III
TOMÉ da Póvoa era o tipo mais completo de fazendeiro que pode desejar-se.
« Alma sã em corpo são » ; esta frase do poeta é a que descreve melhor o homem: no físico, a força e a saúde em pessoa; no moral, a honradez e a alegria.
Enquanto houvesse alguém que trabalhasse em casa, não descansava ele. Delícias do sono da madrugada, atractivos das sestas, a tudo resistia com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes laboriosos de tempos mais árduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo seperintendia. Antes de almoçar já ele havia passado revista à Herdade tôda.
No decurso do dia montava a cavalo e lá ia inspeccionar uma ou outra propriedade mais distante, que não deixava entregue à discrição dos caseiros. uma ou duas vezes no mês estendia as suas excursões até ao Porto, chamado por negócios relativos à lavoura.
Franco, liso de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos contratos, não se lhe limitava o crédito à circunscrição da sua aldeia, estendia-se até à cidade, onde o seu nome era melhor garantia em certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em família, perfeitamente patriarcal, estremecia a mulher e os filhos ; e a lem branca de que para eles trabalhava, iludia-lhe as fadigas e os desalentos.
Quando Jorge se dirigiu à Herdade, presidia ainda Tomé aos diversos trabalhos, em que a sua gente andava ocupada naquela manhã.
Não havia ali braços quietos, nem movimentos inúteis. Naquelas casas o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infância se familiarizam com ele. Dá-se o mesmo que se dá com o trato dos bois ; somente na cidade é que estes possantes e bondosos animais metem medo às mulheres e às crianças ; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.
Assim, pois, trabalhava-se, falava-se, ria-se e cantava-se com alma nas eiras e quinteiros da Herdade.
O Tomé, centro daquele movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo a todos a palavra e a todos prestando o auxílio do seu braço robusto ; e da porta da casa, assistindo também àquela cena rural, a boa e santa mulher do fazendeiro, a sócia fiel nos seus prazeres e penas, sustentando ao colo o último dos seus filhos, enquanto que os mais crescidos jogavam as escondidas por entre aquela gente azafamada.
— Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manuel. Vê lá se me arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça... Ó meu maluco, não reparas que me vais semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha- me tudo isso, que eu não quero nada desperdiçado... Está quieto, João, vai para casa, agora não se brinca no quinteiro. Sai-me de ao pé dos bois, menino! Ai que tu... Ó Luisa, olha se mandas dar uma pinga àqueles homens... Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéu. Ai, vem por causa do muro que caiu? Olhe, tenha paciência, volte cá amanhã. Hoje não posso olhar por isso... Ó Chico Enjeitado, que diabo estás tu fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vai-me recolher aquele milho que eu te disse; corre... O moleiro já veio? Pois as azenhas já moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora... 0 Manuel, arreda esse carro mais para o meio, senão não pode entrar o outro, homem de Deus ! Disseram ao Luis que visse como estava o milho na baixa do rio? Que mo não vá cortar antes do tempo.
Eu sempre quero lá ir primeiro ; ele não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que podem aleijar-se por aqui. Vai, Joãozinho, vai para casa e leva o mano. Olha, qupres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ai duas espigas para os pequenos. Que demônio anda aquele cão a fazer atrás das galinhas? Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes ! Vocês nesse andar não acabam hoje. Dá cá um ancinho, que eu vou arredando esse folhedo.
No meio deste fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi Tomé da Póvoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou : — Ai, ó Tomé, olha quem ali está! O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, con templar o mesmo espectáculo, que tanto o havia atraído ão observá-lo da colina.
Era raro que os filhos de D. Luis visitassem a Herdade. O velho fidalgo ainda se não costumara à prosperidade do homem que fora seu criado. A granja era como que uma censura pungente à sua imprevidencia; era uma lição muda que ele recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos.
Tomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava pela família da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luis, certa deferência e respeito que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em casa do fidalgo.
Este, porém, procurara o primeiro pretexto para interromper as relações com Tomé. uma questão de águas, ocasionada por a abertura de uma mina em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luis, sempre indiferente a litígios dessa ordem, mostrou-se então muito cioso de seus hipotéticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que houve da parte do lavrador, desde essa época nunca maia conviveu com ele.
Jorge e Maurício, que costumavam frequentar a casa do homem que os trouxera ao colo e que lhes queria deveras, receberam ordem para não voltarem lá.
Tomé da Póvoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido ; mas possuía bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do fidalgo ; por isso limitou-se a encolher os ombros, dizendo para a mulher: — Então que queres tu que eu lhe faça ? assim nasceu e assim há-de morrer.
Eis a razão por que a presença de Jorge o surpreendeu; mas, sem dar sinais de estranheza, caminhou para ele com as mãos estendidas e o rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.
— Entre, Sr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas enfim é casa de lavrador, e em Setembro não há mansira de a ter asseada. O Luisa, manda para aqui uma cadeira... ou deixa estar, é melhor entrar lá para dentro.
— Não, Tomé, eu, prefiro ficar aqui. E não se incomode. Olhe, já estou sentado.
— Ora! num carro! Isso é que não. Nada, não tem jeito. Luisa, manda então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, Sr. jorge? — Agradecido, Tomé ; não tenho sede. Apeteceu-me vir ver da perto esta lida, que por aqui vai, e que estive observando, perto da uma hora, ali de cima; por isso desci.
— Ora essa ! Pois bem-vindo seja, que sempre me dá alegria ver aqueles meninos, que conheci tão pequerruchos como estes.
E apontava para as crianças que, agarradas às Dernas do pai, olhavam com grandes olhos para Jorge. — São todos seus?— perguntou Jorge, afagando-as e sentando urna nos joelhos.
— E aquele que a mãe traz ao colo e a pequena que está na cidade.
— Ai, sim, a Berta. Deve estar uma senhora? — Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquilo é sumo de uva e nada mais.
— Obrigado, obrigado ; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o seu trabalho, sem se importar comigo. Para isso é que vim.
— Ai, isto está a acabar. Vai no meio-dia — acrescentou, olhando para o Sol — daqui a nada vai esta gente jantar e... Para onde levas tu esse carro, ó desalmado! Perdoe-me, Sr. Jorge, mas estes diabos...
Eu atendo-o já.
E, sem poder conter-se, colocou-se ele próprio à frente dos bois, e encaminhou o carro na direcção conveniente.
— Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões este ano, que é uma coisa por maior, Sr. Jorge — disse ele, regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho.
Luisa voltou com uma cadeira para oferecer a Jorge.
— Como está crescido e fero ! — dizia ela, olhando-o com curiosidade e complacência — e o mano como vai ? Vi-o há dias passar a cavillo ali na ponte do Giestal. Pareceu-me bom.
— E como está seu pai, Sr. Jorge ? —perguntou Tomé gravemente.
Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimenta dos criados da lavoura, a quem de quando em quando Tomé dava ordens e fazia recomendações, que entremeava na conversa, serri perder o fio desta.
Luisa, com o filho ao colo, não abandonou também a cena, senão quando o sino da igreja paroquial bateu as três badaladas que recordam aos fiéis a oração do meio-dia. O trabalho na eira e no quinteiro suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma curta reza, ao fim da qual a mulher de Tomé, depois de dar aos presentes as boas-tardes, disse, seguindo o caminho de casa: — Venham jantar.
Todos obedeceram imediatamente à agradável ordem, e em pouco tempo ficou só e silenciosa a cena, havia pouco tão ruidosa e animada.
— São horas do seu jantar, Tomé — disse Jorge, levantando-se para sair.
— Depois desta gente acabar, é que eu principio. A Luisa não pode atender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe ofereço do meu jantar, porque não é feito para si ; mas se quiser dar uma volta por os campos enquanto eles jantam...
— Se lhe não causar incómodo... — Nenhum ; até preciso de ir ver o que eles hoje trabalharam no poço que mandei abrir lá em baixo.
E, empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal.
Tomé obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.
E, de caminho, ia-lhe comentando tudo que viam: narrou como alporcara uns pessegueiros, o resultado que tirara do enxoframento das vinhas, a quantidade de fruta que o laranjal lhe produzira, quanto despendera na construção do lagar, as dificuldades que encontrou na abertura da nora, o que fizera pouco produtiva aquele ano a cultura do trigo, os cuidados que lhe mereceram os meloais, e mil outras coisas relativas ao amanho das suas terras, das quais nem um só palmo se poderia encontrar, onde as plantas nocivas usurpassem os lugares das proveitosas.
Jorge escutou-o com uma atenção e interesse, que estavam causando grande estranheza a Tomé, pouco acostumado a ver as pessoas da categoria de Jorge, e da idade dele ainda menos, interrogarem-no com tanta curiosidade e ouvirem-no com tanta sisudez sobre objectos de lavoura.
E as perguntas do jovem fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que por condescendência se fazem, para lisonjear a vaidade natural de um proprietário. Havia nelas uma precisão, uma minuciosidade ; acompanhavam-nas reflexões tão acertadas, dúvidas tão racionais, que Tomé não podia iludir-se, e via bem que o descendente dos nobres Negrões de Vilar de Corvos o interrogava com desejo de saber.
Esta convicção entusiasmava Tomé, que prosseguia com ardor as suas informações.
Jorge quis saber aproximadamente o custeio necessário para manter uma propriedade como aquela no ponto de cultura em que estava, e o capital exigido para a elevar a esse grau de florescência.
Tomé era forte na especialidade dos orçamentos ; por isso deu com a melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia.
Afinal Jorge, depois de um mais longo intervalo de silêncio, que terminou por um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a fingir-se entretido no exame da roda hidráulica de uma nora : — E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de ortigas e saramagos, Tomé? Tomé da Póvoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou nele um olhar penetrante. Porque o fazendeiro tinha às vezes um certo olhar, que ia até ao fundo do pensamento de uma pessoa.
— Quer que lhe diga porque é, Sr. Jorge ? — perguntou ele logo depois, com um tom de voz sério e quase triste.
— Quero, sim.
— Ë porque o dono deles é o Sr. D. Luis Negrão de Vilar de Corvos, o fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.
Jorge olhou interrogadoramente para Tomé, que continuou : — É pela mesma razão por que chove nas salas do morgado do Penedo e por que seus primos do Cruzeiro perderam o ano passado todo o Casal de Matoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde que saí aos vinte e dois anos de sua casa, Sr. Jorge, até hoje, o menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de serralha e de saramagos. Trabalhei muito, Sr. Jorge ; não é só com água que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê ; é com o suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por elas, sem confiar em ninguém, como um pai vigia pela educação dos filhos. Ora aí está. As bênçãos de um padre capelão não dão adubo às terras — acrescentou Tomé com um sorriso epigramático a comentar a alusão, que não escapara a Jorge.
— Mas como se explica isto, Tomé ? — continuou Jorge com a docilidade de um discípulo — os meus avós nunca se ocuparam muito com a lavoura; passaram a vida quase tôda na corte e nas embaixadas, e raras vezes visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar e, contudo, a nossa casa era então uma das mais ricas da província, e hoje...
— Isso lá... Olhe, Sr. Jorge, se eles se não ocuparam dos seus bens, e não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder.
Quem hoje o está pagando é seu pai, e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa robusta que leva vida extravagante. Enquanto é nova e tem muitas forças, não dá por as que perde, e julga que nada lhe faz mal ; mas chega lá a um certo ponto e de repente acha-se fraca, e então é que considera o dano que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo? — Entendo, Tomé, entendo, e creio que é essa a verdade, Além de que — prosseguiu Jorge pensativo — naqueles tempos, as classes privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incúria e de dissipação, porque os privilégios velavam por elas e remediavam- lhes os desvarios ; adormeceram nessa confiança, e não sentiram que tinham mudado as condições sociais, e agora ao acordarem...
Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu interlocutor, interrompeu-as sùbitamente, e apontando para a Casa Mourisca, que dali se avistava, exclamou quase com desespero : — E não será ainda possível sustentar aquela casa na sua queda ? Temé da Póvoa sorriu com uma expressão de inteligência.
— Entregue-a às mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa dispor de alguns capitais para os primeiros tempos e verá.
— Principiaria por deitar abaixo aquelas paredes velhas e aquelas árvores — observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado solar e para os bosques seculares que o rodeavam.
— Talvez deitasse — disse Tomé — pode bem ser que o fizesse, porque lá amor a essas coisas nao têm eles, não. Mas não seria necessário.
Eu, que também lhes tenho afeição, àquele arvoredo e àquelas paredes negras, porque ali passei um tempo... mau era ele decerto...
Mas enfim... sempre tinha vinte anos... eu, que me não atreveria a deitar-lhe o machado... ainda me aventurava a pôr aquilo no pé em que esteve.
Jorge nao pôde tirar às suas palavras um ligeiro tom de amargura e quase de ironia, quando, depois desta resposta de Tomé, exclamou, voltando-se para a Casa Mourisca: — Espera, pois, casa de meus pais, que a nossa miséria nos expulse dos teus tectos e te abra as portas à família de um lavrador abastado, para veres reparados os teus muros e cultivados esses campos maninhos ; assim Deus dê a esse homem um pouco de amor às coisas velhas, para te não destruir na reforma.
Tomé, que percebeu a oculta expressão destas palavras, replicou com dignidade : — Porque não há-de antes dizer, Sr. Jorge: Espera, casa de meus pais, que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus próprios olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos? — Os remédios são caros na botica, Tomé. Os pobres vêem às vezes morrer um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria.
— Sr. Jorge — acudiu Tomé com um ar quase solene — resolva-se deveras a ser homem, deixe-se de viver como vivem e têm vivido os seus, queira do coração fazer-se econômico, trabalhador e vigilante, livre-se da praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal ou bem, conforme puder, porque isso é la com Deus e ele, faça tudo isto, e os capitais não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhá-los naquela casa será um dos que não porá dúvida em empregá-los, até onde chegarem, para a sustentar e não deixar cair ; e onde não chegarem os capitais, chegará o crédito.
— É uma esmola que me oferece, Tomé ? — perguntou Jorge, mas sem o menor sinal de irritação.
— Não, Sr. Jorge, não é. Nem o menino ma aceitava, nem eu poderia fazê-la, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um empréstimo, menos perigoso do que os arranjados pelo padre capelão.
Não é vergonha um empréstimo, quando se faz em condições de poder por ele aliviar-se um homem de dividas mais pesadas e de credores mal-intencionados, e resgatar e melhorar a propriedade. Há muito que a sua casa vive disso, mas a tais portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro que obtinha, que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica mal um empréstimo, Sr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade os compromissos que se ajustaram.
Então não vê que até os governos pedem emprestado? — Mas quando, como no meu caso, não há garantias a oferecer, o empréstimo é bem parecido com a esmola, deve confessar.
— Não há garantias ? Ouem foi que lhe disse isso ? E a sua probidade?...
Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha história, e verá depois se tenho razão no que digo. E Tomé da Póvoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou : — Quando sai da casa de seu pai, por esta vontade às vezes bem doida, que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito, que juntara, em arrendar um casebre e uma horta, na qual, lidando do romper do dia até a noite, tirava, quando muito, o preciso para não morrer de fome. O menino sabe aquela nesga de campo, que eu tenho ao pé dos açudes e o palheiro que fica ao lado? — Bem sei.
— Pois foi essa a minha primeira casa. A Luisa, com quem por esse tempo casei, trabalhava tanto como eu, e assim íamos vivendo, sabe Deus como, mas pagando pontualmente o nosso aluguer e sem ficar a dever nada na tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe fale na alma! O menino há-de ter o avido falar dele : era o Sr. Meneses, pessoa de muito saber e que tinha sido da Relação do Porto.
— Ainda tenho uma idéia de o ver.
— Não havia melhor senhorio ; nada exigente com os caseiros, e até sempre pronto a ajudá-los. Um ano veio uma sequeira, que matou tôda a novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de água, as fontes secas, as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as mãos na cabeça e a pedirem a Deus misericórdia ! A coisa foi de maneira que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.
— Sucedeu-lhe o mesmo a si ? Está visto.
— A mim ? ! eu nada colhi nesse ano ; mas de maneira nenhuma queria faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei para fora uns cruzados novos que, a muito custo, pusera de lado para o caso de uma doença: mas não era coisa que chegasse. Como há-de ser, como não há-de ser, eis que a minha Luisa, que sempre foi boa companheira, me diz : « Não te aflijas, homem ; aí vão as minhas arrecadas, pega », e atirou-mas para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das arrecadas da rapariga, que era a única riqueza que ela tinha; mas não houve outro remédio. Pu-las em penhor, e com o dinheiro que me deram completei o aluguer, e no dia marcado apresentei- me em casa do doutor Meneses.
— E ele? — Parece-me que ainda o estou a ver no seu quarto de estudo, com as pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos óculos: «Então o que o traz por cá, Tomé?» «Eu, sr. doutor, venho para o que V. S.ª sabe». «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O ano pelos modos foi mau». «Ora se foi! mas enfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro virá melhor». E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o dinheiro, que me pus a contar e a encastelar.
O homem estava calado a ver aquilo. Quando cheguei ao fim olhou para mim de uma certa maneira, e disse-me: «Então está aí tudo?» «Está, sim, senhor, V. S.ª não viu?» «E você quer-me dar tanta coisa?» Desta vez fui eu que me pus a olhar para ele, admirado. «Então não e este o preço ajustado no arrendamento ? » «É célebre, disse o sr. doutor, abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro que me paga tão pronto este ano e sem pedir que lhe perdoe alguma coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro, ó Tomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do seu campo».
Eu não tive remédio senão contar-lhe tudo. Ele não me deixou acabar.
«Leve isso daqui, homem, e desempenhe as arrecadas da sua mulher.
Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu próximo».
—Bela alma! — exclamou Jorge, comovido pela narração.
Tomé continuou: — «Em todo o caso — disse-me dal a pouco o sr. doutor — você fez hoje um grande negócio sem o saber. Você é trabalhador, que isso lenho eu visto por a maneira por que me traz bem aproveitado o campito que lhe aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o capital e hoje arranjou-o.» — Que queria ele dizer nisso? — Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o, sim, senhor — respondeu ele — porque arranjou crédito, que vale por um capital enorme.
O que você fez mostra-me o de que é capaz. Apareça amanhã por aqui, porque temos que tratar».
— E que lhe queria ele ? — perguntou Jorge, cada vez mais atento.
— No dia seguinte fui procurá-lo, sem imaginar o que fosse que ele tinha para dizer-me. Mal me viu exclamou logo: «Ora venha cá, Tomé, sente-se aqui, porque temos um contrato a fazer». E obrigando- -me a sentar ao lado dele, continuou: «Vossemecê vai assinar-me um escrito de arrendamento da minha propriedade das Barrocas». Ora faça idéia o menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das Barrocas? aquilo é um condado, se pode dizer. Como havia eu de arrendá-la, Santo Deus ! Ele, conhecendo o meu espanto, acudiu logo: «Não lhe pareça isso uma coisa por aí além. Nós ajustamos a renda e você vai tomar conta daquilo. A quinta está bem-educada e nutrida e estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do ano».
«Mas, disse-lhe eu, V. S.ª bem vê que uma peça daquelas precisa de braços para ser bem trabalhada, de braços e de certas despesas».
«Mas, homem, torna-me ele, quem lhe diz menos disso? Olhe lá que eu a deixe ao desamparo, para você ma entregar no estado em que por aí em geral os caseiros as entregam aos senhorios ! Mas é bem feito, que eles também fazem uns arrendamentos tais, que os caseiros morreriam esfomeados, se não esfomeassem a terra».
— Mas esse homem era um grande filósofo ! — observou Jorge.
— «Vá você para lá — continuou ele — trate-me bem daquilo, e os capitais precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas obras, eu lhos adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia apostar que ambos havemos de lucrar.» que disse ao ver-me cá dentro : Isto é meu ! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra coisa tudo isto. Meu ! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu! Estas árvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes pássaros, que por aí cantavam, eram meus, porque enfim vinham fazer ninho e cantar no que me pertencia. Vai rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu abracei estas árvores, eu bati palmadas nestes muros, lavei-me nesses tanques todos, bebi água dessas fontes, deitei-me à sombra dessas árvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e afinal... quer que lhe diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra ! beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhara à custa de muito trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o, em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luisa, e em que também pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quase a mesma coisa ; este era o meu segundo casamento. Daí em diante foi que eu soube o que é ter amor à terra.
Desde a sementeira à colheita era um cuidado incessante com o campo.
Ver crescer as plantas para mim causava-me tanto prazer como ver o crescer dos filhos; cada novo rebento era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as árvores que plantava, e trazia contados os frutos dos pomares. Aquilo nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus ajudou-me, e daí por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, Sr. Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não pode recusar o seu pouco auxílio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.
Jorge estendeu a mão a Tomé, dizendo-lhe, sensibilizado: •—Fez-me bem ouvi-lo, Tomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e nela procurarei aprender. Eu também sinto os mesmos desejos de remir a minha última dívida, para depois chamar meu ao que me pertence. E nesse dia também abraçaria com entusiasmo aquelas velhas árvores e ajoelharia para beijar a terra que os meus antepassados me deixaram. Mas não sei se a empresa estará ao alcance das minhas forças.
— Está. Eu lhe digo. Há aqui só uma dificuldade a vencer. Empregue tôda a sua força para esse fim, porque se trata do bem da sua casa, do seu futuro e da sua dignidade. É preciso que c pai lhe dê licença para o menino administrar a casa e que o padre capelão se contente com dizer missas, porque depois...
— Ainda quando vencesse essa dificuldade, que é grande, Tomé, porque meu pai ainda vê em mim uma criança, surgiria outra, De si nunca meu pai...
Tomé da Póvoa não o deixou concluir.
— Eu sei, mas o Sr. D. Luis não se mete por miúdo nos negócios da casa, desde que tem um procurador encarregado deles. Consiga que ele ponha em si a confiança que tão mai emprega no padre, e eu lhe prometo que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do que um escrito seu, Sr. Jorge. Demais, como a sua experiência é pouca, eu, se mo permitir, guiá-lo-ei nos primeiros tempos. Como seu pai não gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que ele o saiba. Os serões de Inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.
Jorge disse finalmente com resolução: — Aceito, Tomé. Falarei a meu pai. O dever de salvar a minha casa da ruína me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será impossível pagar-lhe mais tarde a dívida que contrair.
— E eu tenho fé em que há-de ainda haver dias alegres e de festa naquela triste casa. Não é verdade que se diz que há lá um tesouro escondido? Pois cave na terra, que o há-de encontrar.
A voz de Luisa, ao longe, anunciou neste momento ao marido que o jantar esperava por ele.
Jorge saiu dali com o coração palpitante de esperanças e de comoção, que lhe estava já causando a idéia da entrevista que precisava de ter com o pai.
Tomé jantou com o apetite de quem tinha feito uma boa acção e realizado uma idéia, com que havia muito tempo lhe lidava o cérebro.
A mulher achou-o mais falador do que de costume ; e, depois de jantar, voltou para a eira, cantando.
Era feliz naquele momento a sua alma generosa.
IV
EM uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por três rasgadas janelas ogivais e mobilada ainda com certa opulência, vestígios do esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu capelão, procurador frei Januário dos Anjos.
Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da última oração.
Frei Januário era quem esperava, porque essa era também a principal ocupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as amarguras destas longas expectações. Eram elas talvez que não o deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei Januário era magro. O mistério fisiológico desta magreza ainda não era para se devassar de pronto...
D. Luis lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do Porto, e dava assim em alimento ao seu ódio contra as instituições liberais um dos frutos mais saborosos delas — a liberdade de imprensa ; — fruto em que os seus correligionários mordem com demasiada complacência, apesar de ser para eles fruto proibido.
De quando em quando D. Luis interrompia a leitura com uma frase de aprovação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida pelo Governo, que nunca tinha razão.
Frei Januário secundava, com toda a força do seu obscuro credo político, as reflexões de S. Ex.', e requintava na intensidade dos anatemas, com que eram fulminados os homens da época.
Mas, solta a frase que o caso pedia, e as competentes exclamações, voltava o padre a consultar o relógio, a abrir a boca, a suspirar ; dava dois ou três passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha. Os intervalos das refeições eram para ele séculos ! — Hum! —disse D. Luis naquela manhã, pousando a folha, como enojado com o que lera. — Lá foi concedido um subsídio para a construção do lanço de estrada de Vale Escuro.
— Fartos sejam eles de estradas ! — acudiu logo frei Januário.
— Para esta gente a moralidade e a ventura de um país consiste em ter estradas e diligências, e acabou-se. Olhem lá se eles levantam sequer uma igreja? Isso sim! O dinheiro do clero sabem eles roubar! E que pena não terão por não deitarem abaixo os templos que por aí ainda há ! Mas atrás do tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.
Não sei se foi esta última frase que recordou ao padre que também a ele não faltava vontade... de comer. O certo é que, mudando de tom, acrescentou : — Querem ver que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quase duas horas, e eu não oiço tugir nem mugir na coziriha! Nada, aqui anda coisa. com licença, eu vou ver e volto já.
E frei Januário saiu da sala para ir pela vigésima vez à cozinha, que ele suspeitava abandonada pela incúria do cozinheiro, estando pois a família tôda ameaçada com a tremenda catástrofe de uma retardação de jantar.
D. Luis pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até à volta do padre, que entrou indignado.
— Eu que dizia?! Posto à taramela com o hortelão, sem se lembrar do jantar ! Olhem se eu lá não ia ! Não que dizem que uma pessoa pode descansar nos criados. Há-de poder! São uma corja! E, V. Ex.ª não quer crer, aquele excomungado daquele hortelão há-de ser a ruína desta casa. Foi uma imprudência da parte do Sr. D. Luis meter na casa um libertino daqueles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito errado... Aquilo é um péssimo exemplo para os outros.
Sabe V. Ex.ª em que ele estava falando? Na cantiga do costume. No desembarque do Mindelo. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e quinhentos bravos que vieram pôr fora da cidade os oitenta mil lobos que andavam lá, e coisa assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão a queimar-se, e a sopa a pegar-se no fundo da panela, que logo me cheirou a esturro. É preciso que V. Ex.ª dê as providencias, quando não...
D. Luis, tomando menos a peito do que o capelão os destinos do jantar e da sopa, e fiel ao hábito de nunca falar, nem em mal, nem em Bem, do hortelão, não respondeu e prosseguiu a leitura das folhas.
Daí a pouco referiu ao padre a notícia que tinha lido do desastre sucedido a uma diligência ao passar em uma ponte, que na ocasião abatera, resultando muitas vítimas.
A indignação do padre exaltou-se.
— Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um abandono desses ! Vejam que tempos os nossos ! e que governos, que não se importam com as vidas dos cidadãos ! Em que país do mundo se vêem estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram os homens da Carta ! Isto é bonito ! E o padre Januário continuou ainda por algum tempo a condenar, pelo crime de desleixo e de falta de protecção à viação pública, os mesmos governos que, momentos antes, acusara de conceder para esse fim subsídios e de lhe dar importância demasiada.
A política de frei Januário é vulgar na nossa terra.
D. Luis, tendo concluído a leitura da folha, pô-la de lado e resumiu a série de pensamentos que essa leitura lhe sugerira, na seguinte e contraída síntese : — Isto vai cada vez melhor, frei Januário.
— Isto vai bonito, não tem dúvida nenhuma — secundou o padre.
— O pior é o futuro — tornou o fidalgo, assombrado.
— Ai, o futuro há-de ser fresco!-—repetiu o procurador, fungando uma pitada.
— Enfim, quem viver verá aonde isto vai parar, aonde nos leva esta torrente.
— E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos aí os Espanhóis, ou então passamos a ser ingleses. Não há que ver ; da maneira por que vão as coisas...
— Ai, pobre Portugal ! — exclamou melancólicamente D. Luis.
— Que vais à vela — concluiu o padre. — Desde que puseram a cabeça à roda a esta gente com liberalismos... ficou tudo transtornado.
Agora todos mandam, todos falam, e não há quem governe. Isto de não haver um que governe... Estes patetas não se desenganam de que um país é como uma casa. Ora deixem à vontade os criados em uma cozinha, sem ninguém que os vigie, e verão o que vai ! esperem por o jantar, que hão-de achar-se servidos! O simile fora sugerido a frei Januário pela sua constante preocupação.
— O que me custa é lembrar-me de que meus filhos têm de viver nesta sociedade assim organizada! Quem sabe a sorte que lhes está reservada, aos pobres rapazes ! — disse o fidalgo, suspirando com escuras apreensões sobre a posição precária da família.
— Os filhos de V. Ex.ª não devem transigir em caso algum com estes homens ! — exclamou com veemência o padre. — É não fazer como a sobrinha de V. Ex.", a Sr.* D. Gabriela, que já é baronesa das feitas por eles. Quando se é fidalgo, é preciso ser fidalgo.
— É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se em parte preparado por nós — insistia o fidalgo. — Também pecamos.
— Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que nasceram nessas casas se abaixem diante dos que nem sabem onde nasceram. Deixe V. Ex.» medrar quanto quiser o Tomé da Herdade, que no fim de tudo sempre há-de mostrar que andou descalço em criança e que foi levar a beber o gado desta casa. Há certas coisas que não dá o dinheiro.
— O Tomé da Herdade ! — repetiu D. Luis com amargura. — Esse é que prospera, os tempos estão para ele. Quem viu e quem vê aquilo ! — Então que quer ? Ainda mais havemos de ver. E então não sabe V. Ex.ª que o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de alguém? — A Berta? — Sim, a que é afilhada de V. Ex.ª. com que fim faz aquele toleirão uma coisa dessas ? Veja a parlapatice daquele homem. Não repara na posição falsa em que coloca a rapariga. Meteu-se-lhe talvez na cabeça que ainda a casava com algum fidalgo ! Pode ser. Veja V. Ex.a se ela serve para algum dos seus filhos.
D. Luis sorriu, encolhendo os ombros.
— Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é afinal o que ela tem de ser, das prendas e da educação que o pai lhe mandou dar? Não me dirá V. Ex.ª? — Todos hoje têm aspirações a subir — reflectiu D. Luis com ironia. — A maré sobe.
— Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolarias. Tudo isso vem da barulhada que estes liberalões fizeram na Sociedade. Tudo está remexido e ninguém se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje todos por lá têm excelência ! Nestes sediços comentários sobre o estado do século deixaram-se ficar os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as instituições modernas. O padre Januário, porém, não perdia com isto a idéia do jantar e, de quando em quando, voltava os olhos para o relógio, cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca à impaciência dos seus desejos. Enfim deu a hora e frei Januário ergueu-se instintivamente para ir ver se o jantar estava servido.
Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo. Vibravam pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca aqueles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e esplêndida corte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.
D. Luis entrou na sala do jantar, onde com impaciência o aguardava já o capelão.
Aquela grande sala vazia, aquela extensa mesa, apenas servida com quatro talheres, falava tanto do esplendor passado e da decadência presente, que poucos lugares havia na casa que deixassem no fidalgo mais melancólicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao sentar-se à cabeceira da mesa, em torno da qual outróra vira rostos conhecidos e amigos, hoje tão solitária e abandonada.
D. Luis, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou, apontando para os lugares dos filhos, que ainda estavam de vago : — Então os senhores não ouviram a sineta ? — Os senhores ainda não vieram.
— Nem Jorge ? — perguntou D. Luis, como se estranhasse menos a ausência de Maurício.
— Nem um, nem outro.
— O Sr. D. Maurício — observou o padre, que temia um adiamento ao jantar — saiu para a caça; quando virá ele agora? E, dizendo isto, fazia sinal ao criado para que servisse o fidalgo.
— E Jorge ? — insistiu o pai.
— O Sr. D. Jorge... esse não sei... talvez esteja aí por alguma parte.
O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausência dos filhos, que ainda mais aumentava a solidão daquela sala, resignou-se a principiar a jantar sem eles.
O jantar correu em silêncio.
O humor negro de um dos comensais e o apetite do outro não davam azo ao diálogo.
Estava o frade deliciando-se com uma farta posta de assado e o competente acessório de massas, quando Jorge entrou na sala.
D. Luis não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.
Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pai interrompeu com um gesto a mandá-lo sentar; e passados momentos, levantou-se ele e saiu silencioso.
Frei Januário, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes exigências do seu estômago, achou-se disposto a cor.tinrar o diálogo.
Por isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge : — com que vem do seu passeio, hem? A manhã estava bem bonita. E então o que viu por esses campos? — Muito trabalho, sr. frei Januário, muita vida rural — respondeu Jorge.
— Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por aí tudo azafamado.
— Mas porque é, sr. frei Januário, que nos campos da nossa casa não vejo o movimento dos outros? A imprevista interpelação do adolescente ia entalando o padre.
— Causou-me sensação isto hoje — prosseguiu Jorge. — Quem subir ao alto do outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o vale, pode marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo quase maninho, um muro a cair, umas paredes negras, um aspecto de cemitério, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.
— Não é tanto assim... É verdade que... meu rico filho, que quer? depois que os homens do liberalismo tornaram conta deste pais, as coisas mudaram. Quem não está por o que eles querem...
— Não vejo em que eles influam para isto, sr. frei Januário. Quem nos impede de fazer o que os outros fazem ? de cultivar os nossos campos? de pôr homens a trabalhar nessas terras incultas? — O que os outros fazem, diz ele! Os outros... os outros... e quem são os outros ? Uns miseráveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os cavalos e a cavar nos campos desta casa.
— Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou dessa posição humilde e os elevou àquela que hoje ocupam.
— Olhem que grande milagre ! Homens que não devem respeito a si mesmo, para quem todo o trabalho está bem, como não hão-de enriquecer ? Ora essa é muito boa ! — E os que devem respeito a si mesmo estão, pois, condenados à miséria? — Ã miséria... à miséria!... Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje! Foi febre que se lhe pegou? Se ela anda por aí tão acesa! O menino ainda é muito criança para pensar nestas coisas. Coma e beba e...
As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso e redarguiu com energia e irritação : — Não sou criança, frei Januário ; acredite que o não sou. Tenho niais de vinte anos e estou resolvido a ser homem. Coro na minha ociosidade, quando vejo que somente as nossas terras fazem vergonha à actividade deste povo. Tenho anos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda responsabilidade de ser na minha família talvez o primeiro a faltar um dia aos seus compromissos. É por isso que falei e que desejo que me responda, sr. frei Januário? — Ai menino, menino; isso não é s su! Ai anda doutrina liberal.
Eu cheiro-a a distância de léguas. Então quando o senhor seu pai me honra com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo ? — E quando hei-de aprender? Querem-me estúpido, como esses morgados que por ai se arruinam? — Mas que quer o Sr. Jorge, afinal? Então não sabe que desde que os lavradores se fizeram fidalgos ninguém luta com eles ? O dinheiro está de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a certa gente !
— O dinheiro está de lá ! Mas como conseguiram eles enriquecer? Pois não diz que eram uns miseráveis? — Ah ! então quer principiar como eles principiaram, cavando com uma enxada todo o dia e furtando à boca para juntar ao canto da caixa com o fim de comprar uns bois?, etc., etc. Veja se quer.
— Não principiávamos de tão longe como eles, escusávamos de tantos sacrifícios. Bastava que olhássemos com atenção para o muito que temos ainda, e que tentássemos desenredar, a pouco e pouco, esta meada que nos enleia e que nos há-de afogar a todos.
— Ora é boa ! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo há quase trinta e oito anos em que o Sr. D. Luis me distingue com a sua confiança? Mas a coisa não é tão fácil como lhe parece.
É boa! — Mas quais são os seus planos, padre Januário, qual ó o seu sistema de administração? — Os meus planos ? !... Ora essa !... Então que planos quer que sejam os meus? Sistema de administração!... isso é frase de cortes...
Hum! tenho entendido... É o que eu,digo... Ó Sr. Jorge, ora fale-me a verdade, aí andam idéias do liberalismo. com quem falou esta manhã ? ora diga.
— Venham de onde vierem as idéias. A origem pouco importa, a questão é que elas sejam boas. Eu não trato de liberais nem de absolutistas agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo caírem os muros e nunca se repararem ; vejo campos e campos sem a menor cultura ; encontro em tudo quanto nos pertence profundos sinais de decadência, e quero saber a grandeza do mal que nos oprime.
— E se for grande o mal, o que quer que se lhe faça ? — Quero que se trabalhe para remediá-lo ; que se façam sacrifícios úteis, que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver hoje ainda uma vida que não é destes tempos. Desenganemo- nos ; a época não é de privilégios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna útil pelo trabalho honrado.
— Jesus ! O que aí vai ! O que aí vai ! Eu bem o digo ! Há liberal na costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pai o ouvia ! — Há-de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo falar-lhe.
— Que vai fazer, Sr. Jorge ? — O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa família. Para que nos orgulhemos no nome que herdamos, é necessário que esse nome não tenha manchas e que nós não lhas lancemos.
— Mas quem lhe diz, quem lhe fala em manchas? Ora... ora...
ora... ora esta não está má! — Frei Januário, eu não sou criança, repito-o. Sê-lo-ia ontem, hoje não o sou já. Faça de conta que o sol desta manhã me amadureceu.