes ser feliz, Jorge». Além de que, tu és nobre bastante para enobreceres aquela que cingires ao coração e ficares nobre ainda.